O sistema burocrático concebido, na sua versão moderna por Max Weber, funda-se no carácter legal das normas e regulamentos, na formalidade das comunicações, na divisão do trabalho racional, na impessoalidade das relações, na hierarquia da autoridade, na estandartização de rotinas e uniformidade de procedimentos, na valorização da competência técnica e na meritocracia, na separação entre propriedade e administração, na profissionalização, na previsibilidade do funcionamento.Não obstante as suas vantagens em relação a sistemas de gestão artesanais, a burocracia funda-se em pressupostos ingénuos e negativistas, e supõe uma realidade social, política e organizacional que não existe. Por isso, muitas vezes, a lógica burocrática é insensata, autista, infantilizante e fechada.Uma acção é insensata quando se deixa determinar pelo formalismo vazio de sentido, quando as decisões não têm em conta as pessoas, as organizações e as especificidades docontexto, quando a análise se enclausura na razão técnica (estabelecendo a relação meios/meios) e não se deixa orientar pela razão crítica (estabelecendo a relação meios/fins), quando as consequências nunca são interrogadas. É sabida a forte presença da lógica burocrática na “organização política e administrativa da nação”.Etambém no sistema de ensino, desde o topo à base. Uma presença marcada pelos traços da uniformidade, formalismo, impessoalidade, legalismo e pelo peso centralista.É sabido que a lógica burocrática conduz (e é intrinsecamente) muitas vezes a uma acção insensata. É o caso dos grandes concursos públicos centralizados de aquisição/distribuição de bens e equipamentos às escolas. Equipamentos que, muitas vezes, as escolas não querem e que permanecem encaixotados. Era o caso dos relatórios de “reflexão crítica” para mudança de escalão. Vazios (a maioria) de qualquer razão, de qualquer efeito, de qualquer sentimento. É o caso das delegações de competências ministeriais. E das subdelegações. E das subsubdelegações. É o caso do controlo de assiduidade dos alunos (designadamente no Ensino Secundário). É sabido que a ordem burocrática é uma ordem infeliz e pessimista. Que perdura porque desresponsabiliza, securiza e protege. Porque cria a ilusão do poder e do controlo. Mas é também um sistema cego e surdo. Como refere o sociólogo suíço, Philippe Perrenoud, o sistema soviético afundou-se, entre outras razões, porque interditava de dizer as coisas como elas eram. Se o futuro era sempre radioso, se o partido tinha sempre razão, se oplano era sempre perfeito, se o fracasso estava por definição excluído, era impossível partilhar uma análise e definir um programa de acção. Salvaguardando todas as proporções, a escola sofre o mesmo problema. Cada um sabe que os programas não se podem cumprir integralmente, que certos horários são absurdos, que o sistema de colocação de professores é uma mentira, que os apoios pedagógicos são muitas vezes uma ficção, que o ensino especial é uma falácia, que a escola inclusiva é um ultraje, que a reorganização curricular tende a ser uma mistificação, que..., que...Quanto tempo será necessário, quantas crises larvares teremos de suportar, para que se possa dizer o que toda a gente sabe e agir em conformidade? Estará a escola condenadaa não ver, a não dizer, a não agir? A interditar uma lucidez colectiva? Não basta que cada um, no seu canto, em silêncio, perca as suas ilusões e assuma os seus lutos, pois isso favoreceria o divórcio entre as pessoas e as organizações. Somente a lucidez partilhada permite afrontar a complexidade e trabalhar para sair dos labirintos. Somente uma coragem cada vez mais alargada permite o resgate das prisões de ver.Todos somos agentes deste reino da aparência e do faz de conta. Todos temos a nossa cota-parte de responsabilidade neste estado de sítio. Só uma política comprometida e ousada poderá ir abrindo caminhos. Os caminhos da transparência, da liberdade, da autonomia, danresponsabilidade, da confiança.O sistema burocrático é também fechado, extremamente defensivo e infantilizante para os professores. Quando surge algo de novo (um programa, uma nova área curricular, um novo regime de avaliação, um novo esquema de horário ....), logo se reclama uma circular para se saber que atitude se deve adoptar, ou então, numa versão mais pós-moderna, logo se protesta porque não há/não houve formação. E até os sindicatos (que deveriam prestigiar a profissão docente) logo também concordam, confessando uma perspectiva proletária. Vivemos num sistema infantilizante porque tudo é programado no topo hierárquico. No centro político e administrativo impera a lógica da desconfiança e a ilusão de que tudo se pode regulamentar. Ao nível intermédio procede-se à reduplicação e ao reforço da concentração do poder. No fundo da escala, executa-se (muitas vezes, cria-se a aparência de que se executa) e pede-se constantemente novas circulares que desresponsabilizam e protegem. Neste ciclo vicioso da dependência, só uma revolução no modo de governo é que nos pode retirar deste estado de sítio. E não deixa de ser paradigmático que um dos instrumentos legais mais promissores para pôr fim a esta ordem, previsto no Decreto-Lei 115 de 1998 – os contratos de autonomia –, continue letra morta. Seis ministros passaram – Grilo, Oliveira Martins, Santos Silva,Júlio Pedrosa, David Justino, ……. – e preferiram não mexer no statu quo. E mesma a ministra Maria de Lurdes Rodrigues que começou enfim por celebrar cerca de vinte contratos e que prometia inverter os modos de agir, cedo abandonou esta via e acabou prisioneira da lógica do sistema. É a aliança de interesses que nos vai mantendo reféns no medo de existirmos.(JMA, Pequeno Dicionário dos Absurdos da Educação)
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A Lógica Burocrática
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July 3 2009, 3:34pm | Comments »
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ISTO
http://terrear.blogspot.com/2009/03/chega-me-este-relato-de-uma-accao-de.html
Chega-me este relato de uma acção de in/formação e a evidência das evidências.A certa altura, ao meu lado, agitavam-se umas meninas que não estavam a gostar. Perguntei à mais chegada:- A colega o que esperava desta acção?- Não esperava nada!- Não?- Não, porque descarreguei os programas da net e também sei ler.- Ah! Mas sempre veio...- Pois vim, por causa do papel.- Do papel?- Sim, isto - e mostra-me a declaração de presença.- E isso é assim tão importante?- É, porque eu defini objectivos e tenho de provar e mostrar...E, como ela, o friso todo!
March 28 2009, 1:14pm | Comments »
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Controlar ou Capacitar?
http://terrear.blogspot.com/2009/02/controlar-ou-capacitar.html
De um lado o controlo das conformidades da mais diversa ordem (quase sempre ilusório), a prestação de contas, a responsabilização (alheia, raramente a própria), a desautorização, a dependência, a intimidação, a notificação; do outro a capacitação, o empowerment, a autonomia, a liberdade, a responsabilidade pessoal, profissional e organizacional, o apoio e o encorajamento. Duas filosofias políticas, humanas e organizacionais. Com efeitos muito diferentes. A nossa ordem educativa geral tem, largamente, privilegiado a primeira. Devido a uma convergência de interesses supostamente antagónicos. E é talvez a causa maior do estado lastimável em que nos encontramos.
February 7 2009, 1:10pm | Comments »
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Da Hipocrisia como metáfora da acção política
http://terrear.blogspot.com/2009/01/da-hipocrisia-como-metfora-da-aco.html
Um exercício académico de comentário crítico (da autoria de Luís Carlos Serra, produzido no âmbito do mestrado em Administração e Organização Escolar da UCP) que vale a pena partilhar.
Título: “Os projectos na escola: uma leitura crítica através da metáfora da hipocrisia organizada”, in Costa, Jorge Adelino (2007), Projectos em educação – contributos de análise organizacional. Aveiro:
January 3 2009, 5:08pm | Comments »
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A Realidade é o que se lê/vê/relata
http://terrear.blogspot.com/2008/12/realidade-o-que-se-lvrelata.html
Desde a teoria burocrática, sabe-se que a realidade se reduz ao que está escrito: no livro de ponto, nas actas, nos programas, nos projectos educativos e nos relatórios. Com a evolução tecnológica, a realidade é o que se vê. O que não se lê, se vê ou relata não existe. Por isso é que a escola é um iceberg organizacional.
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December 27 2008, 3:07pm | Comments »
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Exasperação burocrática
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Acabei de ler o papel que cada professor tem de preencher no caso de atribuir uma classificação negativa e o aluno tiver duas ou três negativas. Não há dúvida da boa intenção. Trata-se, face a um registo de insucesso, pensar no que e como fazer para remediar e superar a situação. Mas suponhamos que o professor tem 6 turmas e 150 alunos. Vamos ainda supor que tem de atribuir a 20 alunos um nível
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December 19 2008, 5:29pm | Comments »
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Poder, Tecnologia e Controle Burocrático
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Neste artigo utilizamos a teoria do sociólogo Michel Crozier para analisar o uso da tecnologia enquanto forma de controle social na organização estudada. Crozier mostra em sua análise sobre poder e burocracia como a regra estrutura as relações entre os grupos, reforçando a impessoalidade na organização. Dentro desta perspectiva, a burocracia é uma solução organizacional que tentaria evitar a
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October 25 2008, 10:13am | Comments »
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O Mito dos Planos
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Vivemos rodeados de Mitos. Bom tema para uma tese. Quais os mitos educativos e organizacionais que nos rodeiam e que são absolutamente inúteis, ainda que retoricamente pareçam ser tudo?
A legião de planos de acção educativa gerados ao nível meso da organização escolar são um bom exemplo. Os projectos curriculares de turma; os planos de recuperação; planos de recuperação especial; os planos de
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October 7 2008, 5:09pm | Comments »
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