A minha crónica semanal no "Diário de Coimbra".Esta é uma história que acaba em Coimbra.Um viajante biólogo galáctico que passasse pela terra há cerca de 145,5 milhões de anos atrás (início do Cretácio) observaria uma enorme diversidade de dinossauros, compaginando com pequenos mamíferos, tartarugas, répteis, crocodilos e insectos como os besouros (coleópteros), em florestas de fetos, cavalinhas, cicadáceas e algumas coníferas, etc. Se o viajante regressasse à Terra cerca de 80 milhões de anos depois (fim do Cretácio superior), há cerca de 65,5 milhões de anos atrás, ficaria surpreendido com uma profunda alteração na biosfera: uma perda de 60 % na biodiversidade, indicando que os ecossistemas do planeta teriam passado por momentos de dramática e súbita mudança – o evento KT. Contudo, a sensação de perda seria rapidamente substituída pela de maravilhamento por encontrar um planeta paradisíaco, revestido por uma flora tropical com inúmeras e novas espécies de plantas com flores (angiospérmicas), como as magnólias, cerejeiras, auracárias, faias, figueiras, palmeiras, entre outras famílias de arbustos e arvores florescentes, uniformemente distribuídas pelo planeta. Seria recebido por um planeta renovado e florido, refeito de um luto aparentemente inacabável e pesaroso!Sentiria um clima tropical global, com uma temperatura média cerca de quatro graus superior à dos nossos dias. Espantosamente, o viajante conseguiria encontrar, por exemplo, palmeiras distribuídas desde o equador a latitudes hoje ocupadas pela Gronelândia!Para além de novas espécies de animais mamíferos e plancetários, observaria revoadas de novas espécies de pássaros e enxames de novos insectos como borboletas e abelhas a participar co-evolutivamente na selecção de cores e padrões florais. Verificaria que alguns mamíferos pequenos não se tinham extinguido, mas sim evoluído, assim como inúmeros representantes de grupos de insectos como as moscas e besouros resistentes e já conhecidos desde a última visita.Se o imaginário viajante biólogo tivesse visitado na semana passada o terceiro planeta a contar do Sol, teria ficado com certeza muito admirado pela biodiversidade nos ecossistemas que nos últimos 60 milhões anos matizaram a biosfera da Terra. E, num recanto tropical no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, o viajante observaria que uma palmeira da espécie Phoenix sylvestris (originária do sul do Paquistão, Índia e Bangladesh) estava a ser abatida por um espécimen do Homo sapiens especializado no abate arborícola, sob as ordens das autoridades responsáveis. Exemplar único neste Jardim Botânico e talvez mesmo em Portugal, a palmeira, com cerca de 12 metros de altura e 78 anos de idade, foi declarada infectada por um escaravelho vermelho, coleóptero da espécie Rhynchophorus ferrugineus, originário da Ásia. Este besouro, com aspecto de tâmara, tem vindo a globalizar-se alastrando para África e Europa - terá chegado ao mediterrâneo europeu por volta de 1980.Hospedeiro de palmeiras, não participa na polinização das suas flores. Muito pelo contrário, durante a fase larvar do seu ciclo de vida, depois de ter eclodido dos ovos depositados na base da coroa da palmeira, alimenta-se de folhas novas e tenras, escava buracos com 1 metro de comprimento no tronco o que danifica tecidos internos vitais para a planta, soçobrando a morte da mesma.Para informação do turista galáctico, as outras espécies de palmeiras do Recanto Tropical do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, recordação viva de alguma vegetação do final do período Cretácico, irão ser alvo de tratamento de prevenção anti-escaravelho-vermelho, evitando assim um mesmo fim precoce: cinzas.António Piedade
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O BESOURO E A PALMEIRA
http://dererummundi.blogspot.com/2011/02/o-besouro-e-palmeira.html
February 21 2011, 8:05am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
DE PÉ SOBRE AS CINZAS
http://dererummundi.blogspot.com/2011/02/de-pe-sobre-as-cinzas.html
Crónica publicada no "Diário de Coimbra".Há cerca de 4 milhões de anos, numa região da Etiópia conhecida por Afar, uma espécie no tronco da nossa árvore filogenética conhecida por Australopithecus afarensis, ou “macaco meridional de Afar”, explorava as potenciais vantagens de conseguir caminhar sobre os membros posteriores, antepassados das nossas pernas, e, do alto dos seus cerca de 1,22 metros de altura, antecipar o horizonte. Há evidências de que as flutuações climáticas características do período designado por plio-plistoceno, com sucessivos períodos de glaciação, tiveram um impacto na vegetação e fauna da África austral, alterando o habitat do A. afarensis. Plantas herbáceas altas terão substituído a floresta densa e uma forte pressão selectiva terá ocorrido sobre os nossos antepassados, "beneficiando" aqueles que emergindo erectos da vegetação conseguissem antecipar o perigo de um predador, ou avistar, primeiro do que a concorrência, uma árvore com frutos nutritivos para si e sua descendência. Nesta mudança dramática no ecossistema, as alterações anatómicas e fisiológicas que permitissem uma locomoção bípede, para além de libertar os membros anteriores, que ficam livres para a descoberta de outras vantagens, garantiam reduzir para cerca de metade a energia do trabalho muscular associado ao andar. A energia sobejante fica disponível para outras funções, ou, noutro registo, é necessário menos alimento para sobreviver.Antecipar o perigo, detectar melhor a localização de alimento, reduzir a energia necessária à locomoção, aumenta a probabilidade de deixar uma maior descendência fertilizada com a variação bípede, garantia de uma melhor adaptação à mudança. Há cerca de 3,7 milhões de anos, uma caminhada de 50 metros de uma família constituída por dois adultos e uma criança ficou registada num piso de cinza vulcânica, posteriormente endurecida talvez pela chuva, perto do desfiladeiro de Olduvai, no norte da Tanzânia. É o facto mais antigo a confirmar os primeiros passos bípedes dos nossos longínquos antepassados. Mas é um trilho solitário, talvez de uma família a fugir de uma erupção vulcânica, atravessando as cinzas á procura de um paraíso verdejante. Mas havia, até há pouco tempo, dúvidas sobre os caminhantes por falta de evidências fósseis factuais: seriam A. afarensis?O esqueleto do exemplar mais famoso do género Australopithecus, Lucy, descoberto em 1974, com uma idade de 3,2 milhões de anos, dava já indicações de uma arquitectura esquelética capaz de permitir o bipedismo.A escassez de outras evidências fósseis, para uma postura bípede, foi agora dissipada pela publicação na revista Science da análise efectuada, nos últimos 15 anos, de 35 indivíduos da espécie A. afarensis, econtrados no sítio da “primeira família”, designação por que é conhecida o local arqueológico 333 na região de Hadar, na Etiópia. A análise de ossos fósseis dos membros equivalentes aos pés, permitiu identificar no quarto metatarso (osso da palma do pé que está ligado através do cubóide, outro osso, ao calcanhar), o arco ou curvatura suficiente para permitir, quer uma função de alavanca rígida necessária à articulação e propulsão do andar, quer a absorção dos impactos resultantes do contacto com o chão. Esta investigação suporta a teoria de que o A. afarensis era capaz de “pisar bem o chão” e, em simultâneo com a análise do restante esqueleto, manter uma postura vertical. Fica agora também grandemente dissipado o nevoeiro que rodeava os autores da caminhada sobre as cinzas vulcânicas, os quais, de cabeça erguida, avançaram bípedes em direcção ao nosso horizonte. António Piedade
- Tags:
- Evolução
- antropologia
February 14 2011, 7:54am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O piolho do corpo nu.
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/o-piolho-do-corpo-nu.html
Crónica publicada no "Diário de Coimbra".Para além do incómodo que o piolho causa ao seu hospedeiro humano, existe nele um potencial único de informação sobre a evolução da nossa própria espécie. Estes insectos parasitas sugadores de sangue e sem asas (da ordem Phthiraptera, sub-ordem Anoplura) são muito específicos ao seu hospedeiro e co-evoluem com ele. Assim, estudos sobre a evolução dos piolhos têm fornecido informação valiosa sobre a evolução da nossa espécie. De facto, há mais de uma década que antropólogos e geneticistas têm recorrido ao estudo do DNA (nuclear e mitocondrial) do piolho para nele recolherem evidências não fossilizáveis. Uma primeira abordagem geral sobre como os parasitas podem ser bons indicadores para o estudo da evolução humana pode ser consultada aqui.O estabelecimento de árvores genealógicas (filogenéticas, para ser mais preciso) da evolução das diversas espécies de piolhos que parasitaram especificamente diferentes espécies humanas, antepassados hominídeos e actuais símios, tem fornecido informação complementar e independente da do hospedeiro, corroborando teorias migratórias em vagas sucessivas para fora de África do género homo, e questionando a eventual convivência directa entre espécies diferentes. Há alguns anos (2004), num artigo publicado na PLOS Biology, David Reed mostrava a possibilidade de Homo sapiens modernos terem convivido com espécies mais “arcaicas” como o H. erectus e H. neanderthalensis pela co-divergência de espécies de piolhos que parasitaram aquelas espécies na mesma época. Num artigo publicado no último número da revista Molecular Biology and Evolution (Mol. Biol. Evol. 28(1):29–32. 2011), uma equipa de investigadores, do Museu de História Natural da Universidade da Florida, liderado por David Reed, vem mostrar que humanos anatomicamente modernos começaram a usar vestuário ainda em África. O estudo indica que os nossos antepassados começaram a usar roupa para cobrir o corpo sem pelos há cerca de 170 mil anos, altura em que os piolhos do corpo (Pediculus humanus humanus) terão divergido dos piolhos da cabeça (Pediculus humanus capitis) e da pele coberta com pelos.Refira-se, a propósito, que o genoma do Pediculus humanus humanus foi sequenciado em 2010 e publicado na revista PNAS.O uso de vestuário terá facilitado aos nossos antepassados a migração para latitudes mais elevadas com climas mais rigorosos. Uma vez que as peças de vestuário raramente fossilizam, o estudo indirecto recorrendo ao nosso mais velho insecto parasita, vem reforçar a perspectiva do desenvolvimento cultural e tecnológico ocorrido em humanos modernos em África em períodos mais recentes da nossa evolução e antes de novas e últimas migrações por todo o planeta. António Piedade
- Tags:
- saúde
- Biologia
- Evolução
- antropologia
January 10 2011, 5:52am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
CASAR OU NÃO CASAR: EIS A QUESTÃO DE DARWIN
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/casar-ou-nao-casar-eis-questao-de.html
A Colecção de Livros de Bolso da Europa-América acaba de publicar "Escritos Íntimos" de Charles Darwin (n.º 683 da colecção), que inclui notas pessoais do grande naturalista inglês: Eis as suas reflexões sobre um futuro casamento rabiscadas num papel em 1838:"1. Eis a questãoCasarFilhos - (se aprouver a Deus) - uma companheira fiel (e uma amiga na velhice) que se interesse por nós - um objecto para amarmos e para nos divertirmos - melhor do que um cão em todos os sentidos. - Uma lareira e alguém que se ocupe da casa. - Os encantos da música e da tagarelice femininas. - Essas coisas são boas para a saúde - mas terríveis perdas de tempo. - Forçado a fazer visitas e a receber os parentes. -Meu Deus, será suportável pensar que vamos passar a vida como uma abelha, a trabalhar, a trabalhar, sem conseguir nada no fim. - Não, não, impossível.- Imagine-se alguém que passa todos os seus dias sozinho numa casa suja e cheia de fumo em Londres. - Agora imagine-se com uma esposa doce, calmamente sentado no sofá, talvez com livros e música - compare-se esta visão com a terna realidade de Great Marlboro' St.O casamento - o casamento - o casamento QED.Não casarNada de filhos (nada de vida dupla) ninguém para cuidar de nós na velhice. - Para quê trabalhar no duro sem a amizade dos bons velhos amigos - e quem são os bons velhos amigos de um velho senão os membros da família?Liberdade para ir onde se quiser - escolha de lugares a frequentar, em pequeno número. Conversas em clubes com homens inteligentes. - Nenhuma obrigação de fazer visitas a parentes e de vergar a todas as ninharias . Nem de fazer face às despesas e preocupações com os filhos - talvez mesmo às disputas - perda de tempo. - Ler o mais possível à noite - gordo e ocioso - a inquietude e responsabilidade - menos dinheiro para os livros, etc. - Se tiver muitos filhos, forçado a ganhar o seu sustento. - (Mas, por outro lado, é muito mau para a saúde trabalhar demasiado). Talvez a minha mulher não goste de Londres; então a sentença será o exílio e a degradação no sentido de um imbecil indolente e sem obra. -2. Estando provado que o casamento é necessárioQuando? Cedo ou tarde.O perceptor diz "cedo", porque senão mau será se tivermos filhos - temos o carácter mais flexível - os sentimentos mais vivos, e, se não casarmos rapidamente, passamos ao lado de muita felicidade pura. -Mas, enfim, se casasse amanhã: haveria uma infinitude de complicações e despesas para adquirir e mobilar uma casa - lutar contra as mundanidades - os toques de alvorada - a falta de jeito- a perda quotidiana de tempo (a menos que a esposa seja um anjo e faça as coisas de modo a podermos continuar a trabalhar). - E depois como posso tratar de todos os meus assuntos se serei obrigado a fazer todos os dias um passeio com uma* a minha mulher. Eheu!! Nunca poderei aprender francês, - nem ver o continente - nem ir à América, nem andar de balão, nem fazer uma viagem sozinho pelo País de Gales - pobre escravo! - Valerás menos do que um negro - e então pobreza horrível (a menos que a esposa seja ainda melhor do que um anjo e tenha dinheiro) - vamos, meu rapaz, nada de inquietações - Coração ao alto - Não podes viver esta vida sozinho, com uma velhice coxa, sem amigos , sem filhos e ao frio. Olhando cada um frente a frente enquanto as rugas se multiplicam. Fia-te na virgem e não corras. Olho aberto. Há muitos escravos felizes. - "Charles Darwin* Palavra "uma" riscada no original.A 29 de Janeiro de 1939, cinco dias depois de ter entrado para a Royal Society, Charles Darwin casava com Emma Wedgwood.
November 18 2010, 5:36pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
DE MARX A DARWIN, POR ONÉSIMO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/de-marx-darwin-por-onesimo.html
Minha recensão, em vídeo, do livro "De Marx a Darwin" (Gradiva), de Onésimo Teotónio Almeida: basta clicar aqui.
October 20 2010, 2:59am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E RELIGIÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/educacao-ciencia-e-religiao.html
A dicotomia ciência – religião é tão antiga como a ciência já que a religião é mais antiga. Ainda agora, nos cem anos da implantação da República, se relembrou como o republicanismo, eivado da ciência positivista, se ergueu entre nós contra a religião. Uma visão naturalista opunha-se à visão providencialista.Mas hoje é, geralmente, reconhecido que as duas actividades, apesar de diferentes, podem bem coexistir. Há, por exemplo, ministros religiosos – e não é só da Igreja Católica - que são também cientistas. E há até quem advogue que, mais além do que a coexistência pacífica, é necessário aproximação e diálogo. Colocam-se, entre estes, Alfredo Dinis, padre jesuíta e professor de Filosofia na Universidade Católica em Braga (actualmente director da Faculdade de Filosofia) e João Paiva, leigo e professor de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Com propósitos pedagógicos, escreveram o livro “Educação, Ciência e Religião”, saído agora na Gradiva, que procura responder a várias questões relativas a essa aproximação e diálogo. Formulam algumas questões mais ou menos “fracturantes” (por exemplo: “A religião e a ciência ‘proíbem’ a existência de extraterrestres”?), acompanhadas por engraçados cartoons, dão a cada uma delas uma primeira resposta, em linguagem acessível, e, em seguida, aprofundam o tema, numa linguagem mais elaborada. Questões complementares para debate e bibliografia sobre cada tema completam esta original obra.Pode-se ou não concordar com eles, mas os autores são taxativos: “Mais e melhor ciência só pode significar melhor religião”. Aprenderam, portanto, com aquilo que eles chamam “descentramentos” do homem, que ocorreram ao longo da história da ciência. O primeiro é o descentramento cósmico, que se deu no início do século XVII com Galileu. O segundo é o descentramento biológico, que se deu a meio do século XIX, com Darwin. E o terceiro é o descentramento neurológico relativo à mente e à consciência humanas, que se estará a dar agora, na esteira de Freud embora não como sua herança directa (as modernas neurociências pouca justificação oferecem à psicanálise). O caso Galileu transitou em julgado depois que o Papa João Paulo II mandou, passados séculos, rever o processo e admitiu por fim o erro da Igreja. Galileu, aliás um bom crente e bem relacionado com o alto clero, vai aliar ter uma estátua em mármore nos jardins do Vaticano... Os autores dedicam-lhe apenas uma questão, que é fácil de responder: reconhecem que Galileu foi pressionado pela Igreja para negar o movimento da Terra. A teologia mudou no sentido em que a leitura da Bíblia deixou de ser literal.O caso Darwin, mais recente, provocou ondas de choque que chegaram até aos nossos dias. O sábio inglês, que viveu no seio da Igreja Anglicana, tendo até estudado teologia em Cambridge, foi alvo não já da Inquisição, mas da chacota pública, mais uma vez por contraste entre aquilo que a ciência aprendia e o que a Bíblia ensinava: o homem era apenas parte da grande “árvore da vida”. Curiosamente, foram e são as religiões protestantes, talvez mais ligadas ao livro, quem mais contestaram Darwin e, no mundo de hoje, forneceram o ambiente necessário para o florescer dessa estranha mistura entre ciência e religião que é o criacionismo na forma de “design inteligente”. Porém, a Igreja Católica não resolveu ainda completamente o problema, pois se João Paulo II admitiu há poucos anos que a teoria da evolução das espécies era “mais do que uma hipótese”, tal afirmação parece ainda excessivamente tímida num mundo em que as evidências observacionais e experimentais em favor dessa teoria excluem qualquer alternativa cientificamente válida.. Não foi há muito tempo que o Vaticano reprimiu as ideias evolucionistas do jesuíta Teilhard de Chardin. Os autores, que respondem a duas questões sobre o tema da evolução, não têm nenhuns problemas não só em citar o padre Chardin mas também em afirmar, preto no branco, que se pode defender a teoria da evolução e, ao mesmo tempo, acreditar em Deus. Dá a ideia que a teologia, também neste domínio, está ela própria em evolução...A teoria do Big Bang veio, no século passado, alargar a todo o domínio cósmico a ideia de auto-organização, isto é, a ideia de uma organização sem intervenção sobrenatural, com que a teoria da evolução se servia e serve para explicar a história das espécies. Claro que a pergunta sobre o que havia antes do Big Bang é legítima, mas a ciência de hoje responde honestamente que não sabe. Há poucos dias, o novo livro de Stephen Hawking relançou a polémica sobre a dispensabilidade de Deus para a criação do mundo, ele que metaforicamente tinha no seu best-seller anterior falado do “plano de Deus” para o Universo. Curioso é que a Igreja Católica tenha visto com bons olhos a ideia científica da criação quando ela apareceu na ciência, entre outras pelas mãos de um sacerdote católico, o padre Lemaître, porque concordava com o mito bíblico da criação. O Universo presta-se aliás abundantemente a discussões teológicas. Por exemplo, a teoria do Big Bang inclina-se para a infinitude do Universo. Não será, por isso, provável, quase inevitável, a existência de outros sóis e outras terras, como aliás tinha sonhado o “dissidente” da Igreja Católica Giordano Bruno, e, mais do que isso, a existência de vida noutros planetas, incluindo eventualmente vida inteligente? A descoberta muito recente do primeiro problema numa “zona habitável” de um sistema estelar a escassos vinte anos-luz de nós levantou justamente as atenções dos terráqueos. Tornou ainda mais oportuna a afirmação do jesuíta Guy Colsolmagno do Observatório Astronómico do Vaticano: sim, ele baptizaria um ET, se este quisesse! Nessa mesma linha algo heterodoxa, os autores do presente livro declaram que “um Deus craidor e milhões de planetas habitados por seres inteligentes estaria mais de acordo com a imagem de ser omnipotente da tradição cristã”. Fica por saber o que mudaria, de facto, na teologia se tais seres aparecessem mesmo. Seriam considerados seres com alma? O pecado original aplicar-se-ia a eles? E Jesus Cristo poderá não ter aparecido noutros planetas?Tanto ou mais polémicas do que essas são as questões sobre a mente levantadas pelas neurociências e que estão actualmente, neste planeta, a ser pesquisadas. Os autores não fogem a esse tema contemporâneo na fronteira entre ciência e religião quando formulam três perguntas: “Com o conhecimento do cérebro poderemos nós, humanos, vir a ser absolutamente previsíveis?”, “A inteligência artificial ameaça não só o homem como a religião?”, “Que contributos podemos nós esperar da neuroteologia?”. As suas respostas parecem-me expressar demasiadas reservas em áreas que ainda estão nos seus começos. A atitude da ciência deve ser de abertura, para não dizer esperança, perante o conhecimento novo, mas as respostas dadas em “Educação, Ciência e Religião” sobre o cérebro e a mente, são, na minha opinião, de excessiva crítica. Por exemplo, a “neuroteologia” que o livro critica poderá ser um nome disparatado, mas é decerto interessante pesquisar com os aparelhos das neurociências o que se passa dentro do cérebro dos crentes para averiguar o modo como a Deus está dentro do cérebro. Os autores recusam à partida a hipótese de que Deus esteja apenas aí. Ocorre-me a interpelação que Sagredo faz na peça de Bertold Brecht Vida de Galileu: “Onde é que está Deus no sistema do mundo?" Responde Galileu: “Em nós, ou em lugar algum.” E, pela minha parte, não vejo mal nenhum que se investigue a ideia de Deus nos seres humanos com os métodos de que a ciência dispõe. Se a teologia vai ou não mudar com isso já é uma outra questão...- Alfredo Dinis e João Paiva, “Educação, Ciência e Religião”, Gradiva, 2010.
October 11 2010, 1:16pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
HUMOR: ADÃO E EVA 3
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/humor-adao-e-eva-3.html
October 11 2010, 3:17am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
HUMOR: ADÃO E EVA 2
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/humor-adao-e-eva-2.html
October 11 2010, 3:16am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
HUMOR: ADÃO E EVA 1
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/humor-adao-e-eva-1.html
October 11 2010, 3:14am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
SERÁ QUE ADÃO ENCONTROU EVA?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/sera-que-adao-encontrou-eva.html
Texto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005, esgotado no editor):Nem todos os cientistas são bons comunicadores. Mas alguns não são só bons comunicadores: são excelentes comunicadores. Até há algum tempo a comunicação científica para o grande público era mais obra dos físicos (Carl Sagan, Richard Feynman, Steven Weinberg, etc.), mas os biólogos estão têm ultimamente estado a dar cartas nesse sector. Já havia François Jacob, Edward Wilson, Stephen Jay Gould – este infelizmente já falecido - e Richard Dawkins, mas agora há também Matt Ridley, Mark Ridley (os dois Ridleys não têm relação de parentesco) e Steve Jones.Steve Jones, professor de genética no London College da Universidade de Londres, esteve em Portugal para apresentar o seu último livro “Y. A Descendência do Homem” (número 132 da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva). Em Lisboa, no Instituto Ricardo Jorge, em Coimbra, no Auditório da Reitoria e no Porto, no Auditório do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular, procurou responder à pergunta - “Será que Adão encontrou Eva?”. Este livro é o quarto volume de divulgação da ciência do autor. O primeiro foi “A Linguagem dos Genes” (que ganhou o Prémio Rhône-Poulenc de Literatura Científica em 1994), o segundo “In the Blood” (um livro ricamente ilustrado, que acompanhou uma série de televisão, e que também ganhou aquele prémio, a maior distinção para livros de “ciência popular”) e, depois, “Almost like a Whale”, uma recreação da obra maior de Darwin – “A Origem das Espécies” na perspectiva dos conhecimentos actuais (que voltou a ganhar um prémio, desta vez o British Petroleum Natural Book Prize de 1999). O primeiro livro está publicado em português, pela Difusão Cultural, e os outros dois bem mereciam estar.De facto, Jones escreve – e fala – de uma maneira muito viva, que não deixa o leitor – e o auditor – indiferente. Quando, na palestra de Coimbra, me apresentei como físico e disse que só sabia coisas simples e não as coisas tremendamente complicadas que havia na Biologia ele logo retorquiu:“Costumo dizer aos meus alunos que a evolução é quase tão fácil como a Física”.E continuou com uma anedota da autoria do físico Niels Bohr, e que se encontra de resto no início do seu último livro:“A ciência é sem dúvida , uma forma crua e pragmática, mas eficiente, de compreendermos o mundo que nos rodeia. O físico Niels Bohr comparava-a ao lavar da louça após o jantar: pratos sujos, pano sujo e água suja; mas, como que por magia, os pratos aparecem limpos. Segundo ele, a filosofia desempenhava a mesma função, mas sem o recurso à água”.A ciência não é, portanto e ao contrário do que muitos alunos julgam, uma “grande seca”. E há muito de comum entre a Física e a Biologia. Ambas integram a busca humana de “compreender o mundo que nos rodeia”. Se através da Física a ciência passou a compreender a queda dos corpos e o movimentos dos astros, o quente e o frio, a electricidade e o magnetismo, a estrutura da matéria (incluindo os átomos e a sua organização em moléculas), etc., através da Biologia ela passou a compreender melhor os organismos vivos, incluindo o ser vivo mais extraordinário de todos que é o homem (aqui no sentido de “homo sapiens”, homem e mulher), descobrindo que por detrás da imensa variedade da vida, há uma evidente unidade. Como costuma dizer António Coutinho, Director do Instituto Gulbenkian de Ciência: “Vida há só uma”, apesar de não haver dois seres vivos rigorosamente iguais. Através da Biologia Molecular a Física cruzou-se com a Biologia de um modo muito fecundo: a molécula mais complexa de todas é o DNA, o imenso e riquíssimo reportório dos genes, cuja estrutura foi descoberta com a “água suja” da Física e que, sabe-se hoje, está presente nas células de todos os seres vivos. E a genética, que partiu de observação de regularidades macroscópicas, encontra-se hoje bem fundamentada à escala microscópica a partir da observação e manipulação do DNA. A evolução pode hoje ser estudada não apenas vendo o registo fóssil, fragmentado e precário, mas também e com muito sucesso usando as modernas técnicas da genética. A evolução não é ainda tão fácil como a Física, mas, ao ritmo a que as coisas avançam no domínio da genética, o “quase” está cada vez mais pequeno.Charles Darwin, além da “Origem das Espécies”, escreveu também a obra que fundou o estudo da evolução humana - “A Descendência do Homem”, subintitulada “A Selecção em Relação ao Sexo”. Depois de ter revisitado, Jones revisitou a “Descendência do Homem” actualizando-a. Respeitando o título, o autor centra-se na “pequena diferença” que caracteriza a masculinidade, que é o cromossoma Y (as fêmeas têm dois cromossomas X enquanto os machos têm um cromossoma X e um Y). Mas acrescenta que essa caracterização de masculinidade não resiste a uma análise crítica: há animais machos que não têm cromossoma Y. Para os biólogos, a masculinidade tem mais a ver com o tamanho e abundância das células sexuais: tal como acontece no ser humano, elas são muito abundantes e pequenas nos machos e escassas e grandes nas fêmeas. Os machos, por definição, não dão à luz, mas competem por conseguir que as fêmeas o façam. E as células sexuais do mesmo macho também competem entre si. Como escreve Jones de forma muito sugestiva:“Cada vez que um homem mantém relações sexuais, são libertados espermatozóides suficientes para fertilizar todas as mulheres da Europa. Numa vida são produzidos 2 mil milhões desse potentes invólucros, mas, para um típico ocidental, menos de dois são bem sucedidos. Por que razão são tantos os chamados e tão poucos os escolhidos?”No entanto, a análise do cromossoma Y é muito rica, permitindo revelar o que é, do ponto de vista biológico, o homem (no sentido estrito de macho humano). Jones não se esquece de acrescentar que a descoberta do cromossoma Y foi feita por uma mulher Nettie Maria Stevens, no ano da graça de 1905, precisamente o ano da descoberta da relatividade por Einstein (lá está, uma semelhança entre a Física e a Biologia, sendo injusto que Stevens seja quase desconhecida quando comparada com Einstein). O cromossoma Y permite traçar a evolução do homem, tal como o DNA das mitocôndrias permite traçar a evolução da mulher. Por meio da análise genética, hoje bastante rigorosa, pode-se remontar na genealogia, descobrir paternidades e maternidades, ainda que antigas (e descobre-se a grande frequência de fenómenos de “bastardia” ou “ilegitimidade”).O que nos ensina a genética sobre a diferença dos sexos? No longo processo de evolução, tudo indica que o cromossoma Y terá derivado do X por empobrecimento (Steve Jones foi categórico numa entrevista ao “Diário de Notícias”: “O cromossoma Y está em decadência”). Num certo sentido, a mulher é mais rica do que o homem! Por exemplo, a mulher vive em média mais do que o homem, resistindo mais e melhor a certas doenças.Mas, perguntará o leitor que chegou até aqui, qual é a resposta à pergunta do título? Terá Adão encontrado Eva? O relato do “Genesis” sobre um casal humano que gozava das delícias do Jardim do Éden é, com certeza, uma história, uma bela história mas apenas uma história (embora seja curioso que a mesma história reapareça em culturas diferentes da nossa, judaico-cristã). Mas, segundo Jones, “os Ys do mundo são tão semelhantes que alguns biólogos crêem num Adão universal, que poderá ter vivido há apenas 60 000 anos”, acrescentando com alguma precaução que “a evidência é, no mínimo, vaga.” Por outro lado, usando sempre a genética e remontando na linhagem feminina até uma eventual Eva, conclui-se que ela, a existir, teria de ser muito mais antiga do que Adão. Ou seja, Adão nunca poderia ter conhecido Eva... E esta, hein?
October 10 2010, 7:45am | Comments »








