Parte de uma entrevista que dei a um estudante da Faculdade de Letras de Coimbra, que :P- Que características definem o conceito de cultura científica em Portugal? R- A ciência é universal e o conceito de “cultura científica” é o mesmo aqui e em qualquer parte do mundo: a expressão refere-se à parte da vasta cultura humana que tem a ver mais de perto com o empreendimento científico, que de uma forma muito resumida pode ser entendido como a aquisição de conhecimento sobre o mundo. Afirmar que a “ciência é parte da cultura” é ultrapassar a famosa questão das “duas culturas”, a literária e a científica, que C.P. Snow colocou em 1959. Não há duas culturas, mas uma só, sendo a ciência parte inalienável dela. A posse de cultura científica é hoje considerada uma condição de cidadania, isto é, de pertença à sociedade. Mas pergunta-me por Portugal. O nosso país caracteriza-se por uma cultura científica ainda pouco generalizada, resultado de um atraso no cultivo da ciência e na disseminação dela aos cidadãos. Precisamos de mais cultura científica de modo a evitar que, entre nós, muita gente pense que a ciência e a cultura estão divorciadas.P- Quais os principais elementos que diferenciam a cultura cientifica de outras variantes da cultura?R- Uma das marcas maiores da ciência é o reconhecimento do erro. Ora, se um resultado científico pode estar errado, julgo que nunca se poderá dizer o mesmo de uma obra de arte. Os critérios de validação da ciência – principalmente o uso do raciocínio lógico e a concordância com a observação ou a experiência - são decerto diferentes dos de outras actividades humanas. Apesar disso, outras áreas da cultura, por muito distintas que sejam da ciência, podem e devem cruzar-se com ela, para enriquecimento mútuo. As artes em geral, que a generalidade dos cidadãos associa mais rapidamente à cultura, constituem uma dessas áreas, abrangendo subáreas como a literatura, as artes plásticas, as artes de palco, etc. Cada vez mais se tem assistido à intersecção da cultura artística com a cultura científica: por exemplo, obras de arte buscam inspiração na ciência e a ciência reinvindica o uso de elementos ou critérios estéticos. Julgo que nessa aproximação não há qualquer risco de confusão ou sincretismo. Um cientista precisa de ter imaginação, mas a sua imaginação não pode ser tão livre como a do artista, tem de estar contida na “camisa de forças” que é a realidade.P- Como qualifica o actual estado da cultura científica em Portugal?R- Melhorou muito nos últimos anos, com o investimento enorme que houve na ciência e na sua difusão pública no último quarto de século. Mas o ponto de partida era muito baixo. Assim, há inquéritos internacionais recentes de sociologia da ciência que mostram que os portugueses têm na sua relação com a ciência dificuldades maiores do que as de outros povos europeus. Se muito foi feito, muito há ainda a fazer neste domínio.P- O que acha que pode ser feito para melhorar a aprendizagem das ciências e a divulgação de cultura científica em Portugal?R- O ensino da ciência deve ser feito em larga medida na escola e aí tem residido a nossa mais importante falha. O ensino formal da ciência, como é revelado por indicadores internos (resultados dos exames de disciplinas científicas) e por comparações internacionais (PISA e TIMMS), não tem revelado progressos satisfatórios. Ora essa situação não pode ser inteiramente colmatada por via do ensino informal da ciência que sempre se efectua quando há divulgação da cultura científica (através dos média, dos museus e centros de ciência, etc.). Arriscaria dizer que, nos últimos anos, progredimos mais no ensino informal do que no ensino formal da ciência, mas o progresso tanto de um modo como doutro não foi suficiente. Importa, por isso, enfrentar em particular o problema da ciência na escola, começando, na minha opinião, o mais cedo possível. O recurso à experimentação no ensino básico (e, antes disso, mesmo no jardim-escola) é uma via que nos falta percorrer de uma forma mais convicta e eficaz. Para isso, é mister formar mais adequadamente professores desse nível de ensino, melhorar currículos e fornecer bons materiais. Claro que, ao fazer isto na escola, tem de se continuar a fazer tudo aquilo o que já se faz fora da escola, como acontece nas actividades do Ciência Viva, e sempre que possível em coligação com a escola.P- Qual é o papel do governo na divulgação do conhecimento e da cultura científica?R- A causa da ciência e da cultura científica é uma causa pública. Diz, portanto, respeito ao governo no qual, em democracia, delegamos a organização da escola pública e dos meios públicos de promoção da cultura científica. Sem investimento público não podemos esperar que a ciência cresça e a cultura científica avance. É também para isso que pagamos os nossos impostos e participamos em eleições. Mas essa delegação não nos isenta das nossas responsabilidades. A causa da ciência diz respeito às empresas e outras instituições privadas, assim como, em geral, aos cidadãos, na medida dos seus saberes e possibilidades. Parte substancial do investimento em ciência e cultura científica deve ser não governamental. Nas sociedades mais avançadas as empresas e os cidadãos dispõem de amplo espaço de iniciativa e podem envidar esforços que se somam ao esforço dos governos. Apesar de alguma aproximação no passado mais recente, Portugal não alcançou ainda um estádio de desenvolvimento suficiente para que o investimento privado na ciência exceda largamente o público, como acontece por exemplo nos países do Norte da Europa.P- Qual foi o impulso dado à cultura científica pelo programa Ciência Viva?R- A Agência Ciência Viva tem concretizado vários projectos, que confluem todos eles na defesa e alargamento da cultura científica. Sem o Ciência Viva estaríamos muito piores. Foi uma das boas ideias que frutificaram entre nós nos últimos tempos e só espero que continue o bom trabalho que tem realizado. Em Coimbra, temos desde há pouco tempo o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho a funcionar em pleno, em homenagem ao grande poeta e divulgador de ciência.P- Qual foi o papel da “Física Divertida” no panorama nacional da divulgação científica?R- “Física Divertida” é um livro que escrevi em 1991 e que teve uma sequela, há três anos, com “Nova Física Divertida”. Nesses livros apenas pretendi contar algumas histórias da física, clássica primeira e moderna depois, de uma maneira compreensível para um público alargado, na tradição de outros livros de divulgação científica. Se o consegui ou não, não sei. Não posso ser juiz em causa própria.P- Acha que existe um público alvo para a cultura científica, ou assimilação desta é universal e acessível a todas as faixas etárias e classes sociais?R- A cultura científica deve ser de todos. Em particular, é para todas as idades, e é tanto para pobres como para ricos. Claro que os mais jovens estão numa fase da vida mais particularmente susceptível à aprendizagem, na fase em que frequentam a escola. E claro que os pobres ficarão ainda mais pobres se, na escola e fora dela, não lhes for proporcionada a cultura científica. Deve haver uma atenção especial tanto para os mais jovens como para os mais pobres.P- À luz do conhecimento cientifico hoje existente, e considerando que o progresso é imparável, quais são os limites impostos à ciência pela ética?R- A ciência tem de ser acompanhada por consciência, isto é, não pode desenvolver-se sem a ética. Pode-se fazer muita coisa na investigação científica, mas nem tudo se deverá fazer. Os limites devem ser impostos não apenas pelos próprios cientistas, mas pela sociedade em geral. Esses limites têm de ser continuamente pensados e redefinidos.P- Se alguém lhe dissesse que é possível alcançar a verdade absoluta que resposta daria?R- É possível, de facto, alcançar o conhecimento, como mostra toda a história da ciência. Quanto à “verdade absoluta”, não sei o que é isso. A ciência é cumulativa, isto é, cada vez se sabe mais e o que se sabe de novo não prejudica tudo o que se sabe, mas apenas uma pequena parte. Como este processo tem sido contínuo, é difícil defender, em ciência, o conceito de “verdade absoluta”. Mas é perigoso cair na contingência e no relativismo: há conhecimentos que foram adquiridos e que não vão mudar, como, por exemplo, a Terra é o terceiro planeta mais distante do Sol, que o nosso corpo é feito de células, etc.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Sobre a cultura científica
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July 21 2010, 10:20am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
POR UM NOVO MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
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Está hoje em discussão o futuro dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa. Sem querer "meter a foice em seara alheia", dou, tal como me foi pedido, a minha contribuição, como cidadão interessado pela cultura científica:1. Os actuais “Museus da Politécnica” da Universidade de Lisboa, juntamente com o Jardim Botânico a eles anexo, ocupam um espaço nobre e histórico da cidade de Lisboa e albergam um notável património científico que importa sobremaneira cuidar, valorizar e promover. Um grande projecto científico-cultural que envolvesse a universidade e a cidade deveria proporcionar um novo centro de atracção na capital. Por outro lado, é uma oportunidade para a Universidade e para o país de tratar de modo profissional todo os eu património científico (incluindo espólio de medicina e astronomia que está noutros sítios, e que corresponde a um legado de importantes actividades científicas nos séculos XIX e XX). Acima de tudo, representa uma oportunidade de a Universidade se abrir ainda mais à cidade, ao país e ao mundo, promovendo a cultura científica para o maior número possível de cidadãos2. A actual situação, com dois museus em larga medida divorciados um do outro, é insustentável. Ao défice de uma estratégia conjunta e à não optimização dos custos de gestão e “marketing”, acresce o facto de se revelar confuso para o visitante o actual trajecto dentro do espaço. Fez bem, portanto, a Comissão Internacional que apresentou um relatório sobre os museus em propor a constituição de um único Museu de Ciência. Caminhar nessa direcção representaria não só uma sinergia de esforços mas também uma economia de investimento. E significaria desistir de uma tradição de isolamento das várias áreas disciplinares, que é feita tendo em atenção interesses particulares e não o interesse geral do público. A moderna ciência é, de resto, altamente interdisciplinar.3. O novo museu exige uma refundação que pressupõe um novo nome (procurando, por exemplo, um patrono num dos nomes históricos da ciência em Portugal: Pedro Nunes, Garcia da Horta, Domingos Vandelli, Egas Moniz?) e um novo programa, que deve ser procurado de um modo o mais colectivo possível. Não é curial que o novo Museu seja desde já baptizado com o nome de um dos dois museus actualmente coligados sob a designação de “Museus da Politécnica”. Não andou bem, por isso, a referida Comissão ao propor o nome de “Museu Nacional de História Natural” para o novo Museu. Se se tivesse de escolher uma das actuais, “Museu de Ciência” seria uma designação mais abrangente do que História Natural pois esta faz parte da Ciência e não vice-versa. A concretização desta proposta da Comissão levaria provavelmente à exacerbação de tensões internas em vez de ajudar na indispensável colaboração dos vários sectores disciplinares no projecto, para além da perda, sem honra nem glória, do actual Museu de Ciência. Além disso, as colecções de História Natural existentes em Lisboa, apesar do seu indubitável valor, não justificam essa designação (o último incêndio foi uma catástrofe!). Por último, a escolha do nome sugerido conduziria à desvalorização ou eventualmente exclusão do magnífico Laboratório Químico e do notável Observatório Astronómico, cuja ligação à História Natural só dificilmente é justificável.4. Existindo outras Universidades portuguesas (Coimbra e Porto) com espólios científicos do mesmo tipo, impõe-se, num país pequeno, de escassos recursos e ainda por cima numa situação de crise, que haja uma colaboração eficaz entre elas, numa estrutura em rede, quer no trabalho técnico de organização e mostra, tanto real como virtual, das colecções, quer ainda na permuta de exposições temporárias ou, pelo menos, de instrumentos, objectos e documentos a incluir nestas. A ligação entre Lisboa e Coimbra, em particular, devia ser reforçada, atendendo até à história comum (Museu da Ajuda devido a Vandelli, Gabinete de Física em Coimbra com origem no Colégio dos Nobres, etc.) A reivindicação junto do governo da nação – que, infelizmente, tem olvidado quase por completo o património científico – de condições de trabalho adequadas poderia e deveria ser conjunta, aumentando com isso a sua probabilidade de êxito. Programas específicos de apoio deveriam contemplar de modo diferenciado o que é específico nas instituições de ensino superior, complementando algoritmos de distribuição orçamental baseados quase só no número de alunos. Essa reivindicação não deve fazer esquecer a angariação de apoios que tem de ser feita junto da sociedade em geral. A sociedade, para ter memória e identidade, necessita da preservação e exibição em condições adequadas do património científico. E este necessita, decerto, de toda a ajuda que a sociedade lhe puder dar.
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June 21 2010, 7:23pm | Comments »
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