Nova crónica de António Piedade saída no "Diário de Coimbra":Logo após a fecundação, depois de uma brevíssima pausa para o zigoto “respirar”, explode uma intensa actividade de divisão, diferenciação e especialização celular. Estes processos vão originar os diversos tecidos e sistemas de órgãos que nos dão forma e nos enchem de vida.Estes processos estão particularmente activos, mas não exclusivamente, durante o desenvolvimento embrionário, no qual são edificados os diferentes tipos de células, blocos estruturantes e funcionais dos diferentes tecidos, alicerces e elementos anatómicos dos órgãos. Numa “tradição” que fica dos tempos embrionários, todos os órgãos cooperam entre si funcionando ao “som” de mensagens bioquímicas (hormonas, neurotransmissores, entre outros compostos), que trocam entre si, numa orquestração homeostática.Um dos veículos de transporte dessas mensagens moleculares é o sangue. Este tecido é composto, como os outros, por um conjunto de células que lhe são específicas. Entre elas encontram-se os glóbulos vermelhos ou eritrócitos.Entre outras funções, ainda hoje pouco esclarecidas, os eritrócitos são responsáveis pelo transporte de oxigénio e de dióxido de carbono, entre os pulmões e os tecidos, garantindo assim que ocorram as trocas gasosas indispensáveis para a respiração pulmonar e celular. É de salientar que os eritrócitos são também indispensáveis na homeostase do ferro e que também podem ser considerados como transportadores deste ião metálico.Regressando ao embrião já nidado à parede uterina materna, as primeiras trocas gasosas que permitem que o oxigénio chegue abundantemente a todas as suas células, e que o dióxido de carbono seja delas removido, são garantidas, inicialmente, por mera difusão. Mas o rápido crescimento do embrião torna a pura difusão insuficiente. A resposta arquitectada é em forma de coração e são desenvolvidos os esboços do que virá a ser o sistema cardiovascular adulto.De facto, um projecto de coração é o primeiro órgão a se formar com a tarefa de propulsionar, por convecção forçada pelo seu bombear, sangue a todas as células. Os primeiros batimentos, numa frequência entre 100 e 115 batimentos por minuto, ocorrem cerca de 21 dias após a fecundação, numa altura em que a mãe, a maior parte das vezes, ainda não sabe que está grávida!Os eritrócitos que fluem nos primeiros tempos de desenvolvimento são gerados por diferenciação de células estaminais embrionárias hematopoiéticas. Recorde-se que o embrião não possui os ossos nem a medula óssea onde os eritrócitos serão gerados quando o organismo estiver completo.A ideia geral sobre a diferenciação celular é a de que ela é mediada por mensageiros químicos, numa interacção célula a célula, que estimula quais e onde se devem especializar as células no, e do, embrião, para executar uma tarefa indispensável para o organismo como um todo. Mas no caso dos eritrócitos, embriologistas moleculares descobriram que as forças biomecânicas do bombear cardíaco, e as resultantes do fluxo sanguíneo, exercem estímulos sobre as células estaminais embrionárias para que estas se diferenciem em eritrócitos (aqui). Ou seja, numa fina e elegante economia de recursos disponíveis, é o próprio bombear do coração que indica a necessidade de se gerar mais glóbulos vermelhos.António Piedade
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FLUIR PARA CRESCER
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August 30 2010, 10:56am | Comments »
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Ondas no embrião do Peixe-Zebra
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Nova crópnica do nosso colaborador habitual António Piedade:O peixe-zebra, muito apreciado pelos aquariófilos, é também muito utilizado em investigações sobre o desenvolvimento embrionário dos animais vertebrados, como nós. A sua utilidade, como modelo animal para estes estudos de embriologia, deve-se, entre outros aspectos, ao facto de o seu genoma estar totalmente sequenciado, o seu comportamento estar muito bem estudado e compreendido, ser relativamente fácil de obter mutantes e de estes também estarem muito bem caracterizados, apresentar um desenvolvimento embrionário em cerca de três dias desde a eclosão do ovo até ao estado larvar, e de não apresentar muita variação de tamanhos, o que permite excelentes comparações entre estudos diferentes.Para além disso, a sua fase embrionária é de muito fácil observação e manipulação experimental uma vez que o desenvolvimento ocorre fora da mãe, com um embrião generoso no tamanho, robusto e opticamente transparente. Esta transparência permite uma boa visualização dos diferentes estados do desenvolvimento embrionário, utilizando um simples microscópio óptico.O aparecimento de novas técnicas microscópicas baseadas na excitação de tecidos biológicos por lasers estáveis e de baixas intensidades, aliadas ao desenvolvimento no tratamento informático da informação captada, tem permitido ultimamente registar aspectos no desenvolvimento embrionário, em tempo real e sem a utilização de marcadores celulares (a marcação de estruturas especificas celulares, para permitir a visualização das diferentes etapas, acabam sempre por ser um elemento estranho no embrião).Neste contexto, foi publicado no último número da revista Science (aqui) um artigo que apresenta novos aspectos espantosos sobre o desenvolvimento embrionário deste importante modelo experimental animal. Um deles é o de os investigadores terem detectado uma certa assimetria pulsante na evolução do desenvolvimento embrionário, que sugere uma certa ondulação com o tempo na diferenciação celular.É como se o desenvolvimento fosse embalado ao ritmo da transcrição genética e da difusão das substâncias modeladoras, que vão progressivamente dirigindo a arquitectura funcional que irá ser o organismo completo. O artigo é acompanhado por vídeos que documentam o observado: aqui.Apetece escrever que “a mão que embala o berço” do desenvolvimento embrionário orquestra o caldo bioquímico ao diferenciar o óvulo singular para a sinfonia multifacetada da vida multicelular e complexa que caracteriza os organismos como o nosso.António Piedade
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August 23 2010, 9:17am | Comments »
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SUPER-RESISTENTES
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Crónica do bioquímico António Pidade saída no "Diário de Coimbra":As bactérias, formas de vidas unicelulares procariótas, existem no planeta Terra há pelo menos 3 biliões de anos. Foram pela primeira vez identificadas pelo Homem através do microscópio de Leeuwenhoek em 1676, apesar de o nosso organismo sempre ter convivido com elas e depender de algumas delas para o bom estado de saúde. Devemos a Louis Pasteur e Robert Koch as primeiras provas de que estes microrganismos podem causar doenças nos organismos que as “hospedam” (hospedeiro) e causar-lhes paradoxalmente a morte. Isto é válido para vermes, insectos, animais selvagens e domésticos e, naturalmente, para o homem. As bactérias encontram nestes organismos as condições apropriadas para a sua sobrevivência e propagação. Mas o que para elas é um “paraíso”, para nós pode tornar-se um inferno com temperaturas elevadas, chagas e outras maleitas que ainda hoje termina na morte.Ao longo da evolução inúmeras espécies de bactérias desenvolveram um arsenal químico de substâncias e estruturas biomoleculares com o objectivo de ganharem vantagens na luta pela sobrevivência. Muitas dessas substâncias, designadas genericamente por Antibióticos, “matam” bactérias de outras espécies, diminuindo assim a competição por alimentos moleculares como a glicose.A nossa luta científica contra as bactérias iniciou-se com a compreensão destes mecanismos naturais de guerra química bacteriana de que resultou o desenvolvimento do primeiro antibiótico por Paul Ehrlich, em 1910.Foi o início de uma luta permanente contra as bactérias. Permanente, porque as bactérias têm a habilidade “inata” em contornar os obstáculos moleculares à sua sobrevivência, ao fim de algumas gerações que, caso geral, duram entre horas a alguns dias. Daqui a importância em fazer a terapia antibiótica até ao fim, para minimizar que uma eventual geração encontre a forma de resistir ao antibiótico agressor.Mas a resistência bacteriana aos antibióticos desenvolvidos pelo Homem é impressionante e muitas vezes estirpes resistentes são identificadas. Ou então, são identificadas novas estirpes de bactérias que emergem do mar bacteriano como se estivessem estado a fazer estágio contra os antibióticos e apresentam resistências insuspeitas. É o caso de bactérias do género das enterobacteriaceae, que causam infecções no aparelho gastrointestinal entre outros órgãos, identificadas recentemente no Reino Unido, mas com epicentro localizado em Nova Deli (Índia) e no Paquistão. A espionagem bacteriana genética desenvolveu uma “nova” enzima, a NDM-1 (de New Delhi metallo-β-lactamase 1) que confere a estas estirpes uma “super-resistência” aos antibióticos que actuam pela “destruição” da parede externa feita de peptidoglicano protecção essencial das bactérias classificadas por gram-negativas.O estudo descrevendo a sua identificação e alertando para um possível problema mundial na luta contra as super-resistentes bactérias acaba de ser publicado na revista “The Lancet” (aqui).António Piedade
August 17 2010, 11:26am | Comments »
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CAMINHOS NEURONAIS
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Nova crónica de António Piedade saída no "Diário de Coimbra": Caminho adentro um trilho florestal debruado por pinheiros e eucaliptos. As folhas acompanham-me com os versos do poeta andaluz, Manuel Machado: “…caminante no hay camino, se hace el camino al andar”. De facto, só ao caminhar desvendo o fluir do caminho, os seus trilhos efluentes, as suas sendas que ficam inexoráveis para trás.Caminho à beira-mar com a água salina a ondular a areia em vagas pulsantes. A cada onda, desaparecem os rastos dos meus passos. É como se a água levasse o caminho feito. A cada onda, renova-se o areal horizonte de meus passos futuros, como se uma nova folha se esbranquiçasse para receber, novamente virgem, o traço seguinte.Caminho ao longo de um axónio imaginário, prolongamento celular nervoso que nasce do corpo neuronal e se espraia até à enseada da sua ligação, ou sinapse, com o neurónio a quem passa o testemunho de uma mensagem que flui. Flui como uma onda salina de potássio e sódio, propulsionada por uma acção potencial de natureza electroquímica. A passagem de testemunho tem cambiantes químicos que modelam a mensagem com neurotransmissores específicos: serotonina e noradrenalina associadas ao “humor”; dopamina ao controlo motor; acetilcolina à aprendizagem e memória; ácido gama-aminobutírico à inibição; glutamato e aspartato à estimulação; et cetera.A vaga neurotransmissora banha o neurónio pós-sináptico, passo seguinte, e uma nova onda se espoleta e conflui com milhares de outras vindas de tantos outros neurónios, numa raiz dendrítica que encorpa no integrante corpo celular.E assim, de sinapse em sinapse, passo a passo, a mensagem faz o seu caminho e a via neuronal se estabelece, consequente, numa acção causal de efeitos complexos ainda pouco estabelecidos, porque muitos são os caminhos e muitas as suas intercomunicações em rede.Constelações neuronais em estruturas cerebrais específicas, delineiam caminhos e destinos ainda por identificar e relacionar com acções e sensações, com pensamentos e palavras.Alguns peregrinos, como Xim Jin e Rui M. Costa, encontraram em faróis banhados por vagas dopaminérgicas, os contornos iniciais e finais de gestos sequenciais (aqui). Outros peregrinos, como Vivien Chevaleyre e Steven A. Siegelbaum, percorreram os caminhos definidos por diferentes tipos de neurónios piramidais que se alinham no hipocampo e que se sabiam estarem envolvidos, de alguma forma, no estabelecimento de uma memória espacial essencial à repetição do gesto (aqui). Especificamente, identificaram que neurónios piramidais, do tipo CA2, desempenham um papel que inverte a força das vagas no palco sináptico: “dão” mais ímpeto às mensagens longínquas vindas do córtex e “abafam” as dos seus vizinhos piramidais do tipo CA3, neurónios também do hipocampo.Um dia, se o sonho tiver natureza neuronal, peço emprestado o verso ao poeta luso António Gedeão e digo que “Eles nem sabem nem sonham, que o sonho comanda à vida” e que é pelo sonho que caminhamos!
July 31 2010, 4:29am | Comments »
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FIM DA GRIPE A
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Durante algum tempo acompanhámos aqui a pandemia de gripe A, reproduzindo os comentários do médico especialista nem microbiologia João Vasconcelos Costa. Ele escreveu há pouco a sua última crónica sobre essa gripe. Pode ser lida aqui.
July 27 2010, 7:36pm | Comments »
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NEURÓNIOS SINALEIROS
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Nova crónica de António Piedade saída no "Diário de Coimbra":Está a ler um jornal. Queira por favor mover a sua mão até ao canto superior direito da folha e oprima o canto desta com o seu polegar e o seu indicador direito (no caso de estar a ler via internet, substitua o alvo pelo canto superior direito do monitor).Tome agora consciência do gesto que acabou de fazer e que muito provavelmente acompanhou com o olhar (que certificou a exactidão da posição final) e recorde-o mentalmente (se ajudar, feche momentaneamente os seus olhos). Repita o gesto, mas agora certifique-se mesmo que não olha para a sua mão em nenhum momento do tempo que demora a levar os dedos até ao canto superior direito. Mesmo que não tenha seguido inicialmente o movimento com os seus olhos, é muito capaz de imaginar o gesto que fez da primeira vez e repeti-lo com uma precisão aceitável. Os olhos permitem que o cérebro veja, mas este também é capaz de gerar imagens de referência, a partir de padrões previamente adquiridos, que pode utilizar libertando assim os olhos para outros horizontes. Por exemplo, os pianistas conseguem estar a tocar, movimentando os dedos das duas mãos, sem o auxílio dos olhos, que poderão estar fixos na partitura musical. Impressionante não é?Sinta de novo todo o movimento, desde o início até ao fim, e imagine a quantidade de músculos envolvidos neste gesto. São muitos, não são? Ombro, braço, mão e dedos…como é que esta quantidade de músculos é controlada, orquestrada, para efectuar aquele gesto?Pense agora, só por um instante, que não conseguia de todo, ou com muita dificuldade, realizar aquele gesto. Sente a mão e o antebraço pesados, não é? E se não o conseguisse devido a um tremor redutor da sua motricidade fina?Mas afinal de contas, o que é que estamos para aqui a experimentar? Estamos a dar enfoque à nossa capacidade de controlo motor, mais ou menos fino consoante a idade e o contexto de saúde da pessoa em causa.Para quê? Para nos identificarmos e sintonizarmos melhor com o significado e importância da investigação que tem sido realizada por neurocientistas e que visa, primeiro identificar e compreender, para depois poder aplicar esse conhecimento em terapias dirigidas ou ajustadas a determinadas disfunções do sistema motor. Que disfunções? Por exemplo, as que estão associadas a doenças neurodegenerativas e que afectam o controlo motor, como são as de Parkinson e Huntington.Recapitulemos o gesto inicial pondo em evidência as áreas cerebrais que se sabem estarem associadas ao simples gesto que acabou de realizar.Não cabe nesta crónica detalhar como é que o cérebro “percebeu” que deveria “coordenar” o movimento da sua mão direita até ao canto superior direito (da folha, ou do monitor). Contudo, refira-se que um “frenesim” de circuitos neuronais em diferentes zonas do cérebro, como sejam o córtex visual, o córtex de associação visual, o cerebelo e o hipocampo, estão activos e a “trabalhar” em conjunto, para que possam identificar e dar significado aos caracteres gráficos que os seus olhos captam. Descodificada a informação lida, são activados os circuitos neuronais apropriados para executar o gesto sugerido. Identificado o alvo final do movimento, fruto do trabalho do córtex visual (lobo occipital) e/ou do córtex pré-motor (lobo frontal do cérebro), entram rapidamente em acção o córtex motor do hemisfério esquerdo (as vias de comunicação entre o cérebro e o corpo estão, em geral, cruzadas), o cerebelo (maestro da motricidade, equilíbrio e postura corporal) e os gânglios basais. De alguma forma, inúmeros circuitos neuronais estabelecem comunicação em rede entre estas estruturas cerebrais e o córtex motor que envia impulsos nervosos (eferentes) para os músculos necessários à execução do movimento sugerido. No reverso, impulsos nervosos (aferentes) retornam dos músculos activados, assim como dos órgãos visuais, para que as estruturas cerebrais nos lobos frontais e occipitais “monitorizem” a cada instante a boa prossecução e suavidade do gesto. Muitas centenas de trocas de informação entre circuitos neuronais e músculos de forma a assegurar que a mão se dirige para o local pretendido. Mas, em que zona(s) do cérebro se encontram os circuitos neuronais responsáveis pelo envio das ordens: iniciar e terminar o movimento? Estarão situados em zonas diferentes?Num artigo publicado por Xin Jin e Rui M. Costa (investigador principal do Programa Champalimaud de Neurociências no Instituto Gulbenkian de Ciência), na passada quinta-feira na revista Nature (aqui), são apresentados os resultados de investigações por eles efectuadas, nos últimos três anos, e que visam identificar e entender os circuitos neuronais envolvidos na aprendizagem do “iniciar” e do “terminar” um movimento ou tarefa. Para isso utilizaram ratinhos que, a troco de guloseimas (açúcar) “aprenderam” a tocar oito vezes (e não sete ou nove) numa mesma tecla de um piano.Já se sabia que um grupo de neurónios, activados pelo neurotransmissor dopamina (neurónios dopaminérgicos) e situados no corpo estriado nos gânglios basais, que delineiam uma das principais vias dopaminérgicas (a nigroestriatal), estavam, de alguma forma, envolvidos na aprendizagem de acções sequenciais e na execução de tarefas.O que Rui M. Costa e Xin Jin identificaram é que há um grupo destes neurónios que se activa quando se inicia a tarefa e outro conjunto, distinto do primeiro, que é activado para a acção terminar. É como se fossem as letras capitais e os pontos finais no texto das instruções para um dado movimento ou tarefa. Uma espécie de neurónios sinaleiros que dirigem o início e o fim de tarefas sequenciais para além de estruturarem sintacticamente a aprendizagem de novos movimentos.Para além do natural interesse para a compreensão de como o nosso cérebro funciona, a identificação destes interruptores neuronais tem interesse particular para a compreensão das desordens motoras associadas às doenças de Parkinson ou de Huntington, uma vez que se sabe estarem os neurónios dopaminérgicos dos gânglios basais afectados ou mortos nestas afecções neurodegenerativas.Serão também estes os neurónios da tabuada, da recitação, das lengalengas?António Piedade
July 26 2010, 4:07pm | Comments »
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GIRA-TOALHA!
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/gira-toalha.html
Nova crónica de António Piedade saída n'"O Despertar":Se observarmos, neste tempo balnear, as pessoas deitadas numa praia qualquer, constatamos que estão, quase sempre, a tentar obter a melhor orientação para uma maior exposição do seu corpo ao Sol. E fazem-no num sincronismo colectivo proporcional e modelado à preguiça de cada um. Verificamos que as pessoas tendem a manterem-se alinhadas com linhas imaginárias que convergem perpendicularmente ao plano do disco solar.Que trabalheira estar sempre a rodar a toalha! Se tivéssemos um dispositivo que a sincronizasse com a velocidade angular média aparente do Sol no firmamento (aparente, porque, na realidade, é a Terra que está a rodar), não teríamos este desconforto todo do levantar, colocar a toalha na orientação seguinte do ponteiro solar, voltar a deitar, verificar que ainda não é essa a direcção que nos ilumina a maior parte da superfície corporal, voltar a levantar… enfim!Com o conhecimento tecnológico que hoje possuímos não nos seria difícil construir uns suportes mecânicos, com areia por cima, que girassem de forma a garantir a exposição desejada por cada um. Uns sensores de intensidade luminosa, estrategicamente colocados, ligados a um pequeno computador, servo de meia dúzia de instruções contendo em base de dados a equação do tempo de modo a calcular a velocidade angular média aparente do Sol à latitude e dia do ano, comandariam alguns motores, silenciosos, que manteriam a plataforma de férias sempre direccionada para o astro-rei! Não seria necessária qualquer fonte de energia terrena, nem cabos, uma vez que discretos painéis solares (feitos com os polímeros de última geração impregnados com a melhor de sílica da areia local) bordariam a corola do “gira-toalha”. Nas intermitências, a energia radiante que sobejasse carregaria um conjunto de pequenas baterias. Estas, por sua vez, poderiam alimentar todo o sistema se porventura uma ousada nuvem cobrisse o Sol. Ou então, permitir uma versão de praia ao luar para os noctívagos balneares.Também interessante, seria tecermos a própria toalha com essa tecnologia incorporada nanotecnologicamente em microfibras. “Cozido” a ela, um sistema de tracção mecânica à base de micro lagartas, ajustáveis à fineza do areal, encarregar-se-ia da movimentação.“E porque é que não levamos uns girassóis e nos deitamos em cima deles”, diz-me um menino a brincar na areia, divertido com a sua genuína e genial simplicidade. Nem mais. Os girassóis já trazem tudo integrado e com um design ecológico! Além disso, como são naturais, são biodegradáveis. Mas, teriam de ser uns girassóis capazes de nos suportar e não sabemos se não seríamos tóxicos para eles uma vez deitados em cima deles!Já agora e a propósito, como é que os girassóis seguem o movimento solar?A foto-orientação de plantas como o girassol, em resposta à luz solar ou heliotropismo, é desencadeada pela desigual intensidade da radiação que incide em diferentes partes da planta. Em geral, as células da planta mais iluminadas sofrem uma alteração no seu conteúdo em água, resultado da activação/desactivação de um conjunto de vias de sinalização bioquímicas que envolvem uma hormona vegetal designada por auxina. Esta é responsável pelo crescimento e movimento diferenciais de partes diferentes da planta. Sabemos hoje que também ocorre uma movimentação dos cloroplastos (organelos responsáveis pela fotossíntese) nas células vegetais, em resposta à maior ou menor incidência da luz. No conjunto, verifica-se que as células mais expostas à luz reduzem o seu tamanho enquanto as que estão mais à sombra aumentam o seu volume interno. Isto ocorre reversivelmente e provoca uma rotação ou faz com que a haste ou caule se encurve.Assim, do balanço luz/sombra – movimento aparente do Sol, a resposta das células vegetais é o de tirar o maior proveito da luz solar incidente… sem apanhar escaldões nem desenvolver cancro!António Piedade
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July 26 2010, 4:01pm | Comments »
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CRÓNICA BREVE DE UMA DOR ANUNCIADA- 2
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Nova crónica de António Piedade, que completa a anterior sobre o mesmo tema:O desenvolvimento embrionário é fascinante. No “planeta” amniótico, o embrião, resultado da divisão, por um número de vezes preciso, de uma única célula (o ovo ou zigoto), tem uma polaridade magnificente na noite uterina. Esta polaridade, é determinada por gradientes de concentração de uma miríade de RNA (sigla inglesa para o Ácido Ribonucleico) mensageiros, RNA inibidores, RNA de transferência, proteínas, lípidos, glícidos, sais, ácidos, iões, oligoelementos, etc. Em algumas zonas do embrião algumas das substâncias estão em maior concentração. Noutras zonas, serão outras as que marcam e sinalizam a diferença, não só no mar interior celular (citoplasma), mas também no espaço intersticial das “costas” celulares (a superfície celular). Há um intenso tráfego de moléculas e elementos ionizados que, ao se difundirem nos “rios que banham” as células, interagem com biomoléculas sensíveis, que se encontram na superfície externa das membranas celulares e que funcionam como antenas receptoras de mensagens extra-celulares.A mensagem, “agora é preciso que te diferencies numa célula de uma futura vértebra”, chegou com uma maré de mensageiros bioquímicos sincronizada pelos relógios moleculares que hoje sabemos existirem no desenvolvimento embrionário (e pela vida/morte fora). De facto, as investigadoras portuguesas (lideradas pela Isabel Palmeirim - ipalmeirim@gmail.com) de quem temos vindo a falar, identificaram um desses relógios que marcam o passo do desenvolvimento vertebral, respondendo às oscilações nas concentrações da proteína Shh (aqui).E é assim por todo o lado do embrião. Vagas de marés que valsam notícias biomoleculares, banham células em zonas diferentes do embrião, permitindo que os futuros tecidos e órgãos se desenvolvam de forma cooperativa, sincronizada, respeitando a finalidade do todo que é o organismo (ver vídeo aqui).Mesmo que o plano seja “só” o de executar um projecto (inscrito no genoma) de organismo que sobreviva, devido a um fenotipo bioquímico ajustado às circunstâncias envolventes, para conseguir transmitir os seus genes ao maior número de descendentes férteis. Mas as dores, se presentes, são descartáveis neste plano. A natureza é também nisto implacável!Muito longe de nos satisfazermos só com o plano sobreviver/reproduzir, a esperança média de vida à nascença dos seres humanos que vivem no hemisfério norte, tem aumentado muito nos últimos milénios. Sem estar totalmente demonstrado, há aqui e acolá evidências de um desfasamento entre os cronómetros biomoleculares e esta expansão na longevidade. Muitas das maleitas “empurradas” para idades “após reprodução” pela selecção natural, ficaram de repente nuas e expostas pela possibilidade de vivermos mais tempo. Desabrocham em choro de dores, muitas vezes orquestradas minimalistamente por modos de vida que as amplificam do resto em compassos longos e monótonos: má alimentação, muita e pouco variada poluição, pouco ou nenhum exercício, posturas incorrectas, sem necessidade de lutar pela sobrevivência uma vez que tudo ou quase tudo à disposição sem muito esforço (mesmo cognitivo).A investigação efectuada por Isabel Almeirim e colaboradores nos últimos 30 anos, também ela repleta de dores próprias da investigação científica (persistência na ausência de quaisquer resultados, na falta de reconhecimento, nas muitas horas em operações repetitivas e de rotina e que originam muitas dores também nas costas, etc.) é agora alumiada numa revista científica de primeiro plano internacional o que alertou os media portugueses.Contudo, o avanço no conhecimento do desenvolvimento e formação da coluna vertebral não significa resposta imediata ao apelo “tirem-me estas dores nas costas”. É muito importante identificarmos os agentes em causa na formação da coluna vertebral, pois isso permite-nos compreende-los e entender os mecanismos em que estão envolvidos. Mas, nem temos hoje ainda tecnologia de visualização não invasiva que permita detectar, nas primeiras semanas de gravidez, desvios perigosos nas curvas naturais da coluna, nem foi desenvolvido nenhuma terapia ajustável aos desvios de cada um. Eventualmente, o que se avizinha é o rastrear os genes agora identificados num teste genético mais prematuro.No mínimo, isto poderá permitir a adopção de medidas e comportamentos correctivos e preventivos dos prenúncios moleculares das dores de costas assim anunciadas.António Piedade
July 19 2010, 5:43am | Comments »
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TEORIA NAS BIOCIÊNCIAS
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Informação recebida do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa:O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa tem a satisfação de dar a conhecer a publicação dos n.ºs 2 e 3 do vol.29 da revista Theory in Biosciences (da editora Springer) com o título Darwin evaluated by contemporary evolutionary and philosophical theories que reúne muitos dos textos apresentados num colóquio com o mesmo nome realizado pelo CFCUL em 23 e 24 de Abril de 2009 na FCUL e que tem por editores Nathalie Gontier, Francisco Carrapiço, Marco Pina, André Levy and Helena Abreu Nele se encontram os 17 artigos seguintes (pp.77-245): Darwin’s legacy Nathalie Gontier Playing Darwin. Part A. Experimental Evolution in Drosophila Margarida Matos Playing Darwin. Part B. 20 years of domestication in Drosophila subobscura Punctuated equilibrium in a neontological context Melanie J. Monroe and Folmer Bokma Punctuated equilibrium and species selection: what does it mean for one theory to suggest another? Derek Turner Saltational symbiosis Jan Sapp How symbiogenic is evolution? Francisco Carrapiço What is a species? Essences and generation John S. Wilkins New insights into molecular evolution: prospects from the Barcode of Life Initiative (BOLI) Filipe O. Costa and Gary R. Carvalho Pattern, process and the evolution of meaning: species and units of selection André Levy Evolutionary epistemology as a scientific method: a new look upon the units and levels of evolution debate Nathalie Gontier Computational evolution: taking liberties Luís Correia Human evolution and cognition Ian Tattersall Grammatical equivalents of Palaeolithic tools: a hypothesis Antonio B. Vieira Sensory exploitation and cultural transmission: the late emergence of iconic representations in human evolution Jan Verpooten and Mark Nelissen Language trees ≠ gene trees James Steele and Anne Kandler Taking evolution seriously in political science Orion Lewis and Sven Steinmo Os resumos e os conteúdos podem ser consultados em http://www.springerlink.com/content/h30434147v76/?sortorder=asc&p_o=0
July 16 2010, 4:58pm | Comments »
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O Polvo
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Como é habitual, destacamos a crónica de sexta-feira de J.L. Pio Abreu no "Destak":Há quem o prefira à Lagareiro, mas é um prodígio da natureza. Tem olhos iguais aos nossos, pinta-se como nós e não tem coluna dorsal, como alguns de nós. Os machos morrem de amor e as fêmeas morrem pelos filhos. Parecidos connosco, se tivéssemos mais coragem. Têm um problema: às vezes são canibais. Mas os homens, além de às vezes também o serem, ainda fazem coisas piores. O polvo tem oito braços, pelo que toca em tudo. Algum humano que também o faça é logo acusado de polvo. Tem também um cérebro desenvolvido e uma inteligência que, sendo a maior dos moluscos, é comparável à dos primatas, ordem a que temos a honra de pertencer. Apesar de tudo, os humanos só respeitaram o polvo quando Paul, morador de um aquário em Oberhausen, conseguiu prever os vencedores dos jogos do Mundial de Futebol e deu antecipadamente o título à Espanha. Digo isto porque anda por aí toda a gente a fazer previsões desconcertadas: que pagam a dívida, que não pagam, que reduzem o défice ou não, que a produção aumenta, que ela se encolhe, que a bolsa sobe, que desce, que vai haver inflação, que afinal é recessão e talvez deflação, que os bancos vão falir, que acabam por se aguentar. Em geral desacertam, e só servem para alimentar desconfianças e jogos de apostas. É por isso que eu prefiro um polvo a todos os economistas. Qual Banco de Portugal, qual OCDE, qual Fundo Monetário Internacional, qual Comissão Europeia, qual Moody’s, qual Fitch, qual Standard & Poor’s? Que vão todos mas é fazer prognósticos depois dos jogos! Por mim, só me vou fiar no polvo.J. L. Pio de Abreu
July 16 2010, 4:51pm | Comments »









