Fernando Pessoa tem sempre algo de novo a dar a cada um de nós. A mim deu-me a "Crónica Decorativa II", incluída no livro que o Pai Natal me deixou "Contos, Fábulas & outras ficções", com organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves (Bonecos Rebeldes, 2008). O autor do poema sobre o "binómio de Newton e a Vénus de Milo" não poderia ser anti-científico, mas aquela crónica inédita (saiu em "O Raio", Lisboa, nº 12, 12/Setembro/1914 a engraçada "Crónica Decorativa 1" (pode ser lida aqui) é dos textos anti-científicos mais bem escritos que conheço. Tal como a "Crónica Decorativa I" foi escrita em 22/Agosto/1914, também para "O Raio", mas não chegou aí a ser publicada por essa revista ter sido extinta.Num misto de humor e absurdo, posto na voz de um narrador conservador e anti-científico, é narrada a segundo ele catastrófica descoberta por um "explorador moderno" de que a "Pérsia realmente existe". Lê-se no texto:"Eu julgava que a Pérsia era apenas o nome especial que se dava à beleza de certos tapetes". E continua:"Se bem que os exploradores modernos sejam, como em geral todos os homens de ciência, susceptíveis de erro mais que os outros homens, disse-me há pouco um jornalista que no facto merece crédito. A ser verdade (eu ainda hesito) resta saber que nome se vai dar de hoje em diante aos tapetes persas? E a poesia persa a propósito - que nova denominação vaio ter?"Nesta altura o leitor quererá saber a sequência. Ei-la:"Serve-me este assunto de tema para expor certas opiniões que há muito tempo uso sobre o modo extraordinariamente intenso como, de há tempo para cá, a ciência grassa e o espírito científico nos ataca. Se daqui a pouco o pólo sul vai também desatar a ser real, não sei a que ponto chegaremos. Breve existirá tudo e não longe o dia, talvez, em que basta sonharmos uma rainha medieval para ela nos entrar, contemporânea e anatomizável, pela porta adentro, depois de bater à realidade da campainha e de se fazer anunciar pela presença beiroa da criada.Afirmou-me um amigo meu, o qual, por culto, me merece um crédito dubitante, que lerem livro de Guyau que um Keats brindara coisas más para a memória de Newton porque ele fizera qualquer cousa como descobrir leis que tinham a ver com os astros. Se ponho certo vago na minha descrição é porque não tenho a mínima ideia do que Newton fez ou descobriu. O facto, agora, é o brinde de Keats. Este brinde contém uma intenção justa. A aplicação é que é péssima. Não fez mal a ninguém descobrir as leis dos astros. Eles sempre foram visíveis. E a sua boa qualidade de serem longínquos, não a tirou a descoberta de Newton, fosse ela qual fosse; e, de mais a mais, essa descoberta, sendo matemática e portanto totalmente com feição de falsa, fez, do mal inevitável, o menos possível".E por aí adiante. Uma delícia!
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"Crónica Decorativa II"
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December 27 2008, 4:36am | Comments »
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Constrói outra ciência porque a tua primeira ciência é agora falsa
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Voltei-me então para mim próprio; e pondo tudo em dúvida, como se até então nada se tivesse dito, comecei a examinar as próprias coisas: é esse o verdadeiro meio de saber. (...)
se tirarmos as coisas que existem em nós, ou originam em nós, então de toda a espécie de entendimento (cognitio) o de maior confiança é o que ocorre por meio dos sentidos, e o de menos confiança é o que ocorre como
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December 25 2008, 4:18am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
CIÊNCIA E FÉ
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O semanário "Expresso" colocou-me algumas perguntas sobre ciência e fé para um trabalho que foi publicado no último número da revista "Única". Aqui estão elas juntamente com as respostas:P- A circunstância de um cientista ter uma fé religiosa de qualquer tipo, isto é, ser crente, condiciona-o no seu trabalho? Limita-o? Tira-lhe objectividade, discernimento ou capacidade de análise?R- Há, como sempre houve, muitos cientistas crentes e há também muitos cientistas não crentes. De entre os primeiros é justo destacar o italiano Galileu Galilei e o inglês Charles Darwin, cujas obras são motivo para comemorações à escala mundial em 2009, que protagonizaram episódios de conflito entre ciência e religião (Darwin chegou a estudar para pastor anglicano, foi uma pessoa religiosa durante largos anos e só no fim da sua vida se declarou agnóstico). Mas pode também referir-se o inglês Isaac Newton e o checo Gregor Mendel (este último era mesmo monge agostiniano). Nos cientistas ateus ou agnósticos, o caso do norte-americano e suíço Albert Einstein é algo especial pois ele, à maneira do holandês Bento Espinosa, substituía Deus pela “harmonia cósmica”. Podem também incluir-se nesse grupo os norte-americanos Richard Feynman e Carl Sagan, embora estes tenham sempre respeitado e até enaltecido o sentido do religioso (o segundo procurou até bastante a aproximação com líderes religiosos, nomeadamente em defesa do nosso planeta). Alguns cientistas deste segundo grupo têm vindo a ter intervenções bastante mediatizadas nos últimos tempos em favor do ateísmo: por exemplo, o biólogo inglês Richard Dawkins, que tem empreendido uma espécie de “cruzada” contra a religião, e o físico norte-americano, galardoado com o Nobel da Física tal como Einstein e Feynman, Steven Weinberg, talvez menos prosélito do que Dawkins mas também com posições ateístas bastante claras. Não conheço estatísticas sobre a crença dos cientistas, mas, sendo estes pessoas comuns antes de serem cientistas, é natural que neles se encontrem os mesmos fenómenos de crença ou de descrença que se encontram na sociedade em geral. Em particular, é natural que se encontrem nos cientistas as mesmas afiliações religiosas que se encontram na sociedade em que vivem (um outro Prémio Nobel da Física, o físico paquistanês Abdul Salam, era muçulmano). Como a sociedade moderna é mais laica e como a “confissão” pública de descrença é mais socialmente aceitável, é também natural que cada vez mais se ouçam vozes de cientistas que expressam dúvidas sobre Deus ou mesmo que afirmam as suas certezas individuais em desfavor de Deus.Dito isto, fica claro que se pode ser cientista e ter ao mesmo tempo uma fé religiosa. Muitos exemplos da história da ciência e da actualidade mostram que é pacífica a coexistência de ciência e religião. De uma forma apenas metafórica, direi que ocupam partes do cérebro diferentes. Não penso, por isso, que a crença religiosa de um cientista o limite, que lhe retire objectividade na ciência que faz. Um cientista sabe que quando está num laboratório, não está numa igreja e que quando está numa igreja não está num laboratório. Claro que haverá sempre excepções que confirmarão esta regra...P- Qual é a diferença fundamental entre uma teoria científica e uma crença religiosa?R- Ciência e religião devem ser vistas como maneiras diferentes, muito diferentes até em vários aspectos, de encarar o mundo, que correspondem a necessidades humanas diferentes. Apesar das diferenças, julgo que elas fazem bem em respeitar-se mutuamente. A ciência é a descoberta do mundo, recorrendo à racionalidade e à experimentação. Está pronta a corrigir os erros se houver suficiente evidência para eles, conseguindo assim progredir ao longo do tempo. A religião é um outro tipo de visão do mundo, que não assenta na racionalidade nem na experimentação. Assenta em geral em dogmas que têm uma tradição histórica profunda e que não podem ou que muito dificilmente podem ser revistos. Quando um cientista é dogmático, não está a ser científico. E quando um religioso quer rever continuamente as verdades da sua religião, não está a ser religioso.Nos casos de Galileu e Darwin houve "choque" entre descobertas científicas e dogmas estabelecidos relativos ao lugar da Terra e no Universo e à origem do homem. O caso de Galileu, o autor do método científico, está hoje reconhecidamente ultrapassado, tendo até a Igreja Católica, passados vários séculos, reconhecido o seu erro. Parece até que Galileu vai ter uma estátua nos jardins do Vaticano. No caso de Darwin, que curiosamente está sepultado na catedral de Westminster, em Londres, o ”choque” chegou até aos dias de hoje, com os criacionistas a combaterem a teoria da evolução por vários meios, principalmente nos Estados Unidos, mas já com preocupantes afloramentos na Europa. No blogue “De Rerum Natura” temos acompanhado esses desenvolvimento não de uma forma neutra, mas tomando partido pela ciência e contra a anti-ciência que o criacionismo representa. De facto, querer como alguns querem que nas aulas de ciência se ensine o criacionismo ao mesmo tempo que o evolucionismo é um absurdo completo pois não se pode ensinar como ciência o que é precisamente o oposto dela. O irracional poderá ocupar o seu lugar, mas não pode ocupar o lugar do racional. Uma tal atitude poderia até ser um atentado contra a democracia, pois alguns autores dessas ideias perseguem ideais teocráticos, que no fundo pretendem a subordinação do Estado a ideologias religiosas.P- Quando se discutem (ou testam, como no LHC) os primeiros instantes do Universo há espaço para a ideia da intervenção divina na criação?R- A ideia de que houve um “Big Bang”, isto é, o início do espaço-tempo, tem uma base lógico-empírica bastante sólida. Neste momento não há sequer uma teoria alternativa que seja minimamente consistente. Portanto, não é uma ideia de base religiosa. O facto de essa ideia moderna coincidir, apenas de uma maneira geral e vaga, com uma ideia bastante antiga da Igreja Católica, é sem dúvida curioso. A este respeito lembro que um dos autores da teoria do “Big Bang” foi o astrofísico belga Georges Lemaître, que era sacerdote católico. E acrescento que vários altos dirigentes religiosos se congratularam com o que chamaram a “base científica” da criação descrita na Bíblia. Mas é óbvio desde o tempo de Galileu que a Bíblia não é um livro de ciência... Os astrofísicos não trabalharam com base na Bíblia para agradar ao Papa. Olham com atenção para o céu com poderosos telescópios, instrumentos muito superiores aos que Galileu usou há quase 400 anos, e são hoje capazes de fazer experiências na Terra que recriam, por pequenos tempos e em pequenos espaços, as condições que terão existido por todo o lado no cosmos primitivo. As suas conclusões, por absoluta falta de informação, nada dizem sobre o que se terá passado antes do “Big Bang” (a pergunta sobre a causa do “Big Bang” é legítima, mas não pode ser respondida pela ciência). Os astrofísicos não podem nem aliás querem provar a existência ou a inexistência de Deus. O astrofísico inglês Stephen Hawking e outros falam, de facto, de Deus, mas trata-se de uma imagem, uma imagem que tem força e impacte... Einstein também falava de Deus sem acreditar em qualquer Deus pessoal. O físico norte-americano Leon Lederman fala de “partícula de Deus” a propósito do procurado bosão de Higgs. Essas imagens podem ser e são muitas vezes perigosas porque dão a entender que há uma mistura entre ciência e religião quando, de facto, não há. Elas mostram apenas que alguns cientistas são uns bons comunicadores...P- A Igreja Católica tem uma longa história de repressão e condicionamento do pensamento científico que remonta, pelo menos, a Galileu? A posição actual é diferente?R- Sim, a Igreja Católica já se penitenciou a propósito do caso Galileu. Há hoje um Observatório Astronómico no Vaticano, a cargo de jesuítas, onde se realiza investigação científica. O próprio Papa tem convocado cientistas e teólogos para alguns encontros sobre ciência e fé. Também não penso que haja tensão actualmente a propósito da evolução, embora possa haver a esse respeito palavras menos felizes de um ou outro membro do clero. Nisto a Igreja Católica distingue-se de algumas igrejas evangélicas, que têm ideias radicais baseadas na Bíblia. Contudo, não se pode dizer que não haja tensão entre a ciência e a Igreja a respeito de outros assuntos, nomeadamente sobre os limites éticos da moderna investigação biomédica. Muitos biólogos e médicos acham que são conservadoras as posições oficiais da Igreja sobre algumas questões de biologia e medicina, nomeadamente a utilização de células estaminais. Provavelmente assistiremos a uma evolução das posições da Igreja neste domínio à medida que a ciência evoluir e a tecnologia associada se revelar benfeitora do homem.P- O cientista no seu trabalho segue um protocolo rigoroso, com verificação de leituras, comprovação de factos e cálculos, etc. Fica alguma lugar para a inspiração, para a criatividade, para o «tiro do escuro»?R- Em primeiro lugar, embora sem ser de tipo religioso, o cientista também tem crenças no seu trabalho. Um cientista tem de acreditar na sua hipótese. A grande diferença relativamente à fé religiosa é que o cientista tem de estar preparado para deixar de acreditar na sua hipótese se a experiência não a confirmar. Sim, há um grande lugar para a inspiração e para a livre criatividade no trabalho científico. Por exemplo, só certos génios são capazes de certas hipóteses geniais. E nem eles sabem de onde lhe vêm essas intuições. Pode dizer-se até que há algo de irracional na racionalidade científica, embora as modernas neurociências tenham vindo a procurar esclarecer o modo como funciona o cérebro humano. Vai, com certeza, saber-se mais sobre ele e talvez se verifique que a criatividade em ciência não é lá muito diferente da criatividade artística - o cérebro encontra subitamente unidade em algo que parecia desunido. De repente, estabelece um sentido onde não parecia haver sentido nenhum. Faz-se luz onde estava escuro. O cérebro humano parece “feito” para procurar um sentido razoável das coisas. É racional. Mas convém acrescentar que o cérebro humano também parece “feito” para dar sentidos não razoáveis, também é irracional. Alberga tanto a racionalidade como a irracionalidade. Na linha de Darwin, há desenvolvimentos científicos recentes que atribuem à evolução humana a origem e desenvolvimento das religiões. Acreditar terá sido uma vantagem competitiva, tanto para um indivíduo como para o seu grupo. Isto é, a pertença a um grupo religioso terá sido um factor que ajudou à sobrevivência do indivíduo e do grupo. Esta ideia, expressa por exemplo pelo filósofo norte-americano Daniel Dennett ou pelo biólogo inglês Lewis Wolpert, ainda não é consensual e está a fazer o seu caminho. Não sabemos ainda o suficiente, mas é curioso que o aparecimento e a afirmação do fenómeno religioso seja hoje objecto de pesquisa científica...P- Há descobertas por acaso, como a da penicilina. A «serendipidade» é aliás frequente na história das grandes descobertas. Que papel pode ter o acaso na descoberta científica?R- O acaso tem certamente um papel na descoberta científica. Acontecem coisas aos cientistas – por exemplo estar num certo sítio a uma certa hora – que podiam não acontecer. Claro que é preciso estar atento ao acaso, que só assim pode ser um acaso criativo. Por exemplo, as descobertas da radioactividade e dos raios X, no final do século XIX, poderão ter sido casuais. Contudo, distinguiria esse tipo de acaso da “fezada”, a intuição do que vai acontecer que se expressa sob a forma de uma hipótese científica. Uma hipótese não costuma ser por acaso, antes se baseia em teses anteriores devidamente testadas e comprovadas.
December 21 2008, 6:33pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O Técnico, o Tribunal de Contas e a comunicação social - II
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/o-tcnico-o-tribunal-de-contas-e_18.html
A Universidade portuguesa tem conhecido profundas alterações nas últimas décadas, não apenas a nível da governação – nomeadamente a partir da Lei 108/88 da Autonomia Universitária –, mas especialmente a nível do modelo de universidade que desenvolvemos, um modelo em que a investigação foi assumindo progressivamente o papel que detém actualmente. As últimas décadas foram assim anos de consolidação de um modelo universitário em que a qualidade académica é indissociável da qualidade científica.O vigor das escolas nacionais pode ser apreciados nos números de que nos deu conta o «Reviews of National Policies For Education - Tertiary Education In Portugal - Examiners' Report», publicado em 6 Dezembro 2006. De facto, no período entre 1995 e 2005 aumentou 17% o número de estudantes a estudar em universidades e 70% o número de licenciados e pós-graduados. Por seu lado, no período entre 1993 e 2001 as publicações em revistas científicas indexadas cresceram 67% enquanto em revistas indexadas de elevado impacto científico aumentaram 123%.Não obstante o sucesso que estes números indicam – e serão certamente modestos comparados com os equivalentes em 2008 -, parece consensual que é necessário preparar o sistema universitário português para os desafios futuros na formação e na criação de cultura, conhecimento e tecnologia, desafios que se colocam já numa escala global. A pergunta que se impõe é obviamente qual o modelo que melhor responde a estes desafios.Feita esta pergunta, recordemos a orientação que seguimos até hoje e que não difere muito da que foi proposta no século XIX por Wilhelm von Humboldt e da qual constava, como intenção primeira, o saber e a sua constante procura. Embora Humboldt reconhecesse que a investigação e o saber dela decorrente poderiam apontar para finalidades práticas, recusou que um fim último mercantilista para a Universidade, isto é, recusou que o seu papel se reduzisse à formação de profissionais. Mesmo aceitando a necessidade de revisitarmos esta orientação de modo crítico, devemos apenas afinar os pormenores que a concretizam, não devemos, pura e simplesmente ignorá-la ou negá-la.Estas reflexões surgiram a propósito do relatório do Tribunal de Contas sobre o Técnico, que provocou a epifania mediática a que já me referi, nomeadamente durante a sua discussão ontem num plenário muito concorrido do Conselho Científico e hoje numa Assembleia de Representantes convocada para o efeito.Não me vou deter nos detalhes destas reuniões, que posso apenas classificar como épicas, mas vale a pena transcrever o ponto 4 da moção aprovada (ficheiro em formato pdf) no Conselho Científico, moção que resume o sentimento geral das duas reuniões:Reafirmar a sua estranheza por os orgãos de soberania, Assembleia da Républica e Governo, continuarem a ignorar as contradições legislativas actualmente existentes entre o enquadramento legal da autonomia universitária e a normativa burocrática, antiquada e verdadeiramente impeditiva do funcionamento normal de uma universidade no século XXI, que hoje se pretende aplicar com base em normas jurídicas que regem a administração central do Estado.Quiçá por deformação profissional, nunca percebi porque razão temos uma legislação complexa, contraditória e por conseguinte ineficiente. Ultrapassa-me que uma mesma lei possa ter várias interpretações, umas mais espirituais, outras mais lineares, ou que proporcione pareceres jurídicos de nomes sonantes da praça a asseverar algo e o seu contrário. Muito menos entendo que numa altura em que a sociedade da informação, a inovação e o desenvolvimento tecnológico enchem a boca de todo o político que se preze, não se perceba que asfixiar as Universidades com a recente esquizofrenia burocrática impedirá que estas cumpram o seu papel, ou antes matará as Universidades como hoje as conhecemos.O que surgirá dessas cinzas não será certamente uma fénix renascida muito menos o modelo de Universidade do século XXI que urge redefinir. Mais do que nunca, ter boas universidades (e bons cientistas) é um factor decisivo para o país. Mas as recentes alterações legislativas não configuram a Universidade de que precisamos. Acho que está na hora de as Universidades serem motores da reforma que urge e não meros espectadores de reformas que não passam de sentenças de morte.
December 18 2008, 1:42pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Um padre em defesa da evolução
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Francisco José Ayala é o Donald Bren Professor of Biological Sciences, Ecology & Evolutionary Biology e professor de filosofia na UCIrvine. Ayala, que esteve presente no Beyond Belief 2007, é membro do President's Committee of Advisors on Science and Technology e foi presidente da American Association for the Advancement of Science, que tem como missão «desenvolver a ciência e servir a sociedade», tarefa que cumpre, entre muitas outras actividades, publicando a revista Science, a revista de Ciência mais lida no mundo.O biólogo que estuda a evolução foi igualmente padre dominicano e o último número da Scientific American- Brasil tem um perfil do ex- padre que nunca viu conflito entre evolução e fé - mas reconhece que convencer o público americano disso continua um desafio - e que considera que «o raciocínio moral, ou seja, a inclinação para fazer julgamentos éticos ao avaliar as ações em termos de bem e mal, é enraizada em nossa natureza biológica. É um resultado necessário de nossa inteligência elevada. Mas (2) os códigos morais que guiam nossas decisões como sendo boas ou más são produtos da cultura, incluindo as tradições religiosas e sociais.»Gostei de ler o perfil de Ayala, que não consegui encontrar online mas um nosso leitor do outro lado do Atlântico gentilmente nos enviou, do qual transcrevo algumas partes que considerei relevantes:«Após quase 40 anos pregando sobre a evolução para fiéis cristãos, o respeitado biólogo evolucionista da University of California, em Irvine, esmerilhou seus argumentos até ficarem bem afiados. Ele tem várias histórias e exemplos prontos, e algumas táticas de choque ao alcance das mãos. Uma entre cinco gravidezes acaba em aborto espontâneo, ele costuma lembrar nas palestras. Em seguida ele pergunta, de forma incisiva, como em uma entrevista para a revista U.S. Catholic, no ano passado: "Se Deus projetou o sistema reprodutivo humano, seria Deus o maior aborcionista de todos?". Com esses exemplos, ele explica, "eu quero combater os argumentos deles". Ayala, 74 anos, está se preparando para um 2009 excepcionalmente cheio de compromissos. O ano marca o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e o sesquicentenário da publicação da Origem das Espécies, e a batalha entre a evolução e o criacionismo certamente recrudescerá. Ayala diz que há uma grande necessidade de que os cientistas envolvam pessoas religiosas nas discussões. Para exemplificar, ele carrega com dificuldade o Atlas of Creation, um calhamaço de 5,5kg e de dimensões de 28 x 43 cm, enviado pelo correio pelo criacionista muçulmano Adnan Oktar, da Turquia, para cientistas e museus por todos os Estados Unidos e França. O livro, ricamente ilustrado, associa a teoria de Darwin a horrores, incluindo o fascismo e o demônio. Nos Estados Unidos, o Discovery Institute, em Seattle, que promove projetos de desenhos inteligentes, publicou livros de biologia questionando a evolução e promove o filme Expelled: no intelligente allowed (2008) para argumentar que cientistas anti-darwinistas são perseguidos. A candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin, defende que o criacionismo deva ser ensinado ao lado da evolução, nas escolas. Segundo uma pesquisa da Pennsylvania State University, um entre oito professores de biologia já trata o criacionismo como alternativa válida. Apesar dos esforços de engajamento por parte de cientistas e decisões constitucionais contra eles, os criacionistas e defensores da teoria do "projeto inteligente" não estão ficando mais fracos, adverte Ayala. "Eles estão se tornando, sim, mais visíveis." (...) Freqüentemente, alunos iniciantes do curso de biologia de Ayala dizem que responderão as perguntas das provas como ele deseja, mas na verdade eles rejeitam a evolução por causa de suas crenças cristãs. Anos mais tarde, depois de aprenderem mais sobre ciência, eles decidem abandonar a religião. Os estudantes parecem chegar à conclusão de que as duas abordagens são incompatíveis. Isso o entristece, diz Ayala. Ele gostaria que os fiéis conciliassem sua fé com a ciência. Extraindo o que pode dos cinco anos preparatórios para ordenação como dominicano, Ayala usa a evolução para ajudar a responder um paradoxo central do cristianismo - como um Deus onisciente, amoroso, pode permitir o mal e o sofrimento? A natureza é mal projetada - com estranhezas como pontos cegos dentro do olho humano e um excesso de dentes espremidos dentro de nossas mandíbulas. Parasitas são sádicos e predadores cruéis. A seleção natural pode explicar a brutalidade da natureza, argumenta Ayala, e remove o "mal" - um ato intencional de livre-arbítrio - do mundo vivo. (...) Ayala se formou em física pela Universidade de Madri, depois trabalhou no laboratório de um geneticista enquanto estudava teologia na Pontifícia Faculdade do Colégio de San Esteban, em Salamanca, Espanha. Quando foi ordenado, em 1960, já havia decidido seguir o caminho da ciência em vez da vida religiosa. No convento o darwinismo nunca foi visto como um inimigo da fé cristã. Assim, um ano depois, quando Ayala se mudou para Nova York para fazer o doutorado em genética, a visão predominante nos Estados Unidos, de uma hostilidade natural entre evolução e religião, foi um choque para ele. Desde então, Ayala tenta tratar do ceticismo religioso em relação à teoria de Darwin. A princípio, ele lembra, seus colegas cientistas eram desconfiados e assumiam a posição que pesquisadores não deveriam entrar em discussões religiosas. Em 1981, quando o legislativo do estado de Arkansas votou por dar ao criacionismo um espaço igual nas escolas, o sentimento começou a mudar. A National Academy of Sciences preparou um dossiê amicus curiae (amigo da corte papal) para um caso na Suprema Corte, envolvendo a "Lei da Criação" do estado da Louisiana, e pediu a Ayala que liderasse a empreitada. O livreto se tornou o Science and creationism: a view from the Natonal Academy of Sciences, de 1984. Para a segunda edição, em 1999, Ayala apresentou a idéia de incorporar as palavras de alguns teólogos, mas lembra: "Quase fui devorado vivo". Na terceira edição, publicada neste ano, uma seção apresenta declarações de quatro denominações religiosas e três cientistas sobre a compatibilidade da evolução com as crenças religiosas.»
December 17 2008, 1:15am | Comments »
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O Técnico, o Tribunal de Contas e a comunicação social
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Devo confessar que fiquei comovida com o ênfase que alguns meios de comunicação resolveram devotar ao Técnico nos últimos dias, em particular durante o fim de semana. Espero que este súbito interesse se mantenha e que vejamos esses mesmos media reportarem o muito que de bom se faz no Técnico em termos de investigação científica e de prestação de serviços à comunidade.De facto, só posso interpretar como sendo uma epifania científica o interesse mediático que se seguiu à amplamente noticiada auditoria do Tribunal de Contas e considerar que este interesse se manterá depois de esclarecidos e dissipados os boatos que correm céleres sobre alegadas malfeitorias levadas a cabo pela gestão do Técnico. Nomeadamente, pela parte que me toca, convido desde já todos a testemunharem algumas das iniciativas em que estou envolvida, como sejam a Semana da Química, as Jornadas de Engenharia Química e Biológica ou as Olimpíadas da Química.Embora considere que a esmagadora maioria dos portugueses não se revê nos comentários que a notícia suscitou, por exemplo no Sol, acho de facto que merecemos todos, os funcionários docentes e não docentes do Técnico, um pouco mais de consideração pública que a manifestada nos últimos dias e não estou apenas a falar do comentador que exigia «Esquadrões da Morte para abater estes canalhas corruptos já».De facto, a referida auditoria não revelou nem cheiro de corrupção, o Tribunal de Contas detectou apenas alguns problemas de procedimentos, como aqueles cuja interrupção por parte da direcção do Técnico nos está a deixar à beira de um ataque de nervos, os já referidos reembolsos e a prática corrente de cada cientista ser responsável pela execução dos respectivos projectos.Assim, a única coisa que esta auditoria mostra claramente é a necessidade de legislação específica para as Universidades, se for considerado que se deve manter a dinâmica a que nos habituámos, no Técnico pelo menos, e que resultou aparentemente de uma interpretação errada pelas universidades nacionais da lei da autonomia. De facto, parece que a lei da autonomia universitária, que nos obriga a procurar individualmente financiamentos próprios para sobreviver, não nos deixa gastar essas verbas de acordo com as especificações dos organismos que as concedem.Por exemplo, não faz muito sentido que uma deslocação ao estrangeiro – mesmo no âmbito de um projecto europeu, luso-brasileiro ou afins - continue a ser o acto de gravidade extrema que assumiu pela mão de António de Oliveira Salazar. Também não faz muito sentido que, ao mesmo tempo que se promove o Simplex, se exija a todos os membros do Conselho Administrativo que leiam, autorizem e assinem as dezenas de milhares de documentos que resultam da execução material dos projectos dos seus colegas (e envolvem viagens ao estrangeiro, para conferências ou para realizar trabalho).De facto, uma das notícias que circulou célere foi a alegada ilegalidade de 120 milhões de euros de despesa em 2006, que muitos assumiram que algum «canalha corrupto» tinha metido ao bolso, e que na realidade corresponde apenas a documentos de despesa, por exemplo dos meus reagentes, que assinei eu e não todos os cinco membros do dito Conselho Administrativo.Eu não percebo nada de direito administrativo, mas fiz parte de várias Assembleias de Representantes – quase uma centena de docentes, não docentes e alunos – que discutiram e aprovaram os prémios ao desempenho de funcionários não docentes agora muito contestados (e os suplementos de presidentes-adjuntos dos Conselhos Científico e Pedagógico a que parece não terem direito porque embora sejam contemplados para as funções correspondentes a designação presidente-adjunto não o é...). Lembro-me claramente de alguém ter suscitado a dúvida sobre se estes, embora inscritos nos estatutos do Técnico, seriam legais face à lei 14/2003. A dúvida foi encaminhada para o gabinete jurídico da Reitoria e para a Inspecção Geral de Finanças que deram o seu beneplácito à prática - que substitui o pagamento de horas extraordinárias e me parece ser mais encorajadora da excelência do desempenho dos nossos funcionários que qualquer SIADAP que se invente.Parece também, e aqui não percebo os pormenores, que há um mapa anexo às contas ou quejandos que não está construído de acordo com o formalismo habitual e essa será outra das «irregularidades» encontradas, entretanto corrigida como todas as outras.Há mais Universidades que foram ou estão a ser auditadas pelo Tribunal de Contas e estou certa que em todas as Universidades em que a investigação científica tem um peso grande serão detectadas irregularidades análogas. De facto, é muito complicado fazer ciência com as mesmas regras que regem uma qualquer repartição pública. Espero, para bem do País e da ciência nacional, que o relatório publicado há dias seja uma advertência aos poderes nacionais de que não basta louvar o progresso tecnológico, é preciso dar condições para que esse progresso aconteça. Aliás, na conjuntura actual urge mesmo que se considere legislar para remover a asfixia que tolhe a investigação científica e obsta a que esse progresso possa ter lugar.
December 16 2008, 10:33am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Presunção e Água Benta
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Há quase dois anos, Bento XVI referiu que o uso da razão sem mediação pela fé causa uma esquizofrenia terrível, ou mais concretamente: «Deve admitir-se que a tendência para se considerar verdade apenas aquilo que pode ser experienciado constitui uma limitação à razão humana e produz uma esquizofrenia terrível, causa da existência do racionalismo, materialismo e hipertecnologia».Na altura, tive uma certa dificuldade em perceber o que fosse a hipertecnologia denunciada como um mal por Bento XVI assim como tive muitas dúvidas sobre se o uso da razão nos descrentes origina uma acumulação excessiva de dopamina nas fendas sinápticas e como tal produz alucinações, delírios e percepções irreais sortidas. Mas percebi, dadas as prioridades anunciadas do seu papado, proeminentes entre elas a bioética, o apelo aos cientistas católicos para que «exprimissem o carácter razoável da sua fé». Depois de ler a profusão de documentos, entrevistas e declarações debitadas pelo Vaticano sobre o tema, não considerei nada razoáveis, bem pelo contrário, as lucubrações da fé sobre ciência, em especial sobre biomédica/bioética. Para o cardeal Ratzinger, e podemos apenas supor que para Bento XVI, o homem não «tem direito pleno sobre a sua natureza biológica», acrescentando «O nosso estatuto ontológico como criaturas feitas à imagem de Deus impõe limites à nossa auto determinação (biológica). A soberania (sobre o nosso corpo) de que dispomos não é ilimitada».Lucubrações irrazoáveis sobre ciência e cientistas não são apanágio do actual Papa, há dois anos o cardeal Alfonso Lopez Trujillo, responsável pelo Conselho Pontifical da Família, o mesmo que disse que o HIV é suficientemente pequeno para passar através de «poros» dos preservativos e que condenou veeementemente a clonagem terapêutica, afirmou que os cientistas que trabalham com células estaminais deveriam ser excomungados automativamente. O cardeal Trujillo afirmou ainda que a excomunhão latae senentiae deveria ser estendida aos políticos que aprovem leis permitindo a investigação em células estaminais, mesmo aquelas obtidas sem destruição de embriões como as condenadas por Monsenhor Elio Sgreccia, que preside à Academia Pontifícia para a Vida.Este último dignitário afirmou numa entrevista à Rádio Vaticano que o método para obter células estaminais desenvolvido por cientistas da Advanced Cell, em Alameda, Califórnia, «não resolve os problemas éticos» desta área de investigação. O novo método - descrito na Nature - consiste em colher um embrião numa fase muito primitiva de desenvolvimento e retirar-lhe uma única célula, que pode dar origem a uma estirpe de células estaminais embrionárias. O embrião, excedentário de fertilização in vitro, não é destruído no processo e mantém todo o seu potencial de desenvolvimento. Contudo, notou Sgreccia, o novo método não tem em conta que mesmo aquela única célula removida pode evoluir para um ser humano totalmente desenvolvido. Ou seja, segundo o Vaticano uma célula totipotente tem a mesma ou mais dignidade* que um ser humano.As irrazoabilidades papais e as considerações avulsas de outros altos dignitários sobre bioética foram agora reunidas num único documento ainda menos razoável (documento completo em formato pdf). A instrução Dignitas personae, que a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou sexta-feira e substitui a agora obsoleta Donum vitae , transcreve as considerações «científicas» de todos estes experts em biologia em geral e embriologia em particular num documento que consideram dever «ser colocado no centro da reflexão ética sobre a investigação biomédica».Ou seja, esta é uma instrução doutrinária destinada essencialmente a controlar o trabalho dos cientistas, no tom que deu o mote ao papado de Bento XVI, «que não se trata de impor aos não-crentes uma perspectiva de fé, mas sim de interpretar e defender os valores radicados na natureza mesma do ser humano». Ou seja, não é «uma colecção de proibições», nem uma interferência na ciência mas sim «uma série de indicações para que a ciência se coloque verdadeiramente ao serviço da vida, e não da morte ou da arbitrária e perigosa manipulação das pessoas humanas».Assim, a Dignitas personae avisa a comunidade em geral e a científica em particular que os recentes avanços em investigação em células estaminais, terapia genética e experiências com embriões violam princípios morais e levantam questões «éticas» sérias para os investigadores e outros professionais, mesmo aqueles não dados a práticas pecaminosas que, de acordo com o Vaticano, têm o dever de recusar material biológico obtido por outrem de forma não ética. Assim o Vaticano lança uma admoestação aos cientistas: «Não devem colaborar com o mal»!Mas se é a investigação científica que está na berlinda, porque a «filosofia geral é que todo o ser humano tem direito a nascer da união dos pais», são condenadas igualmente quer a contracepção, um «pecado de aborto, sendo gravemente imoral» quer a reprodução medicamente assistida que envolva inseminação artificial - e, claro, o diagnóstico precoce e o congelamento dos embriões excedentários, «que são e permanecem titulares dos direitos essenciais e que, portanto, devem ser tutelados juridicamente como pessoas humanas».A Dignitas personae detém-se no entanto na ciência, reprovando em particular a execrada investigação em células estaminais, considerada «cooperar com o mal» e «um escândalo» que não «está ao serviço da humanidade». Claro que a engenharia genética é um anátema em quaisquer circunstâncias «porque o homem nunca poderá substituir o Criador» e a terapia génica levanta dúvidas porque favorece «uma mentalidade eugénica». De igual forma, é condenado clonar genes humanos em animais por tal abominação constituir uma grave ofensa à dignidade humana - tenho uma dúvida transcendente sobre se bactérias e leveduras estão incluídas e se, por exemplo, os diabéticos que se injectam com insulina estarão a cometer um pecado grave.Achei especialmente divertido o capítulo devotado ao «uso de "material biológico" humano de origem ilícita» pela tortuosidade a que se obrigaram os seus redactores. Embora a produção desse material ilícito seja «sempre uma desordem moral grave», os laboratórios que o utilizem na produção de vacinas -quando este «foi produzido fora do seu centro de investigação ou que se encontra no comércio» -, devem apenas evitar «o perigo de escândalo», isto é, que se saiba que estão a trabalhar com os tais materiais.Tudo isto porque no caso de vacinas preparadas a partir de fetos abortados, o Vaticano produziu há anos um documento que permite a vacinação «imoral» de crianças católicas embora exorte os católicos a lutarem contra as companhias que produzem imoralmente tais vacinas, especialmente a vacina contra a rubéola para que não há alternativas «morais».O sofisma na base da decisão consiste em considerações de extrema ratio, isto é, a obrigação moral de evitar colaboração material passiva com um «crime»(ser vacinado com uma vacina ilícita) não é obrigatória se existir um inconveniente grave, nomeadamente quando existe «coerção moral da consciência dos pais que são forçados a agir contra a sua consciência ou então pôr em risco a saúde dos seus filhos e de toda a população. Esta é uma escolha alternativa injusta, que deve ser eliminada tão cedo quanto possível».Mas se os desenvolvimentos científicos tornaram impossíveis de aceitar pelos crentes posições como a do Papa Leão XII que durante uma epidemia de varíola em 1829, decretou que «aquele que permitir ser vacinado deixa de ser um filho de Deus», em relação aos cientistas não há esses pruridos.Assim, de acordo com o Vaticano, os cientistas têm «o dever de recusar o referido "material biológico" – mesmo na ausência de uma certa relação próxima dos investigadores com as acções dos técnicos da procriação artificial ou com a dos que praticaram o aborto, e na ausência de um prévio acordo com os centros de procriação artificial – resulta do dever de, no exercício da própria actividade de investigação, se distanciar de um quadro legislativo gravemente injusto e de afirmar com clareza o valor da vida humana.»Repetindo o que já disse n'«As Bananas da Discórdia», estas proibições absurdas, o obscurantismo e imiscuição indevida na ciência são o que tornam o discurso dos teólogos cada vez mais irrelevante. Infelizmente, há umas quantas pessoas que levam a sério estes dislates e os tentam transpor para a letra da lei dos respectivos países, como aconteceu em Itália durante o referendo de 2005 sobre fertilização medicamente assistida.Esperemos que a este documento infeliz não se sigam manifestações anti-ciência dos mais fanáticos. Mas certamente que a Dignitas personae dará munições à Igreja americana nas guerras culturais, nomeadamente no que respeita à anunciada intenção de Barack Obama de reverter o veto de George W. Bush na limitação das pesquisas com células embrionárias. Além disso, não é necessário grande presciência para prever que o documento será recorrente na argumentação dos bispos franceses durante os debates parlamentares sobre a Bioética, previstos para 2009.*Na encíclica Evangelium Vitae pode ler-se, no meio de uma imensidão de platitudes e da condenação reiterada do aborto, eutanásia e contracepção, que «a vida na sua condição terrena não é um valor absoluto». O ponto 57 da encíclica resume a posição da ICAR sobre a inviolabilidade da vida humana: apenas condena «a eliminação directa de um ser humano inocente». Ou seja, não há problemas com a eliminação directa de «culpados» (quiçá os homossexuais que se pretende proteger com a directiva da ONU a que o Vaticano se opõe veementemente) e com mortes indirectas ou «colaterais» (quiçá das «guerras justas» sancionadas no catecismo de 1997).
December 14 2008, 8:26am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Jogos e Jogadores
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"Jogos e Jogadores nas malhas da psicanálise" é o título de uma reportagem da TSF da autoria de Manuel Vilas Boas, que se baseou num colóquio relaizado no Porto sobre "Cultura e Psicanálise". Entre os intervenientes estiveram o político Adriano Moreira, o filósofo João Maria André, o biólogo Bracinha Vieira, o economista João Duque, o físico Carlos Fiolhais e o psicanalista Coimbra de Matos. Ouvir aqui.
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December 9 2008, 5:28pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Uma história de evolução. O roquinho dos Açores. Parte II
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Há dias publiquei um post sobre a história do Roquinho e das investigações, iniciadas pelo biólogo Luis Monteiro, que conduziram à recente proposta de uma nova espécie, Oceanodroma monteiroi, constituida pela população que nidifica no período quente (Abril-Outubro), em alguns ilhéus junto da Graciosa, no arquipélago dos Açores. Adiantando-me, utilizarei as designações de Roquinho e de Roquinho-de-monteiro, para designar a espécie original e a nova espécie, que são também as populações reprodutoras fria e quente. O processo de especiação, embora extremamente importante, na medida em que constitiui a base da diversidade das formas de vida, já que se não houvesse barreiras reprodutivas seria impossível uma diferenciação tão vasta como a que conhecemos, não é fácil de estudar, por razões óbvias. São necessárias milhares de gerações para que um processo de especiação se complete, pelo que dificilmente podemos observar um inteiro, no curto período de tempo das nossas vidas, ou da nossa ciência. Darwin sugeriu a possibilidade da formação de novas espécies no mesmo local, ou especiação simpátrica. Mas, tal ocorrência foi refutada por Ernst Mayr, um dos maiores evolucionistas do Séc. XX, que sistematizou e teorizou o processo de especiação, a partir da genética de populações. Segundo Mayr, seria sempre necessária alguma forma de isolamento geográfico (alopatria) para que a divergência genética entre duas populações se fosse acumulando até ao ponto em que os genomas se tornassem incompatíveis e deixasse de ser possível o entrecruzamento entre elas. Esta forma de especiação designa-se por especiação alopátrica, literalmente ‘em locais distintos’. Os casos de espécies muito parecidas ocorrendo nos mesmos locais seriam, assim, explicados por uma convergência secundária das duas espécies num mesmo local, depois de se terem especiado em zonas geograficamente isoladas entre si. Um exemplo clássico é o das espécies em anel, como a gaivota-argentea que têm populações espalhadas pelo globo, formando uma banda à mesma latitude, cada uma um pouco diferente da vizinha, até que se encontram, depois de um arco de mais de 30 mil Km. E, nesses locais (Europa ocidental), as populações já são duas espécies bem distintas que não se cruzam. É como se tivéssemos representado no espaço o tempo de especiação. A refutação de Mayr não foi, contudo, convincente na medida em que, embora se aceite que a forma de especiação por ele defendida será a mais fácil e frequente, não deixa de ser admissível a especiação simpátrica. O difícil é encontrar exemplos. Ora o exemplo do Roquinho e do Roquinho-de-monteiro ilustra um verdadeiro caso de especiação simpátrica em vertebrados terrestres. Os dados moleculares revelam que a população fria dos Açores (roquinho) está geneticamente mais próxima das populações da Madeira, das Berlengas ou das Canárias do que da população quente dos Açores, ou Roquinho-de-monteiro. A medição do tempo de divergência evolutiva entre as duas populações é de 75 mil a 180 mil anos. Como a população quente dos Açores só ocorre naquele arquipélago, é pouco provável que a formação da nova espécie se tenha dado em locais separados. Aliás, dada a extrema mobilidade das aves destas espécies – são frequentemente capturados no golfo do México, indivíduos anilhados nos Açores –, não se pode falar de isolamento geográfico nas ilhas atlânticas. Curiosamente, também nas Galápagos e em Cabo Verde ocorrem duas populações nidificantes em período quente e frio. Também aqui parece haver uma certa segregação entre as populações. Mas, ao contrário do que sucede nos Açores, ocorre fluxo genético entre as populações quente e fria. Isto é, podemos estar a assistir a um processo incipiente de especiação, que poderá vir a evoluir no mesmo sentido do que se verificou nos Açores. Mas, como podem evoluir espécies num mesmo local? Um elemento fundamental deste isolamento simpátrico é o das barreiras comportamentais entre populações. Se os membros de uma população só acasalarem entre si e segregarem os da outra, através de formas de reconhecimento intrapopulacional, escolha do par, ou outra forma de segregação entre indivíduos pertencentes às duas populações, cria-se uma barreira ao fluxo genético. Neste contexto, a descoberta de que as vocalizações das duas espécies nos Açores são bem distinguíveis e que os indivíduos de cada população só respondem às vocalizações da sua população e não às da outra é muito elucidativa. A formação da nova espécie de roquinho (Oceanodroma monteiroi) nos Açores é um caso excepcional de história evolutiva, mas também de história humana, pela forma como nasceu e se desenvolveu a investigação sobre estas duas populações. A riqueza da natureza está nos detalhes. É preciso saber olhar para eles, como o Luis Monteiro soube olhar.
December 8 2008, 3:44am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
QUATRO LIVROS DE CIÊNCIA DO ANO SEGUNDO O NYT
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/quatro-livros-de-cincia-do-ano-segundo.html
Eis os quatro livros de ciências incluídas na lista de 100 livros do ano do "New York Times". Só o livro de Friedman está traduzido em Portugal:DESCARTES’ BONES: A Skeletal History of the Conflict Between Faith and Reason. By Russell Shorto. (Doubleday, $26.) Shorto’s smart, elegant study turns the early separation of Descartes’s skull from the rest of his remains into an irresistible metaphor.THE DRUNKARD’S WALK: How Randomness Rules Our Lives. By Leonard Mlodinow. (Pantheon, $24.95.) This breezy crash course intersperses probabilistic mind-benders with profiles of theorists.HOT, FLAT, AND CROWDED: Why We Need a Green Revolution — and How It Can Renew America. By Thomas L. Friedman. (Farrar, Straus & Giroux, $27.95.) The Times columnist turns his attention to possible business-friendly solutions to global warming.THE SUPERORGANISM: The Beauty, Elegance, and Strangeness of Insect Societies. By Bert Hölldobler and Edward O. Wilson. (Norton, $55.) The central conceit of this astonishing study is that an insect colony is a single animal raised to a higher level.
December 7 2008, 6:55pm | Comments »






