Novo texto sobre o ensino nacional de Rui Baptista: [A educação] “é um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje” (José da Silva Lopes, 2004).Volto a abalançar-me a umadescida às profundezas do inferno do actual sistema educativo português. O estado calamitoso do ensino nacional é revelado, entre outros exemplos, pelas “Novas Oportunidades”, por mim apelidadas, em textos anteriores, de “Novos Oportunismos”, e pelas “Provas de Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 anos”.Isto porque as “Novas Oportunidades” são uma forma fácil de, em curto espaço de tempo, alcançar um papelucho com o imprimatur do Estado que se substitui a doze longos anos de estudo escolar, embora, também ele, hoje facilitado, mas sem tão grande escândalo e desfaçatez. Depois, para arrebanhar matéria-prima para o ensino superior (a exemplo do acontecido, em tempos, às portas das lojas lisboetas da Rua dos Fanqueiros, em que quase eram agarrados pelo braço os incautos transeuntes para nela fazerem as compras), surgem provas de acesso ao ensino superior, em substituição do 12.º ano do ensino secundário ou, até mesmo, dos antigos e sérios exames ad hoc.Estas facilidades (somadas às vantagens concedidas aos atletas de alta competição para o ingresso na universidade) deram azo a que um jovem, apenas com o 5.º ano do ensino básico incompleto, entrasse no curso de Medicina - pela sua participação nos “Jogos Olímpicos de Pequim” – aquando do seu regresso ao torrão natal com as malas vazias de medalhas. Um “saber de experiência feito” em artes marciais será suficiente para a aquisição de conhecimentos básicos necessários à continuação de estudos em Física Médica ou Bioquímica, por exemplo, matérias de exigente estudo universitário?Pelos vistos, para o ministério da tutela do ensino superior, chegam e sobram para fazer face à carência de alunos para o ensino superior privado, que criou perigosas metástases (com excepção de cursos dos Medicina, todos eles estatais), e que começa agora a criar enxaquecas ao ensino superior estatal que dificilmente cederão a simples aspirinas.A propósito de aspirinas: Numa sessão realizada em Coimbra, quando se discutia o malfadado “Processo de Bolonha”, Adriano Moreira, com a seriedade de que reveste as suas intervenções, para denunciar o dislate de poderem ser encaradas licenciaturas com a duração de apenas três anos [como aliás viria a acontecer com a maioria dos cursos superiores], não se conteve em ironizar: "Se um médico, com três anos de formação, me receitasse uma aspirina eu não a tomava!” (Diário de Coimbra, 14.Dez.2004).Chegado a esta altura é natural que o leitor se interrogue: Mas como é isto possível? A resposta é-nos dada pelo italiano Mario Perniola, professor de Estética na Universidade Tor Vergata de Roma, quando escreve:”Os fautores da tradição, que apelam para os valores, para o classicismo, para o cânone, são postos fora de jogo por esses funâmbulos, esses equilibristas, esses acrobatas, que também querem ser eternizados no bronze e no mármore. E quem diz que o não conseguem? Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as idiotices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”. Ou seja, em Portugal e na Itália más fadas há!Rui Baptista
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Novos oportunismos
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May 12 2009, 2:42am | Comments »
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A carestia dos estudos superiores em Portugal
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Novo post sobre educação da autoria de Rui Baptista: “Os homens são sempre sinceros, apenas mudam de sinceridade” (Tristan Bernard)A informação que nos chega todos os dias cria em nós um ruído de fundo que faz com que, por vezes, nos percamos sobre a origem das respectivas fontes. Vem ao caso, apenas, o título que retive de uma notícia recente, que não localizo de momento, sobre os custos que impendem sobre o ensino superior nacional só superiorizados pelos que ocorrem na Inglaterra.Não posso deixar de aproveitar o mote para abordar uma questão que me baila na cabeça há bastante tempo: a carestia do ensino em geral. Ocupando-me do ensino anterior ao ensino superior , não posso deixar de falar do primeiro ciclo do ensino básico onde se requer a aquisição de dispendiosos livros escolares, onde os lápis de cor são substituídos por material de pintura mais adequado a um candidato ao ensino das belas-artes, onde os mais abastados têm máquinas de calcular que fazem a inveja de quem se dedica a estudos superiores de engenharia, onde as explicações se fazem a torto e a direito, onde à simples consulta de livros na sala de aula ou na biblioteca se dá o nome pomposo de “investigação”, etc.Dando um salto rápido para o ensino secundário, para não tornar muito extensa esta análise, o panorama amplia-se na razão directa da idade dos alunos. Encontramos compêndios que mudam de ano para ano, não possibilitando a sua passagem de um aluno que tenha transitado de ano para um seu irmão que inicie esse mesmo ano. Vemos, na disciplina de Geografia, por exemplo, que se muda de livro apenas por ter mudado o nome da capital de um determinado país, ou por ter havido a sua deslocação para outra cidade, como se não bastasse anotar no próprio livro essa informação. Deparamos com uma correria louca à reprografia da escola para encher a mochila de papéis que atentam contra o alinhamento das vértebras juvenis e que podem originar dores nas costas, atitudes corporais viciosas ou mesmo cifoses. E o que dizer de trabalhos de grupo em que a simples aparência do trabalho contribui para a respectiva valorização? Para não maçar quem me lê, só acrescento que, se o curso pretendido for o de Medicina, os pais ver-se-ão obrigados a pagar um verdadeiro rol das antigas lavadeiras com lençóis de explicações.Chega enfim o dia jubiloso da entrada na universidade ou no ensino politécnico. Quem não se posicionou no pelotão das melhores classificações, obrigando os que queriam ir para Medicina (até há pouco com emprego garantido à partida e um futuro risonho de um exercício clínico bem remunerado) a desviar a rota dos seus sonhos para a enfermagem, por vezes apenas por uma escassa décima de valor... Mas rapidamente o sonho se torna em verdadeiro pesadelo se não encontra resposta suficiente no sacrifício de um agregado familiar que tendo residência, por exemplo, no Algarve se veja obrigado a mandar o filho estudar para Coimbra onde foi colocado. Começa no ensino superior uma outra saga, com o aluguer de quartos a estudantes que consomem uma parte substancial do vencimento mensal do agregado familiar. E a alimentação? E as propinas? E os livros? E o dispêndio com os trabalhos de licenciatura agora concluídos no 3.º ano de estudos bolonheses, um caminho seguro para o espectro do desemprego? E a necessária continuação de estudos para o mestrado, com vista a obter um trabalho, ainda que preso por arames, correspondente a um total de anos de estudo das antigas licenciaturas com a duração de cinco anos? E a compra da capa e batina tradicional das margens do Mondego e que se fez tradicional noutras paragens académicas em que também se festeja a “Queima das Fitas”?Mas tudo bem, alguns conseguem. Com este “statu quo” colhem-se dados estatísticos que aumentam a percentagem de estudantes do ensino superior quando comparada a tempos anteriores a 25 de Abril, ainda que à custa impiedosa do extraordinário aumento das despesas familiares, havendo já estudantes universitários que segundo as notícias dos jornais, estão em risco de desistir dos seus estudos, com a provável desculpa governamental de que a culpa foi motivada pela crise económica internacional. Que diabo! Não se pode ter tudo neste mundo... Valha-nos a consolação de ocuparmos o pódio à direita da Velha Albion no campeonato europeu dos países onde a frequência do ensino superior fica mais dispendiosa!Rui Baptista
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May 7 2009, 8:08am | Comments »
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É a pós-modernidade…
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No final do texto Miss Atom, Carlos Fiolhais não deixa de mostrar alguma estranheza pelo facto de as festividades da Queima das Fitas de Coimbra terem incluído neste ano o concurso Miss Queima das Fitas. Essa estranheza assemelha-se à minha quando, há uns meses atrás, ao folhear o semanário As Beiras, vi a notícia dum concurso de miss que tinha acabado de se realizar numa escola secundária.Mais estranhei quando percebi que as professoras que me acompanhavam num café de final de tarde não estranhavam a notícia, porque, segundo me explicaram, tais concursos são já tradição, ou moda - qualquer coisa assim – e, nessa medida, toda a escola que se preze tem de ter o seu concurso de miss e… de mister.Qualquer escola? Mesmo as básicas? Sim, claro, mesmo as básicas.Apesar da confiança que tenho nessas professoras, incrédula, investiguei o caso: indaguei junto de outros professores e de alunos. Também pesquisei na internet… E, como não podia deixar de ser, confirmei o que havia lido no jornal e me haviam dito.Mais do que a ideia subjacente à “iniciativa”, que me parece claramente peregrina; mais do que a indiferença, ou conformismo dos professores com quem falei; mais do que o entusiasmo acrítico dos alunos, do tipo “porque não”; mais, até, do que a exposição em palco e em imagens, ao acesso de todos, de alunos acabados de sair do primeiro ciclo; o que me deixou verdadeiramente perplexa foi a associação feita entre alguns desses concursos e “preocupações de índole social”, que supostamente os desencadeiam. “São espectáculos solidários, ou seja, o bilhete de entrada será um bem alimentar (leite, açúcar, enlatado, entre outros) à escolha dos espectadores”, esclarece uma escola.“É a pós-modernidade”, como lembrava ontem um leitor do De Rerum Natura… Pois… é a pós-modernidade, onde tudo se mistura, onde tudo está certo, ou, pior, onde nada está certo nem errado, está apenas…Apesar do impacto deste tipo de ambiente intelectual na formação cognitiva, afectiva, relacional e moral das crianças e jovens ainda não estar completamente esclarecido, à partida, não se percebe como poderá contribuir para a estruturação da sua personalidade.Nessa medida, na sequência do texto que ontem aqui publiquei, e partindo do princípio (questionável, admito, à luz do pós-modernismo) que a escola é a instituição à qual se imputa a missão de ensinar aquilo que se afigura como fundamental para a manutenção dos padrões civilizacionais e para o desenvolvimento dos sujeitos, insisto na necessidade de, como sociedade, procurarmos responder à pergunta: O que é que a escola deve ensinar?Operacionalizando a pergunta, acrescento outras: Que objectivos concretos devem guiar a escola? Que actividades deve a escola promover? Quem deve tomar decisões no que respeita a assuntos escolares? Que lugar deve a escola ter na comunidade e que relações deve estabelecer com ela?A tentativa de "aproximação" – talvez seja mais apropriado usar o termo "fusão" – que a escola tem feito nos últimos anos à comunidade regional e local, acompanhada da intromissão desta na vida da escola, não tem tido apenas como consequência a substituição, nos manuais de Língua Portuguesa e de Português, de textos dos nossos melhores autores por textos que “naturalmente” interessam aos alunos por se confrontarem com eles na televisão, nem forçarem-se até à exaustão os problemas de Matemática para que eles encaixem no quotidiano dos alunos, nem, sequer, indicar-se no Currículo Nacional do Ensino Básico que, se deve trabalhar pedagogicamente a partir das experiências e vivências sociais, familiares e pessoais dos alunos… tem tido também como consequência o desnorte que podemos constatar em iniciativas como esta dos concursos a que acima aludi.As escolas admitem-nas, consentem-nas, apadrinham-nas, acolhem-nas, seja o que for… pois julgam estar a agir de acordo com as orientações curriculares (e não estarão?). Por seu lado, as comunidades apreciam, elogiam, louvam… as escolas que assim procedem, pois percebem, triunfantem, que elas se conformam, adaptam, adoptam as suas opções, características, gostos, modos de pensar e de agir…Por isso, a uma escola, junta-se outra e outra… nenhuma querendo correr o risco de ficar para trás nesta nobre tarefa de “ligação da escola à comunidade”… que se traduz, afinal, em deixar-se ir no seu rumo….Imagem retirada de: http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/miss_mister_escola1.jpg&imgrefurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/assoc_estudantes.html&usg=__XEORnM-cuwbVCESRNIw3W-nBXjI=&h=1677&w=1204&sz=176&hl=pt-PT&start=3&um=1&tbnid=IS2FMeUpCU9JeM:&tbnh=150&tbnw=108&prev=/images?q=escola+concurso+miss+mister&hl=pt-PT&cr=countryPT&sa=G&um=1
May 5 2009, 6:44am | Comments »
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O que é que a escola deve ensinar?
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O texto de João Boavida Que pode a escola resolver, remete para um problema do nosso sistema educativo, que não sendo exclusivo dele, tem nele particular importância.Trata-se, como bem sugere João Boavida, de um problema sem sentido, pois se a sociedade pede (ou exige?) à escola que resolva toda e qualquer dificuldade que ela própria cria e não sabe como lhe fazer face, também lhe pede (ou exige?) que as resolva sem se desligar dela, respeitando as suas escolhas, nunca entrando em ruptura com os modos de pensar e de agir estabelecidos.Por seu lado, a escola tem aceitado entusiasticamente esse desafio impossível, denotando permeabilidade às mais diferentes influências sociais, respondendo a esta, àquela e à outra imposição da família, da publicidade, do desporto, da saúde, da comunicação social... manifestando-se disponível para incluir, este, aquele e o outro assunto, sempre contextualizando na sociedade, é claro!O resultado tem sido um evidente esvaziamento curricular de áreas de saber estruturantes, como a Literatura, a Cultura Clássica, a História, a Filosofia... Esvaziamento que a sociedade aplaude, pois, na verdade, para que servem, efectivamente, essas áreas no quotidiano social?Na mesma lógica do utilitarismo imediato cairam a Matemática, a Física, a Química, a Biologia... A opção curricular ao nível das ciências - por pressão da sociedade, que, lá está, vê em algumas áreas científicas a solução para as suas dificuldades -, não é de as retirar, mas de as pôr ao serviço de qualquer coisa. Aqui o esvaziamento curricular é menos evidente, mas é de outra ordem e igulamente preocupante.E, talvez pareça estranho que se fale em esvazimento curricular, porquanto, os currículos, afiguram-se recheados. A este propósito escreveu Fernando Savater: "todos os anos se incorporam novas disciplinas na oferta académica, que cresce e se diversifica até à exaustão, pelo menos nos planos ministeriais. É obrigatório incluir música, pintura, escultura, cinema, teatro, informática, segurança rodoviária, noções de primeiros socorros, rudimentos de economia política, expressão corporal, dança, redacção e crítica jornalística, etc. (…)."E, continua: "é possível argumentar a favor de todas estas aprendizagens e de muitas outras, que podem completar excelentemente a formação dos alunos. Tanta oferta educativa tropeça apenas em dois obstáculos fundamentais: por um lado os limites da capacidade assimiladora dos alunos e o número de horas lectivas diárias que conseguem suportar sem sofrer transtornos mentais sérios, por outro lado, a disponibilidade docente dos professores, a maioria deles formados numa época em que nem sequer existiam as matérias em que, anos mais tarde, se virão a converter em mestres (…)."Suponho que, mais cedo ou mais tarde, a sociedade - entendendo a escola como uma das suas instituições - e a escola - entendendo-se como uma das instituições da sociedade - terão de voltar a pôr a questão: O que é que a escola deve, efectivamente, ensinar? Ou, de modo mais completo: O que é que a escola deve ensinar para que a sociedade mantenha os padrões civilizacionais que conseguiu construir até ao presente?Pois, ainda nas palavras do filósofo espanhol, "é a civilização e não meramente a cultura, que a educação deve aspirar a transmitir", e se esta for a linha orientadora de entendimento da sociedade e da escola outro rumo teremos de seguir quanto às opções curriculares.Obra referida: Savater, F. (1997). O valor de educar Lisboa. Edições Presença. (Republicada pelas Edições Dom Quixote, em 2006).
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May 4 2009, 2:59am | Comments »
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Requiem pela Plataforma Sindical?
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Mais um post sobre educação - ainda a posição dos sindicatos dos professores sobre a avaliação dos professores - da pena de Rui Baptista: “Aquele que luta com monstros deve ter muito cuidado para não se transformar também num monstro” (Friedrich Nietzsche) No jornal Público (30/04/2007), como que para manter o fogo sagrado de uma santa aliança sindical - a exemplo daqueles casamentos de conveniência que se fazem sabendo-se, de antemão, estarem condenados, mais tarde ou mais cedo, ao divórcio -, o grande timoneiro da Plataforma Sindical, Mário Nogueira, anunciou, urbi et orbi, um plano de acção que tanto pode vir a acontecer como a não acontecer. Aquilo que pode ser tomado por uma acção de marketing para a prospecção de um produto a lançar, ou a não lançar, no mercado, em função da análise dos dados recolhidos junto do público alvo.Mas que plano é esse que anuncia o óbvio da luta da Fenprof em horizontes de discórdia de natureza política, a exemplo da demissão do Partido Comunista de quatro dirigentes do Sindicato dos Professores do Norte por esta força partidária “se imiscuir na vida interna da estrutura sindical“ (Semanário Sol, 24.Nov.2008)? Esse plano, reporta-se a “um calendário de acções que vão prolongar-se pelo 3.º período e poderão mesmo chegar ao início do próximo ano lectivo, em pleno período de campanha para as legislativas”. Ou seja, “nil novi sub sole”!Como se leu, tempo atrás, na imprensa “Mário Nogueira reconhece que está a travar ‘um combate político-partidário’” (Jornal de Notícias, 8.Nov.2008). Intenção logo reforçada, na mesma altura e local, por Manuel Grilo, seu “compagnon de route”, em exortação bélica que ecoou pelo país fora: “Vamos para esta guerra para ganhar” . Ambos, certamente sabiam, como soube Eça de Queiroz, que “quando se quer fazer marchar um regimento não se lhe explica com a subtileza de um protocolo os motivos que levam à guerra: desdobra-se uma bandeira, faz-se soar um clarim e o regimento arremete”.Mas, para estragar a estratégia que antecede os dias das grandes batalhas, a Federação Nacional dos Sindicatos de Educação (FNE), integrada na Plataforma Sindical, parece não comungar de idênticas soluções pelo que se deduz das seguintes declarações: “’Estivemos a analisar vários cenários mas ainda não ficou nada decidido’, diz Lucinda Manuela, dirigente da FNE. Para esta federação é mais importante, em tempo de campanha eleitoral, fazer chegar aos partidos o que cada sindicato pensa e informá-los sobre ‘o que é que os professores não querem’ do que fazer acções conjuntas com os outros sindicatos” .É uma possível borrasca que se abate sobre uma nau que sempre navegou com terra à vista ou fundeada no porto da indecisão e de conveniências ocasionais agora em colisão de metodologia na rota a prosseguir por parte de uma federação sindical tida como a segundo mais forte e representativa do país e sem conotação política que a tolha de ter ideias próprias que cerceiem a sua liberdade de acção.“Et pour cause”, uma organização sindical sem necessidade do protagonismo que advém de estar integrada numa Plataforma Sindical norteada pela agulha de uma bússola que gira desnorteada conforme os ditames do respectivo porta-voz, que ora fala em representação da Plataforma Sindical, ora fala em nome da Fenprof. No que respeita aos interesses de outros pequenos sindicatos satélites da Plataforma serve esta para lhes dar “uma pingadeira de glória”, como diria Eça, ainda que, por vezes, em denegação de princípios estatutários aprovados em assembleia de sócios.Esta é uma opinião pessoal, embora sabendo eu que as opiniões de cada um valem o que valem. Cs analistas políticos, apesar de toda uma ciência e anos de tarimba, também sabem que nem sempre aquilo que é parece e nem sempre aquilo que parece é. Nada mais do que isto!Rui Baptista
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May 2 2009, 3:01pm | Comments »
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Que pode a escola resolver?
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Texto de João Boavida, antes publicado no diário As Beiras, sobre as atribuições da escola no presente.Hoje toda a gente quer que a escola resolva os problemas da sociedade portuguesa. Mas como é que a escola os pode resolver se, de muitos modos, lhe foram tirando capacidade, enquanto lhe iam passando problemas que a ultrapassam?.O drama é que a escola não pode resolver os problemas que a sociedade não quer que lhe resolvam, porque vive muito bem com eles. Para grande parte da sociedade os problemas que se diz que a escola deve resolver não o são. Não são problemas a deseducação sexual, que os filmes americanos e a televisão promovem, quase sempre da pior maneira, nem a poluição ambiental, que muitos praticam ainda impunemente, nem o individualismo exacerbado, que se disfarça de competitividade, nem a corrupção, que vamos praticando ou aceitando, nem a falta de respeito pelos outros, nem a falta de brio profissional, nem a pouca recompensa para o trabalho sério e honesto, nem a inveja, que não conseguimos identificar como mediocridade própria, nem a mesquinhez, que só nos permite voos de galinha, nem o compadrio, que liquida a competição honesta e a justiça, nem a selecção falseada em empregos e concursos, que compromete o nosso desenvolvimento, nem o desinteresse pela qualidade, que nos degrada, nem a incapacidade de reconhecer o mérito dos outros, que nos diminui, nem o afã extraordinário a destruir os bons políticos, que nos suicida, etc.Isto é, a escola não consegue resolver os vícios culturais que a sociedade manifesta porque esses vícios são o alimento de uma boa parte do pior da cultura portuguesa. E, sendo assim, não são sentidos como vícios, confundem-se com a nossa habitual e profunda maneira de ser, e com os nossos valores. Os valores tal como os vivemos e não como dizemos viver.Como é que a escola pode puxar para cima, se a sociedade corre pressurosa a ver problemas de televisão que só degradam e puxam para baixo? E como desenvolver o gosto e o sentido estético se a maioria se deleita com telenovelas portuguesas (e muitas brasileiras) que costumam ter audiência na razão inversa da qualidade? O gosto por essas historietas de plástico, com que enternecem filhos, pais e avós, mina e cria bloqueios a uma boa formação. Que esperar das várias gerações que se revêem nestas personagens de esferovite e nestes sentimentos de papelão? E como não se trata de um ou outro programa mais infeliz, mas de um trabalho continuado, sistemático, persistente, semana após semana, que poderemos esperar? Como pode a escola remar contra este contexto cínico e deseducativo dos senhores dos “media”? Não peçam à escola que cole os cacos que a sociedade anda estouvadamente a partir.Claro que isto não é uma fatalidade, mas seria necessário um trabalho educativo persistente que ninguém está em condições de fazer, salvo aqueles que mais ganham com a deseducação que provocam. Ninguém tem hoje a força que eles têm, e estes, obviamente, não querem estragar o negócio porque, pela sua própria deseducação profunda, para eles o negócio é tudo. Além disso, estão convencidos de que todos pensam e sentem como eles. É certo que as famílias podem fazer muito, e muitas fazem, mas a maioria faz parte do mesmo problema, aumenta e endurece o problema contra o qual as escolas pouco podem fazer. João Boavida
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May 1 2009, 3:16pm | Comments »
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A AVALIAÇÃO DO MAGALHÃES
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O primeiro-ministro e secretário-geral do Partido Socialista pediu recentemente desculpas pelo uso em tempo de antena partidário de imagens de crianças de Castelo de Vide a trabalhar (ou a brincar?) com o computador Magalhães. Seja de quem for a culpa do sucedido, o episódio só veio dar razão às vozes que têm dito que o Magalhães, além de um grande negócio, é simplesmente uma grande operação de propaganda. Tudo indica que há mesmo pessoas dentro do ministério da Educação que não sabem distinguir entre governo e partido. Transcrevo do "Público on Line"."A presidente do conselho executivo do Agrupamento de Escolas de Castelo de Vide, Ana Paula Travassos, explicou ontem ao PÚBLICO que foi contactada telefonicamente pela equipa de apoio às escolas em Portalegre e pelos próprios serviços centrais do ME informando-a de umas filmagens que iriam ser realizadas no âmbito do projecto e-escolinhas. O objectivo do ministério era perceber o impacto que o computador Magalhães estava a ter em termos pedagógicos e como estava a ser utilizado pelos alunos."Será que isto é avaliação do Magalhães? Não, quando muito, é avaliaçãozinha, uma avaliação manhosa de quem já sabe, ou julga saber, o resultado.
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May 1 2009, 5:08am | Comments »
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Novas regras de acesso ao ensino superior
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Novo post de Rui Baptista: “No meu tempo não era possível. Afinal no passado nem tudo era mau” (Expresso, Aníbal Cavaco Silva, 25/04/2009)Reporta-se esta frase, com o “saber de experiência feito”, do Presidente da República, proferida no recente Roteiro da Ciência, dedicado à Matemática, ao facto de haver candidatos que entram em cursos de engenharia sem terem feito a disciplina de Matemática como condição “sine qua non” de ingresso. Aliás, este mesmo diagnóstico foi feito pelo bastonário da Ordem dos Engenheiros, que detém a competência de sancionar a qualidade dos cursos conducentes ao título profissional de engenheiro. Lamentavelmente, esta prerrogativa foi retirada às ordens a serem criadas no futuro. Mas isto são contos largos com génese no não reconhecimento de um dos cursos e diploma de engenharia que se tornou notícia nos média.Em medida digna de aplauso, embora pecando por tardia, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago (na figura), resolveu tomar medidas que deixam na boca o travo da fome pela sua escassez. Refiro-me às “Regras mais duras para o superior” (título de notícia no Expresso). Refere-se a notícia à estratégia de “algumas instituições, a maioria privada e do ensino politécnico, que eliminam provas de ingresso que se têm revelado particularmente difíceis para os alunos, na tentativa de atrair mais candidatos”). Sintomaticamente, Mariano Gago, quiçá devido à sua formação científica, estabelece essas regras para os curso ditos científicos deixando de fora as humanidades, as quais despreocupam um país em que a cultura literária continua parente pobre, um país onde os textos literários dos maiores vultos da nossa literatura deixado de ser dados ou, quando muito, passaram a ser ministrados em sinopses de poucas folhas. E o que dizer da filosofia, tão necessária ao pensamento racional em ciências, letras ou qualquer outro ramo do conhecimento, que deixaram de ter os exames nacionais que punham saudavelmente a cabeça à roda à juventude? Nesta perspectiva de despreocupação por um ensino exigente, Platão torna-se, ainda hoje, incómodo quando, ao ser confrontado com a dificuldade das crianças do seu tempo contarem ou distinguirem os números pares dos ímpares, manifestou o seu repúdio: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com homens e sinto-me envergonhado não só de mim, mas de todos os gregos.”As recentes medidas teriam toda a razão de ser não fosse a utopia em compaginar a dureza destas regras com a blandícia do “acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”. Sem querer beliscar sequer o respeito que nos deve merecer todo aquele que, em ingente esforço próprio, se valoriza culturalmente (e ao qual o extinto exame “ad-hoc” dava o devido aval), não posso deixar de sorrir com a definição espirituosa dada a “autodidacta” pelo poeta e jornalista brasileiro Mário Quintana: “Ignorante por conta própria”. Dando-me conta desta situação escrevi, tempos atrás, no jornal “Público” um artigo de opinião, intitulado “Exame de Aptidão à Universidade, porque não?” Pela actualidade de que ainda se reveste, aqui deixo breve extracto desse meu texto:“Num sistema educativo abrindo brechas por todos os lados, por ausência dos alicerces de uma boa ‘instrução primária’ e sólidas paredes dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, e em que o ensino secundário é, ainda, um pilar sólido, o acesso ao ensino superior não pode deixar de ser posto em causa ao dar guarida a ignorantes vítimas das muitas reformas no sector da Educação que se vão sucedendo em operações de simples cosmética, a exemplo do carmim para disfarçar a alvura que empalidece a tez de anémica donzela.O sociólogo António Barreto, com a autoridade de prestigiado académico dos fenómenos sociais, não se exime em declarar publicamente o seu desacordo ‘em se transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como a protecção na doença e na velhice’ ” ( Público, 5/09/2005).Como bem alerta o autor Stephen Covey, sobre a necessidade de um arrepiar de caminho que se aplica a papel químico ao percurso que o sistema educativo português tem seguido, ”se continuarmos a fazer o que estamos a fazer, continuaremos a conseguir o que estamos a conseguir”.Rui Baptista
April 26 2009, 7:48pm | Comments »
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Ainda a falta do ensino técnico-profissional
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Em complemento do seu último post, Rui Baptista enviou-nos mais outro sobre o mesmo tema (na foto, José Saramago recebe o Prémio Nobel):“Existe uma erótica do novo, o antigo é sempre suspeito” (Roland Barthes).Um dos comentários ao meu último post “A falta do ensino técnico-profissional”, pode ter deixado passar a ideia de ser este ensino vocacionado para cábulas ou filhos de pais de estratos cultural e económico baixos. Pelo que posso testemunhar, tomando o exemplo da minha saudosa docência na Escola Mouzinho de Albuquerque da ex-Lourenço Marques, dois professores licenciados do seu corpo docente matricularam nesta escola como escolha preferencial os seus filhos, que, posteriormente, vieram a fazer o seu percurso universitário.Um dos males deste país, em que se confunde democratização com mediocratização, é continuar a pensar-se que, tão-só, um diploma de licenciatura é o “abre-te Sésamo” de um emprego devidamente remunerado e de elevado prestígio social, o que leva, ainda mesmo hoje, os pais de poucas posses a sacrificarem-se para terem um filho possuidor de um canudo mesmo que leve o dobro dos anos a formar-se, dando, desta forma, aval a um dito amargo do falecido Francisco de Sousa Tavares: “Estamos a formar não um país de analfabetos, como até aqui, mas um país de burros diplomados”.Ora a expressão “burros diplomados” que Sousa Tavares usou não se dirige, certamente, apropriando-me de uma frase de um outro comentário, à “estigmatização dos alunos enviados para as escolas ‘de burros’ ” (aliás, tese rejeitada pela própria autora do comentário). Indivíduos diplomados por antigas escolas técnicas prosseguiram estudos alcançando diplomas universitários e a própria cátedra universitária. José Saramago, possuidor de um desses diplomas, chegou a Prémio Nobel da Literatura e Jerónimo de Sousa distinguiu-se no campo da política. Diplomados por antigas escolas comerciais exercem hoje a profissão de contabilistas. Muitos destes cursados, e é bom que se ponha o enfoque nisto, receberam simultaneamente uma formação cívica e moral que os autoriza a apresentarem o seu percurso escolar aos filhos como exemplo a seguir: ”Sempre tivemos capacidade de entrar em algumas brincadeiras, partidas mais ousadas, sem sequer roçar a má educação, ordinarice ou violência” (frase de ex-aluno no“site” da Escola Industrial de Lourenço Marques). E o que vemos nós hoje nas nossas escolas secundárias que preparam futuros licenciados? Má educação, ordinarice e violência por parte, muitas vezes, de alunos para quem a escola única actual nada lhes diz sendo até uma verdadeira chatice.Sei bem que, em tempos do extinto ensino técnico, eram exigidos mais dois anos de estudo para que os seus diplomados ascendessem ao ensino superior. Pela então chamada via liceal eram impostos 4 anos de ensino primário, 2 de ciclo preparatório e 5 anos de liceu num total de 11 anos de escolaridade. Em contrapartida, no ensino técnico havia que cumprir os mesmos anos de ensinos primário e de ciclo preparatório (6 anos), mais 5 anos de curso geral industrial ou comercial, acrescidos de 2 anos de curso complementar dos referidos cursos e dos 2 primeiros anos dos antigos Institutos Industriais e Comerciais (actuais Institutos Superiores de Engenharia e Contabilidade), o que perfazia um total de 13 anos que abriam, finalmente, os portões das escolas universitárias de Engenharia ou de Economia e Finanças.Além de restaurar a dignidade do antigo ensino técnico parece-me igualmente importante a criação de uma espécie de sistema de vasos comunicantes que possa levar o aluno, se desinserido das suas verdadeiras capacidades, por decisões parentais ou de qualquer outra natureza, a transitar directamente para um ensino do tipo do antigo liceu a partir do nono ano de escolaridade.A verdadeira gravidade do statu quo actual do nosso ensino reside, outrosim, em assistir-se, em nossos dias de autêntica manipulação de dados estatísticos de sucesso escolar, a uma caça despudorada a diplomas de licenciatura ou até de doutoramento obtidos em escolas d’aquém e além fronteiras de duvidosa qualidade, ou mesmo de duvidosa seriedade, que apenas servem para satisfazer o ego dos seus possuidores e atestar a respectiva ignorância, numa tentativa desesperada de continuar a manter bem vivos, em imagem pessoana, “cadáveres adiados que procriam”. Até quando?
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April 23 2009, 6:34pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Em nome de uma falsa pedagogia"
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Maria do Carmo Vieira é professora de Português do Ensino Secundário. Ouvindo-a ou lendo o que escreve, percebe-se, de imediato, ser uma daquelas pessoas que ama, no sentido filosófico clássico, a literatura e o ensino.Sabemos, no entanto, que nem sempre este duplo amor, se é mesmo amor, traz paz a quem ama.. No caso, penso que não se pode dizer que Maria do Carmo Vieira viva em paz, pois sabe bem, tem nítida consciência, que as nossas crianças e jovens estão a ser privados da beleza dos textos literários e das possibilidades cognitivas, emocionais e morais que a sua abordagem didáctica abre. Sendo que esta verdade é ainda mais verdadeira para aqueles a quem a sorte não sorriu à nascença.O que pensa sobre este assunto, reuni-o num belíssimo livro acabado de sair pela mão da Quimera, e a que deu o título: A arte mestra da vida: reflexões sobre a escola e o gosto da leitura. Nele dá conta bem documentada da eliminação dos programas escolares de alguns dos nossos melhores escritores, que deixaram, portanto, de constar nos manuais. Dá ainda conta de pseudo-estratégias pedagógicas “para os tornar interessantes” e “úteis aos alunos no seu quotidiano”, que mais não fazem do que lhe retirar a essência.“Em nome de uma falsa pedagogia, há quem acuse a «dificuldade dos textos literários que são entregues às crianças» (inclui-se neste rol o poema As fadas de Antero de Quental) e defenda a sua eliminação, ou a sua simplificação em ridículas adaptações e sensibilizações para a leitura de… Sei por experiência, enquanto professora e também educadora, que as crianças podem não compreender o significado de muitas palavras que ouvem, mas sentem a sua beleza e a sua musicalidade, guardam-nas como mistérios ou, curiosas, questionam o seu significado. É assim que, numa diversidade de épocas e séculos, lhe podemos ler poemas de Eugénio de Andrade, Alberto Caeiro, Pessoa (ortónimo), Cesário Verde, Guerra Junqueiro, Antero de Quental ou Luís de Camões (…).Também a escritora e professora Luísa Dacosta pode relatar um sem-número de experiências sobre a boa receptividade dos seus alunos dos 5.º e 6.º anos a autores portugueses a autores portugueses e estrangeiros, como o Padre António Vieira, Eça de Queiróz, Cecília Meireles, Raul Brandão, Graciliano Ramos, Saint-Exupéry, Hemingway. Infelizmente, continuamos, sob orientações institucionais, a menorizar os nossos alunos, a atrofiar as suas capacidades e a negar-lhes a cultura a que têm direito, tornando-os vítimas de um ensino que os coloca ignorantes e indefesos perante uma sociedade exigente e desumanizada. Esta atitude oficializada ofende a nobreza da pedagogia, em nome da qual se permitem as mudanças mais absurdas e atentatórias da inteligência e da sensibilidade dos professores e dos alunos de todos os níveis de ensino.”Este trabalho de Maria do Carmo Vieira está longe, porém, de ser um trabalho desencantado é, antes, uma reflexão lúcida e acutilante que nos alerta para a necessidade de (re)pensarmos os caminhos que temos traçado para a educação, de modo que, como recorda na sua página pessoal, possamos dizer: “Amanhã tudo será melhor, eis a nossa esperança” (Voltaire).
April 23 2009, 2:03pm | Comments »








