Nas vésperas do ano em que comemoram cem anos da descoberta do núcleo atómico, obra do físico Ernest Rutherford, deixo aqui um excerto de uma peça que um músico contemporâneo com formação em física - o britânico Edward Cowie - compôs em sua homenagem: "Rutherford Lights".
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As Luzes de Rutherford
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December 30 2010, 10:29am | Comments »
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As artes do Colégio
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O Colégio das Artes da Universidade de Coimbra organiza um ciclo de conferências subordinado ao título As Artes do Colégio, no âmbito do seu programa de Doutoramento em Arte Contemporânea.O ciclo, que se prolongará durante todo o ano lectivo de 2010-2011, terá a próxima sessão no dia 10 de Dezembro, na sala 3 do Claustro do Colégio das Artes, às 14h.30, que tem por título Pintura, Protocolo e Representação. Serão conferencistas Delfim Sardo e João Queiroz.Nas próximas sessões, a realizar nos dias 14 e 28 de Janeiro, pelas 14h.30, serão conferencistas Luís Umbelino e Pedro Pousada, e Rita Marnoto e Nuno Grande, respectivamente.
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December 9 2010, 4:03am | Comments »
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Zoom científico
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Sou um frequente visitante do excelente blog dedicado à Ciência da revista Wired. O Wired Science tem uma equipa que sabe escrever divulgação científica, com rigor, com clareza e com uma enorme capacidade sedutora. Desta vez, a beleza está não só texto mas também na imagem. Aliar a arte da fotografia de altíssima resolução com o que a Ciência daí pode extrair foi o grande objectivo do Fine International Conference on Gigapixel Imaging for Science e o resultado foram 8 mosaicos plenos de sofisticação técnica e científica. Uma maneira diferente de olhar a Ciência. Literalmente!
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November 23 2010, 2:31pm | Comments »
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O HOMEM DE VITRÚVIO
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Minha crónica no "Sol" de hoje:Podemos encontrar o homem de Vitrúvio no nosso bolso, numa das faces de uma moeda de euro. Essa moeda foi cunhada em Itália, pois o autor da imagem original, que data de 1490, foi o artista e inventor italiano Leonardo Da Vinci, que o governo do seu país natal quis assim homenagear.Leonardo é, para muitos, o maior génio da história. E o seu génio, que chegou até nós tanto através das criações artísticas como através das criações tecnológicas, condensa-se na representação que fez de um homem nu (há quem diga que é um auto-retrato) contido simultaneamente dentro de uma circunferência e de um quadrado. O homem toca graciosamente na circunferência ou no quadrado conforme está com as pernas e os braços em V ou com as pernas unidas e os braços na horizontal. O centro da circunferência e do quadrado não coincidem: o primeiro está no umbigo, perto do centro de gravidade do corpo, e o segundo está no sexo.A representação, cujo original se encontra na Galeria da Academia em Veneza, pode ter sido inspirada, em última análise, no filósofo grego Protágoras de Abdera, que foi quem disse no século V a.C.: O homem é a medida de todas coisas. Mas não há dúvida que Leonardo foi influenciado pela obra do arquitecto e engenheiro romano Marcus Vitruvius Pollio, que escreveu, no século I a. C., Dez Livros de Arquitectura, uma vez que glosa esse autor, na sua escrita para ser lida ao espelho, no manuscrito que contém o desenho (daí o nome de ”homem de Vitrúvio”). O objectivo comum era a busca das proporções perfeitas. O simbolismo é a integração do homem no mundo, o mundo que está afinal escrito em linguagem matemática.É, por isso, natural que os fatos da NASA usados pelos astronautas para actividades fora do vaivém ou da Estação Espacial Internacional mostrem o homem de Vitrúvio. E que o logotipo de agência de exploração interestelar no filme Contacto, baseado no romance do astrofísico Carl Sagan, seja um homem de Vitrúvio estilizado. Uma vez que boas proporções indiciam saúde, é também natural que vários institutos médicos ou relacionados com a medicina tenham adoptado, por todo o mundo, o desenho de Leonardo como a sua imagem de marca. Um livro sobre emagrecimento, publicado recentemente entre nós, mostra na capa não o homem, mas a mulher de Vitrúvio, que emagrece quando passa do quadrado para o círculo...Para falar sobre a prodigiosa obra de Leonardo Da Vinci e não só, esteve esta semana em Lisboa na Fundação Gulbenkian, Martin Kemp, professor de História de Arte na Universidade de Oxford e o maior especialista do autor renascentista. O ciclo em que se insere a sua conferência intitula-se A imagem na ciência e na arte. Da Vinci conseguiu, com o homem de Vitrúvio, casar a ciência e a arte melhor do que ninguém.
November 18 2010, 6:29pm | Comments »
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O Zé Povinho nos cem anos da República
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O Zé Povinho, a imortal criação de Rafael Bordalo Pinheiro.
October 4 2010, 7:02pm | Comments »
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Música a Cores
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Crónica do nosso colaborador habitual António Piedade saído no "Boas Notícias" (o desenho é de Inês Massano):O coração de Leonor batia numa cadência agitada. Parecia que o coração queria saltar-lhe do peito e ir dançar com ela e com as folhas que chovem das árvores no Outono. Mas não era só por causa disso que o sobressalto se adicionava ao tambor cardíaco.Leonor estava ansiosa. Procurava sons da Natureza ao longo do caminho desde a escola até à sua casa. Mas o barulho da cidade era tão intenso, que não conseguia descortinar sons que associasse a outras coisas que não fossem carros, aviões, comboios, equipamentos de climatização, entre tantos outros elementos da orquestra citadina.A professora tinha informado a turma da Leonor de que no dia 1 de Outubro se comemorava o dia Mundial da Música e pedido que, a propósito dele, todos fizessem uma composição sobre os sons da Natureza.A professora explicou que o Dia Mundial da Música (aqui) fora instituído em 1975, por iniciativa de Lord Yehudi Menuhin e sob a égide da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), para ser celebrado no primeiro dia de Outubro e que seria dedicado a promover a arte da música por todos os povos, numa continuação dos ideais da paz e amizade entre todas as pessoas. Assim como comemoramos o nosso aniversário todos os anos, para nos lembramos do dia do nosso nascimento e nos rodearmos dos nossos amigos e familiares.Como este ano de 2010 é dedicado à Biodiversidade, a professora da Leonor achou oportuno pedir que ela e os seus colegas encontrassem sons diferentes na Natureza e os descrevessem numa composição.O seu colega João, que gostava muito de fazer compras, disse-lhe que, para ele, a natureza eram os legumes embalados e as frutas do supermercado, pelo que, a caminho de casa, iria passar por lá à procura dos sons da natureza.Leonor, pelo contrário, achava que a professora se referia à natureza onde os passarinhos fazem os ninhos, onde as rãs coaxam em coro na fuga dos riachos, onde os cavalos relincham num andamento percutido sobre a terra.E era sobre esses sons que ela queria escrever. Mas como, se os não ouvia entre o andamento congestionado da cidade?Decidiu sentar-se num banco de uma alameda que pautava de verde o caminho até sua casa, fechar os olhos do barulho e “procurar” com os ouvidos.Não esperou muito até que um belo dueto de trinados despertasse os seus ouvidos. E, curioso, apesar de ter os olhos fechados, o chilrear dos passarinhos foi acompanhado por uma sensação colorida. Foi como se o cérebro de Leonor associasse cores aos chilreios dos dois passarinhos a esvoaçar numa partitura ali perto.De facto, já alguém lhe tinha dito que podíamos ver com o cérebro. E, sem abrir os olhos, imaginou a cor, a forma e o movimento dos passarinhos a partir dos sons com que eles a embrulhavam.Concentrou-se nestas sensações e sentiu que as melodias a inundavam com uma paleta de cores que variava consoante a tonalidade do trinado era mais aguda ou mais grave.Sem se aperceber disso, Leonor decidiu pintar o Dia Mundial da Música em vez de o escrever.Iria partilhar a música da Natureza a cores.António Piedade
October 1 2010, 1:23pm | Comments »
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A LUZ EM GOETHE E TURNER
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Excerto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva) (na figura "Luz e Cor" de Turner):Consta que as últimas palavras do poeta alemão Johann Wolfgang Goethe foram “Mehr Licht!”, o que em português se traduz por “Mais Luz!”Ninguém sabe se esta exclamação significava o desejo filosófico-científico do grande génio de mais claridade ou se, prosaicamente, ele apenas pretendia pedir à empregada doméstica para abrir as cortinas do quarto. O poeta morreu sem se poder explicar. Mas a frase, apesar da ambiguidade ou talvez por causa dela, ficou famosa. Ela é sintomática da “época das luzes”, o tempo em que se quis ver mais e melhor.No ano da graça de 1755, ano em que a Terra tremeu em Lisboa (catástrofe que tanto impressionou Goethe, assim como Kant e Voltaire), nascia em Londres, mais precisamente no bairro do Covent Garden, um dos maiores procuradores de luz de todos os tempos, alguém que andou sempre atrás de mais e melhor luz. O pintor inglês J. M. Turner foi entre 1755 e 1851 um prodigioso criador de luz. Apaixonado pela luz do Sol (Turner quase cegou por ter olhado tão demoradamente para o Sol), consta que as suas últimas palavras foram “The Sun is king!”, o que, vertido em português, dá “O Sol reina!”.A luz de Turner, a luz que em última análise provém da nossa estrela, está em exposição permanente na Tate Gallery, em Londres. Essa luz é um dos principais motivos pelo qual vale a pena ir e voltar a Londres. Na maior parte dos quadros de Turner, a luz ilumina o mar. O astro-rei aparece amarelo-alaranjado. O céu é azul de dia, o que os físicos explicam pela difusão da luz solar no ar. E o mar mostra o azul misturado com outras cores, o que os físicos também explicam.Turner foi um estudioso da obra de Goethe “Farbentheorie” (“Teoria das Cores”), uma incursão do brilhante poeta de Frankfurt na ciência da cor. Foi uma incursão não muito feliz, porque a teoria das cores de Goethe está em grande parte errada, nomeadamente ao afirmar que todas as cores resultam da combinação de três cores fundamentais: o amarelo, o vermelho e o azul (Isaac Newton, bem anterior a Goethe, sabia mais sobre a cor!). Este exemplo mostra que os poetas não têm de ser bons cientistas, o que não traz nenhum prejuízo à apreciação da sua poesia... O livro de Goethe resultou, porém, de uma tentativa de compreender os fenómenos da luz e da cor atendendo a condições não só físicas mas também psicológicas e estéticas e tem bastante interesse para a história da ciência.Turner foi um grande admirador de Goethe. Um dos últimos quadros de Turner, menos figurativo que os anteriores, intitula-se curiosamente “Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A Manhã após o Dilúvio – Moisés a escrever o Livro do Genesis”. Está na Tate Gallery e mostra uma grande bola amarelo avermelhado - talvez o Sol, porque nunca pode haver a certeza de nada na arte não figurativa.Escreveu Goethe na sua “Teoria das Cores”, decerto depois de ter olhado muito para o Sol:“O Sol, quando de vê através de uma certa neblina, apresenta um disco amarelado. O centro é muitas vezes amarelo vivo e as bordas quase se tornam vermelhas. Numa situação em que o ar está cheio de fumo... o Sol parece vermelho-rubi, tal como todas as nuvens que o rodeiam, nas últimas circusntâncias, que reflectem então esta cor. O Sol vermelho da manhã, ou ao corpúsculo, deve-se à mesma causa. O Sol anuncia-se por uma tonalidade vermelha quando brilha através de uma massa densa de nevoeiro. Quanto mais se ergue mais brilhante e amarelo se torna”.Não foi decerto por acaso que o intenso óleo “Luz e Cor” foi pintado em 1843, na altura em que um amigo de Goethe lhe ofereceu a tradução em inglês do livro de Goethe. A “Luz e Cor” é o triunfo da luz e, portanto, o triunfo da cor. No quadro, a natureza da cor substitui a cor da Natureza, sendo o resultado quase hipnótico. Turner foi, de facto, um génio da luz e da cor e, se Goethe não teve grande relevância na história da ciência, teve-a decerto na história da arte!
September 26 2010, 4:18am | Comments »
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CIÊNCIA E TEATRO EM BRECHT E ARISTÓFANES 2
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Continuação do post anterior:É muito interessante que a retórica que serve para discutir o papel de Deus no mundo se encontre no teatro grego, muitos séculos antes. Para os gregos tratava-se obviamente não de discutir o papel de Deus mas sim dos deuses. Na comédia “As Nuvens” de Aristófanes (447 a.C.-385 a.C, sendo as duas datas aproximadas), representada pela primeira vez no ano de 423 a.C. no Teatro de Dionísio, na Acrópole, em Atenas, aparecem em cena algumas nuvens, portanto fenómenos atmosféricos, em substituição dos deuses tradicionais. Apesar de se tratar de uma comédia e não de uma tragédia, como a peça de Brecht, é notório o paralelismo entre os dois textos. Brecht era aliás um grande conhecedor do teatro grego.O livro de Aristófanes “Comédias I” [9] publicado pela Imprensa Nacional contém uma excelente tradução portuguesa da peça que aqui nos interessa. O volume tem uma introdução geral de Maria de Fátima Silva, professora de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, que foi também responsável pela introdução, tradução e notas de duas outras das peças do livro, e é de resto autora de outras obras sobre Aristófanes [10]. A terceira e última peça incluída é precisamente “As Nuvens”. Tem introdução, tradução e notas de Custódio Magueijo, professor de Grego da Universidade de Lisboa que já antes tinha sido o autor de uma tradução da mesma peça publicada pela Editorial Inquérito em 1984 [11] (nas notas encontram-se notícias sobre a representação da peça em Portugal).A acção de “As Nuvens” é bastante simples. Um abastado proprietário rural, Estrepsíades, procura educar o seu filho, Fidípedes, que era o que hoje poderíamos chamar um playboy, delapidando os proventos do pai em cavalos de luxo e carros de corrida. O velho pretende que o filho aprenda com Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), o “sofista” (os sofistas, entre os quais Protágoras e Górgias, eram mestres que viajavam em busca de discípulos, que lhes pagavam bem; de facto, só o Sócrates dos primeiros tempos é que poderá merecer essa designação), e, perante a resistência do filho, vai ele próprio ver como é essa escola, intitulada Frontistério ou Pensatório, e que constitui uma espécie de faculdade de todas as áreas. Estrepsíades não tem sucesso no Pensatório, mas o filho acaba por lá entrar. Sócrates apresenta então ao aluno duas personagens, o Raciocínio Justo e o Raciocínio Injusto, que retratam afinal os métodos pedagógicos antigo e moderno. Da luta entre os dois sai vencedor o Raciocínio Injusto (o que é afinal uma maneira de o conservador Aristófanes ridicularizar as novas pedagogias). O filho não só acaba por bater no pai como justifica essa acção usando tudo o que aprendeu com o Raciocínio Injusto. O pai, desesperado, acaba no final por deitar fogo ao Pensatório. A peça é bastante divertida, mas é injusta para com Sócrates, que não é particularmente bem retratado. Ele não passa, na pena de Aristófanes, de um mestre de retórica, que se faz pagar pelos seus serviços e que, mais do que defender a causa da ciência, se põe ao serviço de qualquer causa. Este Sócrates não é lá muito amigo da verdade...A peça, que hoje é um clássico entre os clássicos de Aristófanes, não conheceu grande sucesso quando foi estreada. Ficou até em terceiro lugar nas Grandes Dionísiacas, a seguir a duas obras de autores menores cujos textos não chegaram até nós. O autor reescreveu depois a peça – o texto que hoje conhecemos resultou desse processo – não se inibindo, no meio do texto (a chamada parábase), de censurar os espectadores por causa da má recepção da peça...Aristófanes goza bastante com os astrónomos. Por exemplo, encontramos este saboroso diálogo entre Estrepsíades e um discípulo da escola:“Discípulo - Uma noite, estava ele a estudar a órbita da Lua e as suas revoluções, assim, de nariz espetado no ar e de boca aberta, quando um lagarto pintado cagou lá de cima do telhado. Estrepsíades: Que gozo, um lagarto pintado cagar em cima destes.” E, mais adiante: “Estrepsíades - E porque diabo está o olho do cu virado para o céu?Discípulo: Bem... esse... estuda Astronomia por sua conta.” Quando Estrepsíades chega à fala com o próprio Sócrates, este repreendo-o quando o ouve jurar pelos deuses: “Sócrates - Juras pelos deuses?!... Quais deuses?... Para já, deuses é moeda que não usamos cá na casa. Estrepsíades - Então por quem é que vocês juram? Será porventura pelo pilim, como em Bizâncio? Sócrates, desviando a conversa - Queres conhecer as coisas divinas, claramente, de ciência certa?Estrepsíades- ... Se isso é possível... Sócrates - Queres conviver e conversar com as Nuvens, as nossa divindades?Estrepsíades – Claro que quero.”O paralelismo com a “ausência de Deus” brechtiana é aqui claro, mas surge ainda mais claro num diálogo entre Estrepsíades e Sócrates, que é um magnífico exemplo do uso da retórica em palco:“E Estrepsíades - Mas... Então e Zeus?... Vejamos pela Terra!... Então Zeus Olímpico não é deus? Sócrates - Qual Zeus nem meio Zeus!... Não digas asneiras: Zeus... não existe! E Estrepsíades - Que é que estás dizendo? Então quem é que chove? Sim, antes de mais nada, explica-me lá essa coisa. Sócrates - São elas [as nuvens] que chovem, obviamente. E é isso mesmo que te vou demonstrar com provas irrefutáveis. Ora bem: onde é que já alguma vez viste chover sem haver nuvens? Em boa verdade, ele, Zeus, deveria chover com céu limpo, na ausência de nuvens. Estrepsíades - Por Apolo! Com tal argumento provaste muito bem essa teoria... E eu que dantes cuidava que era mesmo Zeus a mijar por um regador!... Mas... Explica-me mais uma coisa: quem é que troveja, que até me põe todo a tremelicar? Sócrates - São elas que, ao rebolarem-se, provocam, os trovões. Estrepsíades - Mas como é isso, criatura tão desmedida? Sócrates - Ao encherem-se abundantemente de água, são forçadas, por via disso, a deslocar-se. Ora, assim cheias de chuva, forçosamente ficam penduradas para baixo... Vai daí, mais pesadas, caem uma sobre as outras, rebentam e estalam. Estrepsíades - E quem é que as força a mover-se? Não é Zeus? Sócrates - Nada disso... É o Tornado etéreo. Estrepsíades - O Tornado? Eis uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, que Zeus não existe, e que agora, em vez dele, quem reina é o Tornado..."O Tornado, elevado à categoria de divindade, é escrito assim mesmo, com maiúscula. Mais à frente, Sócrates pergunta a Estrepsíades:"Sócrates - Ora bem: estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade, que não sejam as nossas, ou seja o caos, as nuvens e a língua, essas e só estas?Estrepsíades - A essas, pura e simplesmente, nem sequer lhes dirigiria a palavra, ainda que desse de caras com elas, nem lhes ofereceria sacrifícios, nem libações, nem incenso.”Repare-se como a língua é também uma “divindade”. Nesse tempo, muito antes da Revolução Científica, a retórica pura, exercida pelo domínio da língua, era essencial na ciência. Os destinatários do culto e da liturgia vão passar a ser outros. E para isso é preciso, sem muitas discussões, substituir uma fé por outra, substituir a fé nos deuses pela fé na ciência. Sócrates intima Estrepsíades:“Sócrates - Ora vejamos. Quando eu te mandar para a frente um conceito científico sobre coisas celestes, faz por abocanhá-lo imediatamente. Estrepsíades - É o quê? Quer dizer que vou comer ciência assim como um cão a roer um osso?”Mais tarde, Estrepsíades encontra-se com o seu filho Fidípedes e procura transmitir-lhe a lição que tinha aprendido com Sócrates:“Estrepsíades – Tás vendo como é bom saber? Zeus - toma nota, Fidípedes – Zeus não existe!Fidípedes - Então quem é que...?Estrepsíades- Quem reina agora é o Tornado, depois de ter expulsado Zeus. Filípedes - Eh lá! Tás doido ou quê?Estrepsíades - Pois fica sabendo que é mesmo assim. Filípedes - E quem é que diz tal coisa? Estrepsíades - Sócrates... de Melos, mais o Querofonte, que percebe de saltadelas de pulgas [Querofonte é um amigo de Sócrates].”Repare-se que a mentira faz parte da “arte de convencer”: apesar de Sócrates ser natural de Atenas, Aristófanes liga-o à ilha de Melos, a terra do filósofo sofista Diágoras do séc. V a.C., um ateu confesso que foi por isso forçado a abandonar a cidade de Atenas. Assim, transmite-se a ideia, por um subentendido, que Sócrates é ateu.Foi assim que, pelo menos em palco, os deuses começaram a cair na Antiga Grécia. Muito antes de Galileu ter posto as estrelas a ocupar o lugar de Deus, já Sócrates punha os fenómenos meteorológicos naturais a ocupar o lugar dos deuses, colocando em particular o Tornado no lugar do maior de todos, o poderoso Zeus. A fúria de Zeus é substituída pela fúria dos elementos naturais. Foi preciso esperar muitos séculos para que, no Norte da Itália, aparecesse a ciência experimental como uma nova maneira de ver o mundo e se passassem a submeter as convicções sobre o mundo ao escrutínio e um escrutínio o mais rigoroso possível da observação e da experimentação. Aristófanes e Brecht representam duas maneiras de ver o mundo que, apesar das óbvias diferenças (Aristófanes não nutre respeito pela ciência, procurando ridicularizá-la, ao passo que Brecht é um grande admirador dela a ponto de ter dito: “não me é possível subsistir como artista sem me servir da ciência”), têm evidentes afinidades. Dada a distância no tempo de quase 2500 anos entre Aristófanes e Brecht o que mais impressiona é decerto a actualidade do primeiro.BIBLIOGRAFIA:[1] Carlos Fiolhais, “Ciência em Palco”, in “Partilha de Cena”, nº 0, Coimbra: Mafia – Federação Cultural de Coimbra, 2007.[2] Mário Montenegro, “Texto dramático sobre tema científico: o caso particular de Carl Djerassi”, Tese de mestrado, Porto: Universidade do Porto, 2007.[3] Michael Frayn, “Copenhagen”, New York: Anchor, 2000.[4] Carl Djerassi e Roald Hoffmann, “Oxigénio”, Porto: Editora da Universidade do Porto, com prefácio de José Ferreira Gomes e tradução de Manuel João Monte.[5] Bertold Brecht, “Teatro Completo”, vol. 6 (de um total de 12), “Os fuzis da Senhora Carrar, Vida de Galileu e Mãe Coragem e os seus filhos”, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 3ª ed., 1991, tradução de Roberto Schwartz da versão original da "Vida de Galileu".[6] Bertold Brecht, “Vida de Galileu”, Lisboa: Portugália, 1970, trad. de Yvette Centeno.[7] Paulo Quintela, “Obra Completa”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 5 vols., 1996-2001, Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões (orgs.).[8] Maria M. Gouveia Delille (coord.), “Do Pobre B. B. Em Portugal: a recepção dos dramas Mutter Courage und ihre Kinder e Leben des Galilei”, Coimbra: Minerva, 1998, estudos de M. Antónia Teixeira e M. Fátima Gil.
September 8 2010, 5:59pm | Comments »
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O PRÉMIO CONFISCADO
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Muito gosta o estado português de tirar com uma mão o que dá com a outra. Por vezes não se coíbe de tirar com a mesma mão que deu. Exemplo recente é o Prémio que o Ministério0 da Cultura, com a Associação Internacional de Críticos de Arte, decidiu atribuir ao fotógrafo português Paulo Nozolino. Teria de desembolsar logo de imediato dez por cento do Prémio para efeitos de IRS e assinar uma nota de honorários (honorários?!). Com a manipulação dos escalões recentemente efectuada, poderia até o artista subir de escalão com o dinheiro do prémio, e ter de pagar mais ao Estado do que pagaria se não fosse a recompensa, isto é, o Prémio ser, de facto, um prejuízo. Afirmou o artista em comunicado que encontrei no blogue Arte Photographica:“Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas. A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!"Não é só a injustiça de pagar imposto por conta do prémio (não seria mais simples o Estado dar um prémio menor, mas dá-lo livre de impostos?). É também a completa arbitrariedade fiscal que consiste em taxar uns prémios e outros não. Há premiados e premiados. Como eu compreendo Nozzolino... Muito parabéns por ter recusado o prémio!
July 5 2010, 12:45pm | Comments »
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Um colecção
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Ana Boavida e João Bicker são os dois designers de comunicação do estúdio FBA, sediado em Coimbra, com vários prémios internacionais.Em 30 de Maio último receberam um Silver Award no Festival Europeu de Design (um dos mais importantes acontecimenos internacionais na área do design que neste ano decorreu em Roterdão) pelo trabalho de concepção gráfica da colecção Minotauro, da editora Almedina, que inclui livros de ficção espanhola contemporânea. Na passada semana receberam a notícia de que esses livros, a concurso no American Institute of Graphic Arts, em Nova Iorque, tinham sido incluídos na selecção anual dos “50 livros e capas mais bem desenhados”do mundo. Trata-se de razões suficientes para que o De Rerum Natura tivesse falado com eles.P: Começo esta conversa pela pergunta clássica: o que significa para vós os prémios de tanto prestígio que têm recebido, com particular destaque para os dois últimos?R: Significa, antes de mais, uma enorme alegria. Em particular este segundo prémio é um prémio muito valioso para qualquer designer. Ficámos muito orgulhos de estarmos na mesma selecção de muitos dos nossos “heróis” do design de capas e de livros. Significa também que estamos no bom caminho. É o reconhecimento pelo nosso investimento neste projecto.P: Ainda sobre os dois últimos prémios, uma das coisas que a Ana e o João disseram em várias entrevistas é que leram na íntegra a maior parte dos livros que trabalharam graficamente. Entraram, portanto, no espírito de uma colecção, mais do que de um livro. Que espírito foi esse que vos inspirou?R: O desenho desta colecção foi a resposta a um programa muito bem definido por parte do editor. Quando assim é, torna-se mais fácil trabalhar e, regra geral, os resultados são também melhores porque quando um problema é bem formulado é mais fácil dar-lhe uma boa resposta. Assim, mesmo antes de lermos os livros pensámos o design da colecção enquanto matriz na qual todos os livros deverão poder existir graficamente. O desenho de uma colecção é diferente do desenho de uma capa avulsa. É preciso prever soluções que funcionem para todos os livros. Pensada essa parte foram lidos, de facto, integralmente a maioria dos livros e determinada a expressão plástica das ilustrações. A leitura dos livros determinou o motivo da ilustração de cada capa pois só assim se percebe o tom, os personagens e a paisagem que o constitui.P: Destacaram também que trabalham nesta periferia que é Portugal. Trata-se de uma periferia vantajosa ou desvantajosa no que, em particular, diz respeito à vossa área?R: Essencialmente desvantajosa. Portugal é um país periférico também porque é pequeno. Desenhar um livro em Portugal é caro porque os recursos utilizados e as despesas tidas numa pequena edição são praticamente as mesmas que de uma edição de tiragem muito superior num país em que há mais gente e mais gente a ler. Há uma série de gastos que um livro envolve, quer tenha uma tiragem de 500 ou 5000 exemplares. Custos de direitos de imagem, de horas em projecto de design, de utilização de fontes legais, etc. Isto encarece muito os livros e tende a levar à poupança nos recursos o que restringe muitíssimo as opções de técnicas de produção e materiais utilizáveis para quem desenha livros. Também o acesso a materiais de melhor qualidade como por exemplo alguns papéis estrangeiros, se torna mais difícil devido a essa periferia.P: Como acham que, de modo geral, se apresenta em termos gráficos, nesta periferia, o objecto livro?R: O panorama melhorou mas é em termos gerais ainda medíocre. Os livros são muitas vezes mal desenhados por curiosos que não dominam os conhecimentos necessários e depois disso produzidos sem grande cuidado sobre fracos materiais. Ou então desenhados de forma deslumbrada, disfarçando a falta de ideias com tudo o que é “efeito especial” numa mesma capa: relevo, verniz, papel especial... e aí também é mau, só que é um mau mais caro.P: Temos acesso imediato ao vosso trabalho olhando para as capas dos livros, que são belíssimas, mas ele vai muito mais além: está presente na mancha gráfica, no tipo e tamanho de caracteres, nas margens, na paginação, nas fitas marcadores, no tipo de papel… é frequente um designer ter possibilidade de apresentar uma colecção de livros em todas estas vertentes? E o que é que isso significa?R: Não é muito frequente. São requintes que nem sempre é possível trabalhar. Neste caso foi porque fazia parte do programa inicial fazer um investimento um bocadinho maior e desenhar livros não só para um público que gosta de ler mas que também gosta de livros. Fotografias, por ordem, de Sérgio Azenha e de Daniel Santos.
June 28 2010, 3:47am | Comments »







