Dum artigo de opinião, da autoria de Áurea Sampaio publicado na revista Visão no passado dia 9 de Junho, transcrevemos uma passagem incidente na educação escolar e no seu contexto:"Outra linha definidora desta nossa "tragi-comédia" é o que se está a passar no ensino. Como se não bastasse essa outra dimensão do problema, que é o facto de estarmos a desaparecer enquanto povo devido à baixíssima taxa de natalidade, quem nos governa só ajuda a que cada vez mais casais desistam da ideia de ter filhos. Sem urgências nem maternidades e com cada vez menos serviços públicos de proximidade, fora dos centros mais populosos do litoral, as populações vão definhando. Agora, foi anunciado o encerramento de mais de 900 escolas com menos de vinte alunos, quase todas do interior. Eis uma medida que claramente brotou da mente de um daqueles génios incompreendidos que vagueiam pelas alcatifas do poder. Em vez de remeter os génios à procedência e assim contribuir para a poupança, o Governo acolhe estas visões mesquinhas de curto prazo sem pensar no amanhã. E o amanhã é um deserto, porque as pessoas não se resignam ao abandono e ao esquecimento. Agora, já se percebe para que estão a ser construídas tantas auto-estradas: é para todos se virem embora mais depressa."
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A nossa "tragi-comédia"
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June 13 2010, 1:44pm | Comments »
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Os ideólogos são perigosos
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No final dos anos oitenta, o sucesso do filme O clube dos Poetas Mortos, realizado por Peter Weir, despertou o interesse pela pessoa que teria inspirado a personagem do professor. Essa pessoa é Sam Pickering, ex-professor de Tommy Schulman, o argumentista do dito filme.Numa entrevista à World Media, feita por Shoshana Gilbert, e publicada entre nós, em 1993, pelo jornal Público num caderno temático de grande interesse sobre educação, esse professor mostra uma visão, mais do que crítica, politicamente incorrecta relativamente às correntes "pedagógicas" vigentes nos Estados Unidos. Passados quase vinte anos as suas palavras continuam a ter sentido em Portugal, por isso aqui reproduzimos algumas das passagens:World Media: Acha que o objectivo da educação deve ser o dar aos indíviduos um sentido comunitário mais forte?Sam Pickering: Ensino há muito anos, mas não sou capaz de fazer grandes declarações acerca da educação. Estou sempre a ler artigos sobre como a educação molda o adulto, e simplesmente não acredito nisso. Acho que mais educação é melhor do que menos educação, e que se lermos livros, aprendemos coisas que enriquecem a nossa vida. Mas os livros não contêm receitas para viver, não resolvem os problemas do mundo. Se você for um ideólogo, a sua literatura torna-se um meio destinado a um fim. Quando ensino Milton, trago à baila as questões contemporâneas para tentar dar vida à literatura, mas vou servir-me da literatura como um meio para falar das questões contemporâneas. Recomendamos livros para crianças com base no que está mal na sociedade e, por isso, recomendamos livros onde há um bairro com uma pessoa verde, uma pessoa cor-de-laranja, uma pessoa branca e uma preta, mas só os recomendamos às crianças. Ora, se, de facto, estivéssemos convencidos de que eles têm poder para destruir os males da sociedade, recomenda-los-íamos aos adultos. Se uma mulher estivesse envolvida num caso de adultério, dar-lhe-íamos a "Ana Karenina" a ler, mas não fazemos isso, damo-los às crianças.World Media: E o que acha do valor cada vez maior que se dá ao multiculturalismo nas escolas? Pickering: É bom pensarmos que sim, mas, na realidade, não acredito que funcione. O multiculturalismo é muito superficial. Não sei se ele existe e de certaza que não acredito estou convencido de possa ser ensinado (...) temos tendência a falar de banalidades. O que pode realmente aprende, quando a primeira história que você lê é da autoria de WASP (branco protestante de origem anglo-saxónica) do Mississipi, a segunda é de uma índia americana lésbica, a seguinte, é de um Amã sobrevivente do Holocausto e, outra, de um escritor sul-americano? Fartamo-nos de ler histórias e os garotos não se lembram delas. Nem chegam sequer a afectá-los. Todos os anos, em todas as turma, os meus alunos embirram com a matéria sobre os americanos índios, fartam-se daquilo, desprezam-nos, não querem ouvir falar dos índios. Em vez de os tornarmos mais sensíveis, macamo-los.Nunca demos nada sobre os lituanos, os estónios, os ucranianios e, no entanto, temos montes de gente com essas origens.World Media: Mas acha que a educação desempenha algum papel “mais elevado” no progresso da sociedade?Pickering: Falamos muito sobre a educação poder curar a sociedade e sabemos que ela não cura. Eu gostaria que ela tornasse as pessoas mais consciencientes das responsabilidades que têm em relação aos outros, mas creio que não é isso que acontece. Torna os indivíduos conscientes das possibilidades, mas será que os torna melhores? Veja os alemães: eram provavelmente a sociedade mais educada da época, e veja o que eles fizeram, veja para que lhes serviu que utilizaram a educação. É assustador. Temos uma sociedade educada e não sabemos como convertê-la de uma economia em tempo de guerra para uma economia em tempo de paz, sem que as pessoas percam os seus empregos. Estamos a construir submarinos de que não necessitamos para as pessoas não perderem os seus empregos.World Media: Ensinar a ser "politicamente correcto" serve a algum objectivo social?Pickering: Os ideólogos são perigosos. O problema do multiculturalismo é que não se torna multiculturalismo, torna etnocentrismo-se. As pessoas deixam de falar umas com as outras porque ficam nervosas com medo de que a outra pessoa se ofenda. Hoje, quando falamos com alguém de uma raça diferente, a conversa é tão vazia que nunca conversamos sobre as coisas que interessam, pelo receio de ofendermos a pessoa. Costumo dizer à minha turma que até ao fim da aula, vou insultar todos os grupos étnicos e todas as religiões. Na realidade, não faço tal coisa, mas afirmo-lhes isto porque não quero que concordem com o que eu digo. Não me importo que me odeiem, quero que tenham alguém contra quem testarem as suas ideias. Peço-lhes que procurem aprofundar um pouco para além das banalidades. Acho que há muitas outras coisas que são realmente importantes. Um determinado assunto pode ser importante para as classes médias altas, mas não tem nada a ver com os garotos das ruas de Harlem. Temos uma sociedade em que as drogas abundam, a violência abunda, a Sida se propaga, as pessoas estão desempregadas, os miúdos não comem o suficiente.World Media: Há muitas pessoas que pensam que foi precisamente em relação a esses garotos, que vêm de meios desfavorecidos, que a educação fracassou. Que fazer?Pickering: Emprega-se a todo o momento, a palavra crise, há anos que se emprega e eu estou cansado dela, é uma litania do tipo “Perdoa-nos meu Deus, perdoa-nos meu Deus”; sempre que alguém faça de educação e quer obter mais dinheiro, é a palavra-chave, hás empre uma crise. A maior parte das respostas à questão de como educar os alunos desfavorecidos são mero paleio. Estarmos aqui sentados e pontificarmos acerca do que é bom para os bairros pobres seria prova da maior arrogância do mundo. Não sei o que a escolas podem ensinar aos garotos que vivem em bairros em que os amigos deles levam tiros. Não conseguem aprender e eu não tenho nenhum tipo de solução para isso.World Media: Há quem pense que é necessário mudar o modo como se ensina e começar a juntar, na mesma aula, crianças de origens diferentes. Defendem o ensino "colaborativo" e o deixar uma abordagem centrada no professor. Isso é positivo?Pickering: É uma grande frase, soa maravilhosamente conseguirmos pôr pessoas com aptidões diferentes a trabalharem juntas. Mas o meu filho está numa dessas turmas e a verdade é que é excelente para os que não são lá muito bons, mas é terrível para os alunos espertos, sobretudo porque acabam por ser eles a fazerem o trabalho todo. É como no altetismo: ninguém quer ficar com os piores atletas da equipa, mesmo que eles tenham outros talentos. Chegámos a um ponto em que a sociedade não quer fazer de juíz. Mas acho que há muitas maneiras de ser “dotado” e penso que os programas educacionais se deviam concentrar mais em identificar o conjunto de talentos que um aluno pode ter.
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June 13 2010, 11:32am | Comments »
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"TOMA LÁ EDUQUÊS" DE MANUEL ANTÓNIO PINA
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Foi lançado na feira do Livro do Porto o novo livro de crónicas do escritor Manuel António Pina:- "Por Outras Palavras e Mais Crónicas de Jornal", Modo de Lerque reúne muitas das suas bem pensadas e melhor escritas crónicas saídas no "Jornal de Notícias" (JN) e outros jornais.Não resisto a transcrever uma, que saiu no JN a 14 de Junho de 2007 e que se intitula "Toma lá Eduquês":O ex-ministro Marçal Grilo cunhou o termo "eduquês" para caracterizar a langue de bois, ou cassete, usada no Ministério da Educação (ME) e nas chamadas Ciências de Educação, cujo jargão afectado, confuso e obscuro passa por profundidade de "pensamento educativo". Como escreve Nietzsche, as águas profundas são sempre escuras; logo, o obscurecimento da linguagem passa facilmente por profundidade e densidade, mesmo que o que se diz tenha a profundidade da piscina de Charlot nos tempos Modernos.Leia-se o que consta do site do ME sobre o Plano Nacional para a Matemática, agite-se, esprema-se e verifique-se o que fica: trivialidades: Mas, lá que parece "ciência" parece. E da "difícil"...O "eduquês" manda há anos no ME (os ministros vão mudando mas o "eduquês" fica) e a ele fundamentalmente se deve o estado de catástrofe a que chegou a educação em Portugal. Os sucessivos ministros têm sido impotentes para contrariar a situação, reféns, como na série Yes, Minister, de "cientistas" da Educação a quem não é exigível qualquer responsabilidade política. Se a verificação experimental é o critério da verdade de qualquer teoria científica, olhe-se em volta e veja-se no que tem dado a experimentação desta espécie de ciência.
June 10 2010, 8:07am | Comments »
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Em Portugal, avalia-se mal
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Publicado no "Público", um artigo de Nuno Crato (Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática):Temo-lo dito inúmeras vezes: seria bom que o Ministério da Educação promovesse uma avaliação honesta, rigorosa e consistente dos alunos e que desse liberdade aos professores e às escolas para orientarem, responsável e livremente, os processos de ensino. Aparentemente, ninguém o contesta, mas na prática passa-se exactamente o contrário. O Estado controla ao pormenor o ensino público e privado, contrata e coloca centralmente os professores, preocupa-se em normalizar as durações das aulas e dá orientações de pormenor sobre os métodos de ensino. Mas pouco avalia. E, quando avalia, avalia mal.Um exemplo do controlo centralizado seguido pelo Ministério é a forma como estão a ser postos em prática os novos programas de matemática do Ensino Básico. Começou por ser encomendado um simples “reajustamento” dos programas. Mas a equipa que fez esse “reajustamento” passou pouco depois a falar em “novos programas”. E agora, que a anterior ministra homologou as alterações — no meio de críticas gerais, nomeadamente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) —, a equipa ou parte dela está a coordenar uma “formação” centralizada sobre esses programas. Por todo o país são destacados professores que irão formar outros professores. Há reuniões regulares, pedem-se relatórios de implementação e questionam-se os que não convencem devidamente os seus colegas.Imaginar-se-ia que se estaria a explicar por que se insiste mais na Geometria e como se pode introduzir o raciocínio dedutivo. Mas não. Montou-se uma gigantesca operação de conversão dos professores a uma crença pedagógica. O que parece ser central é saber se os formadores dos diversos pontos do país conseguem ou não convencer os seus colegas a adoptar uma antiquada ideologia, que é apresentada como se fosse nova. A preocupação é saber se os professores adoptam ou não a crença de que a máquina de calcular deve ser colocada nas mãos de crianças que ainda não sabem a tabuada, de que a matemática deve ser toda ensinada com base em actividades dispersas, de que dessas actividades surgirá interesse pela matéria e de que é, sobretudo, a partir de “actividades de exploração e de investigação” e de “problemas não rotineiros” que os alunos “constroem o seu conhecimento”.O problema, claro, é que estes exageros são altamente nocivos. Os bons professores sabem há muito que esta crença pedagógica não funciona. Mas os mais novos ficam confusos. Outros fingem acreditar. A realidade é que toda a investigação da psicologia cognitiva moderna tem vindo a revelar o contrário: a aprendizagem deve ser bem estruturada, o ensino directo tem um papel importante e a escola torna-se muito ineficiente se usar predominantemente actividades dispersas, passando a ser difícil, se não impossível, aprender matemática. Os mais prejudicados, como sempre, serão os alunos com mais problemas e sem recursos alternativos. Todos vêm isso, menos os que estão fora das salas de aula e perderam contacto com a realidade.A juntar a tudo isto, recomenda-se uma nova notação para a geometria (felizmente, é apenas uma recomendação!). Mas as alterações de notação e de terminologia apenas devem ser feitas quando isso é indispensável, e devem ser coordenadas de forma a evitar incongruências de ano para ano e de escola para escola. Não é o caso. A dita “nova notação” é tudo menos consensual — e é infantilizadora. Por isso, legitimamente, muitos manuais decidiram não a adoptar. E muitos professores decidiram manter a notação consagrada pela prática. A larga maioria está em desacordo com a mudança.A propagação desta ideologia pedagógica é o resultado de um revoltante abuso de poder. Usurpou-se uma tarefa de reajustamento de conteúdos curriculares, logrou-se uma indiferença do Ministério e aproveitou-se a ocasião para tentar uma propagação autoritária de uma crença ideológica sectária. Além dos problemas éticos, é duvidoso que não haja em tudo isto uma flagrante ilegalidade.O problema seria ultrapassável, embora a prazo e com prejuízo de gerações de estudantes, se o Ministério fizesse o que devia, que é promover a avaliação dos alunos de forma rigorosa, independente e consistente. Se isso fosse feito, rapidamente se veria que estes exageros da antiquada pedagogia romântica conduzem ao desastre.Mas a avaliação foi transformada numa caricatura. Não há exames externos até ao 9.º ano de escolaridade e, mesmo nesse, a nota de exame representa apenas 30% na classificação final. Antes disso, há umas provas ditas de “aferição” que não têm peso nas notas, com excepções das raras escolas em que os professores assim o decidem. Mais grave ainda: essas provas, que antigamente eram feitas por amostragem e de quase nada serviam — sendo apenas usadas por alguns responsáveis para tentar “mostrar” que não vale a pena aprender a fazer contas —, foram transformadas em provas gerais sem serem devidamente adaptadas. Antigamente, poderiam ser normalizadas (“norm-based”), tendo perguntas muito elementares para aferirem o real estado do ensino. Mas, quando foram generalizadas e publicitadas, tornando-se inevitavelmente em provas de referência, deveriam ter alinhado o seu nível de dificuldade com os programas, os manuais e as práticas (“criterion-based”), para poderem solidificar, confirmar, ou mesmo elevar os níveis de exigência da escola. Isso não aconteceu, de forma que se tornaram num instrumento de desmoralização pedagógica, perguntando a alunos de 6.º ano de escolaridade quanto é cinco mais dois ou quanto é oito a dividir por quatro, com recurso à máquina de calcular.No meio de tudo isto, torna-se praticamente impossível avaliar os resultados das práticas lectivas. Como tudo seria diferente se, em vez de controlar processos, o Ministério promovesse a avaliação de resultados! Como tudo seria mais justo se os professores pudessem ajustar com liberdade os métodos que melhor funcionam e se, ao fim dos anos, fosse visto, pelos resultados dos alunos, quais são as melhores maneiras de progredir! Mas não: em Portugal controla-se muito, mas avalia-se mal.Nuno Crato
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June 7 2010, 5:05am | Comments »
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Almada Negreiros e a consciência nacional
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“Uma nação que não valoriza convenientemente a inteligência está condenada” (W.S. Gilbert, 1836-1911). Bem a propósito, um comentário de Vani, ao desassombrado post de Helena Damião, “O triunfo do eduquês – 3”, traz à memória “a conversão de cursos pré-Bolonha em cursos de Bolonha”.Fui daqueles que se bateram até à exaustão, perante a passividade de muitos e o silêncio de quase todos, contra a aberração do grau de licenciado português pós-Bolonha em substituição (ou, pior do que isso, em péssima tradução) da palavra inglesa bachelor. Inúmeros artigos em jornais e outro tantos post's meus aqui publicados o certificam. Acrescenta ainda Vani que o verdadeiro mercado de trabalho se encarregará de fazer a devida depuração entre a boa e a má moeda. Certo! Mas se unicamente essa referência se reportar a empregos no sector privado, porque o mesmo não sucede em concursos estatais para a docência. Actualmente, em concursos para a docência de escolas oficiais do 2.º ciclo do básico, concorrem licenciados universitários a.B, mestres saídos da universidade d.B. e das escolas superiores de educação. Em suma, uma mistura deveras explosivo em que o critério de escolha é a nota do diploma e anos de serviço anterior, como se o aparecimento dos primeiros cabelos brancos fossem sinal de sabedoria e não, como sucede em muitos casos, de velhice mais ou menos precoce. “Mutatis mutandi”, trata-se de um verdadeiro pandemónio em que a medida da passagem, em saltos de canguru, de alunos do 8.º ano do terceiro ciclo do básico para o 10.º ano do secundário é mais uma árvore de artimanhas que esconde uma floresta de injustiças tanto ou mais graves. Repare-se que no caso dos professores do 1.º ciclo do ensino básico o que inicialmente estava determinado como habilitação era uma licenciatura d.B. Logo a acção sindical se fez sentir ao exigir um mestrado d.B. porque, como escreveu Eugénio Lisboa, “para tudo isto os sindicatos têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência” (“JL”, n.º 964, de 12 a 25. Set.2007).Ou seja, estamos perante uma situação em que o Ministério da Educação faz uns tantos disparates por conta própria e outros sob pressão sindical em que os resultados têm sido desastrosos, ou mesmo patéticos, em termos de rendimento escolar, mas verdadeiramente “honrosos” em termos estatísticos para inglês ver e satisfação dos patronos de um princípio que tem feito, nas últimas décadas, carreira neste país: quanto melhor pior.Ora um dos maiores méritos do comentário de Vani está precisamente em pôr o dedo na ferida: o facilitismo com que se formam docentes e discentes misturando tudo num mesmo saco vazio de responsabilidades para que o ministério da Educação (com esta e anteriores tutelas) tire coelhos para espanto de papalvos e gáudio próprio! Mas chegará o tempo em que a voz de Almeida Negreiros despertará a consciência nacional: “Não tenho culpa de ter nascido em Portugal, e exijo uma pátria que me mereça”!Notas:1. a.B (antes de Bolonha): d.B (depois de Bolonha).2. Na imagem, retrato de Almeida Negreiros.
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June 6 2010, 11:44am | Comments »
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Ginástica Sueca versus Ginástica Respiratória (2)
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(CONTINUAÇÃO)Reproduziu Weiss de Oliveira 6 dos 18 preceitos de Tissié com alterações a seu cargo e adicionando novos preceitos que pôs ao serviço da “sua ginástica educativa de formação”, ministrada em três sessões semanais de 10 minutos de duração, que garantiam transformar “um monstro num rapaz perfeito”. Ainda hoje, em nome da verdade, não posso deixar de pensar que o pouco ou o muito da minha encadernação física não se ficou a dever, em nada, nada mesmo, ao Dr. Weiss de Oliveira mas, isso sim, a uma longa prática de muitas dezenas de anos (que ainda mantenho religiosamente) de “muito suor, sangue e lágrimas” de exercícios de musculação com pesos e halteres… Mas, para mim, onde o médico Weiss de Oliveira mais se excedeu em conceitos acientíficos é quando evoca, em defesa da ginástica respiratória, o sudário de Cristo: ”Encontramo-nos assim perante uma coluna rectificada, e tão rectificada que nem a seladura lombar, tão pouco acentuada é, se acusa na imagem impressa no Sudário. Que mais decisivo argumento precisamos nós, os crentes, sobretudo, para estarmos seguros de que o terreno que pisamos tem sido firme?” Desconhecia ele, pelos vistos, que as curvaturas fisiológicas da coluna vertebral são necessárias, numa perspectiva biomecânica, para uma maior flexibilidade da coluna que no caso de ser uma haste direita seria, também, menos amortecedora dos pequenos microtraumatismos da simples marcha diária e da corrida em solo duro e altamente prejudicial nos saltos em que o impacto da queda recai sobre os calcâneos, ainda mesmo que precedido da necessária e ligeira flexão dos membros inferiores. Assume a voz de uma forte contestação a esta corrente preconizada e defendida por Weiss de Oliveira, o tenente-coronel António Leal de Oliveira (já por mim citado) doutorado em Educação Física pela Universidade de Gand (Bélgica) quando afirma ser a ginástica respiratória escolar “passiva, ociosa e indolente”. Indo ao âmago das origens da ginástica respiratória, Leal de Oliveira escreve: ”São os frades brâmanes Joghis e os monges chineses Tao Pé, restos dos primeiros brâmanes indianos, que dão aos movimentos respiratórios isolados um papel fundamental, quase exclusivo, na actividade física individual, conforme a ginástica que criticamos”. Em defesa da ginástica sueca, pilar do sistema de revigoramento físico dos escolares, este mesmo autor traça, em 1931, os seguintes princípios doutrinários:“A Educação Física constitui hoje uma ciência pedagógica de grande complexidade, subsidiária das ciências biológicas – psicologia, anatomia, fisiologia, higiene, da mecânica [hoje apelidada de biomecânica], da moral, da sociologia, etc. Só um curso universitário de grande extensão de estudos pode formar professores competentes e com prestígio necessário para ministrar a educação pelos exercícios físicos nos estabelecimentos de ensino normal, secundário, técnico e superior, e orientar, doutrinária e tecnicamente toda a educação física do povo: sociedades de ginástica e sociedades desportivas. Esse curso, Instituto ou Escola, deverá constituir o centro cultural donde irradiará o movimento orientador e construtivo que fará progredir a ciência da especialidade, por meio de estudos especulativos e práticos de um enorme interesse para a ciência”. No ano anterior tinha sido criada no ensino privado a Escola Superior de Educação Física, na Sociedade de Geografia de Lisboa, que funcionou de 1930 a 1940 tendo por base o método de Ling. Através da persistente acção de Leal de Oliveira foi criado, em 1940, o primeiro estabelecimento oficial de ensino superior de formação de professores de Educação Física, o Instituto Nacional de Educação Física (INEF), actual Faculdade de Motricidade Humana, com a finalidade de “instituir um centro de estudos científicos e da prática racional da Educação”, viveiro de professores que se dedicaram em dar ao método de Ling uma projecção teórico-prática escolar e clubística, com grandes êxitos internacionais, empenhando-se, por outro lado, com o mesmo inegável êxito, na formação de atletas desportivos dos clubes nas modalidades de atletismo, basquete, voleibol, andebol, etc.Em nossos dias, a formação desportiva assentou arraiais de monarca absoluto na formação da juventude portuguesa que frequenta as nossas escolas. É sempre difícil precisar datas, mas eu atrevo-me a balizar a vida do método de Ling, entremeado com a prática desportiva, até finais da década de 60 e princípios da década de 70. Nos ginásios das escolas deparamo-nos, hoje, com espaldares, bancos suecos, traves, bocks, plintos, etc., transformados em verdadeiras peças de museu em prova de ingratidão para com um passado de glória e de bons serviços prestados à formação de toda uma juventude. As mudanças (embora nem sempre para melhor) são justificadas por Roland Barthes quando escreve: “Existe uma erótica do novo, o antigo é sempre suspeito!”
May 31 2010, 5:23pm | Comments »
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Ginástica Sueca versus Ginástica Respiratória (1)
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“Não faço exercício. Se Deus quisesse que eu me curvasse, teria posto diamantes no chão” ( Joan Rivers, comediante e actriz norte-americana). Mal adivinhava eu quando em leda e cultural actividade retirei os olhos do livro que estava a ler dirigindo-os para o ecrã da televisão em que era defendida por uma entrevistada - como quem anuncia uma novidade de muita erudição - a prática de exercícios respiratórios nas longas filas de automóveis como forma diminuir o stress ( “A Ginástica de Fole”, DRN, 29 de Maio p.p.). Essa ocorrência, de certo modo, fortuita obriga-me à publicação de um novo post sobre a polémica gerada pelo “método Weiss de Oilveira” e que eu tive, a par do conceito de Educação Física, como o perigoso destapar de uma caixa de Pandora motivante de comentários de grande fôlego argumentativo, e exigente rigor bibliográfico, por parte do Dr. João Boaventura em confronto com comentários meus menos "oxigenados", apesar de ter feito, em heróica paciência de Job, “ginástica de fole” durante todo um ano lectivo de estáticos exercícios respiratórios em benefício (sei-o agora) de uma possível longevidade, a fazer fé no dito de um anónimo com inegável sentido de humor: “Quando me querem convencer que correr prolonga a vida, lembro-me logo da tartaruga que não corre e vive mais de 150 anos”! A publicação do texto,“A Ginástica de Fole”, teve uma dupla intencionalidade:1. Uma bem séria e em dever de cidadania: alertar os meus concidadãos para os efeitos nefastos para a saúde de uma prática respiratória dentro do automóvel em ponto morto pela inalação de gases tóxicos.2. Outra, pela recordação bem humorada (o próprio título do meu “post” o indicia: “A Ginástica de Fole”) do meu sétimo ano do antigo curso dos liceus quando os meus pulmões eram solicitados para um trabalho de fole durante as aulas de educação física ministradas por um médico fiel a um seu colega esculápio, o Dr. Weiss de Oliveira.Isto é, Weiss de Oliveira, um médico que deturpou, em benefício próprio e glória “científica da sua ginástica respiratória”, o Método de Ling defendido por um outro médico, de nacionalidade francesa, Phillipe Tissié, vice-presidente do Instituto Internacional de Educação, organismo que viria a dar lugar, em 1953, à “Federation Internacional d’ Education Physique” (FIEP) de que se tornaria presidente o português Leal de Oliveira ( 1958- 1970). Weiss de Oliveira, referindo-se, em cínico preito de homenagem, a Phillipe Tissié, dizia ser ele “seu mestre e amigo” (que bem se aplica aqui ao dito popular: “Quem tem amigos destes não precisa de inimigos!”).Daqui eu ter atribuído a paternidade da ginástica respiratória escolar portuguesa a Weiss de Oliveira, como o fizeram diversas personalidades, não desmerecendo o facto de ela, segundo o testemunho na Assembleia Nacional do deputado e médico otorrinolaringologista Moura Relvas, ter sido utilizada anteriormente na reeducação pós-operatória aos adenóides. Seja como for, há que fazer a necessária destrinça entre uma ginástica respiratória escolar e uma ginástica respiratória de recuperação terapêutica. Como se costuma dizer, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.Mas isto são contos largos que justificam virar as páginas de um livro lido da frente para trás, e em que o “método Weiss de Oliveira” fica como que ensanduichado. Assim, corria o ano de 1915 quando o governo português nomeou uma comissão de 12 membros com a finalidade de criar um Regulamento Geral de Educação Física (de aplicação a quartéis e escolas) que foi publicado em 1920 com finalidades, apenas, escolares visando o robustecimento do indivíduo, a formação de cidadãos úteis à pátria dotados de vigor, agilidade, flexibilidade, etc., através de ginástica educativa combinada com jogos educativos e, posteriormente, com a prática desportiva, tendo como inspiração o método sueco.Embora continuando a ter como génese, havida como bastarda, a ginástica sueca, doze anos depois, é dado suporte legislativo à ginástica respiratória pela aprovação do Regulamento de Educação Física dos Liceus (Decreto 21:110/32, de 4 de Abril). Situação logo aproveitado por Weiss de Oliveira que, com o seu declarado fervor religioso, se apossa desta nova corrente doutrinária de Educação Física escolar, em traição a Tissié , alterando 18 preceitos defendidos por si defendidos na qualidade de “apóstolo do método sueco no mundo”, em reconhecimento do próprio Weiss de Oliveira.Um dos argumentos que Weiss de Oliveira evocou em defesa da sua fragilizada dama residia nesta sua declaração: “Educando a respiração combate-se num certo sentido a inclinação para o mal que para o físico veio em consequência do pecado original”. E acrescenta ele ainda, sob o pretexto de que “o que é bom na Suécia não é bom em Portugal”: ”Toda a sessão de ginástica da qual se sai fatigado é uma sessão mal aplicada”. (CONTINUA)
May 31 2010, 5:22pm | Comments »
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RESPOSTA COM ESPERANÇA A QUEM COMENTOU A MINHA HISTÓRIA EM VEZ DE ENFRENTAR COM ARGUMENTOS O QUE EU DISSE SOBRE O EDUQUÊS
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Post recebido de Guilherme Valente, editor da Gradiva, na sequência do anterior:Para José da Silva Lopes e Henrique Medina Carreira, com imensa admiração.Como acredito na inteligência, não consigo imaginar que alguém conscientemente se queira enganar a si próprio. Proponho, por isso, ao comentador que leia e considere, sem preconceitos, com espírito aberto, este meu texto.1. O que incomodou no meu texto anterior não foi a história pessoal a que recorri. O que incomodou foi aquilo que a história me ajudou a transmitir com clareza. Vou repetir: o eduquês quer tornar toda a gente igual, mesmo que para isso tenha de reduzir toda a gente à ignorância e à boçalidade.O que terá doído foi a evidência que referi: a realização desse projecto horroroso e inatingível (por isso delirante) conduziu e conduz inevitavelmente ao nivelamento por baixo, ao facilitismo sempre crescente. Diminui todos os alunos, mas prejudica sobretudo os mais desfavorecidos, as crianças pobres, de famílias pouco instruídas, sem meios ou conhecimentos para procurarem outro ensino, no país ou no estrangeiro. O delírio igualitarista agrava as desigualdades.Note-se que esse projecto, para poder ser realizado, como foi sendo realizado, não podia (nem pode) ser assumido. Se o fosse, depararia, naturalmente, com a oposição geral do Pais. Pelo contrário, tinha de ser disfarçado, no discurso e com os recuos tácticos convenientes, usando o apoio dos idiotas úteis, dos ingénuos e dos oportunistas, matéria-prima que, como se sabe, num país com o grau e a qualidade de instrução do nosso, não falta.E foi por isso, e é por isso, por não poderem assumir tal projecto (que não teriam argumentos para justificar, acrescente-se), que nunca responderam à nossa crítica, fazendo passar a ideia de que não somos especialistas, de que não temos credibilidade para falar dos problemas de educação. Na verdade, como se sabe, embora seja muito esquecido e pouco praticado entre nós, o que vale é a qualidade dos argumentos não o estatuto ou a cara de quem os emite. E o que está em causa discutir, aliás, exige apenas inteligência, cultura geral e sensatez. De qualquer modo não trocaria o meu currículo, de formação académica e profissional, por mil currículos dos «especialistas» do Ministério.(Note-se, de passagem, que para quem impõe o regime das «competências», desvaloriza a cultura letrada, para quem quer acabar com as elites, para quem quis impor a participação de miúdos de dez anos na direcção das escolas, e dos alunos do secundário na elaboração do programa dos cursos e na definirem o modelo da sua avaliação, a contradição é gritante. Na verdade, o que querem, afinal, é uma sociedade igualitária em que sejam eles os únicos… desiguais. Também não é novo na História. )Por outro lado, o facto de hoje, num país da União Europeia, depois da experiência do PREC, tal projecto ser inimaginável, fez com que o eduquês contasse com a distracção ou a indiferença de quase todos nós.Mas se não podia ser assumido «oficialmente» pela nomenclatura do Ministério, a verdade é que os teóricos mais puros e duros do eduquês não resistiram a irem revelando nos seus escritos, mais ou menos explicitamente, esse projecto impensável (ver a antologia organizada por Nuno Crato, O Eduquês em Discurso Directo, Gradiva).E, assim, o projecto pode ser realizado com uma continuidade que nunca qualquer outro programa político teve depois do 25 de Abril, sobrevivendo a todas as mudanças de governo, aos vários ministros da educação, à tragédia gritante, sempre a agravar-se, dos resultados e do abandono escolares, do ambiente insuportável em muitas escolas, à frustração e à desistência de inúmeros professores, à evidência crescente dos seus efeitos devastadores na realidade económica e social do Pais.2. Repetido o que quis afirmar no meu texto, pergunto ao Senhor Eduquês que o comentou (trato-o assim por não saber o seu nome): é verdadeiro o que afirmo ou é falso? Se é falso explique então, a todos nós, claramente, qual é o projecto do eduquês do Ministério. E diga-nos de que outro modo poderemos interpretar os escritos dos representantes puros e duros do eduquês coligidos no livro de Nuno Crato.Aliás, como muito pertinentemente foi referido noutro comentário, quem tem de responder a estas questões é a senhora Ministra da Educação. Tem de dizer claramente ao País de que lado está, o que pensa do eduquês e como vai agir relativamente ao seu domínio total do sistema educativo. Dizer muito claramente, qual é, afinal, o seu projecto, que intenções tem.3. Um mundo de clones é o mundo em que o eduquês gostaria de nos pôr a viver. Com essa nomenclatura iluminada a mandar em nós, claro. Como aconteceu sempre nas tragédias históricas em que a experiência foi tentada.Mas é, felizmente, um mundo impossível. Felizmente, porque para mim não é um mundo desejável. Não quero ser igual a ninguém. «Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí» são versos de José Régio.4. Dito isto, vou tentar mostrar (permita-se-me a especulação um pouco naive a que vou recorrer) que o projecto igualitarista é irrealizável. Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.Assim:a) A primeira condição para realizar a igualdade de todos os seres humanos teria de ser a «construção» de pessoas (pessoas?) geneticamente iguais. O que é uma impossibilidade absoluta. Repare-se, no entanto, que foi esse o projecto do nazismo. Eliminar todos os que não pertencessem a uma suposta raça ariana. Começou pelos judeus e, por meio da esterilização, pelos ciganos e deficientes. E começou sem que quase ninguém imaginasse que poderia tomar conta da Alemanha, sem que fossem levadas a sério as suas primeiras manifestações. Lembram-se do filme Cabaret?b) Mas mesmo que essa impossibilidade fosse realizada, seria necessário muito mais, designadamente: impor a toda a gente a mesma alimentação, obrigar toda a gente a viver no mesmo sítio, a ter os mesmos mesmos vizinhos, os mesmos encontros e desencontros, o mesmo número de irmãos, a mesma longevidade de toda a família (eu perdi o meu pai aos oito anos e sei como isso marcou o meu destino), os mesmos amigos, as mesmas viagens, a mesma namorada, os mesmos livros, os mesmos filmes (é por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros), o mesmo Benfica, a tropeçar as mesmas vezes, a ter ou a não ter os mesmos acidentes, etc., etc., etc. Percebe-se certamente o que caricaturalmente estou a tentar explicar.Leonardo da Vinci teve onze irmãos. Sabe-se o nome de algum deles? Se conseguíssemos fabricar um Einstein geneticamente igual ao original, não conseguiríamos com isso outro Einstein como o que existiu. Percebe-se porquê, não preciso de pormenorizar mais.Uma loucura, um delírio, portanto. Mas sabemos que foi tentado. E sabe-se a dimensão de sofrimento que causaram as experiências de concretização dessa loucura. E lembramo-nos dos nomes dos «demiurgos» que as impuseram. ***À esquerda ou a à direita - o totalitarismo não é de esquerda nem de direita – a explicação remete sempre para a avidez de poder, o ressentimento, a insegurança pessoal (enfim, não quero, nem seria a pessoa indicada para avançar as explicações do totalitarismo, do delírio ou da simples insensatez), rapidamente transformados em cegueira fanática, inevitável escalada de imparável violência, imposta, porventura, pela lógica de ocultação e justificação. Como é possível que alguém ainda se iluda e isso se possa repetir, se esboce, ou simplesmente se deseje? (Valerá a pena ler, a propósito, o pequeno, mas muito interessante, livro de ensaios de Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, Difel.)O problema e o desafio não é tornar todos iguais. O problema e o desafio é o das condições da liberdade para todos.A liberdade não pode existir na imposição de um padrão, numa realidade em que «a obediência a um padrão é a única forma considerada verdadeira de auto-afirmação, onde aquilo a que se dá o nome de liberdade não é a possibilidade de agirmos no interior de um qualquer vazio, por reduzido que seja, reservado à nossa escolha pessoal, sem interferências dos outros». A essência da "liberdade livre" (a expressão feliz é de outro poeta, António Ramos Rosa) está na possibilidade de escolhermos o que queremos ser, porque o desejamos, sem coerção, sem opressão, não absorvidos num grande sistema… inexoravelmente totalitário.O sonho da harmonia universal não será realizável, mas a redução das desigualdades sociais deve ser um objectivo sempre presente, que só pode ser realizado pela educação, oferecida a todos, apoiando mais os mais desfavorecidos, os que tenham maior dificuldade em progredir, uma educação dirigida ao que é distintivo da nossa humanidade: à inteligência, que só pode gerar solidariedade; realizado pela afirmação e a defesa intransigente dos direitos e dos grandes valores humanos; pelo aprofundamento da democracia.Claro que o caminho da liberdade e do progresso não é, como bem sabemos, um caminho sem escolhos. É um caminho de combate, foi para muita gente, um caminho degrandes sofrimentos, de avanços e de recuos, mas chegámos aonde chegámos.Como disse Churchill e vem a propósito lembrar, não se encontrou até hoje melhor solução, apesar das limitações e dos obstáculos que revoltam e é preciso enfrentar e superar. De qualquer modo, o que haverá mais para fazer na vida se não caminhar…Educação, insisto, centrada no que se dirija ao córtice cerebral, o «lugar» onde a matéria se converte em consciência, o reino da intuição e da análise crítica, onde surgem as ideias e a inspiração, a matemática e a música. O córtice que controla a nossa vida consciente. Que distingue a nossa espécie. Cerne da nossa humanidade. Que produziu a civilização. Um ensino centrado no conhecimento, na exigência intelectual e na responsabilidade humana, nas suas várias dimensões.Percebe-se, assim, também, porque são um logro, e humana e socialmente um crime, as «novas» teorias pedagógicas.Sabemos que esta ambição humaníssima tem de ser um combate diário de cidadãos informados e, por isso, com consciência crítica. Construindo a confiança que é condição do progresso pessoal e social. Cidadãos que "aprendam a aprender" (outro slogan mentiroso do eduquês…) da única maneira que há para o conseguir: aprendendo, adquirindo os conhecimentos que contam e lhes permitem pensar criticamente a realidade, conhecimento que transforma, valoriza, a inteligência. Como explicou muito claramente Carl Sagan, parecendo estar a enfrentar o tal slogan absurdo, mas que ouço ser repetido por tanta boa gente que devia compreender o logro: «A informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência». Percebe-se, pois, porque é um crime a desvalorização do conhecimento e dos saberes, a atrofia da memória, estúpida ou perversamente programada, perpretada na escola.É por isso que para mim só há um grande e fundador problema em Portugal: o do baixíssimo nível de instrução dos Portugueses. Resolvido esse, todos os outros se resolverão por acréscimo. É esta a grande dívida pública, monstruosa, endémica, de Portugal. Que em cada dia se está a agravar (ao contrário do que me dizem ter dito no dia 26, na televisão, surpreendentemente para mim, o Professor Marçal Grilo). É este o grande défice cívico de todos nós.E pronto, vou para férias. Felicidades para todos, mesmo para todos.Guilherme Valente
May 28 2010, 5:34am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A PAIXÃO FALHADA PELA EDUCAÇÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/paixao-falhada-pela-educacao.html
Não, não são só os resultados catastróficos do PISA. Estatísticas internacionais reveladas recentemente mostram, sem margem para dúvidas, que a "paixão pela Educação", se existiu, falhou, em todos os níveis de ensino. A análise do economista Álvaro Santos Pereira baseia-se em gráficos muito fáceis de entender. Só alguns especialistas em "eduquês" é que terão dificuldades...Ver aqui.
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May 27 2010, 9:40am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A consola
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/consola.html
Não resistimos a transcrever uma Carta à Directora do jornal "Público" publicada ontem, dia 26 de Maio:"Um destes dias o meu neto Henrique, que tem oito anitos feitos há pouco, deixou a consola que nunca larga e, anormalmente sério, com ar extremamente preocupado, veio perguntar-me: "Ó avô, os países também morrem?"Senti um pequeno baque que com alguma dificuldade consegui disfarçar, fechei lentamente o jornal que ainda não tinha acabado de ler, limpei esmeradamente os óculos que na altura estavam mais que límpidos, pigarreei para limpar a garganta que estava mais que limpa e, para ganhar ainda mais tempo, voltei a pôr demoradamente os óculos ajustando-os muito bem à cara, como se esta, de forma mais que intrigante, tivesse deixado de ser a minha.Para me recompor e ganhar mais uns segundos, respondi-lhe com uma outra pergunta: "Olha lá, por que é que, assim de repente, me fazes uma pergunta dessas?"O Henrique, sem dizer palavra, pegou no jornal e, com o seu dedito, apontou-me uma notícia bem visível cujo título bem gordo dizia assim: "Portugal está muito doente".Quando lhe ia a responder já ele estava outra vez agarrado à consola!Sem nada dizer a ninguém, saí de casa praticamente a correr para comprar uma consola só para mim.Espero que o Henrique não venha tão cedo a saber! "Isolino de Almeida Braga, Portalegre
May 27 2010, 6:21am | Comments »






