Uma terceira sugestão de leitura que remete para temas clássicos, proporcionada por José Ribeiro Ferreira, é As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso, obra publicada entre nós pela editora Cotovia, no ano de 1990, dois anos depois da sua publicação original."Trata-se de um romance inovador que mistura a ficção, o ensaio, a mitologia, a reflexão histórica e política, sem descurar a ligação ao mundo contemporâneo. Enquanto caminha no seu carro, Cadmo recorda o passado: o rapto de Europa por Zeus, a partida em busca da irmã, as núpcias com Harmonia, a dádiva aos Gregos do alfabeto, com o qual aprenderam «a viver os deuses no silêncio da mente» e não na sua presença plena e normal, como até aí acontecera. Um romance que se apoia frequentes vezes em fontes greco-latinas citadas depois em nota."José Ribeiro Ferreira
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Temas clássicos na ficção - 3
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June 18 2009, 12:53pm | Comments »
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O rio e o baú da memória
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Faz agora um ano que o projecto Fluir Perene, da responsabilidade de um grupo de professores, jovens investigadores e alunos universitários de Estudos Clássicos, foi apresentado publicamente na Livraria Minerva, em Coimbra.Este grupo que se diz sentir honrado com a ligação à Associação Portuguesa de Estudos Clássicos e ao Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (Unidade de UI&D) da Universidade de Coimbra, tem por intento a divulgação e a investigação da cultura de origem greco-latina e a criação a partir dela, porquanto essa cultura é, para nós, “a seiva que perene flui ou rio que não pára de correr, que nunca é o mesmo, mas a todos banha e alimenta”, que “que faz parte integrante do baú da nossa mente, sem ela olharíamos as pessoas e as coisas de outra forma. Éramos de certeza outros”.Vale-se do velho papel e das novas tecnologia da informação – um portal e um blogue – para partilhar o que reúne e produz: tradução, ensaio, material didáctico, poesia…A propósito deste aniversário, falo com José Ribeiro Ferreira, professor catedrático de Cultura Clássica, mentor deste projecto.P: O Fluir Perene sendo um projecto de divulgação, a quem se destina, em concreto?R: Destina-se ao público em geral, embora procure sobretudo o estudante universitário. Daí que privilegie uma linguagem acessível e sem excessiva erudição. A este propósito, relembro que há muitos mitos, referências ou personagens, históricas ou ficcionais, que fazem parte do nosso baú da memória e andam agarradas ao nosso ser cultural — que é segunda natureza — como segunda pele que de modo algum conseguimos arrancar: ele é, para dar apenas alguns exemplos, o ‘calcanhar de Aquiles’, o ‘pomo da discórdia’, o ‘cavalo de Tróia’, o ‘nó górdio; ele é o recurso a mitos e dados da cultura greco-romano por escritores e poetas, mesmo nossos contemporâneos, como Jorge de Sena, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Júdice, David Mourão Ferreira, Fiama Hasse Pais Brandão, José Jorge Letria, entre outros, para veicular ideias e valores; ele são termos como ‘lupanar’, ‘sicofanta’, ‘odisseia’, ‘sósia’, ‘anfitrião’; ou seja, o que costumo designar como secretos caminhos das palavras. A essa bagagem cultural — que evidentemente tem de ser cultivada para produzir frutos — cai afinal sob a alçada da afirmação de Cícero, ao escrever que, «ignorar o que se passou antes de uma pessoa ter nascido é ser sempre criança» (O Orador 34.120).P: Há muitos jovens envolvidas no projecto, investigadores no início da carreira, alunos de mestrado e doutoramento, isto significa que, apesar de a cultura clássica ter sido cirurgicamente afasta dos curricula escolares, os jovens continuam a interessar-se por ela?R: É evidente que o interesse é manifesto. Não quer isso dizer que todos se sintam esse gosto pelas culturas grega e latina e pelas matérias das chamadas sociedades clássicas. Aliás as editoras aperceberam-se dessa procura e dessa apetência, ao traduzir em número significativo obras — romances históricos em especial —, a privilegiar determinadas épocas que pelas suas características, debate ideológico ou confronto social dizem mais aos dias de hoje. Por exemplo a Guerra de Tróia, as Guerras Medo-Persas, o chamado século de Péricles, o tempo de Alexandre Magno e Diádocos, o fim da República Romana e século de Augusto. Veja-se o número de obras de ficção traduzidos e publicados nos últimos tempos, de que o documento anexo dá pálida ideia, até por se quedar em 2002. Cito, contudo, como paradigmáticos as séries O Primeiro Homem de Roma, de Colleen McCullough (cinco grossos volumes, num total de cerca de 5 000 páginas), Um Mistério na Roma Antiga, de Steven Saylor (uma série policial que já conta com oito volumes).P: Como vê o ensino das Clássicas no nosso país e que futuro lhe prevê?R: Vejo com preocupação, como é evidente. Repare-se que hoje, se percorrermos todo o pais, contar-se-ão pelos dedos as escolas — ou liceus, como gosto mais de lhes chamar, recuperando o nome da escola de Aristóteles que era um verdadeiro centro de investigação, em vez da incaracterística designação EB 2/3 —, contar-se-ão pelos dedos, dizia eu, as escolas que tenham grego ou latim nos seus currículos. Mas a minha preocupação maior até nem reside nessa falha, que é grave e haveremos de lhe sentir os efeitos, mas centra-se sobretudo no ostracismo a que a Reforma Justino — no essencial ainda em vigor — votou as Humanidades (e nesta designação estou a englobar línguas, literaturas e culturas). Quantos serão os pais que se disponham a percorrer diariamente trinta, quarenta ou mais quilómetros para levar os filhos a escolas que tenham Humanidades nos currículos, por gosto ou por considerarem que é parte importante da sua educação para o futuro? E será tanto mais grave se, como em muitas outras coisas, Fernando Pessoa tiver razão, ao proclamar: «A minha Pátria é a língua portuguesa».Muito obrigada.
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June 14 2009, 5:10am | Comments »
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Temas clássicos na ficção - 2
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A semana que se aproxima é, para alguns dos leitores do De Rerum Natura, mais ligeira de trabalho, uma boa oportunidade para pegar um livro de aventuras e espionagem.José Ribeiro Ferreira sugere-nos O Dossier H, de Ismail Kadaré, publicado em 1991 pela Difusão Cultural, que nos conduz a Homero e ao seu tempo, dissertando sobre a origem da sua escrita..."Dois investigadores universitários, partidos de Nova Iorque, chegam à Albânia para estudarem o folclore local e gravarem em fita magnética as recitações dos últimos rapsodos itinerantes, procurando apoiar e comprovar desse modo a teoria de que Homero, para compor a Ilíada e a Odisseia se baseara em epopeias transmitidas pela tradição oral ou, talvez melhor, não passara de um compilador – uma doutrina que hoje está abandonada ou tem poucos adeptos. Aos poucos os dois estudiosos vão notando os pontos de contacto, as semelhanças e os paralelismos de cenas e figuras, de fórmulas e conceitos entre os Poemas Homéricos e as epopeias orais albanesas que ouvem e gravam.Ao projecto deram os investigadores o nome de O Dossier H – evidentemente “o dossier Homero” – que as autoridades políticas albaneses interpretam como um caso de alta espionagem, agindo em conformidade com tal pressuposto: seguem os dois estudiosos nos mais ínfimos pormenores e dificultam os seus passos e actuação… Até que tudo termina com a destruição do gravador e das fitas gravadas, inutilizando o longo trabalho de meses. José Ribeiro Ferreira
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June 6 2009, 4:16am | Comments »
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Temas clássicos na ficção - 1
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Os sistemas de ensino ocidentais, uns mais do que outros, têm reduzido progressivamente o lugar de várias áreas do saber por se considerarem supérfulas, pouco apelativas para "as massas" que frequentam as escolas, sem interesse para a vida quotidiana, etc..Por outro lado, mesmo aqueles que chegam a patamares mais avançados na escolaridade - no nosso caso, secundário e superior -, têm de fazer escolhas quanto ao seu percurso académico as quais afastam necessariamente outras: a opção pelas áreas científicas e tecnológicas, em geral, exlui as humanidades e o contrário também é verdade. A existência de "duas culturas" que não comunicam, denunciada há cinquenta anos por C. P. Snow, continua a orientar a organização do currículo e, afinal, a educação formal.Estas duas razões têm concorrido para deixar muitas pessoas ignorantes, ou praticamente ignorantes, em relação a vários saberes. E muitas mais seriam se não houvesse, por parte de escritores, investigadores, tradutores, editores, cineastas, encenadores, actores e sociedade em geral, a vontade de manter ou tornar certos saberes vivos e partilháveis..Na área da ciência têm-se feito, nas últimas décadas, um excelente trabalho de divulgação, acessível ao grande público que tem sido fundamental para melhorar a "literacia científica", sendo que a ficção não se pode excluír deste resultado.Mas, também as humanidades parecem estar bastante empenhadas em dar a conhecer os seus saberes: com alguma facilidade encontramos obras, de compreensão acessível a todos, de história, de literatura, de filosofia, de cultura clássica....Em relação a esta área e, para ir direita ao assunto deste texto, assinalo que tem surgido um número considerável de livros de carácter ficcional – contos, romances, teatro – sobre temas da cultura e história da Grécia e Roma Antigas.Por gentileza de José Ribeiro Ferreira, professor do Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, disponibiliza-se para os leitores do De Rerum Natura, com uma regularidade semanal, informação sobre algumas dessas obras, cuja leitura nos esclarece acerca das origens do nosso pensamento.A primeira a que fazemos referência tem por título Ramsés, é da autoria de Christian Jacq e foi publicada entre nós, pela Bertrand, nos anos noventa. Dois dos cinco volumes que a compõem – O Filho da Luz (1995), O Templo dos Milhões de Anos (1996), A Batalha de Kadesh (1996), A Dama de Abu Simbel (1996), Sob a Acácia do Ocidente (1997) – tratam a Questão Homérica ou têm-na subjacente.“Como o título indica, o escritor e egiptólogo francês explora a vida e longo reinado desse famoso faraó do Egipto. Não é, porém, essa a razão que me leva a uma referência mais longa aos dois primeiros volumes, mas por ecoar na sua acção alguns aspectos da Questão Homérica e a versão menos divulgada do mito de Helena, segundo a qual é um fantasma da rainha de Esparta que vai para Tróia e não ela própria em pessoa – versão que Eurípides utilizou na sua Helena. Em especial nos dois primeiros volumes, com os títulos Ramsés – O Filho da Luz e Ramsés – O Templo dos Milhões de Anos, deparamos com referências aos Hititas, à Guerra de Tróia, à destruição dessa poderosa cidade da Ásia Menor pelos Micénios, os Gregos. Na viagem de regresso à pátria, Menelau passa pelo Egipto e aí encontra a verdadeira Helena, como hóspede dos reis.Contudo, ao contrário do que acontece no mito, ela não pretende regressar a Esparta, mas continuar no Egipto. Só acede a acompanhar o marido para salvar a vida dos reféns egípcios que o Atrida fizera no intuito de obrigar o Faraó a entregar-lhe a mulher. Todavia, libertados os reféns, Helena suicida-se, logo que as amarras se levantam e a armada grega se começa a afastar.Nos navios gregos, com Menelau, vinha Homero que não acompanhará o rei de Esparta na sua viagem de regresso, mas fica no Egipto, sob a protecção de Ramsés. Aí, no país do Nilo, a um escriba desse faraó ditará ele a Ilíada, poema que relata um episódio da referida Guerra de Tróia. E assim o romance de Christian Jacq, incorpora na acção a célebre “tese do ditado”, proposta em 1953 por Albert B. Lord e hoje conta com a relativa aceitação dos estudiosos dos Poemas Homéricos.Deste modo é deslocado para o Egipto o local da composição da epopeia e para o século XIII a.C. a data em que foi realizada, quando hoje se aceita que essa composição se verificou no século VIII como corolário de uma longa tradição de transmissão oral.”José Ribeiro Ferreira
May 26 2009, 2:38am | Comments »
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Minotauro, Teseu e Ariadne
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Nota enviada pelo grupo O Teatrão, de CoimbraO Minotauro, Teseu e Ariadne apresentam-se aos nossos sentidos, despertando memórias ancestrais, mas que entendemos actuais. Fios e Labirintos é um espectáculo criado por Leonor Barata para públicos de todas as idades, que conta com a colaboração do Thiasos e estará integrado na programação do FESTEA. Estará em cena entre 21 de Maio e 27 de Junho, de segunda a sexta-feira às 10h30 e 14h30 e aos sábados às 11h30.Aproveitamos para vos deixar um pequeno texto da autoria da criadora do espectáculo, para que possam aproximar-se da abordagem que foi feita ao mito do Minotauro encerrado no Labirinto."O Minotauro perdido no seu labirinto, a coragem de Teseu e o amor de Ariane servem de ponto partida para a criação de um espectáculo que se pretende ao mesmo tempo narrativo e reflexivo, porque ultrapassa o próprio enredo da história para abordar a temática intemporal da coragem e das escolhas que cada um de nós faz no labirinto da sua própria vida.Entre Fios e Labirintos, reescrevemos o mito, contaminando-o com as nossas visões, que é o mesmo que dizer, com as nossas experiências, emoções, dúvidas e interrogações presentes.Só assim, pensamos, faz sentido este regresso aos Clássicos. Este retorno ao porto de Creta. Só assim faz sentido, porque Creta é aqui, e o labirinto constrói-se e destrói-se todos os dias. Só assim faz sentido, porque cada um de nós transporta consigo um Minotauro, essa força vital misteriosa e obscura, dominadora, mesmo quando dominada.E nós, perdidos neste labirinto, “um sítio com muitas portas e janelas em que é preciso estar sempre a decidir se vamos para a direita ou para a esquerda”, acompanhamos Teseu, o verdadeiro herói, porque duvida, hesita e tem medo, o que é sempre a consciência da coragem.E, com Ariane, guardamos com sábia paciência, mas sem resignação, este novelo que é afinal a bússola da nossa própria navegação interior...Os fios com que tecemos o Tempo, essa longa e contínua teia, em tudo igual à de Penélope, que nos prepara para o encontro (im)provável com a felicidade. No teatro como na vida, percorrer os labirintos obrigar-nos-á a separar os fios que nos amarram dos que nos libertam, e nos fazem eternos…"Inês Mourão de Almeida
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May 20 2009, 11:04am | Comments »
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Teatro Clássico na Quinta das Lágrimas
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Amanhã, dia 15 de Maio (6.ª feira), pelas 15h30, o Grupo Selene, de Madrid, representa a peça Electra, de Sófocles, no Anfiteatro Pedro e Inês, que se situa na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.Mais informações aqui.
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May 14 2009, 12:41pm | Comments »
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Teatro de tema clássico
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Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico XI.ª EdiçãoDe 28 de Abril a 26 de Julho de 2009"Ultrapassada a barreira psicológica dos dez anos de existência, comemorada em 2008 com um programa reforçado, esta edição contempla 22 espectáculos, repartidos por 8 produções distintas, asseguradas por 5 grupos (3 portugueses e 2 espanhóis). O Festival mantém o forte carácter itinerante que o caracteriza e também a edição do livro-bilhete com o texto representado em cada performance."Os grupos escolares interessados devem contactar a organização do Festival.Organização: FESTEA - Tema Clássico (Associação Promotora) Associação Cultural Thíasos. Contactos: Instituto de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Largo da Porta Férrea, 3004-530 Coimbra 967685736 / 962565797 / 962565710 / 962565810 / teaclass@ci.uc.pt
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May 2 2009, 9:46am | Comments »
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O fulaninho de Cartago
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Informação recebida do Grupo de Teatro Clássico Thíasos, do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.Convite para a estreita da peça O fulaninho de Cartago Autor: PlautoTradução e encenação de José Luís BrandãoEstreia: 28 de Abril de 2009, às 21.30horasLocal: Faculdade de Letras, Teatro Paulo QuintelaA entrada é livreO texto Antecedentes da acção. Um menino de sete anos foi raptado de Cartago. O pai deste definhou de desgosto e deixou os seus bens a um primo. Um velho misógino de Cálidon, na Etólia, comprou o rapaz, sem saber que ele era filho de um hóspede, adoptou-o, e, antes de morrer, nomeou-o seu herdeiro. Foram depois também raptadas duas primas do jovem juntamente com a ama. Lico, um alcoviteiro, comprou-as a uns piratas e trouxe-as para a vizinhança do rapaz.A acção. Agorástoles – assim se chama o jovem – anda perdido de amores por uma das moças, Adelfásio, sem fazer ideia de que é sua prima; e o alcoviteiro tortura o enamorado com delongas. Mas este com a ajuda de Milfião, o escravo matreiro, monta-lhe uma armadilha: deste modo, o proxeneta é, na presença de testemunhas adestradas para o efeito, implicado num suposto roubo e arrisca-se a ser arrastado diante do pretor. Mas o desenlace é precipitado por um reconhecimento. Chega à cidade um velho cartaginês, esperto e manhoso, que descobre que o jovem é o filho do falecido primo e reencontra as filhas que havia perdido. O contexto Tendo em conta as referências históricas que figuram na peça, nem sempre claras, foram propostas datas para a composição que vão de 197 a 188 a.C. Uma fala das Testemunhas (vv. 524-525) sobre a paz civil e os inimigos aniquilados pode conter uma alusão à derrota de Aníbal, no final da segunda guerra púnica (202 a.C). Mas podem estar implícitas outras guerras, concluídas ou em curso (com Filipe V da Macedónia, derrotado na batalha de Cinoscéfalas, em 197 a.C.; com Nábis, tirano de Esparta, tomada em 195 a.C.; com Antíoco da Síria, derrotado em Magnésia, em 189 a.C.). Seja como for, a escolha do tema não será inócua: na altura da primeira representação, ainda estaria bem fresca a memória das pesadas derrotas que Aníbal infligiu a Roma (218 - 216 a.C.), sobretudo a de Canas, a que se seguiu o supremo desespero de ver Hannibal ad portas – penas agravadas pelos danos irremediáveis, causados pela longa permanência (até 204 a.C.) em terras itálicas de um exército tão numeroso e heterogéneo. Era ainda recente a derrota do terrível inimigo, seguida da paz com Cartago, em 201. A reacção dos romanos aos cartagineses está patente em algumas tiradas proverbiais sobre a perfídia púnica e comentários jocosos à indumentária exótica (elementos úteis para estudiosos e encenadores), mas não vai além disso. Contrariamente ao que seria de esperar, e que o título parece sugerir, Plauto não se centra no ataque ao inimigo mortal dos romanos. O cartaginês Hanão, talvez por determinação da peça grega que Plauto, no prólogo, diz traduzir, é retratado não como um monstro abatido, mas como modelo de virtudes ancestrais (de onde se evidencia a pietas) e de dignidade. De tal modo que nos parece haver algo de terenciano nesta personagem marcada pelo sofrimento. No final, Hanão é o grande triunfador que traz o prémio para os bons e a ruína para os perversos. Além disso, as raparigas cartaginezas, apesar da situação em que se encontram – estão prestes a ser iniciadas na prostituição –, lutam para manter a dignidade da sua condição (sobretudo Adelfásio). E são salvas no último momento, como salienta a ama: quando se preparavam já para se submeterem ao destino. Daí a esfuziante alegria, por reencontrarem o pai, há tanto tempo esperado. A acção decorre no dia das Afrodísias, a festa de Vénus. As personagensAgorástocles não se afasta do que é de esperar do jovem enamorado, egoísta e cruel. Acrescenta-se a avareza, pois, apesar de ser emancipado, ainda não resgatou a amada. Milfião é o típico escravo matreiro, de resposta pronta, apreciador mais do vinho que de mulheres, como ele próprio diz. Não poupa as palavras de troça ao seu amo apaixonado.Adelfásio é uma jovem raptada, destinada a ser meretriz. Nota-se, nesta personagem, uma certa contradição de carácter psicológico: ora se apresenta consciente da dignidade da sua origem nobre, ora parece agir como uma vulgar cortesã.Anterástilis é irmã da anterior, raptada juntamente com ela. Revela-se mais mundana do que a irmã. Lico (em grego, «lobo»), o alcoviteiro, é ávido de dinheiro até à impiedade. Mas ele apenas cumpre o seu mester. No final, é um homem destruído, e a sua resignação em reconhecer que perdeu e em aceitar a sorte que lhe está destinada quase provoca a comiseração.Antaménides é o típico soldado fanfarrão plautino. A proclamação da sua gesta, a vitória sobre os homens voadores, não fica atrás, na fantasia, das façanhas de Pirgopolinices em O Soldado Fanfarrão. As Testemunhas funcionam como um raro exemplo de coro na comédia romana. Não são testemunhas isentas, pois vão prestar juramento numa acusação que sabem ser uma farsa. Colibisco é o caseiro de Agorástocles que, para enganar o alcoviteiro, faz o papel de mercenário de Esparta foragido.Sincerasto, escravo do alcoviteiro, não partilha os valores do seu amo; lamenta-se da decadência do lupanar e prontifica-se a contribuir para a ruína do patrão. Hanão, o cartaginês, procura continuamente as suas filhas raptadas. Entra em cena a falar púnico, o que mostra que os espectadores romanos entenderiam alguma coisa da língua do inimigo. Apesar de o termo Hanão estar consagrado em português, como nome de várias pessoas gradas de Cartago, adoptámos para a representação a forma (também legítima) de Hánon, para evitar equívocos da linguagem oral e pela sonoridade exótica. Gídenis é a ama de Adelfásio e Anterástilis e chave para o reconhecimento imediato de Hanão. Finalmente, um Escravo do séquito de Hanão é filho da ama Gidénis.José Luís Lopes Brandão
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April 24 2009, 4:31am | Comments »
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O princípio de uma grande biblioteca/ editora
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/o-principio-de-uma-grande.html
Um dia depois de ter sido lançada a Biblioteca Digital Mundial foi ontem presentada ao público na Biblioteca da Universidade de Coimbra, a biblioteca/editora online CLASSICA DIGITALIA - VNIVERSITATIS CONIMBRIGENSIS que visa ser um grande espaço de difusão da cultura científica para a área dos Estudos Clássicos.Trata-se de um biblioteca/editora que “estará receptiva a colaborações de toda a comunidade académica, dando especial atenção à criação de sinergias dentro do espaço lusófono. A política de publicações é definida pelo conselho editorial e a qualidade dos trabalhos é controlada pela arbitragem de uma equipa internacional de especialistas. As colaborações podem cobrir um leque variado de temas e perspectivas de abordagem (literatura, cultura, história antiga, arqueologia, história da arte, filosofia), mantendo embora como denominador comum os Estudos Clássicos e sua projecção na Idade Média, Renascimento e recepção na actualidade. Todos os títulos editados em CLASSICA DIGITALIA são também publicados em formato de livro impresso.”Até ao momento foram publicados onze volumes em duas colecções: Colecção Autores Gregos e Latinos, composta por duas séries – Textos e Ensaios – e Colecção Humanitas Supplementum (Estudos).Esses volumes são os seguintes:Volumes publicados na Colecção Autores Gregos e Latinos ‑ Série TextosDelfim F. Leão e Maria do Céu Fialho: Plutarco. Vidas Paralelas – Teseu e Rómulo. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 187 p.Delfim F. Leão: Plutarco. Obras Morais – O banquete dos Sete Sábios. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 131 p.Ana Elias Pinheiro: Xenofonte: Banquete, Apologia de Sócrates. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 119 p.Carlos de Jesus, José Luís Brandão, Martinho Soares, Rodolfo Lopes: Plutarco: Obras Morais – No Banquete I – Livros I-IV. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008), coordenação de José Ribeiro Ferreira. 256 p.Joaquim Pinheiro: Plutarco. Obras Morais – Da educação das crianças. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 75 p.Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. Memoráveis. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2009). 289 p.Volumes publicados na Colecção Autores Gregos e Latinos ‑ Série EnsaiosCarmen Soares, José Ribeiro Ferreira e Maria do Céu Fialho: Ética e Paideia em Plutarco (Coimbra, CECH, 2008). 126 p.Joaquim Pinheiro, José Ribeiro Ferreira e Rita Marnoto: Caminhos de Plutarco na Europa (Coimbra, CECH, 2008). 133 p.Cláudia Teixeira, Delfim F. Leão e Paulo Sérgio Ferreira: The Satyricon of Petronius: Genre, Wandering and Style (Coimbra, CECH, 2008). 137 p.Volumes publicados na Colecção “Humanitas Supplementum” (Estudos)Francisco de Oliveira, Cláudia Teixeira e Paula Barata Dias: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 1 - Línguas e Literaturas. Grécia e Roma (Coimbra, CECH, 2009). 288 p.Francisco de Oliveira, Cláudia Teixeira e Paula Barata Dias: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 2 - Línguas e Literaturas. Idade Média. Renascimento. Recepção(Coimbra, CECH, 2009). 199 p.
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April 23 2009, 6:26am | Comments »
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CLASSICA DIGITALIA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/classica-digitalia.html
O Reitor da Universidade de Coimbra, a Directora do Arquivo da Universidade, a Coordenadora Científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, o Director do Sistema Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra, o Director do Instituto de Ciência da Informação, Arquivística e Biblioteconómica têm a honra de convidar V. Ex.ª para estar presente na sessão de apresentação da recém-criada biblioteca e editora online CLASSICA DIGITALIA, da UI&D-Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, que terá lugar no dia 22 de Abril de 2009, pelas 16 horas, na Sala D. João III, do Arquivo da Universidade de Coimbra.
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April 19 2009, 6:01am | Comments »







