Décima quinta sessão do ciclo O dever de educar, no próximo dia 23 de Junho, pelas 18h15, na Livraria Minerva Coimbra.Dedicamos esta sessão ao dever de educar para a História, que muitos dizem negligenciado, aligeirado ou, mesmo, afastado do ensino actual. Terá razão quem assim opina? Se sim, que razões justificarão este estado? Que consequências advirão para as novas gerações do desconhecimento histórico? E, qual a função social da História no Mundo de hoje?É convidado João Gouveia Monteiro, professor de História da Universidade de Coimbra, Director do Instituto de História e Teoria das Ideias e Director da Imprensa da Universidade de CoimbraLocal: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
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O dever de educar para a História
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June 22 2009, 5:59am | Comments »
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O evangelho segundo Albino Almeida
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Rui Baptista pronuncia-se contra a ideia de escola-armazém, que um "representante" dos pais parece desejar: “A educação consiste em saber dar à criança a quantidade certa de amor” - Sigmund Freud (1856-1939) Em noite de canícula, deparei-me com esta notícia fresquinha da Agência Lusa (20/Junho2009,):“O Conselho Geral da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) fez hoje .um ‘balanço positivo do ano lectivo 2008/2009 e da actual legislatura’, que critica apenas por ‘falha apenas da componente de apoio à família’”.E que falha é essa? Segundo Albino Almeida, presidente da CONFAP, “falhou apenas a componente de apoio à família, relacionada com a organização de espaços para que as crianças possam ficar na escola quando os pais não podem estar com elas”.Sem devaneios de retórica, habituado que estou a este tipo de panegírico de Albino Almeida à política do actual Ministério da Educação, passo ao lado do “balanço positivo do ano lectivo 2008/2009 e da actual legislatura”. Portanto, detenho-me, apenas, na crítica “à falha da componente de apoio à família” feita pelo corifeu e porta-voz da CONFAP relativa à “organização de espaços”.Como escreveu António José Saraiva, uma referência maior da cultura portuguesa, “tudo o que existe tem razão de ser, até o nariz dos humanos se explica pela necessidade de se encarrapitarem lá em cima os óculos”. Mas, no caso em referência, estamos, apenas, em presença de uma mera proposta sem apresentação de soluções, implicando, como tal, algumas perguntas no direito democrático que assiste ao cidadão comum em ser informado e ao dever das instituições em o informar.As informações pedidas são estas: De que espécie de espaços estamos a falar? De espaços do tipo armazém onde se depositam as crianças até o sol se pôr no horizonte? A quem competirá a supervisão desses espaços? Aos professores, depois de um dia recheado de actividades lectivas e trabalho de manga-de-alpaca a preencherem papéis, feitos bábás ou prefeitos de colégio? Ou aos próprios progenitores que, saindo mais cedo dos empregos, possam exercer essas funções em regime de voluntariado ao serviço da comunidade, uma vez abolidas as tertúlias de café dos pais ou as visitas aos centros comerciais das mães?Estamos em presença de um assunto que se agudiza particularmente em nossos dias mas que transcende soluções ocasionais de natureza política, que têm aliás preocupado gerações de cidadãos. Olhando para um passado de mais de um século, julgo ser de interesse a transcrição de um texto de Ramalho Ortigão, escritor muito atento aos problemas educativos do seu tempo. Escreveu ele (“As Farpas” , 1871):“Trata-se da infância. Não nos dirigimos aos políticos. Conversamos honrada e sinceramente contigo, leitor amigo. Leitora honesta. Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se encontra a sociedade portuguesa, a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele”.Em contrapartida, Albino Almeida sugere um Estado educador que se dedique a todas as horas do dia, quase que em exclusividade, à formação das crianças deste país - o cidadão de amanhã. Duas perspectivas diferentes de ver um mesmo problema separadas entre si por mais de um século. Na actual relega-se para a família, não já o “duplo refúgio – do coração e do espírito”, mas o papel de depositar (ou mandar depositar) o filho na escola com o cuidado de não se esquecer de o ir buscar (ou mandar buscar) ao fim do dia ou ao princípio da noite.O optimismo filosófico de Leibniz levou-o a considerar que Deus criou o “melhor dos mundos possíveis”. Mas que razões terá Abílio Almeida para acreditar que o actual sistema educativo português vive no melhor dos mundos com o único senão de “não ter avançado com a componente de apoio à família”? Rui Baptista
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June 21 2009, 6:02pm | Comments »
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Opiniões em ondas hertzianas sobre a entrada no ensino superior
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A habitual opinião sobre educação de Rui Baptista: “A universidade revela todas as capacidades, até as incapacidades” A. Tchekov (1860-1904)Em trânsito citadino, ao fim da manhã do passado dia 16 do corrente, ouvi no rádio do meu automóvel dois testemunhos de que dou conta, com a devida reserva de não terem o selo de garantia de um documento escrito e lido.Em opinião muito discutível, Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais, em holofotes de celebridade pública inerente ao cargo que desempenha, embora nem sempre pelas melhores razões, manifestou-se contra os exames nacionais do 12.º ano. Pela interminável e mesmo inconclusiva discussão de natureza pedagógica que uma opinião deste tipo possa provocar, passo ao segundo testemunho que também ouvi, a cargo de Pedro Lynce, que se manifestou a favor de exames de aptidão para a entrada no ensino superior. Quanto a mim, tratar-se-ia de uma vantajosa medida por colocar os alunos sob uma mesma e mais rigorosa avaliação (ao contrário do que acontece quando se consideram as avaliações de fim de ano lectivo, que diferem entre si em função da maior ou menor exigência dos docentes das escolas públicas ou colégios particulares frequentados, por vezes, num clima de “novíssimas oportunidades”)!“Avant la lettre”, transcrevo sobre este assunto excertos de um meu extenso artigo de opinião - intitulado “Exame de aptidão à Universidade, por que não?”:“Seja a que título for – ainda que para efeitos meramente estatísticos que coloquem Portugal a par dos índices de licenciados dos outros países europeus que levaram décadas a lá chegar num caldear honesto de quantidade “versus” qualidade - , o ensino superior não pode continuar a ser o escoador sem qualquer ralo de todos os indivíduos saídos do ensino secundário, vitimados ou favorecidos por factores que variam de região para região, de cidade para cidade, de vila para vila e de escola para escola com corpos docentes com níveis de exigência abissalmente díspares. Assim, torna-se cada vez mais imperiosa uma correcta e justa avaliação dos candidatos ao exigente ensino universitário oficial a fim de não transformar o respectivo acesso numa farinha de má qualidade para laboração de uma espécie de padaria em que saem fornadas e fornadas de pão de má qualidade.Em tempos idos, havia o exame de aptidão ao ensino superior em que, por exemplo, a entrada do aluno que quisesse ingressar em Medicina ficava a cargo das respectivas faculdades e das exigências por si tidas. Hoje, um aluno que, em primeira escolha, em declarada vocação, senhor de apreciáveis níveis culturais e humanos, mas sem as elevadíssimas classificações que lhe roubam os prazeres de uma juventude saudável e vivida em plenitude, queira ingressar na profissão de Esculápio, apenas por uma décima de valor, encontra como solução de recurso um outro curso universitário ou politécnico para o qual não está minimamente vocacionado” (Público, 05/09/2005).Pouco depois, deparei-me com a análise de António de Sousa Pereira, presidente do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade do Porto, a “um método de seriação incorrecto”. Escreveu ele:[Nem todos os alunos que entram no curso] “correspondem ao padrão que esperamos, dadas as provas que prestaram para entrar, e apresentam altíssimas taxas de insucesso. E, se alguns encontram o seu caminho, outros não, o que deixa a sensação que outros mais vocacionados terão ficado de fora” (Diário de Notícias, 19/09/2005).Por isso, comungo da opinião de Pedro Lynce quando diz que deve competir a cada Universidade seleccionar os alunos que lhe pareça reunir condições para a sua frequência sem estar dependente, unicamente, da classificação do diploma do ensino secundário e do respectivo exame nacional que, por vezes, pouco diz sobre a verdade, ao deturpar a realidade dos factos. Pena é que essa medida não tenha sido implementada por si no exercício dos cargos de secretário de Estado e de ministro da Ciência e do Ensino Superior. Enfim… ”o ter consciência sobre as coisas não me obriga a ter teorias sobre as coisas” (Alberto Caeiro).
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June 20 2009, 8:50pm | Comments »
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Exames e Radicalismos 2
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Segunda parte do texto de António Oliveira sobre exames:Da utilidade dos exames“Ainda entre as razões que habitualmente são enunciadas para justificar os exames, por vezes aponta-se a necessidade de dar credibilidade ao sistema. Mas será que quem a enuncia quer dizer que os professores são competentes para ensinar, mas não o são para avaliar?”Este argumento é incompreensível, pois não se trata de saber se os professores são ou não competentes para avaliar os seus alunos. Alguns professores têm critérios muito exigentes na sua avaliação. Outros são mais permissivos, sem que para tanto se possa dizer que fazem um pior trabalho. Uns dão mais importância a certos aspectos em detrimento de outros. Alguns são mesmo incompetentes, como em qualquer profissão. Em rigor, há muito que os especialistas em docimologia recomendam que haja momentos em que os professores que ensinam não avaliem com fins de classificação, pois o contacto que têm com os alunos durante todo o ano, ou no decorrer dos vários anos, pode enviesar o processo e retirar-lhe objectividade.Por outro lado, é sabido que certas escolas tendem a inflacionar os resultados dos seus alunos, por razões diversas. Desta manta de retalhos de vontades, atitudes e idiossincrasias, obter dados objectivos que permitam estudar correctamente a evolução do Ensino em Portugal e, simultaneamente, seriar com justiça os alunos que concorrem, por exemplo, ao Ensino Superior, parece muito difícil sem exames nacionais. É certo que a seriação não é perfeita, mas esse é o argumento seguinte de LS, como sempre na forma interrogativa sem tomar posição:“Os exames têm por função seriar. Mas até que ponto é que essa seriação permite ter alguma confiança?”De facto, existem muitos estudos do início do século XX que mostram que factores externos ao que se pretende medir podem afectar os resultados dos exames. Há quem conclua que por essa razão devem ser postos de parte. Esta lógica nihilista e radical, que muitos “especialistas” em avaliação defendem, baseia-se uma vez mais num erro de lógica. De facto, a negação da afirmação “Os exames são totalmente fiáveis” não é, como se quer dar a crer, “Os exames não têm qualquer fiabilidade”, mas simplesmente “Os exames não são totalmente fiáveis”. E os defeitos podem ser corrigidos, sendo hoje possível construir exames de uma eficácia arrasadora. Na realidade, ignora-se por completo muito trabalho que foi feito a partir dos anos 20 por especialistas em Ensino e que permite melhorar substancialmente a qualidade dos exames. Desistir dos exames é um pouco como desistir de fabricar e melhorar um dado medicamento por este não se mostrar totalmente eficaz no tratamento de alguns doentes.Do “facilitismo”À pergunta “Algumas associações de professores acusam o Ministério da Educação de produzir provas cada vez mais fáceis. Concorda?”, responde LS:“Para dizermos que são mais fáceis ou mais difíceis, temos de recorrer a técnicas que permitem perceber o grau de dificuldade das questões e elaborar provas que possam ser comparáveis.(…)”Fantástico! Mais uma vez se foge à pergunta. “Temos comparado apenas resultados das provas?”“Exactamente. Na sociedade portuguesa temos esta tentação: se os resultados são maus, diz-se que os alunos não sabem nada; se os resultados melhoram, é porque as provas se tornaram mais fáceis. Com esta lógica não vamos conseguir progredir.”Quem lê LS fica convencido que os comentários das associações de professores são feitos depois de os resultados serem divulgados. Nada mais longe da realidade. Por exemplo, todos os pareceres da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) são redigidos no próprio dia da prova, assim que ela se torna pública. Em 2008, a SPM declarou que o Exame Nacional de Matemática A (12º ano) era anormalmente fácil. Verificou-se a posteriori uma subida da média de 3,5 pontos em 20 relativamente a 2007, atingindo-se o valor recorde de 14 valores. Situação similar aconteceu com o Exame Nacional do 9º ano, em que o número de escolas com média positiva passou de cerca de 200 para mais de 1000. No dia da prova da 2ª fase de Matemática A, a SPM declarou que o nível de dificuldade da prova subiu relativamente à 1ª fase. A média, veio-se a saber, desceu mais de 3 valores, situação inédita se atendermos aos resultados nos últimos anos (as médias das duas fases costumam ser comparáveis). Ou seja, os pareceres das referidas associações de professores têm capacidade de previsão. E a capacidade de previsão é um dos mais importantes critérios que permitem validar uma metodologia científica. A SPM não se limita a comentar resultados: prevê resultados após o estudo técnico das questões.Prossegue LS:“O ano passado foi o primeira vez que em Portugal foram construídas provas que pudessem ser comparadas com as do ano anterior. Nunca tal tinha sido feito.(…)”Nesta curta frase, ficamos a saber duas coisas: que afinal é possível fazer exames fiáveis e que o Ministério da Educação, com o auxílio dos “especialistas” a que habitualmente recorre, não tem feito um trabalho muito sério nos anos anteriores.LS é então confrontada com a pergunta: “Como é que explica então o crescimento das médias a Matemática entre 2006 e 2008?”“É natural que os novos programas de Matemática de 2002 estejam agora a produzir resultados(…) Os exames evoluíram mais depressa do que a própria prática e experiência de aprendizagem dos alunos, mas neste momento o trabalho dos professores e dos alunos está muito mais consonante e é natural que havendo maior coerência entre aquilo que se ensina, aprende e testa haja melhores resultados.”O argumento parece ser o seguinte: os alunos demoraram um pouco a reagir a alterações feitas a partir de 2002. Mas, finalmente, entre 2006 e 2008, alunos e professores “entraram em consonância”, o que explica o salto das médias. Isto é naturalmente falso. Estamos a falar de uma subida de 6 pontos em 20 em dois anos. Só entre 2007 e 2008, a média subiu 3,5 pontos. Não existe nenhum sistema de ensino que possa evoluir a esta velocidade! A única explicação plausível é, obviamente, uma acentuada descida do nível de dificuldade das provas. Aliás, esta descida foi notada por professores e alunos. Como disse acima, vários observadores a denunciaram muito antes dos resultados serem conhecidos.Precisamos de especialistas em Ensino com posições claras, coerentes, ponderadas e sustentadas. Que não se limitem a discursar na forma interrogativa, atacando de forma desastrada os argumentos que vão de encontro às suas ideologias. Que aceitem analisar objectivamente os vários lados das diferentes polémicas, que aliás são (ou deveriam ser) de natureza científica e não ideológica. Precisamos de bons especialistas que não hesitem em dialogar de maneira franca e aberta com cientistas de outras áreas, em particular daquelas áreas leccionadas no Ensino Básico e Secundário. Só assim se podem gerar consensos que possam vir a melhorar o nosso débil sistema de ensino. Com radicalismo doutrinário e impermeável à razão, dificilmente haverá progressos.Filipe Oliveira
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June 20 2009, 4:05pm | Comments »
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Exames e Radicalismos 1
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Texto sobre os exames recebido de Filipe Oliveira, professor do Departamento de Matemática da Universidade Nova de Lisboa. Atendendo à sua extensão dividimo-lo em duas partes:Nos últimos anos temos assistido a formidáveis avanços científicos com relevância para a Educação. É o caso de recentes progressos em áreas tão diversas como a Psicologia, as Ciências Cognitivas ou mesmo a Neurologia: à luz da moderna compreensão dos fenómenos fisiológicos subjacentes aos processos de aprendizagem, velhos dogmas são postos em causa e algumas práticas abusivas são denunciadas. Surgem novas ideias e outras, menos novas, são reabilitadas.Por outro lado, uma grande determinação por parte de alguns governos em resolver os problemas do Ensino levaram a que fosse possível realizar estudos sistemáticos do que se sabe e não se sabe em Educação, identificar pontos fracos e delinear uma estratégia clara para o futuro. Veja-se a este propósito o colossal trabalho do National Mathematics Advisory Panel nomeado pelo Governo dos EUA em 2006. Equipas de dezenas de cientistas passaram a pente fino milhares de publicações, realizaram novas investigações e geraram consensos importantes. As conclusões e recomendações deste painel foram publicadas no documento “Foundations of success – The final report of the National Mathematics Advisory Panel”.Como a última avaliação internacional da FCT parece demonstrar, a grande maioria dos Centros de Investigação em Ciências da Educação portugueses parece não acompanhar estes progressos. Depois de amplamente denunciado, o discurso “eduquês” - caracterizado por um arrevesado discurso pejado de termos obscuros sem significado tangível - tem-se vindo a esbater progressivamente. No seu lugar permanece uma doutrina vaga, fortemente ideológica, opinativa e recheada de falácias e argumentos incongruentes. É o retrato de uma comunidade fechada, auto-referenciada, distante da comunidade científica internacional e sem soluções para o Ensino pré-universitário português. Uma comunidade em que muitos se recusam liminarmente a dialogar com os especialistas das áreas em que se propõem ensinar a ensinar, apesar das suas manifestas fragilidades nesses campos.Exemplo disto é a entrevista dada ao Guia do Estudante por Leonor Santos, professora do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. O artigo descreve-a como uma especialista em avaliação com investigação nessa área há cerca de 20 anos. Vejamos as suas posições:Do estudo e do não-estudoÀ pergunta “Para que servem os exames?” Leonor Santos (LS) responde:“A questão dos exames é uma polémica recorrente e há quem seja a favor e quem seja contra. Para mim, é muito mais importante discutir as razões que são apontadas com maior frequência para justificar a existência de exames.(…)”É um início algo enigmático. Será que LS quer dizer que antes de se tomar uma posição sobre um determinado assunto há que medir os argumentos de um dos lados (o que seria de uma evidência desconcertante se fosse de ambos os lados)? Ou estará a querer dizer que mais importante do que tomar uma posição é discutir os diferentes argumentos envolvidos, à imagem de um médico a quem se pergunta se fumar faz mesmo mal e que responde “Bem mais importante do que dizer se faz mal é discutir por que algumas pessoas pensam que faz bem.”?Sim, de facto, há quem seja a favor e há quem seja contra os exames. Assim como há quem seja a favor ou contra o ensino estruturado, ou a favor ou contra o ensino como transmissão de conhecimentos. Quando surgem opiniões duais deste tipo, a solução não passa por identificar e discutir apenas as razões mais frequentemente apontadas por um dos lados da polémica.LS prossegue, tentando provar que um certo número de argumentos a favor da realização de exames não são tão inquestionáveis quanto se julga:“Parte-se do princípio de que se não houvesse exames os alunos não estudariam. Este argumento só poderá fazer sentido se for aplicado aos alunos que normalmente não estudam, já que não se pode aplicar àqueles que o fazem.”Trata-se, obviamente, de uma falácia que pode ser aplicada a qualquer implicação. Por exemplo, afirmar que “se não existissem despertadores as pessoas não chegariam a horas ao emprego” só fará sentido, no entender de LS, quando aplicada às pessoas que “normalmente” não chegam a horas ao emprego. Da mesma forma, dizer que “se não tivessem asas, os aviões não levantariam voo” só se aplica aos aviões que “normalmente” não levantam voo. De onde se tira a conclusão que não se devem usar despertadores nem os aviões devem ter asas? De facto, esta declaração é totalmente vazia em conteúdo argumentativo e apenas traduz um erro lógico elementar. De qualquer forma, ainda que um número muito limitado de alunos aprenda bem, independentemente de ter de estudar para exames ou não, sabemos que eles estudam mais e, em consequência, aprendem mais, quando existem exames com fins de classificação. Estes podem pois ser um factor importante de aprendizagem.Uma das linhas de investigação mais activas e interessantes da psicologia experimental dedica-se precisamente a medir os efeitos da avaliação sobre a aprendizagem. As conclusões, praticamente consensuais, são que um dos factores fundamentais da retenção das aprendizagens a longo prazo, senão o factor principal, é a avaliação repetida e sistemática. Vejam-se, por exemplo, os trabalhos recentes de Karpick, Roediger et al. publicados na Science (The Critical Importance of Retrieval for Learning, Science 319, 966 (2008) ).LS argumenta de seguida:“Mas para os alunos que realmente não estudam há muita investigação que prova que as aprendizagens feitas de uma forma concentrada nas vésperas dos exames, fazendo noitadas, tendem a perdurar muito pouco no tempo”.Sem dúvida, aqui apenas se diz que o estudo atabalhoado não produz grandes resultados. Penso que seja consensual e é pouco relevante para o assunto em discussão. Em todo o caso não invalida de forma alguma a existência de exames.“Importa então saber se os exames são, ou não, eficazes a pressionar os alunos para estudar.”Exacto, mas LS ainda não se pronunciou. Apesar de ter começado por declarar que se trata de um assunto que lhe parece muito importante discutir. O leitor poderá agora voltar ao início “Há quem seja a favor e há quem seja contra…” e ler a intervenção em loop.Da ética e da equidadeLS ataca de seguida o problema da equidade: “(…)Uma vez que qualquer exame procura medir conhecimentos, pretende-se que o exame coloque todos os alunos em igualdade de circunstâncias.”Pode-se concordar que “qualquer exame procura medir conhecimentos” e pode-se concordar que é desejável que “o exame coloque todos os alunos em igualdade de circunstâncias”. Mas não há aqui relação causal entre as duas proposições. Trata-se da famosa falácia non-sequitur, em que não existe qualquer ligação lógica entre a premissa (o exame procura medir conhecimentos) e a conclusão (pretende-se que o exame coloque todos os alunos em pé de igualdade). Mas enfim, esta introdução serve para LS apresentar o seguinte argumento contra os exames:“Há um conjunto de regras que assenta no pressuposto de que, se conseguirmos criar regras iguais para todos num dado momento, é possível reduzir as diferenças que existiram durante o ano lectivo. Esta ideia de que se cria uma igualdade de situação e que assim conseguimos controlar as diferenças é problemática.”Parece haver aqui uma vez mais uma falácia em torno da ideia de “igualdade de situação”. Confunde-se igualdade à partida, no percurso e à chegada. Um aluno nunca tem as mesmas oportunidades de outro nestes três momentos, pois os alunos são diferentes e as circunstâncias em que vivem também. Uma coisa é trabalhar no sentido de oferecer igualdade de oportunidades à partida para todos. Isso faz-se apostando na formação de professores e na qualidade de programa, currículo e manuais. Outra completamente diferente é tentar garanti-la artificialmente à chegada, fazendo-se tábua-rasa do esforço e do estudo dos alunos mais dedicados durante o ano lectivo. Aparentemente é isto que LS considera “problemático”. É, de facto, problemático, e ainda bem que o é. Já do ponto de vista “ético”:“Do meu ponto de vista coloca-se, desde logo, uma questão ética. Se de facto os alunos tiveram durante o ano lectivo melhores professores, será que estamos a garantir a igualdade de oportunidades ou pelo contrário estamos a reforçar a desigualdade existente até àquele momento?”Insiste-se nesta confusão conceptual em torno da “igualdade de oportunidades”. A igualdade de oportunidades inicial não fica garantida por se banirem os exames. Aparentemente, na opinião de LS, é extremamente perverso alertar os pais, os professores e a Escola de que um grupo de alunos não está a evoluir adequadamente pois a responsabilidade pode não ser deles. O melhor será os referidos professores incompetentes continuarem a acompanhar e avaliar estes alunos sem recurso a exames externos, garantindo-se assim a dita igualdade e ocultando-se da vista de todos o mau funcionamento do sistema.É uma posição radical e insensata. Por esta ordem de ideias em nada poderia haver avaliação por nem todos terem exactamente as mesmas condições. Se calhar, dever-se-ia acabar com os exames de condução, pois há instruendos que tiveram melhores professores do que outros... Continuemos:“Outra crença que existe relativamente aos exames é a de que conseguem medir com algum rigor o conhecimento dos alunos (…)”.Partindo do princípio que se trata de uma “crença” infundada e que os exames não têm qualquer rigor na medição dos conhecimentos dos alunos, dificilmente se entende a razão que leva LS a afirmar que os alunos de melhores professores não estão em pé de igualdade com os restantes quando confrontados com um exame. A verdade é que décadas de investigação em docimologia vieram mostrar que, não sendo os exames infalíveis, são uma razoável medida dos conhecimentos adquiridos. Exames bem feitos têm bastante fiabilidade. Exames perfeitos não existem. Mas será que, por não existirem termómetros perfeitos, deve deixar-se de medir temperaturas?
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June 20 2009, 3:59pm | Comments »
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SOBRE UM OUTRO ERRO NUM EXAME NACIONAL
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Mais um erro é sempre um erro a mais. Com mais atenção podia ter sido evitado. Somos, infelizmente, obrigados a criticar um ministério que continua a permitir erros nos exames (não há meio de aprender!), mas não se deve criticá-lo por o emendar logo que alguém o descobriu. Acho muito bem que um erro, qualquer que ele seja, seja emendado logo que haja consciência dele.
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June 19 2009, 10:55am | Comments »
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SOBRE AS RESULTADOS DE PROVAS DE AFERIÇÃO
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Provas de faz-de-conta só podem ter resultados de faz-de-conta.
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June 19 2009, 10:52am | Comments »
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Memória e barbárie
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Por sugestão de colega deste blogue li o texto de Cristovão Tezza, o qual me sugeriu outro do mesmo autor, cujo por título é Memória e barbárie. Passado quase um século sobre o que John Dewey afirmou acerca da incontornável necessidade de transmitir os valores ocidentais às nova gerações, continua a ser preciso alertar para os perigos da ignorância, como se eles não fossem mais do que evidentes.Escreveu Tezza sobre a ignorância histórica:"Todo mundo que já passou dos 50 costuma brincar com os lapsos de memória, o sinal da passagem do tempo. Mas há outra perda de memória, com a qual não podemos brincar – é a soma de informações históricas e de seus valores morais, éticos e intelectuais, esse conjunto de percepção da realidade que absorvemos pela vida. Numa palavra, a nossa cultura.Somos de forma tão intensa a expressão de uma cultura que talvez muitos imaginem que ela aconteça por geração espontânea; que basta nascer para tudo aquilo que nossos pais aprenderam seja transmitido pelos genes; ou que toda a memória dos acontecimentos que vêm transformando o homem e a natureza desde que o mundo é mundo se transfira por milagre aos recém-nascidos. Se uma grande área da cultura é mesmo absorvida pela simples convivência, há outra área, a da História – e de tudo que se escreveu e deu ao homem moderno a cara que ele tem hoje –, que precisa começar de novo a cada geração. Com relação ao tempo histórico, a condição humana é sempre a de uma tabula rasa – começamos sempre de novo. E a História não é apenas um arrolar neutro de fatos – ela exige uma resposta ética."Depois de contar um caso em que o conhecimento histórico parece estar ausente entre alunos universitários, o escritor, remata:Há muitas explicações psicológicas e sociais, mas vou reforçar apenas uma delas: a profunda ignorância da História de uma geração letrada que parece ter perdido os laços com o próprio tempo. E a sua correspondente anomia moral.
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June 14 2009, 5:06pm | Comments »
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Ordens profissionais, a canção e os cantores
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Recebemos a seguinte resposta de Rui Baptista ao recente post de Luís Aguiar-Conraria: “Tudo seus avessos tem” (Sá de Miranda, 1481-1558).Como Desidério Murcho discorda da criação de uma Ordem dos Professores transcreve o testemunho “de alguém que sabe mais destas coisas que eu [ele] e que também discorda: Luís Aguiar-Conraria”.Em jeito de explicação para a minha presença aqui, mais por devoção do que por obrigação, começo por agradecer a Desidério Murcho a oportunidade que aproveito para apresentar os meus contra-argumentos numa causa pelo qual me tenho batido, não com entusiasmo juvenil, mas com persistência serôdia. Obviamente, estendo o meu agradecimento ao professor Luís Aguiar-Conraria, autor do referido testemunho, pelo exercício a que me obriga em (re)examinar o meu ponto de vista como autor dos “vários posts convidados que defendem a criação de uma ordem dos professores”.Naturalmente, esta é a questão que se deve pôr ab initio. Para que serve uma ordem profissional? Muito resumidamente (Curso de Direito Administrativo, Freitas do Amaral): 1. “Exercício de determinadas funções públicas que em princípio pertenceriam ao Estado”. 2. “Controle de acesso à profissão”. 3. “Poder disciplinar sobre os membros”.Julgo que a adopção destas atribuições no caso da docência evitaria que:1. O ministério da Educação continuasse a ver nos professores uma espécie de escravos gregos, ao serviço dos senhores de Roma (titulares das cúpulas ministeriais), que não são ouvidos nem achados para se pronunciarem sobre assuntos relativos à docência que não digam respeito a questões meramente laborais.2. Alguém se intitulasse professor pelo simples facto de ensinar as primeiras letras ao filho de um amigo analfabeto, a exemplo de alguém que, pelo simples facto de aconselhar um desparasitante para o cão da vizinha, se pudesse achar e, ou ainda, intitular médico veterinário.3. As regras de comportamento regidas por códigos de boa educação fossem suficientes para estabelecer regras de conduta próprias de uma determinada profissão relativamente ao seu múnus: sociedade, escola, colegas, alunos, etc.Numa coisa estamos ambos de acordo. Na reprovação da proliferação de ordens profissionais que faz com que no âmbito da Saúde coexistam a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Enfermeiros de utilidade evidente para a respectiva tutela que pode encontrar, por vezes, apoio numa dessas ordens e, outras vezes, numa outra. Cumpre-me, por outro lado, esclarecer que a Associação Sindical Pró-Ordem dos Professores, como o nome indica, é uma associação sindical cujo logotipo causa confusões por a designação “Ordem dos Professores” aparecer com um tipo de letra maior e mais destacado que “associação sindical”. No que tange aos psicólogos a respectiva Ordem já tem existência legal. Foi criada através da Lei nº 57/2008, de 4 de Setembro de 2008.E porque vem a talhe de foice, estabeleço uma analogia entre o que referi acima sobre toda a gente se achar no direito de ensinar e o desconforto causado em George Miller, doutorado em Psicologia por Harvard, quando conta a sua experiência pessoal: “Hesito um pouco antes de dizer que sou psicólogo, não porque tenha vergonha em ser psicólogo, mas porque sei que, provavelmente, me vou meter numa série de equívocos. Há pessoas que me dizem: ‘Ah, é psicólogo?’ Parece-me que a minha mulher me está a chamar – e vão-se embora. Depois há a reacção oposta: ’Então é psicólogo? Bem, eu também sou um bocado psicólogo!’ - e contam como treinaram o cão para que lhes levasse o jornal a casa”.Mutatis mutandi, o caso não está tanto em a pessoa se intitular professor, mas no exercício da função docente por indivíduos mal preparados, embora com um papelucho com o imprimatur do Estado, responsáveis, em parte, por um país de “analfabetos diplomados” (Francisco de Sousa Tavares). O mesmo sucedia no caso dos arquitectos, antes da criação da respectiva ordem profissional, numa actividade, sem rei nem roque, em que qualquer indivíduo a exercia a seu bel-prazer sem qualquer habilitação específica. Muitas vezes, apenas, por ter um certo jeitinho para o desenho.O caso pessoal apresentado por Luís Aguiar-Conraria pode até configurar uma situação merecedora da razão que assistiu a Sófocles quando escreveu: “Há um ponto em que até a Justiça é injusta”. Mas o facto das ordens profissionais terem defeitos que são do conhecimento público não justifica que a canção seja de todo em todo má. Os maus cantores é que, por vezes, desvirtuam a sua letra quando não cumprem os seus deveres, atendo-se, apenas, aos seus direitos. O facto de um automóvel poder atropelar peões incautos não significa que se diabolize as suas vantagens como meio de transporte.Bem sei, como certamente saberá o meu contraditor, que a temática sobre corporações profissionais (englobando, como tal, os sindicatos) apresenta os seus abrolhos, tendo a virtude de, finalmente, o assunto ser discutido à luz do dia, civilizadamente e sem o véu pesado do anonimato que desresponsabiliza a opinião dos seus autores, muitas vezes, na condição de “gato escondido com o rabo de fora”Finalmente, não resisto em trazer à colação a opinião favorável de um professor, também ele universitário: “Houvesse uma Ordem dos Professores e tudo subiria de nível. Uma Ordem não é um mero sindicato, estreitamente atento a questões materiais. Merecem-na os que, na comunidade portuguesa, cumprem, no duro, a grande missão de educar” (Henrique Barrilaro Ruas).
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June 10 2009, 4:01pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A Ordem dos Professores na ordem do dia
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/ordem-dos-professores-na-ordem-do-dia.html
Novo post de Rui Baptista sobre as ordens profissionais (na imagem, notícia recente do "Diário do Minho" sobre a criação de uma Ordem dos Professores): “O nosso espírito tem a tendência irresistível de considerar como mais clara a ideia que costuma utilizar com frequência” (Henry Bergson).Na sociedade civil portuguesa, influenciada pelo Ministério da Educação e por uma insidiosa campanha sindical, como que se diabolizou a criação de uma Ordem dos Professores. Essa campanha tem atingido inclusivamente algumas franjas da própria classe docente.Numa usurpação de direitos que deviam estar estabelecidos numa profissão de declarado interesse público, a oposição institucional daquela tutela ministerial encontra respaldo no facto de não querer abdicar da pesada e asfixiante tutela que vem exercendo sobre a numerosa classe docente, tornando-a presa fácil e obediente de normativos legais que a atingem na sua dignidade profissional e negando-lhe, assim, a capacidade de ser dona e senhora do seu próprio destino ao invés de outras classes profissionais de idêntico ou, por vezes, até bem menor estatuto académico.Por outro lado, a bem conhecida e assumida publicamente oposição da Fenprof só pode encontrar razão de ser no receio de perder um elevado número de associados que mantém bem lubrificada embora pesada máquina sindical a funcionar com a dispensa de docentes que, numa espécie de profissionalização, se eternizam nas respectivas direcções com sobrecarga para o erário público por onde continuam a ser remunerados.Dois casos recentes (como diz o povo, “nas costas dos outros lemos as nossas”) trouxeram novamente para a ordem do dia as ordens profissionais. O primeiro caso reporta-se à passagem da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas a Ordem por decisão tomada em Conselho de Ministros do passado dia 23 de Abril. Refira-se que a referida Câmara foi criada, salvo erro, dez anos atrás, para regular a profissão dos contabilistas (antigos guarda-livros), a maioria deles, apenas, com o curso das extintas escolas e institutos comerciais. O segundo diz respeito a um debate televisivo na RTP2, promovido pelo Clube dos Jornalistas, na madrugada do passado dia 4 de Junho, em que, a propósito da polémica gerada pela recente entrevista de Manuela Moura Guedes a Marinho Pinto, voltou à baila a criação de uma Ordem dos Jornalistas defendida vigorosamente pelo actual bastonário da Ordem dos Advogados.Mas esta discussão tem-se arrastado no tempo. Corria o ano de 2005 quando, também num programa do Clube de Jornalistas, se assistiu a um debate sobre esta temática entre dois jornalistas e Diana Andriga, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas. Manifestou-se ela contra a criação de uma Ordem dos Jornalistas em oposição frontal às opiniões favoráveis de Octávio Ribeiro, subdirector do Correio da Manhã, e de Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do Público. A favor dessa criação – não posso precisar se nessa ou em outra altura –, estava, outrossim, o antigo director do Diário de Notícias, Bettencourt Resendes.Entretanto, Vital Moreira - em acalorada defesa da existência da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), criada com a publicação do Estatuto do Jornalista, em 13/01/99, uma espécie de longa manus a quem foi atribuída funções do foro de uma ordem profissional – manifestava-se publicamente contra a criação de Ordem dos Jornalistas, ao escrever: “Sempre me manifestei contra a criação de uma ordem profissional [dos jornalistas] – aliás rejeitada num referendo à classe realizado há mais de uma década” (Público, 05/07/2005).Esqueceu-se ele de dizer que o argumento do referendo, por si havido como pachorrenta e idolatrada vaca sagrada dos hindus, tinha sido contraditado, anos antes, por Miguel de Sousa Tavares, jornalista com formação jurídica, quando escreveu: “(…) opus-me no referendo feito à classe sobre a criação de uma Ordem dos Jornalistas. Hoje, revejo a minha posição: é urgente a criação de uma Ordem” (Público, 06/03/98).Salvo melhor opinião, a CCPJ, com competências usualmente atribuídas às ordens profissionais, numa complicada cumplicidade entre patrões e empregados sob a toga da justiça, configura a passagem de um estatuto de incapacidade aos jornalistas por não atribuir essa função por inteiro e em exclusivo a uma profissão com a importante função de informar com a máxima liberdade e responsabilidade sem a assombração do antigo lápis azul da censura do Estado Novo.Em face destes dois exemplos, todos aqueles que, ao serviço de interesses ideológicos institucionais, sindicais ou simplesmente pessoais, persistam em levantar idênticos obstáculos à auto-regulação da profissão docente deverão assumir publicamente o papel de “interesseiros demagogos”, em acusação colhida na obra de Almeida Garrett, intitulada Portugal na balança da Europa, dirigida aos membros da Câmara dos Deputados, “exceptuando alguns pouco dignos e honrados representantes”.
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June 8 2009, 6:05pm | Comments »


