Do texto de Fernando Savater, de que aqui transcrevi uma parte deixo outra que a complementa, e na qual o filósofo distingue ideias de tribalismos."Ter algo assim assemelhado a um orgulho comum de partilhar uma imagem de civilização política baseada na lei, baseada nos direitos, baseada na protecção das minorias, no pluralismo, na institucionalização da tolerância, etc. Quer dizer, criar essa imagem de cidadão, de um cidadão que não prolongue meramente a tribo na cidadania, mas que acredita que a cidadania é a sua verdadeira identidade, que se identifique com a cidadania e não com as suas características tribais. Essa parece-me que seria a grande contribuição europeia.(…)Que futuro terá um país que se organize de acordo com critérios que não sejam critérios políticos? (…) Que não tenha a ver com ideias, que só tenha a ver com rótulo étnicos. O século XX esteve dominado pelo peso, por vezes sufocante, das ideias políticas. A história da Europa, a trágica história da Europa do século XX, é a tragédia do enfrentamento das ideias políticas destrutivas, devoradoras, totalitárias, que se confrontaram entre si, criando desastres sociais, campos de concentração, matanças massivas, e tudo o que vocês sabem. Mas, de alguma forma, lançaram-se no debate ideias sobre a forma de conviver no futuro. As ideias políticas, por muito atrozes que tivessem sido, são ideias que (…) têm argumentos a seu favor, ainda que nos possam parecer pouco convincente ou, mesmo, negativos. Mas, em contrapartida, face aos rótulos e às etnias não há argumentação possível. Ou se pertence ao grupo ou se está definitivamente excluído.As ideias podem ser efectivamente destrutivas, podem ser terríveis, podem levar ao fanatismo, mas, em contrapartida, as etnias são forçosamente fanáticas porque não permitem a adesão de outras pessoas ao grupo (…) As ideias, más ou boas,não têm estrangeiros, têm partidários ou adversários. Mas, em princípio, ninguém é estrangeiro de uma ideia.(…)Aqui é bom que falemos de Voltaire. Voltaire quando defendeu a tolerância, criticou essa posição do fanático que diz: «pensa como eu, ou morres». Claro que isso é um fanatismo intolerável e que obriga uma pessoa a decidir entre dizer o que pensa, ou fingir que pensa, ou ser perseguido e morrer. Isso é terrível, mas mais terrível é quando alguém diz «se não fores como eu, morres» ou «se não fores como eu, deves ir-te embora, deves sair daqui», porque isso não deixa possibilidade de conversação, nem de pacto, nem de partilha de nenhum tipo. Essa invenção do estrangeiro converteu a Europa num dos… para mim, é um dos grandes problemas da convivência.Impressionou-me, particularmente, a visita de dois jornalistas, um homem e uma mulher de Sarajevo. Quando começou o conflito em Sarajevo, visitaram o jornal El País, onde eu habitualmente colaboro, e falaram comigo. Então, um deles disse: «juro-te que até há seis meses na sabia se o meu vizinho que vivia na casa acima era croata, sérvio, muçulmano, eu não o conhecia». O mesmo acontece na minha casa de Madrid! Eu não sei se o vizinho que vive abaixo nasceu em Valência ou veio do Perú (…). Não o conheço e nem, sequer, me interessa, salvo se estabelecer algum tipo de amizade ou de relação pessoal com ele.Então, dizia-me esse jornalista: «(...) Mas, de repente, tive de tomar consciência do seu lugar de pertença porque a minha vida dependia disso. Havia-se criado uma situação em que a minha segurança dependia de não me enganar a respeito de quem se cruzava comigo na escada, se era amigo ou inimigo, não por qualquer razão especial mas pelo rótulo étnico» (…)Pessoas que nasceram no mesmo lugar, que conviveram e que, de alguma forma, partilharam os mesmos odores, os mesmos sabores, a mesma paisagem na infância, que nasceram e cresceram juntos e, de repente, cria-se a obrigação duma separação entre eles (…)Durante muitos anos, nós, em Espanha, tivemos de suportar a descrição do que era um verdadeiro espanhol. O verdadeiro espanhol não era qualquer pessoa que fosse espanhola, teria de reunir umas quantas condições estabelecidas por quem podia emitir certificados de «espanholidade» correcta. Então, o verdadeiro espanhol era católico, o verdadeiro espanhol era antocomunista, o verdadeiro espanhol falava castelhano e nenhuma outra língua inferior, o verdadeiro espanhol, pois, era do Real Madrid, enfim… Teria uma série de condições que não posso pormenorizar, mas todos sabíamos que havia uma descrição do que era o verdadeiro espanhol, e isso não era qualquer um.E, quando nos libertámos disso, quando vimos que se podia ser espanhol de formas muitas diferentes, que se podia ser espanhol falando outra língua que não apenas o castelhano, que se podia ter uma ideologia que não apenas a do governo, que não era obrigatório ser crente do catolicismo para se ser considerado espanhol, e tudo isso, quando parecia que já tínhamos sacudido essa obrigação de um espanhol étnico e o havíamos substituído por um espanhol cidadão, quer dizer, um espanhol sobretudo virado para o futuro (…), de repente, numa parte de Espanha, no caso o País Basco, ressurgiu o «verdadeiro Basco e o falso Basco». De tal modo que Júlio Caro Baroja, o antropólogo sobrinho-neto de Don Pio Baralo, o romancista que foi meu colega durante um tempo na universidade no País Basco, dizia-me: «Veja lá Savater, que desgraça a minha… passei quarenta anos sendo um mau espanhol e agora converti-me num mau basco».Bom, essa é uma das maldições que nos pode atingir. É uma maldição trágica. Não é somente algo retórico, mas algo que pode ter e está, efectivamente, tendo (…) um peso de morte. Há um livro muito interessante, bem, um ensaio do sociólogo alemão (…) Ulrich Beck (…), que se chama De vizinhos a judeus, que narra como um vizinho, quer dizer, a pessoa com a qual convivemos (…) de um momento para o outro, por uma questão ideológica, de etnia, de categorização étnica, se converte num judeu. Melhor, converte-se no inimigo, na pessoa a excluir (…). E isto é tanto mais terrível, se pensarmos que não se trata de um estrangeiro o qual se quer afastado, manter fora. Trata-se de uma pessoa que estava junto de nós e que transformamos num estrangeiro.Assim, o terrível da guerra étnica não é simplesmente que se apliquem critérios de exclusão face ao estrangeiro que está fora, o que já é suficiente mau numa Europa que quer unir-se, o terrível é criarem-se novos mecanismos de exclusão e de estrangeiramento no seio da própria convivência."Referência bibliográfica:- Savater, F. (2005). Identidade e Cidadania. Iberografias. Ano 1, n.º 1, páginas 27-31.Imagem:- Fotografia de V. Fraga (1912-2006).
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Ideias e tribalismos
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/ideias-e-tribalismos.html
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September 6 2009, 9:57am | Comments »
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Um tijolo é um objecto essencial?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/um-tijolo-e-um-objecto-essencial.html
Não me parece que se deva entender o texto que se segue, da autoria do físico Richard Feynman, como um manifesto contra os filósofos, nem contra ninguém ou disciplina em particular. Parece-me que se deve entender apenas e só como uma denúncia bem disposta dum certo modo de falar, escrever e, possivelmente, pensar.Trata-se duma história que, se bem entendida, nos ajuda a ter cuidado na forma como comunicamos, independentemente da área em que nos situemos."Eu sentava-me sempre com os físicos, mas ao fim de algum tempo pensei: «Era agradável ver o que faz o resto do mundo e, por isso vou sentar-me durante uma semana ou duas em cada um dos outros grupos.»"Quando me sentei com os filósofos, ouvi-os discutir com muita seriedade um livro chamado Processo e realidade de Whitehead. Utilizavam as palavras de maneira estranha e eu não conseguia perceber muito bem o que diziam. Ora eu não queria interromper a conversa deles para estar sempre a pedir que me explicassem qualquer coisa e, nas poucas ocasiões em que o fiz, eles tentavam explicar-me, mas eu continuava a não perceber. Por fim convidaram-me a ir ao seu seminário (...).O que lá aconteceu foi típico — tão típico que era inacreditável, mas verdadeiro. Ao princípio sentei-me sem dizer nada, o que é quase inacreditável, mas também verdadeiro. Um aluno fez uma exposição sobre o capítulo a estudar nessa semana. Nesse capítulo, Whitehead usava frequentemente as palavras «objecto essencial» dum modo técnico particular, que tinha presumivelmente definido, mas que eu não compreendia.Depois de alguma discussão sobre o significado de «objecto essencial», o professor que dirigia o seminário disse algo com o intuito de clarificar as coisas e desenhou no quadro qualquer coisa semelhante a raios. «Sr. Feynman», disse ele, «diria que um electrão é um «objecto essencial?»Bem, agora é que eu estava em apuros. Admiti que não tinha lido o livro, pelo que não fazia ideia do que Whitehead queria dizer com a frase (...). «Mas, disse eu, vou tentar responder à pergunta do professor se me responderem primeiro a outra pergunta, para que eu possa ter uma ideia melhor do que significa «objecto essencial». Um tijolo é um objecto essencial?» (...).Então vieram as respostas. Um indivíduo levantou-se e disse: Um tijolo é um tijolo específico, individual. É esse o significado de objecto essencial para Whitehead. Outro afirmou: Não, não é o tijolo individual que é o objecto essencial; é a característica geral que todos os tijolos têm em comum — a sua qualidade de serem tijolos —, isso é que o objecto essencial. Outro tipo levantou-se e disse: «Não, não está nos próprios tijolos. «Objecto essencial» significa a ideia que temos no nosso espírito quando pensamos em tijolos». Outro tipo levantou-se e outro, e digo-vos que nunca ouvi antes maneiras tão diferentes e engenhosas de encarar um tijolo. E, exactamente como seria de esperar em todos as histórias sobre filósofos, acabou num caos completo. Em todas as discussões anteriores, nem sequer se tinham interrogado se um objecto tão simples como um tijolo era um objecto essencial, quanto mais um electrão.Depois, disso, à hora do jantar dirigi-me para a mesa da biologia. Tinha-me interessado por biologia e os tipos falavam de coisas muito interessantes (...)."In Está a brincar Sr. Feynman!, páginas 71-72.
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August 5 2009, 8:27pm | Comments »
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A actualidade de Espinosa
http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/actualidade-de-espinosa.html
No texto Amesterdão, terra de Espinosa, Carlos Fiolhais relembrou as raízes portuguesas da família judia do filósofo, fugida do país por razões político-religiosas. Relembra, de seguida, a sua relação tumultuosa com a igreja de origem (mais do que com a religião), que o excomungou e acusou de anti-semitismo.É esta dupla perseguição, e o modo como as encarou contestando-as, que, além de lhe traçar, em grande medida, o carácter, lhe dá actualidade.E dá-lhe actualidade porque em vários quadros de discussão, onde predominam leituras etnográficas e sociológicas conotadas com o relativismo pós-moderno, entende-se que as pessoas, mais do que terem o direito de permanecer integrados nas suas culturas de origem, onde se encontram as sua raízes, devem respeitá-las, adoptar os seus valores e modos de pensar, identificar-se sem qualquer sobressalto com elas.Guiados por este olhar percebemos facilmente que Espinosa se tenha rebelado contra a perseguição portuguesa à sua família, mas teremos mais dificuldade em perceber a sua renitência em relação a algumas das leis “do seu povo”.Tais leis remetiam para o acolhimento conformista da autoridade porque alguém a detinha, para a aceitação submissa do que se apresentava como certo e errado, para o afastamento do mundo europeu que fervilhava de ideias e o fechamento na comunidade sefardita de Amesterdão…Acontece que, sem pretender recusar a sua religião, a Espinosa interessava, segundo André Tosel, “eliminar os obstáculos que a superstição ergue normalmente à verdadeira realização do homem”, “transformar o «terror teológico» numa «política científica, eliminando a superstição, vista, ao mesmo tempo, como causa e origem da ausência do verdadeiro conhecimento»”Esta citação consta no livro de Espinosa - História, salvação e comunidade, de Francisco Vieira Jordão, professor de Ontologia e Filosofia da Religião da Universidade de Coimbra, que estudou em detalhe a vida e a obra do autor a que nos referimos.Para se perceber melhor o pensamento de Espinosa, no que diz respeito a este aspecto, em particular, recorro, ainda, a outras passagens constantes desse livro:“Como descendente de portugueses, nascido e criado em convivência estreita com outros judeus da mesma ascendência (…) muito mais do que a História propriamente dita, interessava-lhe a explicação, pelas suas verdadeiras causas, a sua auto-marginalização. Considerado, pelos seus, indigno de fazer parte dos eleitos, não terá deixado de reflectir sobre tudo o que se passou com ele e com muitos outros, concluindo que tudo aquilo não passou duma triste confusão entre o que é «verdadeiramente útil» e o que melhor condiz com os interesses dos detentores da autoridade no interior do grupo. Só por isso eles poderiam continuar ainda renitentes à plena integração na sociedade que os acolheu.Na realidade, os «Pontífices dos Hebreus» sempre gozaram, entre os seus, duma situação de privilégio e se fizeram rodear de honras não concedidas a mais ninguém. Só porque, frente à pressão de que foram objecto em terras de Portugal, se tornou, de facto, impossível a continuidade das velhas situações de privilégio, é que, para o nosso filósofo, eles se decidiram a demandar novos espaços a fim de poderem continuar a dar satisfação às suas ambições" (página 88).“… não revela o mínimo de simpatia pela situação de isolamento ou de separação dos judeus em relação aos povos com quem têm tido necessidade de conviver. Não conta o facto de ser herdeiro destes ou daqueles hábitos, de ser desta ou daquela raça, nem mesmo o facto de se poder orgulhar da sua história: o que importa é «simplesmente compreender», pois as separações e os particularismos relevam apenas da imaginação, sendo, por isso ilusórios” (página 82)."... se existe ruptura com o Judaísmo, não é no sentido de um abandono total de tudo o que é especificamente judeu, mas no sentido de combate a tudo o que é apresentado, no contexto da doutrina judaica, como certo e mesmo absolutamente incontestável, mesmo quando contradiz a ordem natural das coisas, tal como ela se manifesta na reflexão filosófica" (página 82).Referência bibliográgfica completa:Jordão, F. V. (1990). Espinosa - História, salvação e comunidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Sobre o assunto poderá o leitor consultar também:Jordão, F. V. (1986). Iluminismo e tradição do texto religioso em Espinosa. Tradiçao e crise, 1, p. 186-243.
August 5 2009, 8:19am | Comments »
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O país opinioso
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/o-pais-opinioso.html
Numa altura em que a propósito da avaliação das aprendizagens e de outros assuntos educativos, surgem as mais diversas opiniões das mais diversas pessoas, publicamos um texto de João Boavida, antes publicado no jornal As Beiras.A educação é demasiado intrincada, para muitos, e excessivamente simples, para outros. Os primeiros, desistem de educar, até os próprios filhos, porque é tudo muito complicado hoje em dia, e para evitar complicações maiores mais vale não fazer nada. Os segundos, resolvem todos os problemas com duas penadas porque tudo o que não entendem ou não lhes “cabe” na cabeça, são lérias.Tanto para uns como para outros, a investigação científica é desnecessária na educação. O argumento, muito primário, é uma das modalidades mais persistentes e divulgadas do obscurantismo contemporâneo, mas aqui assumido como moderno, até por muitos intelectuais. O que significa que há ainda hoje imensas formas de anti-cientismo mais ou menos disfarçado, e tanto mais perigoso quanto mais se julga o contrário dele.O facto de haver no mundo investigadores que estudam os problemas educativos com rigor e objectividade não conta, e o ter mais de um século a investigação científica sobre problemas educativos, também não. É claro que educar será actualmente mais difícil e complexo do que noutras épocas, mas é também verdade que dispomos hoje de informações provenientes de várias disciplinas que esclarecem o fenómeno educacional como nunca houve. É certo que nem tudo em educação se pode ir buscar à ciência, que pensamento, cultura, sociedade e religião têm muito a dizer, e que a investigação em educação é muito específica. Mas isto em nada a impede, antes pelo contrário, que, mais não seja, para moderar as ideologias, que tantos prejuízos têm provocado ao ensino. Temos é de articular todos os vectores, tanto os que para a educação concorrem como os que dela derivam, isso sim.Mas não é o que acontece. Não opina sobre educação quem sabe, mas quem julga que sabe.Imaginem um país atacado por uma epidemia qualquer que, para combater o perigo, vai consultar, não os médicos, os biólogos, os químicos, os epidemiologistas e todos os que investigam nas áreas em que se pode encontrar a cura, mas os opiniosos do costume, que andam sempre perto mas nunca acertam, os que falam de tudo e têm sempre soluções eficazes, e os habituais do ecrã sempre prontos para compor o ramalhete televisivo. É provável que, no final, o problema ficasse mais confuso e fossem menores as hipóteses de o atacar com sucesso, ainda que os intervenientes tivessem feito um brilharete e que daí tivesse resultado um bom espectáculo. O que pensaríamos de uma sociedade que considerasse isto correcto?Sem trancar a porta a boas ideias vindas de fora – todas as áreas científicas deixam uma fresta aberta para elas, porque, na verdade, há boas ideias para uma área que vêm de outra ou outras áreas, é tempo de começar a pedir opinião a investigadores da Pedagogia e de diferentes alinhamentos teóricos, quando se trata de problemas educativos.Imagem: http://www.jcp-pt.org/layout/opiniao.jpg
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June 16 2009, 5:51am | Comments »
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Objectividade: invenção de professores
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/objectividade-invencao-de-professores.html
«Estamos no final da era da razão […]. Um novo período de explicação mágica do mundo está a nascer, uma explicação baseada mais na vontade do que no conhecimento. Não há verdade, nem no sentido moral nem científico […]. A ciência é um fenómeno social e, como tal, é delimitada pelos benefícios e malefícios que possa causar. Com o slogan de ciência objectiva, o professorado apenas se queria libertar da indispensável supervisão do estado. Aquilo que se chama crise da ciência não é mais do que esses senhores estarem a começar a ver por si mesmos o caminho errado a que foram conduzidos pela sua objectividade e pela sua autonomia». Estas palavras, de tom apelativamente pós-moderno, são de Adolfo Hitler e quem no-las recorda é Gerald Holton, no livro A cultura científica e os seus inimigos, publicado entre nós pela Gradiva em 1998. Holton enquandra-as do seguinte modo(página 46): “Num estudo clássico, Alan Beyerchen identificou (…) pilares fundamentais da ciência ariana. Encontramos aí temas que nos lembram desconfortavelmente aqueles que se encontram de novo na moda. Uma parte da ideologia associada à ciência ariana era claro, a de que a ciência é, como agora dizem, basicamente uma construção social, de modo que a herança racial do observador «afecta directamente a perspectiva do seu trabalho». Cientistas de raças indesejáveis, portanto não serviam; de preferência, deviam ser ouvidos apenas aqueles que estivessem em harmonia com as massas, o Volk. Mais ainda, esta visão völkisch encorajou o uso de não especialistas, ideologicamente seleccionados, como participantes em apreciações de assuntos técnicos (…). O carácter internacional dos mecanismos de consenso utilizados para chegar a acordo em questões científicas era também detestável para os ideólogos nazis. O materialismo mecanicista (…) devia ser banido da ciência e a física teria de ser reinterpretada como dizendo respeito ao espírito, e não à matéria. «Os aderentes à física ariana baniram assim da ciência a objectividade e o internacionalismo. […] A objectividade em ciência era meramente um slogan inventado por professores para proteger os seus interesses» Em boa hora, nas comemorações do 65.º aniversário do desembarque das forças aliadas na Normandia, Barack Obama pediu que as lições desse desembarque não sejam esquecidas. E afirmou: "num momento de perigo máximo e no meio das circunstâncias mais terríveis, homens que se achavam normais descobriram que poderiam fazer o extraordinário". Se se pensar bem, o extraordinário que esses homens, quase todos jovens, fizeram foi enfrentar a morte para salvar a Razão. Devemos-lhe isso e a obrigação de a manter, o que talvez seja a maior das lições que podemos retirar do Dia D.
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June 6 2009, 3:41pm | Comments »
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Conhecimento primitivo e inferencial
http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/conhecimento-primitivo-e-inferencial.html
Eis uma confusão que confunde quando se tenta conhecer os fundamentos do conhecimento: a distinção entre os pares conhecimento primitivo / derivado e conhecimento ininferencial / inferencial. É comum confundir as coisas e pensar que todo o conhecimento primitivo é ininferencial, mas há razões para pensar que isto é um erro. Uma parte importante do nosso conhecimento primitivo é inferencial.A diferença entre conhecimento primitivo e derivado é a seguinte. O conhecimento primitivo é o que se conhece por um dado meio, sem que seja possível conhecer por outro meio mais directo. Por exemplo, a única maneira que temos hoje de saber qual é a composição química da atmosfera de Marte é mandar sondas que façam lá análises ou inferir a composição química da atmosfera através da análise de espectro. Mas se pudermos ir a Marte pessoalmente podemos saber de um modo mais directo a mesma coisa. Analogamente, a única maneira que temos de saber que houve segunda guerra mundial é através da consulta de dados históricos, mas quem vivia em 1943 podia saber que havia tal coisa vendo-a directamente ao viajar pela Europa.A diferença entre conhecimento ininferencial e inferencial é a seguinte. O conhecimento ininferencial é o que se conhece sem activar a faculdade do raciocínio explícito, ao passo que o conhecimento inferencial é precisamente o que se conhece por meio de uma inferência ou raciocínio. Por exemplo, uma pessoa olha e vê que está a chover — este conhecimento não é inferencial, apesar de o sistema de processamento visual e cognitivo ser extremamente complexo; mas as faculdades de raciocínio explícito não são activadas. Ao invés, para saber que vai ocorrer um eclipse num dado momento, temos de raciocinar explicitamente, fazendo cálculos.É uma tentação pensar que todo o conhecimento primitivo tem de ser ininferencial. É essa tentação que nos faz pensar que todos os argumentos de autoridade são espúrios: a ideia é que posso sempre ver directamente, de modo não inferencial, se algo é verdade ou não, em vez de me basear no testemunho dos outros. Só que isto é uma ilusão. Se fôssemos ver tudo aquilo em que acreditamos por testemunho, teríamos de ver as coisas mais básicas, e não teríamos tempo para nada mais. O conhecimento funciona numa rede social na qual diferentes agentes cognitivos vêem diferentes aspectos da realidade e depois confiam uns nos outros. Isto falha? Sim. Falha porque os agentes cognitivos mentem, além de não serem omniscientes, e falham, porque não são omniscientes, e são tendenciosos, porque têm preconceitos. Mas qualquer outra alternativa seria ainda pior, pois deixar-nos-ia num solipsismo metodológico que pouco mais nos permitiria saber além de que eu existo agora e estou agora a ter a experiência de ver algo a que chamo “árvore”.
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November 30 2008, 5:01am | Comments »
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A priori
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/priori.html
A matemática é muitíssimo diferente da física ou de outras disciplinas empíricas porque se faz pensando apenas. É isto que em filosofia se entende por a priori. O a priori é todo o conhecimento que podemos obter pensando apenas, sem recorrer a qualquer informação empírica. Intuitivamente, a matemática dá-nos imenso conhecimento, mas não é conhecimento a posteriori ou empírico, pois os matemáticos não precisam de fazer experiências, nem observações. O a priori nada tem a ver com anterioridade, mas apenas com isto: depois de eu aprender os conceitos relevantes, depois de o meu cérebro se ter formado, depois de tudo isso, não posso saber se há água em Marte pensando apenas, por exemplo. Por isso, diz-se em filosofia que esse conhecimento é a posteriori. Mas estando na mesma situação, tudo o que tenho de fazer é raciocinar para saber o resultado de uma operação aritmética. Por isso, chama-se a priori a esse conhecimento. Precisamente porque podemos saber o resultado de uma operação aritmética pensando apenas é que um computador desligado da internet pode responder-nos à pergunta sobre uma operação aritmética, mas não pode dizer-nos se há água em Marte: o computador pode fazer um cálculo e dar-nos o resultado correcto no que respeita à aritmética, mas nenhum cálculo pode fazer para estabelecer se há ou não água em Marte.O empirismo, defendido por filósofos como Carnap, Hume, Locke, Hobbes, Ayer, Berkeley, Quine e tantos outros, está obrigado a defender que afinal nada sabemos de substancial quando sabemos matemática. Isto porque o que caracteriza o empirismo é a ideia de que todo o conhecimento substancial é conhecimento empírico. Há quem pense que negar o empirismo é negar a ciência. Isto é falso. Russell, por exemplo, nega o empirismo, mas não nega a ciência. É verdade que Russell é muitas vezes classificado como empirista, mas não o é verdadeiramente, pois admite a existência de conhecimento a priori substancial.De que lado está o ónus da prova? Parece-me que está claramente do lado de quem nega o conhecimento a priori. Este parece óbvio — fazemos matemática e lógica sem termos de recorrer à experiência: limitamo-nos a pensar. Temos de ter uma boa razão qualquer, que não seja circular, para recusar o óbvio. Acontece que não conheço qualquer boa razão para negar o óbvio, excepto a má razão ideológica de pensar que aceitar o a priori é abrir as portas à religião (não é) ou recusar a importância da experimentação nas ciências empíricas (não é) ou defender a prioridade da filosofia sobre a ciência (não é) ou... e há várias outras más razões deste género, todas ideológicas, todas falsas, e todas reveladoras de um tipo de prática intelectual que é a antítese da boa ciência. Ou de qualquer prática intelectual.Eis duas teses diferentes: 1) todo o conhecimento substancial é empírico; 2) todo o conhecimento substancial da realidade espácio-temporal é empírico. 1 é muito diferente de 2 e uma pessoa pode aceitar 2 e rejeitar 1. Uma pessoa pode defender que há conhecimento substancial a priori, que é precisamente o caso da matemática e da lógica, mas que esse não é conhecimento sobre a realidade espácio-temporal. Essa pessoa terá então de dizer sobre que realidade é esse conhecimento. Russell, por exemplo, defendia que temos conhecimento a priori de universais e relações, e que este conhecimento é realmente substancial, mas não é conhecimento sobre a realidade espácio-temporal, e que todo o conhecimento da realidade espácio-temporal teria de ser a posteriori.Mas uma pessoa pode ser mais radicalmente empirista, como os positivistas lógicos eram, e defender que o conhecimento a priori nem sequer é substancial, nem mesmo sobre qualquer realidade que não seja espácio-temporal, como os universais ou as relações. A rota típica para fazer isso é defender que o conhecimento a priori é meramente linguístico. Para fazer isto é preciso também conceber a linguagem não como uma coisa corriqueira do mundo, como árvores e mesas, mas antes como uma espécie de névoa fantasmagórica sem realidade definida. Isto porque se a linguagem tivesse uma realidade como as árvores e as cadeiras e dado que o conhecimento a priori seria conhecimento da linguagem, teríamos afinal de contas conhecimento substancial de uma realidade espácio-temporal: a linguagem. Esta posição é por isso teoricamente instável.Outra posição muitíssimo radical, e que eu favoreço, é que sem o concurso da experiência e do a priori nada poderia ser conhecido. O conhecimento seja do que for tem sempre elementos empíricos e elementos a priori. Sem a experiência não posso saber se há água em Marte, mas sem a matemática não posso saber como é a órbita de Marte. Sem experiência não posso testar hipóteses, mas sem raciocínio não posso sequer levantar hipóteses e ainda menos concluir seja o que for com base na experiência. Quando se perde o medo virginal de misturar conhecimento a priori com conhecimento a posteriori ganhamos uma visão muitíssimo mais plausível do conhecimento humano. E que se lixe o facto de algumas pessoas pensarem que o a priori por alguma razão não é “científico”. Defender ideias com base no que queremos à partida que seja verdade para sustentar as nossas cruzadas ideológicas é uma perversão da capacidade humana para tentar descobrir como as coisas realmente são.
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October 17 2008, 7:55pm | Comments »
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