Texto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005), esgotado no editor:Suponha o leitor que lê no seu jornal favorito o seguinte título em letras garrafais:“INVESTIGADORES EM GREVE GERAL”.Ficaria preocupado? Será que o trabalho dos investigadores científicos é assim tão importante que não admita uma interrupção? Provavelmente, o leitor não ficaria sobressaltado, por pensar que de tal greve não adviria mal maior ao país ou ao mundo. A situação já seria diferente se se tratasse de uma greve dos padeiros ou dos motoristas de autocarros. Ninguém gosta de não ter pão fresco de manhã ou de não ter o autocarro a horas para ir trabalhar.No entanto, quer o fabrico do pão quer os serviços de autocarros têm a ver, de uma maneira ou de outra, com resultados alcançados em processos de investigação científica. A investigação ou pesquisa científica, que basicamente consiste em saber mais sobre qualquer assunto, acaba por estar relacionada com o quotidiano de todos nós. Se outras razões não houvesse, bastaria essa para nos interrogarmos sobre o que vem a ser a “investigação”. O que é investigar?A palavra “investigação” surgiu só no século XV, pouco antes da Revolução Científica que deu origem à ciência moderna. Provém do latim: resultou de juntar “in” a “vestigium”, o que literalmente significa ir atrás de pegadas, seguir o rasto de alguém. De acordo com a etimologia, o investigador científico vai atrás de marcas. A sua tarefa é semelhante à de um detective. Um cientista é um Sherlock Holmes, que de lupa em riste, examina os mínimos vestígios para saber quem é o criminoso...Curioso é notar que o título do jornal escrito acima poderia afinal preocupar os portugueses se eles pensassem que os investigadores em causa não eram os investigadores científicos, mas sim os investigadores da Polícia Judiciária. Haveria boas razões para isso: Uma greve geral desse corpo de polícia, ao deixar os criminosos incólumes, colocaria em risco a segurança dos cidadãos...As semelhanças entre um investigador científico e um polícia judiciário são reais e podem ser aprofundadas. Se se consultar um dicionário moderno, como o da Academia de Ciências de Lisboa, encontra-se que investigar é realizar uma “pesquisa crítica e sistemática, com base por exemplo na experimentação, que se destina a rever conclusões aceites à luz de factos novos.” Trata-se de uma boa definição. Pesquisa significa procura cuidadosa (em inglês, a palavra é “research” e em francês “recherche”, quer uma quer outra traduzidas à letra dão “procura repetida”). Os atributos “crítica” e “sistemática” reforçam aquilo que uma pesquisa é. O investigador tem de se interrogar permanentemente sobre se estará ou não a cometer erros. E o investigador tem de executar um conjunto de procedimentos o mais completo possível. Usando a linguagem do famoso personagem de Conan Doyle, o investigador tem de inquirir a si próprio se está na pista certa e tem de explorar todas as pistas.Continuando a decifrar o dignificado do dicionário, atente-se na expressão “por exemplo” antes de experimentação. Ela significa que a investigação pode ter ou não carácter experimental. Tem, decerto, nas ciências físico-químicas ou nas ciências biológicas. Pelo contrário, em ciências sociais e humanas, as possibilidades de experimentar são muito reduzidas, pelo que a investigação nessas áreas não é experimental. Mas, em casos de polícia, fazem-se muitas vezes experiências para apurar o modo como tudo se passou. A investigação criminal apoia-se em larga medida em procedimentos laboratoriais das ciências físico-químicas e das ciências biológicas. E fazem-se também reconstituições de crimes, que são verdadeiras experiências.O fundamental da definição de investigar vem talvez no fim: “rever conclusões aceites à luz de factos novos”. Investigar não é procurar à toa, mas sim avançar uma hipótese, que é tacitamente aceite, e procurar saber se ela está ou não errada. Se ela se revelar inconsistente com um dado facto que antes não se conhecia, então terá de ser substituída. Por exemplo, no caso de um detective, a hipótese inicial pode ser “o criminoso é o mordomo”. No entanto, descobertos novos vestígios, o criminoso pode muito bem ser o jardineiro ou o motorista (havia pistas falsas!). É aqui que reside a dificuldade do trabalho investigativo. É que não se trata apenas de procurar de uma maneira cuidadosa, o que estaria ao alcance de muita gente. Mas sim de chegar a um resultado que anteriormente não era conhecido. Isso só está ao alcance de um verdadeiro Sherlock Holmes...Muitas vezes usa-se a palavra “investigar” numa acepção trivial. Quando alguém estuda um dado assunto por um livro, poderá chegar a conclusões novas para si. Porém, essas conclusões não são decerto novas para o autor ou autores do livro. Na verdadeira acepção de “investigar”, o sujeito tem de chegar a conclusões que são novas não apenas para ele, mas novas para toda a gente. Tal exige outras qualidades para além da mera perseverança, nomeadamente a inteligência e a criatividade. Ele tem de ver mais do que toda a gente antes dele viu. Se possível, o resultado a que chega deve ser simples, isto é, deve ser evidente para toda a gente uma vez revelado publicamente. “Elementar, meu caro Watson!”. Einstein dizia que uma “teoria deve ser tão simples quanto possível, mas não mais simples do que isso.”Não é fácil ser investigador. Existirão no mundo cerca de um milhão de cientistas (números redondos). Em Portugal não passarão de dez mil (também números redondos). Essas pessoas, depois de um treino prolongado – demora bastante o treino para investigador – adquiriram a capacidade manifestamente rara de chegar a conclusões diferentes das que são aceites, examinando com atenção a evidência disponível (aquilo que se pode chamar a “prova”, que no caso do Sherlock Holmes pode ser uma impressão digital deixada no local do crime).Esta analogia entre um investigador científico e um investigador judiciário, apesar de fecunda, é também ilusória (como são, aliás, todas as analogias). Normalmente um crime só é investigado, em segredo, por um pequeno grupo de investigadores. Ora, em ciência, o “crime” é um facto respeitante à Natureza ou ao Homem e vários grupos de investigadores perseguem ao mesmo tempo esses factos, em saudável competição uns com os outros, anunciando os seus resultados uns aos outros. Normalmente, alguém chega primeiro, mas os outros não desistem e acabam por confirmar (ou não) o resultado de quem chegou primeiro. Mas mais: Um investigador criminal faz o seu trabalho em geral sozinho, ou em pequenas equipas; porém, dada a magnitude das tarefas exigidas, muitos cientistas experimentais trabalham hoje em grandes equipas. Por outro lado, na investigação judiciária, quem acaba por atribuir a culpabilidade não é o detective mas sim um juiz, ao passo que na investigação científica quem proclama uma determinada conclusão acaba por ser a comunidade científica na área em causa, que funciona como uma espécie de colectivo de juízes. Não é verdade que os cientistas passem a vida a contradizer-se uns aos outros: eles acabam por se entender ao proferir os seus acórdãos comuns.Além disso, na investigação judiciária, apesar de serem possíveis erros (os famosos erros judiciais) um crime acaba por ficar resolvido, não se falando mais nisso. Pelo contrário, na investigação científica as conclusões alcançadas só são válidas provisoriamente. Novas procuras permitirão rever as conclusões estabelecidas, alcançando outras que de alguma forma têm de abarcar as antigas. A ciência é cumulativa ao incorporar em cada ocasião de descoberta o essencial das descobertas anteriores.Há mais diferenças. Tirando uma ou outra excepção, num caso de polícia acaba por se conhecer a verdade. Em ciência, porém, a verdade só idealmente é alcançável. Para alcançar a verdade, ou melhor, para detectar o erro, o trabalho dos investigadores científicos tem de ser permanente. E é por isso que uma interrupção desse trabalho – a tal greve de que falava no início – é um atraso na procura da verdade, um atraso de que os cidadãos deveriam reconhecer o prejuízo.
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O QUE É INVESTIGAR?
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October 27 2010, 6:16pm | Comments »
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IMAGENS EM CIÊNCIA
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A propósito do recente falecimento do matemático Benoît Mandelbrot, craidor de imagens como a de cima (conjunto de Mandelbrot) recupero um texto meu do livro "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva):Algumas imagens ficaram lendárias na ciência. A física atómica começou em 1896 quando o alemão Wilhelm Roentgen, o primeiro prémio Nobel da Física, descobriu inadvertidamente os raios X, ao reparar que uma placa fotográfica ficava impressionada mesmo que não tivesse sido exposta a radiação visível. Uma imagem que ficou famosa foi a da própria mão de Roentgen vista aos raios X (que, em alemão, são conhecidos por “Roentgenstrahlung”, raios de Roentgen). A própria física nuclear começou mais ou menos na mesma altura também com uma imagem casual: o francês Henri Becquerel deixou embrulhado numa película fotográfica um pedaço de minério de urânio e a película, quando revelada, mostrou evidência da radioactividade natural do urânio. O núcleo atómico surgiu desta maneira inusitada.Lembremos ainda, do outro lado da escala do mundo, as primeiras imagens de astronomia recolhidas pela luneta do italiano Galileo Galileo e desenhadas pela mão deste no século XVI: as crateras da Lua, a face manchada do Sol, as luas de Júpiter. Quão longe se estava mas quão perto se ficou das imagens recolhidas hoje pelo telescópio Hubble, que olha, por cima da atmosfera, para tudo quanto é sítio! A astronomia já existia antes do telescópio, mas a astronomia moderna é inimaginável sem o telescópio e as imagens que este prodigiosa e prodigamente fornece.Nas ciências da vida, ocorreu uma revolução profunda quando apareceram imagens de pequenos e estranhos microorganismos no primeiro microscópio manejado no século XVIII pelo holandês Anton van Leeuwenhoek. Onde não havia nada passou a haver um jardim zoológico de criaturas nunca antes imaginadas. A realidade microscópica era mais estranha do que a mais delirante ficção.As novas imagens criadoras de ciências novas foram possibilitadas por instrumentos como os telescópios e microscópios, que trouxeram realidades distantes para o alcance da nossa vista e da nossa compreensão. Ao mostrarem a realidade reduzida ou ampliada criaram uma nova realidade. Questões científicas novas surgiram em catadupa, entroncando nas que já existiam e sendo resolvidas de modo semelhante. E também surgiram questões filosóficas inéditas, como a de saber se as luas de Júpiter ou os micróbios numa gotícula estavam lá antes de terem sido vistos...Se é certo que outrora e hoje não há imagens sem ciência (basta pensar na fotografia, no telescópio ou no microscópio), não é menos certo que não há ciência sem imagens. Com efeito, as concepções do mundo que os cientistas desenvolvem baseiam-se, mais do que em palavras, equações e outras cifras mais ou menos abstractas, em imagens bem concretas. Um praticante das ciências exactas e naturais necessitará do rigor do formalismo matemático para fixar melhor o seu pensamento e demonstrar as suas intuições imediatas, mas as suas ideias desenvolvem-se por via de regra com base em imagens bem nítidas. As previsões dos cientistas exigem previamente visões.Estas imagens ou visões prévias são obviamente de dois tipos – imagens exteriores e imagens interiores – conforme se formem num suporte material, como uma película fotográfica, ou forem simplesmente projectadas na mente. Podemos falar de imagens reais, no primeiro caso, ou de imagens virtuais, no segundo.As imagens exteriores necessitam de instrumentos adequados, por exemplo as imagens fotográficas exigem câmaras para serem captadas. Os físicos, por exemplo, recolhem imagens desse tipo na exploração que empreendem do mundo. O mesmo se passa com os médicos, para quem a imagiologia é hoje uma arma indispensável ao diagnóstico mais elementar. Em qualquer desses casos e em muitos outros, é preciso ver para crer, é necessário ver para saber.Mas os matemáticos e os físicos vivem profissionalmente das suas imagens interiores, das imagens que formam nos seus cérebros. O mais famoso dos físicos teóricos, Albert Einstein, disse um dia que chegou à sua teoria da relatividade restrita imaginando como seria o mundo visto a partir de um raio de luz, isto é, se ele próprio fosse “a cavalo” num fotão ou grão de luz. Imagens mentais estão presentes mesmo nos raciocínios mais abstractos, por exemplo quando os físicos pensam em partículas como “cordas num espaço-tempo a 11 dimensões” ou “quarks coloridos e com charme”. Imagens deste tipo ganham realidade no mundo material quando são rabiscadas nas costas de um envelope para o próprio as ver melhor ou riscadas num quadro negro para transmitir um argumento a um colega.Hoje em dia existem, porém, outras imagens para além das exteriores e interiores. São obtidas por uma terceira via, que surgiu entre a ciência experimental e a ciência teórica tradicionais. São as imagens produzidas pelo computador. São, por um lado, imagens exteriores: têm um suporte físico que é o ecrã do monitor ou o papel da impressora. Mas, por outro lado, reproduzem uma realidade imaginada, mental, seguramente do domínio do imaterial. De resto, os computadores criaram também, tal como o telescópio e o microscópio, uma ciência nova: as ciências da complexidade. Poder-se-ia chamar ao computador o “complexoscópio”... Ficaram ao alcance da ciência, ao nosso alcance, realidades que pareciam antes demasiado complicadas para nós e, por isso, demasiado afastadas de nós. Por exemplo, as belas imagens fractais criadas pelo matemático francês de origem polaca Benoît Mandelbrot baseiam-se no computador e seriam inviáveis sem esse instrumento. Ao apareceram, deram origem a uma matemática e a uma física novas ou, melhor, renovadas.O computador permite definir melhor imagens interiores e projectá-las para o exterior (a arte de programação confere vida a modelos do mundo real ou de mundos fictícios). A simulação permite compreender o mundo na medida em que ele é imitado por uma máquina que controlamos. Por outro lado, permite tratar imagens exteriores e, com isso, proporcionar ou refazer imagens interiores. O real e o virtual aparecem inextrincavelmente ligados.As imagens artificiais do computador podem ser mais ou menos realistas. Porém, o computador moderno permite um tipo de imagens radicalmente realistas, no sentido em que podem enganar os nossos sentidos. Na realidade virtual, que é disso que estamos a falar, mundos de imaginação são transmitidos ao cérebro como coisas concretas, por intermédio do capacete e luva de dados. O imaginador “entra” na coisa imaginada. O virtual torna-se real porque é percebido e vivido como tal (questões filosóficas muito interessantes brotam deste paradoxo...) Se olharmos para a história, vemos, em momentos cruciais, a ciência renovar-se a partir de imagens surpreendentes. Com as novas imagens da realidade virtual, a ciência estará a renovar-se mais uma vez. Sempre baseada em imagens, a nova ciência é a continuação da velha por outros meios.
October 23 2010, 3:10am | Comments »
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“CAVAR” E “REGAR”
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A propósito de um dos membros portugueses da Royal Society, o Padre Teodoro de Almeida, o autor da "Recreação Filosófica", recupero um dos textos do meu livro "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva) sobre ciência e ensino (não terá perdido a actualidade apesar de ter surgido entretanto alguma Física moderna nos programas do 12º ano):Teodoro de Almeida, padre setecentista da congregação dos Oratorianos, e um dos primeiros defensores em Portugal das ideias de Newton, escreveu (o português foi um pouco modernizado):“A dois fins se costumam aplicar os que se dedicam aos estudos da Natureza. O primeiro é adiantar os conhecimentos das verdades maravilhosas que nela se encerram. O segundo é o de facilitar estes conhecimentos e pô-los de tal maneira patentes que todos possam, com uma leve atenção, participar do gosto e utilidades que consigo trazem. Há uma semelhança com os rios caudadosos que, por vezes, profundamente altos e tendo uma vigorosa corrente dentro de estreitos limites, cavam nas íntimas entranhas da Terra e dela tiram os tesouros que, fechados e escondidos nela, nenhuma esperança davam aos mortais de lhes serem patentes; outros rios, dilatados por campos abertos, com plácido movimento e pequena altura, regam muito mais espaço, abrangem a muitos mais povos e se podem passear sem perigo e sem susto. Assim, os que não devem à Natureza o vigor de cavar em novos descobrimentos devem empregar-se em facilitar a todos a inteligência das verdades já descobertas.”Este texto do grande pedagogo português deixa bem claro os dois tipos de pessoas que cultivam a ciência:- Os que fazem avançar a ciência, diríamos hoje os cientistas ou investigadores científicos. Note-se que as palavras “ciência” e “cientista” remontam apenas ao século XVIII. Mas Sir Isaac Newton, no século XVII, foi decerto um cientista “avant la lettre”.- As pessoas que, detentoras de uma boa formação científica, espalham a ciência, diríamos hoje os professores e divulgadores de ciências. Teodoro de Almeida, ao espalhar as ideias newtonianas, pertenceu a este último grupo.Tal visão baseada na dicotomia entre profundidade e amplitude – “cavar” e “regar” – é naturalmente esquemática. Há, por exemplo, cientistas que conseguem tanto “cavar” fundo como “regar” extensivamente. São tão bons descobridores como divulgadores. Podíamos referir, no século XIX, o físico inglês Michael Faraday que, além de ter descoberto a influência do magnetismo sobre a electricidade, foi o autor de livros como “Sobre a Unificação das Forças da Natureza” ou “História Natural de uma Vela” direccionadas a um público juvenil e, nos nossos dias, o físico norte-americano Steven Weinberg, que, além de ter recebido o prémio Nobel da Física de 1979 pelos seus trabalhos relativos à unificação das interacções, escreveu livros como “Os Primeiros Três Minutos” e “Sonhos de uma Teoria Final” destinados ao grande público.Muitas vezes se eleva justamente o papel dos grandes descobridores (como acontece com a atribuição do Nobel, que não existia no tempo de Newton ou Faraday). Mas também muitas vezes se esquece o papel daqueles, muito mais numerosos, que, pelo seu desempenho pedagógico, permitem que a compreensão da ciência chegue mais longe, tanto através da escola como por outros meios e que permitem afinal que os descobridores possam surgir (Newton e Weinberg fizeram estudos universitários em Cambridge e Harvard, respectivamente, enquanto Faraday chegou à ciência através de sessões públicas realizadas pela Royal Institution de Londres).Em Portugal quase não há prémios para distinguir os professores de ciências. Falta entre nós aprofundar o amplo esforço, que felizmente se iniciou, para debelar séculos de atraso na ciência e na educação científica. Note-se que Newton, não obstante os méritos de Teodoro de Almeida e de outros, nos chegou com muitos anos de atraso e que um eventual Faraday português não teria encontrado uma “Instituição Real” lusitana que fizesse vingar os seus talentos (nem sequer teria conseguido fazer a 4.ª classe, uma vez que esta não estava, entre nós e no século XIX, ao alcance das classes populares). Por isso, tanto quanto reconhecer o mérito daqueles que chegam mais longe na empresa científica (e é relevante que se fale dos portugueses que descobrem planetas extra-solares ou que especulam que Einstein pode estar errado a respeito da invariância da velocidade da luz), importa promover o estatuto de todos aqueles – nomeadamente os professores – que fazem a ciência chegar a mais gente, irradicando a iliteracia científica.A nossa escola ainda não reconhece como devia a excelência. Vale o mesmo aquele professor que “facilita a todos a inteligência das verdades já descobertas” como um outro que se limita a cumprir o ponto, debitando monotonamente programas desactualizados. Um dos problemas da educação científica em Portugal é precisamente a falta de ligação entre o que se ensina e o que modernamente se sabe. Os programas ignoram quase por completo os temas mais actuais da ciência. Para só falar na Física, os programas do ensino secundário quase não falam da estrutura da matéria (assunto que é deixado para a Química, mas que foi uma das contribuições mais importantes da Física do século XX, e que está na base dos desenvolvimentos da electrónica, novos materiais, biologia molecular, etc.) nem da unificação das forças (um dos temas de ponta da Física contemporânea). “Rega-se” ignorando o que se ”cavou”. Um estudo efectuado pelas Sociedades Portuguesas de Física e de Química e apoiado pelo Instituto de Inovação Educacional e pela Fundação Gulbenkian pôs precisamente o dedo da ferida: num inquérito a 1500 professores de Física e Química, a maioria reconheceu não estar preparada para ensinar os temas científicos maiores do século XX. Não significa isto que não reconheçam lacunas em assuntos clássicos, como a mecânica de Newton, o electromagnetismo de Faraday ou ainda a termodinâmica. Mas quer simplesmente dizer que se sentem mais inseguros nos temas mais modernos.A preparação ministrada no ensino superior a futuros professores esforça-se, em geral, por seguir os programas curriculares do básico e secundário que teimam em continuar antigos mesmo quando, por vezes, são renovados. Os professores do ensino básico e secundário são vítimas da educação que tiveram e fazem eles próprios, ainda que involuntariamente, novas vítimas... Não falar hoje da interacção das forças no ensino é comparável a não ensinar Newton, no século XVIII, ou não ensinar Faraday, no século XIX. Os jovens não são convidados a “passear sem perigo e sem susto” pelas “verdades já descobertas”. Não vêem água nenhuma que lhes mate a sede. Continuando a usar a metáfora fluvial de Teodoro de Almeida, o ensino está uma verdadeira "seca"!
October 19 2010, 4:19pm | Comments »
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HUMOR: CRISE DA REPÚBLICA
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/humor-crise-da-republica.html
Cartoon do tempo da 1ª República (A Capital n.º 862, 21.12.1912) recebida do nosso leitor João Boaventura.
October 18 2010, 9:16am | Comments »
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SARAMAGO E A DESCOBERTA DO ESPAÇO
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A aversão de José Saramago, único Prémio Nobel português da Literatura, à descoberta do espaço é bastante anterior à recepção do prémio, tendo a entrega do Prémio em Estocolmo (recordo o que ele disse: "chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante") apenas o condão de a divulgar aos quatro ventos.Leia-se este seu poema de “Os Poemas Possíveis" (Portugália,1966):"Fala do velho do restelo ao astronautaAqui, na Terra, a fome continua,A miséria, o luto, e outra vez a fome.Acendemos cigarros em fogos de napalmeE dizemos amor sem saber o que seja.Mas fizemos de ti a prova da riqueza,E também da pobreza, e da fome outra vez.E pusemos em ti sei lá bem que desejoDe mais alto que nós, e melhor e mais puro.No jornal, de olhos tensos, soletramosAs vertigens do espaço e maravilhas:Oceanos salgados que circundamIlhas mortas de sede, onde não chove.Mas o mundo, astronauta, é boa mesaOnde come, brincando, só a fome,Só a fome, astronauta, só a fome,E são brinquedos as bombas de napalme." É já aqui claro o contraste entre a fome na Terra e a descoberta do espaço. Gostar ou não deste poema é uma questão pessoal. Eu prefiro António Gedeão. Mas, levando o poema à letra (o que pode ser perigoso), diria que a dicotomia entre a fome e a descoberta do espaço não faz grande sentido: não penso que o eventual fim da NASA vá dar de comer aos muitos, infelizmente muitos, famintos do mundo.Mas, apesar dos velhos do Restelo, o homem chegou à Lua. Sobre a chegada do homem ao nosso satélite, Saramago escreveu duas crónicas na “Capital” em 1969, que publicou no livro “Deste Mundo e do Outro” (Arcádia, 1971). Passados 40 anos, comentou no seu blogue a sua releitura desses escritos:“Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés.”É uma opinião respeitável como outras opiniões, mas, se me é permitido, prefiro a do pioneiro russo Konstantin Tsiokolvski: “A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém pode viver no berço para sempre." A Terra é, afinal, parte de um vasto Cosmos que queremos conhecer. Carl Sagan disse que o nosso compromisso é não apenas com a Terra mas com o Cosmos: “Our loyalties are to the species and the planet. We speak for Earth. Our obligation to survive is owed not just to ourselves but also to that Cosmos, ancient and vast, from which we spring.”Voltando a Saramago. Ele insistiu noutras ocasiões em relacionar a descoberta espacial e a miséria do homem na Terra. Vejamos o que declarou a um jornal argentino tal como está no seu blogue:“Um aparelhinho para Marte…Enquanto estamos a falar, há milhares de milhões de pessoas que morrem de fome. Como podemos aceitar que o homem não seja um ser solidário, que já não pense na espécie e se tenha convertido num monstro de egoísmo e ambição que despreza milhares de pessoas que nada têm? Não se faz nada para resolver problemas essenciais. Para milhões de pessoas no mundo, nenhum dos problemas essenciais da vida está resolvido, enquanto nos entretemos a enviar um aparelhinho para Marte…“O homem transformou-se num monstro de egoísmo e ambição”, El Cronista, Buenos Aires, 11 de Setembro de 1998 [Entrevista de Osvaldo Quiroga]”Desta afirmação, semelhante à da cerimónia do Prémio Nobel, fica-se com a ideia que, se não lançasse um “aparelhinho” para Marte, o homem poderia resolver esse problema essencial que é a fome no mundo. Claro que concordo que se trata de um problema essencial, mas discordo que a desistência do programa espacial, que é empreendido à escala internacional, melhore a respeito da alimentação humana o que quer que seja. Pelo contrário, uma decisão tão obscurantista como essa provavelmente só pioraria.Curiosamente, como que indo de encontro ao pessimismo de Saramago, a missão Mars Surveyor 1998, da NASA, falhou devido a um erro de navegação. Perdeu-se dinheiro? Sim perdeu. Mas aprendeu-se a evitar erros do mesmo género noutras naves ou noutros sistemas. Os cientistas e engenheiros aprendem com os erros. Aumentou-se a segurança de missões no espaço e na Terra. Foi dinheiro a menos para resolver a fome no mundo? Duvido muito...Há um argumento que escapou a Saramago. Apesar de o problema da fome no mundo ser principalmente um problema político-económico, a sua resolução exige o contributo da ciência e tecnologia. O flagelo é assustador mas sê-lo-ia muito mais sem os desenvolvimentos científico-tecnológicos na produção e distribuição de alimentos. Em particular, Os avanços na descoberta do espaço têm contribuído para a resolução de muitos problemas na Terra. Desistir deles invocando a fome no mundo parece-me insensato. De resto, o homem vive de pão e de sonho, como o poeta e romancista decerto sabia.
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October 16 2010, 4:35am | Comments »
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SARAMAGO, MARTE E A MINA
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José Saramago estava redondamente enganado. No seu discurso em Estocolmo por ocasião da entrega do Prémio Nobel, numa tentativa de apoucar a ciência e a tecnologia, afirmou:"A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante."A operação de resgaste dos mineiros da mina de S. José, no Chile, com forte apoio da NASA, acaba de mostrar que se chega mais facilmente ao nosso semelhante do que a Marte. Saramago não conseguiu compreender que se chega mais facilmente ao nosso semelhante em virtude de desenvolvimentos científico-tecnológicos associados à descoberta do espaço. Que pena ele não estar cá para ver...
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October 14 2010, 6:42pm | Comments »
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SÃOS E SALVOS
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A ciência pode tratar das rochas no interior do planeta, da resistência dos materiais mais duros, das leis da mecânica, da propagação de ondas electromagnéticas, dos órgãos no interior do corpo e do cérebro humano. Mas pode pouco sem o seu braço - a tecnologia - que permite sondar os terrenos, fabricar e operar brocas de diamante, construir elevadores especiais movidos a gruas e roldanas, enviar em tempo real imagens através de fibras ópticas e transmiti-las a todo o mundo, medir sinais vitais do corpo humano e tentar resolver complicadas questões psicológicas. Foi não só a ciência, mas também e principalmente a tecnologia, que, num esforço interdisciplinar sem paralelo, está a tirar, um a um, os 33 mineiros das entranhas da Terra, no deserto do Atacama, no Chile, como num parto difícil. Tal como previ aqui há algumas semanas atrás. Claro que há sempre riscos imprevisíveis, mas a capacidade de previsão baseada na ciência e na tecnologia é notável.(Clique a imagem para ver menor a tecnologia da operação de salvamento).
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October 13 2010, 3:33pm | Comments »
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EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E RELIGIÃO
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A dicotomia ciência – religião é tão antiga como a ciência já que a religião é mais antiga. Ainda agora, nos cem anos da implantação da República, se relembrou como o republicanismo, eivado da ciência positivista, se ergueu entre nós contra a religião. Uma visão naturalista opunha-se à visão providencialista.Mas hoje é, geralmente, reconhecido que as duas actividades, apesar de diferentes, podem bem coexistir. Há, por exemplo, ministros religiosos – e não é só da Igreja Católica - que são também cientistas. E há até quem advogue que, mais além do que a coexistência pacífica, é necessário aproximação e diálogo. Colocam-se, entre estes, Alfredo Dinis, padre jesuíta e professor de Filosofia na Universidade Católica em Braga (actualmente director da Faculdade de Filosofia) e João Paiva, leigo e professor de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Com propósitos pedagógicos, escreveram o livro “Educação, Ciência e Religião”, saído agora na Gradiva, que procura responder a várias questões relativas a essa aproximação e diálogo. Formulam algumas questões mais ou menos “fracturantes” (por exemplo: “A religião e a ciência ‘proíbem’ a existência de extraterrestres”?), acompanhadas por engraçados cartoons, dão a cada uma delas uma primeira resposta, em linguagem acessível, e, em seguida, aprofundam o tema, numa linguagem mais elaborada. Questões complementares para debate e bibliografia sobre cada tema completam esta original obra.Pode-se ou não concordar com eles, mas os autores são taxativos: “Mais e melhor ciência só pode significar melhor religião”. Aprenderam, portanto, com aquilo que eles chamam “descentramentos” do homem, que ocorreram ao longo da história da ciência. O primeiro é o descentramento cósmico, que se deu no início do século XVII com Galileu. O segundo é o descentramento biológico, que se deu a meio do século XIX, com Darwin. E o terceiro é o descentramento neurológico relativo à mente e à consciência humanas, que se estará a dar agora, na esteira de Freud embora não como sua herança directa (as modernas neurociências pouca justificação oferecem à psicanálise). O caso Galileu transitou em julgado depois que o Papa João Paulo II mandou, passados séculos, rever o processo e admitiu por fim o erro da Igreja. Galileu, aliás um bom crente e bem relacionado com o alto clero, vai aliar ter uma estátua em mármore nos jardins do Vaticano... Os autores dedicam-lhe apenas uma questão, que é fácil de responder: reconhecem que Galileu foi pressionado pela Igreja para negar o movimento da Terra. A teologia mudou no sentido em que a leitura da Bíblia deixou de ser literal.O caso Darwin, mais recente, provocou ondas de choque que chegaram até aos nossos dias. O sábio inglês, que viveu no seio da Igreja Anglicana, tendo até estudado teologia em Cambridge, foi alvo não já da Inquisição, mas da chacota pública, mais uma vez por contraste entre aquilo que a ciência aprendia e o que a Bíblia ensinava: o homem era apenas parte da grande “árvore da vida”. Curiosamente, foram e são as religiões protestantes, talvez mais ligadas ao livro, quem mais contestaram Darwin e, no mundo de hoje, forneceram o ambiente necessário para o florescer dessa estranha mistura entre ciência e religião que é o criacionismo na forma de “design inteligente”. Porém, a Igreja Católica não resolveu ainda completamente o problema, pois se João Paulo II admitiu há poucos anos que a teoria da evolução das espécies era “mais do que uma hipótese”, tal afirmação parece ainda excessivamente tímida num mundo em que as evidências observacionais e experimentais em favor dessa teoria excluem qualquer alternativa cientificamente válida.. Não foi há muito tempo que o Vaticano reprimiu as ideias evolucionistas do jesuíta Teilhard de Chardin. Os autores, que respondem a duas questões sobre o tema da evolução, não têm nenhuns problemas não só em citar o padre Chardin mas também em afirmar, preto no branco, que se pode defender a teoria da evolução e, ao mesmo tempo, acreditar em Deus. Dá a ideia que a teologia, também neste domínio, está ela própria em evolução...A teoria do Big Bang veio, no século passado, alargar a todo o domínio cósmico a ideia de auto-organização, isto é, a ideia de uma organização sem intervenção sobrenatural, com que a teoria da evolução se servia e serve para explicar a história das espécies. Claro que a pergunta sobre o que havia antes do Big Bang é legítima, mas a ciência de hoje responde honestamente que não sabe. Há poucos dias, o novo livro de Stephen Hawking relançou a polémica sobre a dispensabilidade de Deus para a criação do mundo, ele que metaforicamente tinha no seu best-seller anterior falado do “plano de Deus” para o Universo. Curioso é que a Igreja Católica tenha visto com bons olhos a ideia científica da criação quando ela apareceu na ciência, entre outras pelas mãos de um sacerdote católico, o padre Lemaître, porque concordava com o mito bíblico da criação. O Universo presta-se aliás abundantemente a discussões teológicas. Por exemplo, a teoria do Big Bang inclina-se para a infinitude do Universo. Não será, por isso, provável, quase inevitável, a existência de outros sóis e outras terras, como aliás tinha sonhado o “dissidente” da Igreja Católica Giordano Bruno, e, mais do que isso, a existência de vida noutros planetas, incluindo eventualmente vida inteligente? A descoberta muito recente do primeiro problema numa “zona habitável” de um sistema estelar a escassos vinte anos-luz de nós levantou justamente as atenções dos terráqueos. Tornou ainda mais oportuna a afirmação do jesuíta Guy Colsolmagno do Observatório Astronómico do Vaticano: sim, ele baptizaria um ET, se este quisesse! Nessa mesma linha algo heterodoxa, os autores do presente livro declaram que “um Deus craidor e milhões de planetas habitados por seres inteligentes estaria mais de acordo com a imagem de ser omnipotente da tradição cristã”. Fica por saber o que mudaria, de facto, na teologia se tais seres aparecessem mesmo. Seriam considerados seres com alma? O pecado original aplicar-se-ia a eles? E Jesus Cristo poderá não ter aparecido noutros planetas?Tanto ou mais polémicas do que essas são as questões sobre a mente levantadas pelas neurociências e que estão actualmente, neste planeta, a ser pesquisadas. Os autores não fogem a esse tema contemporâneo na fronteira entre ciência e religião quando formulam três perguntas: “Com o conhecimento do cérebro poderemos nós, humanos, vir a ser absolutamente previsíveis?”, “A inteligência artificial ameaça não só o homem como a religião?”, “Que contributos podemos nós esperar da neuroteologia?”. As suas respostas parecem-me expressar demasiadas reservas em áreas que ainda estão nos seus começos. A atitude da ciência deve ser de abertura, para não dizer esperança, perante o conhecimento novo, mas as respostas dadas em “Educação, Ciência e Religião” sobre o cérebro e a mente, são, na minha opinião, de excessiva crítica. Por exemplo, a “neuroteologia” que o livro critica poderá ser um nome disparatado, mas é decerto interessante pesquisar com os aparelhos das neurociências o que se passa dentro do cérebro dos crentes para averiguar o modo como a Deus está dentro do cérebro. Os autores recusam à partida a hipótese de que Deus esteja apenas aí. Ocorre-me a interpelação que Sagredo faz na peça de Bertold Brecht Vida de Galileu: “Onde é que está Deus no sistema do mundo?" Responde Galileu: “Em nós, ou em lugar algum.” E, pela minha parte, não vejo mal nenhum que se investigue a ideia de Deus nos seres humanos com os métodos de que a ciência dispõe. Se a teologia vai ou não mudar com isso já é uma outra questão...- Alfredo Dinis e João Paiva, “Educação, Ciência e Religião”, Gradiva, 2010.
October 11 2010, 1:16pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
CIÊNCIA VERSUS LITERATURA PARA O NOBEL VARGAS LLOSA
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/ciencia-vesus-literatura-para-o-nobel.html
Pela actualidade da atribuição do Nobel da Literatura a Vargas Llosa publicamos aqui um excerto do seu ensaio "Para quê o romance" (todo aqui, o original saiu na "New Republic", em 2001) em que elogia a função integradora da literatura apontando o dedo à demasiada especialização da ciência e da técnica:"Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários. A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo - de povos ou indivíduos - gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, preci-samente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos. A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração."Mario Vargas Llosa
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October 7 2010, 7:11am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Volta o "Café, LIvros e Ciência"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/voilta-o-cafe-livros-e-ciencia.html
Informação recebida da Fábrica Ciência Viva de Aveiro (na imagem João Paiva, o professor de Química da Universidade do Porto que é um dos dos autores):Lançamento e apresentação de livros em «Café, Livros e Ciência»Apresentação do livro «Educação, Ciência e Religião» de Alfredo Dinis e João PaivaNo dia 7 de Outubro, às 18h00, acontece mais uma sessão do projecto Café, Livros e Ciência, na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro. Será apresentado o livro «Educação, Ciência e Religião», de Alfredo Dinis e João Paiva. Esta iniciativa resulta de uma parceria entre a Fábrica CCVA, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho. A entrada é livre.Café, Livros e CiênciaEducação, Ciência e ReligiãoAlfredo Dinis e João PaivaGradivaNa Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, João Paiva apresentará uma reflexão nas interfaces da percepção pública da ciência, da educação e da religião. Educação, Ciência e Religião, publicado pela Gradiva, destina-se a professores, educadores e a todo o cidadão, dado que ciência e religião, de uma forma ou de outra, se cruzam com a vida e com as inquietudes do ser humano.Na primeira quinta-feira de cada mês Café, Livros e Ciência convida a todos para conhecer, comentar ou debater um livro de, ou sobre, ciência, num ambiente informal. Poderá visionar um apontamento multimédia sobre os eventos já decorridos no sítio internet de cada parceiro, bem como no CVTV, e ainda algumas edições da rubrica "Escolhas de Livros de Carlos Fiolhais".data quinta-feira, 7 Outubro 2010local Fábrica Centro Ciência Viva de Aveirohorário 18h00>19h00público-alvo jovem e adultocontactos 234 427 053 ou fabrica.cienciaviva@ua.ptentrada livre
October 7 2010, 4:05am | Comments »









