A propósito da abertura da Casa da Escrita, em Coimbra que acontece no dia de hoje.«…esta casa em que vivi parte da minha infância triste, ensombrada de doenças, as deslumbradas descobertas da adolescência, as certezas e os entusiasmos da juventude; esta sala por onde passaram quase todos os amigos (poucos mais haveria de ter) e onde tantos sonhámos juntos, onde o Lopes Graça me revelaria as primeiras noções teóricas da música, onde nos reunimos em discretos encontros ou em largas assembleias tempestuosas, para discutir os problemas de que dependia a sorte do Mundo (e então, com o nazismo à porta, e as incertezas da última guerra dependia a valer), ou para sessões de trabalho submersas em fumo de cortar à faca, onde se entreteceram verdes amores, efémeros uns, duradoiros outros, onde nasceram a Altitude, o Novo Cancioneiro e o Vértice; a esta mesma pesada mesa de castanho, que serviu de banca de estudo e de aprendizado literário, centro de traduções (Steinbeck, Aragon, Sherwood, Anderson, Laclos… e comigo à roda da mesa o Rui Feijó, o Carlos de Oliveira, o Veludo, o Henrique Santo) secretária de redacção e administração (todas as publicações começaram por ter sede na Rua do Loureiro, número nove), balcão de empacotamento (quando os primeiros Vértices eram levados para o correio dentro da capa do Arquimedes, segura por três pontas) e a que me sento agora a tentar reunir os fragmentos da história encantada do passado». É assim que João José Cochofel (Críticas e crónicas, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1982, 42-43) evoca o seu palacete da Rua do Loureiro, na Alta de Coimbra, «onde o tempo parece suspender-se entre as paredes grossas de mais de metro, [e] a toda a altura dos tectos de estuque ornamentado» e que foi lugar de acontecimentos culturais e literários da maior relevância para o tempo, tendo deixado marcas fundas, como todos sabem, na literatura portuguesa do século XX.Aqui nasceu, a bem dizer, o Neo-realismo e as revistas que lhe deram apoio teórico, aqui se reuniu a maioria dos seus grandes nomes. Rui Feijó, no prefácio da obra referida e que reúne textos escritos por Cochofel muito antes, acrescenta o quadro «…foi ainda na casa de João Cochofel, que tantos puderam ler pela primeira vez Proust, Malraux, Faulkner ou Charles Morgan, encontraram as edições da Presença, números da Contemporânea, viram poesias de Pessoa. Ou puderam ouvir – estávamos longe da era dos gira-discos e das 33 rotações – obras de Ravel e Prokofief. Na casa de Cochofel, à sombra tutelar de sua Mãe, cuja cultura e elegância tanta influência exerceram na formação do filho, e tão acolhedoramente sabia receber os seus amigos» se travaram discussões acaloradas, se delinearam acções políticas, se trabalhou para páginas culturais de jornais de província, ou para o Ateneu de Coimbra, ali ao lado, se sonhou com o futuro, idealizando perigosamente no cinzento tempo português dos anos 40.No dizer de Rui Feijó «Cochofel foi a mola-real, o amigo discreto, o interlocutor necessário para tanto projecto e para tanto sonho. E os que passaram por lá chamam-se Fernando Namora, Fernando Lopes Graça, Joaquim Namorado, Luís de Albuquerque, Maria da Graça Amado da Cunha, Arquimedes da Silva Santos, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira». E outros ainda como Duarte Pires de Lima, Egídio Namorado, Manuela Porto, Afonso Duarte.Enfim, mais do que uma geração, e a geração do Neo-Realismo, combatendo a anterior, a da Presença, face à necessidade de intervir, de transformar as canções e as vozes em arma. Sinais dos tempos que se viviam, ardores de uma juventude cheia de ideais e de vontade de melhorar o Mundo e a vida dos homens.É esta casa que a Câmara Municipal de Coimbra transformou em Casa da Escrita. Com este património cultural, com esta história, e sendo o belo exemplo arquitectónico que é, na Alta de Coimbra, só podemos congratular-nos com o acontecimento. Que o Carlos Seabra Pereira saiba dar àquele lugar a segunda vida que merece. Acreditamos que sim.João Boavida
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A Casa da Escrita
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November 28 2010, 5:57am | Comments »
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José Rodrigues Miguéis
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José Rodrigues Miguéis está hoje esquecido, ou quase, mas injustamente, porque ele é um escritor de primeira água, um dos grandes nomes do século XX, e é triste não se verem os seus livros à venda enquanto se transaciona contrafação literária por aí, a monte, em inúmeras Feiras do Relógio.Artur Portela (filho) em plena campanha do Novo Romance, na década de 60, acusou-o de ser irrecuperavelmente queiroziano, o que não tem hoje nenhum sentido. Ao tempo era preciso romper com a estrutura do romance clássico, à moda dos realistas, mas isso já tinha sido feito por outros (Joyce, Musil, Kafka, Virgínia Woolf, Faulkner, para não falar em Robbe-Grillet e companhia, que ele andava então a promover). Era necessário fazê-lo cá, e Artur Portela meteu-se nessa campanha como numa roga de vindima. Era preciso romper, entre nós, com estrutura, sintaxe, temática, pontuação, ortografia, enfim, com tudo, de tal modo que se falou na «morte do romance». É certo que agora vemos o resultado do funeral desse género literário, tal como o século XIX o produziu ao mais alto nível.Mas isso, se é muito para a evolução que as coisas tomaram (e não só no romance, mas em todas as áreas da criação) a cinquenta anos de distância deve ser relativizado. Estamos na fase de perceber o cíclico destas coisas, e uma vez tudo “desconstruído”, começou já a recuperação de certas exigências narrativas, assimilando embora as novas possibilidades.Esperemos que a hora de Rodrigues Miguéis volte, porque é hoje já um clássico. Não alinhava pelos neo-realistas ortodoxos, e isso custou-lhe dissabores, mas também não rompeu com a estridência de um Vergílio Ferreira, por exemplo. Como se sabe, esse entre cá e lá nem sempre é vantajoso. Mas ele não o fez por cálculo, mas por razões artísticas. E não tem sentido a crítica de Portela porque, por um lado, a qualidade navega por cima de todas as águas, e onde ela existe não há lugar para epígonos, por outro ele é muito diferente de Eça de Queiroz.Rodrigues Miguéis, homem formado na primeira metade do século XX, influenciado por Camilo, por Raul Brandão, às vezes “próximo” de alguns mestres russos, e tendo passado quase toda a vida longe da Lisboa, onde nasceu e foi criado, quase se pode dizer que, com os imensos recursos literários que tinha, não sentiu necessidade de enveredar por uma linha de rotura. A situação de emigrante, de longamente ausente, ao reforçar a sua veia evocativa e afectiva da Lisboa da sua infância, obrigou-o, de algum modo, a servir-se de uma estrutura clássica. Mas mais aparente que real, porque as suas novidades estilísticas são muitas, tendo sido formalmente bastante moderno.João José Cochofel (Críticas e crónicas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, pp.238-241, crónicas escritas muito antes desta data, embora não possa precisá-la ao certo) falando de “Escola do Paraíso”, considera a obra «um livro novo, na perspectiva da novelística portuguesa actual» e refere a inovadora e «subtilíssima indeterminação» entre o autor e a personagem principal, e na «descontinuidade microscópica de pequenas manchas que, por acumulação, vão criando a ilusão de um fluir contínuo». Mas o melhor dele é, como diz ainda Cochofel, a sua «linguagem tão ágil e essencial que a narrativa não parece precisar das palavras para se apresentar ao leitor», ou ter o próprio Miguéis «o sentimento de que o leitor se deixará arrebatar sem saber como, sem ver as frases, as palavras».Relativamente a Eça, Miguéis é menos formal, mais dúctil, mais psicológico, mais angustiado, menos irónico, e sobretudo nada cáustico. Mas tem uma cor, uma agilidade, um amor às pessoas e às coisas, uma aderência narrativa às histórias e às situações que o distanciam de Eça e o tornam muito mais moderno. É pois um autor a recuperar e a divulgar.João Boavida
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November 25 2010, 1:18pm | Comments »
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O nacionalmasoquismo
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Novo texto de João Boavida, na sequência de outros sobre Jorge de Sena, já publicados no De Rerum Natura."Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologiamas andou na Rua da Sofia.É inteligente, arguto, viajadomas vive sempre com a aldeia ao lado.Que há nestes portugueses que é como um sarro azedo,um cheiro de vinagre ou carrascão de medo,a que se agarram quais lapas ao Penedoda Saudade? Não há filosofiaque salve quem andou na Rua da Sofia"Este é um poema de Jorge de Sena, aparecido há pouco numas Dedicácias (Guerra e Paz) e “dedicado” a alguém de Coimbra. É muito interessante porque tem várias contradições, muito à moda de Sena, mordaz para tudo o que é português. Tal como todos nós.Jorge de Sena, já o disse aqui, é um dos grandes vultos da literatura e da cultura do nosso século XX. Talento multiforme, riquíssimo, mas de verbo violento e ácido, algo truculento, às vezes mesmo caótico, apoiado numa energia imensa e numa capacidade intelectual fora do vulgar. É curioso que não tenha resistido a lançar a sua ferroada a Coimbra, servindo-se de alguém que «é inteligente, arguto e viajado», mas que, apesar disto, tem o grande defeito de viver «sempre com a aldeia ao lado». E mais, que «sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia» mas, olha que azar, «andou na rua da Sofia». Nada a fazer, portanto.Bem gostava de saber quem lhe teria inspirado o poema. Algum amigo, professor de filosofia – domínio que Sena expressamente admirava e lamentava não possuir, ele que tinha muitos talentos e que tanto gostava de os atirar à cara dos outros.Mas, por que razão é que alguém, «arguto, culto e viajado» não se salva só porque tem a aldeia ao lado? Sena, que andou por várias cidades do mundo com livralhada e filharada às costas, à procura de uma cátedra de literatura portuguesa, não nos perdoava, pelos vistos, o vivermos (alguns) na Rua da Sofia, digamos assim. Mesmo que viajados e filhos de um povo que anda, e sempre andou, pelo mundo inteiro, esgravatando pela vida.Talvez que o problema seja desse alguém ter a “sorte” de ter uma cátedra aqui, em Coimbra, e ele não (embora tenha estado perto disso, diga-se). Ou de ser versado em Hegel, fenomenologia e outras filosofias, coisa que ele admirava e invejava. Os humanos, mesmo os superiores, têm destes ressentimentos.E por que não a filosofia na Rua da Sofia? Rua pensada para a cultura, cheia de colégios, que poderia servir de modelo a muitas cidades universitárias de hoje. E que só a falta de vista do Antigo Regime não transformou em prolongamento ideal da Universidade de Coimbra, no século XX. Libertando-a, é claro, dos acrescentos militares, administrativos, comerciais e outros que mais, que os séculos lhe foram pondo em cima. De qualquer modo, talvez nenhum lugar em Portugal se adequasse tanto, em filologia, ideia, história e arquitectura, à filosofia, como a Rua da Sofia.Mas o problema de Sena poderá ser só, afinal, a necessidade de dizer mal de nós próprios, mesmo que, para isso, tenha que ser injusto atacando-nos no que de melhor temos. Há, em tudo isto, uma paranóia, que nós não vemos, mas que os estrangeiros descobrem logo, e consideram bastante estranha nos portugueses. E, já agora, que diria do grande Emanuel Kant, o maior filósofo da modernidade, que em toda a longa vida quase não saiu da sua cidadezinha de Könisberg?
July 20 2010, 3:57pm | Comments »
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Porque a biblioteca não serve apenas apenas para ler
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No cr de vialonga.
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June 27 2010, 12:34pm | Comments »
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Parabéns
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Pelas dinâmicas de leitura ontem testemunhadas na Escola Secundária de Valbom.
February 26 2010, 4:56am | Comments »
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MUITO BARULHO POR NADA
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Do nosso leitor e escritor Cristóvão de Aguiar recebemos o texto que se segue:MUITO BARULHO POR NADAMUCH ADO ABOUT NOTHINGOU A BÍBLIA SEGUNDO SARAMAGOPONTO FINAL E DISSENo Jornal de Letras, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde analisado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (sublinhado meu) ilustradora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de everything goes), isto é, a confluência de um léxico antigo e vernacular – avonde (pp.16 – com um vocabulário moderno, desenhando um melting pot semântico, aparentemente espontâneo, pelo qual a lógica do texto cria as suas próprias hierarquias gramaticais e ideológicas (...).O estilo enxuto, descarnado, nunca foi dom de Saramago. O escritor explica tudo até à exaustão, o que não raro se torna enfadonho. Dir-se-ia que há uma inundação de palavras, grande parte delas inúteis, como se tivesse ocorrido uma séria avaria na canalização provinda da nascente criadora. Por esta e outras razões, muita boa gente letrada costuma(va) afirmar, em surdina (o politicamente correcto vigora com força), que se a certos livros de Saramago fossem retiradas cem ou cento e cinquenta páginas, não perderiam nada: pelo contrário, ficariam mais claros, exactos, sucintos…Quando assim acontece, alguma coisa está podre no reino da literatura. A arte de dizer muito em poucas palavras é difícil, dura, requer muito esforço, muita lima, muita monda… Escrever é cortar! Veja-se Miguel Torga, um dos mais elevados expoentes de concisão de escrita! Se lhe fosse retirada uma só palavra de uma frase ou de um verso, logo ficariam mancos… Não posso acreditar numa arte literária em que palavra menos palavra vai tudo dar ao mesmo…Os lugares-comuns sempre ocuparam uma posição de relevo na obra romanesca de Saramago. Só do romance Caim extraí uma caterva deles: máquinas de encher chouriços; do pé para a mão; dar tempo ao tempo; para aí virado; fazendo das tripas coração; carta branca; mal se podia ter nas pernas; dois coelhos de uma cajadada; a carne é supinamente fraca (genial, o acrescento do advérbio); chorar o leite derramado (expressão traduzida, à letra, do inglês: em português de lei seria: depois de o mal feito, chorar não é proveito; mas, veja-se a frase completa, para aquilatarmos da genialidade de quem a engendrou: “Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, e se abel foi morto de morte malvada é porque alguém lhe tirou a vida […] ” (Lili Caneças não diria melhor!) …E por aqui me quedo, que agora me não apetece fustigar mais. Uma nota ainda: durante a leitura do livro, ouvi dezenas de vezes, a matraquear-me no pensamento, o diálogo do Ambrósio com a Senhora, tantos são os algos que o escritor utiliza ao longo do livro: “O que eu queria era algo, Ambrósio, algo de bom, entende, Ambrósio?!” “Entendo, sim, Mylady”...Analise-se alguma da tão autoproclamada ironia saramaguiana, associada a um humor do mais fino recorte. Examinemo-los, contextualizados, em alguns passos de Caim:“Falaste como um livro aberto, disse o querubim, e adão ficou contente por ter falado como um livro aberto, ele que nunca havia feito estudos (…)”, pp. 30;“(…) Esta espada de fogo, para alguma coisa servirá finalmente, basta chegar-lhe a ponta em brasa aos cardos secos e à palha e tereis aí uma fogueira capaz de ser vista desde a lua (…) acabaria por pegar fogo ao jardim do éden, e eu ficaria sem emprego (…)”, pp.31;“O velho das ovelhas não estava ali, o senhor, se era ele, dava-lhe carta-branca (hífen da minha responsabilidade), mas nem mapa de estradas, nem passa¬porte, nem recomendações de hotéis e restaurantes (…)”, pp. 78;“Há que levar em consideração o facto de caim estar mal informado sobre questões cartográficas (…)”, pp. 80;Acerca do jerico em que caim percorria o mundo através do espaço e do tempo: “Pena não haver ali alguém que soubesse interpretar os movimentos das suas orelhas, essa espécie de telégrafo de bandeiras com que a natureza o dotara, sem pensar o afortunado bicho que chegaria o dia em que quereria expressar o inefável, e o inefável, como sabemos, é precisamente o que está para lá de qualquer possibilidade de expressão (…)", pp. 81 (uma das mais profundas definições de inefável jamais proferidas);“O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha (?) para chegar aqui (…)”, pp. 88… etc., etc.A conjugação verbal da segunda pessoa do plural é tão vulgar no Norte do País e em Trás-os-Montes, que toda a gente a sabe utilizar de olhos fechados. Ao invés, no romance Caim, as misturadas são frequentes. Do mesmo modo, o descaso votado à diferenciação de tempos verbais não é despicienda. Apenas um exemplo dos muitos que poderiam ser dados “[…] Ia, como alguém dirá, decentezinha [referência a Eva], embora não pudesse evitar que os seios, soltos, sem amparo, se movessem ao ritmo dos passos. Não podia impedi-los, nem em tal pensou (pensara, tinha ou havia pensado), pp. 26.No tocante à conjugação verbal da segunda pessoa do plural, analisemos apenas algumas em que o autor se ensarilha e ninguém dos seus acólitos lhe acudiu: “(…) Depois é convosco, aí já não posso nada, arranjem (arranjai) maneira de se juntarem (vos juntardes) à caravana, peçam (pedi) que os contratem (vos contratem) só pela comida, estou convencido de que quatro braços por um prato de lentilhas será bom negócio para todos, tanto para a parte contratada, quando isso acontecer não se esqueçam (vos esqueçais) de apagar a fogueira, assim saberei que já se foram (vos fostes) (…)”, pp. 31.Poderia continuar o massacre, mas não vale a pena: a um Nobel todos os pecados lhe são perdoados. Os estudiosos que o dissecam, como as beatas o Missal Romano, lá se encarregam de lhe transformar os erros em virtudes e em novas regras… Querem continuar sentados ao redor da fogueira, soprando em sustenido as trombetas da louvaminhice, rindo às gargalhadas quando o patrono conta ou escreve uma frase humorística, sem piada nenhuma, na esperança de conseguir, pela devoção que lhe dedicam, a sua migalhinha de fama e prestígio, no universo globalizado da literatura! É tempo de proclamar: O rei vai mesmo nu… Nuinho em folha!Outra das pechas que enxameiam o livro e a Língua Portuguesa: não tenho a menor dúvida, a menor ideia! Menor do que quê? Trata-se de um comparativo de inferioridade. Melhor seria escrever ou dizer não tenho a mais pequena dúvida ou a mínima ideia!Sobre o tempo dos verbos, no discurso indirecto, há também pouca segurança ou mesmo ignorância: em pano nobelizado também chovem nódoas negras… Que dizer desta frase de Eva, no Éden, em resposta a Deus passeando pela brisa da tarde (título do livro do mesmo nome, de Mário de Carvalho, retirado do Génesis: “A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso (…)”, pp.19.Haja Deus! Nem um simples discurso indirecto Eva consegue encarreirar… “Não disse que haja". "Não disse que havia”, assim é que está certo, D. Eva Saramago del Rio! A mesma sábia que escreveu: “Se Deus existisse, já tinha vindo falar com Voltaire e Saramago”. Ó prosápia das prosápias, tudo é prosápia e vaidade!Tempo de fechar a tenda desta escrita. Vou já arrumar o livro na estante, junto dos irmãos colaços. Tenho a esperança de que no futuro um dos meus trinetos ou tetranetos o tire da prateleira para o ler e possa, depois, atestar, com a segurança que o tempo costuma reiterar, ou retirar, às grandiosidades fabricadas no presente, nessa altura já pretérito muito perfeito: “Foi este o primeiro Nobel da Literatura de Portugal? De certeza?Quanto a mim, não insisto: desisto. Não sei se perdi ou ganhei tempo. Quando o embaixador de Espanha, Porras & Porras, apresentou as credenciais ao Rei D. Carlos para encetar as suas funções diplomáticas no nosso País, El-Rei terá comentado com um dos ministros do reino: “Não é pelo nome, é pela insistência”… Eu também não insisto mais. Nem que me caiam pedaços de céu velho em cima da cabeça. Mais não ponho na carta, já vai mui longa.Cristovão de Aguiar (texto publicado antes em: aguiarconraria.blogsome.com)
November 11 2009, 2:43pm | Comments »
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Os 55 anos de "A Sibila"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/os-55-anos-de-sibila.html
O programa de televisão Câmara Clara de 11 de Outubro de 2009 foi dedicado a Agustina Bessa-Luís "que a sua editora classifica como a maior «escritora portuguesa de todos os tempos», não se parece com ninguém. Um dia, disseram-lhe: «Gosto tanto da senhora que um dia destes até leio um livro seu». Agustina sabe que é muito conhecida e pouco lida"."No ano em que se assinalam os 55 anos de A Sibila e em vésperas do seu 87.º aniversário, os escritores Inês Pedrosa e Pedro Mexia, dois apaixonados pela obra e pela pessoa de Agustina, desfazem equívocos: Agustina escreve romances? Agustina é conservadora? Agustina é cáustica? Agustina despreza a poesia? Uma conversa que honra a inteligência e a alegria de Agustina Bessa-Luís."Pode o leitor ver o referido programa aqui.
October 14 2009, 10:02am | Comments »
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A escrita de São Tomás de Aquino
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/escrita-de-sao-tomas-de-aquino.html
A propósito de um texto publicado no De Rerum Natura, um leitor questiona se será possível uma pessoa, ainda que seja génio, pensar em duas coisas em concomitância. Mais precisamente, pergunta: será “mesmo possível ler e escrever ao mesmo tempo, ou ouvir e escrever, ou ouvir e ler?”Deixando de lado dados da Psicologia Cognitiva que nos informam acerca dos limites humanos para realizar, em parelelo e com sucesso, diversas tarefas, lembrei-me do exemplo que, em geral, é invocado quanto se aborda o assunto.Trata-se de São Tomás de Aquino, que estudou, escreveu e ensinou sobre tudo ou quase tudo o que no seu tempo era relevante nos campos da Teologia e da Filosofia. Diz-se que tinha uma capacidade extraordinária de concentração, lendo, pensando, elaborando e ditando a vários secretários ao mesmo tempo (há quem diga que eram quatro, mas já vi referidos mais), conseguindo, assim, produzir vários livros em simultâneo.
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October 10 2009, 4:12pm | Comments »
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Mais do que um livro
http://terrear.blogspot.com/2009/03/mais-do-que-um-livro.html
Será possível ensinar a escrever?Sónia Valente Rodrigues acredita que sim.Para guiar os professores nesta tarefa elaborou o livro"Projectos de Escrita". http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?prog=1833Em boa hora pensado, escrito, editado, lançado (em Paredes, na Casa da Cultura, lembro-me como se fosse ontem, e guardo ainda um registo impresso desse momento), divulgado.
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March 12 2009, 12:23pm | Comments »
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Aprender a escrever na sala de aula
http://terrear.blogspot.com/2009/02/aprender-escrever-na-sala-de-aula.html
February 14 2009, 10:36am | Comments »
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