Estrela Serrano, vogal da ERC, responde no blog Vaivém às questões que
levantei no artigo no Correio da Manhã de domingo, intitulado hacktivismo
e mudança -- respostas que naturalmente agradeço.
E agradeço desde logo porque este tema -- o WikiLeaks e os
seus efeitos -- é de difícil discussão. Estamos a viver a
quente as "revelações", tendo-se criado um clima singular onde
notícias que já o foram voltam a ser, notícias que não o
seriam tornam-se magicamente títulos de primeira página, um
clima -- socorrendo-me de uma expressão de Estrela Serrano noutro
post sobre o assunto -- de "orgia
informativa". O ruído sobrepõe-se ao diálogo,
forçando a comunicação entrincheirada em posições extremas: a
favor ou contra, é o que me perguntam, e é a muito custo -- e
desiludindo os interlocutores -- que consigo dar uma resposta
maior do que essas cinco ou seis letras.
Basta, aliás, ler este post de
Daniel Oliveira invectivando "os jornalistas" para percebermos
como a função arma de arremesso do WikiLeaks é tão importante.
Sobrepõe-se, quase sempre, ao debate. Toda a gente se apressa
a cavalgar a onda WikiLeaks, toda a gente tem de ter uma
posição, toda a gente coloca uma tabuleta prévia à comunicação
manifestando a indignada certeza de que está certa.
Em particular, querem reivindicar o WikiLeaks para a SUA
causa todas as pessoas que a) por princípio, devoção ou
obrigação sejam anti-americanas, b) nutram ódio e outros
sentimentos menos edificantes pelos jornalistas, esses
amanuenses do poder, c) lhes dê jeito incomodar a diplomacia
americana (veja-se Lula), d) sejam ciber-deslumbradas recentes,
e) gostem de pensar sobre si próprias que são "anarquistas",
f) todas as anteriores.
O segredo de Assange
É fácil (quase irresistível) devolver ao Daniel o
argumento-João-Miranda, dizendo-lhe que "está a instalar-se
a ideia de que nada pode ser considerado segredo de Estado,
desde que a turba social assim o determine, mesmo que
estejamos perante ações de gestão corrente que se pedem a um
governante".
Daniel tem uma frase que considero uma extravagância, quiçá
fruto do entusiasmo: "ou seja, o papel de selecção que é
suposto os jornalistas cumprirem revelou-se, em muitos
casos, absolutamente dispensável". Faz eco, aliás, de
outra inventona que passa no Twitter como uma verdade
insofismável: a de que o WikiLeaks publicou os 250.000
documentos e toda a gente os pode ler lá.
O Daniel parece ter esquecido que quem ordenou a sequência
das primeiras revelações não foram os jornais envolvidos: os cables
iniciais só continham a palha das festas de Berlusconi e da
hipocondria de Kadhafi.
Na realidade, Julian Assange tem feito uma gestão criteriosa
dos tempos e dos canais de divulgação dos cables, usando
os jornalistas como amplificadores de sinal. Os cables são divulgados às
massas pelos jornais e não pelo site, que quase
ninguém consegue ver, aliás. Essa gestão
dos media é o
segredo de Assange.
Na realidade, se não fosse a legitimação da seleção, por
critérios jornalísticos (que poderemos discutir num clima mais
ameno), e a credibilização pelo prestígio associado aos Órgãos
de Comunicação Social que Julian Assange tão bem soube
escolher, estes leaks teriam tido o mesmo
sucesso relativo que as anteriores levas -- ou ainda menos,
tendo em conta a
fraca qualidade média da informação, como comecei por
escrever quando a coisa rebentou.
Na realidade, a maioria das reações populares -- e até dessa
élite dispersa e anónima que sabe usar as ferramentas
informáticas para se organizar e riscar os vidros das montras
web das Grandes Empresas -- visa provocar os media, primeiro,
e eventualmente através deles o poder político, esse escudo
cada vez mais indispensável do poder económico.
Assim, e resumindo a ideia: ao contrário do que pensa o
Daniel, eu penso que os jornalistas fizeram o seu papel de
seleção e foram indispensáveis ao "sucesso": a mensagem ter
passado com estrondo.
Não fora a má resposta inicial de Hilary Clinton e dos EUA a
contracenar e os jornalistas eram mesmo a única personagem
principal da peça intitulada "O Sucesso Do WikiLeaks" --
mantendo-se em qualquer caso a divulgação e a conversa das
redes sociais como personagem secundária.
Discordo também do balanço dele. A imprensa dos países
democráticos não é uma derrotada, mas sim a primeira
vencedora. Sobretudo os jornais envolvidos, que estão a
acumular uma quantidade colossal de citações, de pageviews, de followers nas redes sociais, e,
estimo, de vendas em banca. Mas também todos os outros que
estão a retransmitir as notícias. O WikiLeaks é, antes de
mais, um maná. A tal "orgia informativa", que permite que todo
o tipo de abusos passe por comportamento normal.
É claro que há algumas notícias dignas do nome nos cables (o BCP é uma das
novidades que o merece). Mas existem muitas outras que não o
são. Umas não passam de takes requentados, arquivo
completamente morto que só mesmo num excecional clima de orgia
informativa se conseguem revender como "novidade" (exemplos
não faltam, da cena das Lajes aos infelizes McCann). Outras
iriam diretamente para o espeto se surgissem na secretária do
editor fora deste clima, tal a sua irrelevância, ou acabavam a
fechar alguma página caso houvesse algum azar com o feed da
Lusa (uma reunião do embaixador dos EUA com o Ministro da
Comunicação de Marrocos para debaterem o combate à pirataria?
Tem dó, Daniel.)
Quando a rede despertar, o mundo
tremerá
Voltando a um
mundo ao "estilo Assange" e a uma conversa na qual
ninguém procura ser popular: Estrela Serrano alvitra que
Assange, não sendo nem um herói nem um terrorista (as
situações extremas que exemplifiquei no artigo), "é talvez
um fanático ou um sonhador". De acordo. Mas há
sonhadores que mudaram o mundo com as suas fantasias -- e nem
todos para melhor.
"O WikiLeaks não é jornalismo", responde também Estrela
Serrano. Estou no essencial de acordo com o que escreveu sobre
o jornalismo neste particular. Mas a questão do jornalismo
interessa-me pouco -- bem sei que pode não parecer, tendo em
conta os carateres que já lhe dediquei, mas o interesse não
se mede ao Kilobyte. Pelo que vou adiantar-me. O que me
entusiasma aqui são as questões da cidadania. E da política.
O ensaísta francês Alain Peyrefitte escreveu nos anos 70 uma
obra intitulada "Quando a China despertar... o mundo tremerá"
(frase atribuída a Napoleão, obra disponível num alfarrabista
perto de si, como
este de onde saquei a imagem de capa). A ideia central
era mais ou menos isto: tendo em conta a quantidade de
chineses, mal tenham uma organização, cultura, economia e a
tecnologia suficiente, impor-se-ão ao resto do mundo.
A ideia aplica-se ao "continente reticular". A massa crítica
está atingida. A tecnologia é hiperabundante. A matriz
cultural -- partilha, hacking ou curiosidade, vagas ideias
libertárias, sentimento de superioridade, ego valorizado,
características comuns desde os primeiros habitantes do
ciberespaço -- está a atingir a maioridade.
Alguns comentaristas escreveram, erradamente, estarmos
perante a primeira ciberguerra. Há um passado de ciberguerras
e olhar para ele dá jeito para sabermos o que podemos esperar.
As picardias e escaramuças dos hacktivistas são mais parecidas,
nos efeitos, com a guerra de guerrliha: vai moendo, vai
moendo, vai moendo, tem um poder transformativo composto por
pequenos passos. É igualmente difícil de combater pelos
"exércitos regulares".
Mas a aparência mediática dessas escaramuças tem sido
desproporcional. Esse empolamento faz, de resto, parte da
tática do hacktivista.
Dohacker para
o hacktivista ganhou-se em
inteligência o que se perdeu em brilhantismo e ego, mas --
ordenada ou desordenada, consciente ou inconsciente -- a
manipulação da informação e dos seus agentes, agora rebaixados
do segundo balcão à plateia, está incrustada no código
genético.
As ações propriamente ditas valem o que valem -- provocar uma
negação de serviço não passa de cuspir na cara do soldado
inimigo. Mas esta não é uma guerra física: é uma guerra
simbólica. A ação vale pelo que potencial que demonstra e pelo
que simboliza, mais que pelos danos imediatos.
(Áparte: os jornalistas nunca evitaram ser instrumentos das
guerras, tendo de gerir relações e sobrevivência -- algo que
está para lá do que afirmam em público os puritanos da ética.
Vão agora ter de aprender a fazer o mesmo aqui. Julian
Assange, como qualquer outro general, pode ter uma aura
heróica para as falanges de apoio que o escondem nos seus
sótãos resistentes e por ele disparam nas trincheiras do tempo
real, e por isso vir a ser eleito o Homem do Ano pela Time,
que isso não invalidará que tenha a sua própria agenda,
motivação e estratégia.)
O caso WikiLeaks tornou-se uma notícia maior do que os cables.
Tem o lado bom, apesar do folclore: confirmou que a
cibercidadania deixou de ser um nicho de loucos e early-adopters e
passou a ser uma corrente sólida de respeitáveis cidadãos com
os mais nobres interesses -- os seus. Há hoje uma massa
crítica de nós de rede, de pessoas interligadas, e dentro dela
um número suficiente de pessoas apetrechadas informaticamente
para as ações da cidadania: organização, exposição e defesa de
causas, princípios e direitos. Os apetrechos modernos são
importantes para a comunicação (barata, mediata e imediata, à
medida das necessidades de cada um e de cada grupo). E também
para a ação: existem milhares de cópias dos ficheiros da
WikiLeaks espalhadas por outros tantos servidores, e bastaram
para isso umas linhas de código de copiar e colar acessíveis a
qualquer pessoa que saiba mexer num rato (ler e escrever não
são requeridos).
E não acaba?
"It's a shootin' war, and no one knows where it will lead
or when it will end. You'd best keep your head low" - escreve Robert X.
Cringely numa das suas demolidoras crónicas, the
Web will eat itself over WikiLeaks, que recomendo a
todos os leitores.
Na verdade acaba. E eu sei quando acaba. Acaba no dia em que
outro assunto passar a dominar as manchetes e o prime time. Uma
guerra daquelas onde se morre ou pelo menos se disparam
canhões reais, uma desgraça natural (mas com milhões afetados,
dezenas ou milhares pode não dar), um romance feliz como o dos
mineiros chilenos. Ou, se nada deste calibre acontecer, o
cansaço mediático que inevitavelmente fará os editores
escolherem outra manchete. Ronaldo. FMI. Sócrates.
Presidenciais, anyone?
Não sei onde conduzirá, mas deixará mossa. O mesmo tipo de
mossa que deixou o Napster. O mesmo tipo de mossa que deixou a
fácil reprodução digital dos bens de consumo incorpóreos.
Quando se entrega a milhões de pessoas o tipo de poder
computacional colossal que se banalizou nos nossos desktops e
até nos bolsos, e se lhes dá uma rede para se interligarem,
não se deve esperar que fiquem a jogar vaquinhas, a palrar em
140 caracteres e a clicar likes em causas no Facebook
para a eternidade. Algumas delas cansar-se-ão antes.
Fica em aberto a questão: que mundo vamos construir com esse
poder distribuído? Projetando o que defendem as falanges de
Assange, vamos inevitavelmente parar a uma sociedade bigbrotherizada
invertida -- uma ditadura em tempo real das massas que
bloqueará as decisões às elites e terminará rapidamente com
uma golpada e a substituição por um regime fortemente
centralizado de algum tipo -- no pior cenário, um ditador de
carne e osso; no melhor cenário, um fascismo corporativo.
Mas eu sou um crente :) O grosso das falanges de Assange vai
entreter-se com outra causa qualquer dentro de alguns dias ou
semanas. Aprendida a lição, os países remendarão as suas
políticas. Há uma geração a despontar, a começar a chegar ao
poder, que -- independentemente do arco partidário -- tem uma
consciência aguda e realista do potencial da sociedade
reticular. O atual PM britânico, David Cameron, é o primeiro
exemplo. Acredito que a democracia
tem uma capacidade regenerativa e que esta é suficientemente
elástica para ir absorvendo as melhores dádivas da sociedade
-- ciber ou não. Dádivas como a transparência enquanto
prática, e não um embrulho bonitinho.