Conta um velho conto japonês que, certo dia, um aguerrido samurai desafiou um mestre de zen a explicar-lhe os conceitos de Céu e Inferno. Mas o monge respondeu-lhe, trocista: «Não passas de um estúpido e eu não posso perder tempo com gente da tua laia!»Ofendido na sua honra, o samurai encheu-se de raiva e, puxando da espada, gritou: «Podia matar-te pela tua impertinência!»«Isto», replicou calmamente o monge, «é o Inferno». Sobressaltado ao ver a verdade naquilo que o mestre lhe dizia a respeito da fúria que o dominava, o samurai acalmou-se, devolveu a espada à bainha e fez uma vénia, agradecendo ao monge aquela lição. «E isso», disse o monge, «é o Céu.»O súbito despertar do samurai para o seu próprio estado de agitação ilustra a diferença crucial entre ser-se apanhado por uma vaga de sensações e tomar consciência de que se está a ser arrastado por ela. A injunção de Sócrates «Conhece-te a ti mesmo» refere-se a esta pedra angular da inteligência emocional: a consciência dos nossos próprios sentimentos no instante em que eles ocorrem.Poderia parecer à primeira vista que os nossos sentimentos são óbvios; uma reflexão mais cuidada traz-nos seguramente à memória alturas em que estávamos totalmente alheios ao que sentíamos a respeito de determinada coisa, ou só mais tarde nos apercebemos desses sentimentos. Os psicólogos usam uma «palavrão», metacognição, para significarem a consciência das próprias emoções. Eu prefiro o termo autoconsciência, no sentido de uma atenção continuada dada aos nossos estados íntimos. Nessa consciência auto-reflexiva, a mente observa e investiga ela própria as experiências, incluindo as emoções.Esta qualidade de consciência é semelhante àquilo que Freud descreve como uma «atenção discreta e constante», e que recomenda àqueles que desejam praticar a psicanálise. Uma tal atenção observa com imparcialidade tudo o que passa pela consciência, como uma testemunha interessada mas não-interveniente. Alguns psicanalistas chamam-lhe o «ego observador», a capacidade de autoconsciência que permite ao analista observar as suas reacções àquilo que o paciente lhe diz, e que o processo de livre associação alimenta no paciente.Goleman, Daniel (1996).Inteligência Emocional.Lisboa:Temas e Debates (p.66)
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Auto-consciência - O Céu e o Inferno
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October 17 2010, 1:13pm | Comments »
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