Muitas vezes, em situações escolares quotidianas, interrogo-me: mas por que faço isto? Não sou obrigada! Acontece-me, por exemplo, na preparação, voluntária, de visitas de estudo de dois dias. Todos sabemos que, nestas actividades fora da escola, a responsabilidade é crescente. Daí muitas interrogações. E se há problemas? E se alguém se sente mal? E se há comportamentos que nos escapam? E se precisarmos de ajuda, a rede de solidariedades estará coesa ou esburacada?Depois, no decorrer da visita, perante o interesse e alegria dos alunos, os receios esbatem-se, os lugares visitados tornam-se merecidamente apelativos e necessários, justificando a pertinência da iniciativa. Os sorrisos dos alunos tornam-se medalhas que ficam gravadas na nossa memória. Como o de uma aluna, este ano, que dizia, com um brilhozinho nos olhos, estar ansiosa pela visita de estudo a Mafra e até sonhava com esse dia. Muitas vezes, o desejo de sair de casa supera a vontade de aprender, mas alguma coisa sempre fica.E fica a expressão de muitos alunos perante a descoberta de lugares e de pessoas, da sua ligação a obras literárias estudadas, tornando-se mais claro o entendimento de que objectos artísticos, como os livros, os quadros, as esculturas… também estão ligados à vida comum do dia-a-dia e às legítimas preocupações dos cidadãos.Depois das visitas de estudo, vêm os trabalhos ou relatórios para corrigir. Alguns bem interessantes, como um poema escrito após visita de estudo ao Palácio da Pena, em Sintra. O aluno, num feliz jogo de palavras, intitulou-o Pena de ti, Palácio! Questionava-se perante a beleza e o valor do monumento que se eleva no verde romântico que coroa o lugar.Por outro lado, muitos trabalhos suscitam bem menos interesse, mas exigem ainda mais tempo e atenção. São longas as horas passadas a corrigir repetidos e abundantes erros. Corrijo e interrogo-me: sou obrigada a fazer isto? É esta a obra – tão volátil – que um dia deixarei? Felizmente, alguns trabalhos compensam e ajudam a acreditar que outros poderá haver com igual ou superior qualidade. Nem que a crença se alargue ao ano seguinte!Para além das visitas de estudo, há projectos que não são obrigatórios, mas nos quais muitos de nós, professores, participamos, para além das actividades lectivas e não lectivas que integram o horário de trabalho. E, apesar de a participação ser de livre iniciativa, lá vem a pergunta: mas por que faço isto? Não sou obrigada! E, indiferentes a todas as opções, os espelhos quotidianos vão marcando a passagem veloz e irreversível do tempo.Em tempo de final de ano lectivo, sabendo que há coisas que corre(ra)m melhor, outras pior; às vezes interrogando, outras encontrando boas respostas; às vezes acreditando, outras descrendo; às vezes temendo, outras enfrentando desafios, apetece-me agradecer à Vida, dizendo apenas: Obrigada!Maria Dolores Garrido
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Obrigada!
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July 2 2010, 4:36pm | Comments »
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O AMIGO
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Um registo sobre a vida, a morte.O Jonas tinha um jeito irritante de estar na aula. Parecia quase sempre ausente.Hoje, para além de parecer distante, não tinha trazido o manual e o trabalho de casa caíra no saco roto do esquecimento.- Jonas, o que se passa contigo?- Pode anotar, professora, disse ele para pôr fim ao diálogo.E a professora:- Não fizeste os trabalhos, esqueceste-te do manual, não queres participar, e ainda por cima ficas com esse ar agastado…- Eu sei. Esqueci-me de tudo. Tem razão, professora.Jonas recolheu-se numa expressão de pássaro ferido e triste.A professora pegou na agenda e na caneta, pousando-as logo sobre a mesa, sem nada escrever. Nesta altura do campeonato, a indiferença irritava-a.Para não aumentar a irritação, mudou de assunto e de cenário:- Bem, espero que haja outros alunos que queiram participar. Fizeram os exercícios sobre o texto?E foram bastantes os braços que se levantaram.- Assim já fico mais contente. Vá lá, Verónica.Enquanto ia ouvindo os alunos, a professora olhava Jonas, que continuava cabisbaixo.No final da aula, Jonas aproximou-se da professora, fitando-a com olhar preso e húmido.- Hoje morreu um dos meus melhores amigos.- Quem, Jonas? Era aluno da Escola?- Não, mas foi meu amigo desde a primária.- Lamento, Jonas. Realmente, achei que estavas tão longe da aula. Mas sabes bem que não foi a primeira vez.- Hoje foi pior, professora. Ele era mesmo meu amigo, disse a chorar.E continuou:- Estávamos todos a jogar futebol quando se sentiu mal. Pensámos que estava a gozar connosco, porque era brincalhão, mas não. Nunca mais falou. E neste momento está morto.Escutando-o, a professora olhou a sala vazia. Quase todos os alunos tinham saído para o recreio. Nas mesas, sossegavam os manuais, os estojos, os cadernos. À sua frente, consternados, estavam Jonas e Beatriz, amigos do rapaz que falecera.Na aula tinham estado a falar de Ricardo Reis, da efemeridade da vida, da necessidade de viver tranquilamente o momento, da calma aceitação do destino…Vendo Jonas a chorar, surgiram algumas palavras de desajeitado consolo:- Sabes, a morte faz parte da vida! Felizmente souberam ser bons amigos…Jonas e a professora olhavam-se de frente, como poucas vezes acontecia.A professora via aquele adolescente desengonçado a fitá-la como nunca. Parecia querer colo, querer partilhar a penosa perda do amigo, rejeitar a aceitação do destino.Esse que mata jovens incautos e desprevenidos. Raios partam esse destino, apetecia gritar!Jonas saiu da sala. A professora manteve-se em silêncio.E nada na sala de aula lhe parecia irritante.Dolores GarridoJaneiro 2010
January 21 2010, 1:40pm | Comments »
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FELIZ ANO NOVO!
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Uma crónica de Dolores Garrido para nos aquecer neste Inverno.Casa quase toda na penumbra. Luz acesa na sala e na cozinha. Móveis antigos. Jarras com flores. Secas, algumas. Verdes, as folhas das camélias e do azevinho. O cão a correr e a abanar a cauda de contente.O bicho já era velho mas nunca perdia a alegria. Só quando tinha estado doente. Nessa altura, lambia as mãos da dona, sem se levantar, por falta de força nas patas. E o olhar esvaziava-se, implorante e débil.Reformada há vários anos, ela via a casa esvaziar-se das vozes familiares. Só a mobília e os objectos se mantinham nos lugares. E o cão enroscado sempre na carpete bem junto ao sofá. Com suspiros de sonolento alívio.No dia-a-dia, a casa era quase só para ela e para o cão. Os lugares foram criando memória. Como os objectos de relembradas histórias. Dos sítios donde tinham vindo e das pessoas a eles ligadas.A casa tinha um jardim por onde o cão corria. Porém, mantinha-se rente ao portão quando pressentia o regresso da dona.Chegando a casa, os sons repetiam-se. O meter da chave. O empurrar da porta. O pousar da carteira. O tirar dos sapatos. O abrir da torneira. O correr da água. A água a cair no copo. Logo a seguir, o caminhar até ao telefone e o marcar asterisco mais duzentos. Para ver se a voz invariável anunciava:- Tem uma mensagem nova.Se assim fosse, sentiria mais alguma companhia.Com o cão e as flores, a comunicação era fácil. Bastava olhá-los e tocar-lhes.Ao cão fazia festas e às flores também, ajeitando a terra à sua volta.Era um fim de tarde frio de início de Janeiro. Pegou num livro. Antes de o abrir, aproximou-se do telefone e marcou, como habitualmente, asterisco mais duzentos. A voz acetinada do outro lado fez-se ouvir, repetindo o que muitas vezes anunciava:- Não tem mensagens novas.Ela pousou o telefone sem desolação. E, contrariamente ao habitual, logo a seguir marcou um número.- Feliz Ano Novo, disse em tom de celebração.Do outro lado - sentia-se na voz - também alguém ficava um pouco mais feliz.Dolores GarridoJaneiro 2010
January 4 2010, 9:44am | Comments »
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ESTA ESCOLA…
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Há dias em que, percorrendo os corredores da escola, me interrogo sobre as condições de trabalho de professores e funcionários, no que respeita ao ruído: muito estridente nos intervalos e nos espaços de convívio. Parafraseando Fernando Pessoa, diria que, para muitos, manter um pouco mais de silêncio é estar doente da voz.Muitos jovens habituaram-se a comunicar aos gritos e aos empurrões.Há dias em que me interrogo sobre o meu papel na sala de aula. Não nas minhas aulas, felizmente, mas, sobretudo, nas aulas de substituição em que docente e alunos são desconhecidos e partilham um espaço de comum desagrado. Para além de ser lícita a pretensão de acompanhamento, em pleno, dos alunos, corrobora-se, mais uma vez, a ideia de que os direitos são assumidos como mais abundantes do que os deveres.Se o sorriso do professor fosse observado à saída de uma aula de substituição, muitas vezes não passaria de amarelo. Leva-se um filme sobre problemas actuais, não interessa; pergunta-se se há dúvidas, não existem; sugere-se um jogo de língua portuguesa, é seca; propõe-se a redacção de um pequeno texto, é chato; dialoga-se sobre um tema, dá sono…A este propósito, vem-me à memória uma situação em que uma professora foi chamada para uma aula de substituição, no 8º ano. Entrando na sala, deparou com os miúdos em grande algazarra. Calma e amigavelmente, mandou-os sentar e retirar as mochilas de cima da mesa para que todos se pudessem ver melhor. Deu algumas sugestões de actividades, mas viu enfado na maioria. Pediu, então, sugestões, mas ouviu-se uma só: jogos de computador, o que não foi aceite.Como era o primeiro dia de Outono, a professora, olhando pela janela, começou a dialogar sobre esta estação. Uma parte da turma aderiu, mas a outra: Podemos sair mais cedo? Posso ouvir música? Podemos ir agora para os computadores?... Por que é que temos de estar aqui se o professor ainda não foi colocado? Quando é que vem esse professor?...Após alguns minutos de adesão de alguns e resistência de muitos mais, a professora propôs a redacção de um pequeno texto sobre o Outono (sempre era uma maneira de os acalmar), aplicando muito do que havia sido dito e muito mais que poderiam saber ou imaginar.Escreveu no quadro as instruções para que a realização do trabalho fosse mais clara. Poderiam fazer ilustrações, porque a imagem, muitas vezes, enriquece as palavras. Acrescentou que corrigiria os textos e os daria a conhecer à professora de Português – de quem eles tinham dito gostar muito. Durante a realização do trabalho, a professora ia ajudando, respondendo a questões, dando sugestões…Finda esta aula de substituição, a professora começou a ler os textos produzidos. Uns com ilustrações a cores – bem bonitos, dizia ela com os seus botões – outros feitos um bocadito à pressa – o que se compreende, pensava ela magnânima… Depois, deparou com um grupinho de textos, de estrutura semelhante, gizados, provavelmente em grupo. Pôde, então, ler: O Outono é feio, feio, feio, feio, feio, feio, feio, feio… O Verão é lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo…. Era uma vez um caçador feio, feio, feio, feio, feio, feio, feio, feio… Depois, apareceu outro caçador lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo…Gostando de ser positiva, a professora pôs um comentário em cada trabalho. Nestes casos, ficou escrito: «Usa as palavras de modo a não tornar o mundo mais triste». A professora de Português da turma, ao ler os trabalhos e as anotações, disse à colega, com humor: poderias ter acrescentado: …triste, triste, triste, triste, triste, triste….Há dias em que reparo nos rostos jovens de tantos professores na escola. E penso nos outros colegas que, nascidos nos anos 50, optaram por se aposentar, afastando-se do ensino. E eu, nascida no início dos anos 50, em conversa sobre o tema de deixar ou não a escola, vou manifestando o meu gosto e alegria – ainda – pelo trabalho na sala de aula. Disso também gosto – dizem-me alguns – o pior é o resto. Sim, o pior é o resto.De facto, há dias em que penso: Esta Escola … não é para velhos!Dolores Garrido (com uma reflexão que a todos nos interpela, sobretudo aos nascidos na década de 50)
October 25 2009, 1:56pm | Comments »
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Um telemóvel no charco
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A palavra (sempre atenta e humanizada) de Dolores Garrido, no quase regresso às "aulas": Estas férias, passei uns dias no Douro. O local era calmo e bonito. À minha volta, verdejavam as encostas onde se alinhavam as vinhas. Nelas, o sol desenhava diferentes tonalidades. A paz e o sossego pareciam firmes como algumas rochas que também se erguiam harmoniosamente na paisagem. O rio, azul, no fundo do vale, passava sem correr e sem ruído. As pessoas falavam em tom descontraído mas não alto nem em longa linha contínua.Na espreguiçadeira, junto à piscina, eu tinha, mais uma vez, a confirmação que a beleza pode estar no que existe à nossa volta. Apetecia respirar fundo, sentindo que são importantes e merecidos momentos de bem-estar e lazer. Até o trabalho seguinte agradece.Desfrutando deste prazer tão terreno, deitada ao sol e ao céu, vi instalar-se, na espreguiçadeira ao meu lado, uma rapariga de uns trinta e poucos anos. Logo que ficou pronta para se bronzear, pegou em dois telemóveis e durante umas horas, ou eles tocavam ou era ela a fazer chamadas. O tom de voz era alto e o toque do telemóvel estridente. Quem estava à sua volta, não podia deixar de ouvir. Descrevia o local a amigos, falava das curvas maçadoras da estrada, das chamadas que tinha em atraso, dos números gravados mas que não conhecia, dos parabéns que não tinha dado por esquecimento, dos defeitos de uma colega de trabalho, das flores que a sua velha acompanhante estava a observar… Quer dizer, nem o telemóvel parava nem ela descansava. Muito menos os que dela estavam próximos. Punha as conversas em dia sem reparar que estava, aos outros, a estragar um dia. A solução era eu mudar de espreguiçadeira, mas estavam todas ocupadas.No dia de regresso a casa, almocei numa esplanada junto ao rio. Ao lado, alguém ao telemóvel explicava ao filho o local onde se encontrava e como aquele não o reconheceu de imediato, o homem, com voz de cicerone, foi dando intermináveis dicas para avivar a memória de quem estava do outro lado.De facto, as palavras podem mudar, para bem, um ambiente. Como uma pequena pedra que se atira a um lago formando pequenas mas boas ondas.Porém, o contrário também acontece. Em locais públicos, longas e sucessivas conversas ao telefone - sem carácter de urgência - toques altíssimos de telemóvel são como pedras atiradas a um lago, transformando-o num charco de água mais turva.Parece que temos medo do silêncio. Nesse caso, o telemóvel é uma arma que está mais à mão.Bons dias de descanso. Se possível, sem chamadas nem toques estridentes de telemóvel. Só as redes móveis não agradecem. Dolores Garrido29 de Agosto 2009
August 29 2009, 9:43am | Comments »
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AMOR
http://terrear.blogspot.com/2009/05/amor.html
Uma crónica da Dolores Garrido:Como andava feliz! Compreendia melhor o que era o enamoramento. Ou paixão. E ganhavam mais sentido alguns sonetos de Camões, estudados na aula, e dos quais, mesmo sem dizer, já sabia algumas estrofes de cor:Amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer…Mas não gostava muito de exteriorizar os sentimentos mais íntimos. Sempre revelara alguma timidez. E também doçura a brincar-lhe no olhar - tantas vezes fugidio.Parecia roçar ao de leve pelos dias sem os levar muito a sério. Falava e ria-se bastante. De mais - diziam alguns professores. Embora falasse baixo e a voz fosse mais fina do que grossa.O caderno diário estava cheio de desenhos. Abundantes e lúgubres. A lápis. O traço sempre preto. Tão negro como o conteúdo. O que parecia poupar na relação com os outros atirava, quase a ferir de sangue, sobre a folha de papel.Dava-se muito bem com o grupo de colegas. Já vinham juntos da primária. Nos intervalos, riam-se, contavam piadas, falavam das aulas, dos professores, dos amores dos amigos, amigas, conhecidos e conhecidas, das músicas fixes, dos jogos fixes, das calças e sapatilhas fixes, da setora que parecia fixe mas que mandava fazer trabalhos nem sempre fixes, embora um até tenha ficado fixe… Era pouco exuberante, mas, naquele dia, para além de parecer ainda menos, estava triste. E contou com muita tristeza: o namorado tinha sido castigado pelo pai.E a tua mãe? Ela já sabe?Continuo sem saber. O que sei é que ela não gosta que eu pinte os olhos – acrescentou ele. Todos os dias se passa comigo por causa disso. E para não a chatear, só pinto os lábios longe de casa.Hoje acertaste em cheio no risco – observou uma das amigas, olhando-lhe o rosto com penetrante e estridente atenção. Pareces mesmo um emotional hardcore.Um dia, a mãe quis ir à Escola falar com a directora de turma. Precisava de falar:Sei que alguns professores chamam o meu filho à atenção, porque se ri e fala bastante nas aulas. Eu digo-lhe todos os dias para se portar bem, mas os professores têm de compreender que ele é um adolescente e que a voz dele está a ficar grossa. Eles também são pais. Devem saber como é. Todos os miúdos falam. E agora, não sei por quê, mas os jovens não gostam nem sabem estar quietos e calados durante muito tempo. Não é só o meu. Acho que são todos assim. Ainda bem que ele gosta muito da escola. Ultimamente, demora tempos infinitos a arranjar-se, mas não deve ser caso único. Não quero ser mãe-coruja, mas ele não é nada feio. Até compreendo que seja vaidoso. Os tempos mudaram. Se mudaram. Em muitos casos, acho que para melhor. Em casa, o que me aborrece são as mensagens que recebe e envia a toda a hora. Está sempre a mexer no telemóvel. Não o larga. Eu é que não percebo nada disso, senão arranjava maneira de ver quem está sempre a ligar. Até durante a noite recebe telefonemas. Devem ser dos amigos. Já se conhecem de pequeninos. São como irmãos. Têm sempre assunto.Mas, senhora professora, acha que o meu filho anda bem?Dolores Garrido
May 10 2009, 12:26pm | Comments »
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Londres com Verde
http://terrear.blogspot.com/2009/04/londres-com-verde.html
Cheguei a Londres num fim de tarde cinzento de Sexta-Feira Santa. Quando entrámos em casa, abracei-te mais uma vez. Há dois meses que não nos víamos.Reparei no vaso de flores matizadas que tinhas junto à janela da cozinha. Deitei um pouco de água no prato onde estava a planta. Para ir bebendo devagarinho.Espreitei pela janela que ficava por cima do lava-loiça. Por onde quase entravam ramos de uma árvore alta, antiga, de flores alvas e esparsas.E do alto do terceiro andar, avistei os pequenos quintais lá bem no fundo. Mais verdes do que tratados. Alguns com baloiços e bancos que o frio, a névoa e a chuva iam entalando entre a erva que o Inverno agigantara.Na rua, os autocarros vermelhos subiam e desciam a toda a hora. E também os carros. E os táxis de toda a discrição e de todas as publicidades. E as ambulâncias. E os carros da polícia. E as motas. E as bicicletas que pareciam fios finos a riscar o pisado pavimento durante as poucas trevas do ruído. Que bom passar uns dias contigo, disse-te eu. E tu sorriste.Acrescentei que gostava de dar um passeio no parque de que às vezes falavas. Fomos. Nesse dia, percorrendo a rua arborizada, passámos por quarteirões com casas de telhados recortados à mesma altura. Muitas delas de tons ocre. Nos pequeninos jardins, estendiam-se abundantes flores pequeninas e de várias cores. Floriam baixinhas, frescas e formosas ao lado dos degraus que levavam à porta de madeira pintada de cores diversas: vermelhas, azuis, rosa, verdes... Em contraste harmonioso. Passámos por um pub. Entrámos. Era hora do almoço. A um canto iluminado e sossegado, um homem alto lia um livro e bebia uma cerveja. Avermelhada. Escolhemos fish and chips. E também salada de rúcula. Verde. Com um fio de azeite dourado a que chamaste óleo. E que motivou o riso porque às vezes espreito as tuas palavras a ver se utilizas, sem contar, algumas expressões da língua inglesa. E ainda comemos tarte de maçã. De perfume quente e macio sabor. Ouvia-se jazz. Era Billy Hollyday em tom cúmplice. Lá fora, sob umas réstias de sol e ar frio bebiam-se pints entre gargalhadas estridentes. Atravessámos, depois, o parque de relva cortada de vários tamanhos, consoante a função. E havia largos e ocos troncos de árvores que o tempo foi esburacando, enfraquecendo e tombando. Nem faltara a ventania. Diferentes arbustos orlavam caminhos desenhados para o uso de bicicletas. E de outros que as proibiam com inscrições pintadas no chão. Para que a corrida, a marcha, o passeio se fizesse de forma mais serena, livre e sem desnecessários desvios. E assim caminhávamos parque fora. Falando do que víamos. Do que sentíamos. Do que sabíamos. Eu dizia que era bom que no nosso país houvesse mais espaços verdes, onde se pudesse serenar o corpo e fortalecer a alma. Regressámos de metro. O centenário underground que fecha estações durante muitas noites e em frequentes fins de semana. Para obras de reparação. Sentámo-nos. Bem perto de nós, um grupo de homens negros de carne farta e firme voz falava de actores de filmes musicais. Uma inglesa de pele leitosa olhava, altiva e distante, o túnel que desaparecia veloz, rente e escuro. Ao lado, duas adolescentes partilhavam o i-pod sorrindo com gritinhos histrionicamente adolescentes. Uma delas tirava da carteirinha o blush, o lápis dos olhos e ía maquilhando o rosto da companheira, com gestos miudinhos para que o trabalho de embelezamento fosse eficaz. Saíram, depois de uma delas se ter visto ao espelho, tirado da mesma carteirinha. Onde também guardaram o i-pod.Olhámo-nos e sorrimos.Também perto, um jovem asiático lia, interessado, um jornal enquanto segurava uma mala de viagem entre os joelhos. Junto à janela, um par abraçava-se, procurando-se pela boca. Quando regressámos a casa, subimos devagar as escadas forradas a alcatifa que amortecia o som dos nossos passos. Cheirava a torradas acabadas de fazer.Tu tinhas uns trabalhos urgentes. Em breve, estavas ao computador com os teus dedos fininhos a clicar no teclado e os olhos nos gráficos que analisavas. E o teu sorriso abria-se claro e juvenil.Peguei n’ O livro de Cesário Verde que levara comigo. E reli:«Eu tudo encontro alegremente exactoLavo, refresco, limpo os meus sentidos,e tangem-me, excitados, sacudidos,O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto».Com O livro de Cesário Verde aberto, eu olhava a janela, donde se entrevia o céu cinzento, e, através dela, recordava a existência de muita coisa simples e bela« E que, sem ter história nem grandezas,Em todo o caso dava uma aguarela».Após a Páscoa, na despedida, fechando a mala, reabri a habitual e comum cartilha maternal:Filha, fecha bem a porta. Não te esqueças de comer sopa. Verde. Sempre.Dolores Garrido (obrigado pelo verde, pelo olhar, pelo cesário)
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- dolores
April 16 2009, 5:43pm | Comments »
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