Como é habitual, destacamos a crónica de sexta-feira de J.L. Pio Abreu no "Destak":Há quem o prefira à Lagareiro, mas é um prodígio da natureza. Tem olhos iguais aos nossos, pinta-se como nós e não tem coluna dorsal, como alguns de nós. Os machos morrem de amor e as fêmeas morrem pelos filhos. Parecidos connosco, se tivéssemos mais coragem. Têm um problema: às vezes são canibais. Mas os homens, além de às vezes também o serem, ainda fazem coisas piores. O polvo tem oito braços, pelo que toca em tudo. Algum humano que também o faça é logo acusado de polvo. Tem também um cérebro desenvolvido e uma inteligência que, sendo a maior dos moluscos, é comparável à dos primatas, ordem a que temos a honra de pertencer. Apesar de tudo, os humanos só respeitaram o polvo quando Paul, morador de um aquário em Oberhausen, conseguiu prever os vencedores dos jogos do Mundial de Futebol e deu antecipadamente o título à Espanha. Digo isto porque anda por aí toda a gente a fazer previsões desconcertadas: que pagam a dívida, que não pagam, que reduzem o défice ou não, que a produção aumenta, que ela se encolhe, que a bolsa sobe, que desce, que vai haver inflação, que afinal é recessão e talvez deflação, que os bancos vão falir, que acabam por se aguentar. Em geral desacertam, e só servem para alimentar desconfianças e jogos de apostas. É por isso que eu prefiro um polvo a todos os economistas. Qual Banco de Portugal, qual OCDE, qual Fundo Monetário Internacional, qual Comissão Europeia, qual Moody’s, qual Fitch, qual Standard & Poor’s? Que vão todos mas é fazer prognósticos depois dos jogos! Por mim, só me vou fiar no polvo.J. L. Pio de Abreu
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O Polvo
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July 16 2010, 4:51pm | Comments »
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O fim dos hipers
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/o-fim-dos-hipers.html
Como é habitual destacamos do "Destak" de hoje a crónica de J.L. Pio Abreu:Num dos seus últimos livros, Gilles Lipovetski caracterizava a nossa época como um tempo de hipercapitalismo, hiperconsumismo e hiperindividualismo. Se isto foi verdade, também é preciso perceber como tudo já está a mudar. O hipercapitalismo, ou o capitalismo financeiro levado às últimas consequências, rebentou. É difícil vislumbrar o que virá a seguir, mas o tempo da abundância, que os ortodoxos liberais prometeram, está a acabar.O hiperconsumismo acabará a seguir, com agrado das nossas casas e arrecadações povoadas de inutilidades. Aliás, parece que andávamos todos a consumir aquilo que os chineses e alemães produziam.Mas a proverbial inteligência da direita alemã levou-a a optar – e obrigar os outros a optar – pelas restrições económicas. Se deixarem cair o euro, não mais terão a quem vender as suas máquinas dispendiosas. E se os chineses deixarem encarecer o yuan, lá vão acabar as chinesices baratas.Fica-nos o hiperindividualismo. “Eu, eu e só eu”, sem referência aos outros e às comunidades a que pertencemos, agora e no passado. Para compensar, nunca houve tantos grupos na internet, tantas causas virtuais nem tanto consumo da ficção que descreve “as nossas” seitas secretas.Mas tudo isso é efémera ilusão. Se deixamos de partilhar na vida real, perderemos a identidade, as palavras e tudo o que nos torna humanos. Nem seremos macacos, que têm as suas pertenças. Seremos talvez robôs. Mas alguns, algum dia, terão de partilhar conversas para saber o que fazer dos tempos que aí vêm.
July 2 2010, 10:48am | Comments »
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O fim dos hipers
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Como é habitual destacamos do "Destak" de hoje a crónica de J.L. Pio Abreu:Num dos seus últimos livros, Gilles Lipovetski caracterizava a nossa época como um tempo de hipercapitalismo, hiperconsumismo e hiperindividualismo. Se isto foi verdade, também é preciso perceber como tudo já está a mudar. O hipercapitalismo, ou o capitalismo financeiro levado às últimas consequências, rebentou. É difícil vislumbrar o que virá a seguir, mas o tempo da abundância, que os ortodoxos liberais prometeram, está a acabar.O hiperconsumismo acabará a seguir, com agrado das nossas casas e arrecadações povoadas de inutilidades. Aliás, parece que andávamos todos a consumir aquilo que os chineses e alemães produziam.Mas a proverbial inteligência da direita alemã levou-a a optar – e obrigar os outros a optar – pelas restrições económicas. Se deixarem cair o euro, não mais terão a quem vender as suas máquinas dispendiosas. E se os chineses deixarem encarecer o yuan, lá vão acabar as chinesices baratas.Fica-nos o hiperindividualismo. “Eu, eu e só eu”, sem referência aos outros e às comunidades a que pertencemos, agora e no passado. Para compensar, nunca houve tantos grupos na internet, tantas causas virtuais nem tanto consumo da ficção que descreve “as nossas” seitas secretas.Mas tudo isso é efémera ilusão. Se deixamos de partilhar na vida real, perderemos a identidade, as palavras e tudo o que nos torna humanos. Nem seremos macacos, que têm as suas pertenças. Seremos talvez robôs. Mas alguns, algum dia, terão de partilhar conversas para saber o que fazer dos tempos que aí vêm.
July 2 2010, 10:48am | Comments »
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O MERCADO FICCIONAL
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Minha crónica no "Público" de hoje:No Mundial de Futebol a Espanha ganhou a Portugal porque jogou melhor e porque meteu um golo contra nenhum. Como a FIFA não permite o uso de golden shares nas selecções de futebol, o governo português não pôde, no final do jogo, anulá-lo com o pretexto de que não gostou do resultado. Não pôde, por exemplo, afirmar que era “absolutamente estratégico” para a equipa das quinas não perder.No jogo económico entre a Telefónica e a Portugal Telecom (PT) que, por coincidência, se realizou no dia seguinte, a primeira meteu um “golo” ao oferecer 7150 milhões de euros pela participação da segunda na Vivo, empresa brasileira de comunicações móveis, um preço bem acima do actual valor daquela participação e que quase chega ao actual valor de toda a PT. Os accionistas da PT, por uma expressiva maioria (74 por cento), não tiveram dúvidas em aceitar a oferta. As leis do mercado funcionaram, tal como funcionam todos os dias, por todo o lado do mundo.O governo português fez, porém, questão de mostrar ao mundo que essas leis não funcionam aqui. No final do jogo, com uma flash interview, o primeiro-ministro José Sócrates anulou o resultado. A “FIFA da política europeia” não gostou. A vice-presidente da União Europeia, a holandesa Neelie Kroes, avisou Portugal que não podia usar "medidas proteccionistas e nacionalistas num mercado único". A golden share que foi usada para efeitos de veto é, pelo menos desde 2008, disputada no Tribunal das Comunidades Europeias, aguardando-se sentença no dia 8 de Julho. A União Europeia não tem dúvidas: “os direitos especiais que o estado português ostenta na PT desincentivam os investimentos por parte de outros Estados membros, violando as regras do Tratado da União Europeia”. E os juízes europeus irão, em breve, confirmar isso mesmo.A explicação de Sócrates parece pífia. Limitou-se a dizer que a golden-share (uma palavra de inglês técnico) “é para isso que serve, para ser utilizada quando necessário”. Pode-se, convenhamos, dizer isso de qualquer coisa, pois qualquer coisa servirá se for usada e não servirá se não for usada. Só uma coisa ilegal é que não serve para nada pois não pode ser usada. O primeiro-ministro acrescentou que “é uma questão absolutamente estratégica para o desenvolvimento da PT”. Pode-se, contudo, argumentar que o seu veto não foi a favor da PT, pois ninguém melhor do que os accionistas da PT saberá o que favorece aquela empresa. Eu não sou accionista nem sequer cliente da PT, que durante anos e anos me cobrou taxas telefónicas abusando da sua posição dominante (estou muito grato por o mercado me oferecer alternativas mais baratas e melhores!), mas, se fosse, acharia, no mínimo, paternalista, a posição do governo. Significaria que o governo saberia melhor do que eu o que fazer com os meus bens. Em matéria de PT, ele não tem, aliás as “mãos limpas”, pois além da golden share também lá tem, não o esqueçamos, Rui Pedro Soares.Além do mais, Sócrates deixou em maus lençóis os responsáveis da PT, que andaram primeiro a dizer aos accionistas que a golden share não se aplicava a este caso e depois que a vontade deles devia ser respeitada. Talvez agora não tenham outra saída a não ser demitir-se.O órgão maior da imprensa económica (continuando a metáfora, o equivalente ao maior jornal desportivo), o Financial Times, chamou “estupidez colonial” ao gesto do governo luso, considerando que não se trata de defender o interesse nacional, mas sim, quando muito, o interesse de uma empresa privada com sede em Lisboa e um ramo num país estrangeiro que há muito deixou de ser colónia. Um governo de direita não faria diferente do que fez Sócrates. E, como os extremos se tocam, foi curioso ver o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda a aplaudi-lo, precisamente numa altura em que ele lançou um ataque fiscal sem precedentes aos contribuintes. O controlo estatal da economia tem defensores nos dois lados do espectro político e, pelos vistos, também no meio. Em Portugal, o mercado, de que tanto se fala, não passa afinal de uma ficção.
July 2 2010, 1:43am | Comments »
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Veneno ou alimento?
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Com a devida vénia, transcrevemos crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak" de hoje:Houve um tempo em que não existia oxigénio na atmosfera terrestre. Aliás, o oxigénio era tóxico para os organismos então existentes.Mas houve um deles – a bactéria azul – que, além de resistir ao oxigénio, produzia-o em resultado do seu metabolismo. Na verdade, foi a precursora das árvores e plantas actuais, que expulsam o oxigénio como detrito do seu alimento.Nessa altura, porém, existiu uma guerra de morte: todos os organismos sensíveis à toxicidade do oxigénio acabaram envenenados. Durante mil milhões de anos, a Terra ficou exclusivamente coberta pela bactéria azul.Os outros organismos tentavam reproduzir-se, por vezes escondendo-se na água. À superfície da Terra só sobreviveram os que resistiam ao oxigénio. Mas o maior êxito foi daqueles que, para além disso, começaram a usar o oxigénio em seu proveito.O veneno passou a ser alimento. Os seres vivos diversificaram-se, ganharam autonomia, povoaram a Terra e deram origem aos humanos. O oxigénio já fazia parte da atmosfera.Os humanos lá foram evoluindo, adaptando-se a todas as contingências, Trocavam bens entre si até produzirem dinheiro. O dinheiro, a princípio, apenas substituía os bens. Mas depois autonomizou-se e correu à volta do mundo.No seu caminho, já provocou desastres e foi venenoso, embora beneficiasse quem se alimentava dele. Hoje, faz parte da atmosfera dos humanos, e é produzido sem cessar pelos Bancos Centrais, a nova bactéria azul. Se é veneno ou alimento, depende do modo como nos adaptamos a ele.José Luís Pio de Abreu
June 25 2010, 3:53pm | Comments »
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HUMOR: Vida artificial pode ser a solução para a economia portuguesa
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/humor-vida-artificial-pode-ser-solucao.html
Investigadores norte-americanos conseguiram que uma bactéria se transformasse noutra, introduzindo-lhe um cromossoma totalmente fabricado em laboratório e publicaram os resultados na revista Science. É um bom começo para o trabalho que investigadores do FMI e da UE irão tentar fazer em Portugal para publicar no boletim mensal do Banco de Portugal: introduzir na economia portuguesa um ADN artificial com genes da economia Alemã, Escandinava e Chinesa na bactéria económica portuguesa. Espera-se que a economia microbiana portuguesa passe a expressar os factores de competitividade, disciplina orçamental e rigor alemães, a protecção social e flexibilidade laboral escandinavos e o potencial de crescimento chinês, deixando de expressar a corrupção, compadrios e chico-espertismo nacionais.David Marçal, no Inimigo Público
May 28 2010, 5:29am | Comments »
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A consola
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/consola.html
Não resistimos a transcrever uma Carta à Directora do jornal "Público" publicada ontem, dia 26 de Maio:"Um destes dias o meu neto Henrique, que tem oito anitos feitos há pouco, deixou a consola que nunca larga e, anormalmente sério, com ar extremamente preocupado, veio perguntar-me: "Ó avô, os países também morrem?"Senti um pequeno baque que com alguma dificuldade consegui disfarçar, fechei lentamente o jornal que ainda não tinha acabado de ler, limpei esmeradamente os óculos que na altura estavam mais que límpidos, pigarreei para limpar a garganta que estava mais que limpa e, para ganhar ainda mais tempo, voltei a pôr demoradamente os óculos ajustando-os muito bem à cara, como se esta, de forma mais que intrigante, tivesse deixado de ser a minha.Para me recompor e ganhar mais uns segundos, respondi-lhe com uma outra pergunta: "Olha lá, por que é que, assim de repente, me fazes uma pergunta dessas?"O Henrique, sem dizer palavra, pegou no jornal e, com o seu dedito, apontou-me uma notícia bem visível cujo título bem gordo dizia assim: "Portugal está muito doente".Quando lhe ia a responder já ele estava outra vez agarrado à consola!Sem nada dizer a ninguém, saí de casa praticamente a correr para comprar uma consola só para mim.Espero que o Henrique não venha tão cedo a saber! "Isolino de Almeida Braga, Portalegre
May 27 2010, 6:21am | Comments »
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As infra-estruturas básicas existem. Tirem partido delas.
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/as-infra-estruturas-basicas-existem.html
A minha coluna Passeio Publico, Jornal de Notícias, 19 de Maio de 2010.Acredito firmemente que é nas cidades que deve ser colocado o foco do desenvolvimento no século XXI. É nas cidades que podemos reforçar as nossas vantagens competitivas como país, isto é, é no seu desenvolvimento equilibrado e sustentável que pode ser encontrado o reforço da nossa economia. E o problema não é essencialmente de infra-estruturas, ou seja, de obras e de betão, mas especialmente de conteúdo e actividade.Nas cidades, assim como no país, faltam objectivos estratégicos. É isso que tem permitido o desenvolvimento desequilibrado do país, concentrando a cada vez menor riqueza gerada nos locais com maior poder político, e reduzindo enormemente a nossa capacidade competitiva.É urgente inverter esta marcha. As cidades têm de produzir, criar riqueza, reforçar as suas capacidades humanas e empreendedoras para que possam desenvolver dinâmicas geradoras de actividade e valor.O objectivo de uma cidade não é só ter qualidade de vida (como parece ser o lema da grande maioria dos autarcas, que medem a sua acção pela quantidade de obra que realizam), atraindo o consumo, mas justamente usar a qualidade de vida que for capaz de desenvolver como vantagem competitiva para a geração de riqueza que é a sua verdadeira razão de existir.Consequentemente, os objectivos das cidades devem ser essencialmente os do dinamismo e da criatividade (cultural e económica), tendo os aspectos da qualidade e segurança como condições básicas para os atingir.Este deveria ser o nosso objectivo a médio e longo prazo. Reforçar o papel das cidades, incentivando o funcionamento em rede que evitasse multiplicação de meios e infra-estruturas incentivando a sua partilha e racionalização, fomentando a diferenciação potenciadora de sinergias e reforço de competências, dinamizando o desenvolvimento equilibrado do país como forma de tirar partido das nossas potencialidades como nação.Um plano bem montado teria ainda a capacidade de mobilizar as pessoas, pois elas sabiam com clareza que os seus esforços locais eram bem entendidos, cabiam num plano nacional de desenvolvimento e tinham um contributo visível no sucesso do seu país. E todos sabemos quão importante é a motivação das pessoas, a sua mobilização, para enfrentar dificuldades e realizar politicas de desenvolvimento a médio e longo prazo. E seria muito mais claro e racional decidir como e onde investir.Uma nova estrada, uma nova ponte, uma nova infra-estrutura de transporte rápido, uma infra-estrutura científica ou cultural, etc., seria sempre encarada numa perspectiva nacional e justificada tendo por base o objectivo estratégico de desenvolver essa rede nacional de motores de desenvolvimento que são as cidades. E a cada investimento teria de estar sempre associada uma estratégia de dinamização que permitisse a todos perceber para que serve, como vai ser rentabilizado e como se insere no todo nacional.Portugal tem as infra-estruturas básicas de que precisa. As próximas, aquelas que forem consideradas necessárias, têm de ser justificadas com base num plano de desenvolvimento nacional equilibrado que seja reconhecido pelos cidadãos nacionais como aquilo que querem para o seu país.
May 22 2010, 2:59am | Comments »
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A sangria
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/sangria.html
Com a devida vénia publicamos, como de outras vezes, a crónica do médico José Luís Pio de Abreu que saiu no "Destak" de hoje:Antes do século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias.E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.No século XVIII, as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas.Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.J.L. Pio Abreu
May 21 2010, 3:03pm | Comments »
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AS PONTES DO NOSSO ABISMO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/as-pontes-do-nosso-abismo.html
Reproduzimos crónica do historiador João Gouveia Monteiro, publicada há dias no "Diário de Coimbra", a propósito dos feriados decretados pelo governo por ocasião da visita do papa Bento XVI (na imagem):A tolerância de ponto anunciada para o dia 13 de Maio em todo o País, por motivo da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI, acompanhada por tolerâncias em Lisboa e no Porto na antevéspera e no dia seguinte, respectivamente, convidam-me a considerar aqui um tema que já pensara tratar por ocasião do feriado da terça-feira de Entrudo. Não é um tema popular, mas penso que vale a pena abordá-lo pois é altura de encararmos de frente os problemas do País que somos todos nós.Portugal ocupa um lugar desolador na maior parte dos indicadores económicos, sociais, culturais e educativos da União Europeia. Temos uma dívida colossal, sobretudo quando comparada com a riqueza que produzimos. Muitos duvidam da nossa capacidade para controlar o défice dentro do prazo exigido e há já quem ameace com a possibilidade de Portugal e a Grécia terem de sair da Zona Euro. O desemprego atinge níveis alarmantes e daí decorrem problemas sociais gravíssimos. E, no entanto, Portugal é um dos países europeus com um maior número de feriados nacionais por ano: uma dúzia. Se a eles acrescentarmos os feriados municipais, os fins-de-semana e uns 20 dias úteis de férias concluiremos que em 2010, nos 365 dias do nosso calendário, muitos Portugueses trabalharão apenas 228.Ainda assim, não trabalhar 137 dias por ano (37,5% do total) não constitui regalia suficiente. Por isso inventámos as “pontes”. Sempre que um dos feriados calha a uma terça ou a uma quinta-feira, é certo que milhares de funcionários gozam de um descanso suplementar. E porquê? Apenas porque se trata de um dia vulgar entalado entre um feriado e um fim-de-semana, ou vice-versa. Somente mais uma interrupção, um dia de férias suplementar, concedido pelos acasos do calendário. Para azar de muitos, em 2010 só há quatro casos nessas condições: no Entrudo, no Corpo de Deus, no Dia de Portugal e na Implantação da República. Os restantes feriados calham, ou à segunda e sexta-feiras (o que também não é mau), ou à quarta-feira (o que é mais desfavorável mas pode levar alguns a interessar-se pelo significado do 1 e do 8 de Dezembro) ou então ao fim-de-semana (uma sobreposição assaz desagradável). Mas há ainda outras hipóteses para sermos felizes. São as tolerâncias ditadas por circunstâncias excepcionais, como no caso da visita de Bento XVI. Uma tolerância “ad hoc” mas que alcançou já um efeito improvável: pôs de acordo associações patronais e sindicatos quanto à sua inconveniência.Este panorama merece um comentário amargo. Sobretudo no que tem que ver com as “pontes” e com os famosos “roulements” que daí decorrem. Todos sabemos como este sistema é prejudicial ao normal funcionamento de qualquer serviço. Quem está fora, em regime rotativo, não só não trabalha como impede que muitas tarefas, por serem partilhadas ou por falta de informação relevante, não sejam possíveis de concretizar pelos que estão ao trabalho. Daí resulta o adiamento de muitas decisões (ou a tomada de decisões erradas), alguma desorganização interna e a recaída constante em ciclos laborais de “stop and go” deveras prejudiciais. Acho bisonho que um País como o nosso, que importa quase tudo e que deve mais do que aquilo que produz, se permita continuar a viver neste registo. O trabalho não deve ser visto como um ‘frete’, como um ‘mal necessário’, mas como um direito (a que muitos não têm ainda acesso) e como um instrumento para a nossa realização pessoal e para o progresso da sociedade em que vivemos.Os nossos filhos e netos merecem herdar de nós um País mais próspero, mais harmonioso e menos dependente. Não os conseguiremos satisfazer enquanto vogarmos nestas águas estagnadas sobre as quais continuamos a construir feriados e pontes que não nos aproximam de nada a não ser do nosso próprio abismo.João Gouveia Monteiro
- Tags:
- economia
May 6 2010, 1:29pm | Comments »







