“- Anda brincar comigo, propôs-lhe o principezinho. Estou tão triste…-Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.- Há! Perdão, disse o principezinho.- Mas, depois de ter reflectido, acrescentou:-Que significa “cativar”?-Tu não deves ser daqui, disse a raposa. Que procuras?-Procuro os homens, disse o principezinho. Que significa “cativar”?-Os homens, disse a raposa, têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?-Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa “cativar”?-É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa “criar laços…”-Criar laços?-Isso mesmo, disse a raposa. Para mim, não passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Para ti, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se me cativares, precisaremos um do outro. Serás para mim único no mundo. Serei única no mundo para ti…”(…)-Cativa-me, por favor, disse ela.-Tenho muito gosto, respondeu o principezinho, mas falta-me tempo. Preciso de descobrir amigos e conhecer muitas coisas.-Só se conhecem as coisas que se cativam, disse a raposa. Os homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada. Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me.-Como é que hei-de fazer?, disse o principezinho.Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, Lisboa: Editorial Aster
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Cativar
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December 31 2010, 8:21am | Comments »
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O outro lado
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Por José SaramagoComo serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.(via Amélia Pais)
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November 18 2010, 12:58pm | Comments »
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A Resposta é
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"Senhor Dragão! Senhor Dragão!! Tende misericórdia, não me deixeis assim...! Suplicou o Rei; e, depois de muito insistir conseguiu acordar de novo a criatura. "De modo que ainda continuas aí, naco humano" resmungou o Dragão. "Começas a aborrecer-me com os teus gritos. Além disso, só tu fomentaste a tua desgraça e não vejo por que razão terei de ajudar-te... Mesmo assim, farei alguma coisa por ti. Vou colocar-te uma adivinha cuja resposta correcta te revelará o destino que te espera. Quem sabe, pode ser que, conhecendo o teu futuro, consigas mudá-lo. Estás disposto a jogar?"O Rei pensou que tinha pouco a ganhar, mas também nada a perder, e concordou agitando vigorosamente a sua cabeça translúcida. Então o Dragão semicerrou os olhos e declarou: "Esta é a charada: quando tu me nomeias, já não estou." O monarca ficou perplexo. Na sua cabeça, deu voltas ao enigma durante muito tempo, como quem faz rodar um caroço de azeitona dentro da boca, e estava quase a declarar-se vencido quando, de repente, a solução se iluminou no seu espírito. Estremeceu, assustado com o que entrevira. E depois limpou a voz trémula, olhou para o Dragão e disse: "A resposta éFinal do romance de Rosa Montero. História do Rei Transparente. Porto: ASA
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November 13 2010, 3:51pm | Comments »
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Terceiras Pessoas
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August 3 2010, 3:12pm | Comments »
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PROMESSA
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Porque há os escritores que se admiram e os que se amam, inevitável a leitura deste romance inédito (1947) do autor de Para Sempre. Não é, certamente, um romance interpelante e comovente, como quase todos, desde Aparição (1958). E contudo: "Um contínuo veio separá-los. O reitor chamava o homem.- Diga ao senhor reitor que vou daqui a bocadinho. Pois não quer saber? - clamou para Sérgio: - o sujeito quer que eu saia deste liceu. Que os alunos não me têm respeito. Que devo concorrer a um liceu da província. Se não, que me corre. Pois que corra. Enfim, tenho de lá ir. Mas veja o meu amigo...E recuou um passo, de braços abertos como num púlpito. Por pouco o não atropelava o Machado, esse professor modelo, que irrompia, doido, pelo corredor fora, sobraçando duas pilhas de cadernos. Tenho de falar deste sujeito. Fica para outra vez. (p. 43)
July 11 2010, 10:45am | Comments »
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Saramago
http://terrear.blogspot.com/2010/06/saramago.html
"Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas."José Saramago, Memorial do Convento, p. 329
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June 20 2010, 3:08pm | Comments »
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Evocar Camões
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December 27 2009, 11:47am | Comments »
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Bailote
http://terrear.blogspot.com/2009/12/subitamente-beira-de-um-monte-um-homem.html
Subitamente, à beira de um monte, um homem de pelico ergueu a mão ao carro. Eram três ou quatro casas apinhadas num terreiro. Moura parou e reconheceu o homem:- Você outra vez? Então o que é que há de novo?- Eu sabia que o senhor doutor ia ali à dona Alzira e pus-me aqui à espera.- Mas então o que é que há?O homem olhou-me para ver até que ponto eu 'podia participar do seu segredo.- Se é preciso, eu saio - declarei.- Não, acho que não - disse Moura. - O senhor doutor pode ouvir? - perguntou.- Ele também é doutor? - adiantou o homem raiado de esperança.- É doutor, mas não é médico.. Diga lá então.E o homem contou uma história incrível. Moura já a conhecia, porque fez referência a uma consulta na cidade. Mas de nada lhe valeu, porque o homem queria contá-la outra vez desde o princípio. Receava decerto que lhe tivesse falhado algum pormenor e que isso lhe destruísse a esperança. Contava-a agora de novo:- Quando foi da sementeira, o patrão Arnaldo disse-me: «Ó Bailote, tu já não tens a mesma mão para semear.» Porque eu, senhor doutor, tive sempre uma mão funda, assim grande, como um cocho de cortiça. Eu metia a mão ao saco e vinha cheia de semente. Atirava-a à terra e semeava uma jeira num ar.Conta, bom homem, conta o teu sonho perdido. Tinhas, pois, uma boa mão de semeador bíblico. Atiravas a semente e a vida nascia a teus pés. Eras senhor da criação e, o universo cumpria-se no teu gesto. E, enquanto o homem falava, eu olhava-lhe a face escurecida dos séculos, os olhos doridos da sua divindade morta. Imaginava-o outrora dominando a planície com a sua mãopoderosa. A terra abria-se à sua passagem como à passagem de um deus. A terra conhecia-o seu irmão como à chuva e ao sol, identificado à sua força de biliões.- Agora o patrão diz que eu já não tenho mão.E mostrava a sua desgraçada mão, envelhecida, carbonizada de anos e soalheira. Moura olhou-me e sorriu-me numa cumplicidade.- Olhe. Faça ginástica aos dedos. Assim.E exemplificava. De olhos escorraçados, o homem lamentou-se:- Tenho feito, senhor doutor. Mas o patrão Arnaldo diz que eu já não tenho mão. Veja, senhor doutor, então isto não será ainda uma mão de homem?E tentava cavá-la fundo, com os dedos gretados no ar.- Então que quer que eu lhe faça?- Dê-me um remédio, senhor doutor. Um remédio que me ponha a mão como a tinha. Assim grande, assim funda, assim, assim... .E moldava no ar a capacidade de uma mão de Jeová. Fios de sol escorriam de uma azinheira perto da estrada. Os campos repousavam no grande e plácido Outono. E pelo vasto céu azul, sem a mancha de uma nuvem, ecoava levemente a última memória de Verão. Moura pôs o motor a trabalhar.- Então passe muito bem - disse ao semeador. E o carro arrancou, erguendo o pó do caminho.Mas a visita à doente foi breve. Era uma casa fidalga perdida no descampado. Espectros de um ou outro homem ou mulher olhavam-me no carro parado, olhavam o silêncio em redor. Regressámos enfim pelo mesmo caminho. Quando, porém, chegámos ao monte do semeador, saltou-nos à frente um grupo de pessoas numa sarilhada de gritos, de imprecações, braços no ar, braços apontados para uma loja. Moura saiu do carro e o magote de gente seguiu-o. Fiquei só. Mas o médico regressava daí a pouco, pálido, transtornado.- Que aconteceu?Ele não respondeu logo, conduzindo o carro aos tropeções. E só quando o monte se não via já me declarou:- O homem enforcou-se.Vergílio Ferreira, Aparição, Lx, Bertrand, 14ª edição, 1979, pp. 53-55 (1ª edição 1959)
December 19 2009, 11:01am | Comments »
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Assembleia Municipal
http://terrear.blogspot.com/2009/11/assembleia-municipal.html
Foi hoje a minha estreia a presidir à reunião extraordinária da Assembleia Municipal de Gondomar. Quase 4 horas de trabalho intenso. Quarenta deputados municipais e a mesa de 3 elementos. Presidente da Câmara (impedido de estar até ao final) e quase toda a vereação. Diversos, polémicos e relevantes pontos de agenda. Obrigado a aprender rapidamente. E cometendo poucos (espero) erros. Sublinho 3 evidências: o debate e o confronto de pontos de vista é sempre salutar. O respeito pelos outros é possível. Todos podemos aprender para melhorar da próxima vez: a mesa da Assembleia, a Câmara, e os deputados municipais. E por diversas vezes me lembrei de um dos meus "mestres" - Antero de Quental:Não posso pois apelar para a fraternidade das ideias: conheço que as minhas palavras não devem ser bem aceites por todos. As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. Que seria dos homens se, acima dos ímpetos da paixão e dos desvarios da inteligência, não existisse essa região serena da concórdia na boa-fé e na tolerância recíproca! Uma região onde os pensamentos mais hostis se podem encontrar, estendendo-se lealmente a mão, e dizendo uns para os outros com um sentimento humano e pacífico: és uma consciência convicta! É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e. se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e tolerância. (...)
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November 27 2009, 7:40am | Comments »
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Pão, Conciência, Plenitude
http://terrear.blogspot.com/2009/11/pao-conciencia-plenitude.html
"Chico endireitou-se, fez peito. Era tremendo a fazer peito. Porque tudo se deslocava para uma questão de músculos.- Vivemos num época formidável - disse ele.- A única verdade a conquistar é a de que todos os homens têm direito a comer.- Quando é que afirmei que o homem deve passar fome? Mas, se em todas as épocas se tivesse pensado na melhoria económica, hoje não seríamos homens: seríamos apenas máquinas. O meu humanismo não quer apenas um bocado de pão; quer uma consciência e uma plenitude."Vergílio Ferreira. Aparição. Lx: Bertrand, p. 64
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November 6 2009, 5:02am | Comments »





