António Manuel Baptista, físico e divulgador de ciência, em entrevista a Carlos Vaz Marques, publicada na revista Ler deste mês de Fevereiro, disserta sobre as pontes em a poesia e a ciência."Um poeta como Rilke, nos meus tempo de juventude, foi para mim muito importante.Foi o seu poeta de eleição?Foi. Quando apareceu na minha vida o Rilke foi um terramoto. Foi-o para alguns de nós, no meu grupo de amigos mais próximos (...)A ciência e a poesia são compatíveis?Vejo muitos cientistas fazerem críticas à poesia. O grande (Paul) Dirac dizia que a ciência é uma actividade em que nós, com palavras usuais, tentamos explicar coisas desconhecidas. A poesia seria o contrário: uma tentativa de explicar coisas que todos conhecemos com palavras desconhecidas.Suponho que não partilha esse ponto de vista.Não partilho. Ele era um homem seco demais (...)Está dentro do nosso espírito que é possível estabelecer pontes muito próprias. A ciência é uma delas. Mas a poesia também é.São ambas, poesia e ciência, para o mesmo território?Para o mesmo território e também para um território sagrado, a mente humana."
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Pontes para um mesmo território
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February 6 2010, 6:07am | Comments »
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GUERRAS SANTAS 2
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Segunda e última parte do texto de Neil de Grasse Tyson inserto no livro "Morte pelo Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos" (Gradiva, 2010):"VISTO QUE OS CIENTISTAS OSTENTAM níveis tão elevados de cepticismo, algumas pessoas poderão ficar surpreendidas por saber que os cientistas atribuem as suas maiores recompensas e elogios àqueles que, de facto, descobrem falhas em paradigmas estabelecidos. Essas mesmas recompensas também vão para aqueles que criam novas formas de compreender o universo. Quase todos os cientistas famosos, escolham o vosso favorito, tiveram este tipo de elogios ao longo das suas vidas. Este caminho profissional para o sucesso está nas antípodas daquilo que existe em quase todas as outras organizações humanas — sobretudo a religião.Nada disto significa que o mundo não contenha cientistas religiosos. Numa sondagem recente acerca de crenças religiosas em profissionais de matemática e ciências (Larson e Witham, 1998), 65 por cento dos matemáticos (a percentagem mais elevada) declararam ser religiosos, tal como 22 por cento dos físicos e astrónomos (a percentagem mais reduzida). A média nacional entre todos os cientistas é de cerca de 40 por cento, e ficou essencialmente inalterada durante o século passado. Para referência, cerca de 90 por cento do público americano afirmam ser religiosos (uma das percentagens mais elevadas na sociedade ocidental), de forma que, ou as pessoas não-religiosas se sentem atraídas para estudos em ciência, ou estudar ciência nos faz menos religiosos.Mas então e aqueles cientistas que são religiosos? Os investigadores de sucesso não obtém a sua ciência das suas crenças religiosas. Por outro lado, os métodos da ciência não têm actualmente nada a contribuir para a ética, a moral, a beleza, o amor, o ódio ou a estética. Esses são elementos vitais da vida civilizada e centrais para as preocupações de quase todas as religiões. Isto significa que, para muitos cientistas, não há conflito de interesses.Como em breve veremos em detalhe, quando os cientistas falam de Deus geralmente invocam-no nas fronteiras do conhecimento, regiões onde deveremos ser o mais humildes possível e onde o nosso maravilhamento é máximo.É possível cansarmo-nos desse maravilhamento?No século XIII, Afonso, o Sábio (Afonso X), o rei de Espanha, que era também um académico importante, sentia alguma frustração relativamente à complexidade dos epiciclos de Ptolomeu, necessários para explicar um universo geocêntrico. Sendo menos humilde do que outros que também investigavam as fronteiras do conhecimento, Afonso disse uma vez: «Tivesse eu estado presente na criação, teria dado algumas dicas úteis para um ordenamento melhor do universo.» (Carlyle 2004, liv. II, cap. X).Completamente de acordo com as frustrações do Rei Afonso com o universo, Albert Einstein escreveu, numa carta a um colega, que «Se Deus criou o mundo, de certeza que a sua preocupação principal não foi tornar a sua compreensão fácil para nós» (1954). Quando Einstein não conseguiu entender a razão pela qual um universo determinista pudesse requerer os formalismos probabilistas da mecânica quântica, ele disse que «É difícil conseguir dar uma espreitadela às cartas de Deus. Mas que Ele quisesse jogar aos dados com o mundo... é algo em que não consigo acreditar por um momento que seja» (Frank 2002, p. 208). Quando mostraram a Einstein um resultado experimental que, se estivesse correcto, teria derrubado a sua nova teoria da gravidade, Einstein comentou que «O Senhor é subtil, mas não é malicioso» (Frank 2002, p. 285). O físico dinamarquês Niels Bohr, contemporâneo de Einstein, finalmente fartou-se dos comentários de Einstein acerca de Deus e disse que Einstein deveria parar de dizer a Deus o que ele tinha de fazer! (Gleick 1999)Hoje em dia ouve-se um ou outro astrofísico original (talvez um em cem) a invocar Deus em público quando lhe perguntam de onde é que todas as nossas leis da física vieram, ou o que é que havia antes do big bang. Tal como temos vindo a antecipar, essas perguntas englobam a fronteira moderna das descobertas cósmicas e, de momento, transcendem as respostas que os dados e as teorias de que dispomos nos podem dar. Já existem algumas ideias promissoras, como por exemplo a cosmologia inflacionária e a teoria das cordas.Essas ideias poderão, em última análise, acabar por dar-nos as respostas a essas perguntas, empurrando para ainda mais longe o limite do nosso deslumbramento. As minhas opiniões pessoais são completamente pragmáticas e ecoam parcialmente as de Galileu, a quem é atribuída a responsabilidade de ter dito, durante o seu julgamento, que «A Bíblia diz-nos como ir para o Céu, não como os céus funcionam» (Drake 1957, p. 186). Galileu disse mais ainda, numa carta para a grã-duquesa da Toscânia: «Em minha opinião, Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a Bíblia, onde os seres humanos podem descobrir as respostas para as suas questões acerca de valores e de moral. O segundo livro de Deus é o livro da natureza, que nos permite usar observações e experiências para responder às nossas próprias questões acerca do universo» (Drake 1957, p. 173).Eu limito-me a seguir aquilo que resulta. E aquilo que resulta é o cepticismo salutar que está incorporado no método científico. Acreditem quando lhes digo que se a Bíblia se tivesse revelado uma fonte riquíssima de respostas científicas e de compreensão do universo, nós estaríamos a miná-la diariamente para fazermos descobertas cósmicas. Contudo, o meu vocabulário de inspiração científica sobrepõe-se imenso ao dos entusiastas da religião. Eu, como outros, sinto-me humilde na presença dos objectos e dos fenómenos do nosso universo. E vêem-me lágrimas aos olhos devido à admiração que sinto pelo seu esplendor. Mas faço-o sabendo e aceitando que, se eu propuser um Deus que conceda a sua graça ao nosso vale de desconhecimento, pode bem chegar o dia em que, devido ao poder dos avanços da ciência, já não sobrem vales nenhuns."Neil deGrasse Tyson
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February 4 2010, 3:23pm | Comments »
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GUERRAS SANTAS 2
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Segunda e última parte do texto de Neil de Grasse Tyson inserto no livro "Morte pelo Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos" (Gradiva, 2010):"VISTO QUE OS CIENTISTAS OSTENTAM níveis tão elevados de cepticismo, algumas pessoas poderão ficar surpreendidas por saber que os cientistas atribuem as suas maiores recompensas e elogios àqueles que, de facto, descobrem falhas em paradigmas estabelecidos. Essas mesmas recompensas também vão para aqueles que criam novas formas de compreender o universo. Quase todos os cientistas famosos, escolham o vosso favorito, tiveram este tipo de elogios ao longo das suas vidas. Este caminho profissional para o sucesso está nas antípodas daquilo que existe em quase todas as outras organizações humanas — sobretudo a religião.Nada disto significa que o mundo não contenha cientistas religiosos. Numa sondagem recente acerca de crenças religiosas em profissionais de matemática e ciências (Larson e Witham, 1998), 65 por cento dos matemáticos (a percentagem mais elevada) declararam ser religiosos, tal como 22 por cento dos físicos e astrónomos (a percentagem mais reduzida). A média nacional entre todos os cientistas é de cerca de 40 por cento, e ficou essencialmente inalterada durante o século passado. Para referência, cerca de 90 por cento do público americano afirmam ser religiosos (uma das percentagens mais elevadas na sociedade ocidental), de forma que, ou as pessoas não-religiosas se sentem atraídas para estudos em ciência, ou estudar ciência nos faz menos religiosos.Mas então e aqueles cientistas que são religiosos? Os investigadores de sucesso não obtém a sua ciência das suas crenças religiosas. Por outro lado, os métodos da ciência não têm actualmente nada a contribuir para a ética, a moral, a beleza, o amor, o ódio ou a estética. Esses são elementos vitais da vida civilizada e centrais para as preocupações de quase todas as religiões. Isto significa que, para muitos cientistas, não há conflito de interesses.Como em breve veremos em detalhe, quando os cientistas falam de Deus geralmente invocam-no nas fronteiras do conhecimento, regiões onde deveremos ser o mais humildes possível e onde o nosso maravilhamento é máximo.É possível cansarmo-nos desse maravilhamento?No século XIII, Afonso, o Sábio (Afonso X), o rei de Espanha, que era também um académico importante, sentia alguma frustração relativamente à complexidade dos epiciclos de Ptolomeu, necessários para explicar um universo geocêntrico. Sendo menos humilde do que outros que também investigavam as fronteiras do conhecimento, Afonso disse uma vez: «Tivesse eu estado presente na criação, teria dado algumas dicas úteis para um ordenamento melhor do universo.» (Carlyle 2004, liv. II, cap. X).Completamente de acordo com as frustrações do Rei Afonso com o universo, Albert Einstein escreveu, numa carta a um colega, que «Se Deus criou o mundo, de certeza que a sua preocupação principal não foi tornar a sua compreensão fácil para nós» (1954). Quando Einstein não conseguiu entender a razão pela qual um universo determinista pudesse requerer os formalismos probabilistas da mecânica quântica, ele disse que «É difícil conseguir dar uma espreitadela às cartas de Deus. Mas que Ele quisesse jogar aos dados com o mundo... é algo em que não consigo acreditar por um momento que seja» (Frank 2002, p. 208). Quando mostraram a Einstein um resultado experimental que, se estivesse correcto, teria derrubado a sua nova teoria da gravidade, Einstein comentou que «O Senhor é subtil, mas não é malicioso» (Frank 2002, p. 285). O físico dinamarquês Niels Bohr, contemporâneo de Einstein, finalmente fartou-se dos comentários de Einstein acerca de Deus e disse que Einstein deveria parar de dizer a Deus o que ele tinha de fazer! (Gleick 1999)Hoje em dia ouve-se um ou outro astrofísico original (talvez um em cem) a invocar Deus em público quando lhe perguntam de onde é que todas as nossas leis da física vieram, ou o que é que havia antes do big bang. Tal como temos vindo a antecipar, essas perguntas englobam a fronteira moderna das descobertas cósmicas e, de momento, transcendem as respostas que os dados e as teorias de que dispomos nos podem dar. Já existem algumas ideias promissoras, como por exemplo a cosmologia inflacionária e a teoria das cordas.Essas ideias poderão, em última análise, acabar por dar-nos as respostas a essas perguntas, empurrando para ainda mais longe o limite do nosso deslumbramento. As minhas opiniões pessoais são completamente pragmáticas e ecoam parcialmente as de Galileu, a quem é atribuída a responsabilidade de ter dito, durante o seu julgamento, que «A Bíblia diz-nos como ir para o Céu, não como os céus funcionam» (Drake 1957, p. 186). Galileu disse mais ainda, numa carta para a grã-duquesa da Toscânia: «Em minha opinião, Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a Bíblia, onde os seres humanos podem descobrir as respostas para as suas questões acerca de valores e de moral. O segundo livro de Deus é o livro da natureza, que nos permite usar observações e experiências para responder às nossas próprias questões acerca do universo» (Drake 1957, p. 173).Eu limito-me a seguir aquilo que resulta. E aquilo que resulta é o cepticismo salutar que está incorporado no método científico. Acreditem quando lhes digo que se a Bíblia se tivesse revelado uma fonte riquíssima de respostas científicas e de compreensão do universo, nós estaríamos a miná-la diariamente para fazermos descobertas cósmicas. Contudo, o meu vocabulário de inspiração científica sobrepõe-se imenso ao dos entusiastas da religião. Eu, como outros, sinto-me humilde na presença dos objectos e dos fenómenos do nosso universo. E vêem-me lágrimas aos olhos devido à admiração que sinto pelo seu esplendor. Mas faço-o sabendo e aceitando que, se eu propuser um Deus que conceda a sua graça ao nosso vale de desconhecimento, pode bem chegar o dia em que, devido ao poder dos avanços da ciência, já não sobrem vales nenhuns."Neil deGrasse Tyson
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February 4 2010, 3:02pm | Comments »
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DO ESPAÇO E DO TEMPO
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Vale a pena ver, na Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (no Monte da Cparaica), dirigida por José Moura, a exposição "Do Espaço e do Tempo" de Mário Cabrita Gil.
January 27 2010, 11:48am | Comments »
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A ÚLTIMA DÉCADA
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Depoimento que prestei ao jornal universitário "A Cabra" sobre a primeira década do novo século (década que, começada em 2001, ainda não acabou):A primeira década do novo milénio não foi das melhores décadas que tivemos. Quase que começou com o ataque às torres gémeas e quase que acabou com a crise financeira internacional. Pelo meio, houve a guerra no Iraque e no Afeganistão, a subida do preço do petróleo, as questões do aquecimento global, etc. A ciência não conseguiu a visibilidade pública que merece. E a cultura não se conseguiu libertar do pior do pós-modernismo das décadas anteriores. Melhores dias virão, estou certo!
January 26 2010, 8:02am | Comments »
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FÍSICA E QUÍMICA: NAMOROS E ZANGAS
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Recentemente, após uma palestra que dei na Universidade do Minho sobre a teoria quântica no secundário fui questionado sobre a distinção entre física e a química. Transcrevo o meu texto sobre o assunto de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005):A escola associa tradicionalmente a Física com a Química na disciplina de Ciências Físico-Químicas. Há, por isso, quem pense que são ciências gémeas. Serão?Não são decerto gémeas, porque a Física nasceu no século XVII com o inglês Isaac Newton, autor dos “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, ao passo que a Química só surgiu no final do século XVIII com o francês Antoine Laurent Lavoisier e o seu “Tratado Elementar de Química”. Facto curioso e pouco conhecido, revelado pelo economista John Keynes, é que Newton foi um alquimista secreto, talvez o último dos grandes alquimistas (não esqueçamos que a alquimia é uma pré-química, é uma espécie de mãe da química!) de modo que foi do fracasso do sonho alquímico de um físico que a Química pôde surgir. Mas a Química tem, de facto, grandes afinidades com a Física. A Física gosta da Química e vice-versa. Não será a disciplina casada com a Física, porque, desde Newton que se sabe que quem forma um matrimónio duradouro com a Física é a Matemática. A Física, e nisso contrasta com a Química, está profundamente unida à Matemática, partilhando com ela cama e mesa a ponto mesmo de não poder sobreviver a um divórcio. Assim, só resta à Química ser uma namorada da Física, com a qual tem tido um prolongado devaneio e com quem naturalmente tem, de vez em quando, alguns arrufos.Tão enlaçadas por vezes as duas ciências que é difícil destrinçar a Física da Química, mas uma definição convencional é que a Física trata das propriedades da matéria e da energia e que a Química trata da organização dos átomos, que se combinam para formar moléculas e materiais. Para os químicos, os átomos são portanto blocos que se ligam num jogo de complexidade crescente, que vai dos átomos isolados até às organizadíssimas estruturas da vida. Como os átomos são tanto dos físicos como dos químicos, é natural que seja longo o convívio da Física com a Química. Muitos Prémios Nobel da Química foram ou são até físicos ilustres, uma vez que os químicos, diligentemente, se adiantaram aos físicos no respectivo reconhecimento. O caso mais antigo é também o mais pitoresco e, por isso, vale a pena contá-lo brevemente. A estrutura do átomo é do domínio da Física. Mas o britânico (nascido na Nova Zelândia) Ernest Rutherford, descobridor do núcleo atómico – o ponto minúsculo no centro do átomo - , ganhou no início do século XX não o Prémio Nobel da Física, mas sim... o da Química! Rutherford, autor das primeiras reacções nucleares artificiais, não resistiu a declarar:“Tenho visto reacções nucleares muito rápidas, mas nenhuma foi tão rápida como a da Academia Nobel que de repente me transformou de um físico num químico”.Mais recentemente, em 2001, o físico norte-americano de origem austríaca Walter Kohn recebeu também o Prémio Nobel da Química pelo seu notável contributo para resolver a equação fundamental da mecânica quântica, facto que o obrigou a iniciar as suas conferências para químicos esclarecendo que não sabia quase nada de Química... E mostrava um cartune que o representava no meio dos frascos de um laboratório de química, onde ele já não entrava desde os tempos do liceu. Os físicos, por seu lado, também não se têm importado em distinguir e premiar químicos. Lá fora é comum encontrar físicos nos departamentos e laboratórios de Química assim como químicos nos departamentos e laboratórios de Física (antepõe-se o “lá fora”, porque em Portugal, um sistema universitário anquilosado tem impedido essa hoje tão necessária interdisciplinaridade).Mas há também zangas. Em 1929, o físico inglês (que, por formação, era engenheiro electrotécnico) Paul Dirac, de quem se comemorou o centenário do nascimento em 2003, escreveu uma frase famosa que pretende reclamar que a Química não passa de um ramo da Física. Repare-se que três anos antes, com a ajuda do próprio Dirac, tinha aparecido a mecânica quântica, a doutrina que permite explicar o funcionamento dos átomos. O papel maior de Dirac tinha sido escrever uma equação matemática (inspirada por argumentos de natureza estética) que juntava a teoria quântica de Bohr e outros com a relatividade de Einstein. A equação de Dirac, bela e lapidar, permitia, pelo menos em princípio (haveria que resolvê-la, o que era impossível em casos não triviais, dada a indisponibilidade na época do computador), descrever uma multidão de fenómenos físicos e a totalidade dos fenómenos químicos. Vejamos então o que Dirac afirmou:“As leis físicas subjacentes à teoria matemática de uma larga parte da física e de toda a química são, portanto, completamente conhecidas, sendo a única dificuldade o facto de a aplicação destas leis conduzir a equações demasiado complicadas para serem resolvidas. É por isso desejável desenvolver métodos práticos de aplicação da mecânica quântica que ofereçam uma explicação das principais características dos sistemas atómicos complexos sem recorrer a muitos cálculos.”Esta afirmação conduziu a uma discussão sobre a “redução” da Química à Física. Será que toda (sublinhe-se: toda) a Química se pode reduzir à Física? Ou usando, uma linguagem um pouco mais forte, será que a Física possui toda a Química?Embora se possa perceber o que Dirac tinha em mente, julgo que é manifestamente exagerado pretender que a Química seja um ramo da Física. Na mesma linha de ideias, a Biologia seria um ramo da Química e, portanto, um subramo da Física. Etc. Isto é, tudo ou quase tudo seria Física. A afirmação de Dirac, mais do que reducionista, parece, vista deste modo, totalitária. Não haveriam várias ciências mas simplesmente uma ciência. Reside aqui decerto um dos motivos de algumas zangas entre físicos e químicos. Os físicos são acusados da “tentação totalitária” , da tentação de tudo quererem englobar. É um facto que alguns físicos – os que perseguem, na linha de Dirac, mas agora a um nível mais microscópico, uma “teoria de tudo”, uma “teoria final” – defendem que o “leitmotiv” da Física deve ser a busca do mais pequeno e da força unificada que una os blocos mais fundamentais. Mas não é menos verdade que cada vez mais físicos entendem hoje que o domínio da complexidade não lhes é alheio e que o Universo é muito mais vasto e plural do que a atitute estritamente reducionista pressupõe.Física e Química são subculturas diferentes da mesma cultura científica. São maneiras diversas de ver o mesmo mundo. Concerteza que têm, por isso, muito em comum (usando uma metáfora teológica, não pode o homem separar aquilo que Deus uniu!). Mas também concerteza que são disciplinas com individualidade própria. Os esforços a fazer deverão ir não no sentido de fundir essas culturas mas sim de fomentar o seu contacto. Isto é: de manter o namoro sem zangas de maior.
January 25 2010, 3:43am | Comments »
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Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos
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Três poemas do livro "Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos", de Regina Gouveia (com ilustrações de Nuno Gouveia), que acaba de sair na editora Ana Paula Faria (colecção "Ciência e Poesia de Mãos Dadas"):SOL DE INVERNOO sol estava tão cansadoe viu mesmo ali aoi lado,uma nuvem tão branquinha.Como foi que apareceuesta almofada tão fofinha?Vou dormir uma soneca.Um pastor olhou para o céu.Onde é que o sol se meteu?Preciso do calor seu,já não me basta a jaleca.ARCO-ÍRISEra uma vez um dia de Abril,um dia de chuva, com o sol a espreitare no céu, a brilhar, um arco de cores.Uma era vermelha, outra alaranjada,havia uma verde, uma amarelada,uma violeta, uma era azuladae uma outra anil.Que arco tão lindo brilhava no céu!O nome arco-íris não sei quem lho deu.AVESTRUZA avestruz tentou voar mas,catrapuz, caiu no chão.Deu um grande trambolhão.Pôs-se logo a cogitar:Não nasci para voar.E foi então, ligeirinha,dar mais uma corridinha.O blogue da autora é aqui.
January 6 2010, 6:04am | Comments »
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SOBRE A INVESTIGAÇÃO CIENTÌFICA
http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/entrevista-2.html
Outro excerto da entrevista que dei a Fábio Rodrigues, aluno de Comunicação Social da Universidade de Coimbra:FR- O que é que o preenche mais: passar o seu saber a novos alunos ou desbravar novo conhecimento?CF- A nível do ensino superior, não se pode simplesmente ser professor sem ser também investigador porque estamos a tentar passar conhecimento ao mais alto nível. Para fazer isso temos de estar não só actualizados, mas também familiarizados com o método científico, com a maneira de chegar ao conhecimento. Não podemos servir aos alunos coisas feitas e acabadas e dizer “isto é assim e acabou-se”, temos de dizer “isto é assim e vocês, pelo menos alguns de vocês, têm a possibilidade de fazer mais”. Isto não pode ser dito por alguém que não tem capacidade para fazer mais, de acrescentar ele próprio pedras ao edifício científico. Para mim perguntarem-me se gosto mais do ensino ou da investigação é como perguntarem-me se gosto mais do pai ou da mãe... Tive uma altura que me dediquei com maior intensidade à investigação do que hoje, mas é sempre uma actividade apaixonante. Quando dou aulas, o que também é apaixonante, isso permite-me estar equipado não só com os conhecimentos mas também com as capacidades que adquiri e adquiro na investigação. Também na relação professor-aluno deve passar uma outra coisa muito importante, a atitude de prevenção perante o erro. O cepticismo é uma das coisas fundamentais que temos de transmitir na ciência, ensinar a não acreditar naquilo que o próprio acredita, porque, muitas vezes, o segredo da ciência está em descobrir erros em pequenas coisas. No fundo, ensinar só aquilo que se sabe sem ensinar como se pode saber mais é ensinar muito pouco.FR- Falando de investigação científica, já afirmou publicamente que, em Portugal, este sector estava ainda pouco desenvolvido...CF- Estava e, se compararmos com os países mais desenvolvidos, ainda está. Tem havido progresso, com cada vez mais pessoas a fazer ciência, mas a situação era tão má há umas dezenas de anos atrás, que pior era difícil. Quando dizemos que não somos um país avançado, devíamos dizer, para sermos mais rigorosos, que não somos um país tão avançado como devíamos ser. Não se trata aqui de uma mera competição, não se trata de ganhar uma medalha como nos Jogos Olímpicos. De facto, não é coincidência que os países mais avançados na ciência sejam também os países mais ricos, é algo que faz sentido. Não será uma relação directa e imediata, mas as pessoas que geram mais riqueza são também as detentoras de maior conhecimento. Se quisermos tomar o caminho adequado para nos tornamos mais ricos temos de, necessariamente, tomar o caminho para nos tornarmos mais sábios.FR- Devido a esse baixo nível de desenvolvimento comparado, há cientistas que se auto-limitam por escolherem trabalhar em Portugal?CF- A questão de trabalhar em Portugal é uma falsa questão porque em ciência não há fronteiras. Por exemplo, na física o objecto de estudo é todo o Universo, e este é único, habitado por todos, pelo que a física é a mesma para um chinês ou para um americano ou para um português. A ciência é um trabalho internacional: não há ciência portuguesa, mas sim ciência feita por portugueses ou ciência feita em Portugal. Como é evidente sendo a ciência feita em conjunto em todo o mundo, uma das molas da investigação é a circulação de pessoas. As pessoas têm de circular, é a forma que temos para evitar erros, haver uma comunicação permanente de resultados. Não havendo fronteiras físicas, há pessoas que saem e que entram do país. Contudo tenho a impressão que esse saldo nos tem sido positivo nos últimos tempos. Houve um tempo que para fazer ciência se tinha de emigrar e ficar lá por fora, mas, hoje em dia, a situação é bem diferente. Há evidentemente uma questão de mercado e alguns dos profissionais com maiores capacidades são naturalmente chamados para trabalhar nos países mais desenvolvidos a nível científico. Também é importante perceber que a ciência feita aqui nos é mais relevante, porque nos vai chegar mais depressa e se pode tornar mais rapidamente em riqueza. Nesse ponto de vista, todo o estímulo que puder ser dado para manter cientistas aqui será uma maneira de permitir uma mais fácil comunicação entre criação científica e bem-estar material.FR- Falando de mercado, qual pensa ser o papel que os privados devem ter na investigação científica?CF- Essa é uma questão interessante, porque um dos progressos que fizemos nos últimos tempos foi o aumento de empresas privadas a apostar na investigação, ainda que a percentagem de participação dos priovados no investimento em ciência ainda seja baixa, comparando com os países mais desenvolvidos. Nesses países, uma parte importante de investimento é público, mas há outra parte ainda mais importante de investimento privado. Essa parte pode e deve crescer mais entre nós. Um dos meios para o desenvolvimento passa pela percepção das empresas privadas de que apostar na investigação é algo lucrativo para elas. O problema, desde logo, é que algumas das empresas que trabalham entre nós são multinacionais, o que significa que o controlo e a investigação não estão aqui. Quanto às tão faladas Pequenas e Médias Empresas, muitas delas têm a ver com a ciência e tecnologia, mas a sua preocupação, e isso é muito típico dos empresários portugueses, é a procura do lucro imediato. Uma forma para tornar uma empresa sustentável e lucrativa a longo prazo é investir na investigação científica. Para isso, tem de se abdicar de pequenos lucros imediatos, em favor do futuro, o que é uma questão de mudança de mentalidade. É preciso saber planear e investir, distinguindo o curto e longo prazo, pois uma solução para o curto prazo pode não ser a melhor opção para o longo prazo. Em geral, não é.
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January 5 2010, 1:45am | Comments »
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Cérebros, mulheres giras e cerveja barata
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/cerebros-mulheres-giras-e-cerveja.html
Artigo de opinião de David Marçal, publicado no "Público" de hoje:Segundo um artigo recente publicado noutro jornal, os motivos apontados por dez investigadores estrangeiros para trabalharem em Portugal são a praia, a comida, as mulheres giras e a cerveja barata. E, de acordo com vários relatórios de organizações internacionais, Portugal é também o país europeu que mais exporta recursos humanos qualificados, o que faz supor que os portugueses só dão o devido valor a estas coisas quando se vêem a apanhar chuva na pinha e a pagar cinco euros por uma pint nalgum sítio onde as suas competências sejam valorizadas.Que prevê o programa do actual Governo para a ciência? Cerveja grátis para investigadores? Não. O Governo propõe-se "a renovar e reforçar o Compromisso com a Ciência". Define metas quantitativas (aumentar o número de doutorados, patentes, o investimento público e privado em investigação), faz referência à necessidade de Portugal integrar as redes internacionais de conhecimento e de grandes infra-estruturas científicas. Promete ainda melhorar as condições fiscais para quem contratar doutorados, medida que não é novidade mas que me inspira alguma preocupação: a ideia de que a contratação de doutores pelas empresas tem que ser apoiada é um pouco como um médico que receita morfina: temos que estar mesmo muito mal. Mas, sem brincadeiras, a proposta que me parece mais interessante é esta:"Será ainda garantido, a todos os investigadores doutorados, um regime de protecção social idêntico ao dos restantes trabalhadores, incluindo os actuais bolseiros, assegurando-se, ainda, o cumprimento integral, em Portugal, das recomendações europeias relativas às carreiras dos investigadores e às suas condições de mobilidade."Esperemos que cumpra rapidamente. É uma vergonha que tantos investigadores estejam abrangidos pelo Seguro Social Voluntário, o mesmo sistema de protecção social das donas de casa, e não pela segurança social igual para todos. Isto na prática equivale a prestações para a Segurança Social pelo valor do salário mínimo (com as devidas consequências no valor das prestações em caso de necessidade e na reforma) e ausência de subsídio de desemprego. Os bolseiros são uma fatia de leão, tanto em número como em importância para o sistema científico nacional. O que aconteceria aos grupos de investigação que ganham prémios e fazem notícias nos jornais se dispensassem os bolseiros? Perguntem-lhes.É válida a meta apresentada pelo Governo de aumentar o número de investigadores. Mas esperemos que isso não continue a ser feito à custa da precariedade dos bolseiros. Sai muito mais em conta um bolseiro de investigação que ganha uma miséria (as bolsas não são actualizadas desde 2002, o que representa uma perda de 18% do poder de compra face à inflação acumulada), que recebe apenas 12 meses por ano, que custa 83,84? em segurança social por mês (independentemente do valor da bolsa) e que não dá chatices com subsídio de desemprego. Este tem sido o milagre da multiplicação de cérebros.Registo como positivo o programa que na anterior legislatura permitiu a contratação de 1000 investigadores doutorados para institutos e universidades públicas. Os contratos de trabalho devem tendencialmente substituir as bolsas, pelo menos no caso dos investigadores doutorados, por isso esperemos (tal como consta do programa do Governo) que continue. Mas isto não invalida que as condições dos bolseiros não tenham que melhorar. Senão, perpetua-se uma espécie de sistema de castas, em que alguns felizardos conseguem saltar para o outro lado, assemelhando-se a carreira de investigação em Portugal ao filme Slumdog Millionaire.Não ignoro que Portugal é um país que tem um PIB per capita muito inferior ao de outros países europeus e que não poderá de um momento para o outro oferecer aos investigadores as mesmas condições, pelo que teremos que continuar a contar com a ajuda do clima, da gastronomia, do sex appeal dos portugueses e da cerveja barata para fixar cérebros. Mas integrar os bolseiros no Regime Geral de Segurança Social (e julgo que deveriam ser todos e não apenas os doutorados) é o mínimo. Esperemos que isto aconteça em breve. E que a crise, o salvamento do sistema financeiro irresponsável, o défice ou qualquer outra perna de pau não sirva de desculpa para protelar indefinidamente esta medida.
December 22 2009, 11:15am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Celebrar o Natal com pinguins no Museu da Ciência
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/celebrar-o-natal-com-pinguins-no-museu.html
Recebemos esta informação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, que passamos a divulgar.Este Natal as férias no Chimico são passadas a conversar e estudar pinguins com o biólogo português que mais tempo passou entre eles. José Xavier realizou varias expedições à Antártica, tendo regressado recentemente da mais longa de todas: uma permanência de 9 meses entre albatrozes e pinguins.Sabes o que está a acontecer ao nosso planeta sempre que o buraco de ozono aumenta? Estas FÉRIAS NO CHIMICO convidamos-te para uma viagem até à Antárctica para poderes conhecer como o comportamento dos pinguins e albatrozes está a mudar devido às alterações climáticas.No dia 22 de Dezembro, o Museu da Ciência vai receber José Xavier, um jovem investigador que se apaixonou por esta região do planeta e que estará no museu para te contar o que tem estudado nestes últimos anos. Sabe mais sobre o seu trabalho em cientistapolarjxavier.blogspot.com22, 23, 29, 30 e 31 de Dezembro10H00 | 13H00 (5-7 anos)14H30 | 17H30 (8-12 anos)Para mais informações consultar a página do Museu da Ciência (www.museudaciencia.org) ou directamente em:http://www.museudaciencia.pt/index.php?iAction=Actividades&iArea=4&iId=155&iAreaFirstAccess=1#iItem_155
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December 19 2009, 2:57pm | Comments »





