Não bastaram aos Gregos dez anos de combate junto às muralhas de Ílion para tomarem a cidade de Príamo. Não bastaram os esforços de grandes guerreiros como Diomedes, Ájax, Agamémnon, Menelau, Pátroclo ou Nestor, nem sequer as inigualáveis qualidades bélicas de Aquiles (que tiraria a vida a Heitor, o combatente mais emblemático do lado troiano), para fazer com que Páris expiasse o sacrilégio de haver raptado Helena, a bela esposa de Menelau, seu antigo anfitrião.O que a força bruta das armas não havia conseguido, irá ser alcançado pelo subtil recurso à imaginação: os Aqueus fingem desistir da campanha, que já inúmeras vidas tinha ceifado, queimam as tendas e zarpam nas suas côncavas naus. Na praia troiana deixam, como oferta aos deuses, em aparente sinal de capitulação, um cavalo de madeira. Iludidos pela expectativa de verem o fim a tamanhas tribulações, os Troianos dividem¬ se quanto ao destino a dar à insólita oferta: deveriam rachar¬ lhe a madeira com o bronze impiedoso dos machados, precipitᬠla num abismo, ou antes acolhê¬ la no interior da cidade?Mas a pressurosa esperança é irmã gémea da imprevidência. Prevaleceu o terceiro parecer e, juntamente com o cavalo, os súbditos de Príamo trouxeram até si a morte ruinosa. Levados por um incauto sentimento de vitória, não se aperceberam de que o interior oco da besta se encontrava recheado com a elite dos guerreiros gregos, que em breve iriam sair, a coberto da noite e da cega embriaguez do inimigo. Sepultados pelo vinho abundante dos festejos, foram muitos os Troianos que logo passaram do torpor do sono à frigidez eterna da morte. E com eles, perecia também Ílion.Este relato, que marca o fim de Tróia, não o ficamos a conhecer na Ilíada, mas somente na Odisseia (canto VIII, vv. 469-520), pela boca de Demódoco (o aedo da corte dos Feaces), a pedido de Ulisses. E são as lágrimas do herói, emocionado ao escutar o belo canto, que levam o rei (Alcínoo) a desconfiar da verdadeira identidade do esgotado hóspede que acolhera no palácio.O valor mais cultivado pelo herói homérico é a noção de excelência (arete, em grego), um conceito que se traduz, na prática, na forma como cada guerreiro se distingue no campo de batalha e no hábil uso que faz da palavra, quando se encontra reunido com os seus pares. A estas qualidades, que marcam todos os grandes guerreiros tanto do lado grego como troiano (o tratamento positivo de Heitor é o exemplo máximo da imparcialidade de Homero), Ulisses vem acrescentar a astúcia, visível tanto na destreza diplomática como na capacidade para deslindar situações difíceis. É isso que justifica o seu epíteto específico de ‘herói dos mil artifícios’ (polymetis ou polymechanos) ou, para dizer de outra forma, o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação. É isso, também, que torna a Odisseia na grande precursora de todo o tipo de literatura de viagens e de aventuras.No entanto, a epopeia homérica constitui, igualmente, um poema de saudade (de nostos), a expressão de um desejo imenso de regressar à segurança de Ítaca, ao ponto de partida. Assim, a mesma imaginação fulgurante que torna Ulisses na incarnação da curiosidade e do espírito agónico característico da mentalidade grega — e, por extensão, do ser humano em geral — comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. E de novo o paradigma homérico se revela esclarecedor: Ulisses, o inventor dos mil expedientes, é também o ‘herói que muito sofreu’ (polytlas), pois não hesitou em aceitar novos desafios, mesmo que deles viesse a resultar um prejuízo pessoal imediato, mas que o tempo saberia compensar.Alem de Penélope, Ulisses deixou em Ítaca também um filho, que o não conhece e por isso mesmo tem de partir, para saber de fonte segura, junto de outros heróis que tenham combatido na longínqua planície troiana, os notáveis feitos que o pai havia cometido. É que não bastava ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses. Também uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já a Odisseia nos faz compreender essa realidade, ao fazer Telémaco sair de Ítaca – em busca do pai, em busca do seu lugar na aventura do conhecimento.Delfim Leão
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Telémaco, filho de Ulisses
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February 17 2011, 4:51am | Comments »
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Astérix, Obélix e os Romanos – O ensino do Latim em França
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Texto da autoria da nossa leitora Maria José Prata, professora na Alemanha. Em época de votos vários, formulo o seguinte: que este texto seja (mais) um contributo para pensarmos na importância da (re)integração) da cultura clássica nos currículos escolares.As línguas e culturas da Antiguidade Clássica são matéria de estudo no sistema educativo francês. Acabei de ler isso mesmo numa folha informativa.Lembrando-me das frustradas campanhas bélicas das legiões romanas por terras gaulesas, perguntei-me se existiria alguma relação entre o agrado com que as aventuras de Astérix e Obélix continuam a desfrutar em França e o interesse em ensinar/aprender Latim no país.Será que o se divulgar humoristicamente, junto das crianças e dos adolescentes, uma cultura estranha e inimiga, porém, no caso da latina, contributo decisivo na formação da França, pode ser uma das formas para se ir despertando nos futuros alunos (e na sociedade) a compreensão pela necessidade de conhecer essa mesma cultura?Poderá o constante satirizar dos Romanos e das suas tentativas de colonização de toda a Gália - “Toda, não! Uma pequena aldeia gaulesa resiste e resistirá ainda e sempre ao invasor...” - insinuar todavia uma outra leitura? Abandonemo-nos à fantasia... Que língua falariam os franceses e qual seria a cultura francesa, se essa aldeia de invencíveis querreiros gauleses tivesse historicamente dominado e repelido o invasor romano de toda a Gália?Para além dos conhecimentos reais ou fictícios sobre o mundo dos Romanos que os livros de Uderzo e Goscinny tão divertidamente caricaturaram, o sistema do ensino secundário francês, que engloba as classes do sexto ao nono ano (usando a terminologia portuguesa) da escolaridade obrigatória, chamado Collège, prevê a aprendizagem facultativa do latim desde a sétima, e do grego antigo a partir da oitava classe.Resta-me perguntar agora que propósitos científicos e pedagógicos tiveram em mente os responsáveis pelas orientações curriculares para o ensino das Línguas e das Culturas da Antiguidade no Collège?Analisando o preâmbulo do programa de Línguas e Culturas da Antiguidade para o Collège, publicado no Bulletin Officiel n.˚ 31 de 27 de Agosto de 2009 do Ministério da Educação Nacional, deparamo-nos com um vasto leque de razões consistentes, fundamentadas teoricamente. Assim, os seus organizadores invocam que a cultura humanista, através da análise e da interpretação de textos literários clássicos, de géneros variados e provenientes de épocas diferentes, permite ao aluno descobrir directa e pessoalmente a riqueza das ideias originárias da visão do mundo característica do Ocidente, das criações artísticas que a espelham, das formas de organização social e política que a distingue, e apetrecham o aluno com coordenadas que o ajudam a perspectivar e a questionar as representações do mundo que a nossa sociedade de informação lhe fornece a par e passo.O estudo dos textos clássicos, afirmam os responsáveis pela conceptualização do referido programa escolar, conduz o aluno ao encontro da multiplicidade de formas que a língua francesa deriva do Latim, desenvolvendo o seu léxico e favorecendo “notavelmente” a aprendizagem de línguas estrangeiras, nomeadamente de línguas europeias. Para ler e entender os textos antigos, argumenta-se no referido programa, o aluno precisa de analisar com lógica o funcionamento da língua que estuda. Ele precisa de dominar conhecimentos lexicais e gramaticais da língua a traduzir e da sua; através da imprescindível comparação das duas línguas e na construção progressiva do sentido do texto traduzido, o aluno irá aprimorando os conhecimentos sobre a sua própria língua. A prática orientada e sistemática de leitura e de tradução desenvolverá no aluno competências evolutivas de leitura, de compreensão de textos e de escrita em francês transferíveis para âmbitos multidisciplinares.A leitura e interpretação de textos literários nos domínios da História, da vida citadina, pública e privada, e das representações do mundo incentivará o aluno a reflectir sobre conceitos sociais e morais e a confrontá-los com os parâmetros que regem o seu pensar e agir social.O estudo da Antiguidade Clássica, defende-se no programa, contribui para que os jovens conheçam e relacionem as produções artísticas clássicas com as produções posteriores. Contribui pois para que eles identifiquem na diversidade das artes e das culturas as raízes do nosso imaginário colectivo, no qual se funda a cultura europeia que se tem revelado numa prodigalidade de formas artísticas. É a identidade europeia que assim ganha em sentido e profundidade para os jovens cidadãos europeus e neles desenvolve a consciência de pertença a uma História partilhada por uma comunidade de povos, individuais, habitantes de um vasto espaço geográfico e político comum, com decisivas repercussões para cada povo.Todas estas razões justificativas da presença – se bem que facultativa – das Línguas e Culturas da Antiguidade, do sétimo ao nono ano da escolaridade francesa obrigatória, parecem resultar de um trabalho de estudo e de amadurecimento conceptual que perspectiva o ensino como um meio de transmitir saberes e de desenvolver as aptidões cognitivas dos alunos. Receia-se, porém, ter de assinalar a ausência de reflexões similares e práticas subsequentes junto dos responsáveis pela elaboração curricular do ensino secundário português no respeitante ao ensino das línguas.Termino com uma conhecida frase da autoria dos heróis gauleses, vertida para o Português, e que o leitor poderá, se quiser, relacionando-a com a realidade do ensino das línguas em Portugal, alterá-la (ou não) como entender: “São doidos estes Romanos!”Maria José Prata
December 24 2010, 6:55am | Comments »
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Curso Intensivo de Latim
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/curso-intensivo-de-latim.html
Face à ausência do Latim no currículo do Ensino Básico e quase ausência do currículo do Ensino Secundário, é com grande alegria que divulgamos um Curso Intensivo de Latim que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 10 a 21 de Janeiro de 2011, entre as 16.00 e as 19.00 horas.Apresentação: O Curso oferece uma introdução à língua latina como chave de acesso a todo um património literário, científico, filosófico, jurídico, artístico e espiritual, de que é herdeiro todo o Ocidente. Estudar-se-ão textos simples, preferencialmente adaptados e seleccionados de acordo com a formação do público inscrito, passando por pequenas expressões latinas, densas de significado, que tendem a ser usadas erroneamente ou antes a ser suprimidas.O curso integra um forte componente gramatical (que inclui a aquisição das principais estruturas da língua) com o estudo ocasional da etimologia que ilumina as diversas línguas maternas. Pretende assim ser também um auxílio para todos quantos desejam conhecer e dominar melhor as estruturas da sua própria língua.Público-alvo: Investigadores (de todas as áreas), estudantes de 2.º ou de 3.º ciclo, historiadores, arqueólogos, juristas, músicos e musicólogos, eclesiásticos e religiosos, bibliotecários, arquivistas, profissionais de comunicação, professores, jovens licenciados, ou todos quantos, por interesse próprio, desejem iniciar-se no estudo da língua latina, ou simplesmente renovar as suas competências e recuperar o estudo que fizeram há anos.Mais informações aqui.
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December 18 2010, 12:32pm | Comments »
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Conto de amor e psique
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Nota de apresentação que escrevi (Delfim Leão) para a tradução que fiz do Conto de Amor e Psique, de Apuleio, editada pela Cotovia:A parte central do romance latino O burro de ouro, de Apuleio, é ocupada pelo justamente célebre Conto de Amor e Psique, que tem sido alvo de imensas interpretações, a começar pela leitura alegórica do conto enquanto manifestação da vontade imensa, própria da ‘alma’ humana (Psique), de atingir a dimensão divina e a realização de um amor sublime. Esta e outras abordagens são de facto possíveis e expressivas da riqueza de análise que acompanha O burro de ouro.No entanto, esta longa digressão, cuja estratégia narrativa assenta na estrutura básica do conto popular de fadas, possui igualmente uma pertinência directa para a situação que Lúcio (o protagonista de O burro de ouro, entretanto transformado em asno por causa de um mau uso das artes mágicas) está a viver e, por conseguinte, para a economia global do romance. Pesem embora as diferenças de pormenor, tanto Psique como Lúcio acabam por seguir um trajecto idêntico: vivem experiências extremas motivadas por uma curiositas excessiva, até que, já no limiar da morte, são resgatados por intervenção divina para uma existência superior.Psique junta‑se finalmente e de forma legítima ao Amor, depois de um processo de apoteose; Lúcio conseguirá livrar‑se do aspecto asinino, por graça de Ísis, em cujos mistérios será iniciado, ficando ao serviço da deusa. A bella fabella constitui, pois,uma promessa de libertação, mas Lúcio apreende somente a beleza do relato, pois nele (como de resto em Psique) a recompensa final decorre de um processo de maturação alcançado apenas no termo de um esforçado trajecto de aprendizagem.E uma breve passagem (5.21.5-23.6), que considero ser das mais belas páginas da literatura latina. Nela se relata o momento em que, convencida de que o marido desconhecido é um monstro, a jovem Psique descobre, extasiada, o Amor – para logo em seguida o perder.“21.5. Chegara a noite, chegara também o esposo e, depois de travadas as primeiras escaramuças amorosas, ele mergulha em sono profundo. 22.1. Então Psique, debilitada embora de corpo e espírito, apoia-se na crueza do destino, enche-se de forças, empunha a lucerna e pega na navalha, transformando em audácia a debilidade própria do sexo feminino. 2. Porém, quando aproxima a luz e lança a claridade sobre os segredos do leito, deparou com a mais encantadora e doce de todas as feras selvagens: Cupido em pessoa, o formoso deus, que repousava num quadro repleto de formosura! Perante esta visão, a luz da lucerna avivou-se com alegria e a navalha pôs-se a maldizer o fio sacrílego. 3. Quanto a Psique, ao ser sacudida por um tal espectáculo, perde o domínio de si. Vencida por uma lânguida palidez, tremebunda, sente os joelhos a ceder e tenta ocultar a arma, mas desta vez no próprio peito. 4. E não há dúvida de que o teria feito, se o ferro, assustado com a perspectiva de tamanho crime, se não houvesse escapado, ao deslizar das temerárias mãos. Esgotada já e sem esperança de salvação, recuperou no entanto a presença de espírito, ao remirar uma e outra vez a beleza do rosto divino. 5. Contempla uma nobre cabeleira num vulto de ouro e embebida em ambrósia, um colo de leitosa alvura, umas faces rosadas, uns anéis de cabelo esparzidos e harmoniosamente enredados, ora a pender para a frente ora para trás, cujo brilho era de tal maneira fulgurante que fazia vacilar a própria luz da lucerna. 6. Pelos ombros do deus alado, resplandecia uma penugem, com a candura das flores cintilantes, bafejadas pelo orvalho. E embora as asas estivessem em repouso, a fofinha e delicada plumagem das pontas bulia, sem parar, em caprichoso estremecimento. 7. O restante corpo era tão macio e brilhante que nem a própria Vénus se podia envergonhar de o haver trazido ao mundo. Aos pés do leito, jaziam arco, aljava e flechas, propícias armas do poderoso deus. 23.1. Cheia de curiosidade, Psique não saciou o espírito enquanto não se pôs a examinar, ver e admirar as armas do marido, a ponto de retirar da aljava uma flecha. 2. Ao experimentar a ponta no polegar, apertou com demasiada força o dedo ainda trémulo, de forma que, à superfície da pele, afloraram umas gotitas de róseo sangue.3. E assim aconteceu que, espontaneamente e sem dar conta disso, Psique ficou presa de amores pelo próprio Amor. Então, sente crescer em si cada vez mais a chama do desejo pelo deus do desejo; debruça-se sobre ele, ofegante de paixão, e recobre-o avidamente de largos e intensos beijos, receosa embora de lhe encurtar o sono. 4. Porém, enquanto continuava, de ânimo desfalecido, irresoluta e absorvida por tamanho gozo, a tal lucerna — fosse por extrema perfídia, por maliciosa inveja ou então pela impaciência de tocar ela mesma e de certa forma beijar um corpo assim tão belo — deixou cair da ponta luminosa um salpico de azeite a ferver sobre o ombro direito do deus. 5. Ah lucerna audaciosa e temerária, vil serviçal do amor! Vais queimar o próprio senhor de todo o fogo, quando foi pela certa um amante quem pela primeira vez te inventou, a fim de possuir durante mais tempo e noite dentro o objecto de seus desejos! 6. Mal sentiu a queimadela, o deus levantou-se de um salto e, ao compreender que a sua confiança havia sido traída e enxovalhada, apartou-se dos beijos e abraços da sua desgraçada esposa, fugindo a voar, sem nada lhe dizer.”Delfim F. Leão
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December 14 2010, 3:44pm | Comments »
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Conto de Amor e Psique
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Nota de apresentação que escrevi para a tradução que fiz do Conto de Amor e Psique, de Apuleio, editada pela Cotovia:A parte central do romance latino O burro de ouro, de Apuleio, é ocupada pelo justamente célebre Conto de Amor e Psique, que tem sido alvo de imensas interpretações, a começar pela leitura alegórica do conto enquanto manifestação da vontade imensa, própria da ‘alma’ humana (Psique), de atingir a dimensão divina e a realização de um amor sublime. Esta e outras abordagens são de facto possíveis e expressivas da riqueza de análise que acompanha O burro de ouro.No entanto, esta longa digressão, cuja estratégia narrativa assenta na estrutura básica do conto popular de fadas, possui igualmente uma pertinência directa para a situação que Lúcio (o protagonista de O burro de ouro, entretanto transformado em asno por causa de um mau uso das artes mágicas) está a viver e, por conseguinte, para a economia global do romance. Pesem embora as diferenças de pormenor, tanto Psique como Lúcio acabam por seguir um trajecto idêntico: vivem experiências extremas motivadas por uma curiositas excessiva, até que, já no limiar da morte, são resgatados por intervenção divina para uma existência superior.Psique junta‑se finalmente e de forma legítima ao Amor, depois de um processo de apoteose; Lúcio conseguirá livrar‑se do aspecto asinino, por graça de Ísis, em cujos mistérios será iniciado, ficando ao serviço da deusa. A bella fabella constitui, pois,uma promessa de libertação, mas Lúcio apreende somente a beleza do relato, pois nele (como de resto em Psique) a recompensa final decorre de um processo de maturação alcançado apenas no termo de um esforçado trajecto de aprendizagem.E uma breve passagem (5.21.5-23.6), que considero ser das mais belas páginas da literatura latina. Nela se relata o momento em que, convencida de que o marido desconhecido é um monstro, a jovem Psique descobre, extasiada, o Amor – para logo em seguida o perder.“21.5. Chegara a noite, chegara também o esposo e, depois de travadas as primeiras escaramuças amorosas, ele mergulha em sono profundo. 22.1. Então Psique, debilitada embora de corpo e espírito, apoia-se na crueza do destino, enche-se de forças, empunha a lucerna e pega na navalha, transformando em audácia a debilidade própria do sexo feminino. 2. Porém, quando aproxima a luz e lança a claridade sobre os segredos do leito, deparou com a mais encantadora e doce de todas as feras selvagens: Cupido em pessoa, o formoso deus, que repousava num quadro repleto de formosura! Perante esta visão, a luz da lucerna avivou-se com alegria e a navalha pôs-se a maldizer o fio sacrílego. 3. Quanto a Psique, ao ser sacudida por um tal espectáculo, perde o domínio de si. Vencida por uma lânguida palidez, tremebunda, sente os joelhos a ceder e tenta ocultar a arma, mas desta vez no próprio peito. 4. E não há dúvida de que o teria feito, se o ferro, assustado com a perspectiva de tamanho crime, se não houvesse escapado, ao deslizar das temerárias mãos. Esgotada já e sem esperança de salvação, recuperou no entanto a presença de espírito, ao remirar uma e outra vez a beleza do rosto divino. 5. Contempla uma nobre cabeleira num vulto de ouro e embebida em ambrósia, um colo de leitosa alvura, umas faces rosadas, uns anéis de cabelo esparzidos e harmoniosamente enredados, ora a pender para a frente ora para trás, cujo brilho era de tal maneira fulgurante que fazia vacilar a própria luz da lucerna. 6. Pelos ombros do deus alado, resplandecia uma penugem, com a candura das flores cintilantes, bafejadas pelo orvalho. E embora as asas estivessem em repouso, a fofinha e delicada plumagem das pontas bulia, sem parar, em caprichoso estremecimento. 7. O restante corpo era tão macio e brilhante que nem a própria Vénus se podia envergonhar de o haver trazido ao mundo. Aos pés do leito, jaziam arco, aljava e flechas, propícias armas do poderoso deus. 23.1. Cheia de curiosidade, Psique não saciou o espírito enquanto não se pôs a examinar, ver e admirar as armas do marido, a ponto de retirar da aljava uma flecha. 2. Ao experimentar a ponta no polegar, apertou com demasiada força o dedo ainda trémulo, de forma que, à superfície da pele, afloraram umas gotitas de róseo sangue.3. E assim aconteceu que, espontaneamente e sem dar conta disso, Psique ficou presa de amores pelo próprio Amor. Então, sente crescer em si cada vez mais a chama do desejo pelo deus do desejo; debruça-se sobre ele, ofegante de paixão, e recobre-o avidamente de largos e intensos beijos, receosa embora de lhe encurtar o sono. 4. Porém, enquanto continuava, de ânimo desfalecido, irresoluta e absorvida por tamanho gozo, a tal lucerna — fosse por extrema perfídia, por maliciosa inveja ou então pela impaciência de tocar ela mesma e de certa forma beijar um corpo assim tão belo — deixou cair da ponta luminosa um salpico de azeite a ferver sobre o ombro direito do deus. 5. Ah lucerna audaciosa e temerária, vil serviçal do amor! Vais queimar o próprio senhor de todo o fogo, quando foi pela certa um amante quem pela primeira vez te inventou, a fim de possuir durante mais tempo e noite dentro o objecto de seus desejos! 6. Mal sentiu a queimadela, o deus levantou-se de um salto e, ao compreender que a sua confiança havia sido traída e enxovalhada, apartou-se dos beijos e abraços da sua desgraçada esposa, fugindo a voar, sem nada lhe dizer.” Delfim F. Leão
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December 14 2010, 11:55am | Comments »
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História da Guerra do Peloponeso de Tucídides
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/historia-da-guerra-do-peloponeso-de.html
Informação chegada ao De Rerum Natura.Lançamento da versão portuguesa da História da Guerra do Peloponeso de Tucídides, traduzida por Raul Rosado Fernandes e M. Gabriela P. Granwehr no dia 16 de de Dezembro, às 18h30, na Galeria de Exposições Temporárias da Loja do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.
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December 4 2010, 1:22pm | Comments »
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Três novos livros da Classica Digitalia
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Informação recebida da Classica DigitaliaTrês novos livros editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital.Colecção Humanitas Supplementum (Estudos) - Francisco de Oliveira, Jorge de Oliveira e Manuel Patrício: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 3 – História, Arqueologia e Arte (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010).Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Textos Latinos - Carlota Miranda Urbano: Santo Agostinho. O De Excidio Vrbis e outros sermões sobre a queda de Roma. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/ CECH, 2010).Série Varia - Nair de Nazaré Castro Soares, Diogo de Teive. Tragédia do Príncipe João. Introdução, texto, versão e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010).
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November 30 2010, 4:30am | Comments »
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A queda de Roma e o alvorecer da Europa
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Informação chegada ao De Rerum Natura.Nos próximos dias 2 e 3 de Dezembro, realizar-se-á, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Colóquio A queda de Roma e o alvorecer da Europa..Mais informações aqui.
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November 25 2010, 1:46pm | Comments »
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Dez grandes estadistas atenienses
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/dez-grandes-estadistas-atenienses.html
O livro Dez grandes estadistas atenienses, recentemente publicado pelas Edições 70, da autoria de José Ribeiro Ferreira e Delfim Leão resulta da confluência de investigação desenvolvida, ao longo de quase duas décadas, sobre matérias relacionadas com a história da Grécia antiga.O volume cobre, sobretudo, o período compreendido entre a segunda metade do século VII e o último quartel do século V a.C., facultando uma abordagem diacrónica da evoluçãopolítico-constitucional de Atenas, através da análise da obra de dezgrandes estadistas. Além da discussão crítica da bibliografia específica mais significativa,a análise privilegia o uso das fontes antigas como principal fio condutorda exposição, pois é dessas mesmas fontes literárias (frequentementeconjugadas com os dados fornecidos pela arqueologia, epigrafia enumismática) que resulta o conhecimento em primeira mão do que hoje sesabe sobre a antiguidade clássica.Ao elaborar esta análise de dois séculos e meio da históriapolítico-constitucional de Atenas, os autores guiaram-se pelo objectivo deencontrar o equilíbrio entre uma forma de exposição que possa sersimultaneamente útil a especialistas em antiguidade clássica, a estudantesde nível avançado e ainda ao público em geral.
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November 3 2010, 5:37am | Comments »
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O ensino do latim nos liceus alemães
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Sabendo que o ensino das Clássicas é residual no Ensino Básico e Secundário no nosso país, não se vislumbrando tendência de mudança, e sabendo também que outros países que reduziram esta vertente de ensino estão a mudar a sua política, tendo tido oportunidade, perguntei a Maria José Prata, professora na Alemanha, como é encarada esta vertente educativa no sistema de ensino que, por dever de ofício, bem conhece. A sua resposta, que o De Rerum Natura muito agradece, é a que se segue: A longa tradição do ensino do latim como disciplina liceal obrigatória, outrora condição de acesso aos estudos universitários na Alemanha, foi quebrada no século XX. Principalmente após a década de 60, e em consequência de reformas dos currículos escolares, o latim tornou-se uma disciplina facultativa tendo sido preterida por muitos alunos a favor de outra língua moderna para além do inglês.A estas reformas institucionais, desenvolvidas a partir de novas teorias sobre o ensino, juntaram-se outros factores que contribuiram para a desvalorização cultural do latim. Entre eles, a tendência de canalizar todos os recursos da instrução escolar no delineamento atempado de percursos que encarreirassem crianças e adolescentes de preferência para estudos que facultassem saídas profissionais prometedoras de sucesso económico e reconhecimento social. Embora alguns desses estudos se situassem na área das humanidades, o latim era (e é) condição de acesso apenas uma minoria de cursos universitários. Na verdade, aprender latim implicava per se grande dispêndio de tempo sem que lhe fosse reconhecido grande utilidade, pois que a sua aplicabilidade profissional parecia restringir-se aos domínios cultural e académico.A vivência escolar da geração anterior desempenhou também um papel fundamental no referido processo desvalorativo. Entediada por uma didáctica que havia reduzido a aprendizagem do latim ao memorizar da gramática e à tradução de feitos guerreiros, esta geração não podia aconselhar os seus filhos a estudar uma língua, cujos esforços de aprendizagem ela própria não saberia justificar, tanto mais quanto, para a maioria, o seu conhecimento se tinha revelado predominantemente supérfluo na vida pós-escola.Nos finais do século passado e na primeira década deste, assistiu-se a uma revalorização do latim, tendo o número de alunos nos liceus alemães aumentado em 30% relativamente aos anos anteriores. Hoje em dia, o latim, disciplina curricular obrigatória apenas nos poucos liceus de perfil humanista existentes na Alemanha, posiciona-se (consoante os estados federais) em 2.º e em 3.º lugar na lista das línguas aprendidas do 5.º ao 10.º anos. Que motivos levaram a esta mudança?O renascimento do latim emergiu da reflexão que se tem feito sobre as causas do generalizado baixo nível de literacia entre os estudantes do ensino médio e superior, a que soma, acrescente o insucesso escolar condicionado por graves lacunas no domínio do alemão, impedimento decisivo no acesso à universidade. Este insucesso (era e) é notório no caso de alunos com herança familiar migratória e/ou pertencentes a estratos populacionais com uma assumida atitude de distanciamento e mesmo de recusa da instrução e da formação escolares.É num ambiente de desencanto sobre a qualidade e a eficácia de algumas premissas do sistema educativo alemão que se iniciou em 1997 um projecto inovador no ensino de línguas estrangeiras. Este modelo prescreve desde o 5.º ano liceal a aprendizagem de duas línguas estrangeiras, latim e inglês, ambas com a mesma carga horária semanal, que é elevada A necessidade de se dominar a língua inglesa é indiscutível. Mas pode dizer-se o mesmo em relação ao latim?O projecto baseou-se em diversas observações. É conhecido que na fase inicial de aprendizagem do inglês, muitos alunos atingem uma relativa desenvoltura na comunicação oral sem dominar substancialmente as estruturas gramaticais da língua. Este sucesso, rápido e relativamente fácil, instila em muitos jovens a dúvida sobre o sentido e a pertinência de se aprender gramática também no âmbito da sua língua materna.Ora, este suposto anacronismo de sólidos conhecimentos gramaticais (opinião partilhada por muitos alunos e não só) combinada com a alastrante perda de hábitos de leitura (e de interpretação) não pode deixar de ter consequências: estudantes universitários, de diferentes áreas do saber, dificilmente compreendem textos complexos e abstractos, também em alemão.Outra observação de peso foi a geral e defeituosa produção escrita e o uso descuidado da língua alemã que muitos estudantes apresentam.O latim é uma língua exigente. Para se compreender um texto latino é necessário explorar, decompor e analisar as suas frases, mas também é preciso saber sintetizar as ideias condutoras do todo para não perder o sentido geral; entender um texto em latim exige o treino e a interiorização de métodos de leitura analítica, contextualizada e assistida por um firme domínio da gramática. A procura, paciente e criativa, do exacto vocábulo alemão, que traduza tão fidedignamente quanto possível a palavra latina, habitua os alunos a consultar dicionários e a reflectir sobre a polissemia das palavras, o que contribui para a expansão do seu vocabulário materno activo com conhecimentos de raiz.Nas tarefas de ler atentamente, aplicar métodos de abordagem sistemática e lógica para compreender e interpretar textos, formular a tradução, numa escrita gramaticalmente correcta, precisa e sucinta na língua materna, residem grande parte do mérito da aprendizagem do latim. Ou seja, o treino consequente de saberes práticos e teóricos, cuja compreensão do seu sentido e interiorização permitem a sua posterior transferência para áreas de estudo multidisciplinares.Estes argumentos têm justificado a introdução do latim a partir do 5.º ano liceal na Alemanha. Mas justificarão eles a procura do ensino do latim por alunos e encarregados de educação? E justificarão a não aprendizagem de uma outra língua da comunidade europeia, o francês, por exemplo?Parece que muitos (pais e alunos, professores e responsáveis pelo ensino) entendem o latim como uma disciplina que alicerça um consistente fundo (gramatical e) cultural com que a formação e a instrução liceais alemãs devem/deveriam apetrechar os seus alunos. Alunos que, ao qualificarem-se para o estudo universitário, serão os futuros guardiães do património (linguístico e) cultural e os potenciais investigadores que asseguram e desenvolvem a riqueza e a diversidade cultural, tecnológica e científica da Alemanha e da Europa.Maria José Prata
October 30 2010, 3:37pm | Comments »





