Minha crónica saída hoje no jornal "Sol", revista "Tabu" (na imagem, conjunto de Mandelbrot com ampliações sucessivas de pormenores):Quando este ano chegar ao fim e se fizerem as costumadas listas de obituários aparecerá em todas elas um dos nomes mais brilhantes da ciência contemporânea, o matemático franco-americano (nascido na Polónia, de uma família judaica) Benoît Mandelbrot. Ele foi o criador, a meio dos anos 70, do neologismo fractal, construído a partir da palavra latina fractus, que significa fracturado, partido.Os objectos fractais são não apenas partidos, mas infinitamente partidos, isto é, partidos em todas as escalas, de modo que se possam caracterizar pela propriedade de invariância de escala: o seu aspecto é semelhante qualquer que seja a escala a que os observemos. A Natureza é abundante em objectos desse tipo: por exemplo, a acidentada costa da Grã-Bretanha, formada por numerosos cabos e baías, é fractal, tal como o é a fronteira terrestre de Portugal, desenhada na sua maior parte pelos cursos sinuosos de rios. Estes dois exemplos aparecem no artigo publicado por Mandelbrot em 1967 na revista Science com o sugestivo título: “Quando mede a costa da Grã-Bretanha?”. A resposta certa é: depende do tamanho da régua uma vez que, quanto mais pequena for a régua, maior será o comprimento da costa.A palavra fractal entrou com todas as honras na língua portuguesa na capa do livro de Mandelbrot “Objectos Fractais”, saído em 1991 na Gradiva (tradução minha e de José Luís Malaquias Lima). Terminei o prefácio que escrevi com uma paráfrase de Álvaro de Campos: “O Conjunto de Mandelbrot é tão belo como a Vénus de Milo / E há cada vez mais gente a dar por isso”. Referia-me ao conjunto matemático extremamente complexo, apesar de obtido por um processo iterativo muito simples, que aparecia na capa da obra. O seu desenho exige o recurso a um computador, razão por que não pôde ser visualizado satisfatoriamente antes do advento das modernas máquinas de cálculo.Além dos objectos fractais omnipresentes na Natureza e dos objectos fractais do mundo ideal da matemática, há ainda outros que surgem em resultado da actividade humana: Mandelbrot, no final dos anos 50, interessou-se pela evolução dos preços, cujos gráficos haveria mais tarde de reconhecer como figuras fractais. As suas ideias eram bastante estranhas e tardaram a entranhar-se nas escolas de Economia. Anos volvidos, o seu livro “O (Mau) Comportamento dos Mercados”, escrito em co-autoria com Richard Hudson, saído na Gradiva em 2006 (em boa tradução de Miguel Marques), celebra o casamento dos fractais com a Economia. A tese aí defendida é que o acaso se manifesta nos mercados de uma forma mais irregular do que se pensava. Hoje, com a turbulência dos mercados financeiros, bem pode dizer-se que o “pai dos fractais” morreu após ter assistido ao triunfo das suas ideias.
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FRACTAIS POR TODO O LADO
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November 4 2010, 7:13pm | Comments »
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Apresentação da Ciência das Nossas Avós
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Hoje, em Coimbra, ~pelas 18 h, é apresentado o livro "Ciência a Brincar - 10" (Bizâncio) que trata a ciência no tempo das nossas avós. Clicar no cartaz para o ver melhor.
November 4 2010, 4:59am | Comments »
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O QUE É INVESTIGAR?
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Texto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005), esgotado no editor:Suponha o leitor que lê no seu jornal favorito o seguinte título em letras garrafais:“INVESTIGADORES EM GREVE GERAL”.Ficaria preocupado? Será que o trabalho dos investigadores científicos é assim tão importante que não admita uma interrupção? Provavelmente, o leitor não ficaria sobressaltado, por pensar que de tal greve não adviria mal maior ao país ou ao mundo. A situação já seria diferente se se tratasse de uma greve dos padeiros ou dos motoristas de autocarros. Ninguém gosta de não ter pão fresco de manhã ou de não ter o autocarro a horas para ir trabalhar.No entanto, quer o fabrico do pão quer os serviços de autocarros têm a ver, de uma maneira ou de outra, com resultados alcançados em processos de investigação científica. A investigação ou pesquisa científica, que basicamente consiste em saber mais sobre qualquer assunto, acaba por estar relacionada com o quotidiano de todos nós. Se outras razões não houvesse, bastaria essa para nos interrogarmos sobre o que vem a ser a “investigação”. O que é investigar?A palavra “investigação” surgiu só no século XV, pouco antes da Revolução Científica que deu origem à ciência moderna. Provém do latim: resultou de juntar “in” a “vestigium”, o que literalmente significa ir atrás de pegadas, seguir o rasto de alguém. De acordo com a etimologia, o investigador científico vai atrás de marcas. A sua tarefa é semelhante à de um detective. Um cientista é um Sherlock Holmes, que de lupa em riste, examina os mínimos vestígios para saber quem é o criminoso...Curioso é notar que o título do jornal escrito acima poderia afinal preocupar os portugueses se eles pensassem que os investigadores em causa não eram os investigadores científicos, mas sim os investigadores da Polícia Judiciária. Haveria boas razões para isso: Uma greve geral desse corpo de polícia, ao deixar os criminosos incólumes, colocaria em risco a segurança dos cidadãos...As semelhanças entre um investigador científico e um polícia judiciário são reais e podem ser aprofundadas. Se se consultar um dicionário moderno, como o da Academia de Ciências de Lisboa, encontra-se que investigar é realizar uma “pesquisa crítica e sistemática, com base por exemplo na experimentação, que se destina a rever conclusões aceites à luz de factos novos.” Trata-se de uma boa definição. Pesquisa significa procura cuidadosa (em inglês, a palavra é “research” e em francês “recherche”, quer uma quer outra traduzidas à letra dão “procura repetida”). Os atributos “crítica” e “sistemática” reforçam aquilo que uma pesquisa é. O investigador tem de se interrogar permanentemente sobre se estará ou não a cometer erros. E o investigador tem de executar um conjunto de procedimentos o mais completo possível. Usando a linguagem do famoso personagem de Conan Doyle, o investigador tem de inquirir a si próprio se está na pista certa e tem de explorar todas as pistas.Continuando a decifrar o dignificado do dicionário, atente-se na expressão “por exemplo” antes de experimentação. Ela significa que a investigação pode ter ou não carácter experimental. Tem, decerto, nas ciências físico-químicas ou nas ciências biológicas. Pelo contrário, em ciências sociais e humanas, as possibilidades de experimentar são muito reduzidas, pelo que a investigação nessas áreas não é experimental. Mas, em casos de polícia, fazem-se muitas vezes experiências para apurar o modo como tudo se passou. A investigação criminal apoia-se em larga medida em procedimentos laboratoriais das ciências físico-químicas e das ciências biológicas. E fazem-se também reconstituições de crimes, que são verdadeiras experiências.O fundamental da definição de investigar vem talvez no fim: “rever conclusões aceites à luz de factos novos”. Investigar não é procurar à toa, mas sim avançar uma hipótese, que é tacitamente aceite, e procurar saber se ela está ou não errada. Se ela se revelar inconsistente com um dado facto que antes não se conhecia, então terá de ser substituída. Por exemplo, no caso de um detective, a hipótese inicial pode ser “o criminoso é o mordomo”. No entanto, descobertos novos vestígios, o criminoso pode muito bem ser o jardineiro ou o motorista (havia pistas falsas!). É aqui que reside a dificuldade do trabalho investigativo. É que não se trata apenas de procurar de uma maneira cuidadosa, o que estaria ao alcance de muita gente. Mas sim de chegar a um resultado que anteriormente não era conhecido. Isso só está ao alcance de um verdadeiro Sherlock Holmes...Muitas vezes usa-se a palavra “investigar” numa acepção trivial. Quando alguém estuda um dado assunto por um livro, poderá chegar a conclusões novas para si. Porém, essas conclusões não são decerto novas para o autor ou autores do livro. Na verdadeira acepção de “investigar”, o sujeito tem de chegar a conclusões que são novas não apenas para ele, mas novas para toda a gente. Tal exige outras qualidades para além da mera perseverança, nomeadamente a inteligência e a criatividade. Ele tem de ver mais do que toda a gente antes dele viu. Se possível, o resultado a que chega deve ser simples, isto é, deve ser evidente para toda a gente uma vez revelado publicamente. “Elementar, meu caro Watson!”. Einstein dizia que uma “teoria deve ser tão simples quanto possível, mas não mais simples do que isso.”Não é fácil ser investigador. Existirão no mundo cerca de um milhão de cientistas (números redondos). Em Portugal não passarão de dez mil (também números redondos). Essas pessoas, depois de um treino prolongado – demora bastante o treino para investigador – adquiriram a capacidade manifestamente rara de chegar a conclusões diferentes das que são aceites, examinando com atenção a evidência disponível (aquilo que se pode chamar a “prova”, que no caso do Sherlock Holmes pode ser uma impressão digital deixada no local do crime).Esta analogia entre um investigador científico e um investigador judiciário, apesar de fecunda, é também ilusória (como são, aliás, todas as analogias). Normalmente um crime só é investigado, em segredo, por um pequeno grupo de investigadores. Ora, em ciência, o “crime” é um facto respeitante à Natureza ou ao Homem e vários grupos de investigadores perseguem ao mesmo tempo esses factos, em saudável competição uns com os outros, anunciando os seus resultados uns aos outros. Normalmente, alguém chega primeiro, mas os outros não desistem e acabam por confirmar (ou não) o resultado de quem chegou primeiro. Mas mais: Um investigador criminal faz o seu trabalho em geral sozinho, ou em pequenas equipas; porém, dada a magnitude das tarefas exigidas, muitos cientistas experimentais trabalham hoje em grandes equipas. Por outro lado, na investigação judiciária, quem acaba por atribuir a culpabilidade não é o detective mas sim um juiz, ao passo que na investigação científica quem proclama uma determinada conclusão acaba por ser a comunidade científica na área em causa, que funciona como uma espécie de colectivo de juízes. Não é verdade que os cientistas passem a vida a contradizer-se uns aos outros: eles acabam por se entender ao proferir os seus acórdãos comuns.Além disso, na investigação judiciária, apesar de serem possíveis erros (os famosos erros judiciais) um crime acaba por ficar resolvido, não se falando mais nisso. Pelo contrário, na investigação científica as conclusões alcançadas só são válidas provisoriamente. Novas procuras permitirão rever as conclusões estabelecidas, alcançando outras que de alguma forma têm de abarcar as antigas. A ciência é cumulativa ao incorporar em cada ocasião de descoberta o essencial das descobertas anteriores.Há mais diferenças. Tirando uma ou outra excepção, num caso de polícia acaba por se conhecer a verdade. Em ciência, porém, a verdade só idealmente é alcançável. Para alcançar a verdade, ou melhor, para detectar o erro, o trabalho dos investigadores científicos tem de ser permanente. E é por isso que uma interrupção desse trabalho – a tal greve de que falava no início – é um atraso na procura da verdade, um atraso de que os cidadãos deveriam reconhecer o prejuízo.
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October 27 2010, 6:16pm | Comments »
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Ó MAR SALGADO....
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Minha crónica de hoje no "Sol" , revista "Tabu" (na imagem salinas da Figueira da Foz): O mais conhecido dos poemas da Mensagem, o único livro publicado por Fernando Pessoa em vida (1934), intitula-se Mar Português e começa assim: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” Porque é que o mar é salgado? Porque é rico em iões (átomos com electrões a menos ou a mais) de cloro e de sódio, os primeiros positivos e os segundos negativos. Esses iões, quando a água se evapora, ligam-se facilmente para formar uma rede cristalina, com os dois tipos de iões intercalados, conhecida por rede do cloreto de sódio, que é nada mais nada menos do que o vulgar sal das cozinhas com que temperamos a comida. Basta ir ao Núcleo Museológico do Sal, um pequeno mas curioso museu numa salina na localidade de Armazéns de Lavos, perto da Figueira da Foz, na margem esquerda do rio Mondego, para ver “in loco”como é que o sal se retira, em salinas, da água do mar. A expressão “rico em iões” pode ser quantificada. Em cada litro de água, encontram-se 3,5 gramas de iões, dos quais a grande maioria (86 por cento) são iões de cloro e de sódio. Pode-se morrer de sede rodeado de água no meio de um oceano, pois o nosso organismo não aguenta a ingestão de uma quantidade de sal tão elevada. O sal é necessário à vida, mas apenas na devida conta. Todos os nossos fluidos corporais - sangue, suor e lágrimas - possuem sal, mas numa proporção bem mais baixa do que aquela que se encontra nos oceanos. De onde vieram os iões do mar? Na sua maior parte, foram-se acumulando ao longo dos tempos a partir da dissolução das rochas. A idade da Terra pode então ser calculada a partir da concentração de sal marinho. A primeira pessoa a ter essa brilhante ideia foi, em 1715, Edmond Halley, sim, esse mesmo, o astrónomo inglês que deu o nome ao cometa que apareceu há cem anos, nas vésperas da República, e voltou passados 76 anos. Halley supôs que os iões eram retirados das rochas pelas águas das chuvas e arrastados para o mar. Mas não fez os cálculos. Bastante mais tarde, em 1899, o físico irlandês John Joly, estimando o valor do caudal dos rios e conhecendo o teor de sal na água do mar, avaliou a idade da Terra em cem milhões de anos, um número bem maior do que aquele que se admitia até essa altura. Contudo, os erros desse processo eram bastante grandes pois o cálculo não levava em conta com outras origens (por exemplo, vulcões e fontes hidrotermais) dos iões presentes na massa oceânica assim como o destino de uma parte deles (depósitos em rochas). De facto, graças a outras técnicas, mais exactas, designadamente assentes em medidas da radioactividade natural, sabe-se hoje que o nosso planeta, incluindo tanto continentes como oceanos, é bastante mais velho do que foi estimado por Joly: tem cerca de 4,5 mil milhões de anos.
October 21 2010, 6:18pm | Comments »
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Ciência no Tempo dos nossos Avós
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Informação sobre novo livro recebida da editora Bizâncio:Título: Ciência a Brincar 10: Ciência no Tempo dos nossos AvósAutor: Dolores Alveirinho / Helena Margarida Tomás e Margarida AfonsoISBN: 978-972-53-0464-8Págs.: 62Preço: 9,59Divulgação de ciência para público infantil______________________________________________________________A importância de conhecer a nossa cultura e as nossas tradições é consensual entre todos os que se preocupam com o desenvolvimento harmonioso, tanto dos mais novos como dos mais velhos. Com o objectivo de dar a conhecer e de valorizar algumas das tradições do nosso país, apresenta-se um conjunto de actividades experimentais tendo por base as tradições, fundamentadas com explicações científicas simples. Embora se tenha consciência de que algumas das actividades requerem materiais que são de acesso menos fácil, procurou-se aproximá-las das tradições em que eram realizadas. Desta forma, valoriza-se e dá-se a conhecer, de forma mais explícita, as nossas tradições. As sugestões finais apresentam tarefas e materiais alternativos, bem como algumas informações, de forma a alargar o conhecimento sobre cada um dos temas. Este livro destina-se não só a crianças, mas também a educadores de infância, a professores, a animadores, a pais e a avós e a todos aqueles que, em conjunto, queiram passar bons momentos de lazer, de comunicação, de transmissão e de troca de sabedorias antigas, tendo como pano de fundo a cultura e a ciência.
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October 19 2010, 9:36am | Comments »
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VIDEOS: Cientistas de Pé na Visão
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(clique para ampliar)Sobre os Cientistas de Pé - que fazem stand up comedy - ver também aqui dois videos (imagens de Rui Ribeiro e Manuel Pereira) da actuação na Noite Europeia dos Investigadores 2010, no Jardim Botânico Tropical, em Belém.
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October 19 2010, 3:43am | Comments »
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VIDEO: Método do Bosão de Higgs
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Um dos espectáculos apresentados no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, durante a Noite Europeia dos Investigadores 2010:Para mais informações contactar o grupo causa.ac.
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October 18 2010, 4:37am | Comments »
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UMA VIAGEM NO COMBOIO DO NOBEL
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O nosso colaborador habitual António Piedade publicou esta crónica sobre os Prémios Nobel deste ano no sítio "Boas Notícias":Alfredo estava muito entusiasmado. Ele e o seu avô Bernardo iriam fazer uma viagem no Comboio Nobel. O avô tinha bilhetes para três estações virtuais e nelas iriam conhecer as descobertas galardoadas com os prémios Nobel deste ano da Fisiologia ou Medicina, da Física e da Química.O avô Bernardo chegou bem cedo, logo após a alvorada solar. Afagou-o com o abraço de quem conhece bem os atalhos que a ansiedade sulca na substância do pensamento. Entregou-lhe três bilhetes, um para cada estação, e lá foram em direcção à partida do comboio Nobel.Bem instalados, Alfredo contemplou as paredes forradas com o espanto de outras descobertas. Olhou para o primeiro bilhete com a data de 4 de Outubro e, num abrir e fechar de olhos, viu pela janela a placa da primeira estação: Fisiologia ou Medicina.O comboio Nobel parou suave e instantaneamente. Alfredo e o seu avô saíram e pisaram um chão como que feito de gelatina. Era gel de agarose, uma substância gelatinosa que os cientistas usam para várias coisas, entre elas para cultivar células, disse-lhe o avô. À medida de alguns passos, um enorme oócito II e o seu inseparável 1º glóbulo polar, pairavam majestosamente sobre eles.Envolto pelas glicoproteínas constituintes da zona pelúcida, a célula germinativa femimina parecia iluminada por uma áurea interna. Enquanto a ponta romba de uma pipeta mantinha o oócito II a pairar levemente por cima deles, de uma outra pipeta muito mais fina eram inoculados espermatozóides. Alfredo e o seu avô assistiam espantados a uma fertilização in vitro (FIV).Desenvolvida por Robert Edwards, o galardoado deste ano, a FIV daria origem em 1978 ao primeiro bebé-proveta, a Louise Brown. Desde então, cerca de 4 milhões de crianças já nasceram graças à FIV. Alfredo sorriu e abraçou o seu avô ao presenciar a fusão cariogâmica e o sequente emparelhamento dos cromatídeos paternos e maternos em 23 pares de 46 cromossomas.De volta ao Comboio Nobel, Alfredo olhou para o bilhete que tinha inscrito 5 de Outubro. Viu pela janela que o seu pensamento já estava na estação da Física. Ao sair do Comboio pisou o que parecia uma rede muito fina tecida com átomos de carbono (C), estes dispostos nos vértices de inúmeros hexágonos contíguos. Tinha a mesma estrutura bidimensional de uma única camada da grafite do lápis que avô trazia no bolso e designava-se por grafeno.Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, os galardoados deste ano, conseguiram isolar uma monocamada de grafeno e descobriram que este arranjo de átomos de carbono possuía certas propriedades eléctricas, térmicas e mecânicas, entre outras, com potenciais e excitantes aplicações nanotecnológicas.O avô Bernardo gracejou: talvez a grafite do seu lápis desse, no futuro, para fabricar dispositivos electrónicos mais eficientes, mais pequenos, mais robustos. Talvez um supercomputador minúsculo estivesse por desenhar com a grafite do seu lápis! Alfredo olhou para a ondulante nuvem de electrões que fluía pelos átomos de carbono em arquitectura hexagonal e pressentiu invenções ainda escondidas adentro da imaginação.Sentado de novo no Comboio, olhou para o último bilhete com a curiosidade reforçada pelas estações anteriores. O dia 6 de Outubro era a data que correspondia à próxima estação, e a Química o território em que esta se edificava.Saíram do Comboio e entraram para um enorme erlenmeyer, vaso reaccional da próxima emoção. No centro, incansável, um átomo de paládio (Pd) aproximava átomos de carbono até à justa medida para que uma ligação covalente se estabelecesse entre eles. Depois, o composto assim formado "desprendia-se" do paládio catalisador que retomava o princípio sem se gastar.Os galardoados deste ano desta estação foram Richard Heck, Ei-ichi Negishi e Akira Suzuki, químicos muito relevantes. O avô Bernardo acrescentou que eles desenvolveram em particular uma reação designada por acoplamento cruzado catalisado por paládio, um dos processos mais sofisticados da química actual.São reações usadas quotidianamente em indústrias tão distintas como a petrolífera e a farmacêutica. Permitem uma mais eficaz e menos poluente síntese de substâncias que usamos todos os dias. Alguns complexos de paládio são usados na quimioterapia de certos cancros. E até os dentistas, disse o avô entre dentes, usam ligas de paládio para polimerizar em vez de chumbar as crateras das cáries dentárias!De regresso ao Comboio Nobel, Alfredo e o seu avô sentiam-se mais ricos e felizes. De certo modo tinham experienciado as descobertas científicas que foram este ano distinguidas com o prémio Nobel.Alfredo pegou no lápis do avô, descreveu o que vira e desenhou dispositivos imaginados que escoavam da grafite.António Piedade
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October 14 2010, 11:12am | Comments »
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Sexo... e então?
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Informação recebida do Pavilhão do Conhecimento - Centro Ciência Viva de Lisboa:O que é estar apaixonado? Qual a diferença entre um beijo explosivo e um beijo distraído? O que acontece ao corpo dos rapazes e das raparigas quando chegam à idade do armário? Para que servem os espermatozóides? Será que dar as mãos é fazer sexo? E podemos obrigar alguém a gostar de nós?Rigorosa, atractiva e sem tabus. Assim é a nova exposição do Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva. Sexo... e então?! explica o amor e a sexualidade de uma forma clara e divertida ao público pré-adolescente (dos 9 aos 14 anos) e também diz respeito às famílias, aos educadores e ao público em geral.A inauguração oficial terá lugar na próxima segunda-feira, dia 18, às 18h30, e contará com a presença do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago, e da Presidente da UniverScience, Claudie Haigneré.Dividida em cinco grandes áreas, esta mostra tem a chancela da Cité des Sciences et de l´Industrie de La Vilette, Paris. O rigor científico dos conteúdos foi garantido pela supervisão de um grupo de especialistas em educação para a infância e adolescência que acompanharam a revisão da tradução dos textos originais.Em Sexo... e então?! os visitantes vão poder ficar no escurinho do cinema e assistir a alguns dos momentos mais românticos da história da sétima arte, observar como reage o feto aos vários alimentos ingeridos pela mãe ou o percurso que um espermatozóide faz até fecundar um óvulo.Os mais desinibidos poderão cantar no "chuveiro" e experimentar as alterações que a voz dos rapazes sofre na puberdade. Os apaixonados mais envergonhados vencerão a timidez escrevendo e imprimindo uma declaração de amor em jeito de poema em língua fixe ou declaração matemática. Os muito apaixonados vão conhecer a intensidade do seu amor apertando um enorme coração vermelho. Será que no amor vale tudo?Nesta exposição, que também alerta para a questão da pedofilia, existe ainda uma área interdita aos adultos onde os mais novos poderão conhecer sem tabus o mapa do corpo masculino e feminino, aprender o que é uma erecção e saber a que se referem realmente as raparigas quando dizem que "Estão de bandeira vermelha".Painéis explicativos mostram, através de ilustrações, como se faz sexo ou qual a função de cada contraceptivo. Será que no amor há regras?Sexo... e então?! pode ser visitada até 28 de Agosto de 2011. Associada à exposição decorrerão actividades complementares, como debates, palestras e ateliês.Mais informações em http://www.pavconhecimento.ptEsperamos a sua visita!
October 14 2010, 6:32am | Comments »
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Método do Bosão de Higgs
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Excerto do meu monólogo, "Método do Bosão de Higgs", que estreou no Museu da Ciência da Universdade de Coimbra durante a Noite Europeia dos Investigadores. Na fotografia a actriz Sara Paz."Antes de vos falar dos vértices e pedras angulares deste método, meus amigos, gostaria de partilhar convosco um testemunho pessoal, que me levou a encontrar o método. Há cerca de cinco anos foi-me diagnosticada uma doença grave, daquelas que ainda hoje é desconhecida. É um daqueles momentos em que vemos a nossa vida toda a passar como numa sessão de cinema 3D, munidos apenas de uns normais óculos de sol, enquanto ingerimos freneticamente comprimidos de todos os tipos como se fossem pipocas.Após algumas semanas de uma dieta rigorosa, à base de alcachofras, rebentos de soja, pinhões e bagas de goji, recebi a notícia de que as minhas análises tinham sido trocadas com as de um flamingo vítima de um derrame de crude, internado numa clínica veterinária próxima. Estava curado! Dessa experiência rica de emoções contraditórias resultou um modesto livro de receitas atómicas. Com ele tenho procurado ajudar milhares de pessoas a viver melhor. E confesso que também tenho vivido melhor, uma vez que o livro tem vendido muito bem.Como sabem, a alimentação saudável tradicional é assente no modelo desactualizado da roda dos alimentos e impõe uma série de restrições quanto às proporções relativas de lacticínios, vegetais, fruta, hidratos de carbono, gorduras... aliás, conceitos absolutamente ultrapassados pela física teórica. Já a dieta atómica é baseada no modelo padrão da física de partículas. É uma dieta que leva em conta as proporções relativas de leptões, quarks e bosões, que devem estar presentes em cada refeição. Sem esquecer é claro, o Bosão de Higgs, que, quando ingerido, permite criar biliões de mini-buracos negros por todo o nosso organismo, para onde são atraídas e engolidas as toxinas. Peter Higgs: esse grande físico teórico e gourmet. E o melhor de tudo: sem necessidade de alterar o que comemos normalmente ou a sua vida quotidiana".
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October 1 2010, 6:21am | Comments »







