A verdade existe? Eis uma pergunta recorrente em áreas que se pautam pelo modo de pensar objectivo, rigoroso, científico. Mais: trata-se duma pergunta que fez nascer esse modo de pensar e que não o deixar sossegar. Sem ela e sem a tendência para responder que sim, que existe verdade (ainda que esta, quando formulada, não se deva declarar como definitiva), seria impossível termos esse modo de pensar.Deve acrescentar-se que este modo de pensar - desejavelmente presente na ciência, mas também na justiça, entre outras áreas - tem os seus critérios. Um deles é que a noção de verdade, apesar de ter sido inventada por pessoas, não decorre do entendimento contextualizado de algumas pessoas. É preciso que as conjecturas avançadas para explicar algo, além de respeitarem as regras da lógica, sofram a "prova de fogo" da realidade. Nesta prova, todas as pessoas, independentemente do contexto social, cultural, étnico ou outro a que pertencem, poderão chegar às mesmas conclusões, ou, então, duvidar delas ou mesmo refutá-las, caso os factos indiquem nesse sentido.Ainda que muitos cientistas, epistemólogos e outros pensadores dissertem sobre este assunto, os que se pautam pelos princípios iluministas ou, na expressão do filósofo inglês T. Nagel, neo-iluministas, têm por mais ou menos pacífico o que acabei de referir. É certo que há os pós-modernos que, não abdicando da tal contextualização, afirmam a total impossibilidade de aceder a uma verdade que vá além daquela que é localizada no tempo e no espaço, e sempre por referência à subjectividade de quem a declara... E, se alguém a declara, então, passa a existir com certeza, a verdade. Ou melhor: "a verdade para..." Como qualquer argumento esbarra na opinião do outro ou de um grupo, não há muito a fazer para prosseguir qualquer raciocínio...Este último entendimento de verdade, pelas inconsitências várias que lhe têm sido apontadas, parece não ter grande esperança de vida. Engano: quando tudo leva a crer que esmoreceu e que não transitou para o século XXI, vê-se ressuscitar neste artigo, naquela conferência, numa outra entrevista...Foi o que percebi mais uma vez recentemente e desta vez não foi no campo da educação. Lembrei-me, naturalmente, duma passagem do Imposturas Intelectuais de Alan Sokal e Jean Bricmont, que, a seguir trancrevo, de modo que o leitor perceba melhor do que falo:“Eis o contexto: em 1996 a Bélgica viveu o drama das crianças desaparecidas e assassinadas, no seguimento do qual foi criada uma comissão de inquérito a fim de examinar as deficiências verificadas durante a investigação policial. Duas pessoas — um polícia (Lesage) e um magistrado (Doutrèwe) — foram inquiridas para saber se a primeira tinha ou não entregue o dossier ao magistrado, que este negava ter recebido. No dia seguinte um antropólogo da comunicação, Yves Winkin, professor da Universidade de Liége, foi entrevistado por um dos principais jornais belgas (Le soir, de 20 de Dezembro de 1996). Foi-lhe colocada uma questão:Questão: O confronto [entre Lesage e Doutrèwe] foi estimulado por uma procura drástica da verdade. A verdade existe?Resposta: (…) penso que todo o trabalho da comissão se baseia numa espécie de pressuposto, o de que existe, não uma verdade, mas a verdade, que, se se pressionar bem, acabará por surgir. No entanto, antropologicamente, só existem verdades parciais, partilhadas por um número maior ou menor de pessoas, um grupo, uma família, uma empresa. Não existe verdade transcendente. Não penso por isso, que o juiz Doutrèwe ou o polícia Lesage estejam a esconder algo: ambos falam a sua verdade. A verdade está sempre ligada a uma organização em função dos elementos considerados importantes. Não é de estranhar que estas duas pessoas, representando cada uma universos profissionais distintos, exponham uma verdade diferente cada uma. Dito isto, no contexto de uma tal responsabilidade pública, penso que a comissão só pode prosseguir no sentido que actualmente prossegue».Estamos perante um exemplo notável das confusões criadas pelo vocabulário relativista (…). Acima de tudo, o objecto do inquérito é um facto material, o envio de um dossier (poderá pensar-se que este foi enviado e se perdeu no caminho, mas isto também é uma questão factual bem definida). É claro que o aspecto epistemológico é complexo: como é que a comissão vai saber o que realmente se passou? Mas isto não impede que haja uma verdade: ou o dossier foi enviado ou não foi. Não se compreende muito bem o que se ganha com a redefinição do termo verdade (mesmo que seja parcial) para que passe a significar simplesmente «uma crença partilhada por um número maior ou menor de pessoas (…) estamos perante uma situação que roça o absurdo: ambas as pessoas falam a mesma língua, não moram a mais do que uma centena de quilómetros de uma comunidade belga francófona (…). O problema não é, manifestamente, o da impossibilidade de comunicação: as duas pessoas em confronto compreendem perfeitamente o que se passa e, sem dúvida, sabem qual é a verdade. Simplesmente uma delas não está interessada em revelá-la. Mesmo na hipótese de as duas falarem verdade, ou seja, no caso de o dossier se ter perdido, o que é logicamente possível (ainda que improvável), ainda assim não faz sentido dizer que «ambas falam a verdade». Quando se chega a conclusões práticas, felizmente, o antropólogo admite que a comissão «só pode conseguir», quer dizer, procurar a verdade. Tanta confusão para se chegar a esta conclusão.”Referência completa: Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva, páginas 103-104.
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A verdade existe?
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December 28 2010, 6:14pm | Comments »
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Academia Olympia
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Texto de António Amorim da Costa, químico da Universidade de Coimbra.“Sem que nos seus tempos de escola tenha sido um mau aluno, como alguns dos seus biógrafos pretendem fazer crer, Einstein não foi um aluno particularmente distinto, embora tenha sido sempre um aluno particularmente distinto, embora tenha sido sempre um aluno brilhante em Matemáticas. Na Escola Politécnica de Zurique frequentava pouco as aulas. Preferia estudar por sua conta própria a matéria que nelas era dada, servindo-se para o efeito de apontamentos tirados pelo seu condiscípulo Marcel Grossman, esse mesmo que viria, mais tarde, a assisti-lo no desenvolvimento do formalismo matemático da Teoria da Relatividade Geral.Em vez de seguir as matérias de Física e de Matemática leccionadas na sua Escola Politécnica, ele preferia ler os principais alunos destas disciplinas lendo directamente, como autodidacta, as obras originais de Maxwell, Kirshoff, Boltzman e Hertz. Terminado o Curso, não continuou na Escola Politécnica onde se formou, em virtude de certas ‘irreverências’; graças ao seu amigo Marcel Grossmann, em 1902, foi contratado como perito técnico de segunda classe na repartição de patentes de Berna. Nos primeiros três meses da sua estadia nesta cidade, resolveu dar aulas particulares a três francos por hora. Foi aqui que conheceu Maurice Slovine, um estudante romeno apaixonado pela Física, com quem passou a discutir apaixonadamente os mais diversos assuntos científicos. Em breve, aos dois se juntou Conrad Habid, um estudante de matemática. O trio passou a reunir-se regularmente depois das horas de trabalho diário para estudar e discutir em conjunto os trabalhos de Hume e Espinosa, e também as obras de Mach, Ampère e Henri Poincaré, Racine e Dickens. Uma simples passagem de alguns destes autores poderia tornar-se para eles, frequentemente, tema de discussão acesa para vários dias. Poucos depois, juntou-se ao grupo o italiano Ângelo Besso. O grupo assim formado foi por eles próprios auto-denominados Academia Olympia. Foi nela que germinaram esses trabalhos fundamentais da Física contemporânea publicados por Einstein em 1905 e que teriam continuação nos anos seguintes. Dois anos depois da sua morte, em 1935, Einstein, em carta a M. Slovine, referia-se a essa Academia nos seguintes termos: “À imortal Academia Olympia: Na tua curta existência activa, deleitaste-te com uma alegria fácil. Os teus membros criaram-te para se divertirem à custa das suas irmãs mais velhas, inchadas de vaidade. (…) Para a minha felicidade e a minha dedicação até ao último e muito corajoso sopro.”Nela se estudavam os grandes clássicos da Física e da Matemática. Em nossos dias, quantos alunos, e mesmo professores, incluindo os mais doutos, se preocuparam algum dia em folhear essas obras? Nada há como beber directamente nas fontes cristalinas da verdadeira sabedoria por mais difícil que possa ser a sua leitura directa! Quantos dos mais sábios e distintos Físicos, Químicos ou Matemáticos dos nossos dias alguma vez se deram ao trabalho de ler directamente as obras de Newton, Coulomb, Helmotz, Boltzmann, Joule, Carnot, Bohr, ou Scrhodinger, para não falar de muitos outros clássicos da ciência contemporânea?E que paixão há, entre os homens das Ciências exactas pelos filósofos, antigos e modernos? Quantos se interessaram algum dia por Hume, Descartes, Espinosa, Leibniz, Kant ou Hegel, para além da meia dúzia de frases quase estereotipadas dos Manuais de Filosofia da Escola Secundária?”Nota: Texto antes publicado no Diário As Beiras e recentemente republicado no livro Ciência e Mito, da Imprensa da Universidade de Coimbra.
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June 24 2010, 2:12pm | Comments »
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FÍSICA E QUÍMICA: NAMOROS E ZANGAS
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Recentemente, após uma palestra que dei na Universidade do Minho sobre a teoria quântica no secundário fui questionado sobre a distinção entre física e a química. Transcrevo o meu texto sobre o assunto de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005):A escola associa tradicionalmente a Física com a Química na disciplina de Ciências Físico-Químicas. Há, por isso, quem pense que são ciências gémeas. Serão?Não são decerto gémeas, porque a Física nasceu no século XVII com o inglês Isaac Newton, autor dos “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, ao passo que a Química só surgiu no final do século XVIII com o francês Antoine Laurent Lavoisier e o seu “Tratado Elementar de Química”. Facto curioso e pouco conhecido, revelado pelo economista John Keynes, é que Newton foi um alquimista secreto, talvez o último dos grandes alquimistas (não esqueçamos que a alquimia é uma pré-química, é uma espécie de mãe da química!) de modo que foi do fracasso do sonho alquímico de um físico que a Química pôde surgir. Mas a Química tem, de facto, grandes afinidades com a Física. A Física gosta da Química e vice-versa. Não será a disciplina casada com a Física, porque, desde Newton que se sabe que quem forma um matrimónio duradouro com a Física é a Matemática. A Física, e nisso contrasta com a Química, está profundamente unida à Matemática, partilhando com ela cama e mesa a ponto mesmo de não poder sobreviver a um divórcio. Assim, só resta à Química ser uma namorada da Física, com a qual tem tido um prolongado devaneio e com quem naturalmente tem, de vez em quando, alguns arrufos.Tão enlaçadas por vezes as duas ciências que é difícil destrinçar a Física da Química, mas uma definição convencional é que a Física trata das propriedades da matéria e da energia e que a Química trata da organização dos átomos, que se combinam para formar moléculas e materiais. Para os químicos, os átomos são portanto blocos que se ligam num jogo de complexidade crescente, que vai dos átomos isolados até às organizadíssimas estruturas da vida. Como os átomos são tanto dos físicos como dos químicos, é natural que seja longo o convívio da Física com a Química. Muitos Prémios Nobel da Química foram ou são até físicos ilustres, uma vez que os químicos, diligentemente, se adiantaram aos físicos no respectivo reconhecimento. O caso mais antigo é também o mais pitoresco e, por isso, vale a pena contá-lo brevemente. A estrutura do átomo é do domínio da Física. Mas o britânico (nascido na Nova Zelândia) Ernest Rutherford, descobridor do núcleo atómico – o ponto minúsculo no centro do átomo - , ganhou no início do século XX não o Prémio Nobel da Física, mas sim... o da Química! Rutherford, autor das primeiras reacções nucleares artificiais, não resistiu a declarar:“Tenho visto reacções nucleares muito rápidas, mas nenhuma foi tão rápida como a da Academia Nobel que de repente me transformou de um físico num químico”.Mais recentemente, em 2001, o físico norte-americano de origem austríaca Walter Kohn recebeu também o Prémio Nobel da Química pelo seu notável contributo para resolver a equação fundamental da mecânica quântica, facto que o obrigou a iniciar as suas conferências para químicos esclarecendo que não sabia quase nada de Química... E mostrava um cartune que o representava no meio dos frascos de um laboratório de química, onde ele já não entrava desde os tempos do liceu. Os físicos, por seu lado, também não se têm importado em distinguir e premiar químicos. Lá fora é comum encontrar físicos nos departamentos e laboratórios de Química assim como químicos nos departamentos e laboratórios de Física (antepõe-se o “lá fora”, porque em Portugal, um sistema universitário anquilosado tem impedido essa hoje tão necessária interdisciplinaridade).Mas há também zangas. Em 1929, o físico inglês (que, por formação, era engenheiro electrotécnico) Paul Dirac, de quem se comemorou o centenário do nascimento em 2003, escreveu uma frase famosa que pretende reclamar que a Química não passa de um ramo da Física. Repare-se que três anos antes, com a ajuda do próprio Dirac, tinha aparecido a mecânica quântica, a doutrina que permite explicar o funcionamento dos átomos. O papel maior de Dirac tinha sido escrever uma equação matemática (inspirada por argumentos de natureza estética) que juntava a teoria quântica de Bohr e outros com a relatividade de Einstein. A equação de Dirac, bela e lapidar, permitia, pelo menos em princípio (haveria que resolvê-la, o que era impossível em casos não triviais, dada a indisponibilidade na época do computador), descrever uma multidão de fenómenos físicos e a totalidade dos fenómenos químicos. Vejamos então o que Dirac afirmou:“As leis físicas subjacentes à teoria matemática de uma larga parte da física e de toda a química são, portanto, completamente conhecidas, sendo a única dificuldade o facto de a aplicação destas leis conduzir a equações demasiado complicadas para serem resolvidas. É por isso desejável desenvolver métodos práticos de aplicação da mecânica quântica que ofereçam uma explicação das principais características dos sistemas atómicos complexos sem recorrer a muitos cálculos.”Esta afirmação conduziu a uma discussão sobre a “redução” da Química à Física. Será que toda (sublinhe-se: toda) a Química se pode reduzir à Física? Ou usando, uma linguagem um pouco mais forte, será que a Física possui toda a Química?Embora se possa perceber o que Dirac tinha em mente, julgo que é manifestamente exagerado pretender que a Química seja um ramo da Física. Na mesma linha de ideias, a Biologia seria um ramo da Química e, portanto, um subramo da Física. Etc. Isto é, tudo ou quase tudo seria Física. A afirmação de Dirac, mais do que reducionista, parece, vista deste modo, totalitária. Não haveriam várias ciências mas simplesmente uma ciência. Reside aqui decerto um dos motivos de algumas zangas entre físicos e químicos. Os físicos são acusados da “tentação totalitária” , da tentação de tudo quererem englobar. É um facto que alguns físicos – os que perseguem, na linha de Dirac, mas agora a um nível mais microscópico, uma “teoria de tudo”, uma “teoria final” – defendem que o “leitmotiv” da Física deve ser a busca do mais pequeno e da força unificada que una os blocos mais fundamentais. Mas não é menos verdade que cada vez mais físicos entendem hoje que o domínio da complexidade não lhes é alheio e que o Universo é muito mais vasto e plural do que a atitute estritamente reducionista pressupõe.Física e Química são subculturas diferentes da mesma cultura científica. São maneiras diversas de ver o mesmo mundo. Concerteza que têm, por isso, muito em comum (usando uma metáfora teológica, não pode o homem separar aquilo que Deus uniu!). Mas também concerteza que são disciplinas com individualidade própria. Os esforços a fazer deverão ir não no sentido de fundir essas culturas mas sim de fomentar o seu contacto. Isto é: de manter o namoro sem zangas de maior.
January 25 2010, 3:43am | Comments »
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INVESTIGAÇÃO E CIÊNCIA
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A palavra “investigar” remonta ao século XV. A investigação científica moderna teve convencionalmente o seu início na Europa com a chamada Revolução Científica, no início do século XVII. A investigação é o “braço armado” da ciência, uma vez que é graças a ela que a ciência progride. A etimologia ajuda a compreender o seu significado: a palavra "investigação" vem do latim “in” + “vestigium”, que quer dizer seguir o rasto, ir atrás de pegadas. Se se for a um dicionário moderno encontra-se que “investigar é realizar uma “pesquisa crítica e sistemática, com base por exemplo na experimentação, que se destina a rever conclusões aceites à luz de factos novos”. Os cientistas avançam pois indo atrás de marcas reveladoras, um pouco como Sherlock Holmes, o personagem de Conan Doyle que, a partir de indícios, conseguia descobrir toda uma história. A procura científica tem de ser “crítica” (há que ter cuidado com pistas falsas) e “sistemática” (tem de se perseguir todas as pistas acessíveis). Para a investigação ser produtiva tem de se examinar algo que não se conhecia, os tais “factos novos” que permitem rever “conclusões aceites”.O processo de investigação científica é persistente. As conclusões só são verdadeiras provisoriamente, dando lugar a outras, que, em geral, são compatíveis com as anteriores. Novas investigações permitirão rever as conclusões antes obtidas, alcançando outras que de algum modo devem abarcar as antigas ou pelo menos o essencial delas: a ciência é cumulativa. Pode pois dizer-se que a investigação consiste na procura não tanto da verdade, só idealmente alcançável, quer dizer, inalcançável, mas na procura da inconsistência, do erro, da mentira.
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November 9 2009, 3:12am | Comments »
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O mimetismo da violência
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Pelo interesse do comentário de João Boaventura ao texto Os laços que unem a humanidade, onde se destaca a referência a René Girard, tomamos a liberdade de o republicar como texto.Filósofo, antropólogo e sociólogo, Lévi-Strauss, autor dos Tristes Trópicos e La pensée sauvage, considerava que entre os "selvagens" e os "civilizados" poucas seriam as diferenças, como entre o homem de hoje e o homem da idade média, relembrando, de certa forma, um discurso de Umberto Eco a demonstrar que nada do que se passa hoje difere do que ocorria na Idade Média.O pensamento de René Girard (na imagem ao lado), que Leonardo, um leitor do De Rerum Natura, em boa hora nos traz, coincide com tudo quanto aqui se tem debatido sobre a Bíblia, a propósito de Saramago, e do tal Caim que, afinal, mais não é do que o representante do protótipo do homem de todos os tempos (civilizados, selvagens, de hoje ou do passado).René Girard , filósofo, historiador e filólogo, e que também não desdenha do papel de sociólogo - "eu sou antes de tudo um cientista social", diria numa entrevista - já que aponta a Bíblia como um excelente documento para um estudo sociológico.Na mesma linha de pensamento de Lévi-Strauss, René Girard considera que o homem colectivo é arrastado para a violência por mimetismo, porque as paixões presentes em cada um adquirem uma força multiplicadora. Seja o homem selvagem, civilizado, do século XXI ou do século V.Numa entrevista ao jornal La Croix, considerou que "o cristianismo é o único a realçar o carácter mimético da violência."João Boaventura
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November 5 2009, 2:33am | Comments »
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Os laços que unem a humanidade
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/os-lacos-que-unem-humanidade.html
Claude Lévi-Strauss, um dos grandes nomes da Etnografia e da Antropologia, cujo pensamento e trabalho tem sido estudado nas universidades europeias e americanas por muitas gerações de estudantes e que chegou ao grande público através das suas obras de leitura irresistível, faleceu na semana passada depois de ter feito um século de vida.Desde que, ontem ao final da noite, se soube da sua morte, jornais e internet recordam os seus dados biográficos mais marcantes: ser de ascendência judia, belga por nascimento e francês como estudante e professor; itinerante pelo Brasil e Estados Unidos como investigador e, novamente, professor; membro activo de várias academicas com destaque para a Academia Francesa, sendo o primeiro antropólogo a ter ali assento; o contacto próximo com os marcantes existencialistas com quem manteve algumas polémicas; os muitos títulos e prémios que lhe foram concedidos até ao final da vida; a sua qualidade de fundador duma nova corrente de análise científica: o estruturalismo...É neste particular que me detenho para referir o seguinte: trata-se duma corrente que se tem prestado a entendimentos vários, muitos deles diametralmente opostos ao que Levi-Strauss lhe deu.Uma dessas interpretações, que está significativamente presente na Educação, é a de que este autor, ao valorizar a dimensão intelectual dos povos indígenas, afirmando que ela não era exclusiva dos ocidentais, confirma a lógica etnocêntrica, segundo a qual cada povo é detentor de uma racionalidade particular e única, devendo ser, nessa medida, respeitada nos seus mais diversos detalhes e preservada no seu contexto. Trata-se duma lógica de fechamento de cada povo sobre si próprio, de evitamento de contacto a fim de manter a identidade a genuinidade cultural.Ora, o que Lévi-Strauss escreveu e disse vezes sem conta é que todos os povos, sem excepção, comungam da mesma humanidade. E, ainda que a humanidade seja diversamente concretizada em ritos, costumes, mitos, conhecimento, é ela e só ela que permite afirmar a igualdade entre os povos.Esta foi, aliás, uma ideia reforçada pelo Director Geral da UNESCO, Koïchiro Matsuura, quando afirmou "O seu pensamento mudou a percepção que o homem tem de seus semelhantes, quebrando conceitos tão excludentes quanto a raça e abrindo caminhos a uma nova visão baseada no reconhecimento dos laços comuns que unem a humanidade".Pode o leitor ver uma aqui uma interessante entrevista a Claude Lévi-Strauss, feita em 2005, por Fernando Eichenberg, para a emissão do Boulevard Brasil.Imagem: Claude Lévi-Strauss no Brasil, nos anos de 1930.
November 4 2009, 8:12am | Comments »
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Gripe, ciência e o senso-comum
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Em torno da gripe de que se fala surgem questões epistemológicas de grande interesse. Uma delas é a interrogação que se pode instalar na sociedade entre a validade da opinião do «indivíduo comum» e as advertências informadas dos especialistas. F. N. Kerlinger, que se dedica à investigação das concepções que formamos e do modo como, em função delas, nos comportamos, esclarece a diferença entre o senso comum e a ciência.“Há quem defenda a ideia de que a ciência e o senso-comum são parecidos. Nesta linha de pensamento, seria legítimo afirmar que a ciência é uma extensão sistemática e controlada do senso-comum, já que este último, tal como refere Conant (1951), consiste numa série de conceitos (...) que se revelem satisfatórios, em termos práticos, para a humanidade.Todavia, estes conceitos (...) poderão ser seriamente distorcidos no campo da ciência moderna (…) — e particularmente na área da Psicologia e da Educação (…)A ciência e o senso-comum diferem nitidamente em cinco aspectos (…).Em primeiro lugar (…) embora qualquer «indivíduo comum» utilize «teorias» e conceitos, este fá-lo habitualmente de uma forma pouco estruturada (porque é «moda»). Além disso, é normal que aceite explicações fantasiosas para os fenómenos naturais e humanos. Uma doença, por exemplo, poderá ser encarada como um castigo pelos pecados (...). Os cientistas, no entanto, formulam princípios teóricos de uma maneira sistemática (…) e sujeitam ao teste empírico diversos aspectos dos mesmos. Além disso, têm consciência de que os conceitos que utilizam, ao constituírem abstracções humanas, poderão estar mais ou menos próximos da realidade.Em segundo lugar, os cientistas testam sistemática e empiricamente as suas teorias e hipóteses. Os «não-cientistas» também testam hipóteses, mas fazem-no de uma maneira que podemos considerar «selectiva» (...). Consideremos o seguinte estereótipo: «os indivíduos de raça negra têm tendência (inata) para a música». Se as pessoas acreditarem nisso, podem facilmente «verificar» a concretização da sua crença, ao constatarem que muitos músicos são de raça negra (...). Os cientistas sociais (…) tentam distanciar as suas investigações dos seus próprios preconceitos (...).Uma terceira diferença radica na noção de controlo. Na investigação científica (…) o cientista tenta, de uma forma sistemática, descobrir as variáveis que constituem possíveis «causas» dos efeitos em estudo (…). Os «indivíduos comuns» (…) raramente se preocupam em controlar sistematicamente as suas explicações para os fenómenos observados. Fazem, de um modo geral, poucas diligências para controlar fontes estranhas de influência. Tendem, em vez disso, a aceitar aquelas explicações que estão mais de acordo com as suas «ideias feitas». Se, por exemplo, acreditarem que condições miseráveis de vida conduzem directamente à delinquência, tenderão a dar pouca atenção a este problema em áreas em que as pessoas gozem de um nível de vida bastante elevado (...).Outra das diferenças (...) é, talvez, menos evidente. Foi dito anteriormente que o cientista está constantemente preocupado em estudar as relações entre os fenómenos. O mesmo acontece com os indivíduos, que fazem apelo ao senso-comum para encontrar explicações para esses fenómenos. Mas, a diferença radica no facto de o cientista tentar estudá-los de uma forma consciente e sistemática, ao passo que o «indivíduo comum» o faz de um modo confuso, não-sistemático e não-controlado. Este último agarra-se, por vezes, à ocorrência fortuita de dois fenómenos e associa-os imediatamente como causa e efeito (...).Uma diferença final (...) repousa nas diferentes explicações que são dadas aos fenómenos. O cientista na sua tentativa de explicar as relações observadas, afasta-se cuidadosamente daquilo que se designa por «explicações metafísicas». Uma explicação metafísica é simplesmente uma afirmação que não pode ser testada (empiricamente). Dizer, por exemplo, que as pessoas são pobres e miseráveis porque Deus assim o deseja (…). Isto não implica que os cientistas devam necessariamente desprezá-las, negando-lhes qualquer veracidade ou significado.Em suma, a ciência dedica-se ao estudo das coisas que podem ser publicamente observadas e testadas. Se certas afirmações ou questões não respeitam estes critérios, elas não podem ser consideradas apropriadas para a investigação científica.”F. N. Kerlinger, 1986 (trad. de Cristina Vieira).
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November 3 2009, 10:59am | Comments »
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Avaliação da investigação em ciências sociais e humanas
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Instalada que está a avaliação da investigação científica, importa debater o seu sentido, os seus procedimentos, as suas consequências.Na Universidade Católica da Louvaina realiza-se, entre 16 e 17 de Novembro, um Colóquio com esse objectivo centrado nas ciências sociais e humana."Qu’est-ce que évaluer la recherche ? Pourquoi et pour quoi évaluer la recherche ? Comment évaluer la recherche ? Y a-t-il des pièges à l’évaluation et lesquels ? La transition e l’évaluation de la recherche à l’évaluation des chercheurs est-elle inévitable, voire souhaitable ? L’évaluation induit-elle des changements dans la recherche ?Ces questions, et bien d’autres, préoccupent les chercheurs, comme les organismes qui les subventionnent et ceux qui les emploient. Ces préoccupations se situent dans un monde où collaboration entre chercheurs et internationalisation de la recherche sont devenues des normes de plus en plus prégnantes, alors que des budgets de recherche orientée importants ont été mis en place. Et leur acuité est d’autant plus forte que les dispositifs d’évaluation a priori comme a posteriori se sont développés en conséquence.Pour les sciences humaines et sociales, des questions particulières se posent en outre: quelles conséquences les spécificités de leur objet ont-elles sur leur pratiques, leurs résultats ? quelles leçons en tirer pour leur évaluation? quelle a été l’impact de l’évolution du « pilotage et de l’évaluation » de la recherche en sciences sociales au cours des dernières décennies ? quelles redéfinitions cela implique-t-il du rôle des chercheurs en sciences sociales? Plus fondamentalement peut-être, quelles transformations des relations entre «connaissances» et «politiques» en a-t-il résulté ?C’est cette réflexion que le colloque mis sur pied par l’Institut of Analysis of Change in Contemporary and Historical Societies (IACCHOS) a voulu prendre à bras le corps. Au cours des deux journées programmées, la méthode privilégiée a été volontairement comparatiste, soucieuse de confronter des expériences culturelles et nationales diversifiées. Elle a également veillé à multiplier les points de vue, conjugant à la fois la mise en évidence de grandes orientations politiques, les remises en contexte historiques, sociétales et économiques et les études plus spécifiquement méthodologiques".Para mais informações clicar aqui.
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October 24 2009, 12:53pm | Comments »
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"Quanto mais soubermos sobre uma coisa, mais podemos voar"
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Daniel Barenboim, o grande maestro e pianista, com cidadania israelita e palestiniana, que idealizou e concretizou com o palestiniano Edward Said, a Orquestra West-Eastern Divan que integra jovens músicos israelitas, palestinianos, sírios, jordanos, egípcios e libaneses, esteve recentemente em Portugual na Fundação Caluste Gulbenkian e ali deu uma entrevista ao jornal Público. Dessa entrevista destaco a seguinte passagem pela relação que estabece entre várias áreas do saber."Escreveu que Furtwängler dirigia os ensaios como um filosófo e os concertos como um poeta. Este princípio também é válido para si?Tento. Mas acho que temos de ensaiar como cientistas e não como filósofos. Devemos observar as coisas como num laboratório: esta nota tem de ser mais curta, esta passagem tem de ser mais forte, etc. Mas não podemos tocar ou dirigir num concerto dessa forma. Tem de haver uma compreensão natural.Faz trabalho analítico antes de interpretar uma obra, mas por outro lado fala muito de liberdade na interpretação. Como se conciliam as duas vertentes?Há uma grande diferença entre liberdade e anarquia. Liberdade é também o resultado do pensamento e da necessidade de fazer isto ou aquilo para expressar determinada coisa. Não é o mesmo que dizer: "Não quero saber, sinto assim e vou fazer assim."A verdadeira liberdade vem da disciplina?Absolutamente. Quanto mais soubermos sobre uma coisa, mais podemos voar."
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September 29 2009, 3:50am | Comments »
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A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/estrutura-das-revolucoes-cientificas.html
Informação recebida da Guerra e Paz EditoresTítulo: A Estrutura das Revoluções científicasAutor: Thomas S. KuhnTradutor: Carlos Marques«O mais influente livro de filosofia em língua inglesa da segunda metade do século XX.» (Richard Rorty)«Um dos 100 livros mais influentes desde a Segunda Guerra Mundial.» (Times Literary Supplement)«Por vezes aparece um livro cuja influência vai muito para além do público que visava... A Estrutura das Revoluções Científicas... é claramente um desses livros.» (Ron Johnston, Times Higher Education Supplement)Considerado pelo New York Times um dos 100 livros mais influentes do século, A Estrutura das Revoluções Científicas chega esta semana às livrarias portuguesas.Clássico absoluto, o livro de Thomas S. Kuhn vendeu mais de um milhão de exemplares em todo o mundo e é hoje um título de referência na história e filosofia das ciências.Concebido originalmente como monografia da International Encyclopedia of Unifi ed Science, A Estrutura das Revoluções Científicas acabaria publicado em livro pela editora da Universidade de Chicago em 1962. A obra colocava em causa a assunção generalizada de que toda a mudança científica passa por um processo estritamente racional, tese que influenciou não apenas cientistas das áreas naturais, mas também economistas, historiadores, sociólogos e filósofos,desencadeando um poderoso debate.Comporta três conceitos fundamentais: paradigma – termo que aqui se popularizou –, ciência normal e revolução científica. O paradigma representa um conjunto de teorias, regras e métodos comummente aceites pela comunidade científica. Cada paradigma tem subjacente umadada visão do mundo, correspondendo a mudança de paradigma a uma alteração radical dessa visão. A ciência normal traduz a circunstância em que o paradigma tem a sua vigência.Porém, durante esse período, podem surgir anomalias, que se revelam quando os esquemas explicativos dominantes já não se adequam à realidade. Surge então uma nova fase que se materializa numa revolução científica.Desde a sua publicação, vendeu mais de um milhão de exemplares, tornando-se leitura obrigatória em cursos superiores das mais variadas áreas. Um clássico absoluto na história e filosofia da ciência, publicado pela primeira vez em Portugal.Físico norte-americano nascido em Cincinnati, Thomas Samuel Kuhn (1922 -1996) foi professor emérito de linguística e filosofia no Massachusetts Institute of Technology. Começou por estudar física em Harvard, mas cedo mudou o rumo da sua investigação ao dedicar-se à história e filosofia das ciências. Para além do seu trabalho mais celebrado, A Estrutura das Revoluções Científicas, a sua obra inclui A Tensão Essencial, A Teoria dos Corpos Negros e a Descontinuidade Quântica, 1894 -1912 e A Revolução Copernicana.Nas livrarias a partir de 28 de Setembro.
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September 28 2009, 3:27pm | Comments »
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