Excerto do meu livro "A Ciência em Portugal", saído há pouco na Fundação Francisco Manuel dos Santos, na colecção "Ensaios da Fundação" e que se encontra à venda, entre outros sítios, na cadeia de supermercados Pingo Doce:Uma sociedade desenvolvida necessita de atrair para a ciência e tecnologias alunos em quantidade e qualidade suficientes. Isso pressupõe o fomento de vocações científicas, o que significa não só vocações para a criação da ciência mas também para a aplicação da ciência na vida prática.Tem-se assistido em todo o mundo a um declínio do número de jovens que procuram cursos e carreiras de ciência e tecnologia, no sentido estrito, em favor da procura de cursos de ciências sociais e outros. E o problema atinge-nos também. Precisamos de mais cientistas e engenheiros, se compararmos os nossos índices dessas profissões com os índices dos países mais desenvolvidos da Europa, a que pertencemos. Toda a Europa, para se desenvolver rumo à “economia mais desenvolvida do mundo” (um objectivo da chamada Estratégia de Lisboa do ano 2000, cuja concretização ficou bastante aquém do previsto) necessita de mais pessoas com formação em ciência e tecnologia.Como superar este evidente desfasamento entre oferta de jovens e procura pela sociedade e pelo mercado? Por que é que os jovens se afastam, pode mesmo dizer-se, se auto-excluem, da ciência e da tecnologia? As causas são várias, mas entroncam no distanciamento entre ciência e sociedade. Se é verdade que a ciência é impulsionadora do progresso social, proporcionando aos cidadãos níveis de conforto inalcançáveis sem o seu concurso (em múltiplos sectores: na saúde, alimentação, habitação, transportes, comunicações, lazer, etc.), não é menos certo que parte importante da sociedade receia a ciência, chegando mesmo nalguns casos extremos a recusá-la liminarmente. A ciência, depois dos desastres de Bhopal e Chernobyl (para não falar de outros mais recentes, como o derrame petrolífero no Golfo do México), está associada a perigos, não se encontrando interiorizada a noção de que o risco é inerente a qualquer actividade humana e que a própria ciência, mais e melhor do que ninguém, poderá prever, evitar e diminuir os riscos.Por outro lado, as duas ciências mais básicas – a matemática e a física – apresentam dificuldades intrínsecas de aprendizagem. As duas estão relacionadas de perto e sua aprendizagem exige um processo gradual e sem hiatos.Em Portugal, onde o fenómeno mundial da fuga da ciência chegou com algum atraso, a recente queda demográfica no ensino superior não ajuda. Havendo menos jovens, haverá também menos candidatos a cursos de ciência e tecnologia. E, além disso, somos vítimas do deficiente rendimento dos estudos de ciência a nível do nosso básico e do secundário. Os exames do final do secundário revelam, como vimos, terríveis insuficiências na preparação da maioria dos jovens nas disciplinas científicas de base.Que podem as escolas de ensino superior e o Governo fazer? Pois podem multiplicar e melhorar as acções de marketing das ciências, que em muitos locais já têm sido promovidas. Nesse aspecto os projectos e as colaborações entre as escolas do ensino básico e secundário e as escolas do ensino superior são decisivas. Palestras dos cientistas nas próprias escolas ou em centros e museus de ciência são úteis para aproximar os jovens das ciências e motivá-los para o seu estudo. As acções dos alunos, organizados em associações juvenis (incluindo os clubes de ciência nas escolas), podem também contribuir. Os Dias Abertos das Universidades e, em geral, de institutos e laboratórios de investigação são igualmente positivos. As actividades de Verão, como o programa Ciência Viva nas Férias ou as Universidades de Verão, são também benéficas por aproximarem jovens pré-universitários das instituições do ensino superior. A iniciativa Despertar para a Ciência, da responsabilidade da FCT, com o apoio da Fundação Gulbenkian, foi igualmente meritória ao motivar para a ciência jovens em várias regiões do país (nomeadamente nas universidades de Lisboa, Porto, Coimbra, Faro e regiões autónomas).Todos estes são meios mais ou menos informais. Mas há também, na escola, que melhorar o ensino das ciências para atrair os jovens. Como se deve dar o despertar para a ciência nas crianças e nos jovens? A maneira mais eficaz parece ser através de actividades experimentais proporcionadas o mais cedo possível. A ciência é, ao fim e ao cabo, o conhecimento do mundo e, para conhecer o mundo, é preciso agarrar, mexer, experimentar. É isso precisamente que uma criança faz a partir do momento que nasce: agarra, mexe, experimenta, para conhecer o mundo onde entrou há pouco tempo.De facto, a curiosidade é a mola que propulsiona a descoberta. E uma criança nasce “equipada” com uma curiosidade natural. Antes de experimentar, devem ser colocadas interrogações: Como é? Por que é? As respostas só poderão ser encontradas depois de fazer, ver e pensar. E, encontradas algumas respostas, fica-se pronto para enfrentar novas interrogações.Uma criança que desperte para a ciência não tem necessariamente de ser um cientista ou um tecnólogo. Ao crescer, tornar-se-á num cidadão mais informado e consciente a respeito do mundo que o rodeia, qualquer que seja o ramo de actividade pelo qual enverede. Será uma pessoa não facilmente enganável, uma pessoa mais apta a escolher perante as várias opções que a vida constantemente lhe coloca. Uma criança que desperte para a ciência, mesmo que não venha a exercer uma profissão científica ou técnica, fará ideia do que é a ciência e a tecnologia. E perceberá que não é preciso ter uma grande cabeleira como Einstein para se ser cientista, mas que este tem, na esmagadora maioria dos casos, um aspecto absolutamente normal.Será que nos nossos jardins-escolas e nas nossas escolas do primeiro ciclo do ensino básico se desperta para a ciência? Infelizmente, e apesar de alguns bons exemplos, tal não se dá ainda na medida desejável. No ensino básico, a ciência, que se chama “estudo do meio” (sic), não tem o devido relevo e, no ensino pré-escolar, a ciência quase não existe. A experimentação, que deveria ser o caminho para que os alunos passassem a ver a ciência como a compreensão do mundo em que vivem, está ainda em falta. Há razões para recear que os nossos alunos estejam a fugir da ciência por não terem tido contacto com ela na idade adequada. Fogem mas nem sabem bem de quê e porque nem sequer sabem o que é.A comparação com países mais desenvolvidos devia iluminar-nos sobre as mudanças que urge realizar. Por exemplo, o currículo do ensino básico na Grã-Bretanha prescreve os conhecimentos científicos a alcançar e as capacidades a atingir em cada patamar da escolaridade mais baixa. A experimentação científica é promovida de um modo efectivo, recomendando-se a colocação de perguntas e a procura de respostas a elas. Em contraste, o currículo português, em vez de apregoar objectivos concretos e meios concretos de os alcançar, está envolto num incompreensível jargão pedagógico (que já foi sugestivamente baptizado de “eduquês”).O problema português da educação científica reside em grande parte na formação dos professores dos primeiros níveis de ensino. Com efeito, acontece que a maior parte dos nossos professores do pré-escolar ou da escola básica, nos seus três ciclos, não despertaram eles próprios para a ciência suficientemente cedo. Não tratam a ciência por “tu”, pelo que não podem fazer com que os alunos a tratem desse modo… O nosso défice no ensino das ciências só pode ser enfrentado se houver boa formação de professores do ensino básico. Um investimento desse tipo deve ser feito nesse nível de ensino e no pré-escolar, o que pode ser realizado com materiais simples e baratos. De pequenino que se torce o pepino? Não, de pequenino é que se torce o destino!
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Fomento de vocações científicas
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February 22 2011, 6:09pm | Comments »
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A FUNDAÇÃO TEMPLETON E O DIÁLOGO CIÊNCIA RELIGIÃO
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Destaque semanal para a coluna WHAT’S NEW do físico norte-americano Robert L. Park:THE EPIPHANY: DOES THE TEMPLETON FOUNDATION MAKE YOU UNEASY?It certainly makes me uneasy. An excellent News Feature in this week's Nature by Washington editor Mitch Waldrop gives some of the reasons why it should, but something important was left out. (Much of what follows was drawn from my book Superstition: Belief in the Age of Science (Princeton, 2000)). As Waldrop points out, the Templeton Prize was not originally created "to pursue Templeton's goal of building bridges between science and religion." Indeed, the first Templeton Prize winner in 1973 was a fanatic Catholic nun who founded the Missionaries of Charity in Calcutta and wore a cilice. A bridge to science, Mother Theresa certainly was not. But then, neither were the next 26 winners of the prize, most of whom had founded religious movements that few scientists have ever heard of, except for Billy Graham who founded the Evangelistic Association, and Charles Colson of Watergate fame who founded the Prison Fellowship. Later, the nicety of a prize committee would be added, although Templeton seems to have remained in total control. The first notable exception was Paul Davies in 1995, a theoretical physicist who authored the Mind of God, and numerous other popularizations of cosmology. Templeton wrote little and we know almost nothing first-hand about what was going on in his head during this period. He appears to have had an epiphany. In 1999 the prize went to Ian Barbour, a physicist who had been Enrico Fermi’s student at the University of Chicago and who played a major role in building the first the nuclear reactor. Certainly the most interesting winner of the Templeton Prize, Barbour was disillusioned by the atomic bombing without warning Hiroshima and Nagasaki. After finishing his doctorate at Chicago, Barbour dropped out of physics and took a degree in theology from Yale. At Carleton College he taught both physics and theology and is generally credited with having created the Dialogue Between Science and Religion. Barbour marked a sharp change in Templeton prize recipients. From that point on, recipients have been, almost without exception, physicists or cosmologists who, as Dawkins put it, "say something nice about religion." Sir John died in 2008, but things have changed little under his son. The 2009 prize went to a physicist; 2010 to biologist Francisco Ayala.SELLING SCIENCE: THE PROBLEM WITH DISPROPORTIONATE WEALTHSir John Templeton saw Ian Barbour’s "dialogue between science and religion" and he coveted it. There is no point in being one of the richest men in the world if you can't buy the things you want. So the Templeton Foundation bought a magazine, Science and Spirit, and devoted it to publicizing the dialogue, but who reads Science and Spirit? So next, Templeton went to the American Association for the Advancement of Science with an offer of one million dollars to create the AAAS Dialogue between Science and Religion. That still sounds like a lot of money to scientists. The AAAS later backed out, but it serves to remind us that, however obtained, a disproportionate share of the world's wealth, even in the hands of the well-intentioned, is a threat to us all.Robert L. Park
February 20 2011, 1:41pm | Comments »
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OS PORTUGUESES E A CIÊNCIA
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O último programa "Câmara Clara" da RTP2 sobre "Os Portugueses e a Ciência", com Maria Mota e Carlos Fiolhais, pode ser visto aqui.
January 31 2011, 2:39pm | Comments »
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CIÊNCIA NO CÂMARA CLARA
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Informação recebida do programa Câmara Clara da RTP2:Dia 30 de Novembro, domingo à noiteCONVIDADOS: MARIA MOTA E CARLOS FIOLHAISA portuguesa Maria Mota, um dos cientistas de topo nas investigações sobre a malária, e o físico Carlos Fiolhais, professor e autor de referência na divulgação científica, são os próximos convidados de Paula Moura Pinheiro. A investigação científica é dos raros setores que florescem num Portugal deprimido. Os cientistas portugueses estão a publicar cerca de 8000 artigos por ano; há unidades de investigação que merecem o investimento de organizações como a Fundação Bill Gates; e da Fundação Champalimaud espera-se que venha a ser para a Ciência aquilo que a partir dos anos 50 a Fundação Gulbenkian foi para as Artes. Maria Mota e Carlos Fiolhais explicam as razões deste boom num contexto em que tudo o resto parece correr mal e falam-nos de livros novos imperdíveis.
January 28 2011, 6:16am | Comments »
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O ESPAÇO E A ALMA
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Meu Prefácio ao livro de poesia “O Espaço e a Alma. Poemas escolhidos”, do cientista, especialista em biotecnologia, e professor da Universidade Católica do Porto F. Xavier Malcata, que acaba de sair na editora Corpos:O que é fazer poesia? E o que é fazer ciência? Em que divergem e convergem estas duas actividades humanas? Que se trata de duas actividades diferentes do ser humano será óbvio para toda a gente. Mas que possam ter algo de comum, embora menos evidente, é revelado pelo facto de haver poetas que se inspiram nos objectos e metodologias da ciência para escreverem os seus poemas, e pelo facto de haver cientistas que não desprezam a inspiração que lhes pode surgir de conteúdos e vias poéticas na prossecução dos seus trabalhos de pesquisa. E, ainda, pelo facto de haver pessoas que são simultaneamente poetas e cientistas, não encontrando contradição insanável na dupla actividade que professam.Eu conhecia – e admirava – o cientista F. Xavier Malcata, professor catedrático na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto, doutorado em Engenharia Química pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e autor de uma vasta e reconhecida obra de investigação. Mas já não conhecia – e só agora passei a admirar – o poeta com o mesmo nome, que, neste livro, logo na Parte I (estando a lógica da divisão em partes exposta pelo autor), sob a égide do título “Cantos de Emoção”, explicita em dois simples versos de um soneto o que é “fazer poesia”:“É fugir em transe, olhando sem ver –É escrever o Mundo em grito e ilusão!” Fica subentendido que fazer ciência será, parafraseando-o, “Fugir em transe, olhando a ver – / E escrever o Mundo com calma e razão!” Xavier Malcata não é o primeiro cientista que também faz poesia – lembro-me do norte-americano Roald Hoffmann (Prémio Nobel da Química de 1981); mas em Portugal, será um dos muito poucos que o fazem – lembro-me do físico Orfeu Bertolami.Sobre esta magna questão das relações entre poesia e ciência, sobre as dissemelhanças e semelhanças entre elas, já se pronunciaram numerosos poetas e cientistas, assim como outros tantos críticos de uma e de outra actividade. O poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) – que o autor refere no poema “Ínclito Porto”, na Parte III (“Ênfases de Ilusão”) – escreveu, no prefácio à “Morte de D. João” (Livraria Moré, 1874): “A poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton tanto pode ser explicada num livro de física, como cantada num livro de versos. O sábio analisa-a, demonstra-a, e o poeta, partindo dessa demonstração, tira dos factos todas as consequências morais, sociais e religiosas, traduzindo-as numa forma sentimental. A ciência, neste caso, dá o convencimento, a certeza; a poesia dá a emoção, o entusiasmo”.Se a poesia aparece aqui como uma linguagem que expressa o real, com um registo próprio – e, portanto, de certo modo como uma consequência da ciência –, ela pode, por outro lado, também ser vista como a origem da ciência. Antero de Quental (1842-1891), contemporâneo de Junqueiro na “Geração de 70”, escreveu, numa carta a um seu amigo: “O chão sobre que assenta a certeza de hoje formou-se pelos aluviões sucessivos da intuição antiga. O que é ciência foi já poesia: o sábio foi já cantor, o legislador poeta: e a evidência uma adivinhação, um admirável palpite, cujas profundas conclusões são ainda o espanto e porventura o desespero das mais rigorosas filosofias. E, se nadamos hoje em plena luz da razão, foi entretanto a poesia, foi essa doce mão que nos guiou por entre o pálido crepúsculo dos velhos sonhos. Velhos? Nós somos eternos.”Fernando Pessoa (1888-1935), além de, sob o nome de Álvaro de Campos, ter equiparado a Vénus de Milo ao binómio de Newton, escreveu sob o seu próprio nome, mas colocando as palavras na voz do poeta Johann Wolfgang von Goethe, no poema dramático “Primeiro Fausto”, os seguintes versos:“Do fundo da inconsciênciaDa alma sobriamente loucaTirei poesia e ciência,E não pouca”.Haveria mais. Mas devem chegar estes exemplos, que encontrei no interessante livrinho “Ciência e Poesia” (Portugália, 1955) do matemático António Lôbo Vilela para ilustrar as dissemelhanças e semelhanças entre fazer poesia e fazer ciência. Há uma certa cumplicidade, quando poesia e ciência se interpenetram – por vezes, não se sabe mesmo qual delas está primeiro e qual está depois. Estão, em muitas situações, as duas ao mesmo tempo. A própria associação da imaginação à poesia – que é feita (e bem), na linha aliás do que é vox populi, por Xavier Malcata –, não deve fazer olvidar que a imaginação é uma componente essencial do processo de descoberta científica. Como disse o físico Albert Einstein: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo.” Imaginação e razão não se podem dissociar facilmente; se é que podem, de todo.Para chegar a esta mesma conclusão bastará atentar em alguns dos poemas de Xavier Malcata, que partem de uma visão científica do mundo – decerto construída com a aliança da imaginação e da razão – para soltar a visão poética, isto é, deixar voar livremente a imaginação, a propósito de um evento, de um tempo ou de um espaço. Há outros poemas, onde a ciência está ou parece arredada e a poesia omnipresente, mas escolho alguns poemas onde a ciência e a poesia dividem fraternalmente o palco. Vejamos como o autor invoca a teoria da relatividade de Einstein no seu poema “Paradoxo de Natal” (da Parte III):“Tempo e até espaço, em singularidadeFundem-se – instantâneo e omnipresente são,Desafiando as leis sábias da realidadeNuma história longa de imaginação.Relatividade em campo, justificaComo um volumoso e risonho astronautaTodo o mundo corre, em diminuto instante.”A física moderna, desta vez a teoria quântica em vez da teoria da relatividade, reaparece noutros passos, como no poema “Sublime elementar” (da mesma Parte III):“Em filosófica, atroz dureza,Heisenberg não permite que, incólume,Fique então o núcleo: só na incertezaSe confia. E o aumento do volume –Bolhas são geradas tão breves,Revela o que é mais elementar:Tal energia, debaixo das neves,Fugidio elo vai acrescentar.”Num domínio mais próximo daquele em que exerce actividade o cientista Xavier Malcata, surgem umas notáveis ”Sextinas a um carbono quiral” (da Parte IV, “Gritos de Realismo”) – que nos fazem lembrar alguns dos poemas do escritor e professor Vitorino Nemésio (1901-1978), contidos no livro “Limite de Idade" (Estúdios Cor, 1972) que dedicou ao biólogo Aurélio Quintanilha):“Os electrões carregados –Fuindo num mar de incertezaE obrigatórios no acaso,Em orbitais bem casados(Híbridas são, de certeza)Dão ligações, mas a prazo.”Em “Arqueologia molecular” (da mesma Parte IV), o autor glosa a moderna e polémica questão dos organismos geneticamente modificados, associada de perto à investigação em biotecnologia que o cientista empreende no seu laboratório:“Criam-se tais regras sem ter fronteiras(Qual Craig Venter universal),Que na agroquímica – a que é industrial,Sem metabólicas, vis barreiras,O microcosmos se vai alterar.”Neste trecho, como aliás noutros, revela-se, sem qualquer dúvida, a dimensão humanista e ética do autor – uma dimensão que ajuda sobremaneira a fazer a ponte entre poesia e ciência.Falando de tecnologia, encontra-se neste livro referência às questões bastante actuais da produção e consumo de energia, nomeadamente ao aproveitamento da energia eólica, no poema “Eólo renascido” (Parte III):“Enchem a paisagem, cortam o horizonte –Como sentinelas de metal aladas,Como monstros em contínuo rodopio.Com seus triplos braços, erguem-se imponentes,Como se entre o céu e a terra fossem ponte.Como cavaleiro andante disfarçadas,Provocando D. Quixote em desafio –Torres actuais, máquinas tão descontentes.”Somos levados imediatamente, neste e em vários outros poemas, a estabelecer uma analogia – e também, necessariamente, um contraste – com a poesia de António Gedeão, o pseudónimo do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho (1906-1997), que, em “Impressão digital”, escreveu: “São moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes.”O autor também trata a questão das viagens espaciais, resultado tecnológico do conhecimento das leis de Newton – uma questão bem actual, agora que passam os 40 anos da primeira ida humana à Lua. Em “Balada de infinito” (Parte IV), lê-se:“Eis compasso de espera – fica em órbita;Cadeia a dois no módulo que parte,A equipa longe, no vácuo perdido,Desce, lenta, para a Tranquilidade.Saltitando tão esbelto (não gravita),O herói marca o chão como peça de arte.Satélite cinzento, em que o homem ávidoPula como gigante: é a Humanidade.”Associamos de novo Xavier Malcata a Gedeão, o autor de “Poema do homem novo”, saído um ano depois de Armstrong pisar o solo lunar: “Lá vai ele. / Lá vai o Homem Novo / Medindo e calculando cada passo, / Puxando pelo corpo como bloco emperrado.” A associação é particularmente evidente – decerto uma grande e justa homenagem do autor a Gedeão, pois, na poesia como na ciência, só se pode ver mais longe se se estiver “aos ombros de gigantes” –, na “Ameaça maior em redondilha menor”, que lembra a famosa “Lágrima de preta”. Escreve Xavier Malcata:“Encontrei uma gota,Que estava a escorrer:Transparente e fria,Prestes a morrer.Amostrei-a logo:Usei a pipeta,Olhei-a bem fundo –Vi a coisa tão preta.”Por outro lado, uma nítida diferença entre os dois poetas transparece se se cotejar, por exemplo, “Correrias de advento” (Parte II, “Suspiros de Bucolismo”), de Xavier Malcata, com “Dia de Natal”, de Gedeão – embora nos dois haja comunhão no tema, a crítica ao excessivo consumismo a que continuamos a assistir nos finais do ano. Outros, com mais sapiência e capacidade do que eu, poderão analisar os paralelismos e as obliquidades entre o consagrado autor de “Pedra Filosofal” e o presente autor, que decerto encontrou inspiração em quem tão bem soube urdir ciência e poesia.Um prefácio deve ser breve – como um acepipe que abre caminho para o saboroso prato principal, que é a obra propriamente dita. Assim, e uma vez que a última palavra será, como deve ser, a do poeta Xavier Malcata, dou (por ser incapaz de dizer melhor) a minha última palavra ao poeta Gedeão – que, no último poema, intitulado “Suspensão coloidal”, do seu livro “Máquina do Fogo” (Atlântida, 1961), tão bem resumiu a complexidade e a dificuldade das relações, decerto persistentes mas continuamente ambíguas, entre ciência e poesia:“Postulados e leis e lemas e teoremas,tudo o que afirma e fura e diz sim,teorias, doutrinas e sistemas,tudo se escapa ao autor dos meus poemas.A ele e a mim.”
January 21 2011, 1:30pm | Comments »
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PRIMÓRDIOS DA CIÊNCIA EM PORTUGAL
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Esperando abrir o apetite para o meu novo livro "A Ciência em Portugal" deixo aqui o início do segundo capítulo, referente à história da ciência (a obra resume também a situação da investigação científica, o ensino das ciências e da cultura científica entre nós):"Convencionando‑se que a ciência moderna começa no início do século XVII com o físico italiano Galileu Galilei, que não só teorizou como praticou o método experimental, além de ser pioneiro da cultura científica ao divulgar a ciência da forma como o fez, terá de se considerar que o período áureo da história de Portugal, o período dos Descobrimentos marítimos, é um pouco anterior à ciência moderna. Mas ele foi essencial ao florescimento da ciência moderna. Johannes Kepler, o grande astrónomo alemão contemporâneo de Galileu, elogiou os feitos dos portugueses. E um dos amigos de Galileu, o jesuíta Christophoro Clavius, matemático principal do Colégio Romano, a sede dos Jesuítas em Roma, estudou cinco anos no Colégio das Artes, ligado à Universidade de Coimbra. Clavius não terá sido aluno em Coimbra do matemático Pedro Nunes, decerto o maior matemático e talvez o maior cientista português, mas ajudou na divulgação do seu nome por toda a Europa culta, ao efectuar numerosas referências ao trabalho daquele que foi cosmógrafo‑mor do rei D. João III.Pedro Nunes é um nome incontornável na ciência dos Descobrimentos. Apesar de nunca ter realizado viagens marítimas, criou um novo ramo da matemática aplicada: a matemática da navegação. Desenvolveu também um útil instrumento de medida, o nónio, que foi utilizado pelo dinamarquês Tycho Brahe, mestre de Kepler e o último grande astrónomo antes da invenção do telescópio por Galileu. Ajudado por Clavius e por outros, a sua fama correu mundo, a ponto de um dos livros alemães da sua época colocar o seu rosto na capa ao mesmo nível que os de Euclides e de outros renomados matemáticos. Além de Nunes, outros cientistas‑navegadores portugueses do tempo foram Duarte Pacheco Pereira, que exaltou o valor da experimentação (“A experiência é a madre de todas as coisas”) e D. João de Castro, que efectuou notáveis medidas da declinação magnética, tornando‑se com isso precursor dos estudos do magnetismoterrestre.Um outro notável cientista na época dos Descobrimentos foi o botânico Garcia de Orta. Viveu na Índia, onde publicou o Colóquio dos Simples, um livro pioneiro sobre plantas tropicais e também sobre doenças cuja cura podia ser obtida com a ajuda dessas plantas. Orta foi amigo de Camões, a ponto de os primeiros versos impressos do nosso maior poeta terem aparecido precisamente na portaria do Colóquio. O facto de a Inquisição ter perseguido postumamente Orta, um cristão ‑novo tal como Nunes, designadamente ao fazer‑lhe um auto‑de‑fé post mortem, exemplifica bem como a ciência enfrentou, em Portugal, desde o seu início, extremas dificuldades advindas de factores de intolerância religiosa, social ou política.Os Jesuítas tinham criado em Portugal alguns dos primeiros colégios do mundo (em Coimbra, o Colégio de Jesus, além do Colégio das Artes, e, em Lisboa, o Colégio de S. Antão). Alguns jesuítas que conviveram com Galileu realizaram entre nós as primeiras observações com o telescópio. Muitos membros estrangeiros da Companhia de Jesus vinham, nessa época, para Portugal com o intuito de ir missionar no Extremo Oriente. O telescópio foi aliás introduzido na China e no Japão através das viagens marítimas que os portugueses empreenderam. E não foram apenas os telescópios: também os relógios mecânicos chegaram ao Oriente por intermédio dos portugueses ou de estrangeiros que passavam por Portugal. Os conhecimentos de astronomia dos europeus eram tão superiores aos dos chineses que o Tribunal das Matemáticas, o organismo que superintendia na corte imperial de Pequim os assuntos relacionados com o calendário e com as efemérides astronómicas, passou a ser dirigido por jesuítas.Com a monarquia dual em Espanha e Portugal, Portugal entrou num período de declínio, que também foi visível na ciência. Só no Século das Luzes, primeiro com o rei D. João V (que criou bibliotecas em Coimbra e em Mafra e promoveu a vinda para Portugal de um astrónomo italiano, o padre João Baptista Carbone, que havia de publicar os registos das suas observações nas Philosophical Transactions da Royal Society de Londres) e depois com D. José (que haveria de patrocinar a importante Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra) se observou um ressurgimento da ciência entre nós. No tempo de D. João V a ordem religiosa mais proeminente na astronomia e na física experimental já não foram os Jesuítas, mas sim os Oratorianos, que tinham um Colégio no Palácio das Necessidades em Lisboa, onde é hoje a sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.Pontificaram aí dois “estrangeirados”, isto é, portugueses que tiveram de emigrar devido a perseguições na sua terra natal: o padre Teodoro de Almeida, fundador da física experimental em Portugal e também o primeiro divulgador de ciência entre nós, com a sua notável Recreação Filosófica, em dez volumes, e o Padre João Chevalier, um astrónomo que chegou a presidir à Real Academia Belga de Ciências, em Bruxelas. Na segunda metade do século XVIII, o marquês de Pombal, a figura política dominante, perseguiu tanto os Jesuítas (acabando por expulsar essa congregação do país, num movimento que levaria à sua extinção em todo o mundo) como os Oratorianos e, para suprir em parte a sua falta, convidou alguns cientistas italianos a vir leccionar em Portugal (os mais notáveis foram Giovanni dalla Bella e Domenico Vandelli, ambos vindos da Universidade de Pádua, na Itália).Ficou lendária a rápida e eficaz acção do marquês após o grande terramoto de Lisboa de 1755, tendo mandado efectuar um inquérito que é considerado precursor dos estudos sísmicos a nível mundial. A reforma que efectuou em 1772 da Universidade de Coimbra constituiu um momento de rotura contra o ensino ministrado pelos Jesuítas, que tinha estiolado (apesar de haver algum exagero no retrato que a “máquina de propaganda” do marquês fez dos seguidores de Santo Inácio de Loiola). A reforma ficou assinalada pela construção do Laboratório Chimico num antigo refeitório jesuítico (que hoje alberga a sede do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra) numa época em que a ciência química estava a desabrochar pela mão do francês Antoine Lavoisier, e pela criação do Gabinete de Física Experimental (um dos mais notáveis do mundo, cujas colecções de instrumentos integram hoje aquele Museu), do Gabinete de História Natural, do Jardim Botânico de Coimbra (antes tinha sido criado outro na Ajuda, em Lisboa, mas mais vocacionado para recreio e educação da Casa Real), etc. O ensino experimental foi instalado na que era então, desde o fecho da escola jesuítica eborense, a única universidade portuguesa.Não se pode, contudo, dizer que a reforma das ciências ordenada e dirigida pessoalmente pelo marquês tenha beneficiado largas camadas da população, uma vez que o número de alunos que frequentavam nessa época estudos superiores de ciências era extremamente diminuto. As faculdades de Matemática e de Filosofia que então foram criadas serviam essencialmente à preparação para estudos posteriores de Medicina.Influentes no processo de reforma empreendido pelo marquês foram outros “estrangeirados”, como os médicos judeus António Nunes Ribeiro Sanches, que esteve na Holanda, na França e na Rússia, Jacob de Castro Sarmento, que esteve exilado em Inglaterra, e o físico João Jacinto Magalhães, também foragido em Inglaterra, que conviveu com alguns dos mais importantes cientistas da época (como James Watt e Alessandro Volta) e hoje é lembrado por um prémio, instituído em sua honra e com uma dotação inicial doada por si, da American Philosophical Society. (...)"
January 21 2011, 4:46am | Comments »
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A CIÊNCIA EM PORTUGAL
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/ciencia-em-portugal.html
Acaba de sair o meu ensaio "A Ciência em Portugal", publicado pela Fundação Manuel Francsico dos Santos.
January 21 2011, 4:34am | Comments »
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Robótica ao serviço das crianças
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/robotica-ao-servico-das-criancas.html
Alunos e professores da Univ. Minho, Laboratório de Robótica do Departamento de Electrónica Industrial liderado pelo Prof. Fernando Ribeiro, adaptam brinquedos para crianças com necessidades especiais. E reparem no pormenor: um dos brinquedos comemora golos do Vitória de Guimarães, ou seja, é um brinquedo inteligente.:-)
January 12 2011, 8:25am | Comments »
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Política num blog sobre a natureza das coisas
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/politica-num-blog-sobre-natureza-das.html
Falar de política e de atitude cívica é uma das grandes contribuições que a ciência pode dar à democracia.As pessoas esquecem-se das suas obrigações. E demitem-se delas. Não avaliar, não querer saber, fazer de conta, ir em conversa fiada, não exigir, não responsabilizar é, em democracia, uma atitude muito perigosa. Porque permite o engano.Em democracia há momentos para avaliar. Esses momentos são as eleições e a necessária participação na vida do país. E isso não é só um direito. É essencialmente um dever! E é perigoso falhar nesse dever. Não vale a pena depois andar a apontar dedos. Se uns mentiram e enganaram, outros permitiram, outros não quiseram saber, outros não se informaram, outros foram em "clubismos", outros... falhamos todos colectivamente. Claro que com vários níveis de responsabilidade, claro que com vários graus de entendimento sobre a realidade, mas Portugal somos nós todos.Fazer perguntas e obter respostas claras não é um direito, é um dever de todos nós. Ceder nesse dever é um dos actos mais perigosos em democracia.Como dizia Francisco Sá Carneiro: "Cabe-nos cada vez mais dinamizar as pessoas para viverem a sua liberdade própria, para executarem o seu trabalho pessoal, para agirem concretamente na abolição das desigualdades. Para isso mais importante que a doutrinação, é levar as pessoas a pensarem, a criticarem, a discernirem."Quer contribuir para um Portugal melhor? Faça perguntas e exija respostas claras, como se tivesse 6 anos. Queira saber mais, a razão das coisas, leia, investigue e converse com os seus amigos e familiares. Não aceite explicações dúbias ou repletas de coisas técnicas. A natureza das coisas tem de poder ser explicada de forma simples (sem ser simplista), para que todos entendam. Se não for, então o seu interlocutor não sabe, ou não tem a certeza do que está a dizer. Não fique no curto prazo. Levante a cabeça e olhe à volta. Queira saber como se articulam as coisas, qual é o objectivo a médio e longo-prazo, ou seja, queira saber qual é o cenário (the big picture). Se fizer isso, como fazem os cientistas, as suas opções serão melhores, porque terão suporte e terão reflexão. Pode enganar-se, claro, mas a probabilidade é menor e afastou grande parte dos "enganos".Como dizia Carl Sagan, "O mundo está infestado de demónios" e a ciência é a forma mais eficaz de os combater.:-)
January 12 2011, 3:27am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
As Luzes de Rutherford
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Nas vésperas do ano em que comemoram cem anos da descoberta do núcleo atómico, obra do físico Ernest Rutherford, deixo aqui um excerto de uma peça que um músico contemporâneo com formação em física - o britânico Edward Cowie - compôs em sua homenagem: "Rutherford Lights".
December 30 2010, 10:29am | Comments »



