No âmbito de um projecto de investigação sobre as histórias reais mais marcantes da vida profissional de professores, tenho tido o privilégio de recolher dezenas de episódios reveladores do lado oculto e não oficial da organização escolar. São, por vezes, histórias felizes, de grande satisfação pessoal e profissional. Mas a maioria são histórias de grande sofrimento, de quase ruptura emocional, de grande prova de resiliência. Com a autorização da autora (a quem agradeço o gesto), divulgo hoje uma dessas histórias (que faz parte da galeria da escola a tempo inteiro). Verdadeiramente espantosa e interpelante. E que nos faz pensar sobre as políticas bem intencionadas que as geram, sobre os labirintos das dinâmicas e lógicas de acção, sobre as alegrias e os sofrimentos dos professores.No ano de 2005, com cerca de vinte e três anos de serviço prestado em diversas escolas (doze escolas localizadas em diferentes contextos), aconteceu-me, na escola onde então me encontrava colocada, uma situação que ainda hoje recordo, com o humor possível atendendo à distância do acontecido.Foi o ano em que se iniciou o novo regime de horário dos professores, impondo o Ministério a escola a tempo inteiro. Foi frequente na maioria das escolas a existência de aulas de substituição, suprindo a ausência do professor.Existia na altura uma escala segundo a qual uma bolsa de professores deveria substituir o que faltava, realizando caso não houvesse outra indicação, actividades que considerasse pedagogicamente válidas.Como é usual em relação aos acontecimentos marcantes, recordo-me perfeitamente do dia, hora, local, … em que tudo aconteceu. Digo tudo, com a noção de que estou a usar uma palavra GRANDE; mas para mim, enquanto professora, foi um acontecimento que se pode referir desse modo.Sou professora do Grupo 410 – Filosofia, facto que me circunscreveu a docência ao ensino secundário, pelo que a minha experiência relacional enquanto professora com o ensino básico era inexistente.Aconteceu-me então, logo após o início desse ano lectivo, ir fazer uma aula de substituição a uma parte de uma turma do 7º ano de escolaridade (catorze alunos), para a qual a professora de Francês não tinha deixado qualquer indicação de actividades. A aula deveria ser dada numa sala de Informática (equipada com quinze computadores) mas onde não seria possível usar projector, já que este se encontrava avariado. Lograda a esperança de passar um filme do Tintim (em francês, que pessoalmente tinha seleccionado para uma eventual situação do género), eis-me perante catorze alunos com cerca de doze anos de idade, na sala de Informática.Apresentei-me, perguntei-lhes os nomes e propus-lhes uma actividade que na altura era algo de novo: utilizar o Google Earth, para podermos visualizar a escola, a residência de cada um, enfim, uma actividade de que já tinham ouvido falar mas que, constatei, nunca tinham realizado. A simples proposta de actividade foi logo uma situação complicada pois, habituada a falar com alunos que me ouvem sentados no seu lugar, não sabia muito bem como falar, propondo a referida actividade, com alunos que não se sentavam e circulavam (indiferentes ao facto de eu estar a falar), pela sala, conversando entre si, gritando uns com os outros, ligando computadores, desligando outros, sem sequer parecerem ouvir-me. Experimentei, calar-me, na esperança de que o meu silêncio induzisse o deles, mas…em vão! Experimentei falar bem alto (sem gritar) na esperança de que me ouvissem e se acalmassem, mas…em vão! Gritei… alguns pararam e ouviram que deviam sentar-se um em cada computador, mas outros não ligaram (se é que ouviram…) absolutamente nada ao que eu disse. Continuavam a andar pela sala (grande) e chegaram mesmo a andar por cima das carteiras para mais depressa chegarem a outros colegas!!!! Fiquei estarrecida! Ainda não refeita de toda a circunstância e na necessidade de agir perante os que me haviam ouvido, entra um cão pela porta que estava apenas encostada. Imagine-se o burburinho!!! Era um cão pacífico, (para mim era do ensino secundário!) pensei que provavelmente interessado no espectáculo. Decidi-me: vou tratar de trabalhar com os que me ouviram e, sentei-me num dos computadores, “voei” para o Google Earth e localizámos a escola rapidamente, e continuámos a procurar pontos que os alunos estavam interessados em ver. Que e quantos alunos? Oito, cinco raparigas e três rapazes. À minha volta, suados, mal cheirosos, desgrenhados, mas interessados, ali estavam e … ficaram até ao final da intermiiiinnnnnável aula. Sempre à minha volta, nunca sozinhos em computador, embora familiarizados com a sua utilização, conforme fui (na medida do que me foi possível) comprovando. Quanto aos restantes, cada um num computador, jogavam jogos (penso que uns com os outros?) mas…(fantástico) absolutamente sentados!!! A meio da aula, fiz uma tímida tentativa para ir ver o que esses estavam a jogar, mas, não valeu a pena porque o barulho, a desordem, a gritaria que gerou nos oito que estavam à minha volta não fazia prever valer o esforço. Resignei-me! Fiquei sentada até ao fim, entretive aqueles oito e…graças a Deus…tocou a campainha salvando-me da situação! Abandonaram a sala sem sequer desligarem os computadores, deixaram a sala desarrumada, foram-se numa debandada sem despedida.Deixei-me ficar sentada a olhar à minha volta e a respirar fundo. Enfim, só!Apercebi-me do que tinha vivido e ao que tinha sobrevivido. Sozinha, arrumei lenta e desanimadamente a sala, deixei tudo impecável, saí e fechei a porta. Sendo o último tempo lectivo do meu horário, regressei a casa sem falar com ninguém.Habituada a muitos anos de deslocações, conduzir torna-se um momento também de reflexão. Cabeça em absoluto caos, guiei até casa sem conseguir compreender. Sentia-me (estranhamente) calma, mas desorganizada. Havia experienciado o que se me afigurava impossível: numa escola, não ser professora. Não me reconheci na pessoa que fui durante aquele tempo. Não era uma crise de identidade; eu continuava a sentir-me eu, mas eu não tinha sido eu, ali, naquele tempo.Mais tarde, ainda no mesmo dia, quando a noite se fez ordem, verbalizei na intimidade do lar toda a situação e no fim, concluí: “Hoje, não me revi, não me identifiquei, como professora. Desconheci-me. Despersonalizei-me. Não consegui ser eu.” Após uma pausa, continuei, clara e distintamente: “Não sei se vou querer continuar a ser professora.”Hoje, é apenas uma história marcante. Contudo, a distância e proximidade com que a narro, revela quão marcante foi. Obviamente que me re-organizei. Obviamente que me re-situei. Obviamente que me re-estruturei na capacidade de enfrentar situações novas na vida profissional. Afinal, com uma vida recheada de desafios ultrapassados, que representa apenas um momento – mas o único - que me fez reconsiderar a capacidade de resistir e de continuar?
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Vidas de Professores: os lados nunca contados
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April 10 2010, 6:19am | Comments »
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Do Inacreditável...
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Um colega e amigo escreve:A Recomendação nº 2/CCAP/2008 apontava claramente para a necessidade de a avaliação final do desempenhoo do professor ser realizada por "dimensão/domínio/parâmetro", de modo a evitar a segmentação artificial do trabalho do professor introduzida pelo Despacho nº 16872/2008 (o das fichas). Depois de tanto verbo, (...) lá acabaram por aceitar esta recomendação e alterar o nº 3 deste despacho, através de uma nova redacção dada pelo despacho nº 3006/2009 (23 de Janeiro). Em consequência, na escola, elaborámos a referencialização nesta linha, isto é, definindo descritores para os cinco níveis de desempenho possíveis em cada domínio/parâmetro.Contudo, na formação recentemente realizada sobre o processo de classificação, já me tinha "cheirado a esturro" porque a aplicação informática para "apoiar" as escolas estava elaborada na lógica da classificação por indicador/item, como se o despacho nº3006/2009 não tivesse existido. Contestei a plataforma e continuámos o trabalho na escola com a orientação que havíamos traçado. Um "cândido" despacho hoje publicado, que te envio, considera o 3006/2009 um erro e repristina o anterior nº 3 do despacho nº 16 872/2008. Mas isto pode lá ser? É possível continuar a trabalhar com este modo de agir da equipa do ME?Por mim, respondo:Num Estado de bem não poderia ser.Não é possível trabalhar com seriedade com este modo de regulamentação. Despacho n.º 15772/2009 de 10 de JulhoO despacho n.º 3006/2009, de 6 de Janeiro, publicado no Diário daRepública, 2.ª série, n.º 16, de 23 de Janeiro de 2009, alterou e republicouo anexo XVI ao despacho n.º 16872/2008, de 7 de Abril, publicadono Diário da República, 2.ª série, n.º 119, de 23 de Junho de 2008, queaprova os modelos de impressos das fichas de auto -avaliação e avaliaçãodo desempenho do pessoal docente, bem como as ponderações dosparâmetros classificativos constantes das fichas de avaliação, visandodesburocratizar os procedimentos de avaliação e facultar maior autonomiaaos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas.Por lapso, a alteração ao n.º 3 do citado anexo contém um erro queimportaria corrigir. Tendo já decorrido o prazo para rectificação domesmo, procede -se desta forma à sua correcção.Assim, nos termos do disposto no n.º 3 do artigo 44.º do Estatutoda Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos EnsinosBásico e Secundário e nos artigos 20.º, n.º 2, e 35.º do Decreto Regulamentarn.º 2/2008, de 10 de Janeiro, determina -se o seguinte:1 — É revogado o n.º 3 do anexo XVI ao despacho n.º 16872/2008, de7 de Abril, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 119, de 23 deJunho de 2008, na redacção do despacho n.º 3006/2009, publicado noDiário da República, 2.ª série, n.º 16, de 23 de Janeiro de 2009.2 — É repristinado o n.º 3 do anexo XVI na redacção original dodespacho n.º 16872/2008, publicado no Diário da República, 2.ª série,n.º 119, de 23 de Junho de 2008.3 — O presente despacho produz efeitos a partir da data da assinatura.1 de Julho de 2009. — O Secretário de Estado Adjunto e da Educação,Jorge Miguel de Melo Viana Pedreira.
July 10 2009, 12:36pm | Comments »
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Delegação (e sub, sub-delegação) de competências ministeriais
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Num sistema educativo centralizado, é suposto que o poder formal resida no centro político e administrativo da nação. Por isso, todo o poder reside no ministro. Mesmo os poderes mais básicos e inúteis são todos ministeriais. Mesmo aqueles que não sabe. E como é impossível um só ser decidir sobre tudo, tem de delegar competências. Primeiro há a delegação nos secretários de estado. Uma longa lista de poderes são delegados. Por sua vez, os secretários de estado como não são omnipoderosos nem omniscientes têm de sub-delegar nos directores-gerais, que por sua vez sub-sub-delegam nos directores de serviço, que sua vez vez sub-sub-sub-delegam nos chefes de divisão. Uma extensa cadeia hierárquica é assim percorrida numa lógica do absurdo. Quem sabe e tem condições para tomar as melhores decisões não tem competências próprias (quando muito terá sub-sub-delegadas e em qualquer momento pode ficar sem elas).Este processo (este vício) é absolutamente absurdo e é bem revelador da tradição napoleónica e centralista, inimiga e descrente da liberdade e da autonomia, da capacidade das pessoas e das organizações se dotarem de normas e poderes próprios.Este é talvez o maior absurdo da acção política e o maior vírus que impossibilita uma reforma do pensamento e da acção.Para se ter noção da justeza desta avaliação considere o leitor apenas quatro casos: é o ministro que tem o poder de autorizar a dispensa de frequência de uma língua estrangeira no caso de um aluno ter vivido toda a sua vida e feito todas a escolaridade num país cuja língua primeira era a que o nosso sistema obriga; é o ministro que pode autorizar a anulação de matrícula no caso da disciplina ser Religião e Moral; é o ministro que tem o poder de autorizar uma visita de estudo ao estrangeiro; é o ministro que tempo poder de autorizar a acumulação de funções….Em vez de governar, de forma estratega, isto é, mobilizando pessoas e organizações para uma acção mais empreendedora, empenhada e responsável, os nossos ministros viram-se reféns de uma ordem administrativa que os enclausura e impede de fazerem o essencial.
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July 7 2009, 2:42pm | Comments »
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Alunos, Sofrimento dos
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Diversas (e poderosas) são as razões do sofrimento dos alunos. Para só referir algumas, poderia citar o défice de sentido de muito do trabalho escolar, que rapidamente conduz ao insucesso e ao abandono escolar; a forte selectividade que marca grande parte da organização curricular e é a pedra angular do regime avaliativo (principalmente no ensino secundário) e que tem inflacionado a ‘indústria das explicações’; o veredicto escolar, com o seu efeito totalitário e definitivo que dura toda uma vida (basta lembrar que a nota da licenciatura, por exemplo, nunca se poderá transformar e tenderá a marcar toda a vida pessoal e profissional; mesmo o casamento, com o carácter muitas sagrado e vinculativo, pode cessar; mas a nota é definitiva); o acesso ao ensino superior, que com a sua aparência meritocrática de equidade, gera todo um conjunto de angústias e de injustiças(quem se não lembra que uma décima impediu centenas de alunos de realizarem o seu sonho; quem se não lembra que alguns deles tiveram de emigrar para Espanha….; quem não se lembra da "indústria" das permutas de cursos...) ; o prolongamento da adolescência e das situações que enclausuram os jovens numa dependência desesperante; a fragmentação dos saberes, tempos e espaços que os transformam na ‘matéria prima’ de uma cadeia de montagem de tipo industrial. A escola a tempo inteiro neste paradigma de escolarização está à beira da instauração de um regime totalitário. A escolaridade é, assim, para muitos alunos, um túnel no fundo do qual não se vislumbra qualquer luz.Reféns do modelo escolar e de um mundo de trabalho que desqualifica as competências e precariza os vínculos laborais, os alunos estão à deriva e lançam um olhar perdido. Buscam, às vezes, só um olhar de compreensão. Uma palavra de afecto. O sofrimento dos alunos é também o sofrimento dos professores. As intervenções sistémicas que se vão operando têm de resgatar estes sofrimentos. Se quisermos começar a construir a escola do novo milénio.(Às vezes choro sem niguém ver. Às vezes desisto. Às vezes morro por dentro. Morro por fora. Às vezes o mundo pesa tanto, pesa tanto. Às vezes apetece-me gritar. Às vezes grito. Alguém me ouve? Alguém nos ouve? )(com agradecimento a TM)Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação
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July 5 2009, 6:00am | Comments »
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Aprendizagem da Escola
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A escola é uma organização que supostamente ensina e onde muitos alunos realizam aprendizagens fundamentais; no entanto, “a ironia da realidade escolar está no facto de instituições dedicadas à aprendizagem não terem, elas próprias, o hábito de aprender”. E não têm o hábito de aprender porque os indivíduos que as integram não querem ou simplesmente não vêem nisso qualquer vantagem; ou têm outros interessesprioritários; ou não sentem o apelo da consciência profissional; ou não dispõem de lideranças mobilizadoras e pró-activas; ou se acomodam à continuada certificação da menoridade intelectual; ou não sentem a pressão externa para; ou… E as organizações só aprendem através de indivíduos que aprendem.Assim, para que uma escola aprenda (com os seus erros, êxitos, limites, insuficiências…) é preciso induzir a maioria dos seus membros a querer aprender. E a gerar cinco grandes processos de acção:i) resolução sistemática dos problemas. Diagnosticar os problemas concretos e passíveis de localmente serem resolvidos ou minorados e ter capacidade para os resolver através da reflexão crítica e novos modos de acção (mudando, muitas vezes de perspectiva e de modelo);ii) experimentação com novos pontos de vista. Se enfrentarmos os novos problemas com as velhas receitas (mais ordem, mais autoridade, mais ensino,mais do mesmo…) então não aprenderemos nada…iii) aprender com a experiência passada. Porque só analisando as causas dos êxitos e inêxitos poderemos progredir.E aqui seria inteiramente dispensável o simulacro dos relatórios que nada dizem, nada adiantam, nada melhoram. Apenas cumprem o ritual burocrático. E a (quase) todos sossega. Sobretudo aos detentores do poder hierárquico e a todos os seus mandatários. O absurdo é antigo mas persistente. Comandar a partir do centro é continuar a caminhar para o desastre. Pena não haver quem queira ver.(Aprender... Aprende-se, apreende-se perguntando.Que foi que fiz de bom? Que fez do bom ser bom? Do mau ruim?Que sabor posso, devo repetir? Que sabor sabe melhor hoje. E amanhã?Que memória posso guardar para fugir dela?Que perguntas posso, devo fazer?)
July 4 2009, 10:08am | Comments »
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A Lógica Burocrática
http://terrear.blogspot.com/2009/07/logica-burocratica.html
O sistema burocrático concebido, na sua versão moderna por Max Weber, funda-se no carácter legal das normas e regulamentos, na formalidade das comunicações, na divisão do trabalho racional, na impessoalidade das relações, na hierarquia da autoridade, na estandartização de rotinas e uniformidade de procedimentos, na valorização da competência técnica e na meritocracia, na separação entre propriedade e administração, na profissionalização, na previsibilidade do funcionamento.Não obstante as suas vantagens em relação a sistemas de gestão artesanais, a burocracia funda-se em pressupostos ingénuos e negativistas, e supõe uma realidade social, política e organizacional que não existe. Por isso, muitas vezes, a lógica burocrática é insensata, autista, infantilizante e fechada.Uma acção é insensata quando se deixa determinar pelo formalismo vazio de sentido, quando as decisões não têm em conta as pessoas, as organizações e as especificidades docontexto, quando a análise se enclausura na razão técnica (estabelecendo a relação meios/meios) e não se deixa orientar pela razão crítica (estabelecendo a relação meios/fins), quando as consequências nunca são interrogadas. É sabida a forte presença da lógica burocrática na “organização política e administrativa da nação”.Etambém no sistema de ensino, desde o topo à base. Uma presença marcada pelos traços da uniformidade, formalismo, impessoalidade, legalismo e pelo peso centralista.É sabido que a lógica burocrática conduz (e é intrinsecamente) muitas vezes a uma acção insensata. É o caso dos grandes concursos públicos centralizados de aquisição/distribuição de bens e equipamentos às escolas. Equipamentos que, muitas vezes, as escolas não querem e que permanecem encaixotados. Era o caso dos relatórios de “reflexão crítica” para mudança de escalão. Vazios (a maioria) de qualquer razão, de qualquer efeito, de qualquer sentimento. É o caso das delegações de competências ministeriais. E das subdelegações. E das subsubdelegações. É o caso do controlo de assiduidade dos alunos (designadamente no Ensino Secundário). É sabido que a ordem burocrática é uma ordem infeliz e pessimista. Que perdura porque desresponsabiliza, securiza e protege. Porque cria a ilusão do poder e do controlo. Mas é também um sistema cego e surdo. Como refere o sociólogo suíço, Philippe Perrenoud, o sistema soviético afundou-se, entre outras razões, porque interditava de dizer as coisas como elas eram. Se o futuro era sempre radioso, se o partido tinha sempre razão, se oplano era sempre perfeito, se o fracasso estava por definição excluído, era impossível partilhar uma análise e definir um programa de acção. Salvaguardando todas as proporções, a escola sofre o mesmo problema. Cada um sabe que os programas não se podem cumprir integralmente, que certos horários são absurdos, que o sistema de colocação de professores é uma mentira, que os apoios pedagógicos são muitas vezes uma ficção, que o ensino especial é uma falácia, que a escola inclusiva é um ultraje, que a reorganização curricular tende a ser uma mistificação, que..., que...Quanto tempo será necessário, quantas crises larvares teremos de suportar, para que se possa dizer o que toda a gente sabe e agir em conformidade? Estará a escola condenadaa não ver, a não dizer, a não agir? A interditar uma lucidez colectiva? Não basta que cada um, no seu canto, em silêncio, perca as suas ilusões e assuma os seus lutos, pois isso favoreceria o divórcio entre as pessoas e as organizações. Somente a lucidez partilhada permite afrontar a complexidade e trabalhar para sair dos labirintos. Somente uma coragem cada vez mais alargada permite o resgate das prisões de ver.Todos somos agentes deste reino da aparência e do faz de conta. Todos temos a nossa cota-parte de responsabilidade neste estado de sítio. Só uma política comprometida e ousada poderá ir abrindo caminhos. Os caminhos da transparência, da liberdade, da autonomia, danresponsabilidade, da confiança.O sistema burocrático é também fechado, extremamente defensivo e infantilizante para os professores. Quando surge algo de novo (um programa, uma nova área curricular, um novo regime de avaliação, um novo esquema de horário ....), logo se reclama uma circular para se saber que atitude se deve adoptar, ou então, numa versão mais pós-moderna, logo se protesta porque não há/não houve formação. E até os sindicatos (que deveriam prestigiar a profissão docente) logo também concordam, confessando uma perspectiva proletária. Vivemos num sistema infantilizante porque tudo é programado no topo hierárquico. No centro político e administrativo impera a lógica da desconfiança e a ilusão de que tudo se pode regulamentar. Ao nível intermédio procede-se à reduplicação e ao reforço da concentração do poder. No fundo da escala, executa-se (muitas vezes, cria-se a aparência de que se executa) e pede-se constantemente novas circulares que desresponsabilizam e protegem. Neste ciclo vicioso da dependência, só uma revolução no modo de governo é que nos pode retirar deste estado de sítio. E não deixa de ser paradigmático que um dos instrumentos legais mais promissores para pôr fim a esta ordem, previsto no Decreto-Lei 115 de 1998 – os contratos de autonomia –, continue letra morta. Seis ministros passaram – Grilo, Oliveira Martins, Santos Silva,Júlio Pedrosa, David Justino, ……. – e preferiram não mexer no statu quo. E mesma a ministra Maria de Lurdes Rodrigues que começou enfim por celebrar cerca de vinte contratos e que prometia inverter os modos de agir, cedo abandonou esta via e acabou prisioneira da lógica do sistema. É a aliança de interesses que nos vai mantendo reféns no medo de existirmos.(JMA, Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação)
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July 3 2009, 3:34pm | Comments »
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Igualdade de oportunidades de acesso
http://terrear.blogspot.com/2009/07/igualdade-de-oportunidades-de-acesso.html
A ideologia educativa funda-se no princípio da igualdade de oportunidades de acesso à educação. Todos os cidadãos devem ter idênticas oportunidades para aceder à escola e dela retirar os proclamados benefícios pessoais, sociais e profissionais.Mas, embora proclamada, a igualdade de oportunidades de acesso não existe. E não existe pelo tempo dos percursos escolares (quem gasta diariamente 3 horas no percurso casa-escola-casa não está numa situação de igualdade em relação a quem gasta meia hora); pelos diferentes níveis culturais dos agregados familiares (quem integra agregados com qualificações superiores, bibliotecas, computadores, acesso à net… está numa posição privilegiada em relação a quem não tem nada disso); pelas diferentes qualidades da oferta educativa (equipamentos, qualificação dos professores, gestão da escola….). E os exemplos poderiam continuar...É, aliás, sabido, através do indicador grosseiro dos resultados dos exames de 12ºano que os alunos das ilhas e do interior têm piores resultados que os alunos da faixa litoral. E ão é, certamente, por serem menos "inteligentes" que os outros....Daqui decorre que, sendo verdadeira a premissa de que não há igualdade de oportunidades no acesso à educação, os resultados produzidos pelo sistema escolar são relativamente injustos. E que quanto maior for a selectividade do sistema maior injustiça produz. E é por esta razão que a teoria meritocrática tem uma débil consistência. Isto é: o resultado escolar não é a resultante do QI + esforço/mérito individual. E estando em causa esta equação, a legitimidade do sistema educativo pode estar permanentemente em crise.(JMA, Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação)
July 3 2009, 5:40am | Comments »
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Autonomia
http://terrear.blogspot.com/2009/07/autonomia.html
A capacidade das pessoas e organizações se dotarem das normas próprias adequadas à sua missão, poderia ser uma definição sintética do conceito. Na história do sistema educativo português, o Decreto-Lei nº43/89 marca o enunciado retórico de uma concessão sempre ausente das práticas da generalidade de todos os actores educativos, quer os do centro quer os das periferias.Organizado segundo os princípios napoleónicos e burocráticos, o poder político (leia-se os sucessivos governos e em particular os sucessivos ministérios da educação) sempre pregou uma coisa e fez outra. Que a tua mão direita não saiba o que faz a tua mão esquerda. E nas escolas, embora se reclamasse mais autonomia, era também ela uma reclamação retórica. Porque, como lapidarmente mostrou Michel Crozier, o sistema burocrático embora prive os seus membros da liberdade acaba por os proteger das ameaças dos utentes e dos contextos e os desresponsabilizar uma vez que não são eles que decidem. Uns pensam, concebem, elaboram, definem regras universais (a maioria das vezes inaplicáveis e estúpidas) e outros executam. Não são, por isso responsáveis pela ineficiência e pela miséria dos resultados. É sempre, em última instância, o ministro que é responsável pois é dele que tudo parte. O ministro é o director-geral e o director da escola. Todos os outros na escala hierárquica são são seus ajudantes.Ora esta ordem é absurda porque é ineficaz, pessimista, retrógrada e contrária ao mero bom-senso dos princípios da sensatez, da subsidiariedade, da responsabilização, do profissionalismo. Sem autonomia não há educação. Há apenas jogo e simulacro.(Dentro de alguns de nós há uma vontade de reinventar o fazer dos dias, de poder ser AUTORES de histórias novas, mais imprevistas. Mais expostos, sabemos. Mas queremos o risco de defender algo que nasce dentro de nós. Provar outros possíveis, reconhecer fraquezas e impossíveis. Ensaiar respostas e responder por elas... Alguns de nós...)
July 2 2009, 4:56pm | Comments »
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Confiança, Lógica de
http://terrear.blogspot.com/2009/06/confianca-logica-de.html
Todo o sistema social precisa de ser confiável. Os cidadãos precisam de acreditar na qualidade dos serviços educativos que a escola presta. Precisam de confiar que os seus filhos são bem acolhidos, bem tratados, bem instruídos, bem socializados e estimulados. Sem a lógica da confiança não haveria sobrevivência social de um sistema.È por isso que o sistema educativo preciso de cultivar uma imagem de profissionalismo, de qualidade, de rigor. A formação e certificação de professores por instâncias universitárias; a acção da Inspecção; os Exames Nacionais são dispositivos e instrumentos promotores de uma imprescindível confiabilidade social.O problema é que para que o sistema seja merecedor de confiança, cultiva-se muitas vezes a lógica do simulacro e da aparência. O que interessa não é o que é, mas o que aparenta. Daí a cortina dos planos e dos relatórios, das cerimónias de envolvimento e da mediatização.Se o sistema quiser sobreviver tem de promover uma confiança real, autêntica, verdadeira. Tem de se abrir e mostrar os seus pontos fortes e fracos. Porque, ao fim e ao cabo, todos podemos ganhar com uma prática de abertura, condição necessária ao reconhecimento e à entre-ajuda. (JMA)
June 30 2009, 3:13pm | Comments »
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A arte de acabar com o voluntariado
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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃODecreto-Lei n.º 124/2009de 21 de MaioRegulamenta o trabalho voluntário a prestar por pessoal docente aposentado. Ou uma forma perversa de acabar com o pouco que haverá. Será difícil ver que esta regulamentação é um atestado de menoridade (a todos os níveis) às escolas? Será difícil ver que algumas regras únicas universais e absurdas podem acabar com o voluntariado?
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May 21 2009, 12:01pm | Comments »
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