A ministra Isabel Alçada quer ACABAR com os chumbos nas escolas. Não serve para ajudar os alunos, diz ela.Link: http://aeiou.expresso.pt/a-primeira-pagina-do-expresso=f596955Claro, é isso mesmo que se deve fazer. Não chumbar. Porque isso é uma chatice e estraga as férias. E já agora, porque não acabar com os exames, e as aulas (que são uma seca com o bom tempo que está), e a obrigatoriedade de fazer os trabalhos de casa, e qualquer tipo de trabalho ou obrigação que os alunos tenham. Não. Acabemos com isso tudo, porque em nada os ajuda.É claro que depois há a correlação com o mundo real. Mas talvez a ministra esteja a pensar colocar Portugal num mundo virtual 3D (estilo Second Life), onde não se chumbe, toda a gente tenha muito dinheiro, um desses empregos onde não se trabalha e não se é avaliado (só mesmo num mundo virtual), carreira, sucesso, montes de férias, bens materiais, etc., onde sejam "felizes". Porque no mundo real, aquele que a ministra Alçada não faz a mínima ideia como funciona, as pessoas chumbam, perdem concursos, são avaliadas diáriamente, têm de ser competitivas, têm de desenvolver capacidades e colocá-las à prova, passam por momentos difíceis (têm de passar por eles para se prepararem), têm de ser criativas, têm de ser empreendedoras, têm de aprender a ser persistentes, caiem e têm de aprender a levantar-se e prosseguir. No mundo real existem insucessos, o dinheiro é difícil de obter, é preciso trabalhar árduamente e as coisas são obtidas com esforço e dedicação. E ainda bem que existem insucessos, porque se aprende muito com isso. Aliás, aprendemos mais com o insucesso do que com o sucesso. Querer decretar o fim do insucesso, escondendo aos alunos que há tempo para tudo mas que é necessário trabalhar, ser responsável, gerir o tempo, ter objectivos e persegui-los, é verdadeiramente irresponsável e assustador.Isto é a materialização de "Uma Aventura no Governo de Portugal", por Isabel Alçada.:-(
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Chumbar não ajuda em nada os alunos, Alçada dixit
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July 31 2010, 3:38am | Comments »
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1500 palavras
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Uma amiga que vive em Lisboa, contou-me a seguinte situação a que ontem assistiu “ao vivo e a cores”:Estava um varredor de rua a ler arevista dum jornal, que tinha encontrado no lixo.Passou um conhecido e perguntou-lhe com ar chocado "Estás a ler?".O varredor responde "Sim, estou a ver o que dizem...".E o amigo: "Para quê? Não percas tempo com isso, que nunca dizem nada de jeito..."Esta situação, que fala por si, fez-me lembrar a conversa tida no último programa Um certo olhar, da Antena 2 da rádio, onde se discutia a queda de venda de jornais impressos no nosso país. A intervenção de Miguel Real, um dos comentadores, infelizmente não surpreende, mas esclarece: sem afirmar que a única causa dessa queda é a qualidade do nosso ensino, não deixou de a invocar como muito importante. O essencial da sua intervenção pode ler-se de seguida:Estudos recentes de linguistas indicam que os jovens entre os 12 e 18 anos usam a Língua Portuguesa de forma pragmática e recorrem apenas a cerca de 1500 palavras para se expressarem. Um aluno no final do Ensino Secundário, a entrar para a Universidade trabalha no seu dia-a-dia com este vocabulário reduzido. Ora, para ler os livros de Eça de Queiroz é necessário dominar 20.000 a 30.000 palavras e para ler José Saramago e Lobo Antunes é necessário dominar mais. Estamos perante um enorme desfasamento de vocabulário, que traduz um problema não apenas de ordem quantitativa mas também de estrutura mental (…). Isto significa que quem se torna leitor de jornais aos 20 anos não consegue entender a maior parte dos textos.A leitura de obras obrigatórias na escola, apesar do carácter aparentemente sacrificador, têm um efeito altamente disciplinador da memória, do conhecimento, da história, da estrutura das narrativas...O descuido deste exercício prejudica a compreensão, fundamantal em todas as áreas, nomeadamente na Matemática. O facto de a educação se ter, desde há 15 ou 20 anos, aligeirado, infantilizado, tornando-se cada vez mais simples, tem implicações no nível lexical, semântico e conceptual dos portugueses.
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July 20 2010, 7:51am | Comments »
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Mais uma ilusão
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Conforme aqui referimos em mais do que um texto, no presente ano lectivo foi dada, a título excepcional, a possiblidade de os alunos que frequentassem o 8.º ano de escolaridade transitarem para o 10.º, desde que tivessem mais de 15 anos e que passassem em exames (de âmbito nacional - Língua Portuguesa e Matemática - e de escola).Noticia o Jornal Público, do passado dia 16, que nenhum dos 149 alunos autopropostos a esses exames teve sucesso e continuará no ensino básico.Ao que parece foi mesmo uma ilusão que se criou a estes jovens. Melhor: mais uma ilusão.
July 18 2010, 6:26am | Comments »
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A MISTELA DO EDUQUÊS
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Novo texto recebido de Guilherme Valente:Quando não se aceita a prova da realidade, entra-se no reino das «ciências» ocultas. Também nesse sentido o eduquês é uma seita. Seita que manda no Ministério da Educação [2] há mais de trinta anos. Sem terem sido eleitos. Sem o seu programa ter sido votado pelos Portugueses. Programa imposto com uma continuidade como nunca se verificou noutra área da governação. Resistindo a todas as mudanças partidárias no governo. À revelia do sistema democrático, portanto [1].Não podendo continuar a esconder os resultados, acossados pela realidade, sem argumentos para defenderem o indefensável e inconfessável, surgem as justificações mentirosas e os conflitos internos, como é costume na História [2]. Em parte, deve ser assim interpretada a oposição entre Ana Benavente e Maria de Lourdes Rodrigues. Oposição bem injustificada, aliás, pois não houve ministro mais subserviente à seita. Lembremos como deixou sabotar, por cumplicidade ou inépcia, as medidas no bom sentido ordenadas pelo Primeiro–Ministro [3].«O eduquês não falhou, falharam os que se preocupam apenas com as estatísticas, os sucessivos governos», cito de um comentário reactivo a um dos meus artigos. Cedências, desvios na aplicação do eduquês, explicariam o insucesso, dizem. Começam, também, a acusar Marçal Grilo de não os ter deixado aplicar na íntegra a receita.Tudo dito sempre anonimamente ou com apregoada «isenção», pois o nunca se assumir é traço constante da mistura sincrética do eduquês [4]. Mistura que a par do fanatismo e das tolices distintivas incorpora e exibe «descobertas da pólvora», banalidades pedagógicas intuitivas, tão antigas como Sócrates ou Confúcio. Por indigência intelectual e de instrução, confundindo os incautos, impedindo a distinção do que é próprio, virulento, da praga.Faltava ainda surgir, explicito e assinado, o «argumento» mais sinistro, até agora só em surdina enunciado. Perante a sucessiva descida das notas de matemática, os responsáveis, com nome, pelo Plano de Acção para a Matemática, imposto em boa hora pelo Primeiro-Ministro, mas que a Ministra logo deixou sabotar [5], vêm pornograficamente dizer precisarem ainda de mais anos… (Expresso 3/6/10, p. 18).Do que se queixam, afinal, é de não terem podido levar suficientemente longe a aplicação pura e dura do eduquês. Não chegaram trinta anos de cretinização e exclusão? Pseudo-argumento, inverificável, velho como o fanatismo, a pseudociência e o totalitarismo, eis-nos mergulhados no reino de sombras do eduquês.Uma história repetidamente acontecida revela expressivamente a natureza e o odioso da falácia:Envenenado pela mistela do curandeiro, quase a morrer, não da doença, mas da suposta cura, o doente acaba por ir ao médico. Levado o curandeiro a tribunal, que argumento apresenta o charlatão em sua defesa? «Se a receita tivesse continuado a ser ministrada… o doente acabaria por melhorar.»Ministrada até quando? Até morrer mesmo, pois não era remédio, mas veneno. E não está a nossa escola a morrer?Guilherme ValenteNOTAS[1] Na expectativa de eleições, preparam já a alternância nos lugares de maior exposição, esperando ter como ministro do PSD o idiota útil mais provável. Mas enquanto há vida há esperança…[2] Divergências internas não confundíveis com o reconhecimento do erro, como hoje, finalmente, muita gente começa a manifestar. Só os burros não mudam de opinião.[3] Recorro à enumeração na homenagem recente: Plano de Recuperação da Matemática (ver [4]); directores nas escolas, escolhidos como e com que autoridade, autonomia e meios?; com que agora se pretende mesmo acabar, a pretexto da nomeação de Comissões Administrativas para os grandes agrupamentos escolares, viveiros de anomia, ignorância e violência; cursos profissionais, que só algumas escolas podem promover e a que o ME não dá condições de funcionamento, meios materiais e humanos; Novas Oportunidades, que o eduquês não deixa ser o que deveriam, e que nalguns raros centros, apesar disso, se vê o que poderiam ser.[4] Numa comunicação a transbordar «ciência» a um Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia, um «cientista» social, teve, pelo menos, o mérito de tornar evidente a resposta à pergunta tão queixosa e «cientificamente» por si colocada: «Porque é que a sociologia da educação não aparece a defender o eduquês?» A resposta, simples, só tinha uma alternativa digna: o eduquês ser indefensável ou não haver sociologia da educação (Ver aqui).[5] Imposto para resolver os problemas que os responsáveis pelos programas, orientações curriculares e formação de professores tinham causado, foi confiado pela Ministra… a esses mesmos responsáveis, ou seja, entregou-se o ouro ao bandido. Compreende-se, assim, o 5+2 das provas: como já não podem impedir alguma avaliação, que, pelo menos, não se perceba o fracasso dos seus «planos de recuperação»…
July 11 2010, 4:13pm | Comments »
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PROFOUND UNDERSTANDING OF FUNDAMENTAL MATHEMATICS
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Informação recebida pelo De Rerum NaturaCONFERÊNCIA"PROFOUND UNDERSTANDING OF FUNDAMENTAL MATHEMATICS: THE BOOK AND STORIES BEHIND IT"Proferida pela Professora LIPING MANo próximo dia 12 de Julho, pelas 14h00, no Auditório da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de CoimbraA conferência terá tradução para português e é aberta ao público.Sobre a conferencista: Liping Ma é investigadora da Carnegie Foundation for Advancement of Teaching, nos Estados Unidos da América. Os estudos comparativos que tem realizado neste país e na China têm-lhe permitido verificar que o sucesso na aprendizagem reside, em grande medida, na formação dos professores, que deve conferir a estes profissionais um conhecimento disciplinar profundo, bem como destreza no modo de ensinar.Autora do livro Saber e Ensinar Matemática Elementar (editado entre nós pela Gradiva em colaboração com a SPM).
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July 7 2010, 4:12pm | Comments »
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CONTINUAÇÃO DO DIÁLOGO SOBRE O EDUQUÊS
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/continuacao-do-dialogo-sobre-o-eduques.html
Para aumentar a visibilidade da polémica transcrevemos aqui da respectica caixa de comentários a réplica de Carlos Albuquerque à resposta que teve de Guilherme Valente e a nova resposta acabada de receber deste último (o cartoon de cima sobre o facilitismo reinante nas escolas é escolha deste blogue):Caro GuilhermeAgradeço a sua amabilidade. Vou dividir esta resposta em três partes: esta introdução e duas partes temáticas. Para já propunha-me discutir dois aspectos: a caracterização do eduquês e os termos que apresenta no seu recente artigo do Expresso, reproduzido neste blog. Fica ainda por discutir qual a causa mais séria da falta de qualidade do ensino actual em Portugal.1) Agradeço a disponibilidade quanto ao livro do Nuno Crato, mas na verdade já o tenho e já o li. Tenho presente o que lá está, mas vejo aquele texto sobretudo como um panfleto: um texto que pretende mover as pessoas para uma causa que se considera justa, mas em que a argumentação e a metodologia não são muito cuidadas. Daí que eu não me sinta mais esclarecido sobre o que é o eduquês depois de ter lido o livro.2) O Guilherme caracteriza o eduquês de múltiplas maneiras, mas a primeira questão que se me levanta nesta caracterização é saber se, para que um texto seja considerado eduquês, é necessário acumular muitas das características que lhe atribui ou bastam apenas algumas.Convém não esquecer que a tese fundamental em discussão é que o eduquês é a maior fonte dos males do ensino actual. Assim, classificar um texto de eduquês já comporta uma carga negativa grave e por isso penso que deveremos analisar esta questão com cuidado.Vou enumerar algumas das características que lhe atribuiu:- "gosta muito de siglas" - "reacções irracionalistas à modernidade" - "espírito de seita" - "ódio ao mérito e ao «saber letrado», à liberdade, à autonomia individual, à pluralidade, à sociedade aberta, horror à avaliação, desprezo pelo conhecimento que distingue e eleva, menosprezo pelo papel do professor" - "Rejeição e aniquilamento da escola como «ascensor social»" - "A ideia de que todos os saberes se equivalem" - "A ideia sempre insidiosamente glosada de que se pode aprender sem esforço. O cultivo da atrofia da memória, ignorando que só é possível pensar com informação" - "O encorajamento irresponsável da indisciplina" - "odeiam a inteligência e o espírito de liberdade".Perante uma lista destas, parece-me que haverá muito poucas pessoas que se revejam num conjunto alargado de características destas. Se bastarem umas poucas destas características para caracterizar o eduquês então eu diria que quase tudo pode ser eduquês. A começar pelo criacionismo, por exemplo. Ora um termo que quase não se aplica ou que se aplica a tudo dificilmente pode ser útil para compreender o estado do ensino.Há uma outra caracterização que me parece que inverte o ónus da prova:- "Poderá identificar o eduquês também pela tragédia das suas consequências."Se estamos a tentar caracterizar o eduquês para depois podermos discutir se é o responsável por determinadas consequências, não podemos começar por caracterizá-lo precisamente a partir das consequências.Finalmente, vejamos a sua caracterização do meu comentário como "eduquês suave". Aceito perfeitamente que o faça mas pedia-lhe que o fizesse de modo fundamentado, decompondo as diversas afirmações que fiz.Neste espírito, permita-me que, pegando na sua frase seguinte:"quando o colocarem perante uma expressão bem sonante, mas que ao meu Amigo pareça não querer dizer nada, ou querer dizer tudo, ou dizer o que já se sabe há milhares de anos, ou que a Filosofia há muito tenha pensado, então, meu caro Amigo, anda aí o dedo do eduquês"coloque a seguinte questão: dadas as dificuldades que referi acima, não será o termo "eduquês" um termo de eduquês?3) Consideremos agora o "aprender a aprender" e as "competências". Trata-se de termos que podem ter múltiplos significados, alguns dos quais muito úteis ou mesmo imprescindíveis. Mesmo que esses significados tenham sido definidos por especialistas em educação e tenham depois sido usados em teorias perfeitamente desadequadas à realidade.Nos tempos que correm a capacidade de aprender ao longo da vida é fundamental. Quando a Carris muda para autocarros a gás, a biodiesel ou a electricidade o motorista pode ter que aprender coisas novas. Então um tradutor precisa radicalmente de saber aprender. Como poderia de outro modo traduzir livros que reflectem múltiplas realidades novas?Assim, é pertinente colocar a questão: dos diversos modos de ensinar, haverá uns que deixem as pessoas melhor preparadas para aprendizagens futuras do que outros? Não tenho respostas simples para estas questões mas não podemos simplesmente ignorar a problemática apenas porque associamos imediatamente ao eduquês quem levanta tal questão.Algo de semelhante se passa quando falamos de competências. O termo pode ser bem definido e levanta problemas muito relevantes em educação, sem que isso nos obrigue a concordar com tudo o que os autores depois dizem sobre o assunto.Aliás tenho dificuldade em entender esta abordagem pelos termos. Há um risco enorme de se assumir uma atitude totalitária ao não se discutir uma ideia porque se cataloga liminarmente um certo conjunto de palavras e o autor que as utiliza.Parece-me que seria muito mais útil discutir as definições e ideias de cada autor, examinando-as e discutindo-as pelo seu valor, em vez de se criar esta espécie de cruzada anti-eduquês, que de tanto ser repetida ainda corre o risco de acabar como a inquisição numa caça às bruxas.Carlos Albuquerque------------------------------------------------------------------------Prezado Amigo:Afinal, o que é que me disse de substantivo? Nada. Mas vou esforçar-me, com respeito pelos leitores do blogue que nos lêem com espírito aberto, por acrescentar (sempre rapidamente, pois tenho de trabalhar) alguma coisa ao que já havia escrito.Em primeiro lugar duas linhas para lhe pedir desculpa por ter suposto que o meu Amigo era um eduquês suave. É, afinal, um eduquês bem típico. Bem típico até porque, revelando muitos dos traços presentes no eduquês, revela um, que, pela experiência que até agora tenho, posso dizer estar sempre presente na mistura: nunca se assumem.É que, ao contrário da leitura que fez da caracterização rápida que fiz (não exaustiva, nem hierarquizada), no eduquês, até por ser uma mistura sincrética, podem, nalgumas das suas manifestações, ser mais ou menos visíveis alguns dos traços que referi, ou faltarem mesmo alguns. Óbvio, não é? Não se trata de uma substância simples (suponho não ser este o termo científico, mas o Carlos Fiolhais corrigirá), nem a vida, nem o eduquês, não são um produto de laboratório. O que fiz foi dar pistas, como convinha no âmbito e no espírito da resposta (não quis fazer uma comunicação a um congresso de «ciências» da educação…). É tudo óbvio, não acham?Como saberá, até há dissensões no eduquês, muito significativas, note-se, e cada vez mais frequentes, como iremos ver e procurarei explicar num próximo artigo. E o modo como essas dissensões se justificam é bem típico das seitas. O eduquês é, afinal, uma seita. E sabe porquê? Porque quando uma teoria, ou um corpo de teorias, não aceita a prova da realidade - e teve mais de trinta anos para o fazer -- salta para outro registo: o das «ciências» ocultas.E é por causa dessa prova da realidade, dos resultados, do crime perpetrado todos estes anos, que é imoral, imoral, aproveitar este tema para jogos de palavras e filosofice (o seu jogo de palavras nem a isso chega, perdoe a sinceridade de quem, por formação, tem o dever de o dizer).Expliquei tudo muito bem, é tudo para mim muito óbvio. A sua consciência é a sua consciência; a que consciência que eu tenho de enfrentar é a minha. É por isso que mal acaba por afectar sempre mais quem o pratica do que aquele que o sofre , do que aquele a quem é infligido. Sinceramente, acho que está a querer enganar-se a si próprio, mas isso é o meu Amigo que terá de resolver. Leibniz dizia que o melhor de tudo é a inteligência, mas quando essa, por qualquer, falha ou não quer manifestar-se, que tenhamos ao menos e não resistamos aos bons sentimentos. Não posso acreditar que não sofra com os 40% de abandono escolar. E com tudo o resto que isso quase sempre determina. Então o livro do Nuno Crato é um panfleto? Com os textosinhos dos eduqueses transcritos entre aspas? Algum saiu a explicar que outra interpretação lhes poderia ser dada (quando os encontramos em debates, ficam sempre muito caladinhos)? Julgavam que ninguém com cérebro os leria? E o «aprender a aprender» o que é?Sinceramente: o «aprender a aprender» é mesmo… uma estupidez. Só se aprende a aprender… aprendendo. E, como eu lhe disse e é óbvio e a ciência verificou (mas nem era preciso), quando se aprende alguma coisa aumenta a capacidade para aprender mais e outras coisas (parece que surgem mesmo mais «circuitos» no cérebro, sabia?). Não há outra maneira. Pergunte ao Prof. Castro Caldas, que recentemente verificou que o cérebro do analfabeto ou de quem aprendeu tarde a ler é diferente do que aprendeu a ler cedo. Quando o eduquês - sabe bem o que quero dizer com a palavra eduquês, não sabe? - condenou em todos estes anos um número intolerável de crianças ao analfabetismo e ao iletrismo, «ferrou-os» com a pior das deficiências, para toda a vida, percebe?Por isso os seus argumentos sobre os seus carros movidos a não sei quê não fazem nenhum sentido, não enfrentam nada do que avancei, muito pelo contrário até. São mesmo pornográficos. Preciso de lhe explicar mais alguma coisa?Sinceramente, durma bem e felicidades.Guilherme ValentePS) Um último comentário. Se o meu Amigo estiver na situação de organizar um debate público sobre o tema (não sei quem é, qual é a sua formação, nem qual é a sua actividade profissional, se terá oportunidade e meios para o fazer), estou disponível para participar. Mas, no blogue, não vou lê-lo mais.Aprendi com um grande Homem do meu País, o Professor A Sedas Nunes, que há cartas que não devemos abrir. Isso não significa que estejamos a julgar o seu conteúdo sem o conhecer (seria miserável isso). Significa apenas que não as queremos ler. Do mesmo modo que há sítios que não desejamos nem tencionamos visitar. Embora, se o fizéssemos, quem, pudessem revelar-nos surpresas deslumbrantes.Ah, esqueci algo, a referência que fez à inquisição. As bruxas, como devia saber, são uma criação do irracionalismo, que as inventa e, depois, as caça. O eduquês é um irracionalismo e, como devia saber, pratica mesmo a caça às «bruxas». Que o diga Nuno Crato, que foi impedido de participar num colóquio em Leiria sobre o ensino da Matemática. Tal qual. Que o digam tantos professores.E eu irei também em breve revelar como, em duas circunstâncias, tentaram atingir a minha actividade profissional. Numa delas, foi-me dito claramente: «só elogias o ministro Mariano Gago…» De facto, se Mariano Gago tivesse assumido a pasta da educação no primeiro governo de Guterres, a escola em Portugal seria muito diferente. O facto de não ter complexos perante os "especialistas", de ter a inteligência que tem, de ter uma atitude científica na análise das situações, e, já agora, por ter o temperamento que tem (para o bom ou para o menos bom, que ninguém é perfeito), teria levado à erradicação do eduquês. E estaríamos hoje em melhor situação para enfrentar o cataclismo internacional que aí vem.Outra coisa é termos a convicção (sempre aberta aos argumentos – argumentos a sério…), a consciência, de que as ideias e as soluções do eduquês (a sua generalidade, claro, as que o caracterizam e distinguem; há também no eduquês ideias que não lhe são próprias ou exclusivas, que são óbvias, como já tentei dizer-lhe, e não devia ter sido preciso) têm de ser varridas. E sê-lo-ão.Guilherme Valente
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July 7 2010, 5:32am | Comments »
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NOVAS OPORTUNIDADES OU NOVOS OPORTUNISMOS?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/novas-oportunidades-ou-novos.html
Artigo de opinião de Rui Baptista publicado hoje no "Público":No ano de 2006, foram divulgados os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment) que colocaram Portugal em 54.º lugar, apenas à frente da Grécia, da Turquia e do México. Uma vez mais e sem ser por boas razões, o sistema educativo português passou para as páginas da comunicação social dos 57 países da OCDE que participam nestas provas avaliativas do rendimento escolar no âmbito da Matemática, das Ciências e da Leitura.Era este, portanto, o desolador panorama do nosso país em que "até dá pena ver o esforço das autoridades portuguesas para desvalorizar o PISA e, quando não o desvalorizam, o esforço para desculpabilizar um sistema que assim se vê tão cruamente retratado e, claro, abalado", dizia Carlos Fiolhais.E se, no sistema educativo regular dos jovens portugueses com a idade de 15 anos, pois é neste escalão etário que incide o PISA, houve maus resultados impossíveis de esconder, no Programa Novas Oportunidades, destinado a indivíduos maiores de 18 anos que deixaram de frequentar a escola por reprovações sucessivas, os resultados transformam-se em êxitos estatísticos oficiais de uma desastrada política educativa.A réstia de esperança que pudesse haver sobre a bondade de uma segunda oportunidade, para quem desperdiçou uma primeira, foi abalada em seus frágeis alicerces pela leitura de uma extensa reportagem, sobre os Cursos de Educação e Formação, publicada no Expresso (8/12/2007). Por ela se ficou a saber que estes badalados cursos para aumentar as percentagens estatísticas de portugueses que terminam os 6.º, o 9.º e 12.º anos de escolaridade, não espelham uma situação minimamente verdadeira, credível ou séria.Não querendo generalizar a todos estes cursos efeitos perversos, tenho razões para pensar que em sua grande maioria sirvam apenas de recreio buliçoso para passar o tempo de quem procura um diploma avalizado pelo Estado. A título de mero exemplo, extraio ainda do Expresso este elucidativo pedaço de prosa da autoria do professor que denunciou ao Presidente da República o verdadeiro escândalo que se acoberta por detrás destas actividades curriculares: "Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os headphones e uma vontade incrível de não aprender e não deixar aprender."Nas sábias palavras de Stephen Covery ,"se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, continuaremos conseguindo o que estamos conseguindo". Ou seja, continuando a consentir "que se estejam a fabricar ignorantes às pazadas" (Medina Carreira), a educação portuguesa corre o risco de ruir ao peso das Novas Oportunidades.Rui Baptista
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July 7 2010, 2:21am | Comments »
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DIÁLOGO SOBRE O EDUQUÊS
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/dialogo-sobre-o-eduques.html
Guilherme Valente enviou-nos esta resposta, mais longa do que é normal num comentário, a um comentário de Carlos Albuquerque ao seu artigo anterior sobre o eduquês. Porque o De Rerum Natura gosta de polémica civilizada, destacamos aqui a resposta:Prezado Amigo:Suponho que terá escrito o seu comentário a que me refiro antes de ler os dois pequenos textos que coloquei no De Rerum Natura, que me parecem esclarecer as questões que me colocou. Outro comentário entretanto publicado é também esclarecedor. De qualquer sinto dever-lhe a cortesia de uma minha resposta.Permita-me a imodéstia de supor que se o meu Amigo, com a inteligência que visivelmente tem, tivesse lido os inúmeros artigos que escrevi (se não, não se preocupe…) saberia identificar o corpo de ideias, a praxis, os objectivos e os efeitos terríveis do que decidimos designar com a expressão eduquês.Podíamos ter escolhido outra expressão, por exemplo: pedofascismo, logofobia, PITC (pedagogia irracionalista totalitária em curso), LPEC (loucura pseudoeducativa em curso). O eduquês gosta muito de siglas, o que é outra maneira possível, embora não rigorosa, de o identificar: veja como as siglas inundam e tornam ainda mais ilegível os documentos escritos em eduquês emitidos pelo Ministério da Educação – só com glossário…).Como sabe o termo eduquês foi criado, num momento de génio, por Marçal Grilo para designar a linguagem incompreensível (geralmente vazia mas pretensiosa, pouco letrada, na realidade frequentemente tonta, digo eu) dos autodenominados especialistas em «ciências» da educação (ponho aspas nas ciências por considerar que a generalidade do que produzem de ciência não têm nada). E nós adoptámos (e fixámos) o termo para designar não apenas a forma, mas também o conteúdo.Como não é praticável (nem lhe recomendaria que o fizésse…) pô-lo a ler os meus artigos, sugiro-lhe que consulte o livro de Nuno Crato O Eduquês em Discurso Directo. Como o título indica, nele encontrará o eduquês expressivamente explicado pelos próprios representantes. E, como receio que algum dos nosso leitores pense que estou a querer vender-lhe um livro que editei, o que não é verdade, terei muito gosto em oferecer-lhe um exemplar.De qualquer modo, sem grandes preocupações de estilo, que não tenho agora tempo para isso, digo-lhe que o eduquês é uma mistura sincrética (note bem, sincrética - perdoe-me o jargão filosófico, que queria evitar) de duas componentes: uma ideologia ou mundovisão totalitária e as chamadas novas teorias pedagógicas, que na verdade são velhíssimas, geralmente deficientemente compreendidas e veiculadas sobretudo por correntes até há pouco dominantes na sociologia da educação. Com pais fundadores e fontes de inspiração recente bem referenciados, de Rousseau a Bourdieu, para referir o mais próximo e talvez mais emblemático em Portugal. Ente nós o meu Amigo conhece certamente os nomes dos seus sacerdotes).Quanto à ideologia, se a quisermos dessincretizar da pedagogia para a podermos mais facilmente identificar, encontramo-la nos vários extremismos igualitários, das utopias milenaristas, às seitas apocalípticas, passando, numa versão ainda mais trágica, pelos totalitarismos mais recentes, reacções irracionalistas à modernidade, afinal.Como saberá, o eduquês foi importado -- tarde, como acontece sempre em Portugal, quando lá fora já eram conhecidas as suas consequências e começava a ser fortemente contestado. Entre nós soube usar, numa mistura explosiva, o pior da mais velha cultura portuguesa: num país estatizado, centralizado e súbdito como o nosso, com um baixíssimo nível de instrução, sedento de emprego, de estatuto e de poder, conquistado o Ministério da Educação, usando o nepotismo e o medo, infestou tudo, teve o efeito de uma bomba atómica, destruidor da inteligência e da vontade das nossas crianças, condenando uma parte enorme delas à ignorância, ao analfabetismo (ou, se preferir um termo eduquês nada inocente, à iliteracia), ao abandono escolar intolerável, à exclusão e à delinquência, tragédia que hoje só a cegueira fanática, o medo, ou a cega avidez de manter o tacho e o estatuto não deixam ver.Sempre telegraficamente, sem preocupação de estilo e com o sacrifício de algum rigor de exposição (estou a escrever, com pressa, para um blogue) dou-lhe ainda as seguintes pistas (a listagem não é exaustiva, note bem) para identificar o eduquês, pistas que acrescento às que foram muito claramente enunciadas por outro comentador:Espírito de seita, irracionalismo, ódio ao mérito e ao «saber letrado», à liberdade, à autonomia individual, à pluralidade, à sociedade aberta, horror à avaliação, desprezo pelo conhecimento que distingue e eleva, menosprezo pelo papel do professor, rejeição da hierarquia – para o eduquês o aluno é igual ao professor -- e da autoridade assente na responsabilidade, no conhecimento e no mérito (excepto a sua própria autoridade, dos que impõem o eduquês, dos intérpretes iluminados tal «vontade geral» rousseauniana que, finalmente, harmonizaria a sociedade e a humanidade -- desculpe o recurso especializado à «tal vontade geral»; publicámos um bom livro em que a ideia é claramente explicada, Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade)Rejeição e aniquilamento da escola enquanto «ascensor social» (dizem, como sabe, que reproduz as desigualdades da sociedade burguesa… na verdade é a solução mais eficaz e universalmente acessível para as ultrapassar e realizar a mobilidade social); do conhecimento que conta; da educação para a urbanidade(veja-se o papel que o eduquês dá à indisciplina e mesmo à violência), que geraria uma convivência «interclassista», no dizer do eduquês, que o eduquês não não tolera;Substimação, na verdade rejeição, enfim, dos valores e da cultura que diz «burgueses», valores e cultura que permitem a ascensão social, o progresso e a distinção pessoais, com que o eduquês não se preocupa (excepto quando está em causa a formação dos próprios filhos, como é fácil provar…).A ideia de que todos os saberes se equivalem, humana, social e explicativamente(epistemologicamente), com o mesmo estatuto e natureza, a ciência igual à magia, por exemplo.A ideia sempre insidiosamente glosada de que se pode aprender sem esforço. O cultivo da atrofia da memória, ignorando que só é possível pensar com informação (como escreveu Carl Sagan: «Saber não equivale a ser-se muito esperto, a inteligência é mais que informação; é, simultaneamente, discernimento e capacidade de utilizar e coordenar a informação. E, todavia, a informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência.» [sublinhado meu]).O encorajamento irresponsável da indisciplina, que é vista como manifestação saudável de ressentimentos, ligados à desigualdade social, e de libertação (esquecendo que as crianças não são insectos e que, por isso, sabem distinguir entre o bem e o mal). A ideia, ERRADA, ERRADA, intelectual e culturalmente indigente, de que a escola igualitarista produz a igualdade na sociedade.Direi ainda, recorrendo de novo a mais uma distinção tão expressivamente descrita por Sagan, que o eduquês valoriza, em suma, o que é da parte reptiliana do cérebro humano, e estigmatiza o que é do córtice cerebral, que controla a nossa vida consciente, que produziu o nossa civilização. É esta parte distintamente humana do nosso cérebro (sentimento os animais também têm), em que lidamos com a música e a matemática, fonte da consciência e da moral, que impele o homem para o conhecimento e para a solidariedade, distinção da nossa humanidade, ímpeto indomável, destino inapelável do Homem. Que nenhum obscurantismo poderá alterar… A enumeração não pararia. Mas, sobretudo, uma repugnante ultrareaccionária visão do ser humano: vêem-no inapelável e definitivamente encerrado, determinado, pela situação social. Esquecem ou ignoram a inteligência, a liberdade e a vontade humanas, fontes de imprevisível novidade. Em todas as circunstâncias, mesmo nas mais desfavoráveis.Por isso odeiam a inteligência e o espírito de liberdade, que nenhum totalitarismo ou fanatismo conseguiu até hoje exterminar, seja com escolas ou campos de morte. Inteligência e liberdade e vontade que os impedem de nos meterem a todos, e à realidade toda, na ideologia.Poderá identificar o eduquês também pela tragédia dos resultados da sua aplicação. Não apenas a escola, mas já também o nosso País, são um laboratório perfeito para fazer essa observação. Mas há mesmo uma observação mais simples que poderá fazer: quando o colocarem perante uma expressão bem sonante, mas que ao meu Amigo pareça não querer dizer nada, ou querer dizer tudo, ou dizer o que já se sabe há milhares de anos, ou que a Filosofia há muito tenha pensado, então, meu caro Amigo, anda aí o dedo do eduquês, isto é do «saber» produzido pela generalidade dos «cientistas» da educação. Especialmente dos que usam totalitariamente as escolas de formação de professores para idiotisar os candidatos à docência, através da escola, o País.Expressões, afinal, como as que julgo ter desmontado no meu artigo (não fui capaz de ser mais claro…)A certa altura do seu comentário o meu amigo escreve: «Um aluno pode fazer facilmente uma licenciatura em Matemática sem nunca fazer um trabalho de grupo nem uma apresentação oral». E daí? Pode mas não deveria. E acha que para perceber isso é necessário uma especialização em «ciências» da educação? Todos os professores que tive desde a escola primária sabiam isso e praticaram isso. Nem sem como comentar, nem o que responder, francamente. Aonde quer o meu Amigo chegar com essa observação?Perdoe-me, mas parece mesmo uma das grandes «descobertas» do eduquês. Descoberta da pólvora (como diziamos no meu tempo de criança). Então é essa a novidade? É mesmo anterior a Sócrates, e sabe-se como os sofistas prometiam mesmo ensinar a ganhar qualquer discussão fosse qual fosse a matéria ou o tema em causa.Claro que se pode e deve aprender tudo o que se queira. Mas na escola – óbvio! – , sobretudo na pública, tem de ensinar e aprender o que – em cada tempo e circunstância -- deve ser considerado essencial e estruturante, para os cidadãos e a sociedade. Pode encontrar isto bem explicado nos grandes autores clássicos. Desde logo os instrumentos para aprender tudo: ler, escrever e contar. Instrumentos de que o eduquês vem assustadoramente a privar crescentemente as nossas crianças.O problema não está na preocupação dos governos e dos responsáveis do ME com as estatísticas. Nem o facilitismo. Isso é do domínio do político facilmente resolúvel. São é epifenómenos. O problema é a ideologia e a pedagogia ao seu serviço. Enfrentada e vencida a besta, tudo o resto se resolverá por acréscimo.Para terminar, depois de tudo o que apressadamente, e ao sabor da tecla, sugeri, deixo a pergunta que é fundamental, revelador, fazermos, como escrevi num artigo recente do Público: em que sociedade quer o eduquês obrigar os Portugueses a viver?Enfim, se eu quisesse terminar com uma picardia inocente -- mas não quero, porque o meu Amigo, não deixando de ter sido o que é e de ter pretendido o que pretendeu, foi amável comigo, impecável no trato, e eu sou muito sensível a isso, porque nunca confundo as ideias com o carácter de quem as defende -- poderia dizer-lhe: se quiser identificar um texto dum eduquês suave, leia o próprio comentário que me dirigiu. Mas espero muito da inteligência e do desejo de liberdade.Por favor, note bem: esta é uma resposta para blogue, que nem revi, sem preocupação formal, sem tempo. Por isso, termino como Padre António Vieira disse numa entrevista com o rei: "peço desculpa por não ter tido tempo… para ser breve."Com amizade, e ao dispor,Guilherme Valente
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July 5 2010, 1:49pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
DOIS LOGROS DO EDUQUÊS: O «APRENDER A APRENDER» E AS «COMPETÊNCIAS»
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/dois-logros-do-eduques-o-aprender.html
Texto de Guilherme Valente saído no "Expresso" de hoje: 1. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender». Mas não se ensinam os conhecimentos que os alunos precisam de aprender. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender» matemática. Mas o que é preciso mesmo é aprender matemática.O «aprender a aprender» tornou-se moda por soar bem e prometer o «milagre» de se poder aprender tudo sem ter de se aprender nada.O eduquês substitui o que importa ensinar pelas técnicas e métodos que supostamente permitiriam aprender tudo sem esforço. Dois exemplos reveladores do logro:Se eu pretender recrutar um tradutor de inglês, não indagarei se os candidatos sabem «aprender a aprender», mas se sabem, pelo menos, inglês e português. Se a Carris precisar de um motorista, não perguntará aos candidatos se sabem «aprender a aprender», mas se têm carta de condução e experiência de conduzir. 2. As «competências» são outro logro, que engana o incauto porque a expressão tem um significado próprio que o senso comum instantaneamente apreende e valoriza. Mas o que é um indivíduo competente? Alguém que adquiriu e domina conhecimentos e técnicas e é capaz de os aplicar no exercício eficaz de uma função. Haverá alguém competente, seja no que for, sem conhecimentos?O que será uma competência em Filosofia Medieval? Só pode ser o conhecimento do pensamento dos filósofos da época e do contexto em que foi elaborado. O que exige tê-los estudado, dominar o latim, grego, história, etc. E ser competente em física quântica? E a cozinhar uma boa caldeirada?Também o candidato a um curso universitário de Física deverá ter adquirido os conhecimentos que permitem responder à exigência de aprofundamento e especialização que pressupõe. Não chegará que saiba «aprender a aprender», pede-se-lhe que já tenha aprendido muito.3. Importante não é o modo como se ensina e aprende, mas o que efectivamente se ensina, aprende e exercita. E é só o aprender muito que potencia a capacidade para aprender mais e diferente.O método é um «caminho». As técnicas e meios de ensino devem ser adoptados e mesmo construídos em função das matérias e dos alunos. A pedagogia é uma disciplina respeitável, mas auxiliar, não é o objectivo do ensino. 4. Ora, como a pedagogia parece ser o único conhecimento que os «especialistas» da educação supostamente dominam, valorizam-no até ao rídiculo, garantindo, assim, o poder e o emprego.É esse o programa dominante na maioria dos cursos de formação de professores, que lançam no ensino vagas de docentes, grande parte sem poderem ensinar nada, por saberem muito pouco do que deveriam ensinar.Mas como o Ministério da Educação é controlado pelos mesmos que os «formaram», fica tudo em casa, isto é, a escola e a «avaliação» não podem deixar de ser o que, com raras excepções, são.Se o leitor quiser saber até que ponto o rei vai nú, peça a um desses novos docentes, ou a um dos pobres bons professores a quem é imposta a cartilha, um exemplo de uma «competência». Aposto que será: a «leitura de um horário de comboio»…Refeito do choque, pergunte, a seguir, como se avalia a competência em História, Física, Electricidade… 4. O «aprender a aprender» e as «competências» são um pico da pedagogice, logros que servem ao eduquês e aos «especialistas» para que não se ensine, não se aprenda, nada possa ser avaliado.São , afinal, manifestação da desvalorização relativista do conhecimento e do professor, da aversão rousseauniana aos «saberes letrados», supostamente origem da desigualdade e da desarmonia social. Tornar todos iguais, é o projecto inconfessável do eduquês. Mesmo que para isso seja preciso condenar todos à ignorância, à boçalidade e à miséria.Todos? Guilherme Valente
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July 2 2010, 7:37pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O espectáculo do Absurdo
http://dererummundi.blogspot.com/2010/06/o-espectaculo-do-absurdo.html
O Ensino do Português é um pequeno grande livro recentemente publicado e amplamente divulgado. A sua autora, Maria do Carmo Vieira, professora do Ensino Secundário, incapaz de se submeter ao "Absurdo" patente em muitas das actuais orientações para a educação escolar, apresenta e explora aquelas que mais impacto têm tido na aprendizagem do Português, não deixando de se deter, de modo muito lúcido, nas suas consequências...Desse livro deixamos o seguinte extracto:A “nova concepção de escola” que a reforma, implementada em 2003-2004, impôs, sem que houvesse um debate sério, e após anos de cauteloso e persistente trabalho, realizado pelo seus dinamizadores e apoiantes, é a representação meticulosa do espectáculo do Absurdo, sobre o fundo de cantos sedutores que atraem a Ignorância, para a Inércia e para a Preguiça de pensar, no desprezo pela educação da sensibilidade. Na base de teoria pedagógicas polémicas, já avaliadas e ultrapassadas, mas aceites acriticamente, se foi alicerçando o vício da facilidade, da ausência de reflexão e de criatividade, bem como a crença no êxito imediato e no esforço, em tudo contrário à experiência da própria vida, do saber e da arte.O relato de um episódio que decorreu, no final da década de 80, na minha escola, mostra, com clareza, o raciocínio que iria determinar a imposição do discurso pedagógico hoje em voga. Foram os professores convocados, certo dia, para ouvir um grupo de colegas, destacados pelo Ministério da Educação, os quais na introdução feita, se apresentaram como mensageiros de uma “nova metodologia pedagógica”. Para ser mais explícito nos objectivos, um desses professores interpelou-nos: “Colegas, imaginem que estão numa sala de aula, o dia está radioso e um aluno, depois de olhar lá para fora, sugere que vão para o recreio jogar futebol. O que deveria fazer o professor?”Perante o silêncio, resultante da estranheza, foi o colega que, impaciente, adiantou a resposta “Se eu fosse um professor tradicional, preocupado apenas em adiantar a matéria, contrariaria o aluno, dizendo-lhe que quando tocasse teria tempo de jogar futebol com os colegas. Pelo contrário, se fosse um professor compreensivo e atento aos aspectos pedagógicos aceitaria de bom grado a proposta, convidando a turma a participar nesse convívio tão necessário à aproximação professor-aluno”.De forma muito espontânea pensei em voz alta"mas está tudo maluco", desabafo mal recebido pela falta de educação demonstrada, mas depressa desculpado por vir de alguém “certamente resistente à mudança”, nas palavras de um jovem professor ministerial. Iniciava-se assim a metodologia da facilidade e do lúdico pelo lúdico, bem como a atitude de ignorar o protesto.As escolas que então optaram servilmente pela experimentação dessas inovações pedagógicas, descritas como verdades definitivas e incontornáveis, foram-nas integrando no seu quotidiano, numa aceitação acrítica e alheia às consequências. Nesse processo, pacientemente aguardado pelos seus mentores, que com subtileza o iam orientando, forma surgindo sugestões cuja concretização dependeria da “sensibilidade do professor”, expressão com que se procurou, de forma condescendente, atrair os dissidentes.Referência completa: Vieira, M. C. (2010). O Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 11-12.
June 26 2010, 3:30am | Comments »





