Uma crónica de Dolores Garrido para nos aquecer neste Inverno.Casa quase toda na penumbra. Luz acesa na sala e na cozinha. Móveis antigos. Jarras com flores. Secas, algumas. Verdes, as folhas das camélias e do azevinho. O cão a correr e a abanar a cauda de contente.O bicho já era velho mas nunca perdia a alegria. Só quando tinha estado doente. Nessa altura, lambia as mãos da dona, sem se levantar, por falta de força nas patas. E o olhar esvaziava-se, implorante e débil.Reformada há vários anos, ela via a casa esvaziar-se das vozes familiares. Só a mobília e os objectos se mantinham nos lugares. E o cão enroscado sempre na carpete bem junto ao sofá. Com suspiros de sonolento alívio.No dia-a-dia, a casa era quase só para ela e para o cão. Os lugares foram criando memória. Como os objectos de relembradas histórias. Dos sítios donde tinham vindo e das pessoas a eles ligadas.A casa tinha um jardim por onde o cão corria. Porém, mantinha-se rente ao portão quando pressentia o regresso da dona.Chegando a casa, os sons repetiam-se. O meter da chave. O empurrar da porta. O pousar da carteira. O tirar dos sapatos. O abrir da torneira. O correr da água. A água a cair no copo. Logo a seguir, o caminhar até ao telefone e o marcar asterisco mais duzentos. Para ver se a voz invariável anunciava:- Tem uma mensagem nova.Se assim fosse, sentiria mais alguma companhia.Com o cão e as flores, a comunicação era fácil. Bastava olhá-los e tocar-lhes.Ao cão fazia festas e às flores também, ajeitando a terra à sua volta.Era um fim de tarde frio de início de Janeiro. Pegou num livro. Antes de o abrir, aproximou-se do telefone e marcou, como habitualmente, asterisco mais duzentos. A voz acetinada do outro lado fez-se ouvir, repetindo o que muitas vezes anunciava:- Não tem mensagens novas.Ela pousou o telefone sem desolação. E, contrariamente ao habitual, logo a seguir marcou um número.- Feliz Ano Novo, disse em tom de celebração.Do outro lado - sentia-se na voz - também alguém ficava um pouco mais feliz.Dolores GarridoJaneiro 2010
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
FELIZ ANO NOVO!
http://terrear.blogspot.com/2010/01/feliz-ano-novo.html
January 4 2010, 9:44am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
ANO NOVO
http://terrear.blogspot.com/2009/12/ano-novo.html
Para você ganhar belíssimo Ano Novocor de arco-íris, ou da cor da sua paz,Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido(mal vivido ou talvez sem sentido)para você ganhar um anonão apenas pintado de novo, remendado às carreiras,mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,novoaté no coração das coisas menos percebidas(a começar pelo seu interior)novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,mas com ele se come, se passeia,se ama, se compreende, se trabalha,você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,não precisa expedir nem receber mensagens(planta recebe mensagens?passa telegramas?).Não precisa fazer lista de boas intenções**para arquivá-las na gaveta.Não precisa chorar de arrependidopelas besteiras consumadasnem parvamente acreditarque por decreto da esperançaa partir de janeiro as coisas mudeme seja tudo claridade, recompensa,justiça entre os homens e as nações,liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,direitos respeitados, começandopelo direito augusto de viver.Para ganhar um ano-novoque mereça este nome,você, meu caro, tem de merecê-lo,tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,mas tente, experimente, consciente.É dentro de você que o Ano Novocochila e espera desde sempre.Carlos DrummondDezembro/1997
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December 30 2009, 3:31pm | Comments »
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