Carta de leitor publicada no "Público" de 3 de Agosto, em que ele faz uma curta recensão ao último livro do escritor Miguel Real (saído na Quid Novis):"A actual ministra da educação, Maria de Lurdes R. Rodrigues, deveria ler o livro (bem como toda a gente ligada à área da educação, e não só) da autoria de Miguel Real, enviado há pouco tempo para os escaparates das livrarias do país. Porque nessa obra, e segundo a bitola do autor, é retratada:1 -"Uma mulher seca, que nunca conheceu o amor, de passado trágico e futuro marcado pelo desejo de auto-afirmação;2 - Uma mulher de mentalidade despótica, adversa à espiritualidade dos valores, crente de que a única dimensão do bem reside na sua utilidade social;3 - Uma mulher cuja especialização académica consiste na manipulação de estatísticas, moldando a realidade à medida dos seus interesses;4 - Uma mulher que usa o trabalho, não como forma de realização, mas como modo de exaltação do poder próprio, criando, não o respeito, mas o medo em redor;5 - Uma mulher ensimesmada, arrogante (...) que ama a solidão e despreza os homens;6 - Uma mulher autoritária e severa consigo própria, imune ao princípio da tolerância ;7 - Uma mulher que ambiciona ser ministra. Sê-lo-á?"Quase que consegue, mas não chega a atingir o desiderato devido a um volte-face imprevisível e inimaginável. Ao contrário de Lurdes Rodrigues, que chegou a ser ministra (ainda o é por enquanto) e não terá rigorosamente nada a ver com o romance ficcional de Miguel Real, como é óbvio. A verdade seja dita. Apesar desta irrefragável realidade, no livro de Miguel Real, na página 128, intrigantemente, pode ler-se: "Tenho quatro anos para fazer boa figura, pôr a escola portuguesa na Europa, onde ninguém reprova e todos caminham para um mínimo de cultura geral, mais não é preciso, chega, para o vulgo suburbano basta, a pesquisa na Internet preenche as falhas educativas, gerando uma ilusão de sabedoria para o novo habitante urbano, moldado pelo facilitismo e pela vulgaridade (...), é preciso revolucionar o ensino, dar ao povo o que o povo quer, um nico de cultura, um nico de ciência, umas palavritas de inglês, muita informática, chega, basta, um canalizador ou uma recepcionista de balcão não precisa de mais, é preciso harmonizar o ensino com o povo bárbaro que temos (...) facilitar a vida aos mais novos, empurrando-os para a passagem de ano, todos os anos, criar uma segunda oportunidade aos mais velhos, fazer equivaler a experiência de vida destes aos graus de ensino, basta um dossier com toda a informação, mais uma entrevista, pronto, todo o povo passa a ter o 12.º ano, ficam resolvidos os problemas da formação, acabar com o abandono escolar anulando os programas difíceis, no final dos meus quatro anos as estatísticas na educação têm de ser iguais às da Alemanha (...); a todos farei ver que sem mim o povo não teria o que passará a ter, domínio da informática, conhecimentos de inglês, agilidade mental para se safar na vida, para que precisa o povo de saber os sonetos do Antero ou a prosa do Eça?"...Depois de se ler isto - e muito mais haveria para mostrar -, onde acaba a ficção e começa a realidade? Duma coisa poderemos estar certos, a senhora que é retratada por Miguel Real nada tem a ver com a talentosa e conspícua ministra da Educação do governo patriótico de Portugal..."António Cândido MiguéisLisboa
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A MINISTRA
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August 11 2009, 6:08am | Comments »
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Vamos denunciar.
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Continuação do meu comentário à entrevista que o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais deu ao Correio da Manhã.A uma outra pergunta do jornalista – “A lei prevê também um papel activo dos encarregados de educação...” – respondeu o responsável em causa: "As associações de pais vão monitorar a aplicação da lei. Sabemos que muitas vezes o problema está em complicações impostas pelas direcções regionais e se isso acontecer vamos denunciar."Que poder é este que uma das partes intervenientes no Sistema Educativo se arroga para monitorizar a aplicação duma lei, quando na própria lei se refere explicitamente que será o Ministério da Educação, e não outra entendida, a “garantir o acompanhamento, supervisão e coordenação da educação para saúde e educação sexual nos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, sendo responsável pela produção de relatórios de avaliação periódicos baseados, nomeadamente, em questionários realizados nas escolas”?
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August 9 2009, 8:52am | Comments »
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Os professores não devem saber ensinar tudo
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A propósito do meu texto Uma lei que merecemos!, Fernando Martins, leitor do De Rerum Natura chama à atenção para declarações que Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, deu ontem ao jornal Correio da Manhã.À pergunta do jornalista Bernardo Esteves “Os sindicatos de professores criticam a formação de professores, que está por fazer”, respondeu o referido senhor: “Os sindicatos de professores dizem sempre a mesma coisa. Os professores são pedagogos, por isso devem saber ensinar tudo. E há que fazer protocolos com instituições que têm técnicos para superar a falta de formação.”O senhor Albino Almeida está errado. Profundamente, errado. Explico porquê:1.º - Os professores não são pedagogos, são professores.Pedagogo, na actual acepção da palavra, é alguém tem por tarefa o estudo do ensino e da aprendizagem, bem como das condições em que estas actividades ocorrem. Professor é alguém que tem por tarefa ensinar.Há pedagogos que são professores? Sim, há-os. Há professores que são pedagogos? Sim também os há. Mas, casos desempenhem ambas as tarefas, devem desempenhá-las de modo distinto.2.º - Um pedagogo não sabe ensinar tudo.Um pedagogo pode, até, nem saber ensinar nenhuma área curricular do ensino básico e secundário. Porque para se ensinar uma área curricular é preciso, antes de mais, dominar-se os conteúdos disciplinares em profundidade e, depois saber usar-se com mestria a metodologia/didáctica que ela requer para que os alunos aprendam.3.º - Os professores não devem saber ensinar tudo.Os professores devem saber ensinar a área ou áreas curriculares da sua especialidade. Não se lhes pode exigir que ensinem o que não sabem, nem se lhes pode exigir que estejam sempre em formação para ensinarem mais isto e aquilo, que, como sociedade, nos lembramos de reivindicar. Era este argumento que, no meu entender, os sindicatos deveriam ter afirmado de modo assertivo, nesta como noutras matérias, pois é ele que imprime especificidade e identidade à docência, que a consolida e dignifica.4.º - No caso da educação sexual, é duvidoso que alguém a saiba concretizar.E, é duvidoso porque não há conteúdos estabelecidos e os objectivos definidos na lei são inoperacionais; acresce que os especialistas não se entendem quanto à metodologia/didáctica a que se deve recorrer. Não, o problema não se resolve com a tomada de decisões ao nível da escola, a partir do que, em primeiro lugar, alunos e encarregados de educação consideram certo: a organização e consubstanciação do currículo requer saber e pensamento que vai além das opiniões esporádicas, por muito letradas que sejam as pessoas que as emitem.Em suma, para que as nossas crianças e jovens, desenvolvam as suas capacidades cognitivas, afectivas, morais, motoras, estéticas, com base em conhecimentos, temos, como sociedade, de permitir aos professores que se concentrarem na tarefa de ensino, e não numa multiplicidade de outras tarefas paralelas e que, nessa tarefa de ensino, adquiram e mantenham uma destreza de especialistas.Preocupante é ter sido o representante nacional das Associações de Pais a fazer estas afirmações, pela possibilidade de se poder presumir que todos os pais as corroboram.
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August 9 2009, 8:43am | Comments »
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A educação nas próximas eleições legislativas
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A fim de aumentar a sua difusão e permitir a sua discussão, transcrevemos o artigo de opinião de José Dias Urbano no "Público" de ontem (na figura, a Universidade de Oxford referida no texto):Na edição do PÚBLICO do dia 4 de Julho, em artigo assinado por São José Almeida, lê-se que "José Sócrates pressiona Alegre para que entre nas listas do PS", mas que "Manuel Alegre não deverá ceder aos intentos do líder socialista", "por motivos de coerência política". Lê-se ainda que "há mesmo quem assegure que era preciso José Sócrates alterar substancialmente a orientação política do partido em relação à actual governação e assumir compromissos eleitorais de ruptura clara com políticas como a que foi praticada no Ministério da Educação, mas também em relação a alguns conteúdos do Código do Trabalho, para que Alegre tivesse espaço político para reconsiderar".Por outro lado, "rasgar" as políticas praticadas pelo actual Ministério da Educação é também um dos propósitos anunciados pela dr.ª Manuela Ferreira Leite, se o PSD for chamado a governar após as próximas eleições legislativas.Há, tanto na exigência de Manuel Alegre quanto no propósito de Ferreira Leite, a virtude de reconhecerem a necessidade de alterar radicalmente as políticas de "educação" que têm sido impostas nos ensinos primários e secundários.No reconhecimento desta necessidade vejo, implícita, a condenação do chamado "Processo de Avaliação dos Professores", em que medidas sem coerência interna nem objectivo aparente se têm sucedido a um ritmo alucinante, com "novas versões melhoradas", a corrigir as anteriores que haviam sido apresentadas, como os únicos remédios apropriados para curar a doença educativa. E vejo também, implícito, o reconhecimento público da coragem dos docentes dos ensinos primário e secundário que, apesar das ameaças de que foram alvo, ousaram enfrentar na rua um Governo arrogante, inchado por uma maioria absoluta acidental de deputados que quiseram ou aceitaram transferir para a palma das mãos a energia que deviam usar na análise crítica dos documentos legislativos submetidos à apreciação e decisão da Assembleia da República.Infelizmente, a ênfase que Manuel Alegre e Ferreira Leite dão à mudança das políticas do Ministério da Educação parece conter um apoio tácito às políticas seguidas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (vejo, no portal do Governo, que é assim que se chama agora um ministério que muda de nome sempre que muda o Governo).Segundo a propaganda do Governo, até agora não constestada, a política desse ministério tem sido exemplar. Ora, o muito que de bom se fez no tocante aos níveis de financiamento da investigação científica, em particular ao tomar como prioridade a sua aproximação aos padrões internacionais, não pode esconder o mau entendimento do actual Governo com as universidades.Aliás, esse mau entendimento estende-se a toda a Europa, não é apenas português. Percebe-se que os actuais políticos europeus, que se encontram na situação inédita de terem de administar um grande império de muitos países e variados povos, não gostem do que não podem controlar. Por isso, os actuais políticos não gostam das universidades, que, de sua natureza, são instituições dificilmente controláveis. Este sentimento tem originado uma série de medidas que são inevitavelmente desastrosas, porque ofendem a razão, que é a pedra angular da instituição universitária.A transformação das universidades em "fundações sem fundos" é um exemplo de uma dessas irracionalidades. Sob o pretexto de agilizar a gestão - o mesmo que foi usado para criar outras fundações de má memória -, a transformação das universidades em fundações sem fundos fragiliza-as, porque as obriga a "vir comer à mão" do ministro que ocupa o cargo na ocasião. Mas, infelizmente, há outros exemplos de ofensas irracionais à instituição Universidade.Tal como António Barreto frisou numa recente intervenção televisiva, a tentativa de retirar do seio das universidades "a parte nobre" da investigação científica é um erro que se vai pagar muito caro, e por muitos anos. Isto não significa que não tenham sido criadas grandes unidades de investigação por acção directa do actual ministro da Ciência. Mas obrigar os investigadores a receber o financiamento directamente "da mão" de quem detém a pasta ministerial é uma política que, a médio e longo prazo, tem mais inconvenientes do que virtudes.Um dos maiores desses inconvenientes é o de incutir nos jovens investigadores o espírito de subserviência a quem tem o poder de dar ou de negar o financiamento que necessitam para as suas investigações. A ciência nasceu por oposição aos poderes políticos instituídos, e foi acolhida nas universidades. Uma das maiores virtudes da Universidade é a de ser um espaço de pensamento livre, em que os jovens podem e devem pensar o que ainda não foi pensado. Privar as sociedades hodiernas, que se tornam cada dia mais complexas, destes espaços de reflexão é um erro de grande magnitude que vai atrasar ainda mais o normal desenvolvimento do nosso país.Outro inconveniente da actual política de criar grandes unidades de investigação sob a tutela governamental consiste em ligar indissociavelmente o futuro dessas instituições ao incerto futuro dos políticos que, por mais iluminados que sejam - e o actual ministro José Mariano Gago é, reconhecidamente, altamente inteligente e muito sabedor -, não duram para sempre.Ainda um outro inconveniente da referida política é o de privar as universidades de consideráveis fontes de financiamento. Mas talvez o maior deles todos seja o de privá-las da capacidade de preparar as novas gerações para saberem resolver os problemas que ainda não existem, mas que se lhes vão colocar num futuro incerto, a distância imprevisível.A ideia de que a universidade só serve para resolver os problemas existentes, aqueles que já se encontram perfeitamente identificados, é profundamente errada. É evidente que as universidades também podem servir esse objectivo, mas existem outras escolas mais especificamente a ele devotadas. Ora essas escolas, as dos institutos politécnicos, estão agora também a ser ameaçadas, com o meritório intuito de as melhorar.Pelo que ficou escrito, não percebo como nem Manuel Alegre nem Ferreira Leite deixaram sem uma referência o processo em curso de domesticação e fragilização das universidades, e o papel reservado ao ensino superior politécnico.Tenho vindo, desde há muito tempo, em particular nas páginas deste jornal, mas não só, a pugnar pela reforma da educação em Portugal. Verifico com muita satisfação que já foi tomada em consideração a medida que propus de retirar o poder de decisão no órgão máximo das universidade a uma maioria de pessoas sem as habilitações académicas apropriadas. Mas nunca me passou pela cabeça que se pudesse dar a capacidade de "virar uma universidade do avesso" a um pequeno órgão de circunstância, cuja composição é passível de ser profundamente alterado durante a sua seguinte eleição. Na Universidade de Oxford, para dar apenas um exemplo, isso não é possível sem o aval da Congregação, um órgão constituído por mais de três mil membros qualificados!Reformar não é destruir, é dar nova forma a algo que já existe. As sociedades não se podem apagar do mapa, para se criar, de raiz, uma sociedade nova, segundo padrões pré-estabelecidos. Essa experiência já foi feita e os resultados não aguentaram o teste do tempo. Acresce que, em Portugal, os padrões pré-estabelecidos mudam ao sabor do poder da rua e do previsível efeito que ele poderá ter nas intenções de voto.A educação em Portugal tem de ser reformada, porque não nos está a habilitar para criar a riqueza que desejamos, no mundo de economia global em que vivemos. Com a educação que nos ministram, não sabemos sequer compreender esse mundo, quanto mais compreender o mundo que se está a formar.Os humanos continuam em evolução, mas as máquinas darwinianas não são perfeitas nem funcionam com um propósito de progresso. A relação entre os humanos ainda continua dominada por intuições erradas sobre o mundo físico e sobre o mundo social, adquiridas durante a evolução da espécie. Essas intuições erradas, quando aliadas ao poder da palavra, tornam-nos escravos dos bem-falantes que nos arrastam, submissamente, para situações prejudiciais.Seguir por caminhos errados é particularmente perigoso numa época em que o desenvolvimento científico nos proporcionou a capacidade de intervir nos motores da evolução. Como afirma o famoso académico americano William Calvin - um neurobiólogo que começou por estudar Física, passou para a Fisiologia e acabou finalmente por se dedicar ao estudo das propriedades eléctricas computacionais das redes neuronais, com vista, nomeadamente, a compreender a evolução, o desenvolvimento e a restruturação do cérebro humano -, só a ciência, a ética e as leis podem remediar os referidos "defeitos evolutivos". Mas a ciência, a ética e as leis não são intuitivas, têm de ser aprendidas nas escolas. Nas escolas pré-primárias, primárias e secundárias, sem dúvida; mas também nas escolas terciárias e ao longo da vida.A educação é hoje mais necessária do que em qualquer outra época da história. Há países que são ricos, e outros que são pobres. Isso pouco tem a ver com as respectivas dimensões e recursos naturais próprios, depende mais da forma como as pessoas usam as capacidades cognitivas superiores exclusivas da subespécie Homo sapiens sapiens, que dão pelo nome genérico de inteligência múltipla. Assim, nada nos impede de aprender com os países ricos maneiras de nos tornarmos ricos. Não estamos condenados a ser pobres, mas para sermos ricos temos, uma vez por todas, de deixar de "brincar à educação".
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July 23 2009, 2:44am | Comments »
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Nem tudo o que conta...
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Com a devida vénia, transcrevemos crónica do professor de Medicina João Lobo Antunes publicada no "Semanário Económico" de hoje, onde aborda a questão da relação da matemática com as ciências biomédicas já aqui aflorada por Jorge Buescu:Todos os anos, mal chega o Verão, o país fica suspenso dos resultados dos exames do ensino secundário. O governo (qualquer que ele seja) reza pela confirmação do sucesso das suas políticas e a oposição suspira secretamente pelo desastre. Os examinandos, que incluem alunos e professores, embora por razões diferentes, imploram o milagre. Depois, neste país do “se Deus quiser”, lá vem o inevitável balde de água fria, porque nestas coisas o Criador entende que só merece milagres quem trabalha.Este ano o que sucedeu de realmente novo foram os surpreendentes comentários dos responsáveis do Ministério da Educação aos maus resultados obtidos nos exames de Matemática e Português do 12.º ano, aspergindo culpas pelos jornais, pela Sociedade Portuguesa de Matemática e por “partidos e pessoas com responsabilidades politicas”. O argumento foi que teria sido transmitida aos alunos a impressão de que os exames iriam ser fáceis, o que teve como consequência eles relaxarem em diástole, para usar uma imagem cardiológica. Como consequência, Matemática e Português entraram, solidariamente, em recessão.De facto, como tem sido tantas vezes repetido por Nuno Crato, apontado também como “mau” nesta lamentável “fita” isto é muito grave pela simples razão de ser a matemática um instrumento indispensável à sobrevivência no mundo tecnológico e global em que vivemos. E não falo apenas nas áreas em que a sua aplicação é mais evidente, das engenharias à economia, mas de outras, como a biologia e a medicina, hoje ciências estocásticas e probabilísticas, o que fez a associação americana responsável pela educação médica recomendar recentemente que crescesse a exigência na preparação matemática dos candidatos ao curso médico. Demonstrámos há anos que, curiosamente, a nota de matemática do 12.º ano era, dos vários parâmetros analisados, aquele que tinha melhor valor preditivo quanto ao sucesso escolar subsequente dos alunos de medicina. E, já agora, não resisto citar o que o José Cardoso Pires me escreveu numa carta de Novembro de 1996, a propósito do meu primeiro livro de ensaios: “Por causa de três cadeiras não conclui a licenciatura em Matemáticas: hoje estou arrependido porque com certeza escreveria melhor...”. A Matemática e o Português têm, como se vê, uma insondável ligação.Mais uma vez, nesta enorme trapalhada, a politica veio estragar tudo, porque as notas dos exames se assumiram como o barómetro do sucesso ou insucesso das políticas de educação, um pouco à semelhança das taxas de mortalidade infantil e da esperança de vida na saúde. Simplesmente, em contraste com o que sucede com a saúde, as médias obtidas ou as taxas de reprovação não podem, como mais uma vez se percebeu, serem tomadas como critérios fidedignos, porque oscilam, quer o grau de dificuldade dos exames, quer o rigor na avaliação, embora ainda ninguém tivesse explicado com clareza como se pesam dificuldade e rigor, medidas objectivamente fugidias. Ou será que tudo isto não passa, como se dizia há anos das estatísticas oficiais em Portugal, de uma vaga ideia?Quanto ao fácil e ao difícil, confesso que sou, por formação e método, um partidário feroz da dificuldade, tema que tratei numa “oração de sapiência” chamada “O elogio da dificuldade”. Como alguém já apontou, o que hoje se requer do ensino é muito semelhante ao que a sociedade em geral exige na aquisição de qualquer bem de consumo (automóvel, vídeo ou computador): que seja barato, de boa qualidade e de uso fácil (aquilo que se designa, admitindo que as máquinas têm sentimentos, como “amigo do utilizador”). Assim a vida na escola deveria ser simultaneamente fácil e feliz. Contudo, a missão da escola não é fazer os alunos felizes, mas sim, como descobri há anos, dar-lhe instrumentos para a construção da sua própria felicidade, além de, como citava T.S. Eliott, fornecer-lhes os meios para ganharem honestamente a vida e equipá-los para desempenhar o seu papel como cidadãos plenos numa democracia. Para isso a escola deve desenvolver o necessário equipamento cognitivo e muscular as qualidades indispensáveis para estas tarefas, preparando-os assim para a “luta do mundo”. A minha tese é pois, muito simples: a escola fácil não cumpre a missão de preparar os alunos para a vida difícil. Saul Bellow dizia, creio que no seu derradeiro romance, “You have to be learned to capture modernity in its full complexity and to assess its human cost”.Claro que não interessa a dificuldade gratuita e estúpida, a mudança leviana ao sabor de teorias pedagógicas insensatas, a alteração matreira das regras de avaliação, os currículos obesos, a distância soberba que nega a essência do acto de ensinar (“a troca de um “eros” de confiança recíproca”). A escola difícil, para mim, foi aquela que me ensinou a vencer a indolência, a ignorância e o medo, enquanto me ia preparando para o meu ofício, embora a dificuldade ainda hoje se ri de mim, multiplicando-se como uma hidra de incontáveis cabeças, e tropeço constantemente na minha ignorância. O nivelamento por baixo ou a “diluição” do que é complicado são verdadeiros atentados, cujos destroços se entrevêem nesta pavorosa confusão dos exames, e cujos autores escapam à condenação pública, porque, provavelmente, somos todos, de uma forma ou de outra, cúmplices envergonhados.Mas, em todo o caso, a pergunta aqui fica: será que não há já ninguém que saiba revelar a estas inteligências virgens a extraordinária beleza da Matemática, criação dos homens e dos deuses, ensinar-lhes não a ler mas sim a saber ler e compreender, a escrever de forma clara e persuasiva, e a respeitar o rigor como forma de procurar a verdade?Quanto ao resto, recordo-vos o pensamento que Einstein tinha afixado na parede do seu gabinete em Princeton: “nem tudo o que conta pode ser contado, e nem tudo o que pode ser contado conta”.João Lobo Antunes
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July 17 2009, 7:10pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
SÓCRATES: E OUTRA NA FERRADURA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/socrates-e-outra-na-ferradura.html
Reiterar nos erros cometidos na educação parece ser a orientação do primeiro-ministro José Sócrates. Apesar de, reconhecidamente, o apoucamento dos professores ter sido uma das causas da sua recente derrota eleitoral, não teve para eles uma palavra de estímulo e confiança.Pelo contrário, quando a entrevistadora da SIC lhe perguntou para que queria nova maioria absoluta escolheu insistir no computador Magalhães (por azar, no mesmo dia em que a empresa que o fabrica era visitada por representantes da justiça para averiguar eventuais fraudes), dizendo que "era um dos melhores meios para melhorar o ensino" (cito de cor). Já que tanto fala em avaliação não poderia mandar avaliar o real impacto do Magalhães no ensino? E o que é que o Magalhães tem a ver com nova maioria absoluta? Será que depois de dar o Magalhães aos pequeninos vai dar o Magalhães aos grandes?
June 18 2009, 1:53am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O país opinioso
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/o-pais-opinioso.html
Numa altura em que a propósito da avaliação das aprendizagens e de outros assuntos educativos, surgem as mais diversas opiniões das mais diversas pessoas, publicamos um texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras.A educação é demasiado intrincada, para muitos, e excessivamente simples, para outros. Os primeiros, desistem de educar, até os próprios filhos, porque é tudo muito complicado hoje em dia, e para evitar complicações maiores mais vale não fazer nada. Os segundos, resolvem todos os problemas com duas penadas porque tudo o que não entendem ou não lhes “cabe” na cabeça, são lérias.Tanto para uns como para outros, a investigação científica é desnecessária na educação. O argumento, muito primário, é uma das modalidades mais persistentes e divulgadas do obscurantismo contemporâneo, mas aqui assumido como moderno, até por muitos intelectuais. O que significa que há ainda hoje imensas formas de anti-cientismo mais ou menos disfarçado, e tanto mais perigoso quanto mais se julga o contrário dele.O facto de haver no mundo investigadores que estudam os problemas educativos com rigor e objectividade não conta, e o ter mais de um século a investigação científica sobre problemas educativos, também não. É claro que educar será actualmente mais difícil e complexo do que noutras épocas, mas é também verdade que dispomos hoje de informações provenientes de várias disciplinas que esclarecem o fenómeno educacional como nunca houve. É certo que nem tudo em educação se pode ir buscar à ciência, que pensamento, cultura, sociedade e religião têm muito a dizer, e que a investigação em educação é muito específica. Mas isto em nada a impede, antes pelo contrário, que, mais não seja, para moderar as ideologias, que tantos prejuízos têm provocado ao ensino. Temos é de articular todos os vectores, tanto os que para a educação concorrem como os que dela derivam, isso sim.Mas não é o que acontece. Não opina sobre educação quem sabe, mas quem julga que sabe.Imaginem um país atacado por uma epidemia qualquer que, para combater o perigo, vai consultar, não os médicos, os biólogos, os químicos, os epidemiologistas e todos os que investigam nas áreas em que se pode encontrar a cura, mas os opiniosos do costume, que andam sempre perto mas nunca acertam, os que falam de tudo e têm sempre soluções eficazes, e os habituais do ecrã sempre prontos para compor o ramalhete televisivo. É provável que, no final, o problema ficasse mais confuso e fossem menores as hipóteses de o atacar com sucesso, ainda que os intervenientes tivessem feito um brilharete e que daí tivesse resultado um bom espectáculo. O que pensaríamos de uma sociedade que considerasse isto correcto?Sem trancar a porta a boas ideias vindas de fora – todas as áreas científicas deixam uma fresta aberta para elas, porque, na verdade, há boas ideias para uma área que vêm de outra ou outras áreas, é tempo de começar a pedir opinião a investigadores da Pedagogia e de diferentes alinhamentos teóricos, quando se trata de problemas educativos.Imagem: http://www.jcp-pt.org/layout/opiniao.jpg
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June 16 2009, 5:51am | Comments »
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Educar
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Re Ver, Re Parar, In Tervir
June 13 2009, 1:57pm | Comments »
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GRANDES ERROS: CITAÇÕES INVENTADAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/grandes-erros-citacoes-inventadas.html
Citações inventadas de grandes personagens são sempre grandes erros. Fui ler a crónica da jornalista Inês Teotónio Pereira sobre educação no jornal "I" (um jornal simpático) do último sábado porque o título era "Citemos Einstein". Terminava desta maneira:"E agora vamos educar esta criança. Mas como? Einstein dizia: "O único sítio onde sucesso aparece antes de trabalho é no dicionário." Então, citemos Einstein."Parece bonito, mas há aqui um pequeno problema. É que Einstein nunca disse isto, sendo uma frase que recorrentemente lhe é atribuída na Internet sem nunca ter sido indicada e verificada a fonte original (não está no dicionário de citações de Einstein mais cuidadoso, "The New Quotable Einstein", de Alice Calaprice, Princeton University Press, 2005)! Não sei de quem e a frase, mas há vários candidatos, pois ela aparece noutras bocas. Como nenhum deles é tão conhecido como Einstein, nada como atribuí-la a Einstein usando um argumento de autoridade...
June 7 2009, 7:12am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“PODEM SAIR”
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/podem-sair.html
Minha crónica no "Público" de hoje, que retoma alguns apontamentos que já aqui deixei neste blogue:Agora que o tempo de exames está a chegar, a pergunta “Para que servem os exames?” foi colocada pelo Guia do Estudante, distribuído com o Expresso de 29 de Maio, à Doutora Leonor Santos, que é apelidada de "uma das maiores especialistas em avaliação das aprendizagens" e apresentada como coordenadora científica do Mestrado em Desenvolvimento Curricular na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.Que resposta dá essa especialista à pergunta? Num estilo socrático (o do pensador grego, não haja confusões), responde com uma outra pergunta: "Os exames têm por função seriar. Mas até que ponto é que essa seriação permite ter alguma confiança?" Conforme o lead resume, a entrevistada "questiona, ponto por ponto, os pressupostos que sustentam a existência de exames, tal como os conhecemos actualmente". Um estudante que consulte o Guia para obter informações sobre os exames e a melhor maneira de os preparar ficará decerto confundido ao ser informado que eles afinal não servem para nada, uma vez que não se pode confiar nos seus resultados. E, se pouca vontade tinha de estudar, fica logo sem nenhuma. Por seu lado, a política ministerial de desvalorizar os exames encontra, vinda de uma autoridade académica, uma sustentação teórica. Imagino que o referido mestrado seja frequentado por técnicos do Ministério da Educação...O leitor benévolo poderá pensar que, embora da autoria de uma académica, se trata de uma opinião frívola de fim-de-semana. Pois nem isso. O jornalista informa-nos que a entrevistada "sentiu necessidade de impor a si própria que jamais trabalharia ao domingo. E, ao sétimo dia, aproveita para jogar golfe e tentar melhorar o seu actual handicap de 22 pancadas." Para que serve o handicap? Serve para fornecer uma seriação dos jogadores conforme o seu desempenho. Essa seriação permite medir o desenvolvimento realizado e proporciona aos jogadores metas a atingir. Fiquei a pensar se o progresso desportivo que a referida professora justamente ambiciona não terá alguma semelhança com o progresso escolar que os alunos, em geral, perseguem. E também se o treino que é absolutamente necessário para melhorar no desporto, salvaguardadas as devidas diferenças, não será comparável com o estudo que é indispensável para passar num exame.O Ministério da Educação, com a maioria do seu pessoal formado por uma cartilha pseudo-pedagógica, dá a ideia de que não sabe para que servem os exames. Não existem verdadeiros exames nos primeiros nove anos de escolaridade uma vez que as chamadas provas de aferição não o são (“aferição” é eduquês puro!). Os exames finais do ensino básico, restritos a duas disciplinas e “bué” de fáceis, podem, mesmo assim, ser substituídos pela via das Novas Oportunidades, com a avaliação limitada a uma “história de vida” e, portanto, de uma banalidade escandalosa. E também os exames no final do secundário podem ser substituídos por provas para maiores de 23 anos de acesso ao ensino superior, onde a fasquia é baixa porque algumas instituições, com a corda na garganta, escancaram as portas com provas que de exame só têm o nome. Que haja alunos que ainda estudem alguma coisa não pode deixar de suscitar a nossa admiração.A herança que a actual equipa do Ministério da Educação vai deixar é bem pesada. O pior de tudo não foi, porém, a continuada desvalorização do conhecimento, e do esforço que é preciso para o adquirir, na ilusão de disfarçar estatísticas que nos envergonham. Foi o apoucamento dos professores, que causou um dano grave na educação que vai levar anos a sarar. Para degradar o papel dos professores o Ministério não se contentou com a Sr.ª D. Margarida Moreira, o Magalhães e a avaliação “simplex”. Também criou o Manual do Aplicador das provas de aferição, que achincalha o corpo docente de uma maneira que ultrapassa o imaginável. Os professores têm de ler aos alunos: “Podem sair”. Como eu compreendo aqueles a quem apetece aplicar essa frase do Manual à equipa que escreveu e divulgou tal documento!
June 5 2009, 1:28am | Comments »





