Hoje na Assembleia da República, o Secretário de Estado Jorge Pedreira, provavelmente por "lapsus linguae", chamou "coitadinhos" aos professores que não entregaram os objectivos individuais para avaliação. A palavra não terá sido muito bem escolhida pois o Dicionário Houaiss entre os significados de "coitado" dá o de "homem traído pela mulher", significado que é corroborado pela expressão popular "coitado é corno". Esse mesmo sentido da palavra é dado por Eça de Queiroz, no romance "Os Maias", que Jorge Pedreira conhecerá bem até porque é leitura obrigatória nas escolas. Lembre-se o excerto do Eça, um saboroso diálogo entre Ega e Carlos: "— Sabes que o nosso Dâmaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando outra vez do braço de Carlos. E foi um espanto para Carlos. O quê! O nosso Dâmaso! Casado!?... Sim, casado com uma filha dos condes d' Águeda, uma gente arruinada, com um rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o óptimo Dâmaso, verdadeira sorte grande para aquela distinta família, pagava agora os vestidos das mais velhas. — É bonita? — Sim, bonitinha... Faz aí a felicidade de um rapazote simpático, chamado Barroso. — O quê, o Dâmaso, coitado... — Sim, coitado, coitadinho, coitadíssimo... Mas como vês, imensamente ditoso, até tem engordado com a perfídia!"O referido Dicionário dá também para "coitado" os significados de "infeliz, desventurado, inditoso, desditoso". Mas o que é certo é que os almejados já começaram a responder e com uma violência verbal que pede meças à do governante...
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Coitado, coitadinho, coitadíssimo"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/coitado-coitadinho-coitadissimo_25.html
- Tags:
- educação
- literatura
March 25 2009, 4:00pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
MAIS VACUIDADES - MAGALHÃES E NOVAS OPORTUNIDADES
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/mais-vacuidades-magalhaes-e-novas.html
Há pessoas que usam vacuidades tanto para o ataque como para a defesa. Ela já tinha atacado os professores e a língua portuguesa, com vacuidades espantosas. Mas ontem à noite o Magalhães e as Novas Oportunidades foram defendidos numa sessão pública em Matosinhos pela já famosa Directora Regional do Norte, Margarida Moreira, com vacuidades que não ficam atrás das anteriores. Leia-se o "Público on line" :"A directora saiu em defesa do Magalhães, arguindo que se trata de um "excelente computador", referindo, por exemplo, que ele está programado para não deixar os alunos jogar sem antes fazerem os seus trabalhos para casa.(...)Outro elogio foi para a Escola de Segunda Oportunidade que este ano lectivo começou a funcionar em S. Mamede de Infesta, Matosinhos, e que visa acolher jovens que abandonaram os estudos. "Só há duas no mundo e uma delas é em Matosinhos", destacou Margarida Moreira (...) "Os Magalhães, com os quais se quer substituir os professores, qualquer dia vão também substituir os pais... E quanto à Escola de Segunda Oportunidade (proponho a sigla E2O, porque é parecida com EB23) de S. Mamede de Infesta ser uma de apenas duas no mundo, leio os jornais internacionais e verifico que o mundo ainda não sabe. Fico curioso em saber em que parte do mundo ficará a outra.
- Tags:
- educação
March 24 2009, 12:12pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
JÚLIO HENRIQUES, 1894: "A CRISE MEDONHA"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/julio-henriques-1894-crise-medonha.html
Júlio Henriques, o professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra que foi o primeiro a falar de Darwin entre nós, disse isto na abertura solene das aulas em 1894:"Dir-se-á: Não há dinheiro; o país atravessa uma crise medonha e não pode dar mais à Instrução. (…) Com efeito, as obras públicas tomaram um incremento imenso, talvez com uma precipitação que não é para discutir agora. Na ocasião presente todos os nossos recursos estão cativos para muito tempo e, como há vinte anos, respondem-nos: - esperai para quando houver meios…"Henriques, Júlio Augusto - Oração de sapiência recitada na Sala dos Actos Grandes da Universidade de Coimbra no dia 16 de Outubro de 1894. “Annuario da Universidade de Coimbra” (1894-1895) p. XXI.
March 19 2009, 4:34am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O TABERNEIRO CATEDRÁTICO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/o-taberneiro-catedratico.html
Esta pitoresca história vem num trabalho da Lusa divulgado no sítio do "Sol":"As tabernas de Coimbra sempre cultivaram algumas singularidades. Se noutros locais eram espaços de sociabilidade da classe operária, nesta cidade foram ponto de convergência e convívio de 'futricas' e de 'doutores'.Mário Nunes, historiador e vereador da Cultura da Câmara de Coimbra, recorda que um antigo taberneiro de Coimbra, na Rua Adelino Veiga, porventura mercê desse convívio com 'doutores', ousou aventurar-se nas lides académicas e chegou a professor catedrático da Universidade".Eu, que julgava saber como se chega a catedrático, aprendi que há uma outra via: conviver com 'doutores' servindo copos de três (talvez também traçadinhos) em cima de um balcão de zinco. Mas aprendi também outra coisa: que as "novas oportunidades" não são uma invenção de agora!
March 18 2009, 11:34am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O "BIG BANG" DAS LEIS EDUCATIVAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/o-big-bang-das-leis-educativas.html
O "Público" de domingo publicou. com a assinatura de José António Cerejo, uma desenvolvida notícia sobre o trabalho de levantamento e análise de diplomas legais de educação que o Ministério da Educação encomendou a João Pedroso e que este, pelos vistos, não realizou na íntegra (quase se limitou a fotocopiar o "Diário da República"), sendo obrigado a devolver parte do muito dinheiro recebido.Esse esbanjar de dinheiros públicos decerto que me impressionou. Porém, o que mais me impressionou foi o tamanho da verborreia legislativa. Li:"Particularmente volumoso, este índice [de diplomas legais sobre educação], em Excel, ultrapassa as 450 páginas, sendo que mais de dois terços se referem ao período já coberto pelo índice 1986-2007. No período 1820-1900 são listados 29 diplomas, enquanto entre 1900 e 1974 são enumerados perto de 500 e de 1974 a 1986 aparecem cerca de 900."Tal deve querer dizer que em 1986-2007 se publicaram cerca de 2860 diplomas legais sobre matérias educativas, cerca de dois terços do total desde 1820 até 2007. Parafraseando Einstein, há só duas coisas no Universo em expansão acelerada: o próprio Universo e a produção legislativa do Ministério da Educação. Mas quanto à primeira não há a certeza!
March 15 2009, 8:58pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O dever de educar a motivação
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/o-dever-de-educar-motivacao.html
Décima sessão do ciclo O dever de educar, no próximo dia 17 de Março, pelas 18h15, na Livraria Minerva Coimbra.Nas duas sessões anteriores dedicadas à memória e à compreensão foi aflorada uma condição de educação das mesmas: a motivação dos alunos. Será esta condição inata? Pode também educar-se? E, se sim, como poderão os professores interessar os alunos por aquilo que se prentende que aprendam?A convidada é Maria Paula Paixão, psicológa e professora da Universidade de Coimbra, tem-se dedicado ao estudo da motivação e ao desenvolvimento vocacional, investigando as relações que estabelecem com a aprendizagem.Local: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.Próxima sessão: 14 de Abril.As sessões deste ciclo são abertas ao público.
- Tags:
- educação
March 15 2009, 4:43pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Grandes erros: "Curso das Sete Chamas Sagradas"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/grandes-erros-curso-das-sete-chamas.html
Regressa a rubrica dos grandes erros que já aqui foi popular. Recebi a seguinte mensagem da Fundação Casa Índigo, uma organização registada como IPSS pelo Ministério da Educação em 11 de Outubro de 2008, destinada ao "estudo, esclarecimento e desenvolvimento de actividades de apoio a crianças e jovens de todo o tipo e características". O Ministério da Educação saberá o que anda a reconhecer?"Dali 22 Lua Galáctica do FalcãoKin 116 Guerreiro Cristal AmareloCurso das Sete Chamas Sagradas em PortugalÉ um curso teórico e prático, que habilita pessoas comuns a "manipular" o elemento do Fogo Divino através do seu lado positivo. A teoria ensinará como conhecer e entender a espiritualidade e as energias que nos cercam. Com esse conhecimento desaparecem as dúvidas e inseguranças sobre os Mistérios de Deus. A prática ensinará a limpeza pessoal, de pessoas e ambientes, deixando o praticante seguro dos seus actos, e consciente do seu poder de intervenção. As iniciações deixarão a pessoa apta para melhorar a sua vida e a vida de seus semelhantes, estando apto, após a sua conclusão, a exercer um trabalho energético holístico.Este curso não possui nenhum vínculo religioso porque nos conecta directamente com o lado divino da criação. Isso nos concede liberdade, autonomia e confiança. Como não tem vínculo religioso, não interfere na sua crença, pelo contrário, a sua experiência só vai acrescentar uma mais valia à sua vida. Não há necessidade de dons mediúnicos ou pré-requisito."
March 14 2009, 8:01pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A IGNORÂNCIA NA INSTRUÇÃO PÚBLICA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/ignorancia-na-instrucao-publica.html
A inacreditável escrita da Directora Regional do Norte (que, sem nenhuma vergonha, já admitiu ser a autora das cartas que aparecem com o seu nome) e dos autores e revisores dos programas do "Magalhães" (distribuído a esmo e, também sem vergonha, pelo Ministério da Educação pelos inocentes petizes) levaram-me a reler o Eça. Leia-se o que escreve em "Os Maias" sobre a ignorância necessária para se ser funcionário no Ministério da Instrução Pública: "Carlos e Ega foram os derradeiros a sair, depois de um brandy and soda, de que a condessa partilhou, como inglesa forte. E em baixo, no pátio, acabando de abotoar o paletó, Carlos pôde enfim soltar a pergunta que lhe faiscara nos lábios toda a noite: — Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura? Ega olhou-o com espanto: — Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta? — Não sei... Há tanta gente capaz...E o Ega radiante: — Oficial superior de uma grande repartição do Estado! — De qual? — Ora de qual! De qual há-ser?... Da Instrução Pública!"
- Tags:
- educação
- literatura
March 8 2009, 6:53am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O dever de educar a compreensão
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/o-dever-de-educar-compreensao.html
Nona sessão do ciclo O dever de educar, no próximo dia 3 de Março, pelas 18h15, na Livraria Minerva Coimbra.Na sequência da sessão anterior, dedicada à importância da memória na aprendizagem, analisa-se, agora, a importância da compreensão. Num tempo em que os documentos curriculares para os vários níveis de escolaridade se centram nesta dimensão cognitiva, devemos perguntar: Dispomos de conhecimentos científicos que nos permitam perceber como é que ela funciona? E, poderemos organizar o ensino de modo a que os alunos adquiram, de facto, competências de compreensão?A convidada é Maria Isabel Festas, psicóloga e professora de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, tem-se dedicado ao estudo dos processos de compreensão da leitura, investigando entre outros aspectos, as estratégias de ensino que favorecem esses mesmos processos.Local: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.Próxima sessão: 17 de Março.As sessões deste ciclo são quinzenais e estão abertas ao público.
March 1 2009, 3:35pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
AINDA O PORTUGUÊS E AS CIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/ainda-o-portugues-e-as-ciencias-de.html
De João Boavida, professor na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação na Universidade de Coimbra, recebi na sequência do meu post sobre português e ciências de educação, a seguinte "carta aberta", que com o acordo do autor tenho o maior gosto em divulgar:"No que diz respeito à sua crítica, eu estou de acordo consigo em muitas coisas. Considero, claro, que as ciências da educação, como as outras ciências sociais e humanas, só têm a ganhar em publicar mais em inglês, até para serem mais consideradas cá dentro. Embora já haja muita gente que publica em inglês, talvez tenha razão em dizer que percentualmente se publica ainda muito em português. E também ainda em francês e em espanhol, o que, actualmente, e de igual modo, é perda de tempo.Mas talvez valha a pena compreender por que é que há ainda um predomínio de textos em português. É uma hipótese de explicação, que dará para o nosso caso, não dará para outros. E nem sei se é boa, mas aí vai. Quando entrei para a Faculdade, há trinta anos, havia um pequeno grupo de professores que trabalhava na Educação e que tinha a seu cargo a Revista Portuguesa de Pedagogia, que vinha já da Faculdade de Letras, fundada por Emile Planchard. E que vivia, como então viviam as outras revistas universitárias, daquilo que nelas publicavam os seus professores, ou professores de outras faculdades e universidades e alguns convidados estrangeiros. Havia, e sempre houve, uma ligação estreita entre o que os professores investigavam e estudavam e aquilo que iam publicando, até porque era preciso manter um certo nível e regularidade na publicação. Nessa altura não se punha o problema de ser “obrigatório” publicar em inglês, ou não se punha com a actual pertinência. O que se publicava correspondia a investigações feitas, quer para obtenção de graus académicos, (provas de aptidão científica e pedagógica, mestrados, doutoramentos e outros graus), quer em linhas de investigação subsidiadas por diversas instituições. Às vezes eram trabalhos de revisão bibliográfica, outras vezes tinham um carácter teórico, outras ainda reflectiam uma perspectiva psicológica, ou sociológica, ou histórica, mas, e é conveniente realçá-lo, a componente de investigação dos artigos que se publicavam foi sempre crescendo.As coisas evoluíram muito, as instituições ganharam outro ritmo, aos mais antigos, com pós graduações obtidas em universidades estrangeiras, foi-se juntando gente nova, a revista ganhou a regularidade de três números por ano, criou-se um conselho científico internacional, foi alcançando maior divulgação, os trabalhos publicados foram tendo cada vez mais base empírica, como se disse, introduziu-se o anonimato e a dupla avaliação na apreciação dos trabalhos, modernizaram-se as formas de citação e apresentação bibliográfica, tal como a apresentação gráfica geral, introduziram-se os resumos em português, inglês e francês, etc. Enfim a Revista Portuguesa de Pedagogia, como terá acontecido com outras que entretanto foram aparecendo, modernizou-se e ganhou muito maior dimensão científica. E ao contrário do que se possa pensar, foi conseguindo divulgação em Portugal (universidades, escolas superiores de educação, escolas secundárias, etc.) e em Espanha, Brasil e América Latina. É efectivamente um veículo de divulgação e debate de ideias entre professores e estudiosos da educação, sobretudo do ensino superior, e não só em Portugal mas em vários países. E tem ainda publicado números temáticos de muito boa qualidade.As coisas foram-se orientando neste sentido, resultado de uma evolução, de um conjunto de circunstâncias, da necessidade de afirmação de uma certa autonomia científica e cultural, enfim, uma série de razões para que muitos dos nossos trabalhos fossem ali publicados. Por comodidade? Por facilidade? Talvez, mas também por necessidade de manter um bom nível na revista, que sempre foi uma das nossas preocupações, e nunca deixou de se passada pelos crivos da exigência e da crítica. A qual, como muitas vezes acontece, é mais dura para com os da casa do que para com os de fora, estrangeiros sobretudo. A necessidade de publicar em inglês é relativamente recente, entre nós, e até porque as questões educativas em Portugal, em princípio, interessam pouco aos americanos, embora haja muito problemas que são gerais. Nestas condições, a mudança de orientação que nos exigiram não é tão fácil de fazer como se pode pensar e, sobretudo, leva algum tempo, ainda mais se temos tão poucas pessoas, como é o caso, e somos sujeitos a trabalhos e incumbências de toda a ordem e constantemente.Paralelamente, o Centro de Psicopedagogia desenvolvia as suas linhas de investigação e ia organizando, a uma média de dois por ano, congressos, sempre com uma forte participação de especialistas estrangeiros e com temáticas baseadas nas investigações que iam fazendo os seus membros. O que se produziu, já o disse e enumerei e não vou repetir-me, corresponde a muita investigação, individual e de grupo, e a muito trabalho sério e de qualidade; aspectos que as anteriores comissões de avaliação consideraram. E que esta devia ter considerado, até porque as investigações tinham sido aprovadas, financiadas, delas se fizeram sempre relatórios para a FCT, e alguns dos livros publicados tiveram apoio da própria FCT. Como disse, os livros são públicos e todos os podem criticar. Estão aí, integrados numa colecção de qualidade (até gráfica) enriqueceram a bibliografia portuguesa sobre os respectivos temas, e são obras de bom nível científico em qualquer parte. Não vejo que haja aqui endogamia.E não houve endogamia até porque, ao lado destas duas ordens de trabalhos, houve muitas publicações em outras revistas, nacionais e estrangeiras, da responsabilidade e iniciativa dos seus autores, que também podem ser apreciadas. Mas, segundo parece, até nesta vertente a comissão de avaliação dos centros de investigação se enganou nas contas que nos diziam respeito.Como disse, a sua crítica tem alguma razão de ser. Mas, deixe-me que lhe diga, ela sofre de um certo subjectivismo. Certamente que os investigadores em ciências da educação andarão distraídos de alguns temas importantes, ou até de muitos, mas os temas de investigação são, em educação, tantos e tão variados, que é quase inevitável alguns ficarem à espera que alguém os investigue. O exemplo que apresenta é certamente importante, mas há muitos outros. Haverá sempre hipótese de acharmos que um dado tema, de que gostamos, devia ser investigado, e podemos sempre ficar a fazer más ideias porque não encontramos investigações sobre este nosso tema. Penso que problemas idênticos poderão colocar-se noutros domínios.Se se analisarem todas as investigações já feitas, e as que estão em curso, quer para a obtenção de graus de mestrado, por exemplo, quer nas diversas linhas de investigação dos centros, ter-se-á uma visão mais completa do que se anda a fazer em Portugal. Obviamente que sempre a alto nível, mas frequentemente a muito bom nível. Para não irmos mais longe, uma das autoras do De Rerum Natura, a Helena Damião, tem orientado muito bem e com grande rigor científico, investigações de que já resultaram trabalhos de grande qualidade e actualidade, e outros que estão em curso. E não é, obviamente, caso único.Acontece é que, depois, muito do que se descobre, verifica e explica, não tem aplicação porque ninguém, nas escolas e no Ministério, está interessado em aplicar, e se aplica não avalia, nem compara, nem verifica os resultados. Sobre educação todos sabem tudo, e desde sempre. Todos têm ideias seguras, métodos eficazes, remédio para os problemas educativos, mas, como dizia ainda a Helena Damião, a maior parte dos que dão opinião e decidem nunca leu umas linhas sobre uma investigação educacional credível. Que não é, de modo algum, o seu caso, eu sei, mas acontece com muitos. Quanto mais complexo é o assunto mais fácil é dar opiniões e encontrar culpados nos que investigam e estudam a educação, e pior, confundir estes com os que decidem politicamente. Uma coisa me parece segura: mesmo que os obscurantistas mais convictos continuem a dizer mal, a investigação em educação vai continuar a fazer-se. E isto porque o pensamento científico sempre acabou por vencer o obscurantismo. E não é de crer que os mecanismos clarificadores que, mais tarde ou mais cedo, o espírito acaba por fazer funcionar, deixem de actuar neste campo. A não ser que todos os governos do mundo decidam que a educação não merece ser estudada nem investigada, que tentar esclarecer com alguma objectividade estes assuntos não tem interesse nem utilidade.Nada disto me impede de considerar, como já disse, que o Ministro faz bem em promover a competição dos nossos investigadores com os melhores de todas as áreas. E nesta medida os investigadores em ciências da educação terão que competir, não só porque a isso são obrigados mas também porque ainda tem muita gente válida e capaz de o fazer.Continuo, porém, a pensar que, embora devamos competir tentando publicar o mais possível em revistas americanas, há aqui um problema difícil de conciliar. Por um lado, é indispensável internacionalizar, a alto nível, os nossos investigadores e a nossa investigação, por outro, insisto na ideia de que é preciso manter as publicações nacionais, pelo menos a bom nível. E algum valor tem que se atribuir a isto, porque se não é contabilizado o trabalho que se publica em português, dentro de pouco tempo ninguém publicará em português, ou só se publicará o que não presta. Por outro lado, se não se publicar nada de científico em português a língua portuguesa vai perdendo capacidades ou nem as chega a alcançar.É um problema que os sujeitos A ou B, individualmente considerados, poderão achar sem importância, mas que a comunidade, em geral, e o Governo, em particular, deverão considerar. Até porque, em última análise, esta perspectiva acaba por considerar o Ministro da Cultura uma desnecessidade. Pior, um estorvo para a internacionalização. A não ser que se considere que o Ministério da Cultura é exclusivamente um ministério da cultura universal, da cultura pura, abstractamente considerada. Mas isto é difícil saber o que seja, porque todas as culturas e as suas mais altas manifestações estão relacionadas com uma realidade histórica, social, geográfica, em suma, cultural. É sempre numa dada cultura que as suas mais elevadas produções aparecem. A ligação ao contexto é estrutural e funcional e, portanto, é indispensável a valorização e qualificação desse contexto para que as grandes produções apareçam. Se o pudéssemos dispensar, substituir por outro, talvez resolvêssemos melhor este problema, mas, em última análise, por este caminho tudo acabava por perder base e significado. Pelo menos numa perspectiva histórico-evolutiva, cronológica, concreta, que é aquela em que todos vivemos e vamos continuar a viver. Como disse inteligentemente um dos intervenientes neste debate, o assunto não se compadece com uma solução “simples”. E todos os que tomaram posições radicais e agressivas, deviam ter em conta que para as situações difíceis, ou de difícil equilíbrio, é preciso ser subtil.Parece-me, em resumo, que o Ministro da Ciência devia, neste campo, ter jogado em dois tabuleiros. Por um lado, promover a nossa cultura científica ao mais alto nível, por outro, encontrar modos de avaliar o que de melhor se faz em Portugal e em português, contabilizá-lo, dar-lhe créditos. Não o fazendo, a sua política de avaliação levará à morte as publicações científicas em Portugal. E, portanto, o Ministério da Ciência devia sentir-se obrigado a dizer a todas as instituições científicas que publicam em português (revistas, livros, actas, etc.) que não vale a pena continuar a fazê-lo. E que deverão acabar as revistas científicas em Portugal porque não têm qualquer interesse. Até porque os franceses, os espanhóis, os alemães e os italianos, e todos os outros, vão certamente fazer o mesmo. Como as suas línguas deixaram também de ter qualquer cotação científica, já estão todos a bater à porta dos americanos.Continuo, porém, a pensar que a língua e a cultura portuguesa, como as outras, têm o direito a exigir que não lhes enferrujem propositadamente os êmbolos. E isto pela simples razão de que foram feitos para funcionar."João Boavida
March 1 2009, 2:58pm | Comments »


