Reiterar nos erros cometidos na educação parece ser a orientação do primeiro-ministro José Sócrates. Apesar de, reconhecidamente, o apoucamento dos professores ter sido uma das causas da sua recente derrota eleitoral, não teve para eles uma palavra de estímulo e confiança.Pelo contrário, quando a entrevistadora da SIC lhe perguntou para que queria nova maioria absoluta escolheu insistir no computador Magalhães (por azar, no mesmo dia em que a empresa que o fabrica era visitada por representantes da justiça para averiguar eventuais fraudes), dizendo que "era um dos melhores meios para melhorar o ensino" (cito de cor). Já que tanto fala em avaliação não poderia mandar avaliar o real impacto do Magalhães no ensino? E o que é que o Magalhães tem a ver com nova maioria absoluta? Será que depois de dar o Magalhães aos pequeninos vai dar o Magalhães aos grandes?
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SÓCRATES: E OUTRA NA FERRADURA
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June 18 2009, 1:53am | Comments »
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O país opinioso
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Numa altura em que a propósito da avaliação das aprendizagens e de outros assuntos educativos, surgem as mais diversas opiniões das mais diversas pessoas, publicamos um texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras.A educação é demasiado intrincada, para muitos, e excessivamente simples, para outros. Os primeiros, desistem de educar, até os próprios filhos, porque é tudo muito complicado hoje em dia, e para evitar complicações maiores mais vale não fazer nada. Os segundos, resolvem todos os problemas com duas penadas porque tudo o que não entendem ou não lhes “cabe” na cabeça, são lérias.Tanto para uns como para outros, a investigação científica é desnecessária na educação. O argumento, muito primário, é uma das modalidades mais persistentes e divulgadas do obscurantismo contemporâneo, mas aqui assumido como moderno, até por muitos intelectuais. O que significa que há ainda hoje imensas formas de anti-cientismo mais ou menos disfarçado, e tanto mais perigoso quanto mais se julga o contrário dele.O facto de haver no mundo investigadores que estudam os problemas educativos com rigor e objectividade não conta, e o ter mais de um século a investigação científica sobre problemas educativos, também não. É claro que educar será actualmente mais difícil e complexo do que noutras épocas, mas é também verdade que dispomos hoje de informações provenientes de várias disciplinas que esclarecem o fenómeno educacional como nunca houve. É certo que nem tudo em educação se pode ir buscar à ciência, que pensamento, cultura, sociedade e religião têm muito a dizer, e que a investigação em educação é muito específica. Mas isto em nada a impede, antes pelo contrário, que, mais não seja, para moderar as ideologias, que tantos prejuízos têm provocado ao ensino. Temos é de articular todos os vectores, tanto os que para a educação concorrem como os que dela derivam, isso sim.Mas não é o que acontece. Não opina sobre educação quem sabe, mas quem julga que sabe.Imaginem um país atacado por uma epidemia qualquer que, para combater o perigo, vai consultar, não os médicos, os biólogos, os químicos, os epidemiologistas e todos os que investigam nas áreas em que se pode encontrar a cura, mas os opiniosos do costume, que andam sempre perto mas nunca acertam, os que falam de tudo e têm sempre soluções eficazes, e os habituais do ecrã sempre prontos para compor o ramalhete televisivo. É provável que, no final, o problema ficasse mais confuso e fossem menores as hipóteses de o atacar com sucesso, ainda que os intervenientes tivessem feito um brilharete e que daí tivesse resultado um bom espectáculo. O que pensaríamos de uma sociedade que considerasse isto correcto?Sem trancar a porta a boas ideias vindas de fora – todas as áreas científicas deixam uma fresta aberta para elas, porque, na verdade, há boas ideias para uma área que vêm de outra ou outras áreas, é tempo de começar a pedir opinião a investigadores da Pedagogia e de diferentes alinhamentos teóricos, quando se trata de problemas educativos.Imagem: http://www.jcp-pt.org/layout/opiniao.jpg
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June 16 2009, 5:51am | Comments »
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Educar
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Re Ver, Re Parar, In Tervir
June 13 2009, 1:57pm | Comments »
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GRANDES ERROS: CITAÇÕES INVENTADAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/grandes-erros-citacoes-inventadas.html
Citações inventadas de grandes personagens são sempre grandes erros. Fui ler a crónica da jornalista Inês Teotónio Pereira sobre educação no jornal "I" (um jornal simpático) do último sábado porque o título era "Citemos Einstein". Terminava desta maneira:"E agora vamos educar esta criança. Mas como? Einstein dizia: "O único sítio onde sucesso aparece antes de trabalho é no dicionário." Então, citemos Einstein."Parece bonito, mas há aqui um pequeno problema. É que Einstein nunca disse isto, sendo uma frase que recorrentemente lhe é atribuída na Internet sem nunca ter sido indicada e verificada a fonte original (não está no dicionário de citações de Einstein mais cuidadoso, "The New Quotable Einstein", de Alice Calaprice, Princeton University Press, 2005)! Não sei de quem e a frase, mas há vários candidatos, pois ela aparece noutras bocas. Como nenhum deles é tão conhecido como Einstein, nada como atribuí-la a Einstein usando um argumento de autoridade...
June 7 2009, 7:12am | Comments »
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“PODEM SAIR”
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Minha crónica no "Público" de hoje, que retoma alguns apontamentos que já aqui deixei neste blogue:Agora que o tempo de exames está a chegar, a pergunta “Para que servem os exames?” foi colocada pelo Guia do Estudante, distribuído com o Expresso de 29 de Maio, à Doutora Leonor Santos, que é apelidada de "uma das maiores especialistas em avaliação das aprendizagens" e apresentada como coordenadora científica do Mestrado em Desenvolvimento Curricular na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.Que resposta dá essa especialista à pergunta? Num estilo socrático (o do pensador grego, não haja confusões), responde com uma outra pergunta: "Os exames têm por função seriar. Mas até que ponto é que essa seriação permite ter alguma confiança?" Conforme o lead resume, a entrevistada "questiona, ponto por ponto, os pressupostos que sustentam a existência de exames, tal como os conhecemos actualmente". Um estudante que consulte o Guia para obter informações sobre os exames e a melhor maneira de os preparar ficará decerto confundido ao ser informado que eles afinal não servem para nada, uma vez que não se pode confiar nos seus resultados. E, se pouca vontade tinha de estudar, fica logo sem nenhuma. Por seu lado, a política ministerial de desvalorizar os exames encontra, vinda de uma autoridade académica, uma sustentação teórica. Imagino que o referido mestrado seja frequentado por técnicos do Ministério da Educação...O leitor benévolo poderá pensar que, embora da autoria de uma académica, se trata de uma opinião frívola de fim-de-semana. Pois nem isso. O jornalista informa-nos que a entrevistada "sentiu necessidade de impor a si própria que jamais trabalharia ao domingo. E, ao sétimo dia, aproveita para jogar golfe e tentar melhorar o seu actual handicap de 22 pancadas." Para que serve o handicap? Serve para fornecer uma seriação dos jogadores conforme o seu desempenho. Essa seriação permite medir o desenvolvimento realizado e proporciona aos jogadores metas a atingir. Fiquei a pensar se o progresso desportivo que a referida professora justamente ambiciona não terá alguma semelhança com o progresso escolar que os alunos, em geral, perseguem. E também se o treino que é absolutamente necessário para melhorar no desporto, salvaguardadas as devidas diferenças, não será comparável com o estudo que é indispensável para passar num exame.O Ministério da Educação, com a maioria do seu pessoal formado por uma cartilha pseudo-pedagógica, dá a ideia de que não sabe para que servem os exames. Não existem verdadeiros exames nos primeiros nove anos de escolaridade uma vez que as chamadas provas de aferição não o são (“aferição” é eduquês puro!). Os exames finais do ensino básico, restritos a duas disciplinas e “bué” de fáceis, podem, mesmo assim, ser substituídos pela via das Novas Oportunidades, com a avaliação limitada a uma “história de vida” e, portanto, de uma banalidade escandalosa. E também os exames no final do secundário podem ser substituídos por provas para maiores de 23 anos de acesso ao ensino superior, onde a fasquia é baixa porque algumas instituições, com a corda na garganta, escancaram as portas com provas que de exame só têm o nome. Que haja alunos que ainda estudem alguma coisa não pode deixar de suscitar a nossa admiração.A herança que a actual equipa do Ministério da Educação vai deixar é bem pesada. O pior de tudo não foi, porém, a continuada desvalorização do conhecimento, e do esforço que é preciso para o adquirir, na ilusão de disfarçar estatísticas que nos envergonham. Foi o apoucamento dos professores, que causou um dano grave na educação que vai levar anos a sarar. Para degradar o papel dos professores o Ministério não se contentou com a Sr.ª D. Margarida Moreira, o Magalhães e a avaliação “simplex”. Também criou o Manual do Aplicador das provas de aferição, que achincalha o corpo docente de uma maneira que ultrapassa o imaginável. Os professores têm de ler aos alunos: “Podem sair”. Como eu compreendo aqueles a quem apetece aplicar essa frase do Manual à equipa que escreveu e divulgou tal documento!
June 5 2009, 1:28am | Comments »
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MAGALHÃES: PRÓS E CONTRAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/magalhaes-pros-e-contras.html
Li recentemente dois depoimentos contrastantes de docentes sobre o computador "Magalhães". Deixo um e deixo o outro, no essencial da sua argumentação:PRÓComputador Magalhães: Um passe de mágicaLuísa Lobão Moniz, Mestre em Educação Intercultural e doutoranda em Ciências de EducaçãoJL Educação, 6-19 Maio 2009"O governo tomou uma medida corajosa e meritória: dar a todas as crianças do 1º ciclo um computador de seu nome Magalhães.Sermos um país atrasado foi rótulo que se nos colou desde décadas. Não mais esse atraso, muito menos o tecnológico.Com o atraso, ou melhor, com a inadequação de certos costumes no seio da família, convivemos um pouco melhor... Ainda não secaram as lágrimas da pancada que levou, mas o Magalhães já está ligado...Longe desta reflexão dizer que quem tão generosamente delineou este plano se sinta confortável com a realidade da violência que todos os dias recai sobre muitas, muitíssimas, das nossas crianças.(...) Mesmo com naus perdidas o estreito ficou vencido e de Magalhães recebeu o seu nome.Cinco séculos passados o Magalhães é nome de mini-computador que irá vencer ventos e marés. Oxalá não caia em nenhuma emboscada como se diz caiu Fernão de Magalhães nas ilhas Filipinas em 1521, oxalá o Oceano Pacífico seja a escolinha que se deseja."CONTRAO MagalhãesMaria da Graça Martins, professora de Matemática do ensino secundário (ESEN Viseu)Gazeta de Matemática, nº 157, Abril 209"Tenho de começar por dizer o que penso da "distribuição" de Magalhães aos meninos do 1º ciclo: um embuste e uma grande bandeira de propaganda.O facto de cada aluno ter em casa um Magalhães não me parece ser uma medida prioritária, que contribua para melhorar o ensino e a aprendizagem neste ciclo.Estamos a falar de meninos com idades entre os 5 e os 10 anos, que depois das aulas não precisam de consultar a Internet para a pesquisa ou elaboração de trabalhos. E, se no 4º ano isso acontecer, esse trabalho terá de (deverá?) ser feito na escola, na presença e com a ajuda do professor.Os meninos com essa idade, depois das aulas, devem brincar e fazer jogos colectivos, e não ficar no quarto a "jogar" com o computador. Isso não significa que na escola do 1º ciclo não deva haver computadores com software interessante para, orientados e ajudados por professores bem preparados, quer na área das TIC quer especialmente na área da Matemática, os alunos trabalharem."
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June 1 2009, 8:16am | Comments »
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PROFESSORES QUE FIZERAM A DIFERENÇA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/professores-que-fizeram-diferenca.html
Depoimento meu sobre "Professores que fizeram a Diferença" que saiu na "Visão" de hoje:"Tive muitos e bons professores, mas o meu melhor professor não foi, para grande pena minha, meu professor. Por isso limitei-me a conhecê-lo através dos livros. Falo de Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química que foi também o poeta António Gedeão. Estou certo de que os meus professores, a quem tanto devo, perdoarão que os homenageie a todos na pessoa de um professor singular."
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May 28 2009, 6:58am | Comments »
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Os Outros Resultados Escolares
http://terrear.blogspot.com/2009/05/os-outros-resultados-escolares.html
A parte final da crónica de hoje de Miguel Santos Guerra: (...)La responsabilidad de cada persona, configurada a través de múltiples influencias y, en definitiva, por la propia libertad, nos hace adoptar hacia los demás una postura de empatía o de rechazo, de ayuda o de perjuicio, de amor o de odio. Cada uno va haciendo cristalizar en su corazón una actitud básica hacia el prójimo. ¿Cómo sería el mundo si todos y todas cultivásemos actitudes de solidaridad, de respeto y de compasión hacia el prójimo? Ante el chico de los libros unos compañeros reaccionan burlándose, humillándolo y despreciándolo y otro le tiende la mano y le ofrece su ayuda y su amistad. ¿Cómo potenciar esas actitudes de respeto y de solidaridad? ¿Cómo desarrollar la empatía? Creo que la respuesta básica a estas cuestiones está en la educación. En la educación entendida no como mera transmisión de conocimientos sino como aprendizaje de los valores. Educación que no sólo tiene lugar en la escuela y en la familia sino que tiene como agentes a todos los miembros de la sociedad. El ejemplo es la forma más bella y más eficaz de enseñanza de los valores. Y también lo es el amor. “Quien ama educa”, reza el título de un libro que acaba de publicar la Editorial Aguilar y cuyo autor es un reconocido psiquiatra, asesor de familias y psicoterapeuta de adolescentes llamado Içami Tiba. El autor habla de un amor generoso, de un amor que enseña, de un amor que exige, de un amor que intercambia y de un amor que recibe. Hay que subrayar, ante la actitud de quienes en nombre del amor sobreprotegen, la necesidad de mantener una consistencia normativa que despierte el sentido de la responsabilidad y que lleve al fortalecimiento de la voluntad, tantas veces olvidada. Me remito al interesante libro de José Antonio Marina, tan certeramente titulado “El misterio de la voluntad perdida”. Y a otro que acaba de publicar el mismo autor y que se titula “La recuperación de la autoridad”. Hay gestos, nacidos de la empatía, que conllevan unas consecuencias de valor incalculable. No siempre se conocen en el momento de realizarse. Es probable que, en ocasiones, no se conozcan nunca. De cualquier manera, la persona que cultiva una actitud de empatía, actúa de forma generosa y desinteresada ayudando a los demás, sin exigir (sin esperar siquiera) una reacción compensatoria. El amor es gratuito.Fonte
May 16 2009, 11:56am | Comments »
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“A amizade pela ciência e pela arte”
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/amizade-pela-ciencia-e-pela-arte.html
O texto As duas culturas, da Sofia Araújo, fez-me lembrar uma belíssima expressão do grande professor, pedagogo, investigador, divulgador de ciência e poeta que foi Rómulo de Carvalho: “ciências e humanidades é tudo a mesma coisa”, afirmou ele.É tudo a mesma coisa, porque tanto as ciências como as humanidades derivam dessa mesma necessidade que temos de conhecer e de manter vivo o conhecimento; é tudo a mesma coisa porque a nossa atitude face ao conhecimento deve ser semelhante em ambas as áreas; é tudo a mesma coisa, porque elas se interligam de forma hamoniosa, uma não encontrando sentido sem a outra.Sobre esta ideia escreveu maravilhosamente Maria do Carmo Vieira, num livro acabado de sair pela mão da Quimera, que tem por título A arte mestra da vida: reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura (páginas 18-20):“Na aventura da palavra ouvida, ou lida, treinamos a imaginação, aprendemos a tocar com os olhos o que nos seduz, alimentamos a sensibilidade para o Belo, nele incluindo a Natureza, recolhemos experiências das situações vividas pelas personagens, estreamo-las na convivência com o mistério, que é preciso desvendar, actos que estimularão a criatividade e ajudarão a despertar a amizade pela ciência e pela arte.O que sente o cientista perante a Natureza senão espanto e encantamento? Observando e folheando esse grandioso livro, estímulo da sua curiosidade, o cientista procura, como salientou Galileu, aprender a entender a língua, e a conhecer os caracteres em que está escrito, no intuito de interpretar com rigor aquilo que parecia impenetrável. Também nós, ouvindo quando crianças as histórias de fadas, desabrochamos para a ciência, valorizando a observação e descobrindo quão misterioso, belo e exuberante é o espectáculo da Natureza.Aprendemos Geografia, acompanhando cavaleiros, príncipes e futuras princesas, e atravessando com eles aldeias e cidades, rios de corrente calma ou turbulenta, montanhas escarpadas, grutas tenebrosas ou planícies infindas, acabando por adormecer ao relento, sob o luar ou uma cúpula de estrelas; ou olhando, também preocupados, o caudal ameaçador do rio que a chuva torrencial engrossou, mas que o barqueiro ousará passar para salvar a princesa; ou ouvindo o uivo arrepiante e cortante do vento norte, que, condoído, se deitará a dormir para não fazer medo à menina, afligida com as tormentosas botas de ferro; ou assistindo, ainda, agradecidos, à bondade da lua cheia que serena a preocupação do cavaleiro perdido, alertando-o para o caminho, tortuoso e cheio de profundos abismos, que terá de percorrer antes do amanhecer. A Botânica surge nas ervas milagrosas que uma fada velhinha vai apanhar a lugar distante, e só dela conhecido, com as quais curará quem encontrar em aflição ou a procurar; também no bosque frondoso e enfeitiçado que é preciso atravessar, em busca de um imponente carvalho milenar que guarda o segredo de um tesouro; como ainda no florir deslumbrante de uma macieira, de cujas flores resultarão belas maçãs, milagrosamente doiradas e com o dom de satisfazer três pedidos. Num esboço de Zoologia, familiarizamo-nos com nomes de pássaros, reconhecendo o canto da cotovia ao amanhecer ou do rouxinol ao chegar a noite, a que se junta o piar de «mau agoiro» da coruja. Marcamos encontro com a Física e a Química, suspirando pela vinda do sol para derreter a neva que prende a perna da formiguinha, que quer «voltar para a sua vidinha», ou que isolou e aprisionou o rei caçador num velho casebre; ou quando presenciamos, também em aflição, o fogo da floresta e desejamos salvar os animais, que fogem assustados e em pânico por causa do fogo asfixiante. Visita-nos a Matemática em alqueires de trigo, arrobas de batatas, dúzias de ovos ou de maçãs mágicas, milhares de moedas de oiro, ou em números mágicos, como o 3, o 7 e o 40. Até a Mitologia nos presenteia a imaginação com monstros que, não existindo, existem e persistem no nosso imaginário: dragões, sereias e bichos-de-sete-cabeças.O Tempo encarregar-se-á de sustentar e fortalecer gradualmente esse sentimento afectivo pela ciência e também pela arte.”
May 8 2009, 5:54pm | Comments »
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AS DUAS CULTURAS
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No dia 7 de Maio de 1959, fez ontem 50 anos, Charles Percy Snow deu a sua histórica palestra Rede na Universidade de Cambridge. Com esta intervenção, cunhou a expressão "As duas culturas", passando-a ao domínio público. Uma cultura era a ciência, representada pelos cientistas e a outra, as humanidades, representada pelos "intelectuais das letras". Snow diagnosticou uma total impossibilidade de estas duas culturas se compreenderem, por não serem capazes de cruzar essa fenda profunda que, culturalmente, as separava.Este diagnóstico cultural tornava-se extremamente claro, segundo Snow, depois do seguinte desafio: "Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei [aos intelectuais das letras] quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria; também foi negativa. No entanto, eu perguntava algo que equivaleria em termos científicos a 'já leu uma obra de Shakespeare'?"Nessa mesma palestra de há já 50 anos, Snow argumentava que esta falta de convergência entre as duas culturas e a inexistência de cientistas em posições de poder, teria consequências desastrosas para a sociedade moderna.Passado meio século, e com a crescente tendência para a especialização do conhecimento, não estaremos cada vez mais a aumentar a profundidade desta fissura? (ver também Literacia científica: à procura do arco-íris)
May 8 2009, 5:32am | Comments »




