Continuação do texto anterior de Tony Rothman, uma das histórias do livro "Tudo é relativo" (Gradiva):Também tinha amigos. Do tipo certo. Estes incluíam Raffaello Magiotti, Evangelista Torricelli, Emmanuel Maignan, Athanasius Kircher, Niccolò Zucchi e, evidentemente, Gasparo Berti. Tratava-se da máfia romana. Algures entre 1639 e 1641 — as datas foram eliminadas —, Berti realizou uma experiência na sua casa de Roma. Os mafiosos Kircher, Magiotti e Zucchi estavam lá; Maignan não estava presente e o paradeiro de Torricelli é desconhecido. Existem quatro relatos da experiência, três elaborados pelas testemunhas oculares e um por Maignan, que foi informado dos acontecimentos por Berti, uma semana mais tarde. Os relatos diferem nos pormenores e as interpretações dos resultados chocam violentamente.De acordo com Maignan, «uma das mentes mais brilhantes do século XVII», a experiência estava montada aproximadamente da seguinte forma. Berti prendeu com um grampo um longo tubo de chumbo, pelo menos com «quarenta palmos» de altura, ao exterior da sua casa. O fundo do tubo, que terminava num barril de água, foi equipado com uma válvula. Por cima da extremidade superior estava selado um balão de vidro, o qual estava também equipado com uma torneira de passagem. Os autores da experiência fecharam a torneira de passagem inferior e depois, de uma janela de uma torre, encheram todo o tubo, incluindo o balão de vidro, através da válvula superior. A torneira de passagem superior foi fechada e a inferior foi aberta. Tensão. Suspense. O nível de água cai — mas não por completo.Os autores da experiência baixam uma sonda pelo tubo, para determinar a altura da água. Chegam os dados: dezoito cúbitos. Trata-se da altura a que Galileu afirma que uma bomba pode elevar a água. O nível de água mantém-se durante um dia. A experiência é repetida com algumas variações. Os dados são sólidos. Mas o que é o espaço por cima da água? Quando os filósofos abriram pela primeira vez a torneira de passagem superior, para baixar a sonda, ouviram um som muito alto, quando o ar se precipitou no interior. Ar a precipitar-se para o interior — é essa a perspectiva de Maignan. A queda do nível de água no tubo, portanto, deverá ter deixado um vazio. Os outros mafiosos não estão convencidos. Os plenistas argumentam que o ar penetrou pelos poros do chumbo ou do vidro para preencher o espaço deixado pela água em queda. Kircher, segundo parece, sugere colocar um pequeno sino na ampola de vidro e atrair o badalo para um lado com um íman. Se existir vazio no interior do balão, nenhum som será audível. Maignan objecta que o próprio vidro conduzirá o som e nenhum documento do Panóptico esclarece se a experiência chegou a ser realizada.Hoje a revelação teria conquistado um Prémio Nobel. Na altura as notícias eram mantidas dentro da família. Tratava-se de um grupo muito chegado, a julgar pelas cartas que trocavam, deleitando-se nas perspectivas da idade de ouro que se abria perante eles. Também poderiam arvorar dúvidas quanto à inquisição. É o vazio, sabe. Em 1648, alguns anos após a experiência de Berti, Raffaello Magiotti, que lá esteve, escreveu uma carta ao padre Mersenne, de Paris, mencionando que tinha falado a Torricelli do tubo de Berti e que «eles» tinham desde então realizado muitas demonstrações com mercúrio. Eles.A ligação do mercúrio. Torricelli, nascido a 15 de Outubro de 1608, tinha frequentado a Universidade de Roma e tornara-se um matemático de renome. Diz-se que era uma pessoa encantadora. No final de 1641 estava a trabalhar como assistente de Galileu, mas Galileu morreu três meses depois, sendo seguido pelo próprio Torricelli em 1647. Entretanto, o grão-duque Fernando II nomeou Torricelli filósofo e matemático em Florença, uma combinação de nomeações rara nos dias que correm. Permaneceu em Florença, publicando até à sua morte, que esperamos tenha ocorrido em melhores circunstâncias que a de Galileu.A ideia de usar mercúrio num dispositivo semelhante ao de Berti poderá ter vindo desse arqui-inimigo da pressão do ar, Galileu (talvez se tivesse arrependido). Numa cópia da edição original dos Discursos de Galileu, de 1638, aparece uma nota marginal escrita pela mão do seu assistente da altura, Vincenzio Viviani, «com a aprovação do próprio Galileu». A nota refere: «Acreditoque o mesmo resultado ocorrerá noutros líquidos, como o mercúrio, o vinho, o óleo, etc., nos quais a ruptura ocorrerá a uma altura inferior ou superior às 18 braças, de acordo com a maior ou menor gravidade específica [densidade] desses líquidos em relação à água.» Viviani é um grande amigo de Torricelli. Pois. Os acontecimentos tornam-se obscuros. O primeiro relato integral da famosa experiência de Torricelli, descrita por Asimov e Bolle com pormenores hiper-realistas, surge dezanove anos depois dos factos. Em 1663, um tal Calo Dati, discípulo de Torricelli, publicou sob pseudónimo cartas de Torricelli ao seu melhor amigo, Michelangelo Ricci, que também poderá ter estado presente na experiência de Berti. Essas cartas relatam as primeiras experiências com mercúrio, ou seja, o barómetro.A 11 de Junho de 1644, Ricci escreveu a Torricelli:«Sinto uma grande ânsia de conhecer o resultado dessas experiências que me indicaste.» Torricelli pôs no papel a sua famosa resposta no mesmo dia:Já te dei a entender que estavam a ser realizadas algumas experiências filosóficas relativas ao vazio, para produzir não apenas o vazio mas também um instrumento que poderia evidenciar as alterações do ar, ora mais pesado e grosseiro, ora mais leve e mais subtil. Muitos afirmaram que [o vazio] não pode ocorrer; outros dizem que ocorre, mas com a repugnância da natureza.A seguir Torricelli defende o seu próprio ponto de vista, segundo o qual a questão não é o vazio e este poder ser produzido. Depois a frase imortal: «Noiviviamo sommersi nel fondo d’un pelago d’aria elementare»:Vivemos no fundo de um oceano de ar elementar, o qual se sabe, por experiências incontestáveis, que tem peso, e tanto peso que a parte mais pesada, perto da superfície da Terra, pesa aproximadamente um 400 avos do peso da água.Depois diz: «Nós construímos muitos vasos de vidro [...] com aberturas de duas varas de comprimento.» Nós. Os tubos, fechados numa das extremidades, eram preenchidos com mercúrio, de modo que não restasse nenhum ar na extremidade encerrada, sendo depois invertidos numa bacia de mercúrio: conforme Asimov descreve, o mercúrio cai, mas não completamente. Torricelli compreende claramente que não é o vazio a exercer uma força insuficiente sobre o mercúrio:Afirmo [...] que a força provém do exterior. Sobre a superfície do líquido, na bacia, é pressionada uma altura de cinquenta milhas de ar; porém, que maravilha, se o mercúrio entra no [tubo de] vidro [...] ascende até ao ponto em que se encontra em equilíbrio com o peso do ar exterior que o empurra! A água, então [...] irá ascender a cerca de 18 varas, o que quer dizer que vai muito mais alto do que o mercúrio, dado que o mercúrio é muito mais pesado do que a água, a fim de entrar em equilíbrio com a mesma causa, que empurra um e a outra.Assim, temos uma compreensão absolutamente moderna da pressão do ar e da invenção do barómetro, que mede essa pressão. Uma compreensão mais moderna do que a expressão moderna indicaria: não chupamos o sumo pela palhinha; a pressão do ar é que o empurra para a nossa boca.Mas repare-se: «Nós construímos muitos vasos de vidro.» Nós. De acordo com Dati, que, como sabemos, foi o primeiro a relatar a experiência, dezanove anos após a ocorrência dos factos, Torricelli não a realizou. Previu o resultado, a Viviani, que arranjou o mercúrio, mandou construir o aparelho e verificou a previsão do seu amigo. Temos, assim, uma divisão familiar do trabalho: um teórico e o autor da experiência.E que dizer das actividades de Torricelli junto às docas, prendendo tubos de vidro preenchidos com água e vinho aos mastros dos grande navios? Parece tratar-se de uma confusão com Blaise Pascal, que levou a cabo essas demonstrações em 1647, para deleite do público francês — na fábrica de vidro de Rouen. Assim ficaram para sempre ligadas as três delícias sensuais: vinho, água e barómetros.Pascal, consta, escreveu ao seu cunhado, Florin Perier, sugerindo que levasse um barómetro pelo Puy-de-Dôme acima, para verificar se o peso do ar variava com a altitude. Descartes também reclama prioridade pela ideia, e na verdade a análise de textos indica que a carta de Pascal ao cunhado poderá ser forjada. Vá-se lá saber. A 19 de Setembro de 1648, Perier escalou realmente o vulcão. A altura do mercúrio no barómetro caiu. Já não havia qualquer dúvida: a pressão do ar variava com a altitude. O vazio foi abandonado, com horror. É verdade: vivemos no fundo de um oceano de ar elementar, do qual se sabe, por experiências incontestáveis, que tem peso.Na imagem: Evangelista Torricelli.
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A MAFIA INVENTA O BARÓMETRO 2
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A máfia inventa o barómetro 1
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Por amabilidade da editora publicamos um extracto do livro de Tony Rothman "Tudo é relativo" que acaba de sair na Gradiva. Outras histórias, tanto ou ainda mais interessante do que esta, encontram-se nos outros capítulos.Os compêndios contam metade: «Entre outras unidades [de pressão] de uso corrente encontram-se a atmosfera, o milímetro de mercúrio — ou torr — e o milibar.» Bolas. É uma maldição do maior calibre: foi promovido de pessoa a unidade e perdeu o nome. Truncado e posto em letra minúscula, a prova provada de que se desvaneceu no pano de fundo cultural, à semelhança da sua invenção, que se encontra pendurada sem qualquer fim nas paredes dos restaurantes de portos. Por vezes um autor lá deixa cair o seu nome completo. A referência é invariavelmente lacónica: «Um outro instrumento usado para medir a pressão é o barómetro comum, inventado por Evangelista Torricelli (1608-1647).» Pressão do ar, barómetro. Ah. Uma vez por outra, quando um autor perde a cabeça, Torricelli tremeluz momentaneamente em forma humana.Berte Bolle, na sua história do barómetro, diz corajosamente:Torricelli montou o tubo com mais de dez metros de comprimento na sua casa, com o topo a sair pelo telhado. Pôs um pequeno boneco de madeira a flutuar na água no topo do tubo; com mau tempo, a altura da coluna baixava de tal forma que o boneco já não podia ser visto da estrada, enquanto com o tempo bonito flutuava, alto e distinto, onde todos o podiam ver. Em breve correu o boato de que mestre Torricelli tinha um pacto com o Diabo e o barómetro de água foi rapidamente retirado! Estamos convencidos. Mas espere aí. No relato de Sheldon Glashow, Torricelli leva a cabo o seu trabalho herético precipitando-se numa correria ao longo do cais para gáudio dos espectadores. Os boatos, evidentemente — e a Inquisição — não o conseguiram impedir: «Torricelli enchia longos tubos, selados numa das extremidades, com líquidos como mel, vinho e água do mar, e amarrava-os com firmeza na posição vertical ao mastro dos navios. Constatou que a altura da coluna dependia apenas do peso total do líquido contido no seu interior.»Isaac Asimov, evitando o drama em favor do conhecimento, apresenta uma história completa para edificação dos seus leitores. O imortal Galileu, patrão de Torricelli, sugeriu ao seu assistente que investigasse o motivo pelo qual as bombas de água eram incapazes de elevar o líquido a mais de dez metros acima do seu nível natural. Isso é que eram bons tempos. A ciência chamava-se filosofia, Aristóteles imperava e a natureza tinha horror ao vazio. A posição de Galileu era puramente aristotélica: as bombas criam um vazio parcial acima da água e a água precipita-se para o preencher.O vazio suga. Evidentemente, porém, a capacidade de sugar do vazio tinha limites — cerca de dez metros. Asimov transmite os pensamentos de Torricelli:Ocorreu a Torricelli que a água era elevada não porque fosse puxada pelo vazio, mas porque era empurrada pela pressão normal do ar. Ao fim e ao cabo, o vazio na bomba produzia uma baixa pressão do ar e o ar normal no exterior da bomba empurrava com mais força.Em 1643, para pôr à prova essa teoria, Torricelli recorreu ao mercúrio. Dado que a densidade do mercúrio é 13,5 vezes superior à da água, o ar só o deveria elevar a 1/13,5 vezes a altura a que elevava a água, ou seja 76 cm. Torricelli encheu um tubo de vidro com 1,80 m de comprimento de mercúrio, tapou a extremidade aberta, colocou-o verticalmente numa taça de mercúrio, destapou-o e viu o mercúrio a sair pelo tubo, mas não na totalidade: 76 cm de mercúrio mantiveram-se, conforme seria de esperar.Um pormenor admirável. É como se estivéssemos ali com Torricelli. «Passa-me o mercúrio», diz ele. Totalmente inconciliável, então, com este comentário retirado do ciberespaço: «Em 1643, Torricelli propôs a sua experiência, que foi realizada pelo seu colega Viviani.»Um pormenor. Pois...A verdade é que ninguém tem bem a certeza do que se passou. Sabemos que eram ambos italianos e que eram amigos. Hoje formariam um grupo de investigação. Quando um grupo de investigação monopoliza uma área chamamos-lhe uma máfia. Na altura, tal como agora, o cientista mais antigo fica com os louros. Para compreender aquilo de que ninguém tem a certeza, regressamos ao despontar do século XVII. A contra-reforma na Europa está em curso, a inquisição está a aquecer, Galileu condescendentemente ignora a descoberta de Kepler de que as órbitas planetárias são elipses e não círculos. Newton ainda não nasceu. Em terra, a questão filosófica na ordem do dia é a possibilidade do vazio.Não é possível. A resposta é óbvia; vamos andando para o julgamento de bruxas de hoje. Essa é pelo menos a opinião universal corrente, já com 900 anos. Qualquer objecção terá de se confrontar com uma citação da autoridade suprema: Aristóteles. Aristóteles, na sua frase tantas vezes citada, declarou: «A natureza tem horror ao vazio» (o que quer que Aristóteles tenha declarado, declarou-o em grego antigo, mas esta é a tradução habitual e ele acreditava nisto). Aristóteles apresentou alguns argumentos contra o vazio, tanto físicos como lógicos. Primeiro é necessário compreender que no mundo de Aristóteles — e no mundo do século XVI — não existem átomos. A água é uma substância contínua.Dividir a água em pedaços cada vez mais pequenos conduz apenas a pedaços cada vez mais pequenos, até ao infinito. Não há motivo para supor que a divisão conduzirá a um estado composto por partículas últimas entre as quais não existe nada. Não, o universo está cheio; é um espaço pleno cheio de matéria (por oposição a um vazio). Mais do que isso, no mundo pré-Galileu não existe o conceito de inércia, a ideia de que, sem interferência, um objecto se desloca a uma velocidade constante. Pelo contrário, a velocidade de um objecto depende da resistência do meio no qual se desloca. Um vazio — o vácuo — não oferece resistência. Desse modo, a velocidade de um objecto que se deslocasse através do vazio seria infinita. É claramente um absurdo.Trata-se de argumentos físicos que Aristóteles levantou contra o vazio. O seu argumento lógico principal é que a posição de um objecto — o seu lugar — é sempre entendida enquadrada nos limites interiores de um corpo que o rodeia. Os não-filósofos designam-no por contentor. No entanto, o vazio não tem propriedades.De um objecto no seu seio não se pode dizer que se encontra em nenhum tipo de lugar. Nem se poderia dizer que um objecto se desloca no interior de um vazio (dado que não possui propriedades para distinguir os locais). Assim sendo, um objecto não pode ter um lugar a menos que se encontre no seio de alguma substância. O vazio é impossível, com base em argumentos lógicos.Se o vazio é impossível com base em argumentos lógicos, isso significa que Deus não o poderia produzir mesmo que quisesse. Essa questão perturbou os teólogos do século XIII. Por esse motivo, no século XVII as pessoas estavam dispostas a discutir a questão. Porém, a opinião dominante era que o vazio era pelo menos uma impossibilidade física, ainda que não fosse uma impossibilidade lógica.No Panóptico Contemporâneo de Conceitos Passados e Presentes, as exposições sobre vazio e pressão estão dispostas lado a lado. Por aqui, por favor. Da nossa perspectiva, é difícil ver como um conceito razoável de vazio poderia emergir sem um conceito razoável de pressão. Um discípulo anónimo do século XIII do filósofo Jean de Némore compreendeu que a pressão num líquido aumentava com a profundidade, mas a publicação do livro de Némore em que a discussão aparece foi atrasada três séculos. Isaac Beeckam (1588-1637) parece ter aceitado a ideia de um vazio e em 1614 escreveu no seu diário que o ar tem peso e exerce pressão sobre os corpos que se encontrem por baixo, pressão que aumenta com a profundidade do ar. Apesar destes faróis isolados de discernimento, não surgia um entendimento claro do conceito de pressão. O ar não tem peso.Dois anos antes de Beeckam compreender os aspectos essenciais do problema, Galileu, num acesso de rancor, exprimiu a sua sabedoria universal: «Ainda que então adicionemos uma quantidade muito grande de água por cima [do sólido], não iremos por esse motivo aumentar a pressão ou o peso das partes que cercam o referido sólido.» Um ano depois de Beeckam, em 1615, Galileu prosseguiu as suas negações: «É de notar que todo o ar em si mesmo e por cima da água não pesa nada [...]. E que ninguém fique surpreendido por o ar não pesar nada, pois é como a água.»Sobre este pano de fundo, Giovanni Batista Baliani (1582-1666), de Génova, escreveu a Galileu em 1630 para relatar os resultados de uma experiência. Tinha tentado transvasar com sifão a água de um reservatório sobre uma colina com cerca de 21 m de altura e o sifão não funcionou. O sifão, num procedimento conhecido dos ladrões de gasolina da actualidade, foi inicialmente preenchido com água e colocado sobre a colina. Mas quando o tubo foi destapado o nível de água do lado do reservatório voltou a cair para cerca de dez metros. Mistério? Não para Galileu. Condescendeu em responder a Baliani que a resposta era óbvia: a força do vazio elevava a água, mas estava limitada a dez metros. Baliani esteve mais perto da verdade: achava que o vazio era possível e que a água e o ar tinham peso.(continua)
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Universidade, Opiniões e Bom Senso
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“Uma boa linguagem é a própria essência do pensamento” (Charles Peirce, 1839-1914). Se as coisas fossem simples, a ponto de não haver “uma necessidade premente de mostrar a sua complexidade” (Marcel Proust), não seria obrigado a preocupar-me com simples opiniões que por aqui aparecem sob vestes sagradas em que cada palavra me obriga a procurar o seu significado lexical. Esta situação muito se agrava porque “tão pobres somos que as mesmas palavras servem para exprimir a mentira e a verdade”, na opinião de Florbela Espanca.Vem agora à baila o conceito de Universidade e seus objectivos. E cá me acho eu novamente a procurar referências num dicionário. Universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades e escolas destinadas a promover a formação profissional e científica de pessoal de nível superior, e a realizar pesquisa teórica e prática nas principais áreas do saber humanístico, tecnológico e artístico e a divulgação dos seus resultados à comunidade científica mais ampla”(“Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, tomo XVIII, p. 8.025).Num comentário ao meu post ,“Ainda a Polémica sobre o Historiador José Hermano Saraiva” (26/07/2010), são feitos o ataque e a defesa do papel da Universidade em Portugal. A sua defesa começa, começa bem, em minha opinião, pela crítica a raciocínios simplistas sem destaque para o balanço positivo do que de bom, ou mesmo de muito bom, tem sido feito pela universidade portuguesa, com reconhecimento em fronteiras exteriores “sobretudo na biotecnologia, genética e engenharia”.Balanço que me parece pecar em não anunciar outras áreas do conhecimento científico.Mas ataques à instituição universitária nada me espantam depois de, numa carta ao director, um leitor do “Diário de Coimbra” (1996), com uma licenciatura universitária, segundo ele próprio, se ter lamentado em não ter obtido a sua licenciatura numa escola superior de educação por os seus pares “terem deixado, lamentavelmente, morrer muito do bom que a Reforma do Sistema Educativo aportava”. Apesar de eu desconhecer a que "muito de bom", ele se refere, sublinho, apenas, a carga que o advérbio [lamentavelmente] trouxe ao texto, numa atitude de perverso orgulho de quem se passa para o lado de lá, e de que a história é pródiga em exemplos. Concordo que a Universidade não deve ser uma instituição do tipo napoleónico, anquilosada por ataques de artrite por imobilismo de adaptação ao seu tempo. Tempo, por vezes, convulsivo surgido, de supetão, logo sem a necessária reflexão, como o Processo de Bolonha, a confusão que se tem gerado entre graus académicos e a mediocratização do ensino superior que tem empurrado o ensino universitário para guetos de indignidade por alguns claustros universitários terem deixado de ser os guardiães da cultura humanística, do conhecimento científico e da investigação pura e aplicada. Confusão agravada pelo facto de não haver uma doutrina (e, pior do que isso, uma legislação que “não chumbasse na 4.ª classe”, para utilizar uma expressão do jurista Almeida Santos) sobre as fronteiras entre o ensino universitário e o ensino politécnico.Seja a que título for, o ensino universitário português não dever ser uma espécie de vaca sagrada dos hindus ao abrigo de críticas , como a de Maria Filomena Mónica, catedrática das Humanidades. Escreveu ela, sem papas na língua, como sói dizer-se: ”Devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo dos parlamentares e à cobardia dos docentes, a universidade degradou-se para além do razoável”.Idêntica preocupação demonstrou Aníbal Pinto dc Castro, catedrático jubilado de Letras da Universidade de Coimbra, quando exigiu numa cerimónia oficial: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados".A estas críticas não deverá ser estranha o fantasma de uma licenciatura, desvalorizada por universidades de vão de escada, que desacredita “ o prestígio da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante”, nas palavras de Adriano Moreira. Daí a tremenda injustiça de generalizações que desvirtuam o papel da Universidade portuguesa no campo da investigação onde ela se tem havido, a mor parte das vezes, com um brilhantismo que atravessa as fronteiras geográficas do país. Mas será isto o bastante para o orgulho de uma nação? Segundo Einstein, “é fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores”. Nesta perspectiva, a maior parte das vezes por cumprir, será que o simples diploma nos garante que a cultura e o conhecimento científico, quando os há, tragam juros compensatórios para a sociedade e para os seus bons costumes? Não garante! Gustave Le Bon nos diz que “grande número de políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guia na vida senão uma alma de bárbaros”. Este o drama social de tantos diplomas de pechisbeque que se passeiam nos boulevards da nossa vida politica, do nosso ensino ou do nosso próprio dia-a-dia. Mas, numa atitude maniqueísta, o que é altamente reprovável é a afirmar, como dogma, que a Universidade tudo vale, quando nos convém, e que nada vale, quando nos convém também. Razão tem a vox populi: “Não há bela sem senão!” Na imagem: Claustros da Universidade de Coimbra.
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Jantar de Final de Curso - Supervisão Pedagógica e Avaliação de Docentes
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Ontem, no Porto, momento alto de confraternização e inspiração no final da 2ª edição do curso sobre supervisão e avaliação. Uma palavra de agradecimento às organizadoras da iniciativa, e uma saudação particular a quem ofereceu tão simbólico presente. Bem hajam e até sempre.
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A LONGA MARCHA PARA O ESPAÇO
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Outro texto meu de há alguns anos sobre a aventura espacial, este extraído de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva):Segundo o historiador de ciência inglês Joseph Needham o foguete foi provavelmente (nestas coisas nunca pode haver certezas) a invenção mais importante da China e a sua contribuição tecnológica mais importante para a humanidade. Ele estaria talvez a pensar na possibilidade de um dia a humanidade poder deixar o seu “berço” e estabelecer-se noutros planetas ou mesmo em estações permanentes no espaço.Needham é uma das maiores autoridades mundiais sobre a ciência e a tecnologia da China. Nascido em 1900, deu aos 37 anos uma grande volta na sua carreira de embriologista formado por Cambridge. Tendo encontrado e feito amizade com estudantes chineses, entusiasmou-se pela história da civilização chinesa. Para isso aprendeu a língua chinesa clássica. E, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, foi nomeado Conselheiro Científico da Embaixada Britânica na China. Correu a China toda, reunindo informações e coleccionando, com a obsessão de um caçador de tesouros, muitos livros sobre a antiga ciência chinesa. Essa biblioteca constitui hoje em Cambridge a maior biblioteca sobre a história da ciência e da técnica chinesa fora da China, tendo justamente o nome do seu fundador. Depois da Guerra, Needham tornou-se subdirector geral da UNESCO para a área das Ciências Naturais, tendo sido ele o responsável pelo S da sigla entre o E e o C (originalmente, a UNESCO tinha a intenção de se dedicar apenas à ciência e à cultura, mas a ciência, de “Science” fica muitíssimo bem entre as duas). De volta à sua “alma mater” Needham começou a escrever um longo e erudito tratado intitulado “Science and Civilization in China”, que tem saído sob a chancela da Cambridge University Press em 25 volumes (já saíram 17 volumes; o projecto continua depois da morte do autor em 1995). É praticamente impossível a um leitor ler por completo essa verdadeira obra prima da história da ciência, mas há resumos, um dos quais bastante acessível e ilustrado (que tem a vantagem de ter sido não só sancionado como prefaciado pelo próprio Needham): Robert Temple, “The Genius of China: 3000 Years of Science, Discovery and Invention”, Prion, Londres, 1986.É lá que podemos encontrar uma breve história do foguete chinês. Ficamos a saber que o foguete nasceu na China em 1150 (no calendário cristão, largamente ignorado pelos chineses). Foi usado em fogos de artifício e na guerra. É significativo que o árabe Hasdan al-Rammah tenha chamado em 1280 aos foguetes “setas chinesas”. Os foguetes foram rapidamente importados pelos ocidentais, na esteira das viagens de Marco Pólo ao Extremo Oriente. Assim, em 1380 foram usados numa batalha no norte de Itália, entre genoveses e venezianos. Temple (quer dizer, Needham) assinala que se tratou de uma importação bastante rápida: escassos dois séculos. Outras invenções do Império do Meio chegaram ao Ocidente com maior atraso. Ao ler Temple, ficamos verdadeiramente impresionados e mesmo confundidos com o número e a qualidade das invenções chinesas: a bússola, a pólvora, o papel e, Gutenberg que não se sinta diminuído, até a imprensa! Para não falar já de descobertas científicas, como a da circulação do sangue, comandada pelo coração, que era conhecida dos chineses muito antes - dois mil anos antes - do britânico William Harvey a ter anunciado na Europa no início do século XVII.Pois a invenção do foguete durante aquilo que no Ocidente se convencionou chamar Idade Média foi o primeiro passo para a longa marcha da humanidade para o espaço. O desenvolvimento rápido dos foguetes só se dá no século XX, sendo ele indissociável do nome do engenheiro alemão Wernher von Braun, pai não só dos dos foguetes V2 que semearam o pavor em Londres durante a Guerra, mas também do foguetão Saturno V, que foi utilizado para as viagens norte-americanas à Lua. Um foguetão é, evidentemente, um foguete grande e não deixa de ser curioso que os chineses, que tanta ciência e tecnologia desenvolveram nos tempos antigos, tenham perdido o “comboio do progresso” nos tempos mais modernos. O assunto daria muito pano para mangas, mas fica a importante nota que a actual civilização, muito ligada ao Ocidente mas partilhada cada vez mais pela China, assenta numa base científico-tecnológica que teve origem no método científico. Foi um italiano de Florença, contemporâneo de Harvey, que a desenvolveu e pôs em prática: Galileu Galilei. O problema do atraso da China é que Galileu não foi chinês, uma vez que, a partir dele, a evolução científico-técnica acelerada do Ocidente foi o que se sabe e o que se vê. Aos chineses nunca faltou o engenho, terá faltado a curiosidade e o método para a prosseguir de maneira sistemática.Em 1998 assistiu-se ao que podemos chamar, sem qualquer carga pejorativa, a “vingança do chinês”. Um foguetão de concepção e fabrico chinês, denominado “Longa Marcha”, pôs em órbita terrestre o primeiro “taquinauta” (yuhangyuan) chinês. A palavra “taquinauta” tem a ver com o facto de os russos chamarem “cosmonauta” e os americanos “astronautas” aos seus viajantes do espaço: “taquinauta” significa “espaçonauta”, viajante no espaço. É claro que os chineses, que são agora mais claramente uma potência mundial no espaço, tinham de querer um nome próprio para os seus homens. A Europa continua “pendurada” nos norte-americanos e russos para as suas viagens espaciais tripuladas: por exemplo, a ex-ministra francesa para a Investigação Científica e as Novas Tecnologias, Claudie Aignerée, viajou na MIR e na Estação Espacial Internacional e o astronauta espanhol Pedro Duque partiu, a bordo de uma nave russa, para a Estação Espacial Internacional, onde realizou várias experiências científicas e didácticas. Mas não há um nome europeu para viajantes do espaço... O primeiro “taquinauta” chama-se Yang Liwei e faz parte de um grupo de “eleitos” que foram intensivamente treinados. A cápsula Shen Zhou-5 (“Nave Divina”, os nomes chineses são curiosos!) tripulada por esse digno sucessor do russo Yuri Gagarine e do norte-americano Alan Shapard regressou à Terra no dia 15 de Outubro, caindo em segurança nas planícies da Mongólia Interior depois de algumas voltas bem sucedidas ao nosso planeta. Foi um pequeno passo para ele, mas um grande passo para a China e, uma vez que os chineses são uma parte enorme da humanidade, para a humanidade.Os aplausos foram unânimes. Norte-americanos, russos e europeus felicitaram os chineses pela proeza, que para a China constitui um marco do seu avanço científico-técnico. Esse aplauso geral significa que já não há utilização do espaço para efeitos de “guerra fria”, como aconteceu durante anos. Os norte-americanos, um pouco combalidos do desastre da “Columbia”, sabem bem o valor dos chineses, sabem bem por exemplo o que têm beneficiado com a presença de muitos e bons estudantes chineses nas suas universidades e institutos de investigação. A China de hoje é uma China que soube recuperar, usando o método científico e a tecnologia que lhe está a jusante (na antiga China a tecnologia estava a montante da ciência), do seu atraso.Houve inegavelmente um aproveitamente político do voo espacial tripulado de Yang Liwei. O nome “Longa Marcha” do foguetão utilizado é sintomático ao evocar a herança maoísta. Na verdade, os chineses sempre cultivaram algum nacionalismo e não seria agora que iriam desdenhar a oportunidade de aumentar a auto-estima nacional. Há boas razões para isso uma vez que desenvolveram ciências e tecnologias próprias e fizeram um investimento enorme no seu programa espacial. O Instituto sobre História da Civilização Chinesa que Needham nos legou em Cambridge terá um dia de incorporar nas suas publicações a história deste feito chinês. Mas o importante é que a “longa marcha” para o espaço, que a humanidade começou a empreender a partir do primeiro foguete chinês, seja um empreendimento onde não caibam nacionalismos doentios nem rivalidades mesquinhas e inúteis. Deve ser um projecto de toda a humanidade!Na foto: Yang Liwei, o primeiro "taquinauta".
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July 28 2010, 6:03pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A ORIGEM
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Já está nos cinemas o último filme de Christopher Nolan, protagonizado por Leonardo DiCaprio, que é, ao mesmo tempo, ficção científica e thriller psicológico. Em cima um dos trailers, em formato gigante.
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July 28 2010, 5:54pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Escolas em avaliação externa em 2010-2011
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Norte: 40Centro: 37Lisboa: 59Alentejo: 10Algarve: 4Total: 150Na página da IGE (www.ige.min-edu.pt), está disponível informação sobre a avaliação externa. Segundo a IGE, para 2010-2011, poderá haver ligeiras alterações nos procedimentos e, eventualmente, nos documentos adoptados, mas a estrutura do modelo manter-se-á (informação solicitada à escola, cinco domínios de avaliação organizados em factores, escala de classificação, constituição das equipas de avaliadores, centralidade das entrevistas em painel e estrutura dos relatórios de escola).Tempo de preparação e de transformar a avaliação no que ela deveria ser, em primeira e essencial instância: um processo de compreensão, transformação e melhoria.
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July 28 2010, 11:58am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Cantigas de Amigo
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Transcrevo o artigo publicado no “Jornal de Letras”, n.º 1.039, p. 17, da autoria de Eugénio Lisboa, intitulado “Cantigas de Amigo”:“O homem que viaja em busca de um amigo, percorre o caminho possível” (Ali-Ibn-Abi-Tali)."Na madrugada do dia 27 de Agosto de 2007, está agora a fazer três anos, faleceu, num hospital londrino, o poeta Alberto de Lacerda que, cinquenta e seis anos antes, para ali fora viver, ido de Lisboa, onde estivera sediado cinco anos, oriundo de Moçambique. Exílio se chamou, muito apropriadamente, um dos seus belos livros de poesia. Foi encontrado por um amigo inglês, caído no corredor do seu minúsculo e atravancado apartamento, em Battersea, frente ao parque com o mesmo nome, em coma, e rodeado de livros, jornais, papeis, discos, quadros, objectos, apagando-se, em suma, como sempre quisera viver: no meio das suas “coisas”, tão preciosas quão desarrumadas.No testamento, deixou tudo o que tinha – e não era pouco - a Luís Amorim de Sousa, seu amigo de longa data: tinham-se conhecido em meados de 1959, quando este se transferiu de Lourenço Marques para a capital britânica. O gesto – entregar todo um espólio valiosíssimo, material e culturalmente falando, ao que, jovem, o fora, em 1959, procurar em Londres, pela única razão de que, ainda em Lourenço Marques, a leitura dos "77Poems" o tinha deslumbrado – correspondia a um acto de confiança, gratidão, justiça e amizade. Uma amizade, a vários títulos – e nos dois sentidos – única.Já alguém disse que as velhas amizades se improvisam. Eu creio, antes, que se constroem, com lentidão, atenção, minúcia, devoção e continuada paciência. Mas, como esta, com esta dimensão e duração, não se constroem muitas vezes. De resto, basta lançar um breve olhar ao “manual de construção” que é o belo poema “Bellini e Pablo Também” , com que LAS quis “fechar” o seu livro acabado de publicar, "Às Sete no Sa Tortuga – um retrato de Alberto de Lacerda (2010)", para se ter uma vívida noção dos píncaros a que pode ascender o conceito de amizade. O poema, aliás, dera já o título a um belo livro de poesia que LAS não há muito publicou: servir de título a um livro e de fecho comovido às memórias de uma amizade sublinha bem o valor emotivo e simbólico que o autor lhe atribui – ao poema e ao que ele celebra.Este livro singular vem à luz, simultaneamente com dois outros:" O Pajem Formidável dos Indícios (poemas inéditos de Alberto de Lacerda)" e "The Sea that Lies Beyond My Rocks – Alberto de Lacerda in London and the U.S.", um roteiro de amizades literárias internacionais, que LAS concebeu, escreveu e montou – um tesouro informativo - e sendo os três livros dados como parte da Colecção Alberto de Lacerda, dirigida pelo mesmo LAS, e em processo de construção. Ainda em Moçambique, LAS obtivera, de um velho professor do Liceu uma opinião sucinta e forte acerca de Lacerda: “Um homem singularíssimo.” Ao encontrá-lo, em Londres, irá confirmar, apreciativamente, o diagnóstico. Repositório riquíssimo e colorido, nele se refere, por exemplo, “o olhar vertiginoso” do grande poeta e genial conversador", ou se nos informa que “nada escapava ao seu olhar minucioso.” De encontro em encontro, de “parco jantar” em “parco jantar”, LAS foi descobrindo, com evidente fascínio, as vigorosas singularidades do poeta, os seus caprichos reveladores e também a sua amada “circunstância”, isto é, a cidade de Londres. Porque, bicho essencialmente urbano – “Sou pouco dado à contemplação hortícola” - , da Inglaterra, foi sobretudo Londres que lhe habitou o imaginário. Lacerda conhecia Londres como ninguém (o apartamento de onde Eliot tinha saído à surrelfa, para se ir casar e ser feliz com a Valerie, e coisas miudinhas, neste gosto): em suma, uma Londres muito sua. “Viajar por Londres na companhia do Alberto”, diz-nos o autor destas memórias, “era como entrar na gruta de Aladino. Só que de vaguear tinha, simultaneamente, tudo e nada. Qualquer simples imprevisto o podia facilmente fazer mudar de direcção ou levá-lo a procurar outros destinos.”Londres será o seu grande amor urbano, a que dará impressionante voz, entre outros, num poema de 5 de Julho de 1963: “Exactamente em Chelsea / Exactamente em Londres / Exactamente / No centro / Da Liberdade.” “Os locais favoritos do Alberto”, nota LAS, saboreadamente, “situavam-se principalmente em Chelsea e no West End. Mas não só. [...] Em Camden Town, por exemplo, apontou-me a casa onde se acolheram Rimbaud e Verlaine, que, para sua irritação, não se encontrava sequer assinalada.”Lacerda era um homem frequentemente revoltado, ou indignado, mas não sofria do “humor melancólico” que afecta tanto lusíada, de D. Duarte para cá. Gostava da vida, do seu esplendor, e gostava igualmente da arte, que fruía com farto e saudável apetite. LAS cita uma das crónicas que Alberto fez para a BBC, na qual, celebrando o pintor Hockney, se auto-retrata sem vergonha: “Hockney dá-me uma impressão de plenitude, de felicidade, de realização.” Lacerda, mesmo nos momentos mais duros de falta de dinheiro (“umas contas infernais a pagar”) e perante uma perspectiva profissional pouco auspiciosa, arranja maneira de achar que tem andado a ter muita sorte: Londres, os bons amigos, a música, a arte que frui com gosto inapagado, o reconhecimento internacional que a sua poesia, apesar de tudo, vai tendo... É certo que vai ruminando um catálogo de “horrores” (a televisão, os telemóveis, os computadores e até os automóveis _ “gabava-se”, diz o seu biógrafo, com alguma ironia, “de nunca ter sucumbido à tentação de ter um televisor”) e, contra eles, arremete com sanha igual à que D. Quixote punha no seu assalto aos moinhos. Nenhum “horror”, porém, lhe empanava o gosto de viver. A vida, mesmo madrasta, mesmo revestindo um arrastado estatuto de perpétuo estudante pelintra, foi-lhe, de certo modo, um gozado festim. Isto denuncia-se até no léxico que privilegiava: LAS sublinha, com pontaria certeira, as palavras que o Alberto patrocinava: “prodígio”, “assombro”, “espanto” e, sobretudo, “maravilha” Eu juntaria o adjectivo “óóóóptimo!” (com exclamação), que ele pronunciava com uma duração interminável e um meio sorriso cúmplice.No centro de tudo isto, ficava a poesia, e a sua poesia. O Pajem Formidável, agora editado, não envergonha o melhor que o poeta produziu e tanto impressionou alguns dos seus pares, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em França, no Brasil , etc. Rosanna Warren, sua colega na Universidade de Boston, afirma que os poemas de AL são “uma maravilhosa combinação de le grand chant e de claridade modernista.” A certo poema chama-lhe “uma peça verdadeiramente majestosa”, J. M. Cohen, crítico do Spectator, em carta a AL, refere-se à sua poesia “tão pura, tão despida de maneirismos.” Jorge Guillén acha-a “cada vez mais concentrada e essencial”.Tudo isto e muito mais se encontra nos três livros, que são uma dádiva. LAS chamou ao seu poema “Bellini e Pablo Também” cantiga de amigo e ofereceu-o a Lacerda pelos seus 70 anos. Cantigas de Amigo são também estes livros, que se devem, não pouco, ao generoso apoio da Fundação Mário Soares, que acolheu o espólio e lhe tem estado a dar eficiente e carinhoso tratamento. Saudação especial a Alfredo Caldeira. Do seu trabalho, diria o Alberto que é um prodígio, um assombro, um espanto, uma maravilha! Na imagem: retrato a óleo de Alberto de Lacerda.
July 28 2010, 8:37am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... uc.pt
Estudantes do 86º Curso de Férias de Língua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra recebem diplomas, no dia 30 de Julho
http://www.uc.pt/tomenota/2010/20100728
Para mais informações: http://www.uc.pt/fluc/noticias/entrega_diplomas
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July 28 2010, 5:13am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Flight Of The Conchords
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/flight-of-conchords.html
Mais humor musical: uma interessante reflexão dos Flight Of The Conchords sobre bem estar elefante e robótica.
July 28 2010, 3:06am | Comments »




