A leitura do texto do escritor Cristovão de Aguiar, aqui publicado, sobre um problema de (sua) saúde que se arrasta e os correlativos contornos do atendimento profissional que finamente descreve, coincidiu com a segunda leitura que faço, mais atenta do que a primeira, do livro Ser bom não chega, da autoria de Atul Gawande, professor catedrático de cirurgia em Harvard (Lua de Papel, 2009).Conduzida pelo texto do escritor, destaço as seguintes passagens do livro do médico cirurgião (páginas 16-22), que condensam o essencial do que trata (sublinhados meus):“O que é preciso para se ser bom numa coisa onde o erro pode acontecer com tanta facilidade? Quando era estudante e depois interno, a minha preocupação mais profunda era ser competente. Mas o que aquele interno sénior revelara naquele dia era mais do que competência – compreendera não só a forma como uma pneumonia normalmente evolui e deve ser tratada, mas também a maneira de a detectar e combater naquela paciente específica, naquele momento específico, com os recursos e os auxiliares específicos que tinha ao seu dispor. Muitas vezes as pessoas procuram nos grandes atletas lições de desempenho. E, para um cirurgião como eu, os atletas têm realmente lições a dar – acerca do valor de perseverança, do trabalho árduo e da prática, acerca da precisão. Mas o êxito em medicina tem dimensões que não podem ser encontradas num campo de jogos. Para começar, há vidas em risco. As nossas decisões e omissões, consequentemente, são de natureza moral. Também enfrentamos expectativas assustadoras. Em medicina, a nossa tarefa é lidar com a doença e possibilitar que cada ser humano tenha uma vida tanto mais longa e liberta de fragilidades quanto a ciência permitir. Os passos são muitas vezes incertos. Os conhecimentos que é necessário dominar são simultaneamente vastos e incompletos. No entanto, espera-se que sejamos céleres e firmes (…). Também se espera que façamos o nosso trabalho de forma humana, com carinho e preocupação. Não é só aquilo que está em jogo numa situação concreta, mas também a complexidade do exercício da medicina que torna as coisas tão interessantes e, ao mesmo tempo, tão perturbadoras (…).Como médicos, assumimos este trabalho pensando que é tudo uma questão de diagnósticos cuidados, competência técnica e alguma capacidade para criar empatia com as pessoas. Mas não é, como rapidamente descobrimos. Em medicina, como em qualquer profissão, temos de lutar contra sistemas, recursos, circunstâncias, pessoas – e também contra as nossas limitações. Enfrentamos obstáculos de uma variedade aparentemente interminável. E, contudo, temos de andar para a frente, melhorar, aperfeiçoar (…).Os capítulos deste livro analisam três condições essenciais para o êxito em medicina – ou de qualquer esforço que envolva riscos e responsabilidade.O primeiro é a diligência, a necessidade de prestar atenção suficiente ao pormenor, para evitar erros e ultrapassar os obstáculos. A diligência parece uma virtude fácil e de menor importância (basta prestar atenção, não é?). Mas não é nenhuma das duas coisas. A diligência é ao mesmo tempo fundamental e cruelmente difícil para o exercício da medicina (…)O segundo desafio é fazer bem. A medicina é uma profissão profundamente humana. Como consequência, está sempre a ser perturbada por falhas humanas, falhas como ao avareza, a arrogância, a insegurança, o equívoco (…)A terceira condição para o sucesso é o engenho – pensar de novo. O engenho é muitas vezes incompreendido. Não é uma questão de inteligência superior, mas de carácter. Exige, acima de tudo, a vontade de reconhecer o fracasso, de não tapar o sol com a peneira – e de mudar. Resulta de uma reflexão deliberada, quase obsessiva sobre fracasso e de uma procura constante de novas soluções. Estes são comportamentos difíceis de cultivar – mas estão longe de ser impossíveis (…)Melhorar é um trabalho constante. O mundo é caóticos, desorganizado e incómodo e a medicina não escapa, de modo nenhum, a essa realidade. Para complicar as coisas, nós, na medicina, também somos humanos. Somos distraídos, fracos e estamos imersos nas nossas próprias preocupações. Mesmo assim, a vida de médico está ligada à vida de outras pessoas, à ciência, e nós vivemos no ponto de união desordenado e complicado entre as duas. Temos uma visão de responsabilidade. A questão, então, não é saber se aceitamos a responsabilidade. Pelo simples facto de fazermos este trabalho, já aceitámos. A questão é, uma vez aceite essa responsabilidade, como fazer bem este trabalho.”Nota: Da obra referida e de outra o De Rerum Natura deu notícia aqui e aqui.
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Cirurgiões e atletas
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January 1 2011, 7:54pm | Comments »
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O Erro no Desempenho Profissional
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CONFERÊNCIA: O Erro no Desempenho ProfissionalConferencista: José Fragata, Médico-cirurgião de cardiologia e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. Interessa-se pelo erro humano na área da saúde. É co-autor do livro O erro em medicina.No próximo dia 8 de Outubro, sexta-feira, pelas 16h30,no Auditório da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de CoimbraA conferência é aberta ao público (com certificado de presença).
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October 6 2010, 6:34am | Comments »
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Como é que podemos melhorar?
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Num excelente documentário sobre o erro na área da saúde, transmitido pelo segundo canal da televisão portuguesa e do qual, infelizmente, não registei o título, uma médica fala, em determinado ponto da necessidade de recolher e analisar os eventos adversos das práticas clínicas. Iniciativa que assumiu por sua conta e risco:"É evidente que os hospitais podem melhorar em diversos campos. Para lá se chegar torna-se essencial uma diligência: assinalar sistematicamente todos os acidentes que aí ocorrem.Dra. Bara Ricou (Cuidados intensivos de cirurgia): Há uma medida que poderia ser aplicada: o ser-se capaz de assinalar os incidentes, fazer uma listagem deles e analisar porque ocorreram. Creio ser esta uma medida que há que tomar forçosamente, estamos numa fase de reflexão e creio que ela é essencial para que possamos avançar.Entrevistador: Desde quando faz um levantamento dos incidentes no seu serviço?Dra. Bara Ricou: Desde há pouco mais de um ano que fazemos o levantamento de todo o tipo de acidentes. E há alguns que nos preocupam para podermos avançar, para pensar: “como é que podemos melhorar?” Os acidentes acontecem na sequência de processos. Nunca é só uma pessoa que comete o erro.Entrevistador: Quantos é que diria que há por ano?Dra. Bara Ricou: Cerca de uma centena. Mas não tenho de os ter todos reportados. Isso foi feito numa base de voluntariado."
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July 13 2010, 1:57pm | Comments »
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Erros médicos vão constar de registo nacional
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Pela sua importância e carácter inovador, destaco uma notícia do Jornal de Notícias, da autoria de Carla Soares.Ao nível do Ministério da Saúde foi criado um grupo técnico que se encontra a trabalhar num sistema nacional de registo de eventos adversos, com destaque para os erros clínicos. Esse registo “poderá ser voluntário ou compulsivo, anónimo ou identificado”.O espírito é o que deve ser: "idealmente, não punitivo, confidencial, independente, efectuado por peritos e orientado para a organização”, isto para prevenir os erros e desenvolver culturas institucionais de análise e aprendizagem, que dispensam a imediata "culpabilização" que faz calar e, obviamente, repetir os erros.
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July 13 2010, 8:20am | Comments »
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Sobre o erro
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Sabendo uma leitora que o De Rerum Natura se tem interessado pelo erro humano, enviou-nos uma lista de citações de pessoas cujo pensamento sobre este fenómeno contribuiu para o seu estudo."Quem confessa os seus erros é mais sábio hoje que ontem."Alexander Pope“Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram.”Voltaire"Confessar um erro é demonstrar, com modéstia, que se fez progresso na arte de raciocinar."Jonathan Swift"Ninguém é maior do que aquele que está disposto a que lhe assinalem os seus erros."Dave Barry"A ciência compõe-se de erros que, por sua vez, são os passos até a verdade."Júlio Verne"Se fechares a porta a todos os erros, a verdade ficará na rua."Rabindranath Tagore"Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar as opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender."Alexandre Herculano"Se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo."Bento Jesus Caraça“Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.”“O único homem que está isento de erros, é aquele que não arrisca acertar.”Albert Einstein“Críticos são sujeitos que passam anos procurando um erro dos escritores - a acabam encontrando.”Peter Ustinov“Contrariamente ao que crêem os chorões, todo o erro é uma propriedade que acresce o nosso haver. Em vez de chorar sobre ele, convém apressar-se em aproveitá-lo.”José Ortega y Gasset“O erro não se torna verdade por multiplicar-se na crença de muitos, nem a verdade se torna erro por ninguém a ver...”Mahatma Gandhi
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July 2 2010, 12:12pm | Comments »
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Deus não se queixa
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Os actos de Deus são realmente muito convenientes para desresponsabilizar os homens, porque Deus em geral não se queixa. Uma reportagem do programa Biosfera, já com dois anos, em que se faz uma antevisão bastante detalhada da tragédia na Madeira.
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February 25 2010, 6:19am | Comments »
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"Há coisas que não se podem reparar"
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Na sequência de texto anterior A pressão para trabalhar mal e doutros mais antigos sobre a temática do erro, bem como de comentários dos nossos leitores, registo o que se segue.Em 2002, o escritor Richard Zimler afirmou que são...“... raras as pessoas capazes da honestidade e da coragem moral de aceitar as responsabilidades por quaisquer problema. Se há doentes em diálise envenenados com alumínio, nunca é por culpa de nenhum médico, enfermeiro, técnico ou administrador… Na verdade, a culpa não é de ninguém! (…) Alguém já viu algum ministro, algum reitor de uma universidade ou um director de empresa reconhecer numa conferência de imprensa: «É verdade, tomei uma decisão errada e o que vamos fazer para a corrigir é o seguinte…»? Por mim, nem uma única vez. Como ninguém assume a responsabilidade pelo que quer que seja, os problemas ou nunca são resolvidos, ou são resolvidos lentamente e de forma incompleta."Os estudos científicos que incidem no tratamento do erro tendem a dar-lhe razão. Efectivamente, as condições relacionais e pessoais em que grande parte das actividades profissionais decorre são propícias ao seu encobrimento, ao seu rápido esquecimento, quando não à sua negação.Como o epistemólogo Carl Popper referiu essa é a nossa tendência natural (também podendo ser entendida como fruto de uma longa aprendizagem), que se impõe contrariar, em nome da rectidão, da seriedade e do progresso do conhecimento.E isso está a acontecer. Como excepção, admito, mas, ainda assim, está a acontecer, constituindo um incentivo moral e prático para quem, por múltiplas razões, não pretende esconder ou mistificar erros seus ou alheios, que, ao contrário, sente ser seu dever encará-los, assumi-los e comunicá-los, ainda que eles seja extemos, que não haja forma de os reparar.Nessa medida, depoimentos como o de António Barba Ruiz de Gauna (na fotografia em cima), Director do Hospital Gregorio Marñón, de Madrid, sobre um erro que conduziu à morte de um criança, o pequeno Rayan, são de guardar na nossa memória:"O pessoal da enfermaria...., custa-me dizer estas coisas, mas tenho de dizê-las, num determinado momento confundiu uma medicação - ou melhor, a via de administração para que percebam bem - da alimentação do bébé, administrada por sonda nasogástrica, como deve ser feito no caso de um prematuro, confundiram-na com a via venosa. O Hospital Gregorio Marñón assume todas as responsabilidades possíveis, tanto humanas como patrimoniais. Sabemos que há coisas que não se podem reparar, estamos completamente de acordo..." (13 de Julho de 2009).
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February 21 2010, 7:14am | Comments »
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A interferência do erro nas decisões humanas
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O texto que se segue resulta da compilação de dois comentários da autoria do leitor João Boaventura a um recentemente publicado no De Rerum Natura. Nele se explica uma sequência de decisões humanas que se revelaram tragicamente erradas. Pelo seu interesse e clareza, aqui lhe damos o destaque lhe é devido.Nos cinco anos que precederam o lançamento da nave espacial Challenger vários estudos incidiram na deterioração das juntas dos dois cilindros laterais "bloosters", provocada pela excessiva sensibilidade ao frio. Estas juntas são consideradas peças críticas, segundo a terminologia da NASA, pelo que, antes de se proceder a qualquer lançamento é necessária uma autorização ao mais alto nível.Em 1980, as juntas eram catalogadas como "críticas de 2.º nível", passando, em 1982, a "críticas do 1.º nível", designações suprimidas a partir de 1983. Porém, algo deve ter corrido mal para voltarem a ser "críticas" em 1985, com a relevância de que a autorização para lançamentos já podia partir de níveis intermédios.Seis meses antes do lançamento, um engenheiro da empresa produtora de "boosters" apresentou um relatório à direcção, onde exprime o seu "fundado receio de uma catástrofe terrível", se o problema das juntas não não ficar eficientemente resolvido. Outro engenheiro da mesma empresa solicitou a suspensão da entrega dos "boosters", com este aviso: "This is a red flag".Um mês antes do lançamento a empresa dos "boosters" solicitou que as juntas deixassem de ser "peças críticas", ao que o responsável da NASA recusou mas, perante a insistência acaba por anuir, mantendo o ano de 1986 para o lançamento da nave.No dia 27 de Janeiro de 1986, véspera do lançamento, os engenheiros da Morton Thiocol, no Utah, informados sobre as temperaturas baixas na Florida, ficam extremamente preocupados porque as juntas não foram testadas a tão baixas temperaturas, o que leva a empresa construtora a solicitar uma urgente teleconferência com a NASA, que levanta dúvidas sobre o lançamento no dia seguinte. Para uns, a solução é adiar, mas, para outros, a empresa de Utah não teria sido muito explícita.Perante esta emergência, dezoito altos responsáveis e engenheiros da Morton Thiokol, e dezasseis responsáveis da NASA, teleconferenciam sobre o problema posto pelas baixas temperaturas.Os engenheiros explicaram que o efeito de tão baixa temperatura é o de não permitir o enchimento das juntas com a consequente fuga do carburante e explosão. Posto isto a empresa propôs o adiamento do lançamento e solicitou uma pausa para reunião interna sobre melhor solução.Na reunião empresarial dois engenheiros "declaram violentamente" que é imperioso evitar o lançamento, enquanto outros se mantêm silenciosos. O engenheiro responsável pelo estudo de projectos opõs-se igualmente ao lançamento. Perante esta quadro negativo para a empresa, os três directores responsáveis isolam-se com o engenheiro responsável, ao qual solicitam: "Take off his engineering hat and put on his management cap".Enquanto aguardam as novas explicações da Morton Thiakol, o chefe responsável da empresa adido ao centro espacial Kennedy, na Florida, aconselhou veementemente o director da NASA a adiar o lançamento, mas discordou alegando que as juntas já há muito haviam deixado de ser peças críticas, o que se comprovava com os 24 precedentes lançamentos efectuados.A teleconferência empresa -NASA foi retomada já perto da meia noite, véspera do lançamento. A empresa declarou que a nave podia ser lançada, o que confirma em fax assinado pelo responsável, mas sem a assinatura dos dois engenheiros que recusaram pactuar com a decisão errada.No centro espacial Kennedy três altos responsáveis da NASA reúnem-se com o chefe do projecto da empresa adido, para lhe comunicarem que a referida empresa tinha concluído que a nave podia ser lançada sem qualquer risco, o que o surpreendeu e o levou a instar uma vez mais pelo adiamento, mas sem resultado.No dia 28 de Janeiro de 1986, às 11:38, assistimos ao lançamento da nave com os resultados previstos.
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February 19 2010, 5:07pm | Comments »
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"A pressão para trabalhar mal"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/02/pressao-para-trabalhar-mal.html
Tantos epistemólogos como ergonomistas são unânimes em afirmar que, como profissionais, devemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar errar. Mas, por muito conhecimento e perícia que tenhamos, e por muito responsáveis que sejamos, isso não impede o surgimento de erros, porque, como humanos que somos, não conseguimos prever e controlar todas as variáveis que surgem em certas situações laborais. Assim, além de prevenirmos os erros que é possível prevenir, devemos estar atentos aos que conseguimos detectar e corrigi-los, de modo imediato ou mediato, tirando daí ensinamentos para o futuro.Esta orientação que parece muito simples e fácil de seguir, é de uma complexidade e dificuldade extraordinárias, só conseguindo concretizar quando se reúnem diversas condições a saber: conhecimento aprofundado, competência técnica, sentido da responsabilidade, honestidade, coragem. E, claro, porque as instituições e empresas implicam várias pessoas nas mesmas tarefas, trabalho em conjunto.Neste trabalho é desejável que toda a gente esteja na mesma rota de pensamento e se guie por propósitos construtivos, direccionado para o que se entende estar bem, ser verdade, certo. Tendo, nessa medida, cada um o dever de encarar os seus erros e de os assumir face aos outros, de ajudar os outros a fazerem o mesmo e de se deixar ajudar pelos outros. Isto sem ponderar as consequências negativas que daí possam advir para si, em termos de avaliação negativa do desempenho que se pode traduzir em insegurança no emprego ou perda de regalias... Sendo, até, mais valorizado quem encontra falhas, lacunas naquilo que faz, quem aceita reconhecer as que lhe são imputadas...É por causa desta cultura do erro que se consegue concretizar em certos contextos laborais, que os acidentes em sectores fundamentais da sociedade (aviação, medicina, informática...) são mais raros do que seriam se ela não existisse.Mas o que acontece quando as pessoas são pressionadas para se direccionarem, em primeiro lugar, para a produção em quantidade e para darem uma imagem de si como profissionais perfeitos, sem quaisquer problemas, até porque o contrário implicaria uma avaliação menos positiva do seu desempenho e poderia ser desprestigiante para a instituição ou empresa que lhe assegura a subsistência?A resposta é aquela em que o leitor está, certamente, a pensar: a cultura do erro é substituída pela sua ocultação e, mesmo, pela sua negação, a que se junta o isolamento de quem o identifica e de ousa expô-lo... para o tratar e, posteriormente, evitar...Christophe Dejours, autor a que me referi em texto anterior, num dos seus livros, apresenta um exemplo muito claro deste dilema que afecta muitos e em silêncio, claro está.Trata-se de um engenheiro, recentemente designado para uma garagem da SNCF(Societé National des Chemins de Fer Français). Alguns dias após a sua chegada, toma conhecimento da informação sobre um acidente ocorrido num sector da ferrovia pelo qual é responsável. A cancela de uma passagem de nível não baixou à passagem de um comboio. Nesse momento não havia ninguém na estrada, nem a pé nem de carro.Em reunião de trabalho, o engenheiro relata o incidente. Os dispositivos automáticos não funcionaram. Após o incidente, a cancela voltou a funcionar normalmente, sem nenhuma intervenção técnica (…). Porém, o facto é inquestionável. Qual é a causa? Onde está o defeito? Silencio geral entre os colegas. O novo engenheiro insiste, mas os demais minimizam a importância do facto. O engenheiro não pensa assim e, entendendo que o incidente é grave, exige uma investigação técnica completa. O grupo vai aos pouco isolando o novato insistente. Porquê?As mudanças estruturais (…)deixaram os quadros tão sobrecarregados de trabalho que eles dizem “deixa lá”. Não podem, é claro, admitir tal situação oficialmente e limitam-se a recusar a investigação proposta pelo novo colega porque ela seria difícil e demoraria tempo e trabalho. Além disso, insistem no facto de que, desde o ocorrido, a cancela aparentemente funciona (…)Os ânimos exaltam-se. O engenheiro recusa-se a desistir da investigação (…). Por fim, o chefe (…) intervém:Chefe: Houve descarrilamento do comboio?Engenheiro: Não!Chefe: Houve colisão com algum veículo ou peão?Engenheiro: Não!Chefe: Houve feridos ou mortos?Engenheiro: Não!Chefe: Então não houve incidente. O caso está encerrado.Ao sair da reunião, o engenheiro não se sente bem, está arrasado, não entende a atitude dos outros; tão pouco a sua unanimidade. Fica na dúvida, não sabe se está a seguir o regulamento e o sentido ético (…) ou se, ao contrário, está dando mostras de perfeccionismo e teimosia descabida, cumprindo-lhe, nesse caso, rever toda a sua vida profissional. Nos dias seguintes os colegas evitam comer à mesma mesa que ele e dirigir-lhe a palavra (…) O cerco aperta-se."Referência completa: Dejours, C. (2007, edição original: 1998). A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro, Editora FGV, páginas 32-33. O texto apresentado sofreu ligeiros ajustamentos para o português de Portugal,
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February 18 2010, 8:59am | Comments »
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É possível sobreviver sem avaliação do desempenho?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/02/e-possivel-sobreviver-sem-avaliacao-do.html
No Jornal Público de 30 de Janeiro de 2010 foi publicada uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, professor no Conservatoire National dês Arts et Métiers, em Paris.Nessa entrevista, o especialista com obra reconhecida na área da Psicologia do Trabalho e da Acção apresenta o essencial das análises que tem feito sobre a avaliação individual do desempenho profissional que está a ser implementada em inúmeros países, nos mais diversos sectores, em instituições e empresas públicas e privadas, sob o pretexto de aumentar a qualidade trabalho e a iguladade e justiça social.Trata-se de análises que não deviam ser ignoradas porque há nelas factores de sobra para nos preocuparmos directamente e a curto prazo com a saúde física e psicológica dos profissionais, a qual se reflectirá no funcionamento social e técnico das instituições onde estão integrados, que, por sua vez, se reflectirá no atendimento às pessoas que a elas se dirigem. Menos directamente e a mais longo prazo, mas de modo mais sério e profundo, reflectir-se-á no modo como nos vemos e vemos os outros, como encaramos a nossa existência e que sentido lhe atribuímos, como estruturamos os valores que fundam a cultura em que nos estruturámos como pessoas.Da referida entrevista destaco uma passagem, pela alternativa que aponta, pela possibilidade que abre de repensamos a relação que temos ou devíamos ter com aquilo que fazemos na vida e com a vida."Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?Hoje, estou em condições de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patrões não participam do cinismo geral e pensam que a empresa não é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produção, que não pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber são os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam tão bem servidos como os ricos – que tenham aquecimento, telefone, electricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade. Há também muita gente que acha que produz coisas boas – os aviões, por exemplo, são coisas belas, são um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da protecção do ambiente. O lucro não é a única preocupação destas pessoas. E, entre os empresários, há pessoas assim – não muitas, mas há pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre.E, na sequência das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliação do desempenho.Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.O que fizeram?Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas. Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo. Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto. Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente."
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February 18 2010, 7:28am | Comments »
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