outras leituras - tagged with fisica http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/feed en-us http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss Sweetcron joaojosemarques@gmail.com TESTE DE FÍSICA?! http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/10320/teste-de-fisica

O Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação não pára de nos espantar. Agora resolveram, num teste intermédio do 11.º ano de Física e Química A, repito do 11.º ano, fazer uma transcrição de um texto de um livro meu, com apenas quatro linhas e adaptado (adaptado? faz algum sentido?), pedindo para "transcrever" (sic) uma informação trivial que está no texto. Pede-se apenas uma transcrição de uma transcrição. Já só falta assinar o nome para ser aprovado.Não posso por isso deixar de concordar em absoluto com o comentário de Carlos Portela, responsável da Divisão Técnica de Educação da Sociedade Portuguesa de Física sobre aquela prova:"A questão 1 do Grupo I na qual o aluno deve transcrever a parte de um texto, de apenas 4 linhas, que refere o que Oersted observou, não é admissível neste ano de escolaridade. Esta questão pode ser respondida por um aluno do 2º ciclo do ensino básico que nunca tenha estudado o assunto abordado, não permitindo avaliar se o aluno consegue distinguir entre observação e interpretação (...)Conclui-se que este teste intermédio dá indicações erradas aos alunos sobre as suas aprendizagens e não os estimula ao esforço que é necessário para que sejam atingidos os objectivos de aprendizagem da disciplina. Constitui-se, desse modo, como um elemento que perturba o trabalho desenvolvido pelos professores na escolas, já que desincentiva a criação de hábitos de trabalho dos alunos para que possam ser atingidos os objectivos da disciplina ao dar a ideia de que é possível atingir resultados positivos sem que seja necessário investir no estudo."Para que o leitor julgue por si próprio, deixo o excerto da prova:"GRUPO IDurante algum tempo o magnetismo e a electricidade ignoraram-se mutuamente. Foi só no início do século XIX que um dinamarquês, Hans Christian Oersted, reparou que uma agulha magnética sofria um desvio quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de um íman. Existia pois uma relação entre electricidade e magnetismo.C. Fiolhais, Física Divertida, Gradiva, 1991 (adaptado)1. Transcreva a parte do texto que refere o que Oersted observou."

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Tue, 15 Feb 2011 10:04:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/10320/teste-de-fisica
NOVA GAZETA DE FÍSICA http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9313/nova-gazeta-de-fisica

Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Física:Já se encontra publicado on-line em http://www.gazetadefisica.spf.pt o último número da Gazeta de Física.Trata-se de um número duplo dedicado a aplicações da Física à biologia e à medicina, com seis artigos sobre problemas diferentes, e progressos interessantes, nesta área tão decisiva na contribuição da física para a sociedade.A Gazeta traz ainda muitas notícias sobre acontecimentos do ano findo.Em particular,- um artigo sobre o Prémio Nobel da Física, de Nuno Peres e João Lopes dos Santos, autores que conhecem bem os laureados de 2010 e a física do grafeno.- a notícia por Jim Al-Khalili da apresentação do novo livro de S. Hawking, "The Grand Design", no Royal Albert Hall em Londres.-o artigo de Carlos Fiolhais sobre "the portuguese connection" com a Royal Society em Londres, ligada a nomes como Isaac Newton."Last but not the least", a Gazeta regista o sucesso da participação portuguesa na XV Olimpíada Ibero-americana de Física, onde João Carlos Peralta Moreira da Escola Secundária Domingos Sequeira de Leiria foi premiado com uma medalha de ouro.Desejamos a todos boas leituras.Teresa PeñaDirectora Editorial da Gazeta de Física

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Tue, 25 Jan 2011 11:12:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9313/nova-gazeta-de-fisica
As Luzes de Rutherford http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9042/as-luzes-de-rutherford

Nas vésperas do ano em que comemoram cem anos da descoberta do núcleo atómico, obra do físico Ernest Rutherford, deixo aqui um excerto de uma peça que um músico contemporâneo com formação em física - o britânico Edward Cowie - compôs em sua homenagem: "Rutherford Lights".

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Thu, 30 Dec 2010 10:29:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9042/as-luzes-de-rutherford
Nem à bala! http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9014/nem-a-bala

A equipa de Vítor Cardoso trabalha sobre física de buracos negros. Um tema muito interessante. Agora preparam-se para publicar resultados relevantes, descritos aqui. OS resultados obtidos pelos Portugueses contrariam os recentemente publicados por Ted Jacobson e Thomas Sotiriou.:-)

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Mon, 27 Dec 2010 07:00:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/9014/nem-a-bala
HUMOR: O impossível é banal e até mesmo aborrecido segundo a física teórica actual http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8968/humor-o-impossivel-e-banal-e-ate-mesmo-aborrecido-segundo-a-fisica-teorica-actual

A minha terceira participação no Canal Q:

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Mon, 20 Dec 2010 06:31:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8968/humor-o-impossivel-e-banal-e-ate-mesmo-aborrecido-segundo-a-fisica-teorica-actual
António Gião, apontamento biográfico http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8943/antonio-giao-apontamento-biografico

Post recebido do historiador António Mota de Aguiar:António Gião foi um importante cientista português do século XX. Fez o liceu em Évora e, antes de emigrar para França, frequentou durante dois anos a Universidade de Coimbra. Nascido a 1906 em Reguengos de Monsaraz, faleceu em Lisboa em 1969. Infelizmente, teve uma vida relativamente curta: tivesse ele vivido mais alguns anos e talvez tivesse tido a possibilidade de divulgar mais e melhor divulgar o seu trabalho, permitindo-nos conhecer hoje melhor a sua obra científica.A sua obra científica foi assaz relevante, uma vez que foi “desde os anos 40 e até à sua morte nos finais de 60 a figura central da Relatividade e da Cosmologia em Portugal”. Isso é tanto mais importante quanto António Gião nasceu num país de parca tradição científica e numa região pobre de Portugal, como era o Alentejo no início do século XX.Emigrou para França e, em 1927, com 21 anos, obteve em Estrasburgo o diploma de Engenheiro Geofísico. A partir daí, e até à sua morte, Gião teve um percurso profissional e científico de renome internacional: trabalhou nas Universidades de Bergen, Florença, Génova e Dublin, no Real Instituto Meteorológico da Bélgica, no Instituto Nacional Meteorológico de Paris e no Instituto Poincaré, também de Paris.Em 1960 foi nomeado Professor Catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa, tendo na década de 60 sido director científico do hoje extinto Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência.Ao longo da sua carreira de investigador, Gião deixou-nos numerosos trabalhos, em particular na área da Física Matemática, apresentou numerosas comunicações à Academia das Ciências de Paris, deu lições e conferências em várias universidades europeias tendo escrito mais de cem trabalhos de investigação, na sua maioria publicados em jornais científicos europeus e norte-americanos.António Gião foi também um amante da música e, como “um cientista apaixonado pela poesia”, deixou-nos muitos poemas, que serão aqui recordados em próxima ocasião. O cientista, poeta e humanista é um dos nossos grandes valores da nossa ciência do século XX. Não o devemos esquecer.António Mota de Aguiar

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Thu, 16 Dec 2010 18:25:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8943/antonio-giao-apontamento-biografico
A BIOLOGIA COMO PASSADO E FUTURO DA FÍSICA http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8930/a-biologia-como-passado-e-futuro-da-fisica

Texto, ligeiramente editado, do meu livro "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva), que se encontra esgotado:Fala-se hoje muito das extraodinárias proezas da biologia moderna: por exemplo, a clonagem de seres vivos, que já foi feita em mamíferos e que poderá ser feita em seres humanos; e, outro exemplo, a decifração do genoma de seres vivos, que já foi feita de forma completa para alguns animais, incluindo os humanos. Decerto que o que hoje se faz e discute é apenas uma pálida imagem do “admirável mundo novo” que está para vir. Muito do que ainda não se fez será provavelmente feito. Curar doenças hoje incuráveis, reparar órgãos deficientes, prolongar a vida humana para além dos actuais limites são possibilidades hoje em aberto que, mais cedo ou mais tarde, serão concretizadas. Ao mesmo tempo, algumas consequências de uma intervenção artificial nos processos, até agora apenas naturais, da evolução biológica levantam sérias dúvidas, decerto fundadas e legítimas, sobre as fronteiras não do possível, mas do permissível. Será o anunciado mundo novo um sonho ou um pesadelo? Não sabemos, talvez uma mistura dos dois, restando apenas saber em que proporções. Como disse o físico Niels Bohr “As previsões são sempre difíceis, mas são-no principalmente quando se referem ao futuro.”O nosso actual conhecimento do mundo da biologia, assim como a panóplia de possibilidades técnicas que com base nele se entreabrem, baseia-se no conhecimento do mundo físico-químico. Hoje sabemos que os átomos de que os seres vivos são feitos obedecem às mesmas leis físicas que quaisquer outros átomos: trata-se das leis da mecânica quântica, o capítulo da física que ficou concluído em finais dos anos vinte do século passado por um grupo de jovens (Heisenberg, Schroedinger, Dirac, etc.) depois do impulso inicial dado pelo “patriarca” Niels Bohr. Os seres vivos são feitos de células, que, por sua vez, são feitas de moléculas que, por sua vez, são feitos de átomos. Uma mão cheia de átomos diferentes chega para formar toda a matéria viva; no entanto, eles combinam-se em moléculas de uma maneira muito complexa, por vezes quase inextrincável. A vida assenta na simplicidade das leis físicas, mas a sua extraordinária riqueza reside na diversidade das formas e funções que essas leis permitem. A mais famosa das moléculas da vida é precisamente o ácido desoxiribonucleico (na sigla portuguesa, ADN), a molécula em dupla hélice que contém o código genético – isto é, o “arquivo” do funcionamento da vida – que, para muitas espécies, foi já decomposto nos seus numerosíssimos elementos. O ADN foi descoberto em 1953 pelo físico Francis Crick e pelo biólogo James Watson, um feito que lhes valeu em 1962 o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia e que se encontra relatado em primeira mão no livro “A Dupla Hélice” de James Watson, um verdadeiro clássico da divulgação científica que entre nós foi publicado pela Gradiva.Francis Crick era um físico, adestrado nas técnicas da física, como a difracção por raios X, que serviram para descobrir a estrutura do ADN. Por seu lado, James Watson não era físico, mas conta no seu livro “A Passion for DNA: Genes, Genome and Society” (Cold Spring Press, 2000) como um livro de um físico – designadamente o austríaco Erwin Schroedinger, co-fundador da mecânica quântica - lhe mudou a vida. Aluno de licenciatura na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, o jovem Watson interessava-se por pássaros, quando, no livro de Schroedinger “O que é a Vida?” (existe uma edição portuguesa da Fragmentos, 1989) leu que o segredo da vida era o gene. Pois se o segredo da vida era o gene, Watson não hesitou em trocar os pássaros pelos genes. De excelente mas ignorado ornitologista passou a ser um dos mais célebres, talvez mesmo o mais célebre geneticista. No livro de Schroedinger, que influenciou não só Watson mas toda uma geração de biólogos, não se forneciam ainda soluções completas para a questão enunciada do título, mas apontavam-se pistas certeiras. Eram referidos, por exemplo, os trabalhos sobre os genes do físico Max Delbrueck, discípulo de Bohr que trocou uma promissora carreira de físico por uma ainda mais promissora carreira de biólogo molecular. Não é um facto muito conhecido, mas a biologia molecular é, de facto, obra dos físicos. Bohr encorajou alguns dos seus mais brilhantes discípulos a trocarem a física pela biologia, uma vez que a primeira estaria “completa” com o estabelecimento da teoria quântica e a segunda estaria “por completar” precisamente por via dessa mesma teoria. Os grandes mestres distinguem-se, além do mais, por sugerirem caminhos de futuro para os seus alunos, a partir de em previsões sagazes! Que os grandes mestres também se enganam é confirmado pela defesa que Bohr fez, a certa altura da sua vida, de que seriam necessárias novas leis para a biologia, complementares das leis da física: não são, a biologia está de certo modo toda contida nas equações fundamentais da física.E o futuro, se é que sobre ele são permitidas previsões? Se a biologia molecular foi obra de físicos esclarecidos, poderá a biologia do futuro ser também obra de físicos? Hoje os biólogos são bastante mais que os físicos (basta ver o espaço que os seus artigos ocupam nas revistas científicas mais importantes, como a Nature e a Science). Os alunos de Biologia também são bastante mais (e, em média, melhores) do que os alunos de Física. Os dinheiros investidos na investigação biológica são bem mais do que os dinheiros investidos na pesquisa física. Finalmente, os perigos potenciais de utilizações desumanas dos conhecimentos da Biologia são bem maiores, se é que se podem quantificar, do que os perigos do mesmo tipo baseados directamente na Física. Assim como a Física foi a ciência de ponta do século XX, a Biologia poderá bem ser a ciência de fronteira do século XXI. Mas continuarão os físicos a ser precisos?Sim: não só serão precisos como serão indispensáveis. Trabalharão cada vez mais em cooperação com os biólogos, sendo na actividade conjunta de certo modo espúria a distinção entre as disciplinas. A biofísica é tanto biologia como física, sendo hoje um domínio de ponta de uma e de outra. A biologia moderna não é a continuação da física com outros meios, mas é a continuação da física com os mesmos meios, os mesmos instrumentos, o mesmo estilo de pensar. O ADN foi identificado, nos anos 50, usando técnicas físicas de raios X. Os segredos genéticos contidos no ADN estão a ser decifrados usando métodos que são mais da física e da informática do que propriamente da biologia clássica. Os princípios, subjacentes à busca do código genético, de simplicidade e elegância (em doses que bastem) são princípios apreendidos na física.Watson, que foi director do Projecto do Genoma Humano (o projecto público para a decifração dos genes humanos, que esteve em competição com o projecto privado, dirigido por Craig Venter) conhece bem a importância dos princípios da física e do seu braço armado que é formado pela electrónica, pelos computadores e pelo software. O jovem Watson leu no livrinho de Schroedinger este passo:“Até que ponto a física e a química poderão explicar, no espaço e no tempo, os fenómenos que ocorrem dentro dos limites espaciais de um organismo vivo? (...) A manifesta incapacidade da Física e da Química actuais [em 1943, quando o austríaco Schoedinger, fugido ao nazismo, proferia as suas conferências públicas no Trinity College, na cidade irlandesa de Dublin] para explicar estes fenómenos não implica, de modo nenhum, que se possa pôr em dúvida que esses fenómenos sejam demonstráveis por ambas as ciências.”Leu, acreditou e porfiou para o conseguir. Mas há ainda muito por fazer...Schroedinger previu correctamente o futuro da física e da biologia. E o jovem Watson, depois de ter lido o livro de divulgação de Schroedinger, dedicou-se a concretizar essa previsão. Hoje, há jovens estudantes, não interessa se de física ou de biologia, a ler com entusiasmo A Dupla Hélice ou os livros mais recentes de Watson sobre o genoma humano...

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Wed, 15 Dec 2010 17:16:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8930/a-biologia-como-passado-e-futuro-da-fisica
PREFÁCIO A “AOS OMBROS DE GIGANTES” http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8729/prefacio-a-aos-ombros-de-gigantes

MeupPrefácio ao livro "Aos Ombros de Gigantes" (Texto Editores, textos clássicos da ciência escolhidos e comentados por Stephen Hawking), que já se encontra nas livrarias:Foi o grande físico inglês Isaac Newton o autor do título deste livro. De facto, foi ele quem um dia afirmou:“Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes”.Os gigantes a que Newton se referia eram o italiano Galileu Galilei e o alemão Johannes Kepler, que foram contemporâneos um do outro e que pertenceram à geração anterior à de Newton (este nasce no ano em que Galileu morre). Por sua vez, Galileu e Kepler estiveram aos ombros de um outro gigante, um pouco anterior, o monge polaco Nicolau Copérnico, que desafiou a longa tradição geocêntrica ao afirmar que a Terra se movia em torno do Sol.Quer Galileu quer Kepler, enfrentando uma enorme incompreensão à sua volta, defenderam o sistema de Copérnico. Os dois foram observadores dos céus: Galileu construiu e usou a primeira luneta astronómica, e Kepler, com base em sistemáticas observações dos planetas realizadas a olho nu, formulou as três leis que hoje têm o seu nome, dos movimentos planetários.Portanto, a obra de Newton nunca teria sido possível sem Copérnico, Galileu e Kepler. O sábio inglês viu mais longe aos ombros dele: encontrou uma mecânica que engloba as descrições anteriores dos movimentos na Terra realizadas por Galileu (a primeira lei de Newton não é mais do que o princípio da inércia de Galileu, segundo o qual os corpos permanecem parados ou em movimento uniforme se não forem actuados por forças exteriores); mais ainda, essa mecânica descrevia tanto os fenómenos da Terra como os do céu (tanto a maçã sobre a cabeça de Newton como a Lua que ele via ao longe!); e, finalmente, com base nas leis de Kepler, Newton alcançou a lei de gravitação universal, segundo a qual todos os corpos, tanto na Terra como nos céus, se atraem uns aos outros, obedecendo a uma fórmula matemática. Para um homem só, ainda que aos ombros de outros três, é obra!Foi longa a espera – mais de duzentos anos - até surgir um outro gigante que conseguiu subir aos ombros de Newton. O seu nome foi Albert Einstein e celebrámos no ano de 2005, declarado pela Organização das Nações Unidas “Ano Mundial da Física”, o centenário dos seus principais trabalhos. Havia, de facto, alguns problemas com a mecânica de Newton (e dos seus antecessores, a respectiva paternidade deve ser partilhada), nomeadamente a sua compatibilidade com o electromagnetismo, a parte da Física que estuda os fenómenos eléctricos e magnéticos e que tinha, entretanto, sido muito desenvolvida. Einstein, movido pela ideia da unidade conceptual da Física, viu-se obrigado a mudar a antiga mecânica, substituindo-a pela mecânica relativista. Na nova mecânica, nomeadamente na teoria da relatividade restrita, o espaço e o tempo deixavam de ser conceitos absolutos e independentes um do outro, existindo um espaço-tempo para cada observador. Mas Einstein fez essa substituição de um modo subtil: a mecânica antiga continuava, afinal, perfeitamente válida para os fenómenos que decorriam a baixas velocidades, as velocidades a que estamos habituados nas nossas vidas. Por outro lado, ao reparar com algumas dificuldades da teoria newtoniana da gravitação, nomeadamente o facto de a interacção gravítica ter lugar a velocidade infinita, Einstein propôs uma nova teoria da gravitação, a teoria da relatividade geral, uma teoria física muito bela segundo a qual o espaço-tempo se encurvava na vizinhança de uma massa, encurvando-se tanto mais quanto maior for a massa. A força da gravitação era a manifestação visível desse encurvamento geométrico. Mais uma vez, a antiga fórmula da força gravítica de Newton valia no caso em que as massas que encurvavam o espaço-tempo à sua volta eram suficientemente pequenas, mas deixava de valer no caso de estrelas supermassiças. O que era novo não mudava completamente o que era velho, antes o mantinha num limite bem preciso.E é assim que a física – o empreendimento humano da descoberta do mundo – avança... Uns vêem mais do que os outros, mas, ao fazê-lo, prestam homenagem aos outros, que viram o mundo antes deles, mantendo aquilo que for de manter. A pirâmide dos físicos não está certamente acabada: um dia alguém subirá certamente para os ombros de Einstein e verá mais longe do que ele, acrescentando algo a Einstein sem destruir a parte essencial do que ele propôs. Um dos problemas atacados por Einstein, ao longo de décadas da sua vida, foi a tentativa de unificação da força gravítica com a força electromagnética, nomeadamente procurando dar à força electromagnética uma interpretação geométrica semelhante à do caso gravítico. Esse grande problema da unificação das forças permanece hoje em dia por resolver: ele espera um outro Einstein, que poderá surgir a qualquer altura.Mas o novo Einstein terá de ter lido este livro. A obra que o leitor tem em mãos – compilado por um astrofísico muito conhecido que trabalha nas fronteiras da moderna física, o inglês Stephen Hawking – reúne os textos fundamentais de todos os autores que foram atrás referidos: de Nicolau Copérnico, o texto de “Sobre as Revoluções dos Corpos Celestes”, de Galileu, os seus “Diálogos sobre os Duas Novas Ciências”, de Kepler, as suas “Harmonias do Mundo”, de Newton os seus “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” e, finalmente, de Einstein o conjunto dos seus artigos mais importantes sobre as suas teorias da relatividade restrita e geral. Hawking escreveu resenhas biográficas daqueles famosos autores. Se a Fundação Gulbenkian já nos tinha dado a tradução do livro de Copérnico, feita a partir do latim original, e a tradução dos textos fundamentais de Einstein, feita a partir do alemão original, não podemos deixar de agradecer à Texto Editores o facto de publicar pela primeira vez em português de Portugal os referidos textos de Galileu, Kepler e Newton. Salvo erro ou omissão é até a primeira vez que Kepler aparece na língua portuguesa, o que se afigura tanto mais interessante quanto Kepler era um admirador confesso dos feitos dos navegadores portugueses, tendo até redigido os seus trabalhos como uma narrativa de avanços e recuos na sua elaboração, tal como os cronistas de bordo faziam para descrever as aventuras marítimas.Nesta tradução, feita a partir da versão brasileira, mais do que ser absolutamente fiel aos originais procurámos tornar os textos minimamente inteligíveis pelo leitor de hoje que se interesse pelos conteúdos.Este é um grande livro a todos os títulos. É grande não apenas no tamanho, mas é grande por reunir num só volume as maiores ideias dos maiores génios que a humanidade jamais teve! Este volume condensa aquilo que o homem foi sabendo a respeito do mundo físico à sua volta durante cerca de quinhentos anos. O último meio milénio proporcionou um avanço enorme à Física, um avanço conseguido por gigantes intelectuais. Resta-nos sonhar com o próximo meio milénio: é certo que a pirâmide humana vai continuar a subir...

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Sun, 28 Nov 2010 07:36:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8729/prefacio-a-aos-ombros-de-gigantes
INTERVALO CRESCENTE http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8714/intervalo-crescente

Crónica escrita a partir do poema "Máquina do Mundo", de António Gedeão (in Máquina de Fogo, 1961), e elaborada para o Exploratório Infante D. Henrique, Centro de Ciência Viva de Coimbra, no âmbito da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a decorrer entre 22 e 28 de Novembro de 2010.[α,∞)?Que intervalo de tempo e de espaço, de matéria e de energia, é esse Universo em que a nossa vida pontua? Em que singularidade se originou? Quando é que foi t = 0? Há cerca de 13,7 biliões de anos, quando todo o Universo, conhecido e desconhecido, estava reunido num único ponto infinitesimamente compacto, imensurável, adimensional!? Foi Georges Lemaître, padre e cientista, o primeiro a propor, em 1927, um início assim para o Universo. Sem dimensões de tempo nem de espaço, uma singularidade. Chamou-lhe a “hipótese do átomo primevo” e baseava-se em assumpções decorrentes da teoria da relatividade geral de Einstein. Anos mais tarde, em 1949, Fred Hoyle haveria de baptizar, ainda que pelo ridículo, esse momento com a designação “Big Bang”. O modelo do “Big Bang” não descreve a singularidade, mas sim o que aconteceu imediatamente a seguir a ela e que acabou por nos dar origem. Segundo a teoria mais corrente do “Big Bang”e a teoria da inflação, a partir da singularidade, esse nada absoluto grávido de tudo, o universo expandiu-se, súbita e incontrolavelmente e, em cerca de 0,0000000000000000000000000000001 segundos, emergiram as forças da gravidade, do electromagnetismo, as forças nucleares fortes e fracas. Sob acção destas forças, uma revoada de partículas elementares, fotões, electrões, protões, neutrões, resultantes de outras fundamentais como os quarks, polvilharam o nada em todas as direcções, num número de partículas de cada tipo na ordem de 1 seguido de 89 zeros!Em 1929, Hedwin Hubble observou que a distância aparente de galáxias distantes era tanto maior quanto maior fosse o desvio para o vermelho dos seus espectros luminosos observáveis. E, espantosamente, verificou que quanto mais distantes se encontravam maior era a velocidade a que se afastavam da nossa posição aparente.Constatamos que as galáxias mais longínquas se afastam umas das outras a velocidades tanto maiores quanto mais longe estiverem de nós. Afastam-se de quê? Da singularidade inicial. Vão para onde? Para o nada infinito no tempo, finito num intervalo de espaço em expansão! Até onde podemos ver, e ver permite-nos calcular distâncias no espaço e no tempo, através dos actuais radiotelescópios, a fronteira do Universo visível encontra-se algures a 145 biliões de triliões de quilómetros (14 000 milhões de anos-luz) de distância aparente! Universo visível? …O espanto esmaga-nos com o peso do Universo que não é visível, “preenchido” por matéria dita negra e que corresponde a 85% de toda a matéria do Universo. Viajamos num mar de escuridão que não emite radiação electromagnética! E por isso esse oceano cósmico é indetectável pelos nossos olhos, adaptados que estão a sentir uma pequena fresta, um intervalo suficiente do espectro da luz solar. E que vazio? Incomensurável! Num átomo de hidrogénio, o combustível das estrelas e o elemento mais abundante do Universo, 99,9999% é vazio! O seu núcleo, constituído por um único protão, ocupa apenas 0,00001% do volume de todo o átomo. O resto é nada e uma certa probabilidade de encontramos um electrão, num determinado estado quântico. E é pelo balanço delicado entre repulsão e atracção electrostática entre nuvens electrónicas e núcleos atómicos, “coreografias” magnéticas e tudo o mais que se expressa nos princípios colombianos, quânticos e de exclusão, que as indiscerníveis partículas fundamentais dos átomos interagem, dando-nos esta sensação de matéria, quando apertamos as mãos. E, paradoxalmente, é esse intervalo cheio de vazio que permite interacções entre átomos diferentes, gerando compostos que arquitectam a vida tal qual a conhecemos. Somos então um intervalo vazio semeado de partículas e energia, cerzidos no tear sempre crescente de tempo e de espaço.E neste intervalo assim crescente, somos o resultado de uma singularidade de gente.António Piedade

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Fri, 26 Nov 2010 10:08:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8714/intervalo-crescente
A Galileu http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8701/a-galileu

Crónica a partir do "Poema Para Galileu”, de António Gedeão, in Linhas de Força, 1967, e elaborada para o Exploratório Infante D. Henrique, Centro de Ciência Viva de Coimbra, no âmbito da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a decorrer entre 22 e 28 de Novembro de 2010.Limpe os olhos da luz do dia e, ao entardecer, projecte o olhar para o horizonte, contemple a abóbada celeste. Nesta semana, o leitor pode observar a face visível da Lua totalmente iluminada pela luz solar. Mesmo à vista desarmada de lentes de ampliar, conseguirá notar certas sombras, nuances de crateras no mar prateado do único satélite natural da Terra. Também pode facilmente identificar o planeta Júpiter, a “estrela da tarde” em serviço por estes dias e que se destaca brilhante ao lado da Lua terrestre. Se observar com atenção, verá que esse astro se move no horizonte no sentido retrógrado, isto é, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Se o seu relógio for digital, não se preocupe: verifique se a estrela da tarde descreve um arco no firmamento da direita para a esquerda. Comprova?Há pouco mais de 400 anos, em Março de 1610, Galileu Galilei fez as primeiras observações científicas dos astros utilizando um telescópio, instrumento por ele melhorado. A sua luneta, permitia-lhe aumentar o tamanho aparente de um objecto até cerca de 30 vezes. Por isso, terá sido o primeiro ser humano a contemplar com admiração, as crateras lunares com um detalhe que deixou desenhado nas suas ilustrações, registos científicos das suas observações. Também na aurora do século XVII, e ao observar o planeta Júpiter, Galileu descobriu, para seu grande espanto, que outros corpos celestes orbitavam ao redor desse planeta gigante: Júpiter também tem Luas, só suas! Esse momento, que o leitor pode imaginar e reviver hoje ao contemplar a “estrela da tarde”, é um marco da história da ciência e logo da humanidade. O facto de corpos celestes rodarem à volta de outros corpos celestes que não a Terra, fez ruir concepções anteriores, baseadas na primeira aparência das coisas. Com a simples atitude de registar o que observava, Galileu reuniu dados suficientes para corroborar um determinado modelo mais aproximado do comportamento do Universo então observável: o modelo heliocêntrico proposto antes por Copérnico.As observações sistemáticas dos corpos celestes, efectuadas sucessivamente por diversas gerações de cientistas, adicionaram novos dados e conhecimentos às observações e registos precedentes, o que permitiu elaborar teorias sobre o universo distante, mas também válidas à nossa escala mais humilde e humana. Por exemplo, é pela mesma interacção gravítica que faz com que os astros se movam uns à volta dos outros, que uma qualquer maçã, golden ou bravo de esmolfe, tanto faz, é atraída e atrai o chão. O leitor, quer experimentar, se faz favor? Ponha de lado os preconceitos e, por sua vez, experimente deixar cair da mesma altura e ao mesmo tempo duas moedas diferentes: uma de um cêntimo e outra de um euro. Está assim a repetir uma outra experiência, a dos graves, que Galileu Galilei terá feito no cimo de uma torre e com outros objectos. Se o leitor quiser estar mais alto, suba, com cuidado, para cima de uma cadeira e repita a experiência. Os dois objectos não voltam a chegar ao chão ao mesmo tempo? Pois é. Mesmo que repita vezes sem conta até se cansar, verá que o resultado é sempre o mesmo. E se não fosse?Saberá porventura o leitor que esta experiência também foi realizada na Lua, que agora observa em fase cheia, por astronautas da missão Apolo 15, em 1971: o comandante David Scott deixou cair da mesma altura e ao mesmo tempo, uma pena de ave e um martelo. E não é que também caíram ao mesmo tempo no chão lunar! Como teria gostado Galileu de ter observado, através da sua luneta, a réplica da sua experiência na Lua…O facto é que a mesma experiência, feita por pessoas e em locais e épocas diferentes, tem dado sistematicamente o mesmo resultado. O conhecimento que resulta desta atitude experimental é, assim, reprodutível nas mesmas condições e isto é uma das características do conhecimento que resulta do método científico.Deixe cair o cansaço rotineiro e descanse o olhar no céu estrelado. Deixe o tempo estender-se no espaço, até ao infinito e deslumbre-se com a aparente serenidade da astronómica noite semeada de miríades de constelações de estrelas. Seja humano. Sonhe. Ponha questões e experimente.António Piedade

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Thu, 25 Nov 2010 13:41:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8701/a-galileu
85% de matéria... http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8661/85-de-materia

Crónica publicada no "O Despertar"A maior parte do Universo cósmico que conhecemos, ou melhor, que mal conhecemos, não é visível! 85% da matéria que se calcula existir no Universo não se comporta como o Sol, por exemplo, irradiando radiações electromagnéticas. Essa matéria tem composição desconhecida. Pressupõe-se, hipoteticamente, que seja constituída por partículas fundamentais que, por ora, são virtuais, sendo principais candidatos as WIMP (partículas massivas que interagem fracamente) e as MACHO (objecto com halo compacto e grande massa) e, eventualmente, o Bosão de Higgs. Refira-se que a matéria negra do Universo também não reflecte qualquer tipo de radiação electromagnética: nem na zona do espectro visível, nem ondas de rádio, nem microondas. Nada. Só sabemos que existe pela sua acção gravitacional sobre a restante matéria, estrelas e outros astros e aglomerados deles, em que nos incluímos.Experiências recentemente efectuadas no Grande Acelerador de Hadrões do CERN, o maior acelerador de partículas do mundo, e comentadas pelo Físico Teórico Gianfranco Bertone (ver aqui o seu livro sobre as partículas da matéria negra) no último número da prestigiada revista Nature (aqui), indicam que estamos na antecâmara da descoberta sobre a constituição desta matéria negra. Na esquina de uma próxima colisão de partículas, poderá estar o nascimento de uma renovada compreensão do Universo, ruptura e emergência de novos paradigmas, comprovação e eliminação das inúmeras hipóteses e teorias que hoje gravitam no humano pensamento.Vivemos hoje, nesta era das tecnologias da informação, esta sensação de estarmos sentados na plateia do mundo, expectantes, a observar, quase em directo, o resultado de experiências que podem mudar o entendimento da matéria e da energia que somos feitos. Vivemos, nesta era feita de ciência e tecnologia, um momento único de argúcia cósmica e sub-atómica, numa amálgama de rigor, de espanto e de emoção. É também esta a nossa humanidade.António Piedade

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Tue, 23 Nov 2010 06:44:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8661/85-de-materia
CIÊNCIA NO BENFICA TV http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8655/ciencia-no-benfica-tv

Hoje, entre as 11 h e as 12 h, no canal de cabo Benfica TV, o físico Armando Vieira, autor de um artigo publicado na "Physics Teacher" sobre a física do pontapé, fala sobre ciência e futebol.

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Tue, 23 Nov 2010 03:20:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8655/ciencia-no-benfica-tv
MATÉRIA NEGRA http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8640/materia-negra

Habitual destaque semanal para a coluna "What's New" do físico Robert Park:"WIMPS: THE UNIVERSE WE CAN’T SEE.When they were building the Large Hadron Collider it seemed to be all about finding the Higgs boson. But there seems to be increasing interest in using the LHC to to learn something about the 85% of the universe we can't see. We know it's there because it has gravity, but that's about all it has. The betting is that it's a particle, and the leading candidate is the WIMP (weakly interacting massive particle). Gianfranco Bertone in yesterday's issue of Nature predicts that if there is such a ghostl particle it will be exposed by LHC in the next few years."Robert Park

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Sun, 21 Nov 2010 19:20:00 -0700 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8640/materia-negra
“A Photographia atravez dos corpos opacos” http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8170/a-photographia-atravez-dos-corpos-opacos

António Piedade escreveu este apontamento para o "Ciência Hoje":Os últimos 150 anos foram marcados por importantes descobertas científicas que mudaram paradigmas e o dia-a-dia da sociedade em que vivemos. Contrastando com essa mudança, pode afirmar-se que, de um modo geral, a imprensa portuguesa sempre tratou com indiferença, expresso em particular na falta de rigor, o avanço da ciência produzida quer aquém, quer além fronteiras, assim como os cientistas que o protagonizaram.Exemplo disso é o silêncio jornalístico ao redor da visita de Albert Einstein a Lisboa, a 11 de Março de 1915: nem uma única linha foi escrita pela imprensa portuguesa, e só sabemos dela através de notas do seu diário.À procura de eventuais e raríssimas excepções, encontra-se uma e logo muito interessante, que está documentada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (aqui) e que é contextualizada no livro “Breve História da Ciência em Portugal”, de Carlos Fiolhais e Décio Martins, publicado este ano pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pela Gradiva.Na primeira página do jornal O Século de 1 de Março de 1896, foi publicado um artigo extenso sob o título “A Photographia atravez dos corpos opacos” (reproduzida num artigo de Décio Martins na página do Instituto Camões l). Nele, noticiavam-se os resultados da aplicação médica de raios X, obtidos pela primeira vez em Portugal e na Universidade de Coimbra, em Fevereiro de 1896, pelo físico Henrique Teixeira Bastos.Esta notícia e o seu conteúdo são espantosos pelo facto de os raios X só terem sido descobertos por Roentgen, três meses antes, a 8 de Novembro de 1895, em Wuerzburg, na Baviera, Alemanha. Isto significa não só que Teixeira Bastos e os seus pares portugueses estavam em contacto atento e na vanguarda do conhecimento da estrutura da matéria e das radiações electromagnéticas, mas também que existiam, no então Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, as condições necessárias para a reprodução e validação experimental das últimas descobertas científicas. Sabe-se que esta actualidade científica deve muito aos contactos e viagens internacionais mantidas pelo físico António dos Santos Viegas, também professor em Coimbra (durante mais de 50 anos).A notícia n' O Século implica ainda existir nessa época uma profícua colaboração interdisciplinar entre a Faculdade de Filosofia (que então albergava ciências como a Física) e a Faculdade de Medicina. De facto, essa relação de partilha de conhecimento resultou numa rápida aplicação médica das descobertas sobre a estrutura atómica que foi materializada com a criação em 1901, curiosamente o ano em que Roentgen recebe o primeiro prémio Nobel da Física (aqui), do Gabinete de Radioscopia e Radiografia no Hospital da Universidade de Coimbra.Alguns dos instrumentos utilizados nas experiências então noticiadas podem ser vistos na exposição permanente do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra bem assim como no recentemente reaberto Gabinete de Física do século XVIII (aqui), pertencente ao mesmo Museu.Legenda da fotografia: “Mão direita de um rapaz que sofre de tuberculose óssea”.António Piedade

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Thu, 14 Oct 2010 11:24:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8170/a-photographia-atravez-dos-corpos-opacos
UM NOBEL PARA O GRAFENO http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8080/um-nobel-para-o-grafeno

Minha crónica de hoje no jornal "Sol" (na imagem Geim e Novoselov):Andre Geim, o físico holandês nascido na Rússia e a trabalhar no Reino Unido, na Universidade de Manchester, que foi distinguido na passada terça-feira com o Prémio Nobel da Física, é um físico divertido. Ele tinha sido galardoado no ano 2000 com o Prémio IgNobel da Física, uma divertida paródia que homenageia alguns dos trabalhos científicos mais insólitos. O trabalho que lhe valeu o IgNobel foi nada mais nada menos do que a levitação de um pequeno sapo com a ajuda de um campo magnético…Mas o prémio que agora ganhou, além de bem mais avultado, é bastante mais sério. Promete também ter um impacto maior na sociedade. Geim, em conjunto com Konstantin Novoselov, também ele nascido na Rússia e que com ele partilhou os louros do Nobel, conseguiu isolar uma só folha de grafite, a forma normal de carbono, a forma que se encontra nos lápis comuns.É raro a Academia de Estocolmo conceder o seu prémio tão rapidamente: passaram só seis anos sobre a descoberta anunciada num artigo da revista Science. E é também raro concedê-lo a investigadores não só em plena actividade como também em pico de forma: Geim tem 51 anos e Novoselov apenas 36 (desde 1973 que não havia um Nobel da Física tão novo). Mas a proeza conseguida pelos dois físicos experimentais é reconhecida pelos seus pares como digna dos maiores encómios: de uma maneira engenhosa, servindo-se de vulgar fita-cola, e ao fim de várias tentativas, separaram uma só folha das muitas folhas paralelas que constituem a grafite (a grafite é assim uma espécie de “mil folhas”). Produziram assim um material extremamente fino – a espessura é muito menor do que a de um cabelo pois tem o tamanho de um só átomo de carbono – mas eventualmente extenso. Essa folha foi chamada grafeno.Que interesse tem esse material a duas dimensões? Por um lado, o estudo teórico da passagem da corrente eléctrica no grafeno revelou propriedades surpreendentes. Por outro lado, as pesquisas no laboratório perseguem o sonho do uso do novo material para construir novas componentes electrónicas, por exemplo transístores para computadores. Não é ainda para hoje, mas pode ser para amanhã. Entre os físicos que têm estudado o grafeno encontram-se nomes portugueses, Nuno Peres, João Lopes dos Santos e Eduardo Castro, da Universidades do Minho o primeiro e da Universidade do Porto os dois segundos, cujos trabalhos em conjunto com os laureados Nobel deste ano são referidos na informação científica da Academia sueca que acompanha o comunicado do prémio. Um desses artigos com marca nacional e que justamente tem sido muito citado nas revistas internacionais da especialidade é o estudo de duas folhas próximas de grafeno. Na semana do Prémio Nobel da Física, também esses físicos lusos estão de parabéns!

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Thu, 07 Oct 2010 18:48:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8080/um-nobel-para-o-grafeno
O prémio IgNobel http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8063/o-premio-ignobel

Quando estava em Nijmegen, na Holanda, Andre Geim (que é cidadão holandês), um dos Nobel da Física deste ano, efectuou, com a ajuda de poderosos magnetes, trabalhos de levitação vegetal e animal (tomates e sapos). Em cima um filme sobre esse fenómeno. Um artigo, em conjunto com Michael Berry (outro continuado candidato a Nobel, que tem trabalhado no que alguns chamam a "capa da visibilidade", valeu-lhe o Prémio IgNobel, um prémio dado anualmente à ciência mais divertida, que ele foi receber em 2000 à Universidade de Harvard.

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Tue, 05 Oct 2010 17:21:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8063/o-premio-ignobel
Ainda o grafeno http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8062/ainda-o-grafeno

Para os mais curiosos, um artigo de revisão sobre grafenos da autoria do Nuno Peres foi publicado recentemente no "Europhysics News", o boletim da Sociedade Europeia de Física (em cujo comité editorial estive durante alguns anos, actualmente está a Teresa Peña): aqui (clicar no pdf à direita, pois o artigo está em livre acesso). Lá estão nas referências os trabalhos seminais dos Nobel deste ano e alguns artigos deNuno Peres com eles, incluindo um recente artigo de revisão, já com muitas citações, na Review of Modern Physics.Com alguma premonição escrevi numa crónica na Gazeta de Física republicada neste blogue: "Ou muito me engano ou o grafeno, isto é, as folhas isoladas da grafite, ainda poderá dar um Prémio Nobel." Desculpem a imodéstia: Não me enganei nada!Para confirmar a capacidade de antecipação do De Rerum Natura, vejam aqui o que escrevemos em 10 de Outubro de 2008 a propósito de uma palestra de Nuno Peres sobre o assunto:"Geim e Novoselov, que realizaram trabalhos recentes sobre o grafeno, isto é, uma folha monocamada de grafite, eram fortes candidatos ao último Nobel da Física, segundo o ISI Thomson; não foi desta, mas poderá ser para a próxima".Não foi em 2009, foi em 2010.

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Tue, 05 Oct 2010 16:30:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8062/ainda-o-grafeno
Físicos portugueses têm trabalhado com os Nobel da Física deste ano http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8061/fisicos-portugueses-tem-trabalhado-com-os-nobel-da-fisica-deste-ano

Com a devida vénia transcrevo, com correcção de pequenas gralhas, notícia do "Jornal de Notícias", que se serve de declarações que fiz hoje à Agência Lusa sobre o trabalho de físicos portugueses sobre o grafeno, que em parte resultou de colaboração com os laureados Nobel. Hoje, o Nuno Peres (à esquerda), o João Lopes dos Santos (à direita) e o Eduardo Castro (que ganhou neste ano o Prémio Bragança Gil da Sociedade Portuguesa de Física para a melhor tese de doutoramento em Física) estão também de parabéns!"Três físicos portugueses João Lopes dos Santos, Nuno Peres e Eduardo Castro publicaram trabalhos científicos com os investigadores de origem russa André Geim e Konstantin Novoselov, galardoados hoje, terça-feira, com o prémio Nobel da Física.Os trabalhos feitos em conjunto pelos três físicos portugueses e por André Geim e Konstantin Novoselov estão referidos num comunicado da academia sueca sobre o prémio.Os dois galardoados foram responsáveis pela descoberta do grafeno, a forma bidimensional do carbono, com a espessura de apenas um átomo, no Centro de Nanotecnologia da Universidade de Manchester, no final de 2004.O físico da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais congratulou-se com a entrega do prémio aos dois investigadores, algo que considerou "não ser muito normal no Nobel" dado que a descoberta é muito recente e salientou os trabalhos que ambos fizeram com investigadores portugueses."É fantástico para o nosso país haver portugueses a fazerem trabalhos com físicos reconhecidos e isso ser referenciado no comunicado da Academia", disse à agência Lusa.Em 2007 foi publicado um artigo na revista Physical Review Letters elaborado por Novoselov, Geim e pelos três físicos portugueses.No ano seguinte a revista Science publicou outro artigo da autoria de Greim e Novoselov e que contou com a participação de Nuno Peres, da Universidade do Minho.Carlos Fiolhais explicou à Lusa de que se trata esta descoberta agora premiada a partir do elemento de carbono, um elemento muito comum que existe sobre várias formas como a grafite (lápis) ou o diamante."Os dois investigadores isolaram uma única folha de grafite (grafeno), que tem apenas a grossura de um átomo de carbono" explicou.O investigador adiantou que a descoberta foi feita "por tentativa e erro" e que foi conseguida quando utilizaram "fita-cola"."Colaram fita-cola na grafite, fizeram-no várias vezes e conseguiram diminuir a espessura da parte que arrancaram", acrescentou. Quanto à aplicação prática desta descoberta, Carlos Fiolhais referiu as possíveis aplicações na electrónica, para fazer transístores."Ainda é cedo, mas há a promessa de se poder fazer transístores mais pequenos, electrónica mais leve, a utilizar nos computadores porque o grafeno é um material bom condutor, extremamente leve e fino", explicou.Há a hipótese, segundo Carlos Fiolhais, de o carbono poder suceder ao silício nos transístores."

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Tue, 05 Oct 2010 13:01:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8061/fisicos-portugueses-tem-trabalhado-com-os-nobel-da-fisica-deste-ano
Sobre o Prémio Nobel da Física de 2010 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8059/sobre-o-premio-nobel-da-fisica-de-2010

Parte das declarações que fiz à Antena 1:Mundo - Descoberta do grafeno vale Nobel da Física para André Geim e Konstantin Novoselov - RTP Noticias, Áudio

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Tue, 05 Oct 2010 12:57:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/8059/sobre-o-premio-nobel-da-fisica-de-2010
O MAGNETISMO DA TERRA http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/7876/o-magnetismo-da-terra

Texto que entrou no meu livro "Física Divertida":Gabriel Garcia Marquez conta em "Cem anos de solidão" a chegada dos ciganos terra de Macondo. Entre os vários truques de mágica que os ciganos mostram, encontram-se o gelo e o íman. Hoje sabe-se que o fenómeno da congelação da água e da passagem de um metal a magnete são exemplos de transições de fase, da passagem de um estado desordenado a um estado ordenado da matéria. Enquanto tal facto não foi conhecido, esses materiais fizeram os espantos tanto das feiras da Idade Média europeia como da fantástica América. Escreve Marquez:"Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o íman. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa arrastando dois ligotes metálicos e todo a gente se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam desencravar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades". Os gelos e os ímanes são tão antigos como o planeta Terra. Os gelos cobrem, desde há muito, as regiões polares da Terra, enquanto os ímanes se encontram em minerais como os que foram pela primeira vez recolhidos na Ásia Menor - a magnetite.A palavra íman significa "pedra que ama". Em francês, íman diz-se mesmo "aimant", o que traduzido dá "amante". Trata-se, sem dúvida, de um nome adequado: um íman atrai pequenos pedaços de metal. A Terra é ela própria um gigantesco íman, uma descomunal "pedra que ama". O nosso planeta tem um pólo norte magnético e um pólo sul magnético, que se situam respectivamente perto dos pólos sul e norte geográficos, na Antárctida e na Gronelândia. Não é gralha: o pólo sul magnético da Terra encontra-se perto do pólo norte e dos esquimós e o pólo norte magnético acha-se perto do pólo sul e dos pinguins. Um pequeno íman tem também dois pólos que se chamam norte e sul, numa nomenclatura análoga dos pólos da Terra. Deve-se, contudo, notar que a Terra nem sempre teve o seu pólo norte magnético perto do sul e o pólo sul magnético perto do norte. O pólo sul magnético já esteve várias vezes no sul, estando então a nomenclatura geográfica e magnética de acordo. Este um dos grandes mistérios da história da Terra: porque é que o norte e o sul magnéticos, de vez em quando (o "de vez em quando" aqui refere-se a tempos de milhões de anos), trocam de posição entre si? Essas mudanças, parece que irregulares, da polaridade do campo magnético da Terra foram verificadas no registo geológico, no fundo dos oceanos e noutros locais da crusta terrestre. Só serão, enfim, compreendidas quando se souber, em pormenor, a origem do magnetismo terrestre.Se se colocar uma pequena agulha magnética a flutuar num líquido, tem-se uma bússola. A bússola foi inventada pelos chineses no século XII e usada mais tarde pelos navegadores europeus, incluindo os portugueses. Esses navegadores usaram uma agulha magnética para se orientarem na superfície do gigantesco íman que é a Terra toda. Como o pólo norte da agulha aponta obedientemente para o pólo norte da Terra (para a direcção da estrela polar), pode saber-se para onde vai o barco, mesmo no meio do nevoeiro ou da tempestade. O que teria sido, porém, se os pólos norte e sul da Terra se tivessem subitamente trocado enquanto as descobertas se faziam? Os navegantes ter-se-iam decerto perdido e as descobertas teriam ficado por fazer!Uma bússola ainda hoje um objecto de mistério e encantamento: pode-se brincar com ela das mais variadas maneiras. Com uma segunda bússola, pode-se, por exemplo, pôr a primeira doida e fazer com que não aponte para onde deve. Em condições normais, o pólo norte da agulha aponta para o pólo sul magnético da Terra porque pólos do mesmo nome se atraem e pólos de nome contrário se repelem. Se um pólo de uma outra agulha se sobrepuser ao efeito do pólo terrestre, a primeira fica portanto desnorteada: não sabe para que norte se há-de virar. Há outras coisas interessantes que se podem fazer com uma agulha magnética. Se uma criança, em momento de mau humor, quebrar o vidro da bússola e partir a agulha, criam-se imediatamente, dir-se-ia que por milagre, dois novos pólos norte e sul na zona partida. Faz-se o milagre da multiplicação dos pólos. Em vez de uma, fica-se então com duas bússolas, embora mais pequenas. A parte reproduz o todo e faz as vezes do todo. Einstein confessou um dia que um dos factos que mais o marcaram, ainda ele era criança, e que contribuíram para a escolha da sua carreira foi a brincadeira com uma bússola. A bússola indicou o rumo da sua vida.Existe pois um fenómeno chamado magnetismo que tão antigo como a Terra e cuja utilidade é tão antiga quanto o engenho dos homens. Repare-se que desde cedo se ficou a saber que a Terra atrai as pedras, assim como desde cedo se ficou a saber que a Terra faz girar um magnete. O campo gravítico e o campo magnético do planeta que habitamos são suficientemente fortes para que tenha sido possível, relativamente cedo, a descoberta de importantes leis da física como a da gravidade e do magnetismo. Se vivêssemos noutro planeta, talvez a ordem da descoberta das leis da física tivesse sido outra. Mas vivemos neste.Logo no primeiro ano do século XVII, um sábio inglês da corte da rainha Isabel, William Gilbert, reuniu num livro, intitulado "De Magnete", tudo o que se sabia na altura sobre a acção dos magnetes. Foi Gilbert quem considerou um pequeno magnete esférico, a que chamou "terrela" e disse que esse modelo era a cópia do grande magnete que era a Terra. Gilbert cita várias vezes na sua obra pessoas e lugares portugueses, o que mostra que os portugueses tiveram um lugar decisivo para o estudo do magnetismo terrestre. Sobre a causa da agulha magnética apontar para o norte refere o "colégio de Coimbra". Cita Garcia da Orta, segundo o qual a pedra magnética faz bem saúde ("tomado em pequenas quantidades preserva a juventude"). Critica Pedro Nunes, a quem acusa de "ter pouco conhecimento ou experiência de coisas magnéticas" (Pedro Nunes inventou, no século XVI, um "instrumento de sombra", destinado a corrigir as leituras da bússola, mas ultimamente os historiadores de ciência têm referido a pouca ligação de Nunes com a prática da navegação). Fala de um navegador português "Roderigues de Lazos", a propósito da declinação, diferença entre a direcção do norte geográfico e norte magnético. Descreve a "bússola portuguesa" e discute as observações no Oceano Índico (Vasco da Gama deu o nome de Cabo das Agulhas a um sítio onde as agulhas magnéticas ficavam desnorteadas). Gilbert esquece-se, porém, de fazer justiça às cuidadosas "Observações Magnéticas" do português João de Castro, realizadas e publicadas a meio do século XVI.Mas qual é a origem do campo magnético terrestre? Será que existe um gigantesco íman dentro da Terra?A resposta moderna mas ela só foi permitida depois de se terem unido o magnetismo e a electricidade. Durante algum tempo o magnetismo e a electricidade, cujo nome vem da palavra grega "electron" (âmbar, uma resina de uma árvore fóssil que atraía pequenos objectos depois de esfregada), ignoraram-se mutuamente, apesar de tanto o magnete como o âmbar virem descritos no livro de Gilbert. Foi só no início do século XIX que o dinamarquês Hans-Christian Oersted descobriu uma relação entre a electricidade e o magnetismo. Foi o começo do electromagnetismo.Oersted reparou que uma agulha magnética ficava "doida", isto é, desorientada, quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de uma outra agulha. A corrente eléctrica produzia um efeito semelhante ao de um íman. Essa relação foi de início estabelecida apenas num sentido: a corrente eléctrica num fio produz um efeito sobre uma bússola, procurando a agulha magnética orientar-se perpendicularmente ao fio. Se o fio onde passava a corrente eléctrica estava orientado segundo a direcção norte-sul, a bússola em vez de apontar para norte, como devia, apontava, por exemplo, para ocidente. Ficava desnorteada.No espaço volta do fio eléctrico, havia assim uma zona de influência, onde as agulhas magnéticas se mexiam. Essa zona é hoje conhecida por campo magnético. Em linguagem moderna, diz-se que o movimento dos electrões provoca um campo magnético. Esse campo magnético pode ser visualizado deitando limalha de ferro nas proximidades. A limalha obedece às ordens do campo, como que guiada por uma mão invisível.O francês André-Marie Ampère estudou a forma desse campo. Concluiu que um circuito em forma de circunferência cria um campo que parecido com aquele que criado por um magnete em forma de disco. Assim, uma bobina, que um conjunto de espiras circulares, cria um campo que é semelhante ao de um cilindro magnético. A Terra tem um campo magnético à volta, que se estende até longe em redor do planeta. Se um circuito eléctrico equivalente a um íman, talvez também se possa encontrar a! a origem do magnetismo terrestre. No século XVIII houve físicos que subiram em balão, com uma bússola, para descobrir que o campo magnético existia lá no alto. No século XX, quando se subiu mais acima, com os primeiros satélites artificiais, descobriu-se a forma completa do campo magnético terrestre, nomeadamente as chamadas cinturas de van Allen, que são, entre outras coisas, responsáveis pelas espectaculares auroras boreais das frias paisagens do Pólo Norte.Talvez então, no interior da Terra, em vez de um grande pedaço de magnetite, exista uma circulação de cargas eléctricas que tenha o mesmo efeito que um íman...De facto, hoje sabe-se que o magnetismo terrestre provém de correntes circulares numa camada líquida condutora, no interior da Terra. O interior da Lua é todo sólido, pelo que não há campo magnético lunar. Por seu lado, o interior de Júpiter é líquido, pelo que existe aí um forte campo magnético, com o pólo norte para cima, ao contrário da Terra (as sondas Voyager I e II permitiram fazer medidas desse campo; a sonda Galileo lançada em 1989 e chegada a Júpiter em 1995 vai completar os registos magnéticos de que já dispomos sobre Júpiter). Mas ainda não se sabe a causa das alterações dessa corrente que provocam as inesperadas, caóticas, inversões de polaridade.O magnetismo conserva ainda alguns mistérios. O íman que é a Terra causa ainda aos terrestres (incluindo os físicos da terra, os geofísicos) tanta admiração como os ímanes do cigano Melquíades aos habitantes da aldeia de Macondo.

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Sun, 12 Sep 2010 18:45:00 -0600 http://www.joaojosemarques.net/outrasleituras/items/view/7876/o-magnetismo-da-terra