Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra:Inteligência Artificial: desejos, promessas e realidadesErnesto Costa - Universidade de Coimbra6ª feira, 25 de FevereiroInício: 21:15Centro Ciência Viva Rómulo de CarvalhoRés-do-chão, Departamento de FísicaDesde sempre o Homem foi um construtor de artefactos, procurando através deles superar as suas limitações e amplificar as suas capacidades. Quando, em meados do século passado, surgiu esse objecto novo que designamos por computador, muitos foram os que viram finalmente a possibilidade do Homem se superar naquilo que mais o distingue dos outros seres vivos: a inteligência. Foi em Agosto de 1956 que 10 investigadores se juntaram, pela primeira vez, para discutir a possibilidade da existência de máquinas inteligentes, de uma Inteligência Artificial (IA). Hoje, 55 anos depois do seu0 aparecimento, que balanço podemos fazer? Nesta palestra, destinada a uma público genérico, pretende-se confrontar os desejos e as promessas, com a realidade. Começando pela interrogação filosófica sobre a possibilidade de uma IA. Dar-se-á conta que, afinal, não existe uma IA mas sim várias, e que a história deste novo domínio interdisciplinar, onde se cruzam as áreas da computação, da cognição, das neurociências e da biologia, é um pouco a história do confronto entre várias localizações num espaço multidimensional (simbólicas, conexionistas, de inspiração biológica), umas mais fundamentalistas,outras mais dialogantes e propondo soluções híbridas. No meio da pluralidade de opções ilustradas em exemplos simples, é mostrado o denominador comum, centrado no conceito de agente. Através de exemplos do nosso quotidiano, de como hoje convivemos (dependemos?), de soluções inteligentes para a nossa sobrevivência, levantar-se-ão questões, de modo breve, acerca dos caminhos dos diferentes futuros possíveis, na certeza de que a melhor maneira de prever o futuro é construí-lo.Sobre o autor:Ernesto Costa é membro do Departamento de Engenharia Informática, da Universidade de Coimbra. É co-fundador do Centro de Informática e Sistemas da UC (CISUC) e fundador do Grupo de Inteligência Artificial, que presidiu até 2003, ano em que fundou o grupo de Sistemas Complexos e Evolutivos, integrado no CISUC. Actualmente faz investigação em computação de inspiração biológica, tendo recebido vários prémiosinternacionais nesta nova área e organizado diversos eventos internacionais.Com larga produção científica, já granjeou prémios para as suaspublicações: recebendo em 2009 EvoStar Award for OutstandingContributions to the Field of Evolutionary Computation. O seu livroInteligência Artificial, em co-autoria com Anabela Simões, já mereceuuma segunda edição em 2008.
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Inteligência Artificial: desejos, promessas e realidades
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February 22 2011, 6:23am | Comments »
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FILOSOFIA EM DIRECTO
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Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:“FILOSOFIA EM DIRECTO”Alguns problemas filosóficos. Vistos de um modo peculiar.“Filosofia em directo”, de Desidério Murcho é o mais recente lançamento da Fundação Francisco Manuel dos Santos.Será a filosofia aquela coisa com a qual e sem a qual tudo fica tal e qual? Apresentando a filosofia em estado puro, sem mediações históricas nem académicas, este livro põe o leitor em contacto com o que tem caracterizado a filosofia nos últimos 2500 anos, para que a possa avaliar por si. Não se trata apenas de insistir em pensar, mas de querer pensar da maneira mais rigorosa possível. A importância pública de saber pensar rigorosamente quando as soluções não são fáceis deveria ser óbvia, mas não o é.Este livro contribui para que passe a sê-lo.Dia 27 de Janeiro com o Público a 3,15€. Disponível nas livrarias do País, cadeias Pingo Doce, Continente e El Corte Inglés.Os novos “Ensaios da Fundação” também disponíveis a partir de dia 27: “A Ciência em Portugal”, de Carlos Fiolhais e “Segurança Social: o futuro hipotecado”, de Fernando Ribeiro Mendes.
January 27 2011, 1:22pm | Comments »
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Comentários do Colégio Conimbricense sobre o Tratado da Alma
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Informação recebida das Edições Sílabo:Comentários do Colégio Conimbricense da Companhia de JesusSobre os Três Livros do Tratado 'Da Alma' de Aristóteles EstagiritaP. Manuel de Góis , Mário S. de Carvalho (introdução), e Maria da Conceição Camps (tradução)ISBN: 978-972-618-606-9576 páginasAno de publicação: 2010P.V.P.: 25,90 euros RESUMONo século de Camões, de Gil Vicente e de Pedro Nunes foi publicada em Coimbra e em Lisboa a obra maior e mais internacional da filosofia portuguesa, os Comentários Conimbricenses da Companhia de Jesus, sobretudo da autoria de Manuel de Góis. Descartes, Peirce, entre outros, estudaram por essas páginas, cujo texto sobre o 'De Anima' conhece agora a primeira tradução do latim numa língua viva. O Comentário fez parte do curriculum dos Colégios Jesuítas do Atlântico aos Urais, marcou o ensino no Brasil e na Índia, sendo também, provavelmente, o primeiro texto de filosofia ocidental a conhecer uma adaptação em língua chinesa. Numa época de globalização como é a nossa, bom será que se reconheça a importância que o Curso Conimbricense teve ao contribuir para a criação de uma cultura universal com todas as suas consequências, designadamente a que envolveu a difusão de valores hoje considerados inquestionáveis no domínio dos direitos do homem, no respeito pela natureza e no reconhecimento do valor da ciência e da religião, em todas as suas vertentes. Tanto ou mais do que a explicação da psicologia de Aristóteles, o leitor encontrará a surpresa de uma filosofia renascimental nas suas múltiplas temáticas, desenvolvida de um modo sistemático, mas aberto, cuja actualidade ou perenidade se pode aferir pelo eco que os autores dão à ciência da alma: a mais nobre de entre as demais, já que ninguém se pode conhecer a si mesmo nem ao Universo se não se debruçar sobre os segredos que a alma encerra e que são simultaneamente únicos, porque individuais, e universais.O início da introdução geral (pdf de 12 páginas) pode ser lido aqui.
November 22 2010, 4:37am | Comments »
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DO RACIONAL AO IRRACIONAL
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Pequeno trecho do meu livro "A coisa mais preciosa que temos" publicado pela Gradiva e esgotado no editor:É fácil encontrar hoje cientistas cujo discurso toca as fronteiras do racional e, por isso, as fronteiras do irracional (fronteiras essas que não são fixas). Parece-nos até, com o avanço vertiginoso da ciência, que o racional e o irracional estão por vezes muito próximos. A ciência que se desejaria racional tem amiúde assomos de irracionalidade. Para só referir exemplos da física, na teoria da relatividade geral fala-se de viagens no tempo e na mecânica quântica fala-se de comunicação instantânea à distância. Não se deve ficar preocupado com isso. Nem se deve, por causa disso, deixar a ciência acusando-a de irracionalidade.Deve notar-se que não é possível fundamentar com a ciência toda a realidade. A ciência pode tratar de muitas coisas, mas não é tudo o que o homem é capaz. A arte e a religião são, por exemplo, duas grandes actividades humanas que pouco ou nada têm de científico apesar de, naturalmente, se cruzarem com as ciências. A ciência é um processo limitado de apreensão do mundo e do homem, e não lhe pedir mais do aquilo que ela pode dar. Mas, por vezes ela tem a tentação de entrar onde não é chamada, procurando responder a anseios humanos.No livro “As Derivas da Argumentação Científica” (Instituto Piaget, 2000), a filósofa francesa Dominique Terré efectua uma análise muito interessante daquilo que pode ser visto como a irracionalidade produzida por alguns cientistas. A autora fornece-nos abundantes exemplos, como o matemático René Thom, que aplicou ou deixou aplicar a noção matemática de catástrofe bem fora do seu contexto original, o físico Brian Josephson que depois de ter ganho o prémio Nobel da Física enveredou por caminhos do misticismo, o físico Fritjof Capra, que procurou ver semelhanças entre a mecânica quântica e a filosofia oriental, o químico Ilya Prigogine, que a partir da sua teoria dos fenómenos irreversíveis procurou construir toda uma cosmovisão, o biólogo Henri Atlan, que passou da auto-organização natural para o misticismo judaico, etc. Todos eles apresentam derivas da argumentação científica, todos eles parecem de certa maneira à deriva na sua argumentação.Em quase todos esses casos trata-se de levar metáforas e analogias demasiado longe. A metáfora e a analogia são parte essencial do discurso científico, são criadoras de racionalidade, mas uma metáfora nunca é uma descrição completa e uma analogia nunca é uma equivalência. Assim, se não houver vigilância, tanto uma como outra podem ser geradoras de irracionalidade. As metáforas e analogias, frutos da imaginação humana, são tão úteis como perigosas. Pascal, nos seus “Pensamentos”, referiu-se à imaginação como “essa mestra do erro e da falsidade, e tanto mais velhaca que nem sempre o é”.
November 12 2010, 3:15am | Comments »
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DE MARX A DARWIN, POR ONÉSIMO
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Minha recensão, em vídeo, do livro "De Marx a Darwin" (Gradiva), de Onésimo Teotónio Almeida: basta clicar aqui.
October 20 2010, 2:59am | Comments »
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Progresso e religião
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Como aqui temos abordado as relações entre ciência e religião, pedimos ao físico Nicolás Lori, a trabalhar como investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, para republicar aqui o texto que publicou no "Público" em 12 de Maio passado: Num artigo recente de opinião no New York Times faz-se uma afirmação que a muitos promotores do "progresso" em Portugal pareceria chocante: diz-se que o que falta à cultura secular é a religião. A afirmação não é feita por uma pessoa religiosa, mas por um ateu secular e proeminente filósofo, Jürgen Habermas.Nos seus trabalhos iniciais, Habermas deu-nos conta da sua convicção de que o papel estruturante que a religião tinha desempenhado na sociedade seria no futuro feito através de uma ética discursiva, onde a melhor resposta seria obtida através do consenso. Mas para o actual Habermas, o racionalismo falha no sentido em que não tem nenhum mecanismo para tomar consciência dos "interesses" que estão sempre presentes, com as suas implicações, mas que não são reconhecidos. Esta situação causa um problema: os Estados seculares não conseguem que os seus cidadãos se afastem do egocentrismo em direcção a comportamentos mais virtuosos.Quando se fala do diálogo entre a fé e a razão, começa-se muitas vezes mal, quando se diz que o seu sentido é extremamente vago. O que tipicamente se está a fazer é a assumir que a fé é um estado de enamoramento com o transcendente, entendendo-se por fé o "amor que inclui o transcendente". Esta visão da fé, que penso ser a definição que as pessoas comummente usam, não é o que introduz a falta de claridade na discussão. A expressão é pouco clara, porque não explica se o diálogo é entre o amor e a razão e/ou entre o transcendente e a razão. Entendemos por razão o pensamento que tenta interpretar o universo através da dinâmica causa-efeito, sendo as causas as razões que a razão utiliza. Penso também que esta é a definição tipicamente utilizada. Uma outra definição de razão, que é menos comum mas que é muito utilizada na economia, considera não uma dinâmica causa-efeito mas uma dinâmica de efeito-causa, onde a razão tenta encontrar a causa que proporciona o efeito pretendido, sendo esse efeito a real razão da acção. A utilização destas duas definições divergentes para representar dois fenómenos muito diferentes é um defeito da linguagem comummente utilizada, porque, na prática, apenas a segunda deveria ser chamada racional (algo com o correcto balanço/ratio económico), sendo a primeira chamada "razoável" (algo que tem uma razão). Discriminando estes dois termos, podemos dizer que a razão é razoável, mas também que o amor que baseia a sua esperança no que vai acontecer e não no que aconteceu é fundamentalmente racional. O bem que o amor busca não é o dinheiro, como acontece na economia. O transcendente confronta-se com o racional no sentido de que é infinito e, por isso, não é passível de ser considerado uma utilidade. O transcendente confronta-se com o razoável no sentido de que é espontaneamente não causado, e por isso não razoável. O confronto dá-se pois entre os três elementos do triângulo: razão, amor, transcendente.Kant considerou o conflito entre a razão e o desejo humano como a possibilidade da realização do amor e considerou-o intransponível para a prática, uma vez que tal realização necessita da existência da possibilidade de liberdade de acção, o que para ele seria incompreensível. Para que o transcendente liberte o ser humano das algemas de um futuro completamente determinado pelo passado onde o espírito humano não tem lugar ou importância, é necessário que esse transcendente limite a razoabilidade do universo e eleve a sua racionalidade. Ou, em outras palavras, que esse transcendente seja poderoso e bom. O poder do transcendente apareceria para um observador como sendo a aleatoriedade não controlável através de processos causais, e a sua bondade apareceria como uma tendência da evolução a trazer mundos cada vez melhores. Mas para que essa liberdade trazida por um transcendente poderoso e bom possa ser considerada compatível com a livre vontade é necessário, e suficiente, que essa liberdade que ocorre numa pessoa seja aquilo que constitui a individualidade dessa pessoa. Ou seja, que se considere que é o transcendente que possibilita a individualidade da pessoa. A função da religião na sociedade é pois não a busca da fé mas a religação de cada um de nós à importância do transcendente na nossa vida, e mesmo depois. Consiste em religarmo-nos, que assim aparece como a fonte da possibilidade de um equilíbrio entre a razão e o amor que é o transcendente. Para que tal aconteça, torna-se necessário um enorme esforço para que nos tornemos indiferentes às causas da razão e aos objectivos do amor. Esta busca da indiferença é, apesar das diferenças entre elas, comum a todas as grandes religiões da Terra (e.g. cristianismo, islão, hinduísmo e budismo). É este religar, segundo Habermas, que a razão secular não consegue realizar, porque essa razão é cega à sua própria necessidade de ter razões que não podem ser alcançadas por observações do passado. Esta foi a cegueira vista por Saramago, mas o que Habermas afirma é que a cegueira não é causada pela religião mas pela sua ausência.Nicolás Lori
August 19 2010, 3:15pm | Comments »
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TEORIA NAS BIOCIÊNCIAS
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Informação recebida do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa:O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa tem a satisfação de dar a conhecer a publicação dos n.ºs 2 e 3 do vol.29 da revista Theory in Biosciences (da editora Springer) com o título Darwin evaluated by contemporary evolutionary and philosophical theories que reúne muitos dos textos apresentados num colóquio com o mesmo nome realizado pelo CFCUL em 23 e 24 de Abril de 2009 na FCUL e que tem por editores Nathalie Gontier, Francisco Carrapiço, Marco Pina, André Levy and Helena Abreu Nele se encontram os 17 artigos seguintes (pp.77-245): Darwin’s legacy Nathalie Gontier Playing Darwin. Part A. Experimental Evolution in Drosophila Margarida Matos Playing Darwin. Part B. 20 years of domestication in Drosophila subobscura Punctuated equilibrium in a neontological context Melanie J. Monroe and Folmer Bokma Punctuated equilibrium and species selection: what does it mean for one theory to suggest another? Derek Turner Saltational symbiosis Jan Sapp How symbiogenic is evolution? Francisco Carrapiço What is a species? Essences and generation John S. Wilkins New insights into molecular evolution: prospects from the Barcode of Life Initiative (BOLI) Filipe O. Costa and Gary R. Carvalho Pattern, process and the evolution of meaning: species and units of selection André Levy Evolutionary epistemology as a scientific method: a new look upon the units and levels of evolution debate Nathalie Gontier Computational evolution: taking liberties Luís Correia Human evolution and cognition Ian Tattersall Grammatical equivalents of Palaeolithic tools: a hypothesis Antonio B. Vieira Sensory exploitation and cultural transmission: the late emergence of iconic representations in human evolution Jan Verpooten and Mark Nelissen Language trees ≠ gene trees James Steele and Anne Kandler Taking evolution seriously in political science Orion Lewis and Sven Steinmo Os resumos e os conteúdos podem ser consultados em http://www.springerlink.com/content/h30434147v76/?sortorder=asc&p_o=0
July 16 2010, 4:58pm | Comments »
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RESPOSTA COM ESPERANÇA A QUEM COMENTOU A MINHA HISTÓRIA EM VEZ DE ENFRENTAR COM ARGUMENTOS O QUE EU DISSE SOBRE O EDUQUÊS
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Post recebido de Guilherme Valente, editor da Gradiva, na sequência do anterior:Para José da Silva Lopes e Henrique Medina Carreira, com imensa admiração.Como acredito na inteligência, não consigo imaginar que alguém conscientemente se queira enganar a si próprio. Proponho, por isso, ao comentador que leia e considere, sem preconceitos, com espírito aberto, este meu texto.1. O que incomodou no meu texto anterior não foi a história pessoal a que recorri. O que incomodou foi aquilo que a história me ajudou a transmitir com clareza. Vou repetir: o eduquês quer tornar toda a gente igual, mesmo que para isso tenha de reduzir toda a gente à ignorância e à boçalidade.O que terá doído foi a evidência que referi: a realização desse projecto horroroso e inatingível (por isso delirante) conduziu e conduz inevitavelmente ao nivelamento por baixo, ao facilitismo sempre crescente. Diminui todos os alunos, mas prejudica sobretudo os mais desfavorecidos, as crianças pobres, de famílias pouco instruídas, sem meios ou conhecimentos para procurarem outro ensino, no país ou no estrangeiro. O delírio igualitarista agrava as desigualdades.Note-se que esse projecto, para poder ser realizado, como foi sendo realizado, não podia (nem pode) ser assumido. Se o fosse, depararia, naturalmente, com a oposição geral do Pais. Pelo contrário, tinha de ser disfarçado, no discurso e com os recuos tácticos convenientes, usando o apoio dos idiotas úteis, dos ingénuos e dos oportunistas, matéria-prima que, como se sabe, num país com o grau e a qualidade de instrução do nosso, não falta.E foi por isso, e é por isso, por não poderem assumir tal projecto (que não teriam argumentos para justificar, acrescente-se), que nunca responderam à nossa crítica, fazendo passar a ideia de que não somos especialistas, de que não temos credibilidade para falar dos problemas de educação. Na verdade, como se sabe, embora seja muito esquecido e pouco praticado entre nós, o que vale é a qualidade dos argumentos não o estatuto ou a cara de quem os emite. E o que está em causa discutir, aliás, exige apenas inteligência, cultura geral e sensatez. De qualquer modo não trocaria o meu currículo, de formação académica e profissional, por mil currículos dos «especialistas» do Ministério.(Note-se, de passagem, que para quem impõe o regime das «competências», desvaloriza a cultura letrada, para quem quer acabar com as elites, para quem quis impor a participação de miúdos de dez anos na direcção das escolas, e dos alunos do secundário na elaboração do programa dos cursos e na definirem o modelo da sua avaliação, a contradição é gritante. Na verdade, o que querem, afinal, é uma sociedade igualitária em que sejam eles os únicos… desiguais. Também não é novo na História. )Por outro lado, o facto de hoje, num país da União Europeia, depois da experiência do PREC, tal projecto ser inimaginável, fez com que o eduquês contasse com a distracção ou a indiferença de quase todos nós.Mas se não podia ser assumido «oficialmente» pela nomenclatura do Ministério, a verdade é que os teóricos mais puros e duros do eduquês não resistiram a irem revelando nos seus escritos, mais ou menos explicitamente, esse projecto impensável (ver a antologia organizada por Nuno Crato, O Eduquês em Discurso Directo, Gradiva).E, assim, o projecto pode ser realizado com uma continuidade que nunca qualquer outro programa político teve depois do 25 de Abril, sobrevivendo a todas as mudanças de governo, aos vários ministros da educação, à tragédia gritante, sempre a agravar-se, dos resultados e do abandono escolares, do ambiente insuportável em muitas escolas, à frustração e à desistência de inúmeros professores, à evidência crescente dos seus efeitos devastadores na realidade económica e social do Pais.2. Repetido o que quis afirmar no meu texto, pergunto ao Senhor Eduquês que o comentou (trato-o assim por não saber o seu nome): é verdadeiro o que afirmo ou é falso? Se é falso explique então, a todos nós, claramente, qual é o projecto do eduquês do Ministério. E diga-nos de que outro modo poderemos interpretar os escritos dos representantes puros e duros do eduquês coligidos no livro de Nuno Crato.Aliás, como muito pertinentemente foi referido noutro comentário, quem tem de responder a estas questões é a senhora Ministra da Educação. Tem de dizer claramente ao País de que lado está, o que pensa do eduquês e como vai agir relativamente ao seu domínio total do sistema educativo. Dizer muito claramente, qual é, afinal, o seu projecto, que intenções tem.3. Um mundo de clones é o mundo em que o eduquês gostaria de nos pôr a viver. Com essa nomenclatura iluminada a mandar em nós, claro. Como aconteceu sempre nas tragédias históricas em que a experiência foi tentada.Mas é, felizmente, um mundo impossível. Felizmente, porque para mim não é um mundo desejável. Não quero ser igual a ninguém. «Não sei por onde vou, não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí» são versos de José Régio.4. Dito isto, vou tentar mostrar (permita-se-me a especulação um pouco naive a que vou recorrer) que o projecto igualitarista é irrealizável. Mas, antes disso, quero lembrar que mesmo quando se apresentou como um projecto generoso acabou sempre, historicamente, quando as circunstâncias o permitiram e não foi travado a tempo, na crueldade mais odiosa. Não podia ser de outro modo, como facilmente se compreende. Um dos exemplos mais recentes é o do Cambodja de Pol Pot: começou na escola e terminou nos campos de extermínio. Não é ficção aquilo de que falo.Assim:a) A primeira condição para realizar a igualdade de todos os seres humanos teria de ser a «construção» de pessoas (pessoas?) geneticamente iguais. O que é uma impossibilidade absoluta. Repare-se, no entanto, que foi esse o projecto do nazismo. Eliminar todos os que não pertencessem a uma suposta raça ariana. Começou pelos judeus e, por meio da esterilização, pelos ciganos e deficientes. E começou sem que quase ninguém imaginasse que poderia tomar conta da Alemanha, sem que fossem levadas a sério as suas primeiras manifestações. Lembram-se do filme Cabaret?b) Mas mesmo que essa impossibilidade fosse realizada, seria necessário muito mais, designadamente: impor a toda a gente a mesma alimentação, obrigar toda a gente a viver no mesmo sítio, a ter os mesmos mesmos vizinhos, os mesmos encontros e desencontros, o mesmo número de irmãos, a mesma longevidade de toda a família (eu perdi o meu pai aos oito anos e sei como isso marcou o meu destino), os mesmos amigos, as mesmas viagens, a mesma namorada, os mesmos livros, os mesmos filmes (é por isso que os regimes totalitários impõem a censura e queimam os livros), o mesmo Benfica, a tropeçar as mesmas vezes, a ter ou a não ter os mesmos acidentes, etc., etc., etc. Percebe-se certamente o que caricaturalmente estou a tentar explicar.Leonardo da Vinci teve onze irmãos. Sabe-se o nome de algum deles? Se conseguíssemos fabricar um Einstein geneticamente igual ao original, não conseguiríamos com isso outro Einstein como o que existiu. Percebe-se porquê, não preciso de pormenorizar mais.Uma loucura, um delírio, portanto. Mas sabemos que foi tentado. E sabe-se a dimensão de sofrimento que causaram as experiências de concretização dessa loucura. E lembramo-nos dos nomes dos «demiurgos» que as impuseram. ***À esquerda ou a à direita - o totalitarismo não é de esquerda nem de direita – a explicação remete sempre para a avidez de poder, o ressentimento, a insegurança pessoal (enfim, não quero, nem seria a pessoa indicada para avançar as explicações do totalitarismo, do delírio ou da simples insensatez), rapidamente transformados em cegueira fanática, inevitável escalada de imparável violência, imposta, porventura, pela lógica de ocultação e justificação. Como é possível que alguém ainda se iluda e isso se possa repetir, se esboce, ou simplesmente se deseje? (Valerá a pena ler, a propósito, o pequeno, mas muito interessante, livro de ensaios de Umberto Eco, Cinco Escritos Morais, Difel.)O problema e o desafio não é tornar todos iguais. O problema e o desafio é o das condições da liberdade para todos.A liberdade não pode existir na imposição de um padrão, numa realidade em que «a obediência a um padrão é a única forma considerada verdadeira de auto-afirmação, onde aquilo a que se dá o nome de liberdade não é a possibilidade de agirmos no interior de um qualquer vazio, por reduzido que seja, reservado à nossa escolha pessoal, sem interferências dos outros». A essência da "liberdade livre" (a expressão feliz é de outro poeta, António Ramos Rosa) está na possibilidade de escolhermos o que queremos ser, porque o desejamos, sem coerção, sem opressão, não absorvidos num grande sistema… inexoravelmente totalitário.O sonho da harmonia universal não será realizável, mas a redução das desigualdades sociais deve ser um objectivo sempre presente, que só pode ser realizado pela educação, oferecida a todos, apoiando mais os mais desfavorecidos, os que tenham maior dificuldade em progredir, uma educação dirigida ao que é distintivo da nossa humanidade: à inteligência, que só pode gerar solidariedade; realizado pela afirmação e a defesa intransigente dos direitos e dos grandes valores humanos; pelo aprofundamento da democracia.Claro que o caminho da liberdade e do progresso não é, como bem sabemos, um caminho sem escolhos. É um caminho de combate, foi para muita gente, um caminho degrandes sofrimentos, de avanços e de recuos, mas chegámos aonde chegámos.Como disse Churchill e vem a propósito lembrar, não se encontrou até hoje melhor solução, apesar das limitações e dos obstáculos que revoltam e é preciso enfrentar e superar. De qualquer modo, o que haverá mais para fazer na vida se não caminhar…Educação, insisto, centrada no que se dirija ao córtice cerebral, o «lugar» onde a matéria se converte em consciência, o reino da intuição e da análise crítica, onde surgem as ideias e a inspiração, a matemática e a música. O córtice que controla a nossa vida consciente. Que distingue a nossa espécie. Cerne da nossa humanidade. Que produziu a civilização. Um ensino centrado no conhecimento, na exigência intelectual e na responsabilidade humana, nas suas várias dimensões.Percebe-se, assim, também, porque são um logro, e humana e socialmente um crime, as «novas» teorias pedagógicas.Sabemos que esta ambição humaníssima tem de ser um combate diário de cidadãos informados e, por isso, com consciência crítica. Construindo a confiança que é condição do progresso pessoal e social. Cidadãos que "aprendam a aprender" (outro slogan mentiroso do eduquês…) da única maneira que há para o conseguir: aprendendo, adquirindo os conhecimentos que contam e lhes permitem pensar criticamente a realidade, conhecimento que transforma, valoriza, a inteligência. Como explicou muito claramente Carl Sagan, parecendo estar a enfrentar o tal slogan absurdo, mas que ouço ser repetido por tanta boa gente que devia compreender o logro: «A informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência». Percebe-se, pois, porque é um crime a desvalorização do conhecimento e dos saberes, a atrofia da memória, estúpida ou perversamente programada, perpretada na escola.É por isso que para mim só há um grande e fundador problema em Portugal: o do baixíssimo nível de instrução dos Portugueses. Resolvido esse, todos os outros se resolverão por acréscimo. É esta a grande dívida pública, monstruosa, endémica, de Portugal. Que em cada dia se está a agravar (ao contrário do que me dizem ter dito no dia 26, na televisão, surpreendentemente para mim, o Professor Marçal Grilo). É este o grande défice cívico de todos nós.E pronto, vou para férias. Felicidades para todos, mesmo para todos.Guilherme Valente
May 28 2010, 5:34am | Comments »
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O BINÓMIO DE NEWTON. VERDADE E SOCIEDADE
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Post convidado de Guilherme Valente, editor da Gradiva:Sou amigo de Guilherme Valente,mas sou mais amigo da verdade. Guilherme ValenteO que Aristóteles disse foi: «Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade.» A variação que introduzi na epígrafe pretende traduzir uma necessidade e uma exigência e suscitar coragem, que me parecem cada vez mais imperativas nestes tempos da moda pós-moderna e relativista que vivemos.E escrevi o que hoje é óbvio. De facto, a exigência de verdade, que devemos cultivar, tem de começar por incidir sobre nós próprios, sobre as nossas próprias convicções. E temos de ter coragem para assumir a verdade a que pensamos ir chegando. Um dos ideais da cultura clássica grega exprimia-se na exortação: «Sê (em cada momento) tu próprio.» Isto é, assume o que és realmente, não traias o que realmente pensas e sentes. Noutros contextos históricos houve gente que para ser igual a si própria precisou de muito mais coragem do que agora precisaríamos. Convém acrescentar ainda, claro, citando Confúcio, que só não mudam os burros ou... a pessoa mais inteligente do mundo.Esta exigência de verdade, que deve começar relativamente às nossas próprias ideias, é o cerne da investigação na física e na matemática, nas ciências dignas desse nome. É a essência da cultura científica (é neste sentido que costuma dizer-se que o cientista procura o erro). Por isso me pareceu tão decisivo promover a cultura científica num país como o nosso, em cuja história o método da ciência, a sua exigência de objectividade, de rigor, de verdade, tão pouco se fizeram sentir.Numa bela fórmula, Carl Sagan definiu o espírito científico como a atitude de máxima abertura perante todas as ideias, velhas ou novas, e de máximo rigor crítico na análise de todas elas. Antes de mais — está implícito, mas sublinho-o — das nossas próprias ideias.É esta a atitude que o cientista a sério pratica e exercita, em primeiro lugar relativamente ao seu próprio trabalho, às suas próprias intuições e teorias. Só com esse espírito, que é um método, fará avançar a ciência, aproximará mais da verdade o património inestimável do conhecimento universal. Pelo menos da verdade no mundo natural, mas recordo que S. Tomás de Aquino considerava o conhecimento da Natureza um contributo para a compreensão da revelação divina. E João Paulo II, na encíclica A Fé e a Razão, escreveu que «quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo (…) nele se torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria existência».Esta atitude de abertura e de exigência crítica é também, claro, a atitude que cada cientista tem de exercitar em relação ao trabalho dos outros cientistas. Infelizmente nem sempre assim acontece, como se sabe, porque uma coisa é a ciência e outra os cientistas, do mesmo modo que uma coisa é a religião e outra os religiosos.A resistência aos grandes avanços da ciência não vem dos leigos. Vem sim, como é natural, durante algum tempo (quantos anos esperou Einstein para ver confirmada e aceite a sua teoria?), da surpresa e da dificuldade de entender a ruptura da novidade. Mas vem também, infelizmente, dos pares a quem a novidade ultrapassa, que se sentem diminuídos por ela (injustificadamente, claro, porque não pode ser outro o caminho do progresso científico, em que não deve haver concorrência, mas sim emulação). E vem também, como se sabe, de interesses prejudicados por novas aplicações dos resultados alcançados. Mas a força da verdade e a paixão da descoberta acabam sempre por se impor. O desejo de conhecer está inscrito na natureza do Homem, é o destino dos seres humanos.O abade Pierre, uma das grandes figuras liberais da Revolução Francesa, dizia: «Promovam a ciência e estarão a promover a liberdade.» A ciência, por se alimentar da verdade, precisa de liberdade. E por sua vez alimenta-a.Essa atitude autocrítica e crítica, essa atitude de verdade que é condição da ciência, não deverá ser generalizada, não deverá informar toda a sociedade? Não deve ser esse, por exemplo, o exercício permanente dos políticos, nas suas decisões e na sua relação com os cidadãos? Não deve ser essa a atitude de todos nós?É que, além de uma superior dimensão ética e moral, a verdade tem ainda uma mais que evidente dimensão, um mais que evidente valor e efeito sociais. Ela é também condição da confiança. A ciência, a democracia e o desenvolvimento emergiram e floresceram juntos na história.O amor à verdade, a prática da verdade, não são, assim, apenas indicadores do carácter, da saúde moral, de uma sociedade e de um país. São também um indicador da sua prosperidade.Guilherme Valente
May 11 2010, 5:03pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
AMIGO DA VERDADE
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Post convidado de Guilherme Valente, editor da Gradiva:Sou Amigo de Guilherme Valente,mas sou mais amigo da verdade.Guilherme ValenteNa epígrafe acima escrevi o óbvio. Mas dei um passo de gigante relativamente ao que o grande Aristóteles escreveu. Ele não deu esse passo por lhe faltar inteligência, claro, mas por falta de História e de circunstância (mas, mesmo assim, podia tê-lo dado, como deu tantos outros, ainda hoje inultrapassados). De facto, o que Aristóteles escreveu foi: «Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade».Na bela definição de Carl Sagan, a ciência, o espírito científico, é uma atitude de máxima abertura perante todas as ideias, velhas ou novas, e o máximo de rigor crítico na análise de todas elas. Antes de mais – está implícito na fórmula de Sagan, mas eu explicito - das nossas próprias ideias.É esta é a atitude que o cientista digno desse nome pratica e exercita em primeiro lugar relativamente ao seu próprio trabalho, às suas próprias intuições e teorias. Só com esse espírito, que é um método, pode produzir conhecimento e aproximar-se da verdade.Deve também ser esta, claro, a atitude que o cientista deve exercitar relativamente ao trabalho dos outros cientistas. (Infelizmente nem sempre assim acontece, como se sabe, porque uma coisa é a ciência, outra são os cientistas, do mesmo modo que uma coisa é a religião, outra os religiosos. A resistência a grandes avanços na ciência não vem dos leigos, vem de pares a quem a novidade ultrapassa ou de interesses aos quais novas aplicações prejudicam.)E não deveria ser esta atitude autocrítica generalizada a toda a sociedade? O exercício permanente, por exemplo, dos políticos? Uma atitude de todos nós? Como seria diferente Portugal se fosse essa a cultura dominante na nossa sociedade. E sendo uma condição do progresso pessoal e social não será esta atitude também uma condição da liberdade?O abade Pierre, uma das grandes figuras liberais da Revolução Francesa, dizia: «Promovam a ciência e estarão a promover a liberdade». De facto, ciência, democracia e desenvolvimento emergiram e cresceram juntos na História.Guilherme Valente
May 10 2010, 2:26am | Comments »







