Numa crónica anterior, reflecti sobre os três princípios fundamentais da democracia grega antiga: a isonomia (‘igualdade perante a lei’), a isocracia (‘igualdade perante o poder’), a isegoria (‘igualdade no uso da palavra’). Com estes três princípios, reforçados pela ideia de que a força da decisão é colocada na vontade da maioria, os Atenienses estabeleceram a essência do regime democrático, sendo normas comuns, portanto, às diferentes aplicações genuínas do ‘poder do demos’ (ecoado, aliás, no refrão popular ‘o povo é quem mais ordena’).Devo notar que os direitos da cidadania plena abrangiam apenas 10 a 15% da população, sendo, por conseguinte, grande a percentagem dos excluídos, em maior ou menor grau. Este facto costuma ser aproveitado pelos críticos da democracia antiga, apelidando-a de regime elitista e mesmo esclavagista. Esta limitação é inegável, mas regra geral a argumentação apresentada peca por ligeireza de análise, por descurar o contexto histórico e a situação real das pessoas, quando comparada com as condições oferecidas por outras sociedades.No entanto, o aspecto determinante para explicar esta limitação do número de cidadãos (cerca de 30.000) deriva do facto de a democracia ateniense ser uma democracia directa, que pressupõe a reunião efectiva de todos os cidadãos, o que é muito diferente da democracia representativa em que vivemos, na qual a esmagadora maioria da população delega, através do voto, a capacidade de decisão nos seus representantes.Por isso é que o número de cidadãos pode chegar facilmente aos milhões, enquanto no caso ateniense teria de ficar-se por alguns milhares. Ainda assim, Atenas alargou a cidadania até onde lhe foi possível e 10 ou 15% da população, apesar de pouco para a nossa prática, é bastante mais do que 1 ou 1,5%, cifra característica de regimes oligárquicos.Uma última nota: as democracias modernas continuam a dispor de mecanismos que aplicam a democracia directa, se bem que os utilizem apenas em situações excepcionais. É o caso do referendo, que permite uma consulta directa a toda a população. Há, ainda, outras formas disfarçadas de consulta popular directa, como acontece com as chamadas telefónicas ou mensagens electrónicas, muito usadas em concursos públicos ou então como forma de obter sondagens.Não é raro constatar que os meios de comunicação o fazem, porém, essencialmente para garantir audiências e isto poderia levar-nos a ponderar um outro problema: os riscos da demagogia, muito maiores numa sociedade como a nossa, que tem um acesso muito facilitado à informação, mas que, em boa parte, vive também alheada da política no sentido mais nobre (real empenho na vida da pólis), ficando, por isso, particularmente exposta à mensagem errática dos falsos ‘condutores do povo’. A estes voltaremos em outra oportunidade.Delfim Leão
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Democracia directa e demagogia
http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/democracia-directa-e-demagogia.html
- Tags:
- Política
- Cultura clássica
January 29 2010, 2:34pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“A cidade”
http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/cidade.html
Maria de Fátima Sousa e Silva e Custódio Magueijo traduziram textos de diversas peças de Aristófanes - Acarnenses, Lisístrata, Paz, Pluto, As mulheres que celebram as Tesmosfórias, As Nuvens, Os Cavaleiros, As Mulheres no Parlamento e As Aves - que Luís Miguel Cintra encenou. O resultado é uma peça intitulada A Cidade que estará em cena no Teatro São Luíz, em Lisboa, entre 14 de Janeiro e 14 de Fevereiro.O De Rerum Natura falou com a professora do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a este propósito. De Rerum Natura (DRN): A peça é apresentada como uma “colagem de textos” do autor de Atenas. Como encarou o desafio de os harmonizar e tornar compreensíveis, para uma representação no início do século XXI?Fátima Sousa e Silva (FSS): Esse trabalho de seleccionar e colar os textos coube a Luis Miguel Cintra e baseou-se numa leitura que ele fez sobre as traduções das diversas comédias que eu e o Doutor Magueijo tínhamos traduzido e publicado na íntegra desde há anos já. Esse ensaio de ‘colagem’ foi-me então enviado por Luís Miguel Cintra para dar uma opinião e sobretudo para retocar ou renovar as traduções à medida do conjunto e da intenção do espectáculo. A verdade é que me interessou desde o primeiro momento.DRN: Luís Miguel Cintra elogiou publicamente o seu trabalho de tradução, sublinhando que tem um sentido muito apurado do que é a dinâmica teatral. Nessa dinâmica foi preciso trazer um clássico ao presente e ao grande público. Como se faz isso?FSS: No caso de Aristófanes, a situação é um pouco paradoxal. Por um lado, há um compromisso entre os textos e a Atenas real do século V a. C. – sátira aos políticos ou figuras públicas da época, alusões a episódios próximos, referências a espaços concretos – que são impenetráveis para o público comum de hoje; mas por outro a realidade da vida democrática ateniense é tão próxima da nossa – na corrupção, na demagogia, nas causas sociais – que o público moderno sente-se imediatamente identificado com o que vê. O segredo da adaptação estará, primeiro, numa exclusão ou ‘modernização’ de alusões que não passam e paralisam o efeito de conjunto; e depois no uso de uma linguagem que, sem ser infiel ao original, seja natural e eficaz aos nossos ouvidos.DRN: Sem, obviamente, pretender que desvende toda A cidade, perguntar-lhe-ia de que trata a peça?FSS: O fio geral é claro: sensação de que tudo vai mal na cidade para desespero dos cidadãos; diagnóstico, em diversas situações, dessa mesma verdade; tentativas – frustradas – para melhorar a situação, que afinal parece uma fatalidade. É a natureza humana a funcionar!DRN: Aristófanes não nos dá uma visão idílica da democracia. Os problemas que aponta nas suas peças continuam actuais nas nossas democracias?FSS: Absolutamente, e esse é o principal fascínio em rever Aristófanes: a sensação de que afinal nada mudou em sociedade desde o século V a. C. E que tipo de problemas assinala ele? A caça ao voto através da retórica, a corrupção no exercício do poder, a crise da justiça, o falhanço da educação, as ousadias de intelectuais vanguardistas, os conflitos homem/mulher, o poder do dinheiro. O que acha? Não tem a sensação de estar a ler um qualquer dos nossos jornais diários ou a assistir a um noticiário televisivo?DRN: A educação também é abordada na peça. Como vê Aristófanes a educação do seu tempo?FSS: Pois é, sei que lhe é caro esse tema. Aristófanes, em particular numa das suas comédias que se intitula Nuvens, apresenta-nos uma confrontação entre dois modelos educativos: o antigo e o novo. O primeiro é o que serviu para formar cidadãos de excelência e construiu as horas gloriosas da Atenas de há meio século atrás. O segundo é o responsável por gente inútil e desocupada, cujo maior talento é uma língua apurada e falta de princípios. Há, sem dúvida, exagero no retrato. Afinal Atenas vivia também, apesar de todas as imperfeições de um novo modelo e das críticas que merecia, uma fase de apogeu intelectual. Aqui não sei se nos sentiremos identificados pela positiva ou pela negativa com o que então aconteceu.Deixe-me que lhe agradeça ter podido dar este testemunho sobre um espectáculo que merece, sem dúvida, ser visto.DRN: O De Rerum Natura é que agradece a oportunidade de falar com uma das responsáveis pelo facto de a cultura clássica continuar viva e com o brilho que podemos perceber n' A Cidade.Ficha de A CidadeCo-produção com o Teatro Municipal de S. Luiz.Local: Teatro Municipal de S. Luiz, Sala Principal.Data: De 14 de Janeiro a 14 de Fevereiro de 2010.Horário: Quarta a sábado às 21H00. Domingos às 17H30.Sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa: 31 Janeiro às 17h30.Tradução: Maria de Fátima Sousa e Silva e Custódio MagueijoAdaptação e colagem: Luis Miguel CintraEncenação: Luis Miguel CintraCenário e Figurinos: Cristina ReisDesenho de luz: Daniel Worm d’AssumpçãoMúsica: Eurico CarrapatosoColaboração musical: João Paulo SantosAcompanhamento: Vocal Luís Madureira
- Tags:
- Teatro
- Cultura clássica
January 12 2010, 3:57am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Retórica
http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/retorica.html
Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos.Seminário aberto elançamento de livro15 de JaneiroSala do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos10h30 - Ana Lúcia Curado: "Retórica forense e oradores áticos"11h30 - Manuel Alexandre Júnior: "Teorização retórica na Antiguidade"14h15 - Nair de Castro Soares : "Da retórica latina ao Renascimento"11h30 - Manuel Alexandre Júnior: "Teorização retórica na Antiguidade"No Arquivo da Universidade de Coimbra16h00 - António Barbosa de Melo e José Eduardo Franco apersentam o livro Código pedagógico dos Jesuiítas, Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (versão portuguesa de Margarida Miranda)
- Tags:
- Cultura clássica
January 9 2010, 8:39am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Mais dois volumes da "Classica Digitalia"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/mais-dois-volumes-da-classica-digitalia.html
Informação recebida da Biblioteca Digital Classica Digitalia Temos o gosto de apresentar mais dois volumes que inauguram uma nova série dedicada a monografias de média dimensão e vocacionada em especial para a promoção do trabalho feito por jovens investigadores.Conforme é nossa prática, tanto o acesso à biblioteca digital como o descarregamento dos e-books são gratuitos.Os preços indicados (PVP) dizem respeito aos mesmos volumes, mas editados em formato tradicional de papel.1. Mariana Montalvão Matias, Paisagens naturais e paisagens da alma no drama senequiano “Troades” e “Thyestes” (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010) 202 p. PVP: 11 Euros2. João Paulo Barros Almeida, Sentimento e conhecimento na poesia de Camilo Pessanha (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010) 154 p. PVP: 9 Euros
- Tags:
- Livros
- Cultura clássica
December 29 2009, 5:46pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Poemas à Maneira de Anacreonte
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/poemas-maneira-de-anacreonte.html
Anacreontea. Poemas à Maneira de Anacreonte, é o mais recente livro da colecção Fluir Perene.Anacreonte terá nascido no sécúlo VI a.C. e morrido quando o século seguinte chegava quase a meio. De Teos, a sua cidade natal, partiu e conheceu muito mundo - Trácia, Samos, Atenas, Tessália... -, o que lhe proporcionou um conhecimento aprofundado da natureza humana, com fraquezas e grandezas, com vícios e virtudes.A sua obra literária, vasta e diversificada (ainda que ao presente só nos tenha chegado uma pequena pequena ), influenciou inúmeros poetas que procuraram segui-lhe o estilo, o estilo Anacreonte.Neste livro, resultado da escolha e tradução de Carlos Martins de Jesus, com prefácio de Frederico Lourenço, pode o leitor desfrutar de poemas em edição bilingue (grego e português) que decorreram da inspiração neste Mestre Grego. Eis um belo exemplo:Dá-me a lira de Homero,mas sem a corda assassina.Traz-me taças de preceitos,traz-mas com leis misturadas,para que ébrio possa dançar,tomado por consciente loucurae, cantando ao som das liras,a canção de mesa eu entoe.Dá-me a lira de Homero,mas sem a corda assassina.Querendo, poderá ler o livro aqui, apesar de o poder adquirir nas livrarias.Imagem que é capa do livro: Venus Anadyomène (1848) de Jean August Dominique Ingres
- Tags:
- poesia
- Cultura clássica
December 21 2009, 2:22pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Assim se faz História
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/assim-se-faz-historia.html
Atenas sentiu entre 2000-2004 um crescimento estrutural inegável , impulsionado pela abertura ao público do metro (pela altura da XXVIII Olimpíada)– um projecto que era aguardado com expectativa pelos gregos, mas que levantara inúmeros obstáculos à sua consumação, dadas as características geológicas, climatéricas, a acrescentar ao plano do traçado urbano extremamente denso da cidade .Mas o grande triunfo desta construção , que a torna simultaneamente única , é o facto de os trabalhos das escavações e perfurações do solo terem trazido à luz do dia mais de 50000 vestígios arqueológicos, que permaneciam escondidos debaixo da moderna Atenas. Na verdade, desde as primeiras fases do projecto que nele estiveram envolvidas equipas multidisciplinares de arqueólogos, paleontólogos e historiadores que procederam ao reconhecimento dos materiais e vestígios que a todo o momento das obras surgiam do subsolo. Várias vezes, a evidência obrigou a adaptações do projecto, de modo a que se preservassem as notícias do passado que apareciam à luz do dia. Hoje , estes vestígios – vasos, túmulos funerários, estátuas, objectos de uso diário, frisos e até o que é identificado como a Escola Aristotélica , O Liceu - surge , em alguns casos numa profundidade atordoante , como gala fascinante de uma cidade aos olhos dos seus habitantes ou do turista atento. Em expositores variados , vitrines, em vários recantos de muitas estações, o passado convive com o progresso tecnológico e com a modernidade. Assim, se faz História.
- Tags:
- Cultura clássica
November 1 2009, 6:36am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Estamos completamente isolados
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/estamos-completamente-isolados.html
Em Agosto de 2008 dei aqui a notícia do trabalho que a professora Alexandra Azevedo levou a a cabo com uma turma do ensino secundário que tinha a opção de Grego, conseguindo que ela concluisse o 12.º ano e que um dos alunos (Afonso Reis Cabral) ficasse classificado em 8.º lugar no European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature. Em Abril de 2009 pedi um depoimento a ambos que se pode ler aqui. Recentemente voltei a falar com ela sobre trabalho do mesmo teor desenvolvido no ano lectivo que passou. Mais uma vez preparou a sua turma, constituída por oito alunos, e, novamente, um deles, Ana Almeida, foi premiado, ficando em 15.º lugar. Pedi-lhe um depoimento sobre esta experiência, depoimento que é o leitor pode ler de seguida e, com base nele, perceber o estado limite a que, no nosso país, o ensino do Grego e do Latim chegou (são meus os sublinhados que se enontram ao longo do texto).P: Alexandra, como correu o concurso deste ano?O concurso deste ano teve um novo encanto. Uma consolidação de trabalho. Um caminho que se abriu. Certezas que se fundamentam… No ano anterior, preparara unicamente o Afonso para o estudo das obras propostas, visto que os restantes seis alunos da turma consideravam – compreensivelmente! – difícil o trabalho a desenvolver. Na verdade, é preciso lembrar que a Annual Competition é prova para alunos de toda a Europa, que no mínimo têm dois anos de Grego, quando não três, quatro… Os nossos alunos têm um único ano «envergonhado» no final do secundário… e, talvez fosse bom lembrar, em 2007-2008 eram oito os alunos do ensino secundário português que estudavam Grego – seis deles eram meus. O país não valoriza a cultura clássica. A minha escola tem reagido muito bem a estas participações e reconhece o trabalho que os alunos têm realizado.No ano que passou, decidi que toda a turma concorreria… Ficaram algo receosos. O Grego fora a sua escolha na continuidade do Latim e do Português, disciplina de que eu também era professora. Parecia-lhes uma complementaridade cultural desejável. E julgo que foi. Assim, tinhamos dois capítulos da obra de Xenofonte, Memorabilia, para traduzir e comentar literariamente. Fizemo-lo. Converti todo o trabalho linguístico para aquele texto e dediquei-lhe inteiramente o 2.º período.A Ana foi premiada. Mas o maior prémio que tive foi ver que todos haviam sido capazes de responder para um nível positivo ao exame, e principalmente que as questões morais que a obra albergava os tinham interessado e motivado a traduzir mais e melhor. Foi, por isso, muito gratificante.P: Em Abril perguntei-lhe como via o futuro das Clássicas no nosso país. A sua resposta denotou muita apreensão. Depois de mais um contacto internacional, essa apreensão mantem-se?Neste momento… sinto que pessoalmente, é triste dizê-lo, cheguei onde podia. Fiz o que pude com os alunos que fui tendo. Abri portas. Fiz muitos contactos. Vi novas realidades educativas, ganhei amigos, troquei materiais, viajei e vi o brilho nos olhos de todos os meus alunos que nestes quatro últimos anos me acompanharam a Itália ou à Grécia. Reconheço ser parte das suas vidas, sei que o Grego e o Latim marcarão a diferença nos seus percursos académicos. Já na faculdade, reconhecem-no, agradecem-no. Verifico que a seriedade do trabalho teve frutos individuais.Mas a terra portuguesa… não se deixa salgar, como diria o Padre António Vieira… e, assim, sem um Curriculum que integre, por opção de quem legisla, a disciplina de Latim no Ensino Básico, que acompanhe o ensino do português, e como opção para qualquer área do saber, não é possível ir mais longe. Não há alunos. Mas não os há porque essa opção não lhes é permitida em quadros de disciplinas de carácter mais pragmático. Isto não acontece nos outros países onde os alunos que estudam Ciências, Física ou Matemática têm sempre Latim. O Grego vem por gosto pessoal, numa fase posterior.Assim, este ano não tive turma de Grego, porque não tivera Latim… onde poderia ter «cativado» alunos… Por isso, olho com descrédito o que o futuro…P: Ao comparar Portugal com outros países que estiveram presentes no concurso, o que lhe oferece dizer?Senti-me sempre algo envergonhada, quando questionada por pessoas de fora sobre os motivos por que em Portugal se impossibilita os alunos de aprenderem Grego e Latim... Ninguém compreende. A história é a mesma por essa Europa fora, seja na qualificada Alemanha, onde os alunos chegam a estudar oito anos de Latim, na Áustria, na Roménia, na Sérvia, na Croácia onde estudam quatro anos ou mais…É muito desanimador sabermos que os alunos não têm acesso a essas aprendizagens, sobretudo quando se tem consciência, como eu tenho, dos ganhos culturais e cognitivos que os clássicos lhe trazem, da identidade que garantem, do melhoramento linguístico que proporcionam, do questionamento moral que permitem...Gostaria muito de poder explicar isto a alguém de direito… gostaria muito de poder trabalhar mais por esta causa que defendo convictamente, pois os exemplos de sucesso europeu, que conheci, garantem possibilidades ricas para o nosso país. Mas ninguém parece estar interessado em ver, salvo os alunos que o conheceram, os seus pais e familiares… a memória da comunidade em que nos integramos.O Latim e o Grego são um passo fundamental no crescimento cognitivo, linguístico e cultural dos alunos e o nosso sistema de ensino ganharia muito, em olhar além fronteiras, e perceber o que acontecia se seguissemos o que de melhor lá existe.A verdade, é que nos que respeita ao ensino das Clássicas no ensino básico e secundário, estamos completamente isolados, como numa ilha deserta onde, pardoxalmente, tudo fazemos para que não chegue comunicação…Fotografia (original): Grupo de premiados do European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature do ano lectivo de 2008/2009.
- Tags:
- Ensino
- Cultura clássica
October 31 2009, 3:06pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Um novo olhar sobre o património ateniense
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/um-novo-olhar-sobre-o-patrimonio.html
Novo texto da classicista Alexandra AzevedoInaugurado a 20 de Junho passado, construído, em vidro e cimento a cerca de 300 metros da base da colina da Acrópole, e conservando in situ vários e significativos vestígios encontrados durante a construção, o Novo Museu da Acrópole faz jus à ancestralidade e glória ateniense."Não estava interessado em imitar o Partenon. O que queria era atingir um nível de perfeição semelhante, mas dentro dos parâmetros da arquitectura do meu tempo", declarou o arquitecto suíço Bernard Tschumi, responsável pelo projecto que contou com inúmeros desafios a ultrapassar, sabido o clima, o terreno sísmico e o traçado da moderna e populosa Atenas.Esta construção permitiu que fossem devolvidos à cidade todos os símbolos da sua história que se encontravam espalhados por Itália, Alemanha e Estados Unidos, com a excepção do acervo conhecido por mármores de Elgin, que desde há 200 anos é pertença do British Museum.Como se sabe, este acervo é responsável por um longo e cerrado contencioso entre Londres e Atenas, tendo Atenas hoje mais esperança na sua recuperação, já que o novo Museu reúne excelentes condições logísticas e de conservação, fazendo cair por terra o argumento da superioridade de Londres a estes níveis. Se essa recuperação acontecer, o legado Ateniense volta para próximo do Parténon, o mais antigo e importante monumento europeu.Para visitar o museu, o leitor pode clicar aqui. E para ver o belíssimo filme da sua inauguração clique aqui.
- Tags:
- museus
- Cultura clássica
October 31 2009, 8:32am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
São eternidade
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/sao-eternidade.html
Sobre José Saramago ter declarado que a Bíblia é um “manual de maus costumes” e “catálogo de crueldades”, o De Rerum Natura perguntou à Classicista Alexandra Azevedo se os mesmos juízos não poderão ser feitos em relação às obras antigas, como a Ilíada ou a Odisseia e que sentido teria esse exercício. A resposta é a que se segue:A Bíblia, «o livro dos livros», contém, para além da vertente sagrada em que se estruturam e edificaram tantas civilizações, a história do povo judaico e, também, a história da humanidade.Independentemente do credo religioso que sigamos, ou de não seguirmos credo nenhum, não lhe podemos negar o estatuto de referência da cultura mundial. A sua antiguidade, o seu modo de transmissão geracional justifica leis e actos duros ou mesmo, cruéis que, na actualidade, podemos ter dificuldade em entender. A própria figura de Deus é construída e materializada com base no modo como o Homem vivia a justiça, a culpa, o castigo.Para além de toda a exegese bíblica, fica o conhecimento da ancestralidade que delineou o nosso modo de pensar e de ser.À semelhança desta obra, outras obras antigas dão-nos conta de culturas fundacionais, como é o caso das conhecidas epopeias homéricas que foram edificadas por acrescentos que a tradição aédica oral permitira. Será legítimo, portanto, questionarmo-nos também sobre os códigos que encerram, as leis e as práticas que descrevem, os sentimentos que enaltecem, as guerras sangrentas de que dão conta.Ninguém parece contestar – mesmo quem não viu mais do que a grande metragem Tróia, onde Brad Pitt actualizou a figura do «divino Aquiles – o seu valor estético, histórico e moral.Poderemos, então, refolhear as suas páginas e lembrar que, na Ilíada, o vate invoca logo na abertura a Musa para que o ajude a cantar «a cólera de Aquiles». Este, irado, por lhe ter sido roubada a escrava querida, depois de se distinguir heroicamente em combate, recusa-se a combater em Tróia. Porém, ao saber que o seu amigo Pátroclo morrera às mãos de Heitor no seu lugar, entrega-se, num ódio quase insano, à perseguição dos inimigos.Quem leu esta obra ou viu o filme lembrar-se-á da cena em que Aquiles amarra o cadáver de Heitor ao seu carro, arrastando-o numa corrida alucinada, recusando-lhe o descanso, que as leis consagravam. Horroriza ver o herói, feito de força e agilidade, ser capaz de tal impiedade. Mas reconhecemos humanidade ao seu carácter, reconhecemos-lhe também verdade e intensidade.Em geral, sentimos que, nas epopeias, os homens e as mulheres movem-se por paixões: o pai que pede ao inimigo, sem altivez, o cadáver do filho; o marido, que ao regressar a casa vinte anos depois – «o divino Ulisses» – mata os pretendentes que lhe roubavam os bens…Longe, porém, de as considerarmos um «catálogo de crueldades».É que estávamos no século oitavo antes de Cristo. Esquecê-lo e transpor para o presente, sem qualquer interpretação, os quadros que tais obras descrevem, torná-las-ia ininteligíveis, restando-nos a sua denúncia e condenação por revelarem “maus costumes”.Em suma, a Bíblia e as grandes epopeias, como Ilíada e a Odisseia, sendo a origem da literatura ocidental, ajudam-nos a compreender onde e como se edificaram os costumes, maus e bons, que têm feito de nós o que somos. São eternidade.Imagem: Aquiles e Pátroclo
- Tags:
- religião
- Cultura clássica
October 26 2009, 4:53am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
The Classical Association Journals
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/classical-association-journals.html
Oferta de acesso experimental às revistas da Classical AssociationThe Classical Quarterly, Greece & Rome, The Classical ReviewPara ter acesso a estas três publicações periódicas, deve fazer o registo em Cambridge Journals Online e introduzir depois o código MagicClassics09 no campo onde é solicitado.Cada utilizador terá acesso aos últimos cinco anos (2004-2008) das três revistas da Classical Associatio (UK). O acesso permanecerá aberto até ao final de Abril de 2010, mas para isso o registo deve ser feito antes do dia 6 de Novembro de 2009.
- Tags:
- Cultura clássica
October 22 2009, 2:57pm | Comments »





