Outro texto meu de há alguns anos sobre a aventura espacial, este extraído de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva):Segundo o historiador de ciência inglês Joseph Needham o foguete foi provavelmente (nestas coisas nunca pode haver certezas) a invenção mais importante da China e a sua contribuição tecnológica mais importante para a humanidade. Ele estaria talvez a pensar na possibilidade de um dia a humanidade poder deixar o seu “berço” e estabelecer-se noutros planetas ou mesmo em estações permanentes no espaço.Needham é uma das maiores autoridades mundiais sobre a ciência e a tecnologia da China. Nascido em 1900, deu aos 37 anos uma grande volta na sua carreira de embriologista formado por Cambridge. Tendo encontrado e feito amizade com estudantes chineses, entusiasmou-se pela história da civilização chinesa. Para isso aprendeu a língua chinesa clássica. E, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, foi nomeado Conselheiro Científico da Embaixada Britânica na China. Correu a China toda, reunindo informações e coleccionando, com a obsessão de um caçador de tesouros, muitos livros sobre a antiga ciência chinesa. Essa biblioteca constitui hoje em Cambridge a maior biblioteca sobre a história da ciência e da técnica chinesa fora da China, tendo justamente o nome do seu fundador. Depois da Guerra, Needham tornou-se subdirector geral da UNESCO para a área das Ciências Naturais, tendo sido ele o responsável pelo S da sigla entre o E e o C (originalmente, a UNESCO tinha a intenção de se dedicar apenas à ciência e à cultura, mas a ciência, de “Science” fica muitíssimo bem entre as duas). De volta à sua “alma mater” Needham começou a escrever um longo e erudito tratado intitulado “Science and Civilization in China”, que tem saído sob a chancela da Cambridge University Press em 25 volumes (já saíram 17 volumes; o projecto continua depois da morte do autor em 1995). É praticamente impossível a um leitor ler por completo essa verdadeira obra prima da história da ciência, mas há resumos, um dos quais bastante acessível e ilustrado (que tem a vantagem de ter sido não só sancionado como prefaciado pelo próprio Needham): Robert Temple, “The Genius of China: 3000 Years of Science, Discovery and Invention”, Prion, Londres, 1986.É lá que podemos encontrar uma breve história do foguete chinês. Ficamos a saber que o foguete nasceu na China em 1150 (no calendário cristão, largamente ignorado pelos chineses). Foi usado em fogos de artifício e na guerra. É significativo que o árabe Hasdan al-Rammah tenha chamado em 1280 aos foguetes “setas chinesas”. Os foguetes foram rapidamente importados pelos ocidentais, na esteira das viagens de Marco Pólo ao Extremo Oriente. Assim, em 1380 foram usados numa batalha no norte de Itália, entre genoveses e venezianos. Temple (quer dizer, Needham) assinala que se tratou de uma importação bastante rápida: escassos dois séculos. Outras invenções do Império do Meio chegaram ao Ocidente com maior atraso. Ao ler Temple, ficamos verdadeiramente impresionados e mesmo confundidos com o número e a qualidade das invenções chinesas: a bússola, a pólvora, o papel e, Gutenberg que não se sinta diminuído, até a imprensa! Para não falar já de descobertas científicas, como a da circulação do sangue, comandada pelo coração, que era conhecida dos chineses muito antes - dois mil anos antes - do britânico William Harvey a ter anunciado na Europa no início do século XVII.Pois a invenção do foguete durante aquilo que no Ocidente se convencionou chamar Idade Média foi o primeiro passo para a longa marcha da humanidade para o espaço. O desenvolvimento rápido dos foguetes só se dá no século XX, sendo ele indissociável do nome do engenheiro alemão Wernher von Braun, pai não só dos dos foguetes V2 que semearam o pavor em Londres durante a Guerra, mas também do foguetão Saturno V, que foi utilizado para as viagens norte-americanas à Lua. Um foguetão é, evidentemente, um foguete grande e não deixa de ser curioso que os chineses, que tanta ciência e tecnologia desenvolveram nos tempos antigos, tenham perdido o “comboio do progresso” nos tempos mais modernos. O assunto daria muito pano para mangas, mas fica a importante nota que a actual civilização, muito ligada ao Ocidente mas partilhada cada vez mais pela China, assenta numa base científico-tecnológica que teve origem no método científico. Foi um italiano de Florença, contemporâneo de Harvey, que a desenvolveu e pôs em prática: Galileu Galilei. O problema do atraso da China é que Galileu não foi chinês, uma vez que, a partir dele, a evolução científico-técnica acelerada do Ocidente foi o que se sabe e o que se vê. Aos chineses nunca faltou o engenho, terá faltado a curiosidade e o método para a prosseguir de maneira sistemática.Em 1998 assistiu-se ao que podemos chamar, sem qualquer carga pejorativa, a “vingança do chinês”. Um foguetão de concepção e fabrico chinês, denominado “Longa Marcha”, pôs em órbita terrestre o primeiro “taquinauta” (yuhangyuan) chinês. A palavra “taquinauta” tem a ver com o facto de os russos chamarem “cosmonauta” e os americanos “astronautas” aos seus viajantes do espaço: “taquinauta” significa “espaçonauta”, viajante no espaço. É claro que os chineses, que são agora mais claramente uma potência mundial no espaço, tinham de querer um nome próprio para os seus homens. A Europa continua “pendurada” nos norte-americanos e russos para as suas viagens espaciais tripuladas: por exemplo, a ex-ministra francesa para a Investigação Científica e as Novas Tecnologias, Claudie Aignerée, viajou na MIR e na Estação Espacial Internacional e o astronauta espanhol Pedro Duque partiu, a bordo de uma nave russa, para a Estação Espacial Internacional, onde realizou várias experiências científicas e didácticas. Mas não há um nome europeu para viajantes do espaço... O primeiro “taquinauta” chama-se Yang Liwei e faz parte de um grupo de “eleitos” que foram intensivamente treinados. A cápsula Shen Zhou-5 (“Nave Divina”, os nomes chineses são curiosos!) tripulada por esse digno sucessor do russo Yuri Gagarine e do norte-americano Alan Shapard regressou à Terra no dia 15 de Outubro, caindo em segurança nas planícies da Mongólia Interior depois de algumas voltas bem sucedidas ao nosso planeta. Foi um pequeno passo para ele, mas um grande passo para a China e, uma vez que os chineses são uma parte enorme da humanidade, para a humanidade.Os aplausos foram unânimes. Norte-americanos, russos e europeus felicitaram os chineses pela proeza, que para a China constitui um marco do seu avanço científico-técnico. Esse aplauso geral significa que já não há utilização do espaço para efeitos de “guerra fria”, como aconteceu durante anos. Os norte-americanos, um pouco combalidos do desastre da “Columbia”, sabem bem o valor dos chineses, sabem bem por exemplo o que têm beneficiado com a presença de muitos e bons estudantes chineses nas suas universidades e institutos de investigação. A China de hoje é uma China que soube recuperar, usando o método científico e a tecnologia que lhe está a jusante (na antiga China a tecnologia estava a montante da ciência), do seu atraso.Houve inegavelmente um aproveitamente político do voo espacial tripulado de Yang Liwei. O nome “Longa Marcha” do foguetão utilizado é sintomático ao evocar a herança maoísta. Na verdade, os chineses sempre cultivaram algum nacionalismo e não seria agora que iriam desdenhar a oportunidade de aumentar a auto-estima nacional. Há boas razões para isso uma vez que desenvolveram ciências e tecnologias próprias e fizeram um investimento enorme no seu programa espacial. O Instituto sobre História da Civilização Chinesa que Needham nos legou em Cambridge terá um dia de incorporar nas suas publicações a história deste feito chinês. Mas o importante é que a “longa marcha” para o espaço, que a humanidade começou a empreender a partir do primeiro foguete chinês, seja um empreendimento onde não caibam nacionalismos doentios nem rivalidades mesquinhas e inúteis. Deve ser um projecto de toda a humanidade!Na foto: Yang Liwei, o primeiro "taquinauta".
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A LONGA MARCHA PARA O ESPAÇO
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July 28 2010, 6:03pm | Comments »
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HUMOR: Protões mais pequenos, à semelhança de cornetos e pernas de pau
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Quem não se lembra dos gelados enormes quando era criança e da desilusão de pedir o mesmo gelado passados alguns anos e verificar que este já não é maior do que a nossa cabeça? Uma experiência com a qual certamente todos os leitores se identificam. Sucedeu o mesmo com uma equipa de cientistas internacional, liderada por Randolf Pohl do Instituto Max Planck na Alemanha (em Português, Instituto Super-Maxi). Quando a equipa de Pohl começou a estudar protões no ano 2000, estes pareciam enormes. Passados dez anos, a sensação que fica é que estão mais pequenos: "nas minhas memórias de infância os protões têm para aí 0,8768 fentometros de raio. No ano passado voltei a pedir um protão num acelerador de partículas, e era 4% mais pequeno. A partir daí nunca mais quis olhar para constante de Rydberg".David Marçal, no INIMIGO PÚBLICO
July 23 2010, 7:35am | Comments »
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Bolsa
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Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:O Instituto de Investigação Interdisciplinar e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra têm aberto concurso para uma Bolsa de Investigação, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, para estudo das colecções de história natural da Universidade de Coimbra, com a duração de 24 meses.Os candidatos deverão ter uma formação de base em ciências, nomeadamente Biologia ou Ciências da Terra, terem especial interesse e motivação pelas colecções de história natural, capacidade de pesquisa autónoma, consulta e processamento de documentos diversos e em diferentes tipos de suporte e bom domínio de português e inglês. Deverão ainda ter capacidade de trabalhar em grupo.O candidato seleccionado terá oportunidade de participar numa equipa muito dinâmica e motivada, de participar num projecto de divulgação de ciência de grande dimensão e de adquirir uma sólida formação em divulgação científica em contexto museológico.Os candidatos devem enviar CV e carta de motivação parageral@museudaciencia.pt até dia 30 de Julho de 2010.Mais informações aqui.
July 9 2010, 4:01am | Comments »
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RANKING DE PRODUÇÃO CIENTÍFICA
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Para quem gosta de ranking de instituições (não apenas universidades), eis mais um, desta vez com base na produção científica tal como ela aparece na base de dados Scopus da Elsevier (2003-2008). Tem a particularidade de fazer um ranking das universidades latino-americanas, incluindo Portugal, Brasil e Espanha.Clicar aqui.
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June 8 2010, 11:05am | Comments »
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FÍSICO PASSEIA COM FAMÍLIAS PELA CIÊNCIA ESCONDIDA NA CIDADE
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Texto recebido do Museu da Ciencia de CoimbraDia 6 de Junho às 11 horas, o Museu da Ciência desafia adultos e crianças a acompanhar o físico Francisco Gil num passeio original pela cidade de Coimbra.Que a Ciência não mora apenas nos livros, todos sabemos. Mas quantos de nós já tiveram oportunidade de descobri-la... nas ruas que percorremos habitualmente? No dia 6 de Junho, a partir das 11 horas, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) desafia curiosos de todas as idades a partirem em busca da Física que se esconde nos recantos da cidade.A iniciativa está integrada no projecto "Trilhos", um conjunto de passeios pedestres que pretendem dar a conhecer, uma vez por mês e pela mão de investigadores da UC, os segredos científicos mais-bem guardados das ruas de Coimbra.Em Junho, o passeio está a cargo do físico Francisco Gil, professor auxiliar da Faculdade de Ciência e Tecnologia, onde é responsável pelo Laboratório de Óptica Avançada e Fototómica e coordenador dos cursos de licenciatura e mestrado em Conservação e Restauro.Que histórias nos contam as cores dos edifícios da cidade de Coimbra? E que segredos estão por trás da arquitectura utilizada? Afinal, por que é que Coimbra é como é?"Quando passeamos pela cidade, habitualmente não nos apercebemos de aspectos macroscópicos da urbanização, nos seus diversos volumes, formas arquitectónicas e cores, nem de aspectos microscópicos, como os materiais de construção e nomeadamente os revestimentos", explica Francisco Gil.A proposta para este passeio é, por isso, redescobrir Coimbra a partir do olhar da Física. Em destaque vão estar, entre outros temas, a evolução das cores que caracterizam a paisagem urbana, os problemas associados à degradação exterior dos edifícios e à sua reabilitação, revela Francisco Gil.A participação no "Passeio com a Física" custa três euros por pessoa e requer marcação prévia junto do Museu da Ciência da UC (telefone: 239 85 43 50). Para mais informações, os interessados poderão consultar o site do museu (www.museudaciencia.org).Depois de passeios com a Química e com a Física, o projecto "Trilhos" regressa no dia 4 de Julho, com uma visita às plantas mais surpreendentes da cidade de Coimbra, uma cortesia do investigador António Coutinho, do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.
June 1 2010, 5:24pm | Comments »
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TRÊS POEMAS DE PIET HEIN
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Na última "Gazeta de Matemática" (Abril 2010), Natália Bebiano e F. J. Craveiro de Carvalho, no seu artigo "Uma Mente não menos brilhante. Os grooks de Piet Hein", falam da vida e obra do matemático e poeta dinamarquês Piet Hein (o inventor do jogo do Hex). Eis três breves poemas que eles traduziram:Primeiro as Últimas CoisasSoluções para problemassão fáceis de encontrar:o problema é uma boacontribuição.O que realmente é uma arteé torcer a mentee obter um problema que encaixe numa solução.Revelação à Meia-NoiteToda a gentepensa no Infinitocomo um oitodeitado.Mas de repenteapercebo-mede que o oito éo Infinito levantado.Indo ao Fundo das CoisasA nossa morada terrenacontrair-se-á progressivamenteaté cada antípoda ficarsobre o seu antípoda.Piet Hein
May 31 2010, 3:58am | Comments »
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HUMOR: Vida artificial pode ser a solução para a economia portuguesa
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Investigadores norte-americanos conseguiram que uma bactéria se transformasse noutra, introduzindo-lhe um cromossoma totalmente fabricado em laboratório e publicaram os resultados na revista Science. É um bom começo para o trabalho que investigadores do FMI e da UE irão tentar fazer em Portugal para publicar no boletim mensal do Banco de Portugal: introduzir na economia portuguesa um ADN artificial com genes da economia Alemã, Escandinava e Chinesa na bactéria económica portuguesa. Espera-se que a economia microbiana portuguesa passe a expressar os factores de competitividade, disciplina orçamental e rigor alemães, a protecção social e flexibilidade laboral escandinavos e o potencial de crescimento chinês, deixando de expressar a corrupção, compadrios e chico-espertismo nacionais.David Marçal, no Inimigo Público
May 28 2010, 5:29am | Comments »
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2595 ANOS DA CIÊNCIA
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Da última coluna "What's New" do físico Robert Park:BIRTH OF SCIENCE: NEXT FRIDAY, MAY 28, SCIENCE WILL BE 2,595 YEARS OLDOn May 28, 585 B.C. the swath of a total solar eclipse passed over the Greek island of Miletus. The early Greek philosopher, Thales of Miletus, alone understood what was happening. The world's first recorded freethinker, Thales rejected all supernatural explanations, and used theoccasion to state the first law of science: every observable effect has a physical cause. The 585 B.C. eclipse is now taken to mark the birth of science, and Thales is honored as the father. What troubles would be spared the world if the education of every child began with causality?Robert Park
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May 21 2010, 6:42pm | Comments »
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Entrevista a alunos do secundário
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Minhas respostas a questões que me enviaram alunos de uma escola secundária:P- Jorge Dias de Deus, no livro “Ciência, Curiosidade e Maldição”, p.134, perguntou: “Se formos buscar uma balança e se pusermos no prato BEM os benefícios que a ciência trouxe ao longo dos seus cerca de cinco florescentes séculos e no prato MAL os malefícios que dela vieram, para que lado se irá inclinar o fiel da balança?” O que responde?R- Os benefícios da ciência suplantam de longe os malefícios. Esses benefícios são, em primeiro lugar, conhecimento e, em segundo lugar, bem estar proporcionado por esse conhecimento. O conhecimento, qualquer que ele seja, é sempre um benefício: saber muito é sempre melhor do que saber pouco e saber pouco é sempre menor do que não saber. A esmagadora maioria das aplicações da ciência são também benéficas: basta pensar nas aplicações médicas que prolongam a vida humana e a tornam mais confortável. Quando se fala em malefícios da ciência pensa-se geralmente em más utilizações da ciência, em tecnologias que trazem prejuízos à vida humana. Elas existem, são de certa forma inevitáveis e só podemos esperar que haja a vontade permanente de as minorar. Mas convém insistir num ponto: uma coisa é a ciência em si e outra a eventual má utilização que se faz dela. O electromagnetismo não se torna condenável por ter sido inventada a cadeira eléctrica! A ciência não se torna má por a sua utilização ser má. É necessária uma consciência crítica sobre a utilização da ciência. E não apenas da parte do cientista – a ética tem de ser um imperativo no seu trabalho – mas também da parte da sociedade como um todo.P- A clonagem e a manipulação genética são alguns dos temas que mais problemas éticos levantam hoje em dia. Diga, criticamente, qual a sua opinião acerca da clonagem humana com base na bioética e no conceito de Pessoa.R- Vejo a clonagem terapêutica, como aliás os cientistas que investigam nessa área, como uma esperança para a Humanidade. Oxalá se venha a conseguir curar opu pelo menos tratar por esse meio doenças hoje incuráveis ou intratáveis. Já é discutível a clonagem reprodutiva, sendo bom que se continuem a debater e a estabelecer os limites legais da biologia e da medicina nessa área. Nem tudo o que se pode fazer deve ser feito, embora seja conhecido da história que haverá sempre alguém que, cedo ou tarde, pisa o risco e ultrapassa os limites que foram definidos pela sociedade. Por vezes essas ultrapassagens redundaram em malefícios, pelo que devemos estar muito vigilantes quanto ao que se passa na fronteira do que é permitido socialmente. Noutras vezes, verdade se diga, tais ultrapassagens conduziram a benefícios. De qualquer modo, a palavra “clonagem” tem uma carga negativa, que vem talvez da ficção científica. Não há que alimentar o receio comunicado por alguns filmes pois é impossível criar um bando de Marilyn Monroes iguazinhas umas às outras. Felizmente, acrescento eu!P- Edgar Morin disse: “Seria esquecer que a descoberta de um limite ou de uma carência na nossa consciência constitui já um progresso fundamental e necessário para esta ciência“. Qual é a sua opinião crítica acerca da frase de Morin?R- Edgar Morin tem sido uma das vozes que tem defendido “ciência com consciência” (título de um dos seus livros). É uma voz útil e necessária tal como são outras vozes que vão no mesmo sentido. Já Rabelais dizia que “ciência sem consciência não passa de ruína de alma”. Eu diria mais: ciência sem consciência não é sequer ciência. Claro que a tomada de uma maior consciência pode representar um progresso da ciência.P- Desde o seu início que a ciência tem evoluído até ao que é hoje. A ciência associa-se à tecnologia para combater problemas do tipo social (por exemplo, o desemprego) ou do tipo ecológico (por exemplo, a poluição). Mas ela está também a criar enormes problemas a nível mundial. É urgente travá-la! Na sua opinião, estará a população, a nível mundial, disposta a alterar os seus hábitos e comportamentos com base num bem maior?R- Não penso que seja urgente travar a ciência. Aliás, travar a busca do conhecimento é uma atitude obscurantista, com exemplos na história que sempre deram maus resultados. A ciência não cria problemas à humanidade, mas sim a tecnologia, uma espécie de “filha” da ciência que saiu de casa e às vezes se “porta mal”. Que culpa é que a “mãe” tem? A ciência é, ela própria responsável, pelos desvarios que fazem os seus parentes? Sim, eu sei que ciência e tecnologia são, muitas vezes, indistinguíveis para a opinião pública. A cultura científica ajuda a fazer a distinção. Para completar a resposta: Convém não esquecer que é a mesma tecnologia, baseada hoje na ciência, que nos permite resolver muitos problemas que nos afectam, incluindo os problemas originados pelos erros que cometemos. Por exemplo, a poluição não se resolve com o abandono puro e simples da química mas sim com um reforço, mais consciente e mais cuidadoso, da ciência química.P- Desde há milhões de anos que se fala em profecias e superstições sobre o fim do mundo. Qual a sua opinião acerca das teorias do fim do mundo de que se especula?R- Em geral, são mitos e erros sem qualquer substância. A cultura científica é o melhor antídoto para combater esses disparates, como o fim do mundo em 2012, etc., etc. Nem têm qualquer justificação nem fazem sentido nenhum!P- Como será, na sua perspectiva, o fim da ciência, da Humanidade e do Universo?P- O fim da ciência, isto é, do conhecimento, só acontecerá se houver o fim da Humanidade uma vez que, como disse Carl Sagan, “o nosso destino é o conhecimento”. Mesmo assim, o eventual fim do “homo sapiens” pode não ser o fim da ciência pois pode haver, no vasto Universo, outras formas de vida inteligente, que também fazem ciência como nós. O fim da humanidade é possível, pois o homem tem hoje à sua disposição meios de auto-aniquilação. Se não tiver juízo... Estou convencido, porém, que é muito pouco provável. Poderá também acontecer o fim da Humanidade por se acabarem as condições de vida na Terra. Daqui a cinco mil milhões de anos o Sol vai extinguir-se... Quanto ao fim do Universo, ele não faz muito sentido, pois, tanto quanto sabemos hoje, o Universo, que teve um início há cerca de 14 000 milhões de anos, é eterno para a frente...P- Disse numa entrevista: “A escola é uma das maiores invenções da humanidade.” O que pensa acerca do papel da escola na formação das pessoas e na sua sensibilização para as questões científicas?R- A escola é, de facto, um grande meio que a humanidade arranjou para assegurar a curto, médio e longo prazo a sua sobrevivência. É pela escola que a humanidade se prolonga, assegurando a continuação do saber e da sua aplicação. E, claro, a ciência, é uma das componentes mais importantes do saber humano. Sem escola, não poderá haver ciência: a escola é uma condição indispensável da ciência.
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May 19 2010, 3:48am | Comments »
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OPEN SOURCE
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/open-source.html
Informação recebida da Circo de Ideias (na imagem ponta Pedro e Inês, em Coimbra, da autoria de Cecil Balmond e Adão ad Fonseca, dois dos participantes no encontro na casa da Música do Porto):Seminário internacional «OPEN SOURCE — architecture as an open culture»Data: Sábado, 12 de Junho de 2010Hora: 14:30 - 20:00Local: Casa da Música, Porto, PortugalDescrição OPEN SOURCE — architecture as an open cultureNas diferentes áreas da produção humana, assistimos, cada vez mais, à constituição de redes globais informais que trabalham entre si num processo de partilha e colaboração. A partir desta perspectiva de criação, a Circo de Ideias - Associação Cultural apresenta na sala Suggia da Casa da Música, sábado, dia 12 de Junho de 2010, o seminário internacional OPEN SOURCE — termo utilizado na definição de software cujo código original é partilhado gratuitamente e que pode ser redistribuído com ou sem alterações.OPEN SOURCE pretende reflectir sobre as fronteiras da criação contemporânea através de contribuições oriundas da arquitectura, da engenharia, das artes e da matemática. Composto por um conjunto de visitas guiadas, uma exposição, um seminário internacional e uma publicação, OPEN SOURCE conta com a participação especial de Cecil Balmond, engenheiro que personifica esta busca de pensamento e que inspira a realização do evento.ORADORES DO SEMINÁRIO:Cecil BalmondHans-Ulrich ObristTomás SaracenoSanford KwinterRon EglashAntónio Adão da FonsecaRubedoOverworld(entrada: €20 | bilhetes à venda na Casa da Música)mais informações em http://www.circodeideias.pt
May 17 2010, 7:36pm | Comments »







