Excerto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva) (na figura "Luz e Cor" de Turner):Consta que as últimas palavras do poeta alemão Johann Wolfgang Goethe foram “Mehr Licht!”, o que em português se traduz por “Mais Luz!”Ninguém sabe se esta exclamação significava o desejo filosófico-científico do grande génio de mais claridade ou se, prosaicamente, ele apenas pretendia pedir à empregada doméstica para abrir as cortinas do quarto. O poeta morreu sem se poder explicar. Mas a frase, apesar da ambiguidade ou talvez por causa dela, ficou famosa. Ela é sintomática da “época das luzes”, o tempo em que se quis ver mais e melhor.No ano da graça de 1755, ano em que a Terra tremeu em Lisboa (catástrofe que tanto impressionou Goethe, assim como Kant e Voltaire), nascia em Londres, mais precisamente no bairro do Covent Garden, um dos maiores procuradores de luz de todos os tempos, alguém que andou sempre atrás de mais e melhor luz. O pintor inglês J. M. Turner foi entre 1755 e 1851 um prodigioso criador de luz. Apaixonado pela luz do Sol (Turner quase cegou por ter olhado tão demoradamente para o Sol), consta que as suas últimas palavras foram “The Sun is king!”, o que, vertido em português, dá “O Sol reina!”.A luz de Turner, a luz que em última análise provém da nossa estrela, está em exposição permanente na Tate Gallery, em Londres. Essa luz é um dos principais motivos pelo qual vale a pena ir e voltar a Londres. Na maior parte dos quadros de Turner, a luz ilumina o mar. O astro-rei aparece amarelo-alaranjado. O céu é azul de dia, o que os físicos explicam pela difusão da luz solar no ar. E o mar mostra o azul misturado com outras cores, o que os físicos também explicam.Turner foi um estudioso da obra de Goethe “Farbentheorie” (“Teoria das Cores”), uma incursão do brilhante poeta de Frankfurt na ciência da cor. Foi uma incursão não muito feliz, porque a teoria das cores de Goethe está em grande parte errada, nomeadamente ao afirmar que todas as cores resultam da combinação de três cores fundamentais: o amarelo, o vermelho e o azul (Isaac Newton, bem anterior a Goethe, sabia mais sobre a cor!). Este exemplo mostra que os poetas não têm de ser bons cientistas, o que não traz nenhum prejuízo à apreciação da sua poesia... O livro de Goethe resultou, porém, de uma tentativa de compreender os fenómenos da luz e da cor atendendo a condições não só físicas mas também psicológicas e estéticas e tem bastante interesse para a história da ciência.Turner foi um grande admirador de Goethe. Um dos últimos quadros de Turner, menos figurativo que os anteriores, intitula-se curiosamente “Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A Manhã após o Dilúvio – Moisés a escrever o Livro do Genesis”. Está na Tate Gallery e mostra uma grande bola amarelo avermelhado - talvez o Sol, porque nunca pode haver a certeza de nada na arte não figurativa.Escreveu Goethe na sua “Teoria das Cores”, decerto depois de ter olhado muito para o Sol:“O Sol, quando de vê através de uma certa neblina, apresenta um disco amarelado. O centro é muitas vezes amarelo vivo e as bordas quase se tornam vermelhas. Numa situação em que o ar está cheio de fumo... o Sol parece vermelho-rubi, tal como todas as nuvens que o rodeiam, nas últimas circusntâncias, que reflectem então esta cor. O Sol vermelho da manhã, ou ao corpúsculo, deve-se à mesma causa. O Sol anuncia-se por uma tonalidade vermelha quando brilha através de uma massa densa de nevoeiro. Quanto mais se ergue mais brilhante e amarelo se torna”.Não foi decerto por acaso que o intenso óleo “Luz e Cor” foi pintado em 1843, na altura em que um amigo de Goethe lhe ofereceu a tradução em inglês do livro de Goethe. A “Luz e Cor” é o triunfo da luz e, portanto, o triunfo da cor. No quadro, a natureza da cor substitui a cor da Natureza, sendo o resultado quase hipnótico. Turner foi, de facto, um génio da luz e da cor e, se Goethe não teve grande relevância na história da ciência, teve-a decerto na história da arte!
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A LUZ EM GOETHE E TURNER
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September 26 2010, 4:18am | Comments »
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AINDA HAWKING E DEUS
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O habitual destaque aos sábados para a coluna do físico Robert Park:"MEMO TO SCRUTON: AT LEAST HAWKING GOT THE RIGHT ANSWER. An op-ed by Roger Scruton in The Wall Street Journal this morningwas titled, "Memo to Hawking: There’s Still Room for God." An Englishphilosopher, Scruton is a visiting scholar at the ultraconservativeAmerican Enterprise Institute in Washington, DC. "Almost no one," hewrites, "believes there is a rational scientific theory that tells us howthe universe emerged from nothingness." No one, that is, except those thatmight be expected to know, physicists, who labor to make such a theorypossible. In addition to Kant, Scruton invokes Newton and Einstein to makehis point, but unlike philosophy, physics is tightly bound to observation."Robert Park
September 25 2010, 3:33am | Comments »
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Educação, ciência e religião
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Informação recebida da Gradiva:Acaba de ser publicado "Educação, ciência e religião" de Alfredo Dinis e João Paiva, o primeiro padre e professor de Filosofia e o segundo leigo e professor de Química.
September 22 2010, 11:28am | Comments »
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A REPÚBLICA E A CIÊNCIA
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Mesmo nas vésperas da passagem do primeiro centenário da implantação da República em Portugal, é oportuno lembrar as raízes desse movimento político-social. E, entre elas, encontramos a visão científica do mundo e da sociedade que o século XIX proporcionou, na sequência do século que o tinha antecedido, o “século das luzes”.Uma análise profunda das raízes do republicanismo em Portugal encontra-se na obra que acaba de ser reeditada de Fernando Catroga, conhecido professor de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, “O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910” (Casa das Letras, 2010). Trata-se de uma terceira edição, a qual, como explica o curto prefácio, mantém o texto da primeira e da segunda edições (de 1991 e de 2000, respectivamente), demandando para esse texto novos leitores. A capa fornece um conjunto de palavras-chave que são, afinal, palavras que convidam à entrada no livro e, portanto, à compreensão da teoria e da prática republicanas:“Liberdade, Livre-Pensamento, Maçonaria, Igreja, Mulher, Moral, Poder, Ciência, Educação e Patriotismo na formação da República”.Lá está a palavra “Ciência”, logo sguida da “Educação”. E, no Capítulo 2, “A Visão Republicana da História e da Natureza”, é explanada a relação entre a República e a Ciência. Escreve Catroga:“E sendo uma opção ditada por uma visão optimista do mundo, o advento da República era sentido como uma consequência inexorável de um destino inscrito na própria evolução cósmica”.E, um pouco mais adiante:“Ainda que nem sempre de um modo sistematizado, é indiscutível que o evolucionismo, que, em última instância, justificava historicamente a República, se baseava numa cosmogonia oposta às concepções criacionistas e providencialistas.”De facto, o século XIX ficou marcado pelas ideias evolucionistas da autoria do naturalista britânico Charles Darwin, o autor de “A Origem das Espécies” (com primeira edição em 1859), segundo as quais o vasto mundo vivo era auto-organizado, não necessitando o seu desenvolvimento de constante intervenção divina. Tão profundo foi o impacto dessas novas ideias que, para muitos, Darwin foi o maior cientista do seu século. Na área da Física, a ideia de transformação apareceu também muito nítida na Segunda Lei da Termodinâmica, ou Lei do Aumento da Entropia, que foi enunciada, de formas diferentes mas equivalentes, quase na mesma altura pelo físico alemão Rudolf Clausius (1850) e pelo físico britânico William Thompson, Lord Kelvin (1851). Tudo muda, seja no mundo biológico, seja no mundo físico em geral, embora tenha demorado algum tempo a perceber que a evolução biológica, em sistemas abertos, que se dá no sentido da organização, não é incompatível com a evolução termodinâmica, em sistemas fechados, que se processa no sentido da desorganização.Os divulgadores da doutrina de Darwin souberam associar a ideia de evolução, patente no aparecimento de espécies mais aperfeiçoadas, com a ideia de progresso a nível histórico e social. O filósofo inglês Herbert Spencer, que é considerado o autor do que hoje se chama “darwinismo social”, escreveu em 1857 um livro com o título de “Do Progresso. Sua Lei e Sua Causa”. Pouco antes, o filósofo francês Auguste Comte tinha introduzido o positivismo, num rompimento epistemológico com a teologia e a metafísica, com o seu “Sistema de Política Positiva”, publicado entre 1851 e 1854, pelo que Spencer pode ser considerado um dos primeiros positivistas.Todos estes autores contribuíram, de um ou de outro modo, para a fermentação da ideologia republicana, que começou num pequeno círculo de intelectuais para depois se ir alargando ao longo da segunda metade do século XIX. Como bem diz Catroga:“A influência do darwinismo punha não só en causa a concepção fixista e criacionista do universo, tal como estava narrada no Génesis, como convidava a soldar o homem à natureza orgânica e biológica, julgando-se que, com isso, se postulavam as condições epistémicas e ônticas necessárias à cientificação da própria realidade social”.As ideias de Deus e de Igreja estavam intimamente ligadas à instituição monárquica que os republicanos queriam arredar. E, por isso, lhes contrapunham as noções de Mundo, governado por leis estritamente deterministas, e de Pátria, cujo governo era um assunto dos homens sem imanência divina. Um poema de uma republicana pouco conhecida, Angelina Vidal, que foi escritora e professora (além de defensora dos direitos das mulheres), saído no “Jornal de Abrantes”, escassos meses antes do 5 de Outubro de 1910, e que é citado na obra em referência, ilustra o afastamento de Deus. São assim os seus últimos versos:“Transformação constante – a causa eterna.Eis a lei que preside e que governa,O facto que destrói a escura fé.É debalde que os crentes se consomem,Se Deus veio primeiro do que o homem,Deve, quando muito, um chimpanzé.”Claro que, mesmo tendo Deus sido apeado em favor do homem, ficava por resolver o problema da conciliação da cientificidade do mundo com o livre-arbítrio humano. Se republicanos mais positivistas como o médico Miguel Bombarda, que não pôde assistir ao triunfo da Revolução (assassinado a 3 de Outubro, foi sepultado a 6 de Outubro de 1910), menorizaram essa questão, autores houve de matriz republicana, como, por exemplo, o filósofo Sampaio Bruno e o escritor e professor Basílio Teles, que se sentiram na necessidade de invocar argumentos espirituais ou metafísicos para compreenderem o pensamento e a acção humanos. A República, numa base que se reclamava científica, defendeu a laicidade da vida pública. Na Universidade de Coimbra, a Faculdade de Teologia foi substituída pela Faculdade de Letras, enquanto as Faculdades de Matemática e de Filosofia se fundiam para formar a Faculdade de Ciências. Mas as notícias sobre a morte de Deus eram manifestamente exageradas...- Fernando Catroga, “O Republicanismo em Portugal. Da formação ao 5 de Outubro de 1910”, Casa das Letras, 2010.
September 9 2010, 7:38pm | Comments »
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CIÊNCIA E TEATRO EM BRECHT E ARISTÓFANES 2
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/ciencia-e-teatro-em-brecht-e_09.html
Continuação do post anterior:É muito interessante que a retórica que serve para discutir o papel de Deus no mundo se encontre no teatro grego, muitos séculos antes. Para os gregos tratava-se obviamente não de discutir o papel de Deus mas sim dos deuses. Na comédia “As Nuvens” de Aristófanes (447 a.C.-385 a.C, sendo as duas datas aproximadas), representada pela primeira vez no ano de 423 a.C. no Teatro de Dionísio, na Acrópole, em Atenas, aparecem em cena algumas nuvens, portanto fenómenos atmosféricos, em substituição dos deuses tradicionais. Apesar de se tratar de uma comédia e não de uma tragédia, como a peça de Brecht, é notório o paralelismo entre os dois textos. Brecht era aliás um grande conhecedor do teatro grego.O livro de Aristófanes “Comédias I” [9] publicado pela Imprensa Nacional contém uma excelente tradução portuguesa da peça que aqui nos interessa. O volume tem uma introdução geral de Maria de Fátima Silva, professora de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, que foi também responsável pela introdução, tradução e notas de duas outras das peças do livro, e é de resto autora de outras obras sobre Aristófanes [10]. A terceira e última peça incluída é precisamente “As Nuvens”. Tem introdução, tradução e notas de Custódio Magueijo, professor de Grego da Universidade de Lisboa que já antes tinha sido o autor de uma tradução da mesma peça publicada pela Editorial Inquérito em 1984 [11] (nas notas encontram-se notícias sobre a representação da peça em Portugal).A acção de “As Nuvens” é bastante simples. Um abastado proprietário rural, Estrepsíades, procura educar o seu filho, Fidípedes, que era o que hoje poderíamos chamar um playboy, delapidando os proventos do pai em cavalos de luxo e carros de corrida. O velho pretende que o filho aprenda com Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), o “sofista” (os sofistas, entre os quais Protágoras e Górgias, eram mestres que viajavam em busca de discípulos, que lhes pagavam bem; de facto, só o Sócrates dos primeiros tempos é que poderá merecer essa designação), e, perante a resistência do filho, vai ele próprio ver como é essa escola, intitulada Frontistério ou Pensatório, e que constitui uma espécie de faculdade de todas as áreas. Estrepsíades não tem sucesso no Pensatório, mas o filho acaba por lá entrar. Sócrates apresenta então ao aluno duas personagens, o Raciocínio Justo e o Raciocínio Injusto, que retratam afinal os métodos pedagógicos antigo e moderno. Da luta entre os dois sai vencedor o Raciocínio Injusto (o que é afinal uma maneira de o conservador Aristófanes ridicularizar as novas pedagogias). O filho não só acaba por bater no pai como justifica essa acção usando tudo o que aprendeu com o Raciocínio Injusto. O pai, desesperado, acaba no final por deitar fogo ao Pensatório. A peça é bastante divertida, mas é injusta para com Sócrates, que não é particularmente bem retratado. Ele não passa, na pena de Aristófanes, de um mestre de retórica, que se faz pagar pelos seus serviços e que, mais do que defender a causa da ciência, se põe ao serviço de qualquer causa. Este Sócrates não é lá muito amigo da verdade...A peça, que hoje é um clássico entre os clássicos de Aristófanes, não conheceu grande sucesso quando foi estreada. Ficou até em terceiro lugar nas Grandes Dionísiacas, a seguir a duas obras de autores menores cujos textos não chegaram até nós. O autor reescreveu depois a peça – o texto que hoje conhecemos resultou desse processo – não se inibindo, no meio do texto (a chamada parábase), de censurar os espectadores por causa da má recepção da peça...Aristófanes goza bastante com os astrónomos. Por exemplo, encontramos este saboroso diálogo entre Estrepsíades e um discípulo da escola:“Discípulo - Uma noite, estava ele a estudar a órbita da Lua e as suas revoluções, assim, de nariz espetado no ar e de boca aberta, quando um lagarto pintado cagou lá de cima do telhado. Estrepsíades: Que gozo, um lagarto pintado cagar em cima destes.” E, mais adiante: “Estrepsíades - E porque diabo está o olho do cu virado para o céu?Discípulo: Bem... esse... estuda Astronomia por sua conta.” Quando Estrepsíades chega à fala com o próprio Sócrates, este repreendo-o quando o ouve jurar pelos deuses: “Sócrates - Juras pelos deuses?!... Quais deuses?... Para já, deuses é moeda que não usamos cá na casa. Estrepsíades - Então por quem é que vocês juram? Será porventura pelo pilim, como em Bizâncio? Sócrates, desviando a conversa - Queres conhecer as coisas divinas, claramente, de ciência certa?Estrepsíades- ... Se isso é possível... Sócrates - Queres conviver e conversar com as Nuvens, as nossa divindades?Estrepsíades – Claro que quero.”O paralelismo com a “ausência de Deus” brechtiana é aqui claro, mas surge ainda mais claro num diálogo entre Estrepsíades e Sócrates, que é um magnífico exemplo do uso da retórica em palco:“E Estrepsíades - Mas... Então e Zeus?... Vejamos pela Terra!... Então Zeus Olímpico não é deus? Sócrates - Qual Zeus nem meio Zeus!... Não digas asneiras: Zeus... não existe! E Estrepsíades - Que é que estás dizendo? Então quem é que chove? Sim, antes de mais nada, explica-me lá essa coisa. Sócrates - São elas [as nuvens] que chovem, obviamente. E é isso mesmo que te vou demonstrar com provas irrefutáveis. Ora bem: onde é que já alguma vez viste chover sem haver nuvens? Em boa verdade, ele, Zeus, deveria chover com céu limpo, na ausência de nuvens. Estrepsíades - Por Apolo! Com tal argumento provaste muito bem essa teoria... E eu que dantes cuidava que era mesmo Zeus a mijar por um regador!... Mas... Explica-me mais uma coisa: quem é que troveja, que até me põe todo a tremelicar? Sócrates - São elas que, ao rebolarem-se, provocam, os trovões. Estrepsíades - Mas como é isso, criatura tão desmedida? Sócrates - Ao encherem-se abundantemente de água, são forçadas, por via disso, a deslocar-se. Ora, assim cheias de chuva, forçosamente ficam penduradas para baixo... Vai daí, mais pesadas, caem uma sobre as outras, rebentam e estalam. Estrepsíades - E quem é que as força a mover-se? Não é Zeus? Sócrates - Nada disso... É o Tornado etéreo. Estrepsíades - O Tornado? Eis uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, que Zeus não existe, e que agora, em vez dele, quem reina é o Tornado..."O Tornado, elevado à categoria de divindade, é escrito assim mesmo, com maiúscula. Mais à frente, Sócrates pergunta a Estrepsíades:"Sócrates - Ora bem: estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade, que não sejam as nossas, ou seja o caos, as nuvens e a língua, essas e só estas?Estrepsíades - A essas, pura e simplesmente, nem sequer lhes dirigiria a palavra, ainda que desse de caras com elas, nem lhes ofereceria sacrifícios, nem libações, nem incenso.”Repare-se como a língua é também uma “divindade”. Nesse tempo, muito antes da Revolução Científica, a retórica pura, exercida pelo domínio da língua, era essencial na ciência. Os destinatários do culto e da liturgia vão passar a ser outros. E para isso é preciso, sem muitas discussões, substituir uma fé por outra, substituir a fé nos deuses pela fé na ciência. Sócrates intima Estrepsíades:“Sócrates - Ora vejamos. Quando eu te mandar para a frente um conceito científico sobre coisas celestes, faz por abocanhá-lo imediatamente. Estrepsíades - É o quê? Quer dizer que vou comer ciência assim como um cão a roer um osso?”Mais tarde, Estrepsíades encontra-se com o seu filho Fidípedes e procura transmitir-lhe a lição que tinha aprendido com Sócrates:“Estrepsíades – Tás vendo como é bom saber? Zeus - toma nota, Fidípedes – Zeus não existe!Fidípedes - Então quem é que...?Estrepsíades- Quem reina agora é o Tornado, depois de ter expulsado Zeus. Filípedes - Eh lá! Tás doido ou quê?Estrepsíades - Pois fica sabendo que é mesmo assim. Filípedes - E quem é que diz tal coisa? Estrepsíades - Sócrates... de Melos, mais o Querofonte, que percebe de saltadelas de pulgas [Querofonte é um amigo de Sócrates].”Repare-se que a mentira faz parte da “arte de convencer”: apesar de Sócrates ser natural de Atenas, Aristófanes liga-o à ilha de Melos, a terra do filósofo sofista Diágoras do séc. V a.C., um ateu confesso que foi por isso forçado a abandonar a cidade de Atenas. Assim, transmite-se a ideia, por um subentendido, que Sócrates é ateu.Foi assim que, pelo menos em palco, os deuses começaram a cair na Antiga Grécia. Muito antes de Galileu ter posto as estrelas a ocupar o lugar de Deus, já Sócrates punha os fenómenos meteorológicos naturais a ocupar o lugar dos deuses, colocando em particular o Tornado no lugar do maior de todos, o poderoso Zeus. A fúria de Zeus é substituída pela fúria dos elementos naturais. Foi preciso esperar muitos séculos para que, no Norte da Itália, aparecesse a ciência experimental como uma nova maneira de ver o mundo e se passassem a submeter as convicções sobre o mundo ao escrutínio e um escrutínio o mais rigoroso possível da observação e da experimentação. Aristófanes e Brecht representam duas maneiras de ver o mundo que, apesar das óbvias diferenças (Aristófanes não nutre respeito pela ciência, procurando ridicularizá-la, ao passo que Brecht é um grande admirador dela a ponto de ter dito: “não me é possível subsistir como artista sem me servir da ciência”), têm evidentes afinidades. Dada a distância no tempo de quase 2500 anos entre Aristófanes e Brecht o que mais impressiona é decerto a actualidade do primeiro.BIBLIOGRAFIA:[1] Carlos Fiolhais, “Ciência em Palco”, in “Partilha de Cena”, nº 0, Coimbra: Mafia – Federação Cultural de Coimbra, 2007.[2] Mário Montenegro, “Texto dramático sobre tema científico: o caso particular de Carl Djerassi”, Tese de mestrado, Porto: Universidade do Porto, 2007.[3] Michael Frayn, “Copenhagen”, New York: Anchor, 2000.[4] Carl Djerassi e Roald Hoffmann, “Oxigénio”, Porto: Editora da Universidade do Porto, com prefácio de José Ferreira Gomes e tradução de Manuel João Monte.[5] Bertold Brecht, “Teatro Completo”, vol. 6 (de um total de 12), “Os fuzis da Senhora Carrar, Vida de Galileu e Mãe Coragem e os seus filhos”, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 3ª ed., 1991, tradução de Roberto Schwartz da versão original da "Vida de Galileu".[6] Bertold Brecht, “Vida de Galileu”, Lisboa: Portugália, 1970, trad. de Yvette Centeno.[7] Paulo Quintela, “Obra Completa”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 5 vols., 1996-2001, Ludwig Scheidl, António Sousa Ribeiro, Carlos Guimarães e Maria Helena Simões (orgs.).[8] Maria M. Gouveia Delille (coord.), “Do Pobre B. B. Em Portugal: a recepção dos dramas Mutter Courage und ihre Kinder e Leben des Galilei”, Coimbra: Minerva, 1998, estudos de M. Antónia Teixeira e M. Fátima Gil.
September 8 2010, 5:59pm | Comments »
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A MECÂNICA DE DEUS
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/mecanica-de-deus.html
Apresento aqui, numa gravação feita no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, um livro sobre ciência e religião.
September 8 2010, 12:49pm | Comments »
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Ouça um bom conselho...
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/ouca-um-bom-conselho.html
Transcrição de parte do artigo de Maria João Guimarães e Nicolau Ferreira publicado na revista "Pública" de domingo passado sobre receber e dar conselhos:Escolher o terceiro caminho"A única frase que o físico e professor catedrático da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais considera aproximar-se de um conselho que procura seguir leu-a num livro e é em si mesmo um anticonselho. "Entre dois caminhos, escolhe sempre o terceiro", lembra Carlos Fiolhais à Pública. "Na área dos negócios, é o pensar 'out of the box' ", acrescentou. É uma ideia que sugere utilizar a nossa criatividade para olhar para o mundo fora das fronteiras que alguém estabeleceu por nós. "Somos confrontados com problemas que parecem ser binários, e às vezes há uma escolha ao lado que é a resposta." Fiolhais conta que se lembra de ler a frase num livro, quando era adolescente. Era um conselho dado pelas mães judias aos seus filhos. O físico associa esta frase à história dos judeus, quando durante a II Guerra Mundial as escolhas eram entre lutar e entregar-se aos alemães - e nas duas situações o destino seria trágico. A terceira opção poderia ser fugir.Na realidade científica, o terceiro caminho é muito utilizado e pode ser de ouro. "Niels Bohr, prémio Nobel da Física, um dos mais importantes físicos do mundo, talvez tão importante como Einstein, aconselhava sempre os seus alunos a pensar ao lado. O génio é isso, é ir para o caminho que não nos é dado." O físico de Coimbra conta que faz no seu trabalho científico este esforço permanente de "pensar ao lado", de verificar sempre a possibilidade contrária do caminho A ou do caminho B. Bohr dizia que "o oposto de uma verdade absoluta pode bem ser outra verdade absoluta." Fiolhais pergunta: "O oposto de A ou B não será também algo viável?"Carlos Fiolhais explica que mesmo na sua vida particular este conselho já o ajudou: "Todos temos problemas, e pensamos que a solução ou é uma coisa ou é outra..." Fica de pé atrás quando se fala em conselhos tradicionais. "São vias de obediência, às vezes de uma forma amigável e paternalista, mas são autoritários", diz. "O livro 'O Segredo' [de Rhonda Byrne] é um manual de conselhos, é puro lixo intelectual. Desconfio sempre de conselhos."O físico prefere servir-se de referências, de pessoas como os seus pais ou alguns professores que se tornaram exemplos. "Mais do que ouvir palavras de orientação, o importante é olhar para a vida das pessoas", defende. Continuando na senda de mostrar que uma verdade e o seu contrário podem ser compatíveis, conclui: "Tenho 54 anos, já tenho idade para não dar conselhos." "Na foto: Niels Bohr e Einstein.
September 6 2010, 5:02pm | Comments »
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O condomínio fechado
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/o-condominio-fechado.html
Texto de João Boavida, a propósito do texto - Se não se passa em Lisboa, então não aconteceu - da autoria de Norberto Pires.Durante as férias (7/8/2010), o jornal Expresso publicou um trabalho intitulado Portugueses criam duas invenções por dia. Embora trate da grande evolução da ciência em Portugal, nas duas últimas décadas, refere-se sobretudo ao registo de patentes. E numa altura do ano estratégica, a da candidatura dos novos estudantes universitários, é uma propaganda ao Instituto Superior Técnico. Se é publicidade, sendo encapotada, não fica bem ao jornal, que se orgulha dos seus princípios, se não foi publicidade, é um mau trabalho jornalístico.Norberto Pires, o Presidente do Iparque, ripostou neste blogue, revelando no seu texto indignação com a estreiteza de vistas que o artigo revela, sublinnho que se esquece significativamente o que se passa no Porto e de Coimbra, e de tudo o que, em aspectos importantes, se faz no resto do País, sugere até perguntas que, segundo ele, deveriam ser feitas às universidades:1. Quantas empresas foram criadas pelos seus alunos?2. Quantos empregos foram criados por essas empresas?3. Qual o volume de negócios dessas empresas?4. Quanto representam do PIB nacional?5. Dos seus docentes e investigadores quantas patentes resultaram?6. Quantas foram vendidas e deram lucro?7. Quantas deram origem a spin-offs?8. Qual o impacto da universidade nas exportações portuguesas?9. Qual o valor acrescentado de um aluno da universidade/politécnico: custa quanto e vale quanto?10. Qual o impacto da universidade/politécnico no cenário internacional de I&D: docentes e investigadores?11. Quantos projectos europeus têm as universidades/politécnicos?12. Quanto valem os projectos europeus em percentagem do orçamento da Universidade?Avaliando estes itens, divulgando e estimulando os que efectivamente estão a trabalhar bem, produziríamos em poucos anos uma profunda melhoria do País. Mas, interessará isto aos lisboetas e aos que andam pelos domínios do poder resolvendo arduamente os problemas nacionais? Duvido. Por outro lado, não me espanta este tipo de trabalhos por parte do Expresso, que, todavia, mea culpa, leio desde o 1.º número, com alguns intervalos. Sempre foi um jornal assumidamente lisboeta, por vezes mesmo acintosamente lisboeta. Sempre viveu entre a alta finança, a política, nem sempre pelos melhores caminhos, muita fofoquice sob presunções balofas e o desdém pelo resto do País. Tudo tiques de quem vive na capital e acha isso uma grande coisa.Não o dizem, mas dão-no a entender, de muitas formas e sempre que podem. Sabem que para uma certa cultura feita de ideias correntes o Expresso é uma Bíblia, e assim colaboram para aprofundar o fosse entre Lisboa e o resto do país. Reconhecem que a capital tem vindo, desde há muito e em virtude de políticas sem visão, a exaurir Portugal, mas acham isso bem e cavalgam alegremente a anomalia em vez de a tentar emendar.Ignorando tudo o que se tem feito em muitas universidades portuguesas, um enorme esforço na investigação científica, na interacção com o mundo empresarial e na criação de empresas, podem apresentar, com cândida inocência, aquilo em que o Técnico leva vantagem. Estão assim as coisas. Um dos nossos dramas é que temos órgãos de comunicação ditos nacionais que, de facto e assumidamente são de Lisboa, e defendem a sua terra com um espírito mais provinciano que os da Província. Para se sentirem alguém têm de esquecer estrategicamente tudo o que de importante se passa em Portugal. Parecem não perceber até que ponto isto faz crescer a mediocridade geral, e portanto também a deles. Ao diminuir os outros para se sentirem alguém, o que fazem é aumentar o desequilíbrio entre Lisboa e o resto. É óbvio que acabam por sofrer com o mal nacional, e que transformando Lisboa num condomínio fechado criam em volta um círculo viciosamente crescente de favelas, que os vai matando, mas julgam que não. Será que a inteligência não lhes dá para mais?João Boavida
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September 5 2010, 11:52am | Comments »
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HAWKING E DEUS
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Habitual destaque à coluna semanal de Robert Park:"STEPHEN HAWKING: HIS BRILLIANT THEORY OF HOW TO MARKET A BOOKSend copies to all the pompous nincompoops it will offend. That's it! They will sell it for you. BBC News today published their reactions to Hawking's new book in which he says that science can explain the origin of the universe without invoking God. This is "naturalism," the dominant philosophy of science in the 21st century. It restates the first law of science discovered by Thales of Miletus in 585 BC: for every observable effect, there is a physical cause. I don't have Hawking's book, so I don't know exactly how he said it, but I would have preferred to say: "invoking God would not help me to explain the origin of the universe.” Hawking explains that the existence of gravity means the universe created itself from nothing. The first offended pompous nincompoop was Chief Rabbi Lord Sacks in the Times: "What would we do for entertainment without scientists telling us with breathless excitement that God did not create the universe as if they were the first to discover this astonishing proposition." Yes, and did you learn anything?"Robert Park
September 3 2010, 6:58pm | Comments »
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E o que é que havia antes do Big Bang?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/e-o-que-e-que-havia-antes-do-big-bang.html
Fernando Alvim faz perguntas difíceis de cosmologia...
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September 2 2010, 11:54am | Comments »







