Minha crónica no "Público" de hoje: Quando foram reconhecidas pela primeira vez manifestações do núcleo atómico no final do século XIX e quando esse núcleo foi descoberto no início do século XX não se poderia imaginar que o nuclear viesse a ter um papel tão fundamental nas nossas vidas. Basta dar dois exemplos: nos hospitais, a medicina nuclear oferece eficazes formas de diagnóstico e tratamento e, nas redes eléctricas, as centrais nucleares fornecem uma parte relevante da electricidade que consumimos.E, no entanto, se ninguém contesta as aplicações médicas da física nuclear, já a energia nuclear não tem gozado de boa fama, devido não só à sua utilização militar, nomeadamente a que pôs fim à Segunda Guerra Mundial, mas também a alguns acidentes na sua utilização para fins pacíficos, dos quais Chernobyl foi o mais terrível. A tal ponto que até a designação de um exame médico hoje vulgar, ressonância magnética nuclear, foi nalguns sítios convenientemente abreviada, com a retirada da última palavra. O termo “nuclear” deixou de estar inscrito, como se o seu ocultamento pudesse esconder a realidade central de todos os átomos.Neste quadro, depois de uma forte expansão inicial à escala planetária, a energia nuclear foi, nalguns países, alvo de moratórias ou interdições. Porém, nos tempos mais recentes, regressou à ordem do dia devido ao acelerado crescimento económico mundial, ao progressivo esgotamento das reservas de combustíveis fósseis e à crescente preocupação com o aquecimento global devido a gases de efeito estufa. Facto é que as centrais nucleares não emitem dióxido de carbono e, por isso, não contribuem para o aquecimento global. De certo modo a energia nuclear passou a ser vista como uma solução ecológica. Além disso, a tecnologia evoluiu de tal modo que essas centrais são hoje incluídas entre as alternativas mais seguras.Portugal conta-se entre os poucos países europeus que não construíram nenhuma central nuclear, apesar de importar uma grossa fatia da energia que consome (importa energia elécrica que, em parte, é produzida pelas oito centrais nucleares espanholas e pelas 49 francesas) e apesar de, a espaços, ter discutido a opção nuclear. Vai construir? O governo criou um tabu, ao cortar a discussão pública do tema. Fala em energias alternativas como a solar e a eólica, coisas decerto boas, tal como a poupança de energia, mas claramente insuficientes face às nossas necessidades actuais e futuras. E não quer que se fale de uma das alternativas energéticas...O assunto revela-se extremamente actual e merece ser discutido do modo mais racional possível, nas suas várias componentes: científica, técnica, social, económica e política. É discutido em todo o mundo e deve também sê-lo aqui. Para isso, e procurando contrariar o nosso conhecido défice de cultura científica, foi há pouco constituída a Associação de Divulgação do Nuclear, ADN. Não, o D do meio não significa Defesa, mas sim Divulgação. Pela minha parte, tendo aderido à ADN, gostaria de, tanto quanto possível, elucidar e ser elucidado. Não tenho posição nem a favor nem contra a construção de uma central nuclear, mas tenho posição absolutamente contra o impedimento dessa construção por um tabu irracional. Eliminar à partida uma possibilidade que outros consideram seria condenar-nos ao isolamento e ao défice.É mister ouvir os especialistas. Uma tomada de posição no ano passado da Sociedade Europeia de Física diz, preto no branco, que o nuclear pode e deve dar um contributo relevante para o portfolio de fontes energéticas. E o novo Secretário de Estado da Energia norte-americano, o Prémio Nobel da Física Steven Chu, interrogado sobre o assunto pela National Geographic, respondeu: Penso que o nuclear tem os seus problemas. Não resolvemos ainda a questão do armazenamento [dos resíduos] a longo prazo e temos de estar conscientes da questão da proliferação. Mas a segurança está melhor e vai melhorar mais e as centrais nucleares são muito melhores para o clima do que as centrais a carvão. Os cientistas não gostam de tabus!
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O TABU DO NUCLEAR
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/o-tabu-do-nuclear.html
April 9 2009, 5:18pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Did Early Global Warming Divert A New Glacial Age?
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/did-early-global-warming-divert-new.html
Já referi por algumas vezes que a acção humana deixou marcas indeléveis no nosso planeta muito antes do que a maioria assume, nomeadamente em Agosto referi o artigo da PNAS que sugeria ter sido a caça intensiva a causa da extinção em massa de animais pré-históricos em terras do TAZ.Uma das minhas leituras diárias, a ScienceDaily, publica hoje um artigo muito interessante sobre um tema que normalmente aquece as nossas caixas de comentários, as alterações climáticas e a acção humana.Ontem, no artigo «Cosmic Rays Do Not Explain Global Warming, Study Finds», a Sciencedaily dava conta de um estudo conjunto das Universidades de Oslo e da Islândia, do NILU (Norwegian Institute for Air Research) e do CICERO (Center for Climate and Environmental Research) que confirmava indicações anteriores de que os raios cósmicos não contribuem, pelo menos significativamente, para as alterações climáticas da Terra.No artigo de hoje, é discutida a comunicação à American Geophysical Union de Stephen Vavrus, um climatólogo da Universidade de Wisconsin que, em conjunto com John Kutzbach e Gwenaëlle Philippon, sugere que foi e tem sido a acção humana nos últimos 5000-8000 anos, ou seja, sensivelmente desde o advento da História, que evitou que vivamos numa nova era glaciar. Vale a pena ler todo o artigo, de que transcrevo a última parte:«But looking farther back in time, using climatic archives such as 850,000-year-old ice core records from Antarctica, scientists are teasing out evidence of past greenhouse gases in the form of fossil air trapped in the ice. That ancient air, say Vavrus and Kutzbach, contains the unmistakable signature of increased levels of atmospheric methane and carbon dioxide beginning thousands of years before the industrial age."Between 5,000 and 8,000 years ago, both methane and carbon dioxide started an upward trend, unlike during previous interglacial periods," explains Kutzbach. Indeed, Ruddiman has shown that during the latter stages of six previous interglacials, greenhouse gases trended downward, not upward. Thus, the accumulation of greenhouse gases over the past few thousands of years, the Wisconsin-Virginia team argue, is very likely forestalling the onset of a new glacial cycle, such as have occurred at regular 100,000-year intervals during the last million years. Each glacial period has been paced by regular and predictable changes in the orbit of the Earth known as Milankovitch cycles, a mechanism thought to kick start glacial cycles."We're at a very favorable state right now for increased glaciation," says Kutzbach. "Nature is favoring it at this time in orbital cycles, and if humans weren't in the picture it would probably be happening today."Importantly, the new research underscores the key role of greenhouse gases in influencing Earth's climate. Whereas decreasing greenhouse gases in the past helped initiate glaciations, the early agricultural and recent industrial increases in greenhouse gases may be forestalling them, say Kutzbach and Vavrus.Using three different climate models and removing the amount of greenhouse gases humans have injected into the atmosphere during the past 5,000 to 8,000 years, Vavrus and Kutzbach observed more permanent snow and ice cover in regions of Canada, Siberia, Greenland and the Rocky Mountains, all known to be seed regions for glaciers from previous ice ages. Vavrus notes: "With every feedback we've included, it seems to support the hypothesis (of a forestalled ice age) even more. We keep getting the same answer."»
December 18 2008, 8:17am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Alterações climáticas: a visão de um especialista
http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/alteraes-climticas-viso-de-um.html
J. J. Delgado Domingos, professor catedrático jubilado do Instituto Superior Técnico, é um dos cientistas portugueses mais respeitados nas áreas da Energia e do Ambiente. Ao longo de mais de três décadas realizou contribuições científicas notáveis nas áreas da Energia e desenvolvimento sustentável; no estabelecimento dos primeiros sistemas nacionais de Cálculo científico; da previsão meteorológica e modelação climática, em que é responsável por um dos sistemas de previsão mais avançados de Portugal. Liderou ainda, durante mais de uma década, uma das primeiras e mais influentes Licenciaturas em Engenharia do Ambiente de Portugal.Sendo um cientista de calibre mundial, o Prof. Delgado Domingos é acima de tudo um cidadão, nunca se furtando a uma participação cívica e social activas, sobretudo quando as suas qualificações lhe dão uma perspectiva privilegiada sobre os problemas.O DRN tem o prazer de apresentar em pré-publicação, com a gentil permissão do autor e do Reitor da UTL, a quem agradece, o seu magistral texto "Alterações climáticas", que constitui um capítulo do livro "A Energia da Razão" a publicar brevemente pela Gradiva.
November 28 2008, 9:44am | Comments »

