Ontem, a interessantíssima sessão de Maria Luísa Malato Borralho no Centro Ciência Viva sobre Rómulo de Carvalho, em Coimbra, sobre Júlio Verne levou-me a reler passagens o livro "Da Terra à Lua". E na edição do projecto Gutenberg (Imprensa Nacional, 1874, tradução de Henrique de Macedo, "Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio de marinha") do livro foi fácil encontrar a única referência a Portugal, que participu no projecto global (globalização "avant la lettre") com 30000 cruzados, pouco mas que, apesar de tudo, foi mais do que deu a Espanha, que andava a construir ferrovias (o TGV da época) e cujo espírito anti-científico é ridicularizado por Verne. Transcrevo o delicioso texto verniano, onde é patente uma homorística sociologia das nações, com o itálico meu sobre a contribuição ibérica:"Tres dias depois da publicação do manifesto do presidente Barbicane estavam subscriptos nas differentes cidades da União, quatro milhões de dollars. Com esta somma, por conta de maior quantia, já o Gun-Club podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos telegraphicos á America que as subscripções no estrangeiro eram cobertas com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela generosidade da sua offerta. A outros lá custava mais a desapertar os cordões á bolsa. Questão de temperamento.Em summa, mais eloquentes são os algarismos que as palavras, e eis a descripção official das sommas que foram escripturadas no activo do Gun-Club, logoque se encerrou a subscripção.A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e oito mil setecentos e trinta e tres rublos, e só poderá causar espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos, devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais importancia, custou dois milhões de rublos.A França começou por se rir das pretensões dos americanos. Serviu ali a Lua de pretexto a mil calembourgs já estafados, e a algumas dezenas de vaudevilles em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias. Porém os francezes, que já de antiga data trazem o habito de cantar e ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram, subscrevendo com a quantia de um milhão e duzentos e cincoenta tres mil novecentos e trinta francos. Por este preço realmente assistia-lhes o direito de se divertirem um bocado.A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuição geral, á quantia de duzentos e dezeseis mil florins, que bem boa conta fizeram.Cincoenta e dois mil rixdales foi o obolo da Suecia e da Noruega. A cifra já era de consideração em proporção do paiz; porém, maior ainda teria sido, se a subscripção se tivera aberto ao mesmo tempo em Christiania e em Stockholmo. Seja lá por que rasão for, o caso é que os norueguezes não gostam de mandar o seu dinheiro para a Suecia.A Prussia deu testemunho, mandando duzentos e cincoenta mil thalers, de que prestava á tentativa a sua alta approvação. Os differentes observatorios d'esta nação contribuiram de boa vontade com uma quantia importante, e foram dos que com mais ardor animaram o presidente Barbicane.A Turquia portou-se com generosidade, e não admira porque estava pessoalmente interessada n'aquelle assumpto, visto ser a Lua quem lhe fixa o curso dos mezes e a epocha dos jejuns do Ramadan. Nem lhe ficava bem dar menos de um milhão trezentas e setenta e duas mil seiscentas e quarenta piastras, que foi o que effectivamente deu, e com ardor tal que parecia até dar a entender que houvera certa pressão da parte do governo da Porta.A Belgica distinguiu-se entre todos os estados de segunda ordem por um donativo de quinhentos e treze mil francos, proximamente treze centimos por habitante.A Hollanda e suas colonias tomaram parte na operação com cento e dez mil florins, mas sempre foram pedindo cinco por cento de desconto, visto pagarem de contado.A Dinamarca, um tanto restricta em extensão territorial sempre rendeu novecentos mil ducados de oiro fino, o que é prova do amor que os dinamarquezes consagram ás expedições scientificas.A Confederação germanica cooperou com trinta e quatro mil duzentos e oitenta e cinco florins; não se lhe podia exigir mais, nem que lh'o exigissem o daria.Apesar dos seus grandes apuros a Italia sempre encontrou nas algibeiras dos seus filhos duzentas mil liras, mas foi preciso rebusca-las bem. Se a Italia já estivera de posse do Veneto melhor iria o negocio, mas o caso é que ainda não possuia o Veneto.Os Estados da Igreja entenderam não dever mandar menos de sete mil e quarenta escudos romanos, e Portugal levou a sua dedicação pela sciencia até trinta mil cruzados.O Mexico, esse deu o obolo da viuva, oitenta e seis piastras fortes; verdade é que os imperios, nos primeiros tempos da sua fundação, sempre vivem pouco á larga de meios.De duzentos e cincoenta e sete francos foi o auxilio modesto prestado pela Suissa á obra americana. Força é dize-lo e francamente, a Suissa não percebia o lado pratico da operação; não se lhe afigurava que o acto de arremessar uma bala á Lua fosse preliminar adequado para entabolar relações commerciaes com o astro das noites, e n'este presupposto pareceu-lhe pouco prudente empenhar capitaes em tentativa tão aleatoria. E no fim de contas talvez a Suissa tivesse rasão.Em Hespanha é que foi impossivel juntar mais de cento e dez reales, circumstancia a que serviu de pretexto ter a nação que acabar os seus caminhos de ferro. Mas a verdade é que a sciencia não é cousa lá muito bem vista em tal paiz, que ainda está um tanto atrazado. E demais, havia certos hespanhoes, e não eram dos menos illustrados, que não concebiam com exactidão que relação havia entre a massa do projectil comparada com a da Lua, e que temiam que o choque fosse alterar a orbita do astro, perturba-lo no seu papel de satellite, provocando-lhe a quéda na superficie do globo terrestre. Em casos taes o melhor era abster-se. E foi o que, com differença de alguns poucos reales, fizeram os hespanhoes.Falta a Inglaterra. Já dissemos com que desdenhosa antipathia fôra ali recebida a proposta Barbicane. Os inglezes têem todos uma só e mesma alma para todos os vinte e cinco milhões de habitantes que povoam a Gran-Bretanha. Limitaram-se a dar a entender que o emprehendimento do Gun-Club era contrario ao «principio de não intervenção», e nem com um ceitil concorreram.O Gun-Club, quando soube tal nova, deu-se por satisfeito em erguer os hombros, e proseguiu na sua grande tarefa. Logo que a America do Sul, isto é, Peru, Chili, Brazil, provincias do Plata, Columbia entregaram a sua quota de trezentos mil dollars, ficou o Gun-Club de posse do consideravel capital cujo computo detalhado segue:DollarsSubscripção dos Estados Unidos 4.000:000Subscripções estrangeiras 1.446:675Somma 5.446:675Eram portanto cinco milhões quatrocentos e quarenta e seis mil seiscentos e setenta e cinco dollars, que o publico tinha despejado nos cofres do Gun-Club."Júlio Verne
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O FINANCIAMENTO DA IDA À LUA
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January 30 2010, 8:25am | Comments »
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Ciência e Ficção
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Informação recebida do Centro Ciência Viva Romulo de Carvalho:O projecto “Quark!” e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho levam a cabo a iniciativa “Ciência e Ficção“.Uma sexta-feira por mês, nos fins de semana da escola Quark!, pelas 21h15m, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho (situado Departamento de Física da FCTUC), haverá debate com convidados, à volta de livros de ficção científica… e da ciência que estes encerram.A primeira secção será sobre a Obra "Da Terra à Lua" de Júlio Verne.· Data: 29 de Janeiro de 2010· Hora e local: 21h15, CCVRC, Departamento de Física da Universidade de Coimbra· Palestrante: Maria Luísa Malato· Tema: Espaços imaginários da Lua e outros planetas
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January 27 2010, 4:46am | Comments »
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Substitutos? Naaah!
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Apareceu no cinema um filme chamado "Substitutos" ("Surrogates" no original em inglês). Segundo esse filme, os robô viveriam por nós apesar de comandados pelo nosso cérebro através de uma ligação remota. Ficção científica e show-business. O habitual em Hollywood.Podem ver aqui o trailer do filme:É preciso saber distinguir a ficção da realidade. Os robôs representados no filme "Surrogates" estão fora do nosso alcance, isto é, não são possíveis hoje nem é realista admitir que serão tecnicamente possíveis em menos de 30 anos. No entanto, a robótica actual tem sido usada para ajudar as pessoas. Não para as substituir, mas para permitir que realizem tarefas de forma mais simples e mais confortável. Um BOM exemplo é a utilização de robôs para melhorar a performance física daqueles que perderam qualidades motoras: por acidente, doença ou devido à idade. A Honda, por exemplo, lançou recentemente um protótipo que permite auxiliar a locomoção humana.:-)
December 7 2009, 12:11pm | Comments »
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Com a Cabeça na Lua
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Informação recebida da editora Saída de Emergência:Antologia única em todo o mundo, com textos de vários autores, para comemorar os 40 anos da chegada à Lua.Com autores tão distintos como Robert A. Heinlein,Isaac Asimov e Arthur C. ClarkeEm 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar o solo lunar e, consequentemente, o primeiro ser humano a visitar um outro mundo que não a Terra. O feito, desde então inigualado, permanece como o maior desafio tecnológico a que a Humanidade se propôs. Antes, porém, de o Programa Apollo terproporcionado o célebre pequeno passo para o Homem, um salto de gigante para a Humanidade, inúmerosautores de Ficção Científica – até então considerada um género menor – tinham levado o Homem à Lua pelos mais variados meios e pelos mais diversos motivos.Este livro mostra como a cabeça esteve na Lua antes dos pés lá estarem.
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July 17 2009, 2:35am | Comments »
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KNOWING
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O filme "Knowing", um misto de ficção científica e filme de terror, que é actualmente o número um nas bilheteiras dos Estados Unidos e do Reino Unido, conta a história de um professor de astrofísica do MIT (Nicholas Cage), com um filho pequeno, que se confronta com forças ocultas e seres extraterrestres. A acção - há mesmo muita acção - mostra como uma lista de números escritos por uma pequena vidente 50 anos atrás prenuncia um rol de desgraças. O fim é mesmo o apocalipse na Terra, devido a uma catástrofe climática global, salvando-se apenas... (adivinhem quem). Um filme que é um sinal destes tempos pesados pós 11 de Setembro. Melhores dias virão. E melhores filmes, espero, também.
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April 13 2009, 7:03am | Comments »
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O IMPOSSÍVEL ACONTECE
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Minha crónica de hoje no "Sol":Que não é impossível escrever um bom livro sobre o impossível prova-o “A Física do Impossível”, do físico norte-americano Michio Kaku, que acaba de sair na Bizâncio. O impossível é uma questão fascinante. Tal como o autor podemos interrogar-nos: Mas impossível porquê? Por mera dificuldade técnica, o que significa que é afinal possível? Ou por absoluta impossibilidade científica, o que significa que é impossível de todo? Mas existirão estas impossibilidades totais e permanentes? Não é verdade que hoje sabemos muito mais que ontem e que amanhã saberemos ainda mais e que, por isso, o que declaramos impossível hoje pode já não o ser amanhã? Kaku, o grande divulgador de ciência que já nos tinha dado “Visões – Como a Ciência Irá revolucionar o século XXI” e “Mundos Paralelos” (ambos na Bizâncio) e “O Cosmos de Einstein” (na Gradiva), divide os impossíveis em três classes: I) O que, embora pareça impossível, é afinal possível porque não viola nenhuma lei da física, e será provavelmente concretizado neste século ou no próximo. II) O que, embora pareça impossível, pode ser possível porque a ciência de base está actualmente na sua infância e, apesar de muito difícil, será provavelmente concretizado neste milénio ou nos próximos mil milénios. III) O que é mesmo impossível e, por isso, nunca acontecerá, por violar leis da física que hoje conhecemos bem. Mas, se um dia, essas leis vierem a ser revistas... Na primeira classe, o autor inclui a invisibilidade e o teletransporte (está-se a trabalhar nisso e há avanços recentes). Na segunda, as viagens no tempo e as viagens às estrelas (está-se a especular sobre isso). Na terceira, as máquinas de movimento perpétuo, isto é, máquinas que funcionariam graças à criação de energia a partir do nada, e a precognição. Há, como sempre houve, muitos impostores a tentar ganhar dinheiro com coisas impossíveis da classe III e é preciso ser céptico. Kaku escolheu a física fascinado por Einstein e pelos filmes de ficção científica. Esta sua obra mistura sabiamente as duas coisas.
December 13 2008, 4:54am | Comments »
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FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA
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O Festival de Banda Desenhada da Amadora deste ano é dedicado ao tema "Tecnologia e Ficção Científica". Para mais informações ver aqui.
October 27 2008, 6:10pm | Comments »
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Anátema
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Na "Sunday Book Review" do "New York Times", saído hoje, sob o título "The Planet of the Monks", encontra-se uma recensão da autoria de Dave Itzkoff de "Anathem", o último livro do escritor de ficção científica norte-americano Neal Stephenson, de quem já aqui tenho falado. Em português e publicadas recentemente pela Tinta da China encontram-se nas livrarias duas obras dele que são os três primeiros volumes do chamado "Ciclo Barroco": "Argento Vivo", "O Rei dos Vagabundos" e "Odaliscas".Transcrevo um extracto que nos dá uma ideia da trama da obra, que seria porventura mais de ficção filosófica do que de ficção científica se acaso esse género existisse:"In the acknowledgments of ANATHEM (Morrow/HarperCollins, $29.95), Stephenson, the author of such meticulous historical novels as “Cryptonomicon” and “The Baroque Cycle,” gives inspirational credit for his latest work of fiction to a long line of distinguished thinkers, from Thales and Plato to Husserl and Gödel. But it is the spirits of the Greeks that exert the greatest influence on “Anathem”: at its best, the book is a thought experiment in narrative form, a meditation on how far a society can go on pure reason and arguments from first principles. It is an intricate Socratic puzzle, yet — though you may wish to banish me or pour hemlock down my throat for saying this — I’m not entirely sure it’s a novel. Set in a world that is similar but not identical to our own, “Anathem” imagines a modern-day monastic order whose members have pledged to live their lives without computers or electronic technology. Having long ago set aside such unanswerable questions as “Does God exist?” these alternative Augustines are free to contemplate issues of math, physics and philosophy; depending on the order they belong to, they are allowed to visit the outside world as much as once a year or as little as once a millennium."O resto da recensão pode ser lido aqui.
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October 17 2008, 3:48pm | Comments »
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