Informação recebida do Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra:DOCUMENTOS E IMAGENS INÉDITOS, SOBRE A REPÚBLICA E NÃO SÓ, DISPONÍVEIS NA BIBLIOTECA DIGITAL DE FUNDO ANTIGO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRAAlma Mater, a Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra, vai ser apresentada dia 14 de Julho. Na cerimónia será ainda dado a conhecer o repositório temático República Digital – parte integrante da Alma Mater – que disponibiliza documentos inéditos sobre a emergência das ideias republicanas em Coimbra, a implantação da República e a resistência ao Estado Novo.Através da Alma Mater, a Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra (UC), qualquer pessoa com ligação à Internet poderá pesquisar globalmente os documentos digitais existentes nas bibliotecas da Universidade, podendo consultar em pormenor cada um dos documentos, nomeadamente livros antigos, manuscritos, cartas, fotografias e desenhos, mas também parte dos espólios de autores formados pela UC, como Almeida Garrett, Félix Avelar Brotero e Júlio Henriques, bem como de outros que passaram por Coimbra ou cá deixaram a sua produção intelectual.Alma Mater, que é constituída por um vasto acervo de obras representativas do precioso espólio existente nas diversas bibliotecas da UC – cerca de quatro mil documentos, publicados na sua maioria antes de 1940, aos quais correspondem perto de 500 mil imagens – vai ser apresentada no dia 14 Julho, pelas 12H00, no piso intermédio da Biblioteca Joanina. Na cerimónia de apresentação deste projecto estarão presentes Fernando Seabra Santos, Reitor da Universidade de Coimbra, e Carlos Fiolhais, Director da Biblioteca Geral da UC (BGUC) e do Serviço Integrado das Bibliotecas da UC (SIBUC). Esta iniciativa integra o programa comemorativo da Universidade de Coimbra para o Centenário da República.Integrado na Alma Mater, ficará o repositório temático República Digital, reunindo diversos documentos representativos das transformações políticas, sociais, científicas e artísticas provocadas pela implementação da República em Portugal: manuscritos inéditos e outros pouco conhecidos, fotografias do início do século XX, jornais, manifestos, revistas científicas, correspondência inédita e trabalhos universitários. Em destaque estarão ainda testemunhos da influência dos ideais republicanos na cidade de Coimbra, nomeadamente através dos volumes das “Memórias” e das fotografias do Coronel Belizário Pimenta, do fundo do historiador da cartografia Armando Cortesão ou ainda dos periódicos "Gazeta de Coimbra", "Ultimato", "Resistência" e "Revolta".A Alma Mater, que se integra numa estratégia de desenvolvimento e modernização da UC constituída em torno da digitalização, conservação e difusão de documentação e informação, disponível na rede de bibliotecas da Universidade, congrega e valoriza importantes núcleos que integram o rico património bibliográfico e documental de várias bibliotecas digitais já existentes – da Faculdade de Direito, do Departamento de Ciências da Vida (Botânica) da Faculdade de Ciências e Tecnologia e da Biblioteca Geral (BGUC) – e de outras novas, como a Biblioteca Digital da Faculdade de Letras. O projecto, levado a cabo pelo SIBUC, em colaboração com a BGUC e com a Biblioteca Municipal de Coimbra, foi financiado pelo Ministério da Cultura, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e através de fundos próprios da UC.
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ALMA MATER
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July 12 2010, 3:15pm | Comments »
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A "Divina Proporção" mostrada na Biblioteca Joanina
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Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:BIBLIOTECA GERAL MOSTRA OBRAS RARAS DAS SUAS COLECÇÕES: LIVROS IMPRESSOS NAS MAIS IMPORTANTES TIPOGRAFIAS DOS SÉCULOS XVI E XVIIMostra “Época Áurea da Tipografia” está patente na Prisão Académica até 30 de Junho. Livros expostos são alguns dos ‘tesouros’ da Biblioteca Geral.São 21 as obras impressas nas oficinas dos mais importantes tipógrafos dos séculos XVI e XVII que estão expostas, até 30 de Junho, na Prisão Académica da Universidade de Coimbra. No ano em que se assinalam os 555 anos da invenção da Imprensa por Gutenberg e a impressão do primeiro livro – a Bíblia das 42 linhas acabada de ser impressa em 1455 –, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) promove a mostra “Época Áurea da Tipografia”, dando a oportunidade de conhecer algumas das obras raras dos seus fundos e colecções.O conjunto composto de obras de tipografia italiana, francesa, portuguesa e dos Países Baixos está representado por edições dos mais notáveis impressores, destacando-se as famosas edições Aldinas, as Giunta, as da família Estienne e as Plantinianas, Craesbeeckianas e Elzevirianas. Das obras impressas em Portugal representativas da tipografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, encontram-se livros impressos em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, por Germão Galharde, João de Barreira e João Álvares, e em Lisboa, por Luís Rodrigues e Pedro Craesbeeck.Maria Luísa Machado, bibliotecária e responsável pela Área de Leitura, Referência e Apoio ao Utilizador da BGUC, destaca do conjunto de livros apresentados, que se inserem no movimento cultural e humanístico do Renascimento Europeu, a obra de Luca Pacioli “De Divina Proportione”, por se tratar de uma primeira edição impressa em Veneza por Paganinus de Paganinis em 1509, contendo ilustrações de Leonardo da Vinci. Julga-se que, para além do exemplar da impressão original desta obra que está na BGUC, apenas existam mais dois em todo o mundo.A “Divina Comédia” de Dante Alighieri, considerada como uma das obras-primas da literatura italiana, é outro dos livros assinaláveis a não perder. Trata-se de uma segunda edição impressa por Aldo Manuzio, em colaboração com Andreas Torresanus, em Veneza, em Agosto de 1515, notável pelas suas ilustrações do inferno. Maria Luís Machado destaca ainda a obra de Justo Lípsio “De Bibliothecis Syntagma”, largamente citada como o primeiro e mais importante Tratado da História das Bibliotecas. É uma segunda edição de 1607 publicada em Amesterdão na célebre oficina de Christoph Plantin, conhecida como Compasso de Ouro, símbolo que também usa como a sua marca de impressor.A invenção da Imprensa provocou uma verdadeira revolução ao iniciar a possibilidade de propagação do conhecimento para todos, tratando-se por isso de um momento de transição da história humana. Carlos Fiolhais, Director da BGUC, convida por isso «todas as pessoas que se interessam pela história do livro e pela história em geral a visitar a Mostra, que está patente num espaço contemporâneo dos livros expostos, num local que foi uma prisão medieval».A mostra pode ser visitada gratuitamente por quem adquira um bilhete para visitar o conjunto monumental do Paço das Escolas ou por quem adquirir um bilhete para visitar a Prisão Académica, com o valor de 1 Euro. A Prisão Académica está aberta de segunda a sexta-feira, das 09H30 às 13H00 e das 14H00 às 17H30 e, ao fim-de-semana, das 09H00 às 19H30.
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June 25 2010, 4:18pm | Comments »
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Época Áurea da Tipografia
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Informação recebida da Biblioteca Geral dsa Universidade de Coimbra:Mostra Bibliográfica | 2 a 30 de Junho | Prisões Académicas (Biblioteca Joanina)| Horário : 9:00h - 20:00h Está patente no espaço das Prisões Académicas da Universidade de Coimbra, de 2 a 30 de Junho uma mostra bibliográfica dedicada à Época Áurea da Tipografia. Passados 555 anos do primeiro livro impresso por Gutenberg, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra expõe um pequeno núcleo de obras impressas nas oficinas dos mais importantes tipógrafos do séc. XVI. O conjunto composto de obras de tipografia italiana, francesa, portuguesa e dos Países Baixos está representado por edições dos mais notáveis impressores, destacando-se as famosas edições Aldinas, as dos Giunta, as da família Estienne e as Plantinianas, Craesbeeckianas e Elzevirianas. Estas publicações estão inseridas no movimento cultural e humanístico do Renascimento Europeu caracterizando-se por uma simplicidade, sobriedade clássica e estilo marcadamente renascentista. Referências Bibliográficas
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June 8 2010, 10:45am | Comments »
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TODO O SABER DO MUNDO NUMA PEN
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Uma das "15 ideias que podem mudar o mundo" da autoria de Christiana Martins, na revista "Única" do "Expresso" de sábado passado:"O que falta fazer é o mais complicado: levar a Humanidade a entender-se. O suporte já está criado e pode ser fixo ou móvel. Kindles, IPads ou o computador tradicional, o que interessa é que, segundo Carlos Fiolhais, físico, com a nanotecnologia, já é possível armazenar o conhecimento humano num dispositivo. Falta regulamentar o quadro legal de utilização de todo este saber. Questões como os direitos de autor, as formas de acesso ao conteúdo, o que realmente pode ser consultado, por quem e por quanto tempo. As letras pequeninas dos contratos. A Biblioteca de Babel é uma utopia ao nosso alcance, mas já no Génesis, os homens ficaram-se pelas discussões..."Christiana Martins
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April 25 2010, 11:40am | Comments »
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DIA MUNDIAL DO LIVRO
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O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor é hoje; no dia de aniversário da morte de William Shakespeare e de Miguel Cervantes (23 de Abril de 1616). Mas os dois escritores morrerram, de facto, com intervalo de 10 dias: acontece que os calendários que vigoravam na altura em Inglaterra e Espanha eram diferentes, o juliano e o gregoriano (ver aqui)
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April 23 2010, 11:03am | Comments »
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A Morte e o Bibliotecário
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Hoje, Dia Mundial do Livro, as Bibliotecas da Catalunha, para assinalar também o dia de S. Jorge, anunciam um livro electrónico "A morte e o bibliotecário", de Jaume Pòrtulas, professor de filologia grega na Universidade de Barcelona, prémio nacional de Literatura 2009. que se pode ler(ou ouvir) em catalão, espanhol e inglês directamente no computador. É só clicar aqui. O livro conta a história do construtor grego da biblioteca de Alexandria.
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April 23 2010, 7:48am | Comments »
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Lugares de Carolina e Joaquim
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Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:A seguir à abertura da exposição "Joaquim de Vasconcelos. Um homem de cultura" segue-se a abertura da exposição fotográfica "Lugares de Carolina Michaleis e Joaquim Vasconcelos" no espaço das Prisoes Académicas, por baixo da Biblioteca Joanina. Recorde-se que Carolina Michaelis frequentou essa Biblioteca, já que foi, em Coimbra e em Portugal, a primeira professora catedrática.
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April 19 2010, 6:09am | Comments »
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O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS
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Minha intervenção de hoje no Colóquio sobre Gestão Editorial organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra na sua sede:A Internet mudou as nossas vidas. Mudou, por exemplo, os livros e as bibliotecas. Mas ainda não é muito claro, porém, o modo como vão evoluir o livro e as bibliotecas com a revolução digital em curso. Certo é que estão a evoluir e que irão evoluir mais.Os livros mantiveram-se em papel (publicam-se aliás cada vez mais, em Portugal é um em cada meia hora!), mas apareceram também em versões digitais, ebooks – de alguns livros há só mesmo em versões digitais – que, em vários formatos, podem ser lidas por vários dispositivos dos quais ainda não existe um standard (há o Kindle, por exemplo, que já se vê muito nos Estados Unidos, e há recentemente o Ipad, que elimina o teclado e rato, mas cujo futuro se desconhece). A vantagem dos livros digitais é óbvia: a de evitar o "insustentável peso" do papel (as árvores e o clima agradecem!), a possibilidade de encontrar rapidamente a passagem que se quer, etc. Os meus alunos, por exemplo, já estudam por pdfs que guardam nos seus portáteis ou netbooks, qualquer dia será nos seus telemóveis Os inconvenientes do digital, para além da dificuldade, permitida pela cópia rápida e barata, de reconhecer e recompensar devidamente os autores e editores, são também óbvios: um livro é um objecto material com um design tão perfeito para cumprir a função que desempenha, que, na minha opinião, nunca será inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais veio a ser substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, funciona de modo low-tech (nunca avaria!). É um bom presente para se dar a alguém, isto é, passa bem de uma mão para a outra. Por alguma razão não houve ainda nos livros a revolução que houve na música, com o quase desaparecimento das lojas de discos em favor das descargas digitais. Estou convencido de que, no futuro, haverá a coexistência de livros em papel e livros digitais, com algum natural crescimento destes últimos nos próximos tempos. Soluções como a “Clássica Digitália”, publicada pelo Centro de Estudos Clássicos de Coimbra com o apoio da Imprensa da Universidade, em que os livros aparecem simultaneamente on-line em papel são augúrios do futuro. O print on-demand, permitido por máquinas como a Expresso Book Machine, será uma realidade, pois não há tecnicamente nenhuma razão para não fornecer qualquer livro, mesmo esgotado ou mesmo nunca antes publicado em papel, a alguém que o queira e que esteja disposto a pagar os custos da respectiva materialização e outros. Passar do digital ao analógico em papel será conveniente, será mesmo necessário nalguns casos. Mas uma certa confusão entre suporte magnético e suporte em papel poderá vir a existir: cientistas como a portuguesa Elvira Fortunato querem - e conseguem - fazer transístores no papel. Se a ideia vingar, os ecrãs poderão ser tão flexíveis como o papel, apesar de terem uma imagem tão renovável como os ecrãs de cristais líquidos. O "futuro do livro é bom", como disse o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, que acrescentou logo a seguir "pois sempre vai existir o livro, ainda que seja noutra forma". O mais fantástico será se o livro existir de outra forma na mesma forma!E as bibliotecas, que foram desde tempos imemoriais os sítios onde se depositaram os livros para ficarem à disposição de todos? Nunca é de mais elogiar o papel das bibliotecas. Saiu nas notícias recentemente que Keith Richard, o guitarrista dos Rolling Stones, sempre quis ser bibliotecário. O segredo é revelado na sua autobiografia, a sair em Outubro. Nela Richards revela que, como uma criança e jovem nos anos 50 em Londres, encontrou refúgio nos livros e nas bibliotecas antes de descobrir a música. Declarou: “Quando somos jovem, há duas instituições que nos afectam fortemente: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que te pertence.”As bibliotecas começaram por ter catálogos electrónicos, para passarem a ter livros electrónicos (digitalizando livros antigos ou modernos, como faz o Google, ou arquivando livros electrónicos de raiz, como acontece com os repositórios digitais de teses e de outros trabalhos científicos). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a Imprensa da Universidade de Coimbra têm acordos com o Google para digitalização das suas edições próprias, e a Universidade de Coimbra, através do seu Serviço Integrado de Bibliotecas, disponibiliza urbi et orbi o “Estudo Geral”, repositório de obras modernas, com cerca de 8000 itens, e a “Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra”, repositório de obras antigas, com cerca de 5000 itens. De certo modo a rede mundial de computadores que temos hoje é já uma gigantesca biblioteca, que inclui numerosas bibliotecas virtuais e tudo o resto que a que também, com alguma boa vontade, se poderá chamar biblioteca. As bibliotecas modernas são híbridas - espaços inspiradores guardando e mostrando livros tradicionais em papel que importa preservar e, ao mesmo tempo, sítios no ciberespaço, permanentemente acessíveis, com e sem fios (por exemplo, com smartphones). A Biblioteca Joanina não perde o seu poder encantatório por parte dos seus livros (infelizmente ainda pequena) estarem na Net. O movimento imparável é no sentido de digitalizar tudo o que não foi criado em forma digital. Existem os meios técnicos para isso e Portugal está muito atrasado neste domínio (porque não está todo o Eça de Queiroz acessível digitalmente?), pelo que terão rapidamente de recuperar esse atraso, por meio de um grande esforço nacional e transnacional (por que não envidar esforços sérios com o Brasil e outros países de língua portuguesa para aumentar a presença da nossa língua na Net?). Estou, neste domínio, optimista: aquilo que se pode fazer vai ser feito, até porque neste caso há muito para fazer e é bom que se faça...As vantagens das bibliotecas digitais são óbvias, desde logo a concentração no espaço e rapidez de acesso. Os físicos e os engenheiros resolverão os problemas técnicos dos suportes magnéticos de longa duração, transferindo a informação em bits dos suportes que se vão tornando obsoletos e resolverão também os problemas da comunicação que só não é instantânea porque há o limite da velocidade da luz. A nanotecnologia virá ajudar, com a criação de dispositivos minúsculos que armazenem informação gigantesca - talvez numa folha de papel possa caber toda a Biblioteca Joanina. Lembro que a ideia de nanotecnologia foi lançada em 1959 pelo físico norte-americano Richard Feynman (“Há muito espaço lá em baixo”) que pretendia nada mais nada menos do que colocar os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete e verificou, fazendo as contas, que era possível colocar todos os livros do mundo num minúsculo grão de poeira. Parafraseando William Blake: “all the books in a grain of dust”. Claro que uma coisa é a existência digital na Internet e outra o respectivo acesso: estar na Internet não significa que seja grátis e estou convencido que terá de haver cada vez mais pagamento de custos de acesso ao digital que não seja simplesmente a favor da operadora telefónica: também pagamos a electricidade não só a quem a transporta mas também e principalmente a quem a produz. Sei bem que esta questão do copyright é polémica – é conhecida a oposição aos projectos do Google de alguns editores e autores, mas estou em crer que é necessário encontrar um novo equilíbrio entre o necessário reconhecimento da criatividade e o direito da comunidade ao acesso ao património. Um editorial recente do The Economist, por ocasião dos 300 anos da lei do copyright britânica, vai precisamente nesse sentido, lembrando que os prazos de reivindicação de direitos eram na época muito menores do que hoje. Mas não é fácil concretizar um esquema justo de pagamento, sem ao mesmo tempo permitir a liberalização da cópia, que a tecnologia tornou demasiado fácil.Com o cut and paste indiscriminado feito a partir da Internet, ao qual dificilmente será posto cobro (a escola portuguesa não só não o enfrenta como até o incentiva!), o papel das bibliotecas terá de ser sempre o da salvaguarda das obras e dos autores originais, para além de ajudar na educação que cada vez se revela mais necessária para encontrar o ouro no meio de muita, mesmo muita ganga. Julgo que há ideias novas a pôr em prática. Uma delas é a instituição do depósito digital. O depósito legal é uma instituição em muitos países desde há muito tempo, que consiste em garantir a guarda para memória futura e acesso público de pelo menos uma cópia de uma publicação em papel (livros, revistas, jornais, etc.). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a mais antiga biblioteca pública portuguesa (em 2013 vai fazer 500 anos), é beneficiária desde há quase um século do depósito legal. Ora parece que ainda ninguém se lembrou que hoje todos os livros, revistas ou jornais que se imprimem começam por existir em forma digital, pelo que, se o que está em jogo é a preservação e o acesso aos conteúdos, faz todo o sentido iniciar um depósito electrónico generalizado, de forma a que não prejudique os direitos de autor. Não se trata apenas de fazer cópias digitais da Internet, ou de domínios dela (o que decerto é não só viável como útil), pois há muito digital que não está na Internet. Mas sim de criar uma nova biblioteca, uma biblioteca mundial, de onde pudessem ser feitas consultas e descargas, de uma maneira que há obviamente que regular. Os direitos de autor deveriam ser reconhecidos e os autores devidamente recompensados sempre que fosse caso disso. Não faz muito sentido, na minha opinião, criar um documento digital, materializá-lo em papel e, mais tarde, se se quer um documento em forma digital, ter de o digitalizar. O depósito legal foi uma criação dos estados, naturalmente ciosos das suas línguas e das suas culturas. É por isso que hoje há grandes bibliotecas nacionais, como a do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, e não há grandes bibliotecas internacionais. Mas poderia haver um depósito digital verdadeiramente internacional, uma biblioteca mundial, que poderia chamar-se Biblioteca de Babel. No mundo global em que vivemos, um depósito digital não pode nem deve ser apenas nacional. O projecto Gutenberg de disponibilização on-line de obras que não têm direitos de autor aponta nesse sentido. O open access, o movimento em curso no sentido de liberalizar o acesso a criações científicas (e que está na base do “Estudo Geral”), vai também nesse sentido, o de facultar a todos o máximo do saber humano, pois como disse o astrofísico norte-americano Carl Sagan o "destino do homem é o conhecimento". A Biblioteca de Babel inteiramente digital é uma utopia ao nosso alcance, pois é viável tecnologicamente, assim houvesse vontade política para isso. Será um projecto mais para uma organização internacional como as Nações Unidas do que para uma empresa, como a Google, mas poder-se-á pensar numa parceria entre público e privados. A ideia da Biblioteca de Babel não é original pois já o escritor argentino Jorge Luís Borges escreveu um conto com esse mesmo título, com a diferença de que a biblioteca borgiana era excessivamente grande: tinha tudo o que já se escreveu e se pode algum dia vir a escrever, em qualquer língua do mundo, quando eu me contentaria com tudo o que já algum dia se escreveu, de forma organizada e para ser divulgado. É difícil conceber a mudança que poderia resultar, nas nossas vidas, do facto de termos acesso a esse repositório imenso de saber e de sonho, de conhecimento e de imaginação!Lembro que a história de Babel vem na Bíblia, no Génesis: os homens, que formavam uma comunidade de uma só língua, tentaram fazer um edifício que chegasse a Deus e este, furioso, destruiu-o dispersando a humanidade em comunidades de várias línguas. A Biblioteca de Babel, na linha do que disse Keith Richard, é uma das formas, talvez a melhor forma, de o homem, tal como no mito bíblico, aspirar à omniciência, isto é, aspirar a tornar-se semelhante a Deus.
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April 14 2010, 6:36pm | Comments »
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O FUTURO DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS
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Minha intervenção de hoje no Colóquio sobre Gestão Editorial organizado pela Imprensa da Universidade de Coimbra na sua sede:A Internet mudou as nossas vidas. Mudou, por exemplo, os livros e as bibliotecas. Mas ainda não é muito claro, porém, o modo como vão evoluir o livro e as bibliotecas com a revolução digital em curso. Certo é que estão a evoluir e que irão evoluir mais.Os livros mantiveram-se em papel (publicam-se aliás cada vez mais, em Portugal é um em cada meia hora!), mas apareceram também em versões digitais, ebooks – de alguns livros há só mesmo em versões digitais – que, em vários formatos, podem ser lidas por vários dispositivos dos quais ainda não existe um standard (há o Kindle, por exemplo, que já se vê muito nos Estados Unidos, e há recentemente o Ipad, que elimina o teclado e rato, mas cujo futuro se desconhece). A vantagem dos livros digitais é óbvia: a de evitar o "insustentável peso" do papel (as árvores e o clima agradecem!), a possibilidade de encontrar rapidamente a passagem que se quer, etc. Os meus alunos, por exemplo, já estudam por pdfs que guardam nos seus portáteis ou netbooks, qualquer dia será nos seus telemóveis Os inconvenientes do digital, para além da dificuldade, permitida pela cópia rápida e barata, de reconhecer e recompensar devidamente os autores e editores, são também óbvios: um livro é um objecto material com um design tão perfeito para cumprir a função que desempenha, que, na minha opinião, nunca será inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais veio a ser substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, funciona de modo low-tech (nunca avaria!). É um bom presente para se dar a alguém, isto é, passa bem de uma mão para a outra. Por alguma razão não houve ainda nos livros a revolução que houve na música, com o quase desaparecimento das lojas de discos em favor das descargas digitais. Estou convencido de que, no futuro, haverá a coexistência de livros em papel e livros digitais, com algum natural crescimento destes últimos nos próximos tempos. Soluções como a “Clássica Digitália”, publicada pelo Centro de Estudos Clássicos de Coimbra com o apoio da Imprensa da Universidade, em que os livros aparecem simultaneamente on-line em papel são augúrios do futuro. O print on-demand, permitido por máquinas como a Expresso Book Machine, será uma realidade, pois não há tecnicamente nenhuma razão para não fornecer qualquer livro, mesmo esgotado ou mesmo nunca antes publicado em papel, a alguém que o queira e que esteja disposto a pagar os custos da respectiva materialização e outros. Passar do digital ao analógico em papel será conveniente, será mesmo necessário nalguns casos. Mas uma certa confusão entre suporte magnético e suporte em papel poderá vir a existir: cientistas como a portuguesa Elvira Fortunato querem - e conseguem - fazer transístores no papel. Se a ideia vingar, os ecrãs poderão ser tão flexíveis como o papel, apesar de terem uma imagem tão renovável como os ecrãs de cristais líquidos. O "futuro do livro é bom", como disse o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, que acrescentou logo a seguir "pois sempre vai existir o livro, ainda que seja noutra forma". O mais fantástico será se o livro existir de outra forma na mesma forma!E as bibliotecas, que foram desde tempos imemoriais os sítios onde se depositaram os livros para ficarem à disposição de todos? Nunca é de mais elogiar o papel das bibliotecas. Saiu nas notícias recentemente que Keith Richard, o guitarrista dos Rolling Stones, sempre quis ser bibliotecário. O segredo é revelado na sua autobiografia, a sair em Outubro. Nela Richards revela que, como uma criança e jovem nos anos 50 em Londres, encontrou refúgio nos livros e nas bibliotecas antes de descobrir a música. Declarou: “Quando somos jovem, há duas instituições que nos afectam fortemente: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que te pertence.”As bibliotecas começaram por ter catálogos electrónicos, para passarem a ter livros electrónicos (digitalizando livros antigos ou modernos, como faz o Google, ou arquivando livros electrónicos de raiz, como acontece com os repositórios digitais de teses e de outros trabalhos científicos). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a Imprensa da Universidade de Coimbra têm acordos com o Google para digitalização das suas edições próprias, e a Universidade de Coimbra, através do seu Serviço Integrado de Bibliotecas, disponibiliza urbi et orbi o “Estudo Geral”, repositório de obras modernas, com cerca de 8000 itens, e a “Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra”, repositório de obras antigas, com cerca de 5000 itens. De certo modo a rede mundial de computadores que temos hoje é já uma gigantesca biblioteca, que inclui numerosas bibliotecas virtuais e tudo o resto que a que também, com alguma boa vontade, se poderá chamar biblioteca. As bibliotecas modernas são híbridas - espaços inspiradores guardando e mostrando livros tradicionais em papel que importa preservar e, ao mesmo tempo, sítios no ciberespaço, permanentemente acessíveis, com e sem fios (por exemplo, com smartphones). A Biblioteca Joanina não perde o seu poder encantatório por parte dos seus livros (infelizmente ainda pequena) estarem na Net. O movimento imparável é no sentido de digitalizar tudo o que não foi criado em forma digital. Existem os meios técnicos para isso e Portugal está muito atrasado neste domínio (porque não está todo o Eça de Queiroz acessível digitalmente?), pelo que terão rapidamente de recuperar esse atraso, por meio de um grande esforço nacional e transnacional (por que não envidar esforços sérios com o Brasil e outros países de língua portuguesa para aumentar a presença da nossa língua na Net?). Estou, neste domínio, optimista: aquilo que se pode fazer vai ser feito, até porque neste caso há muito para fazer e é bom que se faça...As vantagens das bibliotecas digitais são óbvias, desde logo a concentração no espaço e rapidez de acesso. Os físicos e os engenheiros resolverão os problemas técnicos dos suportes magnéticos de longa duração, transferindo a informação em bits dos suportes que se vão tornando obsoletos e resolverão também os problemas da comunicação que só não é instantânea porque há o limite da velocidade da luz. A nanotecnologia virá ajudar, com a criação de dispositivos minúsculos que armazenem informação gigantesca - talvez numa folha de papel possa caber toda a Biblioteca Joanina. Lembro que a ideia de nanotecnologia foi lançada em 1959 pelo físico norte-americano Richard Feynman (“Há muito espaço lá em baixo”) que pretendia nada mais nada menos do que colocar os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete e verificou, fazendo as contas, que era possível colocar todos os livros do mundo num minúsculo grão de poeira. Parafraseando William Blake: “all the books in a grain of dust”. Claro que uma coisa é a existência digital na Internet e outra o respectivo acesso: estar na Internet não significa que seja grátis e estou convencido que terá de haver cada vez mais pagamento de custos de acesso ao digital que não seja simplesmente a favor da operadora telefónica: também pagamos a electricidade não só a quem a transporta mas também e principalmente a quem a produz. Sei bem que esta questão do copyright é polémica – é conhecida a oposição aos projectos do Google de alguns editores e autores, mas estou em crer que é necessário encontrar um novo equilíbrio entre o necessário reconhecimento da criatividade e o direito da comunidade ao acesso ao património. Um editorial recente do The Economist, por ocasião dos 300 anos da lei do copyright britânica, vai precisamente nesse sentido, lembrando que os prazos de reivindicação de direitos eram na época muito menores do que hoje. Mas não é fácil concretizar um esquema justo de pagamento, sem ao mesmo tempo permitir a liberalização da cópia, que a tecnologia tornou demasiado fácil.Com o cut and paste indiscriminado feito a partir da Internet, ao qual dificilmente será posto cobro (a escola portuguesa não só não o enfrenta como até o incentiva!), o papel das bibliotecas terá de ser sempre o da salvaguarda das obras e dos autores originais, para além de ajudar na educação que cada vez se revela mais necessária para encontrar o ouro no meio de muita, mesmo muita ganga. Julgo que há ideias novas a pôr em prática. Uma delas é a instituição do depósito digital. O depósito legal é uma instituição em muitos países desde há muito tempo, que consiste em garantir a guarda para memória futura e acesso público de pelo menos uma cópia de uma publicação em papel (livros, revistas, jornais, etc.). A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a mais antiga biblioteca pública portuguesa (em 2013 vai fazer 500 anos), é beneficiária desde há quase um século do depósito legal. Ora parece que ainda ninguém se lembrou que hoje todos os livros, revistas ou jornais que se imprimem começam por existir em forma digital, pelo que, se o que está em jogo é a preservação e o acesso aos conteúdos, faz todo o sentido iniciar um depósito electrónico generalizado, de forma a que não prejudique os direitos de autor. Não se trata apenas de fazer cópias digitais da Internet, ou de domínios dela (o que decerto é não só viável como útil), pois há muito digital que não está na Internet. Mas sim de criar uma nova biblioteca, uma biblioteca mundial, de onde pudessem ser feitas consultas e descargas, de uma maneira que há obviamente que regular. Os direitos de autor deveriam ser reconhecidos e os autores devidamente recompensados sempre que fosse caso disso. Não faz muito sentido, na minha opinião, criar um documento digital, materializá-lo em papel e, mais tarde, se se quer um documento em forma digital, ter de o digitalizar. O depósito legal foi uma criação dos estados, naturalmente ciosos das suas línguas e das suas culturas. É por isso que hoje há grandes bibliotecas nacionais, como a do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, e não há grandes bibliotecas internacionais. Mas poderia haver um depósito digital verdadeiramente internacional, uma biblioteca mundial, que poderia chamar-se Biblioteca de Babel. No mundo global em que vivemos, um depósito digital não pode nem deve ser apenas nacional. O projecto Gutenberg de disponibilização on-line de obras que não têm direitos de autor aponta nesse sentido. O open access, o movimento em curso no sentido de liberalizar o acesso a criações científicas (e que está na base do “Estudo Geral”), vai também nesse sentido, o de facultar a todos o máximo do saber humano, pois como disse o astrofísico norte-americano Carl Sagan o "destino do homem é o conhecimento". A Biblioteca de Babel inteiramente digital é uma utopia ao nosso alcance, pois é viável tecnologicamente, assim houvesse vontade política para isso. Será um projecto mais para uma organização internacional como as Nações Unidas do que para uma empresa, como a Google, mas poder-se-á pensar numa parceria entre público e privados. A ideia da Biblioteca de Babel não é original pois já o escritor argentino Jorge Luís Borges escreveu um conto com esse mesmo título, com a diferença de que a biblioteca borgiana era excessivamente grande: tinha tudo o que já se escreveu e se pode algum dia vir a escrever, em qualquer língua do mundo, quando eu me contentaria com tudo o que já algum dia se escreveu, de forma organizada e para ser divulgado. É difícil conceber a mudança que poderia resultar, nas nossas vidas, do facto de termos acesso a esse repositório imenso de saber e de sonho, de conhecimento e de imaginação!Lembro que a história de Babel vem na Bíblia, no Génesis: os homens, que formavam uma comunidade de uma só língua, tentaram fazer um edifício que chegasse a Deus e este, furioso, destruiu-o dispersando a humanidade em comunidades de várias línguas. A Biblioteca de Babel, na linha do que disse Keith Richard, é uma das formas, talvez a melhor forma, de o homem, tal como no mito bíblico, aspirar à omniciência, isto é, aspirar a tornar-se semelhante a Deus.
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April 14 2010, 6:29pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
UM FALSO CAMÕES
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/um-falso-camoes.html
Minha crónica no Público de hoje:“Os filósofos grandes, com ciênciaE incansável indústria, que alcançara,Das coisas naturais a própria essência,E todas altamente especularam,Nenhuma de mais alta arte e excelênciaEntre todas, que o corpo humano, acharam:De forma, e de matéria um só compostoCom tamanho primor feito e composto.”No ano de 1615, saía em Lisboa do prelo de Pedro Craesbeck (um tipógrafo que tinha vindo de Antuérpia em fuga às guerras religiosas) o poema Da criação e da composição do homem, atribuído ao “grande Luís de Camões, Príncipe da poesia heróica”. Mas era um falso Camões, por muito camoniana que pareça a oitava de decassílabos heróicos transcrita em cima (actualizou-se a grafia), extraída do segundo dos três cantos em que o poema se divide.Houve logo quem percebesse que se tratava de um apócrifo pois a própria primeira edição o revelava no prólogo. Mas, talvez porque o nome de Camões fosse um chamariz, o certo é que a confusão persistiu durante mais de dois séculos. Só em 1861 foi posta à venda uma edição, incompleta pois nem frontispício tinha (de facto, não passava de umas meras provas), contendo o título verdadeiro: Microcosmosmografia e descrição do mundo pequeno que é o homem. Mas quem é o autor que durante tantos anos foi tomado pelo nosso maior vate?Acaba de ser publicado pela Colibri o livro Obras de André Falcão de Resende, numa edição crítica da italiana Barbara Spaggiari. Trata-se de um portentoso trabalho, que exigiu muitos anos de investigação minuciosa. Falcão de Resende foi não só contemporâneo de Camões como seu amigo e admirador. Nasceu em Évora, em 1527, e faleceu em Lisboa, em 1599. Curiosamente, Filipe II, o rei de Portugal e de Espanha, nasceu no mesmo ano que ele e morreu apenas um ano antes. O último poema de Falcão de Resende, que, tal como tantos outros intelectuais da época, defendeu o monarca dual, data precisamente de 1598 e, por ironia mórbida, glosa o tema da peste, que na altura assolou a Península, e que só em Portugal causou cerca de oitenta mil mortos, incluindo o próprio poeta.Falcão de Resende inspirou-se decerto em Camões para escrever a Microcosmografia, que um crítico considerou um “poema alegórico anatómico-cirúrgico” pois toma o corpo humano como imagem de todo o cosmos. Camões já tinha usado o corpo como metáfora geográfica (“Eis aqui quase cume da cabeça/ de Europa toda o Reino lusitano”), mas o seu amigo de Évora, um dos poucos que em vida lhe reconheceram o génio, foi mais longe na escala física, embora sem a mesma qualidade literária. Os dois foram grandes humanistas, tal como o tio do segundo, Garcia de Resende, o bem conhecido compilador do Cancioneiro Geral.Falcão de Resende, tendo seguido uma carreira eclesiástica, chegou a capelão do Cardeal D. Henrique, mas abdicou dela para casar e ter vários filhos (nenhum dos quais lhe sobreviveu). Já quarentão, voltou aos bancos da Universidade de Coimbra para cursar Cânones e conseguir chegar a juiz de fora em Torres Vedras. Foi aí que, em 1589, assistiu à passagem do corsário Sir Francis Drake, desembarcado em Peniche (com uma facilidade que originou a expressão “amigos de Peniche”), na tentativa frustada de ajudar o Prior do Crato a tomar Lisboa. O livro agora publicado está, contudo, amputado de parte de uma pormenorizada descrição dessa invasão inglesa... Em 1800, numa farmácia de Guimarães, o manuscrito apógrafo feito por um anónimo para reunir toda a obra de Falcão de Resende, logo após a morte deste, foi, por um incrível acaso, resgatado de embrulhar pós medicinais, quando um cliente reparou que era um pedaço da história de Portugal que estava a ser rasgado. Está desde então à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, à espera que um mecenas permita o necessário restauro (existe um fac-simile digital na Web). Foi a esse manuscrito e a uma cópia oitocentista dele, devida a um revisor da Imprensa da Universidade, o Sr. Freitas, que a Prof.ª Spaggiari dedicou uma boa parte da sua vida, para nossa ilustração e proveito. Muito obrigado!
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April 9 2010, 2:34am | Comments »






