A atitude é a nossa perspectiva pessoal sobre nós próprios e as nossas circunstâncias - a nossa disposição e o nosso ponto de vista emocional. São muitas as coisas que afectam as nossas atitudes, como, por exemplo, o nosso carácter, a nossa personalidade, a nossa auto-estima, a percepção que temos de quem nos rodeia e das suas expectativas em relação a nós. Um dos indicadores interessantes da nossa atitude elementar é a importância que atribuímos à sorte nas nossas vidas.Aqueles que gostam do que fazem costumam descrever-se a si próprios como sortudos. Os que não se consideram bem-sucedidos costumam dizer que são azarados. Todos nós damos maior ou menor relevância aos acidentes e ao acaso. Mas a sorte é muito mais do que um mero acaso. As pessoas de sucesso costumam partilhar atitudes similares, tais como perseverança, auto confiança, optimismo, ambição e frustração. O modo como percebemos as nossas circunstâncias, criamos e aproveitamos as oportunidades depende em grande parte daquilo que esperamos de nós próprios. KenRobinson, obra citada
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Eu Quero
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November 17 2010, 1:01pm | Comments »
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Eu Tenho
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As bases constitutivas do elemento, isto do potencial de cada ser humano, retomando a obra de Ken Robinson.Uma aptidão é uma capacidade natural para fazer algo. É um senti-mento intuitivo ou uma compreensão do que essa coisa é, de como fun¬ciona e de como pode ser usada. Gillian Lynne tem uma aptidão natural para a dança, Matt Groening para contar histórias e Paul Samuelson para a economia e a matemática. As nossas aptidões são altamente pessoais. Podem estar direccionadas para actividades gerais, como a matemática, a música, o desporto, a poesia ou a teoria política. Também podem estar direccionadas para áreas específicas: não para a música em geral, mas para o jazz ou o rap; não para instrumentos de sopro em geral, mas para a flauta; não para a ciência, mas para a bioquímica; não para o atletismo, mas para o salto em comprimento.Ao longo deste livro, irá conhecer pessoas com uma profunda com-preensão de todo o tipo de coisas. Não são boas em tudo, mas numa coisa em particular. Paul Samuelson é naturalmente bom a matemática. Outros não.Por sinal, faço parte desses outros. Nunca fui muito bom a matemática e fiquei feliz por poder pôr essa disciplina de parte quando acabei a escola. Quando tive filhos, a matemática reergueu-se como um monstro que eu julgava morto. Uma das nossas responsabilidades enquanto pais é ajudarmos os nossos filhos nos trabalhos de casa. Podemos fazer bluif durante algum tempo, mas no fundo sabemos que chegará o dia da verdade.Até completar doze anos, a minha filha Kate pensava que eu sabia tudo. Era uma ideia que me agradava alimentar. Quando era pequena, pedia-me ajuda sempre que se deparava com um problema de inglês ou matemática. Eu tirava os olhos do que quer que estivesse a fazer, esbo¬çava um sorriso confiante, punha um braço à sua volta e dizia-lhe: «Bem, vamos lá ver», fingindo partilhar as suas dificuldades para que ela não se sentisse tão mal por não perceber. Então, ela fixava-me com um ar de adoração enquanto eu passava sem esforço, como um deus da matemática, pela tabuada dos quatro e por subtracções simples.Um dia, já com catorze anos, chegou a casa com uma folha cheia de equações do segundo grau. Senti uns suores frios que me eram familiares. Nessa altura, apresentei-lhe os métodos de aprendizagem por descoberta. «Kate, não faz sentido eu dar-te as respostas», disse-lhe. «Não é assim que se aprende. V ais ter de te desenrascar sozinha. Estarei lá fora a beber um gin tónico. E olha, quando acabares, não vale a pena mostrares-me as res¬postas. É para isso que os professores servem.»Na semana seguinte, trouxe-me um cartoon que tinha encontrado numa revista. «É para ti», afirmou. A banda desenhada mostrava um pai a ajudar a filha nos trabalhos de casa. No primeiro quadrado, o pai estava inclinado sobre o ombro da rapariga e perguntava-lhe: «O que é que tens de fazer?» «Tenho de encontrar o menor denominador comum», respondia-lhe ela no segundo quadrado. Ao que o pai retorquia: «Ainda andam à procura disso? Já andavam à procura dessa coisa quando eu estava na escola». Revejo-me perfeitamente nele.Contudo, para alguns, a matemática é bela e atraente, tal como a poesia e a música o são para outros. Descobrir e desenvolver as nossas capacidades criativas é um dos aspectos essenciais para nos tornarmos quem realmente somos. Só saberemos quem podemos ser quando soubermos o que podemos fazer. Ken Robinson, obra citada
November 16 2010, 1:16pm | Comments »
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O Que é o Elemento?
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O Elemento é o ponto onde a aptidão natural e a paixão pessoal se encontram. O aspecto comum entre as pessoas referidas neste capítulo e a maioria das pessoas referidas ao longo deste livro é o facto de fazerem aquilo de que gostam, o que as torna mais autênticas. Consideram que o tempo passa de maneira diferente e que estão mais vivas, mais concentradas, mais entusiasmadas do que nunca.Dentro do seu Elemento, são levadas para além das experiências comuns de prazer e felicidade. Não estamos apenas a falar de risos, bons momentos, pores-do-sol e festas. Quando entramos no nosso Elemento, ligamo-nos a algo fundamental para a nossa identidade, o nosso desígnio e o nosso bem-estar. Recebemos um sentido de auto-revelação, com¬preendemos quem realmente somos e o que é suposto fazermos das nossas vidas. É por isso que muitas das pessoas neste livro descrevem a descoberta do seu Elemento como uma epifania. Como encontramos o Elemento em nós próprios e nos outros? Não há uma fórmula rígida. O Elemento é diferente para cada um de nós. Aliás, é essa a questão. Já agora, não estamos limitados a um Elemento. Alguns poderão sentir uma paixão idêntica por uma ou mais actividades e serem igualmente bons em todas elas. Outros poderão ter uma única paixão e aptidão que os preenche mais do que qualquer outra coisa. Não existem regras. Mas há, por assim dizer, elementos do Elemento que nos fornecem um esquema que nos permite saber o que procurar e o que fazer. O Elemento tem duas características principais e são necessárias duas condições para se entrar nele. As características são aptidão e paixão. As condições são atitude e oportunidade. A sequência é mais ou menos esta: eu tenho; eu adoro; eu quero; onde está? Ken Robinson, obra citada
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November 14 2010, 3:04pm | Comments »
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Descobridores de talentos
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As crianças que entrarem agora para a escola reformar-se-ão em 2070. Ninguém faz ideia de como será o mundo daqui a dez anos, quanto mais em 2070. Existem duas grandes forças de mudança: a tecnologia e a demografia.
A tecnologia - nomeadamente a tecnologia digital - está a desenvolver-se a um ritmo que muitos mal conseguem acompanhar. Também está a contribuir para aquilo a que alguns especialistas denominam o maior hiato geracional desde o rock and roll. As pessoas com idades superiores a trinta anos nasceram antes de a revolução digital se iniciar.
Aprendemos a usar a tecnologia digital - portáteis, máquinas fotográficas, PDA, Internet - enquanto adultos, o que foi quase como aprender uma nova língua. A maior parte de nós desenrasca-se bem e alguns até se tornaram peritos. Enviamos e-mails, fazemos PowerPoints, navegamos.
As pessoas que refiro neste livro não se dedicaram às suas paixões na expectativa de ganharem dinheiro. Dedicaram-se-lhes porque não conseguiam imaginar-se a fazer outra coisa na vida. Descobriram aquilo para que tinham nascido e empenharam-se em conhecer a fundo as variantes dessas profissões. Se amanhã o mundo fosse virado do avesso, desenvolveriam os seus talentos de modo a adequarem-se a essas mudanças. Arranjariam uma forma de continuar a fazer as coisas que as colocam no seu Elemento, pois teriam uma compreensão orgânica do modo como os seus talentos se adaptam a um novo meio envolvente.
Muitos põem de parte as suas paixões a fim de se dedicarem a coisas de que não gostam, mas que lhes dão segurança financeira. Todavia, o trabalho pelo qual optamos com a justificação de que nos «paga as contas» pode facilmente desaparecer na próxima década. Se não aprendemos a pensar criativamente e a explorar as nossas verdadeiras capacidades, o que será de nós?
Mais concretamente, o que será dos nossos filhos se continuarmos a prepará-los para a vida com base em modelos educativos obsoletos? É muito provável que venham a ter múltiplas carreiras ao longo das suas vidas profissionais, e não apenas múltiplos trabalhos. Muitos deles terão certamente empregos que ainda desconhecemos. Não será, pois, nossa obrigação encorajá-los a explorar o maior número possível de caminhos para que descubram os seus verdadeiros talentos e paixões? Tendo em conta que a única coisa que sabemos sobre o futuro é que será diferente, seria inteligente da nossa parte se fizéssemos o mesmo. Temos de pensar de maneira diferente no que diz respeito às capacidades humanas e à forma como as devemos desenvolver para podermos enfrentar esses desafios.
Temos de abraçar o Elemento.
Ken Robinson, Obra citada.
November 14 2010, 7:30am | Comments »
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Imaginação
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"Há alguns anos, ouvi uam história maravilhosa que gostava muito de partilhar. Uma professora do ensino básico estava a dar uma aula de desenho a um grupo de alunos de seis anos de idade. Ao fundo da sala, sentou-se uma menina que, habitualmente, não era muito atenta na escola. Na aula de desenho, aconteceu o contrário. Durante mais de vinte minutos, a menina ficou sentada, abraçada a uma folha de papel, completamente absorta no que estava a fazer. A professora achou aquilo fascinante. Por fim, perguntou-lhe o que estava a desenhar. Sem tirar os olhos da folha, a menina disse: "Estou a desenhar uma imagem de Deus". Surpreendida, a professora insistiu: "Mas ninguém sabe como Deus é".Ao que a menina respondeu: "Todos saberão daqui a pouco".Ken Robinson e Lou Aronica (2010). O Elemento. Porto: Porto EditoraAssim começa este belo livro de Ken Robinson e comunicador por excelência que aquii já convoquei, por diversas vezes.
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November 13 2010, 5:28am | Comments »
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Pensadores da Educação - um mundo a descobrir
http://terrear.blogspot.com/2010/10/pensadores-da-educacao-um-mundo.html
Thinkers on Education in Electronic FormatThe IBE offers access to the profiles above, together with the profiles which have been published in subsequent issues of PROSPECTS and are available in English, French and Spanish.http://www.ibe.unesco.org/en/services/online-materials/publications/thinkers-on-education.html?type=tahrget=_t(com o agradecimento ao JPA)
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October 15 2010, 5:50am | Comments »
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Uma Política de Retraimento
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Retraimento? Se a modernidade escolar se definiu por transbordamento, é possível que a contemporaneidade da escola se caracterize por um processo de retraimento. Eu sei que esta “contenção” não nos deve fazer esquecer as aquisições da modernidade sobre a educação integral, a importância dos contextos sociais ou a autoformação, entre tantos outros temas que estão inscritos no nosso património pedagógico.Mas a escola não pode tudo. E, por isso, parece-me imprescindível que ela se reencontre como organização centrada na aprendizagem, partilhando com outras instâncias um trabalho educativo mais amplo. Não quero separar o que está, inevitavelmente, ligado. Pretendo, sim, valorizar uma educação escolar preocupada, fundamentalmente, com a aprendizagem dos alunos. Esta opção permitir-nos-á concentrar os esforços e libertar outras dimensões da formação de uma matriz excessivamente escolarizante.Uma sociedade que se diz do conhecimento tem de criar redes e instituições que, para além da escola, se ocupem da formação, da cultura, da ciência, da arte, do desporto. Estou a pensar no que tenho designado por espaço público da educação, um espaço que integra a escola como um dos seus pólos principais, mas que é ocupado por uma diversidade de outras instâncias familiares e sociais.Re-instituir a escola obriga-nos a imaginar novas modalidades de organização, formais e informais, num esforço lento e persistente de inovação. Ao gesto grandioso prefiro a paciência de treinar todos os dias, pois “se não realizarmos este treino diário perdemos a forma, perdemos a pujança, ficamos incapazes de ganhar a prova” (António Sérgio, 1929).É modesto o que vos proponho? Talvez. Mas depois de todos os excessos e de todas as ilusões é preciso ser prudente.António Nóvoa, Obra citada infraNa modéstida do pensar, toda uma interpelação exigente.
April 11 2010, 12:12pm | Comments »
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Canção do óbvio
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Paulo FreireEscolhi a sombra desta árvorePara repousar do muito que fareiEnquanto esperarei por tiQuem espera na pura esperaVive um tempo de espera vãPor isto, enquanto te esperoTrabalharei os campos eConversarei com os humanosSuarei meu corpo, que o sol queimará;Minhas mãos ficarão calejadasMeus pés aprenderão o mistério dos caminhosMeus ouvidos ouvirão maisMeus olhos verão o que antes não viamEnquanto esperarão por tiNão te esperarei na pura esperaPorque o meu tempo de espera é umTempo de quefazerdesconfiarei daqueles que virão dizer-me,em voz baixa e precavida:é perigoso agiré perigoso falaré perigoso andaré perigoso esperar, na forma em que esperasporque esses recusam a alegria de tua chegadaDesconfiarei também daqueles que virão dizer-meCom palavras fáceis, que já chegaste,Porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,Antes te denunciam.Estarei preparando a tua chegadaComo o jardineiro prepara o jardimPara a rosa que se abrirá na primavera.Encontrada aqui. Palavras para uma espécie de credo pedagógico.
January 2 2010, 10:42am | Comments »
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A abertura na autonomia e pela autonomia
http://terrear.blogspot.com/2009/12/abertura-na-autonomia-e-pela-autonomia.html
Os estabelecimentos escolares deveriam convidar pessoas do exterior a participar nas suas deliberações e actividades, coordenar a sua acção com a de outras instituições de difusão central, passando assim a constituir o centro de uma nova vida associativa, lugar de exercício prático de uma verdadeira instrução cívica; paralelamente, seria necessário consolidar a autonomia do corpo docente, revalorizando a sua função específica e reforçando a competência dos professores. (...)A escola não pode nem deve ser o único lugar de formação. Não pode nem deve pretender ensinar tudo já que a transmissão dos saberes não pode, nem de facto nem de direito, ser monopolizada por uma única instituição, é necessário ter em conta a rede de lugares de formação complementares, no interior da qual deve ser definida a função específica da escola. Dada a crescente importância das acções de difusão cultural que se exercem fora da instituição escolar - não só através da televisão, mas também do teatro, do cinema, dos centros de juventude, dos centros culturais, etc. -, ver-se-ia certamente aumentar o rendimento da acção escolar se esta se integrasse consciente e metodicamente no universo das acções culturais exercidas através de outros meios de difusão. Nesse sentido, seria indispensável, quer à escala nacional, quer à escala das pequenas unidades locais, estabelecer a articulação entre todas as formas de difusão cultural e favorecer, pelo menos ao nível das pequenas cidades, a coordenação da acçâo escolar, não apenas com a das diferentes instituições de difusão cultural (bibliotecas, museus, orquestras, etc.), mas também com a dos diferentes agentes de produção e de difusão culturais (professores, artistas, escritores, investigadores ... ). Isso implicaria a superação dos obstáculos técnicos, financeiros e sobretudo burocráticos ou jurídicos (nomeadamente no domínio da responsabilidade civil), para não falar das resistências psicológicas, em resumo, obstáculos de toda a ordem que actualmente bloqueiam esse tipo de intercâmbio, impedindo em particular a participação benévola ou remunerada no ensino de personalidades do mundo artistico, científico ou profissional. (...)A função própria da acção escolar e a escolha dos conteúdos ensinados devem ser repensadas tendo em conta o conjunto das instituições de difusão complementares e concorrentes, quer para evitar as duplicações, quer para concentrar o esforço pedagógico nos domínios em que a acção da escola é insubstituível. A escola deve dirigir prioritariamente os seus esforços no sentido da inculcação das disposições gerais e transponíveis que só pela repetição e exercício podem ser adquiridas. Com efeito, só ela pode transmitir, por um lado, os instrumentos intelectuais que condicionam não só a compreensão de todas as mensagens e a integração racional de todos os conhecimentos, mas também a síntese critíca dos saberes susceptíveis de serem adquiridos por outras vias, saberes ou semi-saberes frequentemente dispersos e fragmentários, e, por outro, as condições mais ou menos aleatórias da sua aquisição, Pierre Bourdieu, obra citada infra
December 4 2009, 12:43pm | Comments »
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A diversificação das formas de excelência
http://terrear.blogspot.com/2009/12/diversificacao-das-formas-de-excelencia.html
O ensino deveria mobilizar todos os meios de combater a visão monista da "inteligência" que leva a hierarquizar as diferentes formas de realização das capacidades em relação a uma delas, devendo assim multiplicar as formas de excelência cultural socialmente reconhecidas. Se o sistema escolar não detém o perfeito domínio da hierarquia das competências de que é o garante, já que o valor das diferentes formações depende fundamentalmente do valor dos postos a que dão acesso, não é, contudo, desprezávelo efeito de consagração que ele exerce. Esforçar-se por aumentar ou abolir as hierarquias entre as diferentes formas de aptidão, no funcionamento institucional (por exemplo, os coeficientes) como nos espíritos dos professores e dos alunos, seria um dos meios mais eficazes (nos limites do sistema de ensino) de contribuir para a redução das hierarquias puramente sociais. Um dos vícios mais notórios do actual sistema de ensino consiste no facto de este tender, cada vez mais fortemente, a conhecer e a reconhecer uma única forma de excelência intelectual, aquela que a secção C (ou S) dos liceus (1) e o seu prolongamento nas grandes escolas científicas representam. Pelo privilégio cada vez mais absoluto que confere a uma determinada técnica matemática, tomada como instrumento de selecção ou de eliminação, o sistema de ensino tende a apresentar todas as outras formas de competência como inferiores. Os detentores destas competências mutiladas estão, assim, condenados a uma experiência mais ou menos infeliz, não só da cultura que receberam, como da cultura escolarmente dominante (residindo aí, sem dúvida, uma das origens do irracionalismo que actualmente floresce. Quanto aos detentores da cultura socialmente considerada como superior, também eles se acham cada vez mais condenados, excepto no caso de um esforço inaudito e de condições sociais muito favoráveis, à especialização prematura e a todas as mutilações que ela acarreta. Por razões intrinsecamente cientificas e sociais, seria necessário, não apenas combater todas as formas, mesmo as mais subtis, de hierarquização das práticas e dos saberes, nomeadamente as que se estabelecem entre o "puro" e o "aplicado", entre o "teórico" e o "prático" ou o "técnico", particularmente fortes na tradição escolar francesa, mas também impor o reconhecimento social de uma multiplicidade de hierarquias de competência distintas e irredutíveis. Quer o sistema de ensino, quer a investigação, são vítimas, a todos os níveis, dos efeitos desta dívisão hierárquica entre o "puro" e o "aplicado", divisão que se estabelece entre as disciplinas e no seio de cada disciplina e que é, em grande parte, uma forma transformada da hierarquia social entre o "intelectual" e o "manual". Daí resultam duas perversões que importa combater metodicamente por uma acção sobre as instituições e sobre as mentalidades: em primeiro lugar, a tendência para o formalismo que esmaga certos espíritos; em segundo lugar, a desvalorização dos saberes concretos, das manipulações práticas e da inteligência prática que lhes está associada. Um ensino harmonioso deveria realizar um justo equilíbrio entre, por um lado, o exercício da lógica racional, através da aprendizagem dum instrumento de pensamento como a matemática, e, por outro, a prática do método experimental, sem esquecer nenhuma das formas de destreza manual e de habilidade corporal. A tónica poderia ser posta nas formas gerais de pensamento pelas quais, ao longo dos séculos, se foram constituindo as ciências e as técnicas. Se a matemática nasceu na Grécia, a nossa ciência só póde constituir-se verdadeiramente 2000 anos depois num tecido cuja teia seria a teoria, frequentemente de tipo matemático, e a trama a experimentação, graças a um vaivém incessante da hipótese teórica à experiência que a infirma ou a confirma.Pierre Bourdieu, em texto antológico e ainda muito actual (Proposições para o ensino do futuro). A realidade continua a resistir a um horizonte e a uma prática muita mais educativa e emancipadora.
December 4 2009, 12:24pm | Comments »


