Minha crónica no "Sol" de hoje:“Portugal Subterrâneo” foi o título de um livro, publicado em 1925 pelo geólogo suíço Ernest Fleury, que de certo modo inaugura a espeleologia portuguesa, isto é, a exploração e estudo científico das grutas nacionais. Uma parte importante da espeleleologia é a bioespeleologia, a ciência que estuda a flora e a fauna subterrâneas. Se a flora no interior das cavidades naturais é bastante escassa – por não haver a luz que permite a fotossíntese – já a fauna nesses locais da Terra é numerosa e variada, chegando por vezes a ser surpreendente.De facto, foi uma boa surpresa o anúncio recente da descoberta em Portugal de duas novas espécies animais adaptadas completamente à vida subterrânea: um novo género e nova espécie de pseudoescorpião, de nome científico Titanobochica magna, e uma nova espécie de escaravelho, Trechus tatai. Esses novos animais – que estavam bem escondidos dentro de grutas respectivamente das serras algarvias e da serra de Montejunto - são ambos troglóbios, isto é, animais do interior das cavernas ou das águas subterrâneas que vivem na maior escuridão e que, por isso, se apresentam despigmentados e desprovidos ou quase desprovidos de órgãos de visão, possuindo em contrapartida órgãos tácteis mais desenvolvidos que lhes permitem, tal como a bengala de um cego, encontrar o seu caminho. Distinguem-se de outros animais cavernícolas, como os morcegos, que só passam no interior das grutas uma parte do seu tempo.Um dos troglóbios mais conhecidos do mundo é considerado o símbolo da Eslovénia, um país cujo solo mais parece um “queijo suíço”. Dá pelo nome de Proteus anguinus e trata-se de um anfíbio despigmentado (a sua cor semelhante à da pele humana faz com que os locais lhe chamem o “peixe humano”) com olhos muito rudimentares, que nada com facilidade por águas subterrâneas.Sofia Reboleira, a investigadora da Universidade de Aveiro com o nome associado às duas descobertas em solo português, que acabam de ser publicadas na revista de sistemática zoológica Zootaxa, declarou a propósito do novo género: "O novo pseudoescorpião é um dos maiores do mundo. Um predador de aparência espectacular, de grandes dimensões e com adaptações extremas à vida nas grutas. Pertence à família Bochicidae, cujos representantes são quase todos cavernícolas. É considerado uma relíquia, sendo o segundo representante desta família na Europa. A sua descoberta enfatiza a relevância da Península Ibérica como refúgio de uma fauna antiga de artrópodes."As Nações Unidas estabeleceram que 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade. Com estas novas espécies dadas à ciência, que se acrescentam a várias outras exclusivas do nosso país, esse ano termina entre nós da melhor maneira.
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PORTUGAL SUBTERRÂNEO
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December 2 2010, 7:04pm | Comments »
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NOVOS ANIMAIS CAVERNÍCOLAS
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Dado ter sido espeleólogo em jovem, continuo a interessar-me pelas novidades que vêm dos mundos subterrâneos. Agora chegou-me a boa notícia da descoberta em Portugal de de duas novas espécies animais adaptadas completamente à vida subterrânea (chamados troglóbios): um novo género e nova espécie de pseudoescorpião, Titanobochica magna (na figura, foto de um dos descobridores, Ana Sofia Reboleira da Universidade de Aveiro) e a nova espécie de escaravelho Trechus tatai.Segundo a referida investigadora: "O novo pseudoescorpião é um dos maiores do mundo. Um predador de aparência espectacular, de grandes dimensões e com adaptações extremas à vida nas grutas. Pertence à família Bochicidae, cujos representantes são quase todos cavernícolas. É considerado uma relíquia, sendo o segundo representante desta família na Europa. A sua descoberta enfatiza a relevância da Península Ibérica como refúgio de uma fauna antiga de artrópodes."Por outro lado, acrescenta ela: "O novo escaravelho cavernícola pertence à família Carabidae e vive nas grutas da Serra do Montejunto. Esta descoberta eleva para quatro o número de espécies, de escaravelhos cavernícolas, descritas das grutas cársicas nacionais, todos pertencentes ao género Trechus."No Ano Mundial da Biodiversidade é de saudar a descoberta de novas espécies em espaços debaixo dos nossos pés!
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November 28 2010, 4:22pm | Comments »
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Uma Lágrima
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Crónica a partir do poema “Lágrima de Preta”, de António Gedeão, in Máquina de Fogo, 1961, e elaborada para o Exploratório Infante D. Henrique, centro de Ciência Viva de Coimbra, no âmbito da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, a decorrer entre 22 e 28 de Novembro de 2010.De tanto rir, uma lágrima cai na palma da mão de António. Espantado com a gotinha de líquido translúcido na mão, António aproxima-a dos olhos para melhor a contemplar. É uma gotinha que parece repousar suavemente sobre a pele, tão perfeita na sua redondeza. Olha através dela e vê uma miríade de pequenos arco-íris num festival de luz e cor. - É a luz solar a ser refractada no interior da lágrima e reflectida para os teus olhos. – Diz uma voz familiar. Orientado pelo som, António foca o seu olhar na superfície da lágrima e vê a imagem nela reflectida do seu tio Rómulo, que acaba de chegar.- Olha tio Rómulo, uma lágrima minha na palma da minha mão. – Diz António elevando a mão até à altura do olhar de seu tio.- Parece uma bola colorida, cheia de arco-íris! – Brinca Rómulo, e pergunta. – Sabes de que é feita? - De água…- responde António hesitante. – …e são salgadas, as lágrimas…- Sim. – Confirma o tio Rómulo. – Água (H2O), quase tudo, e cloreto de sódio (NaCl). – Acrescenta com um sorriso. - E nada mais? – Inquire António com ar desconfiado.- Sabes António, as lágrimas têm propriedades ópticas excepcionais devido a uma mistura complexa de muitos átomos e moléculas que não só a água e o cloreto de sódio.- Quantos átomos e moléculas diferentes numa única lágrima? – Pergunta António, curioso a olhar mais de perto para a lágrima que tem na mão?- Um número astronómico de átomos de oxigénio e hidrogénio; um nada menos de carbono, nitrogénio e enxofre; algumas pitadas de potássio, sódio, cloro, cálcio, ferro e manganésio; vestígios de outros elementos, quanto baste. Enfim, podemos dizer que a tabela periódica dos elementos está muito bem representada numa lágrima.- Tudo isso numa única lágrima? – Insiste António. – Como é que sabemos isso, como é que conseguimos ver tantos elementos nesta lágrima se ela é assim tão transparente e sem cor?- As ciências analíticas, qualitativas e quantitativas, avançaram muito. – Começa a explicar o tio Rómulo – Os cientistas têm hoje, ao seu dispor, inúmeras técnicas e equipamentos muito sensíveis que são capazes de desvendar, pela análise de uma diminuta amostra de lágrima, a sua composição elementar. - Podes começar? – Desafia António.- Em pouco mais de um grama de lágrima, cerca de um mililitro de emoção, e através de espectroscopias, electroforeses e cromatografias, somos capazes de chegar à seguinte observação: para além da água, que pressentimos, encontramos gorduras, proteínas e peptídeos de vários tamanhos e funções, alguns açúcares, sais e muitos outros compostos com baixos e altos pesos moleculares. - Tanta coisa num pedacinho de água? Para quê? – Questiona António espantado.- Sabes António, a lágrima tem como principal função limpar e lubrificar os olhos. Os cientistas descobriram que os componentes do líquido lacrimal se dispõem em três camadas sobre o olho. A primeira é rica em mucina, uma proteína ligada a açúcares, que forma um gel cheio de água e que protege a córnea do olho de forma homogénea e transparente à luz visível. - E a segunda camada? – Interrompe António ávido de saber.- A segunda é uma solução aquosa verdadeira. Contem proteínas como a lisozima, lactoferrina, albumina e outros complexos imunológicos solúveis em água, que atacam micróbios e protegem os olhos de infecções. E é também nesta camada aquosa que encontramos a maioria dos sais, cuja presença permite a regulação da pressão osmótica entre o interior e o exterior do olho. Aliás, a composição em sais faz eco da noite uterina amniótica e é semelhante à do plasma do sangue. É como se fosse uma onda do nosso mar interior a banhar a superfície ocular!- E a última, a que está, se bem entendi, por cima de todas? – Pergunta António atento.- A última camada é feita de óleos, gorduras próprias de lágrima, que criam uma barreira que reduz a evaporação da sua água. Para os olhos não secarem!- É como se fosse azeite por cima de uma gotinha de água? – Comparou António.- Sim, mas são outras as gorduras produzidas pelas glândulas de meibómio. – Especifica Rómulo.- E as lágrimas são todas iguais? – Pergunta António introspectivo.- São iguais entre humanos, diferentes entre os vários animais. As do crocodilo têm outras proteínas, óleos e diferentes concentrações de sais.- E esta que saltou do meu riso é diferente daquelas que escorrem em carreiros quando choro? – Indaga António.- Pouca diferença há, pois essas lágrimas estão armazenadas no mesmo saco lacrimal. Quando choras ou ris, os músculos faciais, que modelam a expressão do teu rosto, apertam o saco e assim são expulsas as lágrimas. – E continua o Tio Rómulo depois de uma breve pausa – Os cientistas descobriram que numa lágrima de emoção há mais de umas hormonas e outras moléculas cerebrais, como a acetilcolina. E se estiveres doente, ainda outras diferenças haverá no grupo proteico da albumina.- Quer dizer que as lágrimas reflectem a saúde do meu corpo e se estou triste ou contente? - Questiona António desconfiado.- Sim. – Responde Rómulo, com um brilho no olhar. – As lágrimas são impressões bioquímicas de um momento do teu ser. Como estão em contacto com todos os líquidos corporais, pela continuidade do plasma sanguíneo, são transparentes na verdade que contam, se as analisarmos em tubos bem esterilizados, claro está. - E eu que pensava que as lágrimas eram só água e sais, nada mais! – Exclama António.- Tudo o que hoje sabemos é pouco, comparado com o que amanhã podemos vir a descobrir! – Diz Rómulo ao tocar com um dedo na lágrima na palma da mão do António.António Piedade
November 24 2010, 8:22am | Comments »
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TEATRO: A máquina dos genes
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Informação recebida da FNAC:A FNAC e o Instituto Gulbenkian de Ciência celebram a Semana da Ciência e Tecnologia com uma peça de teatro, encenada e interpretada por três cientistas: Mónica Dias, Zita Santos e Catarina Júlio. Esta peça fomenta o debate sobre as questões científicas, sociais e éticas associadas à utilização da informação contida nos nossos genes.A MÁQUINA DOS GENESTeatro seguido de debate promovido pelo Instituto Gulbenkian de CiênciaDomingo, 28 de Novembro19hFnac Vasco da Gama, LisboaEntrada Livre
November 23 2010, 7:47am | Comments »
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O Sonho
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(Crónica a partir do poema “Pedra Filosofal”, de António Gedeão, in Movimento Perpétuo, 1956, e elaborada para o Exploratório Infante D. Henrique, centro de Ciência Viva de Coimbra, no âmbito da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia a decorrer entre 22 e 28 de Novembro de 2010).O sonho é, de facto, uma constante da vida e da história Humana.Demócrito sonhou com o átomo. Mas foi Aristóteles, que não possuía equipamentos de ressonância magnética, o primeiro a observar que até insectos, como as abelhas, sonham. Que sonham, quiçá com coreografias, desenhos de néctar, no palco hertziano de uma passarola solar. Mas sonham.Freud, que não sabia como Damásio da natureza molecular das emoções, pressentiu nos sonhos os desejos por interpretar da terra do subconsciente. Desejos de terras distantes, de superfícies lunares.Aserinsky e Kleitman, que não sabiam bolinar, encontraram ilhas de sonho no mar do sono. Designaram estas janelas interiores por sono R.E.M. (Rapid Eye Movement). Por elas, a actividade neuronal expressa nos registos electrofisiológicos, é semelhante à do estado de vigília, quando estamos acordados! Mas por essas janelas cogitamos sem nos movermos. Mas o sonho, esse avança por essas ilhas de sono R.E.M.Hobson e McCarley, sem saberem voar, postularam que os sonhos são experiências sensoriais cerzidas pelo tear do cortéx cerebral, que usa fios de sinais caóticos, emanados desde a Ponte de Varólio, estrutura primeva do tronco cerebral, que partilhamos com os répteis e com as aves.Payne e Nadal, que não eram poetas, definiram o sonho como o resultado de uma semântica feita com memórias, que nele se consolidam numa fluida narrativa, como pedaços de vida acordada mas intangível e que foge à recordação.Se o sonho ocorre, é porque tem uma função específica e útil para as redes neuronais e suas complexas interacções entre as diferentes partes do cérebro. Mas quais são os caminhos do sonho? Em que vagas de ondas de impulsos, ditos nervosos, avança ele, por entre milhões de neurónios, até à praia da nossa consciência? No oásis onírico revoltam-se as essências, ocorrem flutuações na concentração de iões e moléculas. Mas há átomos e moléculas do sonho?Sim. Alguns iões, principalmente os de sódio e potássio. E que moléculas? Certas combinações de não mais de duas dúzias de átomos de carbono, oxigénio, nitrogénio e hidrogénio. Átomos forjados em estrelas, mais ou menos distantes, e que hoje formam neurotransmissores, quais caravelas transportando mensagens.Allan Hobson sonhou quantificar as moléculas do sonho. Mostrou que no sono do sonho, as concentrações nos fluidos cerebrais de neurotransmissores como a serotonina, a histimina e a noradrenalina estão diminuídas, e isto inibe as vias neuro-motoras, relaxando o corpo. Por outro lado, neurónios colinérgicos na Ponte de Varólio aumentam as vagas de acetilcolina em direcção ao córtex e em níveis semelhantes ao estado acordado. Será a acetilcolina (C7H16NO2) uma molécula do sonho?Nesta janela bioquímica que também é o sonho, o córtex cerebral tenta organizar as incessantes e anacrónicas vagas de impulsos. E com a matriz de padrões feitos de sensações e emoções quotidianas, o cérebro cortical vê, sente, ouve sem gastar os sentidos. Revisita a caderneta das nossas vivências, dos nossos planos futuros e compara-os, mistura-os, experimenta-os em novos cenários interiores, para forjar no silêncio uma alquimia de novos e úteis padrões de comportamento. E faz tudo isto e muito mais, sem cansar o corpo.Mas no mar da vigília, também há ilhas de sonho. Ao sonhar acordados, cogitamos as ressonâncias entre experiências passadas com as possibilidades futuras, permitimos que soluções novas, para problemas velhos, floresçam de entre razões enrodilhadas. E através da paleta das ressonâncias magnéticas funcionais, sonhamos nós um dia poder ver as cores de um sonho qualquer, “como bola colorida entre as mãos de uma criança”.António Piedade
November 20 2010, 4:56am | Comments »
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Entrevista a Tiago Fleming Outeiro sobre a Doença de Parkinson
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Tiago Fleming Outeiro é Investigador Principal do Instituto de Medicina Molecular, Professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa e Sub-Director do Jornal Ciência Hoje (www.cienciahoje.pt). Entrevista primeiramente publicada no "Diário de Coimbra".António Piedade - O que é a doença de Parkinson?Tiago Fleming Outeiro - A doença de Parkinson pertence ao grupo das doenças do movimento, sendo caracterizada por rigidez muscular, tremor em repouso, e bradicinésia, para além de instabilidade postural. Estes sintomas advêm da perda de neurónios dopaminérgicos de uma região do cérebro que se chama substância negra.AP - O que é que sabemos sobre as suas causas?TFO - Sabemos ainda pouco, apesar do muito que evoluímos nos últimos 15 anos.Sabemos que 10% dos casos têm origem genética, devido a alterações que ocorrem num de 15 genes já identificados, e sabemos que a vasta maioria dos casos são esporádicos, ou seja, sem causas conhecidas. Por outro lado, sabemos ainda que há factores ambientais que podem aumentar o risco de aparecimento da doença, como a exposição a certos pesticidas. Mas, no essencial, não somos ainda capazes de prever a origem da doença.AP - Se há genes associados à doença, isso significa que, nas pessoas portadoras, há proteínas que se expressam, nos neurónios, de forma não funcional. Sabe-se alguma coisa sobre a regulação da expressão dessas proteínas? A sua expressão é mais intensa em algum período da vida?TFO - Há proteínas que têm mutações cujas consequências não compreendemos totalmente. Não sabemos se se tornam não-funcionais, ou se adquirem funções tóxicas. Por outro lado, a expressão de algumas proteínas pode estar alterada, levando a uma produção excessiva. Contudo, não sabemos se há variações na expressão destas proteínas ao longo da vida... não há estudos que o demonstrem... mas pode ser que aconteça dessa forma.AP - Há algum papel das células da glia no desenvolvimento e progressão da doença? TFO - As células primariamente afectadas na doença de Parkinson são os neurónios. As células da glia são outro tipo de células que existem no cérebro,em número bastante superior ao número de neurónios, e que permitem que estes funcionem de forma normal. Recentemente, tem-se dado mais importância àscélulas da glia, uma vez que parecem poder influenciar o funcionamento dos neurónios e contribuir para a sua morte. No entanto, não sabemos ainda exactamente o seu papel, ou como as poderemos manipular para evitar que causem problemas aos neurónios.AP - Que terapias estão hoje disponíveis para minorar os sintomas dadoença?TFO - Actualmente só existem, de facto, terapias sintomáticas. Não dispomos de terapias capazes de travar a progressão, ou de impedir o aparecimento da doença de Parkinson. Quanto às terapias sintomáticas, existem as farmacológicas, em que se procura modular os circuitos neuronais afectados - os dopaminérgicos, essencialmente, através da administração de dopamina. Outra estratégia utilizada actualmente consiste na estimulação cerebral profunda, uma técnica cirúrgica em que se estimulam zonas do cérebro que não estão a ser devidamente estimuladas, pela morte neuronal que é característica da doença. Esta é uma terapia com riscos, e que não é indicada para todos os casos, mas que apresenta bons resultados em muitos doentes.AP - Sobre que perspectivas flui hoje a investigação sobre a doença de Parkinson?TFO - Há várias linhas de investigação importantes actualmente. Por um lado há a genética, onde se tentam identificar novos genes associados à doença. Por outro lado há estudos epidemiológicos onde se tentam identificar factores ambientais protectores ou de risco. Há depois os estudos moleculares, onde procuramos explorar diferentes organismos modelo, desde as leveduras aos ratinhos ou macacos, para compreender o que se passa dentro das células para as tornar disfuncionais e levar á sua morte. Temos ainda os estudos clínicos, onde se procura testar a eficácia de novas estratégias terapêuticas.AP - E as investigações com células estaminais?TFO - É uma área em crescimento, e promissora, mas que ainda dominamos pouco. Não basta só sermos capazes de obter neurónios a partir de células estaminais. Temos de saber como os introduzimos nas zonas afectadas no cérebro, e como reconstituir os circuitos afectados. Não é uma tarefa nada fácil.AP - Quais são, para si, os marcos mais relevantes na história doconhecimento que temos sobre a Doença de Parkinson? TFO - Em 1817 a doença foi descrita, por James Parkinson. Mais tarde, Lewy identificou os agregados proteicos característicos da doença, os corpos de Lewy. Nos anos 60, foi introduzida a estratégia terapêutica que ainda hoje é utilizada, a administração da L-DOPA. Em 1997 foi identificado o primeiro gene associado à doença de Parkinson, que codifica a proteína alfa-sinucleína, e que é também o principal componente dos corpos de Lewy. Desde então, vários outros genes têm sido identificados, e os mecanismos moleculares têm sido esmiuçados com mais pormenor. Esperamos que os próximos marcos passem pela identificação clara de alvos terapêuticos que possam ser utilizados em ensaios clínicos.AP - A investigação relevante que faz com simples leveduras pode ajudar na identificação desses alvos terapêuticos?TFO - Sem dúvida! Já tem ajudado! O importante é colocarmos as questões certas com os diferentes organismos que utilizamos como modelo de estudo. As leveduras são um modelo simples, mas extremamente bem estudado, o que nos permite compreender mais a fundo mecanismos moleculares complexos, que são difíceis de estudar noutros modelos. Recentemente, os estudos com as leveduras permitiram-nos identificar alvos que estão a ser testados noutros modelos, e que podem, um dia, vir a ser utilizados na prática clínica. O tempo o dirá.António Piedade
November 16 2010, 3:08am | Comments »
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Tremor de Genes e Ambiente
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Crónica publicada no "Diário de Coimbra".O conhecimento sobre a influência genética no aparecimento e progressão da Doença de Parkinson (DP) mudou muito nos últimos 15 anos. As tecnologias de sequenciação e outras entretanto desenvolvidas, permitiram já a identificação de, pelo menos, 15 genes (SCNA, PARK8, etc.) associados a esta doença do movimento. Isto significa que quando um desses genes apresenta determinada variação, o indivíduo que o transporta tem uma probabilidade aumentada de desenvolver doenças parkinsonianas.Mas nem só de genes vive o homem! Sabemos hoje que a Doença de Parkinson é o resultado de uma complexa interacção de uma mistura de factores genéticos e ambientais a que o indivíduo é, e está, sujeito. Isto significa que a causa o desenvolvimento da Doença de Parkinson, na maioria dos afligidos, não se radica exclusivamente na genética ou na história ambiental do individuo, mas numa interacção simultânea entre ambos os conjuntos de factores.Apesar de esta identificação genética não ter ainda permitido avanços significativos na sua farmacogenómica (isto é, o desenvolvimento de fármacos dirigidos especificamente a um determinado gene e/ou à proteína que este codifica) que minorem o avanço ou mesmo o desenvolvimento da doença, a caracterização da componente genética tem permitido perceber melhor como é que o nosso cérebro funciona.Por outro lado, a identificação de genes análogos em outras espécies tem permitido a realização de estudos bioquímicos em modelos animais experimentais, que não são possíveis de realizar em seres humanos, por razões mais que óbvias. A este respeito ressalta o trabalho que tem vindo a ser realizado no grupo do investigador Tiago F. Outeiro no Instituto de Medicina Molecular.Mas a componente genética tem outras implicações: se existem genes associados a esta doença do movimento, então podemos colocar a hipótese de ela não ser uma doença antiga na história das maleitas humanas, e não o resultado de uma modernidade civilizacional urbanística e alimentar desajustada à arquitectura do organismo e ao seu subjacente fenótipo bioquímico. Do ponto de vista genético e evolucionista, o facto de a doença se manifestar maioritária e principalmente após os sessenta anos, sugere que a sua expressão foi “empurrada”, há muito, pela selecção natural para idades superiores à idade de vida média, ao longo da evolução humana, assim reduzindo a sua manifestação em adultos jovens e em idade de procriação.Apesar de a doença e os seus sintomas só terem sido formalmente descritos e documentados, do ponto de vista clínico, em 1817, pelo farmacêutico britânico James Parkinson, são hoje conhecidas fontes bem mais antigas de descrições de perturbações que se podem associar, com as devidas reticências metodológicas, ao mal de Parkinson (ver aqui). Foram encontradas descrições de perturbações e sintomas semelhantes aos descritos por Parkinson em textos hindus (cerca de 2500 a.C.), papiros egípcios (1500 a.C.) e mesmo no texto bíblico (Eclesiastes 12:3), quando é feita referência ao tremor na velhice.Mas a hipótese anterior faria mais sentido se a doença de Parkinson se resumisse só a uma doença do movimento. Os avanços registados na neurologia do quadro de sintomas associados à doença indicam que a perturbação motora possa ser a manifestação de uma de várias fases da doença de Parkinson. Estudos recentes apontam para um período temporal de 40 anos durante os quais ocorrem seis fases caracterizadas por diversas perturbações baseadas em distintas funções neurológicas modeladas por diferentes cambiantes intensidades (ver aqui). Só os últimos 20 anos daquela janela apresentam perturbações do movimento acentuadas e severamente limitantes. Por outro lado, hoje sabemos que os circuitos dopaminérgicos nigroestriados nos gânglios basais do hipotálamo, associados ao controlo das funções neuromotoras, como por exemplo as determinantes do início e fim de um gesto voluntário (ver aqui), também estão também envolvidos em outras “tarefas” neurológicas. Por exemplo, num estudo publicado este ano na revista Neuropsychologia é indicado que funções neurológicas relacionadas com o planeamento de acções no tempo e com a capacidade de tomar decisões, também estão modificadas em indivíduos que apresentam sintomatologia parkinsoniana. Por último, refiram-se a existência de recentes associações de outras áreas do cérebro, que não só os gânglios basais, às perturbações comummente assinaladas nos males de Parkinson.António Piedade
November 15 2010, 6:43am | Comments »
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LIFE: THE GREATEST SCIENCE QUEST OF ALL TIME
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Destacamos, como é habitual ao fim de semana, a coluna WHAT’S NEW do físico norte-americano Robert L. Park:James Watson and Francis Crick stopped by the Eagle after leaving the Cavendish Lab on Saturday, February 28, 1953. Crick raised his glass and announced to all in the pub, "we have discovered the secret of life." And they had; they had unraveled the structure of DNA, the secret of life on our planet. We share genes with every creature that crawls on Earth. But could nature have found other ways on other worlds to solve the problem of life? That would be an even greater discovery. We have seen no hint of life on the other planets in our solar system, though we haven’t yet poked into every corner. In any case, the search for life to which we are not related now reaches beyond the solar system to our region of the Milky Way galaxy. The Third Millennium began with the discovery of planets orbiting stars other than our Sun. We should be able to study these exoplanets with the world's greatest telescope, under development at NASA Goddard. It’s 100 times more powerful than the Hubble, but trouble looms.The James Webb Space Telescope is in trouble. Barbara Mikulski (D-MD), who chairs the appropriations subcommitte that oversees NASA, clearly saw trouble back in June when she requested a review of the NASA budget. The review came in this week. The bottom line is that the James Webb space telescope is a year behind schedule and $200 million short. Christopher Scolese, associate administrator of NASA, agreed with the report's findings, but could not see where they could find the money. I should tell him the secret, NASA is bifurcated. The NASA thats the envy of the world, we might call "Exploration NASA," its a science agency that discovers exoplanets and puts rovers on Mars. Then theres "Carnival NASA." It arranges trips to space for people with too much disposable income, and looks for water on the Moon to make rocket fuel.Robert Park
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November 13 2010, 4:29pm | Comments »
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O Lobo, um bicho “cada-vez-menos-mau”?
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É a única espécie da fauna que tem, a nível nacional, uma legislação específica pela qual é estritamente protegida. É também um dos poucos animais míticos que persiste no imaginário popular e na tradição oral portuguesa.O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra junta na próxima sexta-feira, 12 de Novembro, uma dezena de especialistas das artes e das ciências para partilharem com o público a sua experiência acerca do Lobo.O que se esconde para além das características biológicas e comportamentais do Lobo? Que imagem do Lobo é hoje transmitida pela memória colectiva portuguesa? Espécie em perigo, considerada prioritária de interesse comunitário pela Directiva Habitats, o Lobo ainda é controverso.Mais informações aqui e aquiA entrada é livre.
November 10 2010, 4:23am | Comments »
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TUBERCULOSE: investigações prioritárias
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/tuberculose-investigacoes-prioritarias.html
Apontamento publicado no "Diário de Coimbra".Desde que Robert Koch identificou, em 1882, o agente causador da tuberculose humana, Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, que a investigação sobre como travar a patogenia e multi-resistência antibiótica desta bactéria nunca abrandou. O aparente sossego público contrasta com o grande número de projectos de investigação sobre a tuberculose actualmente em curso e a nível mundial. Isto mesmo é inventariado no último número da revista The Lancet, num artigo em que são destacadas as principais áreas de investigação referidas em outras 33 publicações. As prioridades vão para o desenvolvimento de novas drogas (28 artigos), diagnóstico e testes de diagnóstico (27), epidemiologia (20), investigação em serviços de saúde (16), investigação fundamental (13) e para o desenvolvimento de vacinas (13). Particular preocupação é encontrada na prevenção e tratamento da tuberculose multirresistente em pessoas co-infectadas com o HIV.António Piedade
November 8 2010, 7:57am | Comments »






