Tema recorrente de António Nóvoa:Qual é o principal desafio de um gestor escolar atualmente?Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico.Como saber o que é essencial?Há um pensamento notável de Olivier Reboul, filósofo francês (1925-1992). Ele diz que deve ser ensinado na escola tudo o que une e tudo o que liberta. O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.(...)Até que ponto o gestor pode mexer no currículo quando há uma política nacional definida pelo governo?Muitas propostas de Educação complementares ao currículo não são impositivas. Cabe aos diretores de cada escola escolher o que priorizar. Tanto é assim que em vários países, embora a política educacional seja única, verifica-se um dualismo cada vez mais acentuado: as elites investem na Educação privada, cuja base estrutural é a aprendizagem, enquanto as escolas públicas estão cada vez mais centradas em dimensões sociais e assistenciais. Essa Educação feita em duas velocidades é o pior dos cenários para o nosso futuro, pois só aumenta a desigualdade de oportunidades.Entrevista integral (via CC)
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À Escola o que é da Escola
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July 22 2010, 4:53pm | Comments »
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Uma escola para aprender
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Sempre haverá vento favorável para quem sabe aonde quer chegar… (porque pode navegar à bolina, por exemplo...)E a mudança mais sensível talvez seja a de criar um processo de monitorização que ajude a melhorar continuamente o projecto do TA, inserindo-o de forma mais consistente em todo o Trabalho de Escola. Em termos estritamente pessoais não posso deixar de me congratular e de felicitar todos os que persistem na realização dos sonhos de uma outra escola….Assim terminei hoje a minha intervenção na ESE de Setúbal, apresentando uma "quase avaliação iluminativa" sobre o "Trabalho Autónomo" no Agrupamento de Vialonga.
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July 6 2010, 3:38pm | Comments »
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A escola a tempo inteiro é um bom slogan
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A escola a tempo inteiro é um bom slogan, mas, a prazo, pode representar um empobrecimento cultural das crianças e das comunidades. Eis-me, outra vez, a defender o retraimento da Escola. É importante que saibamos separar o que é essencial e obrigatório para todas as crianças daquilo que deve ser opcional e responder a diferentes necessidades de diferentes crianças. António NóvoaSaber e Educar, 11, 2006Ponto e contraponto.
July 6 2010, 3:34pm | Comments »
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A reforma total
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Dizia em texto aqui publicado em Dezembro de 2009 que era quase certo que o nosso Ensino Básico sofreria mais uma reforma/reorganização curricular, lembrando que a última é de 2001. Era disso que se falava na altura. Passados seis meses, percebi que não é apenas o Ensino Básico que será reformado/reorganizado mas todo o ensino não superior.Afirmo isto com base num documento que já é público (apesar de se apresentar na forma de power-point), datado de Maio último, e intitulado Proposta de Revisão Curricular dos Ensinos Básico e Secundário.Trata-se de um documento que reflecte o trabalho de um órgão consultivo do Ministério da Educação, um tal Conselho de Escolas, que, ao que parece, tem levado a sua função muito a sério, criando uma “comissão da revisão curricular” cujo objectivo é “contribuir para uma das reformas do nosso sistema educativo mais anunciadas, mais desejadas e mais proteladas nos últimos anos. Esclarece este Conselho, tão pró-activo, que “sendo certo que o propósito do nosso trabalho se centrava no Ensino Básico, cedo se percebeu que, para se alcançar uma proposta mais ou menos harmoniosa, não poderíamos deixar de fora o ensino secundário”.Muito bem, e o que propõe o dito Conselho para a educação das nossas crianças e jovens entre os três e os dezoito anos de idade?(Sugeria ao leitor que consultasse o referido documento, por exemplo, aqui).Depois de analisar ao detalhe todos e cada diapositivo, devo confessar que não consigo responder a esta pergunta essencial que temos legitimidade de ver respondida por parte de quem propõe uma reforma/reorganização tão ambiciosa.Avanço e de entre as muitas considerações de teor pedagógico que poderia tecer, fico-me, de momento, pelas mais gerais e óbvias:Centrando-me nos "pressupostos", não me parecem, de facto, sê-lo, pois não traduzem uma ideia clara e consistente acerca do que deve ser a educação escolar no futuro, com base em contributos filosóficos e científicos sólidos, a sua essência é de natureza conjuntural e remediativa. Faço as mesmas considerações para a conceptualização dos três (ou serão quatro?) ciclos propostos: pré-escolar, primário, secundário geral ou unificado, e secundário superior.Destaco para o ensino pré-escolar, com a duração de três anos, que este continua a não ser encarado na sua especificidade, subordinando-se aos desígnios do primeiro ciclo. Por outro lado, insiste-se em concebê-lo com um "espaço de socialização", descuidado-se a dimensão cognitiva do desenvolvimento das crianças.Destaco para o ensino primário, com a duração de quatro anos, a mudança de… designação (deixaria de se chamar "primeiro ciclo"). Insiste-se na avaliação qualitativa (conceito que foge a qualquer modelo de avaliação que se preze) e na tendência de não retenção dos alunos (omitindo-se as medidas fundamentais para os alunos que não progridem de modo regular na aprendizagem).Destaco para o ciclo ensino secundário geral ou unificado, com a duração de 4 anos, a organização do currículo em quatro áreas do saber: Ciências Exactas e Experimentais; Línguas e Humanidades; Expressões; Educação Sexual e Cidadania.Ficamos a saber que esta última (onde se associa directamente a educação sexual à cidadania) são uma área de saber. Ficamos a saber também que a História e a Geografia devem ser geridas pelas escolas, advertindo-se que a primeira deve ter no mínimo dois anos de escolaridade, mas a Educação sexual e cidadania será leccionada em todos os anos.Continua o preconceito errado de que a avaliação formativa deve ser a principal modalidade de avaliação, e que também neste ciclo a retenção é uma medida de excepção sem se mencionar mais uma vez as medidas a que acima aludi.Destaco para o ciclo ensino secundário superior, também com quatro anos de duração, um primeiro patamar de dois anos generalista e um segundo patamar, também de dois anos, para a frequência de cursos orientados para o prosseguimento de estudos e profissionais. Em ambos se assegura a Lingua Portuguesa. É de louvar!Depois ainda há os Cursos de educação e formação, onde cairão os alunos que se vão perdendo… E, esperando estar enganada, serão muitos...
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June 24 2010, 7:04pm | Comments »
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Formação de adultos
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L’éducation des adultes, entre le biographique et le curriculaireÉducation et francophonieVolume XXXVIII, numéro 1, printemps 2010
June 12 2010, 4:31pm | Comments »
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A formação de um "habitus" e do senso comum
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É sem dúvida importante que as intenções da escola figurem preto no branco numplano de estudos minucioso ou sejam reafirmadas, de forma mais vaga, no domínio da educação moral, religiosa ou cívica. Mas não podemos falar de um currículo verdadeiramente escondido, se se tratar apenas de um currículo moral eufemístico ou idealizado. A noção de currículo escondido, no seu sentido restrito, refere-se às condições e às rotinas da vida escolar que regularmente geram aprendizagens desconhecidas, estranhas àquelas que a Escola conhece e declara querer favorecer.Jackson [1968], no seu livro Life in Classrooms, identificou o currículo escondido com as rotinas quotidianas que, no funcionamento da turma e do estabelecimento escolar, fazem com que os alunos aprendam, gerações após gerações, a viver num ambiente superpovoado, a ser constantemente julgados por professores ou por colegas ou ainda a aprenderem a obedecer àqueles que detêm o poder. Eggleton [1977], inspirando-se em Jackson, identifica sete tipos de aprendizagens que favorecem regularmente o funcionamento da escola sem que para tanto figurem nos objectivos oficiais do ensino. Tentemos resumi-los esquematicamente.Na escola: 1. aprende-se a "viver na multidão", definida aqui como uma concentração de indivíduos num espaço relativamente exíguo, o que implica, nomeadamente, uma muito fraca intimidade, e a necessidade de viver constantemente sob o olhar dos outros; o aluno aprende, pois, também a isolar-se, a ignorar ou a tolerar as interrupções, a diferir a satisfação de desejos pessoais ou a renunciar a eles: desejo de falar com o professor, ou com outros colegas, desejo de se movimentar, de começar ou de interromper uma actividade, de obter ajuda ou utilizar um recurso raro;2. paralelamente aprende-se a matar o tempo, a esperar, a acostumar-se ao aborrecimento e à passividade como uma componente inevitável da vida escolar. Numa palavra, aprende-se a paciência e o desinvestimento que ela pressupõe: suporta-se a espera, porque se adquire o costume de deixar de formular, na aula, projectos cuja realização não permite qualquer prolongamento de prazos;3. aprende-se a ser-se submetido à avaliação do outro; não apenas à do professor mas também à dos colegas de turma. Cada um de nós é evidentemente submetido ao juízo do outro, muito antes de ir à escola ou fora dela; mas a escola é dos lugares em que estamos mais expostos, sem nos podermos esconder facilmente. O aluno aprende, pois, a ser avaliado da forma que melhor serve os seus interesses e melhor protege a sua tranquilidade;4. aprende-se também, através da avaliação ou de outras formas de reforço, a satisfazer as expectativas do professor e dos colegas, para lhes obter a estima, os elogios ou qualquer outra forma de recompensa;5. aprende-se a viver numa sociedade hierarquizada e estratificada, logo, a viver como normais e legítimas a desigual distribuição do poder e a existência de indivíduos ou grupos de estatutos diferentes;6. aprende-se, em combinação com os outros alunos, a controlar ou, pelo menos, a influenciar, o ritmo de trabalho escolar e de progressão no programa, através de diversas estratégias de diversão: fazer novas perguntas, mostrar que não se compreendeu, que não se encontrou o material;7. aprende-se, por fim, a funcionar em grupo restrito, a partilhar e a utilizar, nesse grupo, os valores e os códigos de comunicação. Estes sete pontos resumem a lista de Eggleston [1977, pp. 110-113]. que não é, sem dúvida, exaustiva. Importaria, por exemplo, acrescentar a esta lista a aprendizagem: - de uma relação com o tempo através dos horários e das pausas no tempo escolar, a experiência das esperas, das expectativas, do rendimento obtido. dos ritmos impostos pelos outros, da antecipação, da regularidade:- de uma relação entre o espaço privado e público, através da interiorização das distâncias que se têm de manter na interacção pessoal, das fronteiras invisíveis a respeitar [Hall, 1971];- de uma relação com as regras e os saberes. Mesmo acrescentado, o inventário permanece bastante heteróclito, justapondo aprendizagens diversas cujo alcance é muito desigual, tanto durante a escolaridade como depois dela. Uma análise mais rigorosa do currículo escondido e das aprendizagens que ele produz está ainda por fazer, e não a podemos iniciar aqui. Sugerimos apenas que seria oportuno distinguir, com os cambiantes requeridos, no currículo real: por um lado, a dimensão que contribui para levar a interiorizar representações, crenças, gostos, ideologias, modelos conscientes e, por outro, a dimensão que leva a uma transformação do habitus como sistema de esquemas de percepção, de pensamento, de avaliação e de acção.Philippe Perrenoud, obra citada infra
June 12 2010, 4:24pm | Comments »
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Contributos do projecto educativo para o trabalho colaborativo e reflexivo entre os professores
http://terrear.blogspot.com/2010/05/contributos-do-projecto-educativo-para.html
Este estudo emerge da necessidade de analisar e compreender o papel dos departamentos curriculares na dinamização do trabalho colaborativo e reflexivo entre os professores, tendo como referência o projecto educativo da escola. Neste contexto, aborda a dinâmica de trabalho dos departamentos curriculares no processo de concepção e implementação do projecto educativo da escola, particularmente, as formas de interacção e as tipologias de reflexão entre os professores. O estudo pretende encontrar algumas respostas sobre as formas de perspectivar e desenvolver o trabalho colaborativo e reflexivo entre os professores, no quadro do projecto educativo da escola, o que pressupõe a compreensão das dificuldades que se colocam aos processos de colaboração e reflexão nos departamentos curriculares, bem como as condições facilitadoras a essas práticas.Fonte
May 18 2010, 6:12pm | Comments »
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Os patos preferem a escola (ou a escola prefere os patos)
http://terrear.blogspot.com/2010/04/os-patos-preferem-escola-ou-escola.html
"O TEMPO em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio. Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, A TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam. Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições. O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo, a razão por que estava ali. Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de secções, reuniões de conselho executivo, etc… escolheram o seguinte currículo: Nadar, Correr, Voar, Galgar montes e Saltar obstáculos. Os primeiros alunos foram o Cisne, o Pato, o Coelho e o Gato. Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do mesmo. Faziam, assim jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:· O Cisne, nas aulas de correr, voar e galgar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e desgaste psicológico despendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era o máximo.· O Coelho, por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar se não tinha asas? Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galgava montes.· O Gato tinha problemas idênticos aos do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter êxito. Só que o professor dizia que não podia aceitar essa ideia louca porque não estava contemplado no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.· O Pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem mas muito pior do que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos. Não tinha reprovações a nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas o que o fazia sumamente brilhante nas pautas finais.Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos “atributos”, até fomentaram nele a esperança de um dia, poder vir a ser professor.Os restantes alunos estavam inconformados. Nada tinham contra o pato, gostavam dele, compreendiam o seu grau mínimo de suficiência a todas as disciplinas, mas, perguntavam-se: a espantosa capacidade do Coelho em saltar obstáculos, correr e galgar montes não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA? E o Gato? De nada lhe serviria correr e saltar melhor do que o Pato? E que utilidade teria, para o Cisne, nadar como nenhum outro? Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. A escola, pensavam eles, era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a pô-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de não servirem para nada?Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem no ano seguinte estariam exactamente na mesma situação. Os professores lamentaram muito. Havia um programa, superiormente estabelecido e a questão era só esta: ninguém tinha média igual à do Pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.Os outros alunos abandonaram a escola . Desde então por razões óbvias a escola atrai mais os patos e, na sociedade, são eles que dominam."in Noesis , nº20, Setembro de 1991Transcrição da revista de Manuela Silveira.(com o agradecimento a APS)No tempo em que os animais falavam. No tempo em que a escola, de um modo geral, continua refém dos seus mitos. E que tem de renascer, outra. Valorizando as inteligências e as capacidades de cada um.
April 25 2010, 12:33pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
COMO ORGANIZAR A ESCOLA PARA O INSUCESSO EDUCATIVO
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Mais um excerto de uma comunicação, proferida em 1988, de João Formosinho. Evidenciando, de forma irónica e cáustica, o que o sistema de melhor tem vindo a fazer.
2.1. A construção de uma estrutura curricular académica e uniforme com sequencialidade regressiva A organização da estrutura curricular da escola para o insucesso pressupõe a manutenção das linhas gerais que têm regulado a formulacão do currículo entre nós. Deve assim continuar a manter-se o currículo liberal, criado num molde liceal, apesar do seu fracasso perante a escola de massas (Fernandes 1985a). A unificação do ensino post-primário foi mais uma unificação curricular do que de vias 'de ensino ao nível do 5. o e 6. o anos, mas foi implementada como unifiçação de vias de ensino e unificação organizacional e curricular no ensino secundário geral (sobre as concepções iniciais da unificação ver Grácio 1986).
O desajuste entre a mudança de objectivos no ensino com o advento da escola de massas em Portugal no fim da década de 1960 (democratização da educação, igualdade de oportunidades) e a continuidade do modelo curricular uniforme (traduzido na licealização do ensino preparatório e secundário) é, sem dúvida, o pano de fundo' da organização de uma escola voltada para o insucesso educativo. Para operacionalizar esta ideia geral devem utilizar-se vários processos. Assim deve:
a) Manter-se toda a lógica geral do currículo uniforme, isto é, ser um currículo planeado centralmente por um grupo de "iluminados" (iluminismo), adoptado e mandado executar pelos serviços centrais (centralismo), enciclopédico e fragmentado com um pouco de tudo (enciclopedismo), completamente independente das características de alunos" professores e de escolas (abstracção) e preparatório para o grau escolar imediato (sequencialmente) (Formosinho 1985b); b) Manter, ou até aumentar, a componente académica do currículo sobretudo no novo segundo ciclo do ensino básico, de modo a que a transição do ensino primário para o preparatório seja causa de abandono significativo (Rodrigues-Silva 1985) e de falta do cumprimento massivo da escolaridade obrigatória (Alves-Pinto 1987). c) Justificar a uniformidade rígida do currículo com o argumento de o país ser pequeno e portanto, não justificar variantes regionais, ser a uniformidade condição necessária da igualdade de oportunidade (a igualdade identifica da com unidade) ou ser essencial transmitir exactamente os mesmos conhecimentos a todos os alunos; d) Consolidar e até incentivar a ideia da total prevalência do trabalho intelectual sobre o trabalho manual (Nota 14). e) Manter as condições que potenciam a uniformidade curricular na uniformidade de métodos de ensino e de avaliacão. A um currículo uniforme deve congruentemente corresponder uma pedagogia uniforme e uma avaliação uniforme. Pode manter-se uma aparência de grande liberdade do professor na escolha de métodos, mas através de determinação da carga horária uniforme por disciplina, da distribuição rígida dessa carga horária, da duração de cada aula, da identidade dos conteúdos e do controlo da extensão dos programas consegue impor-se um ritmo de implementação do currículo que só pode variar dentro de limites apertados conduzindo a uma predominância uniforme do método expositivo. Esta espartilha será tanto mais eficaz quanto menos for percebido pelos professores como controlo pedagógico (de facto o controlo do tempo escolar é um elemento essencial na liberdade pedagógica do professor, mas convém colocá-lo apenas como uma racionalização administrativa). A melhor maneira de os professores aceitarem esta pedagogia uniforme como natural é substituir a formação dos professores (formação com enquadramento teórico referencial e crítico em relação às práticas) pela socialização do professor na escola pelos práticos nas práticas docentes já estabelecidas (Formosinho 1986). f) Prolongar a uniformidade pedagógica para a uniformidade da avaliação. Quanto mais uniforme for o padrão de avaIiação mais aumenta a possibilidade da sua desadequação, isto é, maior é a probabilidade de ser inadequado às características, necessidades e educações informais de grupos de alunos e de ser inadequado em relação a muitos dos métodos de ensino usados (Formosinho 1985d). A avaliação uniforme, no entanto, só pode manter-se sem provas finais nacionais enquanto os professores não quiserem (ou não descobrirem) o poder que têm sobre o currículo e à avaliação se articularem a possibilidade prática de que usufruem agora de não cumprir integralmente o programa e a de controlarem localmente a avaliação (ver Valente 1985, 60-62). g) Continuar a manter a lógica da sequencialidade regressiva (Lemos-Pires 1985b) - o objectivo fundamental de cada grau de ensino deve ser preparar para o nível de ensino seguinte. Através deste processo o ensino superior é quem mais ordena, como diz Lemos Pires. Há que evitar sobretudo que o segundo ciclo do ensino básico se assuma como continuação do primeiro ciclo, isto é, que substitua a sequencialidade regressiva pela progressiva. Pode recorrer-se para isso ao argumento da necessidade de assegurar a qualidade científica rigorosa dos conteúdos ensinados, à necessidade de assegurar uma boa preparação para o secundário (ou outras variações da sequencialidade regressiva), apelar à defesa do estatuto dos professores do preparatório, etc. h) Manter firme a compartimentação disciplinar tão característica do currículo académico, pois ele é peça vital na organização de uma escola para o insucesso (Perrenoud 1985). Deve fazer proliferar as disciplinas com carga horária /reduzida, pois isso aumentará a compartimentação - quanto mais disciplinas o aluno tiver de frequentar mais a integração das diversas aprendizagens ficará a seu cargo; i) Promover a formação monodisciplinar dos professores e a criação de grupos monodisciplinares nas escolas no básico (do 5. o ao 9. o ano). Por um lado, tal medida viabiliza o currículo compartimentado disciplinarmente, por outro lado, incentiva um espírito de radicalismo monodisciplinar que perspectiva quase exclusivamente a educação como instrução, o que potencia a sequencialidade regressiva. Sobretudo deve manter-se o professor do ensino preparatório I mais especializado disciplinarmente no nosso ensino – na prática já acontece que em grande parte das escolas preparatórias os professores só ensinam dois níveis da mesma disciplina. Sendo o ensino preparatório uma zona chave a promoção aí da compartimentação do currículo e dos professores é essencial numa escola voltada para o insucesso. Promover também uma compartimentação " multiplicando a necessidade de os alunos mudarem de escola o que os obriga a ter de se adaptar com frequência a comunidades e a outros climas escolares. Assim em um possível esquema (em anos de escolaridade) de 9 + 3 ou 6+3+3 deve incentivar-se a manutenção do esquema 4 + 2 + 6, ou melhor ainda 4 + 2 + 3 + 3. É sobretudo de manter o ensino preparatório completamente separado do primário. i) Enfim, "Last but not the least", continuar a manter sem alterações o modelo de controlo e gestão centralizada do currículo, até porque ajudará a diminuir o empenhamento dos professores na sua implementação. Ora o empenhamento dos professores, se se articular com a criatividade pedagógica, é uma provável fonte de diversidade de práticas pedagógicas. Dum modo geral, podemos dizer que a aplicação desta lógica do insucesso à escola preparatória e secundária portuguesa já está em marcha há muito tempo; precisa apenas de uns ajustamentos numa perspectiva de racionalização uniformizadora global.
João Formosinho, Obra citada infra
March 15 2010, 6:04pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
A Pluralidade das Formas de Excelência
http://terrear.blogspot.com/2010/03/pluralidade-das-formas-de-excelencia.html
Dito isto, professores mais conscientes da pluralidade das formas de excelência e, por isso, dos limites de validade dos seus juízos e dos efeitos traumatizantes que podem exercer, deveriam ser levados a evitar todas as sentenças sem apelo pronunciadas sobre as capacidades de alunos, globalmente caracterizadas; e nunca deveriam esquecer que, em qualquer caso, apenas julgam um comportamento pontual, escolar e parcial, e não uma pessoa tomada na sua essência ou na sua natureza. O reconhecimento da pluralidade das formas de sucesso, que liberta os professores do dever de modelar e "de avaliar todos os espíritos' segundo um modelo único, alíado ao exercício de uma pluralidade de pedagogias, que permitiria valorizar e exigir actividades e actuações diferentes (dentro dos limites dum mínimo cultural comum exigível para cada nível), poderiam fazer da escola, não um lugar de fracasso e de estigmatização para os mais desfavorecidos socialmente, mas um lugar em que todos poderiam encontrar a sua forma própria de sucesso.Para que a avalição necessária das aptidões tome a forma de um conselho de orientação, e não a de a uma sentença de exclusão, seria necessário multiplicar vias escolares socialmente e equivalentes (por oposição as carreiras hierarquizadas de hoje). Deviam ser dadas todas as facilidades institucionais aos que tivessem de passar de uma via para outra ou tornar equivalentes as aprendizagens associadas a diferentes vias. A rígidez dos trajectos obrigatórios, das fileiras irrversíveis que dá um peso quase fatal às escolhas e aos resultados escolares de exclusão, deveria ser combatida por todos os meios. A necessária consideração das diferenças (diferenças de capacidades, de ritmos de aquisição ou de formas de espírito) e a orientação dos alunos para vias diferentes deveriam ser acompanhadas de medidas que concretamente visassem - por exemplo, pela atribuição de bons professores e de aumento de qualidade - revalorizar as vias escolares que as hierarquias em vigor quer nos espíritos, quer no meio social) levam a considerar como inferiores. O percurso escolar tomaria a forma de uma especialização progressiva através da orientação para estabelecimentos pluridisciplinares, abrindo acesso a estabelecimentos mais especializados. Seria indispensável que, antes de decidir a escolha da sua especialidade, os jovens pudessem fazer estágios em estabelecimentos diversificados. Pierre Bourdieu, Propostas sobre o ensino do futuro.Um texto antológico, sempre actual.
March 13 2010, 9:29am | Comments »



