Venho defendendo há muito a tese de que o negócio do jornalismo é na realidade um negócio cujo valor reside na embalagem e transporte e não na matéria prima. Bem sei que tal contraria a ideia que os meus distintos colegas gostam de ter do seu trabalho -- até porque sem pensarmos bem do que fazemos não vamos conseguir fazer nada. Crédito da foto: ShironekoEuro) A matéria prima -- isto é: a informação -- é praticamente grátis. O processo de a recolher e tratar até constituir uma massa com algum interesse -- uma notícia -- envolve pessoas treinadas. As pessoas e seus os processos são a "parte editorial" da atividade. Em média, nos EUA, a parte editorial representa 14% dos custos de um jornal. Mais de metade, 52%, são custos de produção (conclusões do Chief Economist da Google, Hal Varian, que estudou elementos estatísticos da US Statistical Abstract, da Newspaper Association of America, da Pew Foundation e de fontes académicas). Uma estimativa da Business Insider, no ano passado, dizia que imprimir o New York Times era duas vezes mais caro do que comprar e oferecer um Kindle a cada assinante (fonte). Existirão razões para que a percentagem seja em substância diferente em Portugal ou na Europa? Desconfio que não, mas tendes a caixa de comentários abaixo para nos esclarecer. Ora, isto significa duas coisas. Uma má, outra boa. Primeiro, que é inútil trazer para a Internet o modelo de negócio que existe no mundo das fronteiras geográficas. Na rede há fracas e poucas fronteiras cuja superação (o "transporte") pode proporcionar algum tipo de valor. E foram tomadas pelas empresas de telecomunicações (vendem acesso) e pelas tecnológicas (recolhem e embrulham). Não sobra nada para as empresas que exploram o negócio do transporte de informação no mundo físico. Dentro de pouco tempo comprovaremos o acerto do termo inútil aqui aplicado: quando tivermos resultados das "paywalls" de Murdoch, uma experiência irresistível e que vai contra a natureza do meio em que é levada a cabo (ler Honesty in the age of the paywall, sem esquecer os comentários). Uma pergunta difícil para os decisores de media, agora, é: num momento de aperto, como se explica o corte na "parte editorial" que representa o menor dos custos do jornal, mas proporciona a maior diferenciação? Tudo indica que é uma opção do tipo suicídio. No momento da passagem a um ambiente onde a diferenciação qualitativa do produto terá um papel absolutamente determinante para as antigas marcas de media, os seus executivos optam por fazer o ingresso nesse ambiente amputados de partes substanciais dos elementos diferenciadores. A segunda coisa é que os custos operacionais de um jornal são reduzidos instantaneamente, no momento da passagem para a Internet, em mais de metade. Na realidade os custos baixam muito mais. Aos 14% do "preço editorial" há a somar pouco mais que o know-how específico do meio. A informática é estupidamente barata. Essa é a coisa boa. O grande desafio é encolher as estruturas e adaptá-las -- ou talvez seja melhor dizer: recriá-las -- ao meio ambiente reticular. Vejo pelo menos 3 saídas para o negócio do jornalismo. Uma saída é essa: entender o novo meio e passar a operação para ele. A quantidade de oportunidades que se abre é tão vasta que estimula o empreendedorismo, seja de tipo pessoal (há autores em Portugal que fizeram novas marcas de media e ganham entre 3 e 10 salários mínimos só em publicidade), seja de tipo coletivo. Outra é a mais em voga em Portugal, desde o início da própria bolha 1.0: ser engolido por uma tecnológica. Foi o caminho do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, da TSF e outros, que são hoje "as notícias do Sapo". Só falta completarem a operação, isto é, passarem para o Sapo também os "custos editoriais", depois de lhe terem dado o proveito, nalguns casos acumulado, jornal a jornal, ao longo de dezenas de anos. A terceira, claro, é desistirem e irem alugar apartamentos em Vilamoura ou outra coisa qualquer. Crédito da foto: inju)

