Nova crónica do nosso colaborador habitual António Piedade e, tal como outras, saída antes no "Diário de Coimbra":Tinham-se passado vinte dias desde que a mãe da Ti Alzira engravidara. Para além de uma estranha nostalgia, antecipação do feitio da filha, a mãe não sabia que transportava dentro de si uma semente de mulher valente, carácter vertical invejável, mas fraca das costas, um cabo de tormentos inenarráveis.A futura Ti Alzira, aninhada no útero materno, tinha então uns diminutos dois milímetros, medida essa hoje descartável em comparação com os seus 1710 milímetros estendidos. Sim, porque as dores cortantes e desafinadas nas costas, melhor, naquela mísera coluna, a encolhem para a altura do cabo (ainda alto) da sua inseparável vassoura.Naqueles momentos mágicos do seu tempo embrionário, já se encorpava uma extremidade mais globular (futura cabeça) e outra mais embicada (fundo das costas…). Entre estas extremidades já se alinhavava o tubo neural, ainda notocorda, futura centralidade da medula espinal. Fileiras de células de origem mesodérmica ladeavam o sulco de sensações e preocupações futuras. Em lugar determinado pela densidade de condimentos proteicos e acídicos, algumas dessas células avolumavam-se em ares vertebrais. Sim, dois pares de agregados de células mesenquimais designados por somitos são ainda projectos de vértebras lombares, aí por essa altura do lombo da Ti Alzira.Ao longo e ao redor do tubo neural, varia o gradiente (diferença na concentração) de diversas biomoléculas que dão corda ao relógio das decisões biomoleculares, torneadoras das abóbadas vertebrais. Uma delas, a proteína Shh (S de Sonic; hh de hedgehog homolog – homólogo de ouriço-cacheiro), está mais concentrada na extremidade caudal, enquanto outras, como as Wnts, se mobilizam mais a nível cervical. Estas diferenças, que variam suave e continuamente ao longo da futura coluna vertebral, decidem onde e quando imigrará cada célula mesenquimal embrionária dos somitos para concretizar a futura herança óssea, cartilaginosa e muscular do elemento vertebral.A precisão micrométrica da diferenciação advém da natureza nanométrica dos implacáveis decisores biomoleculares. Qualquer perturbação (por exemplo, chuva alcoólica!) nestas concentrações e, num piscar de olho, a futura vértebra ficará minimamente desalinhada. Esse evento, mesmo que único, poderá determinar que a futura coluna, no seu esforço e desgaste diário, comece a ceder por ali. Minimamente desviada por um jeito malfadado, pressiona o conteúdo neuronal da medula espinal e… dores, muitas dores e outras antecipadas no córtex cerebral, cinzelam o amanhã dorido da Ti Alzira, qual ouriço-cacheiro por ali entranhado.Ainda por cima, dos somitos também se diferenciarão as células para as costelas e de toda a musculatura lisa ligada, de uma ou outra forma, a elas e à coluna. Por exemplo, à respiração. Quantas vezes a Ti Alzira ficou como que sem respirar, por causa de uma dor nas costas?!Mas o que é que determina esse gradiente gelatinado de Shh, Wnts e outras biomoléculas? Os genes. Sim, no caso da proteína Shh, uma das sinalizadoras do relógio embrionário, é o gene shh, localizado no braço maior do cromossoma 7 (aqui). A sua diferente actividade ao longo de cada uma das células mesenquimais a ladear o tubo neural causará uma maior ou menor síntese da proteína com o mesmo nome. Esta gradação da expressão genética determina o gradiente de proteína sinalizadora.As investigadoras portuguesas das Universidades do Minho e do Algarve, mencionadas em minha crónica anterior, descobriram esta relação entre a actividade do gene shh e a coordenação espácio-temporal da formação embrionária das vértebras. Verificaram que a sua falta pode fazer retardar o início da “obra” em nove horas! Que desalinhamento, que dores futuras. Mas também identificaram que uma outra molécula, o ácido retinóico, pode recuperar o atraso, caso esteja nas redondezas do desalinho.(continua)António Piedade
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CRÓNICA BREVE DE UMA DOR ANUNCIADA
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/cronica-breve-de-uma-dor-anunciada.html
July 12 2010, 3:25pm | Comments »
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Reinos esquecidos
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/reinos-esquecidos.html
Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:Plantas e animais! Até aqui, nada de novo para ti! Estamos a falar de dois grandes grupos de seres vivos, mas será que existem outros?No ano Internacional da Biodiversidade, as Férias no Chimico do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra convidam-te a explorar o mundo destes seres esquecidos. Embarca nesta aventura e vem aprender coisas novas de uma forma muito original!Vamos falar de…- seres esquisitos que nos rodeiam- quais as suas características- qual a sua importânciaQUANDO PODES PARTICIPAR?13 a 16 de Julho27 a 30 de Julho24 a 27 de Agosto7 a 10 de Setembro10H00 - 13H00 (5-7 anos)14H30 - 17H30 (8-12 anos)30 eurosInscrição préviaMais informações aqui
July 9 2010, 4:21am | Comments »
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VEM AÍ O SALMÃO TRANSGÉNICO?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/vem-ai-o-salmao-transgenico.html
Artigo meu saído no semanário "Sol" de hoje:Há quem lhe chame Frankensalmon, por analogia com Frankenstein. Mas talvez essa analogia seja exagerada. Facto é que, segundo informa o New York Times de 25/6/2010, uma empresa norte-americana, a AquaBounty Technologies, espera para breve a aprovação pela agência norte-americana do sector dos alimentos, a Food and Drug Administration – FDA, de um salmão transgénico. Esse peixe, baptizado de AquaAdvantage, não passa de um vulgar exemplar como há nas águas frias do Atlântico, pois tem o mesmo aspecto e o mesmo sabor. Mas oferece aos seus produtores uma enorme vantagem relativamente ao salmão comum: cresce em metade do tempo. O crescimento rápido do salmão consegue-se por adição de duas “peças” genéticas, provenientes de outros peixes, um é o gene de uma hormona de crescimento fornecido por um “primo” mais avantajado, e outra é um interruptor genético que vem de um “parente” mais afastado.Já foram passadas as primeiras fases do processo de aprovação pela FDA, pelo que a chegada do novo salmão ao prato está mais próxima. Mas o tema dos transgénicos é controverso, não só nos Estados Unidos como em todo o mundo. No mercado existem vários transgénicos vegetais, que, nalguns casos, entram em rações de gado, mas o salmão é um dos primeiros transgénicos animais para consumo humano directo. A oposição a todos eles é liderada por movimentos ecologistas, que expressam alto e bom som os seus receios. Acentuam o desconhecimento que existe a respeito de espécies com elementos artificiais e invocam o princípio da precaução. A maioria da opinião pública está com eles, o que não admira dado ser normal o medo do que é invisível (os genes não se vêem a olho nu!) e do que é desconhecido (serão os organismos modificados danosos?). Na Europa a discussão sobre os transgénicos tem sido muito viva e a Comissão Europeia, depois há pouco tempo ter autorizado o cultivo de algumas novas espécies, como a batata, quer passar a “batata quente” para os estados membros, permitindo que cada um deles regule o assunto a seu bel-prazer.Por seu lado, os defensores dos alimentos transgénicos sustentam que a qualidade do produto é rigorosamente a mesma (o novo salmão contém os mesmos nutrientes, como as gorduras ómega-3, que diminuem os riscos cardiovasculares). Que é possível evitar cruzamentos com outras espécies (os peixes transgénicos crescem em viveiros marinhos e as fêmeas são estéreis). E que, com as novas fontes de proteínas, será possível atender às necessidades cada vez maiores da população mundial sem afectar a ecologia dos mares nem aumentar as emissões de carbono (na Ásia os transgénicos têm maior receptividade do que nos Estados Unidos e na Europa). A discussão está aí para dar e durar...
July 8 2010, 5:01pm | Comments »
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VEM AÍ O SALMÂO TRANSGÉNICO?
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Artigo meu saído no semanário "Sol" de hoje:Há quem lhe chame Frankensalmon, por analogia com Frankenstein. Mas talvez essa analogia seja exagerada. Facto é que, segundo informa o New York Times de 25/6/2010, uma empresa norte-americana, a AquaBounty Technologies, espera para breve a aprovação pela agência norte-americana do sector dos alimentos, a Food and Drug Administration – FDA, de um salmão transgénico. Esse peixe, baptizado de AquaAdvantage, não passa de um vulgar exemplar como há nas águas frias do Atlântico, pois tem o mesmo aspecto e o mesmo sabor. Mas oferece aos seus produtores uma enorme vantagem relativamente ao salmão comum: cresce em metade do tempo. O crescimento rápido do salmão consegue-se por adição de duas “peças” genéticas, provenientes de outros peixes, um é o gene de uma hormona de crescimento fornecido por um “primo” mais avantajado, e outra é um interruptor genético que vem de um “parente” mais afastado.Já foram passadas as primeiras fases do processo de aprovação pela FDA, pelo que a chegada do novo salmão ao prato está mais próxima. Mas o tema dos transgénicos é controverso, não só nos Estados Unidos como em todo o mundo. No mercado existem vários transgénicos vegetais, que, nalguns casos, entram em rações de gado, mas o salmão é um dos primeiros transgénicos animais para consumo humano directo. A oposição a todos eles é liderada por movimentos ecologistas, que expressam alto e bom som os seus receios. Acentuam o desconhecimento que existe a respeito de espécies com elementos artificiais e invocam o princípio da precaução. A maioria da opinião pública está com eles, o que não admira dado ser normal o medo do que é invisível (os genes não se vêem a olho nu!) e do que é desconhecido (serão os organismos modificados danosos?). Na Europa a discussão sobre os transgénicos tem sido muito viva e a Comissão Europeia, depois há pouco tempo ter autorizado o cultivo de algumas novas espécies, como a batata, quer passar a “batata quente” para os estados membros, permitindo que cada um deles regule o assunto a seu bel-prazer.Por seu lado, os defensores dos alimentos transgénicos sustentam que a qualidade do produto é rigorosamente a mesma (o novo salmão contém os mesmos nutrientes, como as gorduras ómega-3, que diminuem os riscos cardiovasculares). Que é possível evitar cruzamentos com outras espécies (os peixes transgénicos crescem em viveiros marinhos e as fêmeas são estéreis). E que, com as novas fontes de proteínas, será possível atender às necessidades cada vez maiores da população mundial sem afectar a ecologia dos mares nem aumentar as emissões de carbono (na Ásia os transgénicos têm maior receptividade do que nos Estados Unidos e na Europa). A discussão está aí para dar e durar...
July 8 2010, 2:00am | Comments »
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Dores na Coluna? E os genes não ajudam?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/dores-na-coluna-e-os-genes-nao-ajudam.html
Aqui no De Rerum Natura gostamos muito das crónicas do bioquímico António Piedade. E sabemos que muitos dos nossos leitores também. Com os agradecimentos ao autor, aqui está mais uma.Ouvi o Doutor Arsélio Pato de Carvalho, dizer, em tom mesclado com alguma provocação, que as dores não têm realidade física, não existem per si. Ou seja, não são um objecto ou corpo que se possa apalpar, remover com uma pinça. A dor é antes uma experiência sensorial, um outro sentido dedicado ao alarme de algo que está a interferir com o nosso estado de saúde. É algo que “arde e não se sente”, como qualificou Camões a uma dor em particular.Se cada dor tem uma causa, ela é mais um aviso, uma mensagem mais ou menos declarada, por vezes insuportável como se mil vozes gritassem em babel dentro da nossa cabeça: Mas, enquanto entidade física a dor não é tangível e muito subjectivamente mensurável.Todos sabemos que a capacidade em suportar a dor varia, e muito, de pessoa para pessoa. De certa forma, depende da história de cada um e, com certeza, da sua estrutura nervosa. Uma rede fina de terminações nervosas é dedicada a detectar inúmeras sensações ligadas ao que chamamos dor (mas não só). E essa rede é parte integrante, não só da pele que nos recobre, mas também de películas que envolvem órgãos e tecidos nosso corpo adentro. Reagem a diferenças de temperatura, pressão mecânica, concentrações de sais, ácidos e bases, luz, etc., e enviam essa informação para o cérebro, a maior parte via medula espinal, esse grande aqueduto de informação nervosa que flui por ela vinda de todas as partes do nosso corpo a uma velocidade de cerca de dez metros por segundo! O cérebro processa e integra a informação recebida, identifica a zona emissora da mensagem e procede de acordo com o plano, finamente ajustado pela selecção natural ao longo de milhões de anos: gritamos de dor, avisamos os outros de que estamos em perigo, chamamos ajuda, sofremos estóica, racional e emotivamente e contornamos o sinal de aviso que é a dor, ou desmaiamos por não conseguirmos suportar a intensidade da informação que diz que estamos gravemente feridos ou mesmo em perigo de vida.Muito do processamento dessas informações é efectuado só, e localmente, ao nível da medula espinal, poupando ou permitindo que o encéfalo se ocupe com outros afazeres, diríamos que mais cognitivos. Alguém pode estar a pisar-nos e nós nem darmos por isso, porque o nosso cérebro está absorto numa paisagem bela, ou num qualquer outro estímulo captador de atenção privilegiada à dor. Daí a importância em ter uma estrutura de processamento neuronal próxima da maior parte do corpo, com inúmeras saídas e entradas para uma maior eficácia e rapidez no processamento do sinal de dor periférica. Só chega ao cérebro se for mesmo necessária uma resposta à altura das circunstâncias.Como nos movemos com grande amplitude e variedade de movimentos, a medula espinal, longitudinal a todo o corpo, tem de estar protegida por uma estrutura óssea ela própria ajustada a essa mobilidade. As vértebras, os discos intervertebrais e as apófises articulares cumprem essas funções. Protegem delicadamente a auto-estrada de informação nervosa de agressões e criam uma estrutura, flexível quanto baste, para os movimentos necessários à locomoção, mas também ao suporte do crânio. Não menos importante, permitem uma postura vertical como é o caso conseguido na nossa espécie.Os detalhes estruturais e funcionais da coluna vertebral são de uma beleza arquitectónica espantosa. Os tubos flexíveis das nossas canalizações e outras engenharias similares são “primitivas” quando comparadas com a funcionalidade eficaz da coluna vertebral.E a natureza utilizou e adaptou o "conceito" inúmeras vezes. Os investigadores da taxonomia bem sabem disso e desde cedo muitos seres vivos animais foram agrupados na mesma “gaveta” filogenética do filo Chordata, sub-filo Vertebrata (Cuvier, 1812). Ou seja, animais que apresentam um tubo nervoso dorsal (cordata), fendas branquiais e uma cauda pós-anal, em pelo menos uma etapa do seu desenvolvimento, e que possuem uma coluna vertebral e um crânio (vertebrata) que lhes protege o encéfalo. Dito de outra forma, possuem uma parte do seu esqueleto especializada na protecção do precioso sistema nervoso central e periférico.E quando esta protecção operacionalmente flexível falha? Neste caso, ela própria desencadeia e dispara o alarme DOR. Partes por isso responsáveis do cérebro recebem a “notícia” de que a medula espinal está eventualmente a sofrer uma afecção. Dada a importância desta parte do sistema nervoso central, o alarme é intenso e as dores no registo do insuportável.Como se disse atrás, a percepção da dor é muito subjectiva, pois depende muito da individualidade genética e das especiarias com que cada indivíduo foi moldando o seu desenvolvimento e envelhecimento. E há nisto muita filogenia genética e molecular.Descobertas recentes na embriologia têm demonstrado a importância decisiva da activação de determinados genes em etapas bem determinadas do desenvolvimento do embrião e, também muito importante, o momento em que a sua activação se efectua em zonas específicas. A sinfonia da diferenciação celular que nos desabrocha em seres complexos, tem uma orquestração muito bem definida. Os vários instrumentos de cada naipe só tocam a sua parte no preciso momento e em conformidade com as instruções do seu genoma concomitantemente modelado pelas condições ambientais (no caso do embrião é o ambiente intra-uterino que importa).A descoberta agora publicada pelas investigadoras portuguesas Tânia Resende, Isabel Palmeirim e colegas (aqui) vem mostrar o papel determinante de um gene, o Shh (Sonic hedgehog), muito activo durante as primeiras semanas da gestação embrionária e determinante da futura saúde e robustez funcional da coluna vertebral do futuro adulto. É uma espécie de relojoeiro da formação das vértebras ao longo do tubo neural, futura medula espinal, albergue de longas e presentes dores…(continua).
July 5 2010, 12:29pm | Comments »
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Veneno ou alimento?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/06/veneno-ou-alimento.html
Com a devida vénia, transcrevemos crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak" de hoje:Houve um tempo em que não existia oxigénio na atmosfera terrestre. Aliás, o oxigénio era tóxico para os organismos então existentes.Mas houve um deles – a bactéria azul – que, além de resistir ao oxigénio, produzia-o em resultado do seu metabolismo. Na verdade, foi a precursora das árvores e plantas actuais, que expulsam o oxigénio como detrito do seu alimento.Nessa altura, porém, existiu uma guerra de morte: todos os organismos sensíveis à toxicidade do oxigénio acabaram envenenados. Durante mil milhões de anos, a Terra ficou exclusivamente coberta pela bactéria azul.Os outros organismos tentavam reproduzir-se, por vezes escondendo-se na água. À superfície da Terra só sobreviveram os que resistiam ao oxigénio. Mas o maior êxito foi daqueles que, para além disso, começaram a usar o oxigénio em seu proveito.O veneno passou a ser alimento. Os seres vivos diversificaram-se, ganharam autonomia, povoaram a Terra e deram origem aos humanos. O oxigénio já fazia parte da atmosfera.Os humanos lá foram evoluindo, adaptando-se a todas as contingências, Trocavam bens entre si até produzirem dinheiro. O dinheiro, a princípio, apenas substituía os bens. Mas depois autonomizou-se e correu à volta do mundo.No seu caminho, já provocou desastres e foi venenoso, embora beneficiasse quem se alimentava dele. Hoje, faz parte da atmosfera dos humanos, e é produzido sem cessar pelos Bancos Centrais, a nova bactéria azul. Se é veneno ou alimento, depende do modo como nos adaptamos a ele.José Luís Pio de Abreu
June 25 2010, 3:53pm | Comments »
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HUMOR: MATRIARCADO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/06/humor-matriarcado.html
As crónicas semanais de António Piedade costumam ser acompanhadas de um "cartoon", a "Ti" Alzira, por Gomes. Eis o último que aconpanha a crónica sobre as mitocôndrias (clicar para ver melhor).
June 14 2010, 12:51pm | Comments »
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Excelsa Bio-Sinergia (2)
http://dererummundi.blogspot.com/2010/06/excelsa-bio-sinergia-2.html
Nova crónica do bioquímico António Piedade, saída antes no "Diário de Coimbra" (continuação de anterior sobre o mesmo tema):Estamos algures e abstractamente, num charco lamacento no nosso planeta, há muitas centenas de milhões de anos atrás. Inúmeras variações de seres unicelulares competiam pela sua sobrevivência. Tinham ao seu dispor diversas moléculas, elementares e compostas que assimilavam como fonte de matérias-primas para os seus processos bioquímicos. A energia geotérmica de um planeta geologicamente ainda muito activo, deveria catapultar uma grande variedade de compostos inorgânicos e orgânicos que alimentavam inúmeras formas de vida celular, muitas delas verificando-se inviáveis na árdua competição. O campo electromagnético terrestre protegia (e protege) as formas vivas de muita radiação cósmica letal. Entretanto, a atmosfera do planeta inicialmente redutora, aumentava a sua concentração em oxigénio molecular, produto de excreção (“lixo” molecular) de bactérias, as cianobactérias, que tinham conseguido utilizar a energia solar em reacções fotoquímicas para, a partir dos abundantes dióxido de carbono e água, sintetizarem os seus próprios blocos de construção e assim ganharem “uma independência” vantajosa na competição unicelular por "alimento". Para além disso, o oxigénio molecular que excretavam para o meio ambiente, revelava-se, para as outras células, uma substância altamente perigosa e destruidora. Ionizado quer pela radiação ultravioleta solar, quer reacções químicas intracelulares, o oxigénio oxidava os componentes celulares alterando-lhe a forma e função.Neste momento crítico da evolução da vida no nosso planeta a poluição, na forma de oxigénio, causada pelas cianobacterias modelou o futuro. O carácter oxidante e electrofílico do oxigénio progressivamente difundido pelo planeta (o oxigénio é um gás nas condições de pressão e temperatura que se pensa terem se verificado nos últimos milhões de anos na Terra), fez com que só sobrevivessem aquelas células que lhe adquirissem tolerância (ditas hoje ou aeróbias tolerantes) e/ou que dele tirassem algum proveito (aeróbias).De entre elas, hoje sabemos, a partir de estudos sobre os ácidos nucleicos (ADN e ARN - ver por exemplo: Andersson SGE et al., The genome sequence of Rickettsia prowazekii and the origin of mitochondria. Nature 1998, 396:133-140.) que existiram umas bactérias ancestrais das que hoje designadas por alfa-proteobacterias, que apresentam a capacidade de utilizar o poder oxidante do oxigénio e fazer dele a força motriz para a produção de energia bioquímica.Análises comparadas dos ácidos nucleicos presentes nas mitocôndrias comprovam que estes organelos das nossas células eucarióticas, descendem daquela linhagem bacteriana. Isto suporta a hipótese endossinbiótica, da bióloga norte-americana L. Margulis (formulada em 1981), para a incorporação de precursores da mitocôndria (ver, por exemplo: Yang D. et al., Mitochondrial origins. Proc Natl Acad Sci USA 1985, 82:4443-4447) no interior das formas ancestrais das nossas actuais células eucarióticas. Repare na vantagem competitiva desta associação primordial: o antepassado do actual organelo mitocondrial, não só reduzia o perigoso oxigénio como fornecia à célula "hospedeira" uma substancial quantidade da tal moeda energética bioquímica de que já falamos: o ATP. Em troca, a ancestral célula eucariótica conferia protecção contra predadores celulares ao seu interessante hóspede e inundava-o de matéria-prima derivada de açúcares, estes produzidos ou sendo constituintes de cianobactérias assim como de outros seres unicelulares potencialmente sujeitos a predação (mais em rigor poderíamos dizer endocitados, ou melhor ainda, fagocitados).Progressivamente, esta relação de cooperação foi sendo afinada no sentido de uma maior eficiência com benefícios mútuos.Contudo, isto foi conseguido à custa da perda das identidades originais. É que hoje não conseguimos definir uma célula eucariótica sem nos referirmos como condição a de possuírem mitocôndrias, nem conseguimos encontrar mitocôndrias “naturalmente livres". Esta incorporação das identidades primevas ocorreu profunda e intrinsecamente. Hoje verificamos, que alguns dos genes inicialmente pertença do ancestral mitocondrial foram incorporados no genoma nuclear da célula eucariótica. Isto significa, num exemplo muito interessante, que cerca de uma dezena das proteínas que formam os quatro complexos da cadeia respiratória mitocondrial (a tal que utiliza o oxigénio) são codificadas por genes que se encontram nos cromossomas nucleares! Ou seja, a mitocôndria não consegue “montar” sozinha a sua cadeia respiratória!E vice-versa. Sabemos hoje que a mitocôndria é um organelo muito sensível ao estado de saúde e á funcionalidade da célula estando envolvida no desencadear dum processo de morte celular programada conhecido por apoptose (é também por apoptose que se formam as fendas que dão origem à abertura da boca, dos olhos, narinas, etc.).O seu papel chave na bioenergética celular e na determinação do “fado" celular exige uma elevada estabilidade genómica entre o cromossoma circular mitocondrial e os 46 cromossomas nucleares da célula. Pode ser este um dos factores que impõem a destruição selectiva pelo óvulo das mitocôndrias presentes no espermatozóide aquando da fecundação. O resultado final é que herdamos só do lado materno todas as mitocôndrias que possuímos e, portanto, a capacidade de respirarmos oxigénio! António Piedade
June 14 2010, 12:46pm | Comments »
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“Neurónios Cinéfilos”
http://dererummundi.blogspot.com/2010/06/neuronios-cinefilos.html
Nova crónica de António Piedade, saída antes n' "O Despertar":Neurónios são as células do sistema nervoso responsáveis pela transmissão dos impulsos ditos nervosos (em rigor, devemos falar da propagação de potenciais de acção, quais ondas de sais que se propagam entre neurónios). Mas igualmente importante é a sua função integradora e processadora das informações transportadas através desses impulsos, ao longo de milhares de milhões de neurónios que formam as designadas redes neuronais. Em cada neurónio podem convergir em dendrites centenas de ramificações provenientes de milhares de neurónios, localizados em zonas diferentes do cérebro. Do resultado, num determinado momento, do processamento que um dado neurónio faz dos impulsos que a montante lhe chegam, resulta o desencadear de um potencial de acção, impulso nervoso, que envia através de um filamento especializado, designado por axónio, até à jusante de um delta de terminações nervosas que desaguam essa informação, quer a outros neurónios, quer a outras células diferenciadas como sejam células musculares.Imagine o percurso que é feito pela informação que os seus olhos estão a captar neste momento: da retina dos seus olhos, através do nervo óptico, até diferentes zonas do seu cérebro, para que o seu cérebro descodifique e perceba o que está a ver e ordene, por exemplo, também através de impulsos nervosos que chegam até aos músculos que controlam o movimento dos seus olhos, que estes se devem contrair e relaxar coordenadamente para que as suas duas pupilas convirjam sincronizadamente numa direcção e sentido que permita a leitura e a mudança de linha ou de parágrafo.Agora pense na tarefa inversa, ou seja, a detecção de movimento. Os seus olhos estão “parados” fixando o horizonte que os banha com informação luminosa (radiação electromagnética) que será “traduzida” para informação química (que envolve uma mudança, reversível, na forma de uma proteína especifica) e, novamente traduzida para impulsos nervosos, enviada até cérebro através de ondas de sais ao longo dos axónios que compõem o nervo óptico. Se nada se mexer no nosso horizonte, o cérebro traduz a informação nervosa que lhe chega para a imagem estereoscópica que é aquilo que estamos a ver. Mas e se algo se move no nosso campo visual? Como é que o cérebro, ou melhor, os milhares de neurónios que dão sentido ao que estamos a ver, percebe que algo se moveu e se isso tem importância, por exemplo, para a nossa segurança? Será uma abelha? Estará a afastar-se ou a aproximar-se? Tudo deve tornar-se ainda mais complexo se nós nos estivermos também a mover. Neste caso, o cérebro terá de ter em conta o nosso movimento ou então poderá iludir-nos e isso poder-nos-á ser fatal.O trabalho efectuado, ao longo das últimas três décadas, pelos investigadores norte-americanos J. Anthony Movshon e William T. Newsome sobre este processo de processamento e interpretação espacial do que nos chega à retina, foi agora premiado pela Fundação Champalimaud (aqui).De facto, nós precisamos do cérebro não só para ver mas, e principalmente, para perceber e dar significado ao que vemos. E neste processo complexo estão envolvidos diferentes tipos de neurónios em zonas específicas do nosso cérebro. E estes cientistas identificaram circuitos de neurónios numa zona do cérebro (Lobo Temporal Médio) que são responsáveis por analisar a informação que lhes é transmitida a partir dos olhos e detectar que algo se move no nosso campo visual. São uma espécie de neurónios agrupados funcionalmente num circuito neuronal e que “apreciam” o movimento. Julgo que deverão estar especialmente activos quando percepcionamos um filme (o que vemos é uma sucessão de uma trintena de fotogramas por segundo). São por isso, digo eu, neurónios “cinéfilos”, ou seja, que são particularmente sensíveis e dedicados aos movimentos, mesmo que de longos planos fixos se trate… Mas também são eles que nos iludem relativamente ao aparente movimento do Sol em volta da Terra. E contudo, eles estão fixos, em constelações neuronais no nosso cérebro.António Piedade
June 14 2010, 11:40am | Comments »
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PATENTES DE GENES?
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Minha crónica no "Sol" de hoje:A notícia correu mundo. A 20 de Maio último a equipa do norte-americano Craig Venter (na imagem), líder de um instituto que tem o seu nome, publicou na revista Science um artigo em que anunciava uma grande proeza da biologia moderna: a síntese in vitro do genoma de uma bactéria, acrescentando algumas modificações (que incluíam os nomes dos cientistas e um endereço de e-mail), e a sua inserção numa outra bactéria, que se conseguiu reproduzir rapidamente como se fosse um organismo normal. Mal comparado é como se se obtivesse uma receita de um prato a partir dele, se alterasse esta pontualmente, e, a partir de produtos químicos avulsos, se conseguisse criar um novo prato muito parecido com o primeiro.Venter não perdeu tempo e solicitou já várias patentes relativas à experiência realizada, uma vez que ela abre perspectivas a numerosas e lucrativas aplicações. Mas poderá ele obter uma patente do genoma codificado (que mais não é do que um código feito de quatro letras)? De facto, apesar de não estarem autorizadas patentes de organismos vivos, cerca de vinte por cento do genoma humano, descodificado com a ajuda do próprio Venter e muito mais complexo do que o de uma bactéria, encontra-se patenteado. Por estranho que possa parecer há mesmo patentes de genes. Mas esse tipo de procedimentos pode ter os dias contados…Dois meses antes do anúncio da “vida sintética”, um juiz federal de Nova Iorque deferiu uma acção apresentada pela União dos Direitos Civis Americanos e pela Fundação de Patentes Públicas no sentido de cancelar as patentes dos genes BRCA1 e BRCA2 (as iniciais são de Breast Cancer), cuja mutação é responsável por certas formas hereditárias de cancro da mama e dos ovários. A posse dos direitos pela empresa Myriad Genetics e por uma fundação ligada à Universidade de Utah permitia a exclusividade da realização de testes genéticos. Qualquer pessoa tem de lhes pagar três mil dólares para saber o seu factor de risco. O juiz considerou que as patentes tinham sido atribuídas “de forma imprópria” por os genes fazerem parte do DNA humano e estar envolvida uma “lei da Natureza”. As partes prejudicadas pela sentença vão recorrer. Mas, se a batalha jurídica for ganha por quem agora ganhou a guerra, entrar-se-á numa nova era do direito da biomedicina.Esta questão das patentes na biotecnologia é extraordinariamente quente. De um lado está o interesse público e do outro o interesse de empresas particulares. Parece simples, mas não é. As empresas reclamam que o progresso da ciência e da tecnologia ficará prejudicado se os inovadores não forem devidamente recompensados. Aguardam-se os próximos capítulos desta novela científico-legal.
June 11 2010, 2:30am | Comments »






