Já tínhamos saudades. Regressa a secção de "Humor Científico" do suplemento humorístico do jornal "Público", o "Inimigo Público", da responsabilidade de David Marçal:O sector da astrologia enfrenta problemas de penetração em certas camadas cépticas da sociedade, que ficam assim privadas dos benefícios dos serviços astrológicos. Para que essa minoria infeliz possa beneficiar da astrologia, o Inimigo Público inaugura a secção de astrologia científica, numa perspectiva da serviço público.Nativo de Salmonella, ascendente de bacilo de KochCuidado com a alimentação. Os nativos de Salmonella devem evitar tudo é que lacticínios, ovos, alimentos que já estiveram no caixote do lixo, a companhia de animais à refeição e brincar com excrementos. Evite aspergir perdigotos para cima das pessoas de quem gosta.Nativo de Staphylococcus aureus multi-resistente, ascendente bosão de HiggsOs hospitais são sítios democráticos, se não tiver uma doença à priori pode facilmente contrair uma infecção de uma bactéria multi-resistente a antibióticos, que lhe dará direito a uma senha verde na triagem. Tem tendência para ficar disperso em hipóteses e conjecturas por causa do seu ascendente, mas atenção aos buracos negros no chão, são tampas de esgoto abertas.Nativo de ADN, ascendente Yersinia pestisMais do que ficar obcecado com a sua identidade e potencial inato, com o seu ascendente peste bubónica preocupe-se antes em afastar-se de ratos e pulgasDavid Marçal
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HUMOR: ASTROLOGIA CIENTÍFICA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/astrologia-cientifica.html
March 12 2009, 4:39pm | Comments »
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"O ESPAÇO-TEMPO NÃO EXISTE"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/o-espaco-tempo-nao-existe.html
Este é um exemplo do teor de algumas mensagens que recebo de vez em quando:"Por favor, Dr Fiolhais, veja os anexos onde provo que o espaço-tempo não existe - é um erro. Eu escrevi uma nova relatividade sem espaço-tempo que funciona perfeitamente e é muito mais simples. Pode-me dar uma opinião?"Venho por este meio pedir o favor de não me comunicarem descobertas científicas, mesmo que sejam muito importantes. Tais descobertas devem antes ser enviadas, sob forma adequada, às revistas científicas especializadas.
March 3 2009, 12:05pm | Comments »
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O português nas ciências da educação
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/o-portugues-nas-ciencias-da-educacao.html
A propósito da polémica sobre a língua portuguesa entre João Boavida e Desidério Murcho, chamo a atenção para o facto de a motivação do primeiro parecer residir simplesmente na sua discordância da classificação atribuída por comités internacionais de avaliadores nomeados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia a alguns centros de investigação em ciências de educação.Eu não sou dessa área e por essa e por outras razões não me pronuncio sobre os pareceres dos comités de avaliação. Mas parece-me que a promoção activa da internacionalização da actividade científica portuguesa em todas as áreas, incluindo as ciências da educação, é extremamente salutar. Posso criticar e critico o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em muita coisa(ainda recentemente me pronunciei contra o estrangulamento financeiro das universidades que conduziu, por exemplo, ao incrível pingar de água na sala de leitura da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, sem haver meios de poder fazer uma remodelação decente do velho edifício), mas não op critico por isso: julgo que a comunidade das ciências da educação portuguesa, uma área pela qual me tenho interessado, publica demasiado em português, o que configura uma situação de endogamia que se me afigura contraprudecente e a prazo insustentável. E é tanto mais insustentável quanto as grandes questões do ensino da maior parte das matérias são essencialmente as mesmas em qualquer parte do mundo, estando escrita em inglês a maior parte da literatura sobre elas. Quando se trabalha em circuito fechado e se publica em revistas próprias ou do vizinho do lado, numa língua que a comunidade científica internacional não entende, corre-se maior risco de repetir o que outrem já disse e de errar sem se poder ser contraditado.Receio até que num país pequeno e com uma comunidade científica pequena em certas áreas, algumas ideias resistam mais facilmente à crítica dos pares do que num ambiente internacional, aberto e altamente competitivo. Só para dar um exemplo: têm sido recentemente publicadas em revistas internacionais várias críticas bem fundamentadas (baseadas em estudos empíricos) ao chamado ensino não directivo ou ensino por descoberta. Mas raramente encontro em revistas portuguesas de pedagogia, pelo menos nas que costumo ver, críticas a esse tipo de doutrinas, doutrinas que encontram ampla consagração em textos oficiais do nosso Ministério da Educação e que não serão alheias aos pobres resultados obtidos pelos nossos alunos em confrontos internacionais. Fico com a ideia, porventura injusta, que, se quiser saber o que hoje em dia se passa de mais avançado em ciências de educação, tenho mesmo de me valer dos meus, ainda que parcos, conhecimentos de inglês.Portanto, eu que muito prezo a minha língua-mãe, que é de resto a única onde me consigo exprimir sem dar muitos erros, e que leio regularmente com bastante gosto as boas prosas que o meu colega João Boavida escreve nessa língua, penso que a comunidade nacional de ciências de educação e afinal todos nós ganharíamos se se passasse a publicar mais em revistas e livros da especialidade que sejam lidos à escala internacional. E se se procurasse publicar mais em revistas e livros de circulação global com avaliadores mais exigentes. Não tenho nada contra que se publique em revistas e livros nacionais, mas porque não tentar que todos ou a maioria dos artigos sejam escritos numa língua franca, neste caso o inglês? Mesmo que as revistas sejam editadas aqui, a afixação dos respectivos conteúdos na Internet facilitaria a livre circulação pelo mundo e, evidentemente, aumentaria a probabilidade de crítica. Eu posso escrever artigos de ensino e divulgação de física em português, mas não ganharia nada, absolutamente nada, em escrever artigos científicos de física em português. Tenho hoje de o fazer em inglês e não me queixo. Sim, percebo que nas ciências humanas, em particular nalgumas ciências humanas, seja um bocadinho diferente. Mas porque é que há-de ser tão diferente?A menos que se pense que certos conteúdos científicos só fazem sentido em certas línguas, um argumento que me parece carecer de demonstração. O austríaco Erwin Schroedinger, um dos criadores da teoria quântica, queixou-se um dia amargamente a um colega de um aluno estrangeiro de doutoramente que orientava: "Como é que ele vai aprender mecânica quântica se nem sequer sabe alemão?". A origem germânica da teoria quântica ainda hoje transparece em palavras como "eigenvalues", valores próprios, que pertencem ao jargão técnico em inglês - o prefixo "eigen" é alemão e não inglês. Pode-se aprender teoria quântica em qualquer língua culta, para adoptar a expressão do Desidério (ao contrário dele, acho que o português é uma língua culta, embora possa e deva ser mais cultivada). Contudo, se se quiser aplicar essa teoria de um modo que possa ser verificado e eventualmente refutado, ou se se quiser rebater essa teoria propondo outra em sua substituição, tem de se escrever hoje em inglês tal como no tempo de Schoedinger se tinha de escrever em alemão...
February 20 2009, 10:31am | Comments »
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O PORTUGUÊS, LÍNGUA DE CIÊNCIA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/o-portugues-lingua-de-ciencia.html
Sobre o "português, língua de ciência", lembra-se que o Instituto Camões tem no seu sítio (aqui) um artigo, em pdf, com esse preciso título, da autoria de Carlos Fiolhais e Décio Ruivo Martins, que saiu originalmente neste blogue.
February 17 2009, 7:55am | Comments »
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Como se vê a questão da língua do lado das Ciências?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/como-se-ve-questao-da-lingua-do-lado.html
Sobre a questão da língua e da ciência, vem mesmo a propósito este texto de João Filipe Queiró, Professor no Departamento de Matemática, na Universidade de Coimbra, que corresponde a uma palestra palestra apresentada em 7 de Maio de 2007 na Conferência Internacional sobre o Ensino do Português organizada por Carlos Reis no Centro Cultural de Belém.Em Setembro de 1985 realizou-se na Universidade de Coimbra o VII Congresso do Grupo de Matemáticos de Expressão Latina. Como o nome sugere, este Grupo pretendia enquadrar matemáticos que se exprimissem em línguas latinas, nomeadamente em francês. Numa das sessões especializadas, o programa anunciava uma comunicação em… latim. Com a sala cheia, a comunicação foi apresentada, e no fim houve mesmo uma pergunta da assistência também em latim. Foi um momento raro de ironia, que ainda hoje recordo com gosto (o texto da comunicação foi enviado para as actas do congresso [1]). Este acabou por ser o último congresso do G.M.E.L., e foi a última tentativa de que tive conhecimento de uma política de afirmação de uma língua alternativa ao inglês no campo da Ciência internacional.Hoje o inglês é sem discussão a língua de comunicação universal, e portanto é-o também no campo da Ciência. A razão é a óbvia, e está à vista de todos: a predominância dos EUA em todos os planos – económico, comercial, científico, na cultura popular de massas (cinema, música, informática, Internet, o chamado soft power), no próprio vigor da projecção e circulação de ideias [2].Quem quer ser ouvido internacionalmente na área das Ciências só pode hoje exprimir-se numa língua. Em Matemática, Física, Química, Biologia – as áreas do conhecimento menos ligadas à contingência cultural, geográfica ou histórica – todos os artigos de investigação são em inglês, e mesmo a comunicação de portugueses com franceses, italianos, e até espanhóis, se faz em inglês.Nessas áreas, é frequente encontrar aulas em inglês no 2º ciclo (de Bolonha), por exemplo nos países nórdicos. Entre nós há cada vez mais teses de doutoramento em inglês, sobretudo a pensar em membros estrangeiros do júri.Apesar de tudo isto, a língua portuguesa está viva nas áreas científicas. O português está vivo em Ciência porque se faz Ciência em Portugal, no ensino e na investigação.As línguas criam termos nas áreas em que as culturas respectivas estão activas. Se numa área do conhecimento uma língua é apenas uma língua de tradução, essa área acabará por desaparecer nessa língua. Em português existem as palavras para ensinar e investigar os temas científicos [3], e há uma actividade consciente e continuada – formal e informal – de estabelecimento de uma terminologia científica portuguesa completa e actualizada [4]. Uma das maneiras de concretizar essa actividade é através da publicação de livros de referência (com efeito reforçado quando esses livros têm um percurso no Brasil). Esta situação é análoga à que se observa nos países europeus que não são de expressão inglesa [5].A vitalidade de uma língua é a vitalidade da cultura respectiva. E uma cultura pode sempre render-se, ou achar que há assuntos que são só para outros [6]. A subserviência linguística – tão clara em certos “fazedores de opinião” da nossa praça – pode traduzir subserviência mental.O português teve também um papel como língua de conhecimento na História. Os séculos XV e XVI, em particular, foram momentos singulares de conhecimento do mundo, em que Portugal produziu língua que outros importaram. Um exemplo notável é o da ciência náutica, mas mesmo Pedro Nunes (1502-1578), cuja obra teve real impacto na Europa, publicou muito em latim. Em séculos posteriores, temos vários casos de importantes cientistas cuja obra teve repercussão internacional escassa – ou atrasada – por terem divulgado os seus trabalhos em português. Como exemplos, destaco os matemáticos José Anastácio da Cunha (1744-1787), José Monteiro da Rocha (1734-1819) e Daniel da Silva (1814-1878). Com Gomes Teixeira (1851-1933) ganha-se maior consciência da importância da publicação nas línguas de comunicação internacional. É bastante óbvio que um uso correcto e proficiente da língua é essencial para a boa aprendizagem de qualquer área, e em particular da Matemática: em Matemática o raciocínio é fundamental, e sem linguagem correcta não há raciocínio.Sem nenhuma originalidade, conjecturo que o problema do português é uma das principais dificuldades da Escola. Muitas vezes se fala na Matemática como a disciplina mais problemática da Escola portuguesa, mas esse lugar parece-me ser ocupado pelo Português, porque tudo depende do domínio da língua. Suspeito de que muitas dificuldades na Matemática – em todos os níveis, até no ensino superior –, e em outras disciplinas, são de facto dificuldades de linguagem, de compreensão e de expressão [7].Os problemas com a leitura e a literacia existem também noutros países. No Reino Unido, por exemplo, existe há anos uma forte polémica sobre a melhor maneira de ensinar a ler, e sobre estratégias para melhorar a literacia [8].Emerge assim a seguinte questão: como levar os jovens portugueses a ler? O gosto parece ser importante, assim como uma não excessiva insistência em regras formais, sobretudo se essa insistência for prematura. Uma boa maneira de reforçar a competência numa língua é ler bons textos nessa língua, investindo na absorção das regras pelo convívio com elas.Se o gosto é importante, como levar os jovens a gostar de ler (e, já agora, de escrever)? Parece-me residir aí um problema de fundo da sociedade portuguesa. De novo sem originalidade: a chave está nos primeiros anos da escola, nas prioridades que aí são adoptadas, na qualidade – e no gosto pela língua! – de quem ensina.Para terminar, e em resumo: sem linguagem não há conhecimento, sem uma boa qualidade do português não há conhecimento nem ensino em Portugal [9].NOTAS:[1]Rodolfo Salvi, De existentia solutionum debilium periodicarum quoad systema Navier-Stokes in dominio cum finibus pendentibus periodice a tempore, Actas do VII Congresso do Grupo de Matemáticos de Expressão Latina, vol. II, 185-188, Coimbra, 1985.[2] O intelectual francês Bernard Henri Lévy, em entrevista recente sobre os EUA, disse mesmo, entusiasticamente: “Não é que tenham melhores intelectuais, mas possuem melhores universidades e uma discussão pública com choque de opiniões que já não existe em França, ou em Portugal, por exemplo. Há qualquer coisa de esfíngico nas nossas posições enquanto na América dá-se uma intensa circulação de ideias e opiniões. As teses mais importantes dos últimos anos nasceram lá.” (Diário de Notícias, 29 de Abril de 2007)[3] Mau seria que um país em que se fala a sexta ou sétima língua do mundo não fosse capaz de gerar tais terminologias.[4] Uma curiosa excepção na actualidade encontra-se no jargão económico-financeiro, em que se observa um exemplo de imposição de uma língua em função do dinamismo da respectiva cultura numa área específica (basta olhar para os jornais, cheios de expressões como private equity, debt swaps, hedge funds).[5] No âmbito da União Europeia, há uma base de dados terminológica inter-institucional (http://iate.europa.eu/), que permite procurar correspondentes dos mais variados termos entre as 23 línguas da União.[6] Que inventen ellos, disse uma vez certo famoso filósofo espanhol.[7] Outra dificuldade central é o ambiente social em que a Escola está imersa, e respectivas consequências no plano da indisciplina, do desinteresse pelo conhecimento, etc.[8] Problemas e insucessos na Estratégia Nacional para a Literacia no Reino Unido levaram à demissão da Secretária (isto é, Ministra) da Educação Estelle Morris em 2002.[9] Estou grato a António Ribeiro Gomes (Universidade de Coimbra), F. R. Dias Agudo (Academia das Ciências) e Renato Correia (Parlamento Europeu) por algumas informações que amavelmente me disponibilizaram.João Filipe Queiró
February 17 2009, 7:32am | Comments »
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Divulgar a ciência - uma entrevista
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/divulgar-ciencia-uma-entrevista.html
Fui entrevistado para o último número do jornal 'A Cabra', um excelente jornal universitário de estudantes da Universidade de Coimbra. Os principais temas abordados referem-se à minha relação com a ciência e com a divulgação científica. Aqui fica a reportagem."No mês em que tomou posse a Comissão Científica para o programa da segunda fase do Museu da Ciência da UC, fomos conversar com o directorQuando começou o interesse pela ciência?A partir de certa idade, creio que na minha adolescência, comecei a interessar-me muito por perceber porque é que as coisas eram como eram. Porque é que o Universo onde vivíamos tinha as características que tinha. As respostas que comecei a encontrar foram aparecendo na minha formação. Na altura deliciava-me com os meus professores e isso começou a interessar-me muito. Fiz outras leituras também, sobre o religioso, o esotérico, mas achei que as respostas que tinham consistência eram as respostas que a ciência procurava.Pensa que o interesse pela ciência tem vindo a aumentar?Em Portugal há determinados estratos da sociedade que têm mais interesse pela ciência. Há estratos que estão profundamente alheados da ciência e de outras coisas. Penso que é uma batalha que nós não conseguimos vencer e que tem a ver com o interesse pela cultura de um modo geral. A seguir ao 25 de Abril partimos de uma situação calamitosa, em que tínhamos uma percentagem elevadíssima de analfabetismo. O país era dos mais atrasados da Europa, e caminhou-se muito para ultrapassar essa situação. Mas acho que ainda falta ganhar as pessoas. Não tem só a ver com a ciência, mas também tem porque a ciência é, por natureza, uma actividade intelectual. Mesmo o acompanhamento e interesse que temos sobre a realidade pressupõe que as pessoas se interessam pelo que se passa à volta delas. É isso que acho que é o meu trabalho de todos os dias. Espaços como o museu da ciência foram estruturados precisamente com o objectivo de fazer com que o interesse da sociedade pela cultura e, em particular, pela cultura científica, cresça.Licenciou-se em Biologia mas também se interessa bastante por Antropologia. Porquê?Tem a ver um pouco com contingências do próprio percurso académico. Na altura em que me licenciei havia no departamento de Antropologia interesse por pessoas que quisessem trabalhar em aspectos biológicos do comportamento, que era exactamente o que queria. Concorri para o departamento nessa altura e acabei por ir desenvolvendo a minha actividade lá e por manter uma relação forte com as várias pessoas que fazem investigação na área da Antropologia.Qual foi a investigação que mais o desafiou?A resposta trivial é “a próxima”. É sempre a próxima que será o maior desafio, porque os outros teriam sido já vencidos e ultrapassados. Uma parte do desafio ou da valorização que damos ao desafio está nos resultados. Quando desenhamos uma experiência e conseguimos realizar um teste que depois produziu um resultado observável claramente diferenciado, é muito recompensador. Mas os desafios estão sempre continuadamente a surgir. Fazemos uma experiência, procuramos obter um conjunto de dados e, subitamente, os resultados são completamente ao arrepio do que estávamos à espera, isso obriga-nos a reflectir sobre o que correu mal. Fizemos mal algum procedimento? Ou descobrimos um fenómeno novo? E isso é um desafio imediato.Tem alguma investigação que sempre tenha pensado em fazer e que nunca fez?Sim. Há investigações que gostava de ter feito, mas não tive condições materiais para as poder realizar. Tenho trabalhado muito com aspectos relacionados com a selecção sexual; a escolha do par em função de sinais que normalmente evoluem por causa de características sexualmente seleccionadas. A espécie de aves com que temos trabalhado tem uma estrutura de canto que é uma produção compacta, com uma grande quantidade de sons por unidade de tempo. Gostava de poder manipular o processo de desenvolvimento desses animais para ver como é que as minhas manipulações iam alterar a estrutura do canto e, depois, tentar ver em termos de estruturas neurológicas o que está por trás disso.O que significa para si dar aulas na universidade onde estudou?Não é importante para mim dar aulas na universidade onde estudei. Mas é muito importante, enquanto cientista, dar aulas. Sempre tive imenso gosto em ensinar e tentar transmitir conhecimentos, procurando entusiasmar os alunos da mesma forma que aqueles conhecimentos me entusiasmaram a mim. Procuro dizer o quão fascinante aqueles conhecimentos podem ser, não para que eles sigam o que eu faço, mas porque acho que é muito interessante. Para mim, procurar conhecer implica desejar transmitir esses conhecimentos. E assumo isso como uma responsabilidade.Qual foi o maior desafio que encontrou no museu da ciência?Foi fazê-lo. Estou no projecto do museu desde o início, mesmo antes de ser projecto. Quando começaram a surgir ideias da necessidade de procurar agregar os vários museus para criar uma estrutura mais moderna, eu abri-me a estas ideias e comecei a fazer sugestões. Depois envolveram-me e não pude dizer que não. Isso foi de facto um grande desafio, porque não tinha a noção da complexidade do processo da construção do museu, com a enorme quantidade de especialidades que estão envolvidas e da necessidade de conseguir compatibilizá-las e de fazer com que funcionem.E quanto ao museu digital?Ainda está numa fase embrionária. Para já é o maior museu digital de instrumentos científicos em Portugal, porque a universidade tem uma colecção muito grande e não é comparável com outra instituição. Mas acho que o museu digital vai dar um salto quando associarmos a esta disponibilização das colecções uma outra forma de as visitar, através da construção de uma espécie de passeio virtual e, em particular, de histórias sobre cada objecto.Participa com outros professores num blogue que também fala de ciência…Muitos dos ‘posts’ que se fazem no blogue são sobre o lado social da ciência, as implicações que tem na sociedade. Procuramos esclarecer e também fazer um bocadinho de filosofia da ciência. Ajudar as pessoas a perceber que a ciência é uma forma de colocar perguntas sobre a realidade. A ciência casa muito mal com ditadura e com regimes onde não pode haver liberdade de pensamento e liberdade de expressão. Por isso, achámos que havia todas as condições para que um grupo de pessoas com formações diversas pudesse manter ali um espaço de diálogo e informação.
February 17 2009, 2:20am | Comments »
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Robôs, Guerra e o Futuro
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/robos-guerra-e-o-futuro.html
Novo post convidado de Norberto Pires:Estamos perto de uma revolução tecnológica que terá o nome de “Revolução da Robótica”. Estamos perto, muito perto, de ter robôs a partilhar o nosso dia-a-dia nas tarefas domésticas, como companhia, como colegas de trabalho, como assistentes de todo o tipo de actividades. É fascinante o que pode acontecer, e de facto esta revolução que se aproxima é bem a demonstração do génio e da capacidade do homem em fazer ciência e reinventar o seu futuro.Como é que esta história fascinante começou?Por incrível que pareça a história da robótica funde-se com a história da humanidade. A robótica não é uma invenção do século XX, nem do nosso milénio sequer. Fez parte do tempo e das reflexões de muitos dos melhores pensadores da nossa história comum: passou pela Grécia antiga, pelos árabes, andou com Leonardo Da Vinci, Nicola Tesla e muitos outros. Quando teve as condições próprias desenvolveu-se e está prestes a mudar a forma como vivemos.Veja aqui um texto sobre a evolução da Robótica até aos dias de hoje:http://robotics.dem.uc.pt/norberto/nova/pdfs/gregosxxi.pdfA robótica moderna tem cerca de 50 anos. Teve o seu desenvolvimento potenciado pelo aparecimento do transístor e o desenvolvimento de componentes em semiconductor, e com eles dos computadores, dos sensores e actuadores, da informática e da capacidade de projectar e simular mecanismos complexos. Também beneficiou muito do I&D em novos materiais e soluções estruturais robustas e mais leves.Uma boa revisão do estado actual e perspectivas futuras da robótica é apresentada no livro “Handbook of Robotics”, editado em 2008 pela prestigiada editora Springer (a maior editora mundial de ciência e tecnologia). Esse livro recebeu agora dois prémios PROSE (em Physical Sciences and Mathematics, e em Engineering Technologies), organizados pela Associação Americana de Editores, reconhecendo o mérito dos sucessos obtidos pela comunidade científica mundial na área ao longo destes 50 anos. Os editores do livro (Bruno Siciliano, presidente do IEEE Robotics and Automation Society e professor na Universidade de Nápoles, e Oussama Kathib, professor na Universidade de Stanford) reuniram 64 autores de todo o mundo (um português) com o objectivo de abranger todas as áreas da robótica.Isto são coisas positivas e que nos deixam de olhos postos no futuro.Mas, existe um lado negro e até assustador. Num livro recente (Wired to War), Peter Singer, Director da 21st Century Defense Initiative, lança um alerta sobre a possibilidade de usar a tecnologia robótica em aplicações militares letais e cruéis. Na verdade, isso também está próximo de acontecer. Robôs usados como soldados sem escrúpulos e letais, que fazem o trabalho sujo em cenários de guerra complicados, ou em acções terroristas. Na verdade, um robô não precisa de uma promessa de uma vida eterna com 72 virgens para fazer atentados ou cumprir uma missão assassina. Basta ser programado para isso ou controlado à distancia. Essa tecnologia robotizada e sem intervenção humana já existe, e é usada pelos militares para missões de alto risco. Quando for capaz de ser autónoma (aquilo que já sabemos fazer em muitas situações), isto é, quando for capaz de analisar o cenário e tomar decisões tendo em conta os objectivos que lhe foram fixados, permitirá construir máquinas temíveis, cruéis, muito eficazes e verdadeiramente assustadoras.Também não me deixam nada orgulhoso os desenvolvimentos de robótica usados para a indústria do sexo. Máquinas parecidas com homens e mulheres que podem ser usadas como parceiro sexual. Funcionam, dizem. E como muitos diriam, têm a vantagem de ter um botão de ON e OFF.Como em tudo na vida, podemos optar pela ciência e por usá-la para melhorar a nossa vida, fazendo justiça à nossa capacidade criativa. Mas também podemos criar situações terríveis que colocam em risco aquilo que somos. Como sempre podemos escolher, e eu sei que escolheremos bem.J. Norberto PiresLinks:Handbook of Robotics, Springer, 2008 (aqui)Wired for War, 2009 (aqui)Humanoid robot (woman): aqui
February 11 2009, 5:10am | Comments »
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COMO OBTER FINANCIAMENTO PARA UM PROJECTO DE INVESTIGAÇÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/como-obter-financiamento-para-um.html
Agora que está prestes a expirar novo prazo para a submissão de projectos de investigação à Fundação para a Ciência e Tecnologia transcrevo uma parte de uma conferência que fiz há anos a convite da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e que visava introduzir a pessoas das ciências da saúde sem grande experiência em investigação nos "segredos" dos projectos de investigação. O que disse, além de se manter actual, aplica-se em geral a outras áreas:(...) Para aumentar as hipóteses de financiamento o investigador responsável deve procurar escrever muito bem o projecto, enunciando claramente os objectivos do trabalho (nomeadamente no caso das ciências médicas, a hipótese que se pretende testar), descrevendo os meios humanos e materiais à disposição ou a adquirir para os alcançar (os avaliadores valorizam naturalmente os meios humanos e materiais já existentes e a contenção nos meios a adquirir) e indicando um orçamento que seja adequado aos fins em causa.Não existe, em português, uma compilação de regras para a escrita de projectos. Mas é útil atender-se às seguintes regras válidas para o National Institut of Health (NIH), o principal organismo de apoio à investigação médica nos EUA:~- “The original how to write a research grant application” (documento do NIH).- Hints for Wiriting Successful NIH grants, Ellen Darrett, Outubro, 1995 (recomendações de um Professor do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Facudade de Medicina da Universidade de Miami).Vale a pena transcrever algumas das recomendações que contam desses documentos, acrescentando alguns comentários que são particularmente aconselhados pela experiência do signatário.- Esteja atentamente aos anúncios de concursos de projectos de investigação, que são normalmente publicados nos meios de comunicação social ou na Internet.- Leia com atenção as instruções do edital e dos formulários. Se puder, consulte propostas de projectos na mesma área que obtiveram sucesso.- Assegure-se que a sua equipa de investigação, muito em particular o seu responsável, é a adequada para conseguir os fins pretendidos. A equipa e o responsável têm de mostrar experiência e competência na área em causa. O respectivo laboratório deve ter as condições adequadas. Junte-se a outras pessoas ou equipas quando houver vantagem nessa sinergia (a colaboração de várias equipas é sempre bem vista no processo de avaliação!).- Escolha um tópico de investigação bem delimitado que seja de interesse e actualidade (em ciência há muitas vezes modas, que gozam dos favores dos avaliadores). A investigação em ciências da saúde é muito dirigida por hipóteses. Formule uma hipótese precisa a ser investigada e assegure-se, consultando a literatura especializada (a Internet pode ser muito útil) ou especialistas (nacionais ou internacionais, que podem depois ser indicados como consultores do projecto), que a hipótese é não só nova como consistente. No campo da medicina uma hipótese deve lançar luz sobre processos biológicos, doenças, tratamentos ou processos de prevenção. Mostre na proposta que conhece a literatura sobre o assunto (indique referências correctas pois nada há de mais arreliador do que não conseguir acesso a um documento por ele estar mal referenciado) e, se for o caso, que conhece, através de contactos pessoais, trabalhos não publicados. Indique dados anteriores, nomeadamente os que originados por trabalhos da equipa, que possam abonar em favor da hipótese escolhida. Indique com pormenor suficiente a metodologia que vai usar para certificar (ou não) a hipótese de base. A experiência no assunto por parte da equipa de investigação ajuda ao êxito na avaliação. Também um bom enquadramento do projecto na instituição de acolhimento (a instituição onde se integra a equipa) assim como na estratégia global da equipa é um ponto favorável.- O título do projecto deve ser breve mas revelador do conteúdo. O resumo do projecto é muito importante. Deve dizer o essencial em poucas palavras, uma vez que esse resumo poderá ser lido por não especialistas. Apresente currículos adequados, embora resumidos, para todos os investigadores envolvidos no projecto e indique qual vai ser o seu envolvimento no projecto (tempo correspondente à participação no projecto e tarefas a executar). O esforço humano deve ser adequado à “ambição” do projecto. Um cronograma do projecto, que elenque a execução das várias tarefas ao longo do tempo, é sempre útil.- Solicite só o financiamento necessário para realizar o projecto. Exageros na solicitação de fundos são normalmente penalizados. O orçamento deve ser devidamente discriminado por rubricas (justifique o máximo que puder, não pensando que certas despesas são óbvias!). Indique outras fontes de financiamento quando as houver, nomeadamente a participação da instituição de acolhimento.- No caso particular da investigação médica ou biomédica há que ter os habituais cuidados com consequências éticas, nomeadamente na experimentação que envolva pessoas ou animais.- Reveja várias vezes a proposta antes de a submeter. Peça a outros para a ler em busca de eventuais erros ou inconsistências. O respeito do prazo limite é fundamental.- Normalmente a avaliação demora algum tempo. Se houver uma defesa da proposta prepare-a com cuidado, procurando convencer a comissão de avaliação da validade do projecto e do seu empenho em o realizar (a auto-confiança, sem assomos de arrogância, costuma revelar-se compensadora!). Se tiver entretanto realizado avanços no campo em causa não hesite em os anunciar, pois isso pode funcionar como um ponto favorável.- Respeite a decisão da comissão avaliadora se ela for negativa. Em geral, só uma pequena parte das propostas submetidas é aprovada. Leia bem a carta que foi recebida contendo a avaliação. Use o seu conteúdo para melhorar a eventual resubmissão da mesma proposta ou para formular outras. O Prof. Darrett é taxativo a este propósito: “If your first application is rejected, read the reviewer's comments carefully. When you first read them you will be sad and angry, so spend a week being angry - write nasty rebuttal letters, but DON'T SEND THEM TO ANYONE - they are for therapy only! Don't call anyone at the funding agency. Then a week later, after you have calmed down somewhat, re-read the critique and your application. Gauge whether or not the reviewers show any enthusiasm for your study - a senior investigator skilled in reading critiques will be helpful for this. (...) Figure out what parts of your application might have confused or misled them.” (..)Recomenda-se a pessoas sem experiência o contacto/parceria com parceiros já activos na investigação em ciências da saúde, uma vez que o “saber de experiência feito” é o melhor saber. Mesmo a pessoas com experiência recomenda-se a colaboração interdisciplinar nomeadamente entre médicos e pessoas das ciências biológicas, bioquímicas ou biofísicas. A interdisciplinaridade é uma das molas propulsionadoras da ciência mais moderna.
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February 4 2009, 2:31am | Comments »
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Darwin na Nature
http://dererummundi.blogspot.com/2009/01/darwin-na-nature.html
Amanhã a BBC estreia um especial da Nature Video protagonizado por David Attenborough, que discute os mais recentes desenvolvimentos científicos que não só confirmam a teoria proposta há 150 anos por Darwin como ditaram a sua própria evolução.British broadcaster Sir David Attenborough presents his views on Charles Darwin, natural selection, and how the Bible has put the natural world in peril in an exclusive interview for Nature Video.To celebrate Darwin's bicentenary Nature is also providing selected content FREE online, including continuously updated news, research and analysis on Darwin's life, his science and his legacy.
January 31 2009, 6:42am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Humor: Guia prático da ciência moderna
http://dererummundi.blogspot.com/2009/01/humor-guia-pratico-da-ciencia-moderna.html
Eis um "Guia Prático da Ciência Moderna" que tem circulado pela Internet: Lei da Distinção das Ciências:1. Se mexer, pertence à BIOLOGIA;2. Se cheirar mal, pertence à QUÍMICA;3. Se não funcionar, pertence à FÍSICA;4. Se ninguém entende, pertence à MATEMÁTICA;5. Se não faz sentido, pertence à ECONOMIA ou à PSICOLOGIA;6. Se mexer, cheirar mal, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido é INFORMÁTICA. Lei da Procura Indirecta:1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa é procurar outra;2. Encontramos sempre o que não estamos a procurar. Lei do Telefone1. Quando te ligam: - se tens caneta, não tens papel; - se tens papel, não tens caneta; - se tens papel e caneta ninguém te liga;2. Quando ligas para um número errado, esse número nunca está ocupado. Parágrafo único: Todo o corpo mergulhado numa banheira ou que se encontre debaixo de um chuveiro faz tocar o telefone. Lei das Unidades de Medida:Se estiver escrito 'Tamanho Único' é porque não serve a ninguém, muito menos a ti. Lei da Gravidade:Se conseguires manter a frieza quando todos à tua volta estão a perder a cabeça, provavelmente é porque não estás a perceber a gravidade da situação. Lei dos Cursos, Provas e Afins:80% da prova final será baseada na única aula a que não foste e no único livro que não leste. Lei da Queda Livre:1. Qualquer esforço para se agarrar um objecto em queda provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente;2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor da carpete. Lei das Filas e dos Engarrafamentos:A fila do lado anda sempre mais rápido. Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida Lei da Relatividade Documentada:Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual de instruções. Lei da Vida:1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada;2. Tudo o que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda. Lei da Atracção de Partículas:Toda a partícula que voa encontra sempre um olho aberto.
January 30 2009, 7:12am | Comments »


