O António Bracinha Vieira, um dos primeiros investigadores a procurar desenvolver o estudo das bases biológicas do comportamento entre nós, escreveu um belissimo texto de homenagem a Darwin para o Expresso. Publicamos no De Rerum Natura a versão integral, por gentileza do autor."No dia 24 de Novembro de 1859 foi lançada a primeira edição do livro de Charles Darwin A origem das espécies por selecção natural. Nele, Darwin formulava a teoria – chamada ‘darwinismo’ por Alfred Russel Wallace, que de modo independente também a descobrira – segundo a qual as espécies evoluem a partir de um antepassado comum por efeito da selecção exercida pelo ambiente favorecendo reprodutivamente os indivíduos melhor adaptados. Construíra esta teoria após longa e atenta reflexão, a partir de factos observados durante a sua viagem a bordo do Beagle. Grande parte da comunidade científica reconheceu desde logo os fundamentos sólidos do darwinismo e Darwin obteve a consagração em vida. Hoje, os que se opõem à teoria da evolução não se baseiam em fundamentos científicos mas em preconceitos. O que mais fortifica a teoria selectiva é a sucessiva refutação de todas as teorias competidoras: mesmo os trabalhos de ilustres investigadores anti-evolucionistas (Pasteur, von Baer, von Uexküll, T.H. Morgan, entre outros) acabaram por lhe trazer firmes e renovados argumentos. Mas a posição do Homem na natureza sempre provocou um campo de forças deformante da realidade, propício a manipulações ideológicas e religiosas da ciência, suscitando assaltos premeditados à lógica da investigação e da interpretação dos dados. O sistema de crenças interfere então com o de provas, espalhando uma atmosfera de obscuridade. Na última página da Origem das espécies, Darwin escrevera: «Muita luz será lançada sobre a origem do Homem e a sua história». Esta frase foi suprimida na primeira edição alemã da obra! Decorrido um século e meio sobre o aparecimento deste livro, o preconceito continua a guiar os que recusam a evolução. Posto que os argumentos inúmeros e convergentes que a comprovam lhe conferem o mesmo grau de credibilidade que à órbita heliocêntrica da Terra, só por ignorância ou má fé é possível hoje rejeitá-la. A evolução não é mais uma simples teoria, mas um imenso programa de investigação que unifica todas as disciplinas da biologia e ciências da natureza: geologia, tectónica de placas, paleoclimatologia, biogeografia, genética, sistemática, anatomia e fisiologia comparadas, embriologia, paleontologia, etologia, biologia molecular, recebem da perspectiva evolucionista justificação mútua dos seus saberes. Estas disciplinas, que tinham crescido em separado, encontraram na teoria sintética da evolução (assim chamada pelo seu poder integrador dos conhecimentos) um eixo organizador que as reuniu, como aos ramos de uma árvore, numa totalidade coerente. Desde Darwin, não houve em biologia nem ruptura nem crise científica (no sentido do célebre filósofo da ciência Thomas Kuhn), antes clarificação de uma imensa constelação de fenómenos através da mesma matriz disciplinar. Supusera Leibniz que a manus emmendatrix (a mão providencial) de Deus resolvia os erros que surgissem na construção do mundo. Oposta é a natureza do processo evolutivo: a partir de erros de replicação genética chamados mutações aumenta a diversidade sobre a qual vai operar a selecção natural. O processo evolutivo joga-se em dois tempos: a recombinação genética, aleatória; e a triagem dos organismos (fenótipos) resultantes. A estes dois lances encadeados chamou Jacques Monod «o acaso e a necessidade». Do seu resultado, obtido em interacção com o meio, provêm os indivíduos, sempre diferentes, de cada espécie. A teoria sintética da evolução, proposta em 1942 por Julian Huxley, a que se seguiram os contributos de Mayr e Dobzhanski, incorporou a genética no processo evolutivo e clarificou vastos domínios de todas as ciências geográfico-naturais. Decerto que alguns importantes fenómenos permanecem em parte inexplicados (mas não inexplicáveis) pelo darwinismo e aguardam futura investigação: essa é a condição da ciência. A biologia molecular, última das disciplinas biológicas a entrar em cena, completou a demonstração da homologia (origem a partir de um antepassado comum) de todos os seres vivos. Desde as formas mais elementares às mais complexas, todas têm um código genético nos mesmos moldes do dos vertebrados, provando a unidade da frondosa árvore dos seres viventes. A engenharia genética permitiu passar genes de uns organismos para outros, p. ex. genes humanos para bactérias de modo a que produzam insulina humana. E os níveis de homologia (incluindo os cérebros) de todos os vertebrados, mamíferos e, mais intimamente ainda, primatas, levam a que se ensaiem com eficácia os medicamentos destinados a seres humanos – incluindo os psicofármacos – em ratos e chimpanzés (hoje felizmente protegidos por legislação da UE), provando-se o que é óbvio: no primeiro caso, a estrutura semelhante e permutável dos genomas entre espécies tão distantes como homens e bactérias; no segundo, a semelhança biológica profunda entre os mamíferos. No limite, é possível obter embriões híbridos, por exemplo humanos e não-humanos. Como, sendo assim, excluir uma comum matriz de origem? Encontramo-nos inseridos na radiação da vida, sendo parentes mais ou menos próximos de todos os seres vivos, actuais ou extintos. A nossa presença na biosfera é casual e recente, puro acidente decorrendo do ‘oportunismo insensível da evolução’ de que falava Dobzhanski. O ‘relógio molecular’, hoje minuciosamente calibrado, mostrou que a origem de Homo sapiens ascende a cerca de 200.000 anos, tempo breve em termos de idade geológica. Por isso, a espécie humana actual (porque houve outras que a precederam, hoje extintas) mantém grande homogeneidade genética, não tendo decorrido tempo suficiente para a formação de raças humanas, conceito hoje destituído de valor operacional em ciência (apesar das variações exteriores de aspecto fenotípico). Não temos o monopólio da inteligência, do uso intencional de ferramentas, nem sequer da linguagem. O desenvolvimento embrionário, provou August Weismann, repete em traços gerais a história natural dos antepassados. Assim se retêm traços e características que perderam função mas, não sendo contra-adaptativos, persistem. É o caso da cauda, funcional em muitos primatas não-humanos e ausente nos antropóides, genética e evolutivamente muito afins conosco. Estes animais (gibões, siamang, orangotangos, gorila, chimpanzés, bonobo) e o Homem não têm cauda livre: mas as vértebras caudais fundiram-se num órgão residual, o cóccix, onde a configuração vertebral é bem visível. Pertence à categoria dos órgãos vestigiais que, persistindo por inércia filogenética, revelam estruturas do passado evolutivo. De longe em longe nascem mesmo crianças com cauda livre, rara e interessante anomalia reversiva que uma redundância genética actualiza. Também o núcleo inato do comportamento, que evolui por selecção natural, conserva traços arcaicos: um recém-nascido humano prematuro agarra-se firmemente com mãos e pés a um fio horizontal do qual pode suspender o peso do próprio corpo, num reflexo de preensão provindo de antepassados arborícolas. Críticos mal avisados afirmaram não ser possível presenciar a selecção natural em acção. Enganam-se. Não poderão ver o que decorre nos tempos geológicos (como não verão o movimento dos ponteiros dos minutos e horas nos relógios, sem duvidarem de que se movem). Mas podem testemunhar, no tempo das suas vidas, efeitos selectivos. No caso da malária, grave doença humana, o vector (mosquito) transporta o agente (plasmódio) ao hospedeiro (Homem). Em cada um dos três vértices deste triângulo se exerce a selecção. Os plasmódios seleccionam sucessivamente estirpes resistentes aos novos anti-maláricos descobertos; os mosquitos seleccionam estirpes imunes a renovados insecticidas; e as populações humanas nas áreas endémicas seleccionam e fixam formas de hemoglobina (como a hemoglobina s, regida por um só par de alelos) que o plasmódio não digere e por isso protegem da doença. A área de distribuição da hemoglobina s coincide rigorosamente com a faixa de repartição da malária em África, na Ásia, Insulíndia e Américas Central e do Sul. Mas, sendo a heterozigose adaptativa nestas regiões, a homozigose comporta riscos, e nos EUA, país ao qual os descendentes de escravos negros levaram os genes mutantes, a percentagem destes reduz-se a cada geração, por não haver já malária e os custos da hemoglobina s serem ali superiores aos benefícios. Enquanto os detractores religiosos do pensamento evolucionista tentam denegá-lo, voltando ao que parece inconcebível – um cenário criacionista para os seres vivos! – no domínio das ‘ideologias progressistas’ permanece uma nostalgia das ideias de Lamarck, de uma evolução orientada tendo o Homem por alvo e objectivo final e pressupondo a hereditariedade de traços adquiridos. Assim, através de endoutrinação as ‘vanguardas revolucionárias’ imprimiriam o seu cunho a um ‘processo histórico’, mudando a sociedade em poucas gerações e conduzindo-a a um destino optimista. Por seu lado, correntes cristãs de obediência papal tentam reabilitar modelos evolutivos vitalistas e finalistas, como o do jesuíta Teilhard de Chardin. Num hemiciclo imaginário onde as convicções ideológicas fossem cotejadas com as ideias sobre a origem das espécies, a extrema direita seria hoje ocupada por cristãos fundamentalistas de convicção fixista e neocriacionista, por um grupo menos radical de orientação vitalista, e também por alguns evolucionistas ateus, eventualmente racistas, defendendo um determinismo genético da evolução; enquanto a chamada ala esquerda se repartiria entre evolucionistas variacionais sem crença religiosa (darwinistas) e evolucionistas transformacionais (neo-lamarckistas) ligados ainda ao marxismo histórico. Ideólogos e fanáticos religiosos procuram na natureza caução para os seus dogmas: por isso censuram, deformam ou manipulam a teoria da evolução. Num momento em que o preconceito se eleva como uma tempestade e uma vaga de irracionalidade desaba a contagiar a multidão, justifica-se um comentário sobre o alcance da obra de Darwin e suas consequências. Se nalguns países o ensino do darwinismo fosse nivelado com o de modelos obscurantistas (fixistas, neo-creacionistas, vitalistas), então a História seria uma aventura falhada, negando as ideias que lhe serviram de fundamento. E Homo sapiens, assim denominado por Carl von Linné (que ao arrumá-lo junto com os outros antropóides já acedia à ideia implícita de evolução), antes mereceria o nome específico de Homo stupidus (espécie conjectural proposta e assim denominada por Ernst Haeckel, poucos anos após o aparecimento da Origem da espécies). Porque evoluem as formas vivas? Porque a Terra não é estática: o meio-ambiente está em modificação contínua – deriva continental, clima, solos, vegetação, recursos alimentares, predadores e presas, parasitas e simbiontes – e, sem evolução, a breve prazo os elementos de cada população de cada espécie estariam inadaptados. Assim, encontramos Darwin como a figura decisiva que divide a história da biologia em duas épocas e em duas vertentes, uma de sombra e outra de luz. Ernst Mayr, grande teórico da evolução, escreveu recentemente: «Os argumentos [contra o darwinismo] baseiam-se numa tal ignorância da biologia evolucionista que não vale sequer a pena referir os escritos que os contêm. (...) Os princípios básicos do darwinismo estão mais firmemente estabelecidos do que nunca.» Eis como a biologia, após a síntese evolucionista – e ao contrário da física, dividida ainda entre as teorias da relatividade geral e da mecânica quântica – se tornou numa ciência exemplar, integrada em torno de uma teoria central unificadora capaz de dirigir e aprofundar a investigação em todas as frentes. "
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A actualidade do Darwinismo
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February 22 2009, 10:21am | Comments »
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CAFÉ COM FILOSOFIA: DARWIN E A ILUSÃO DO HUMANO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/01/caf-com-filosofia-darwin-e-iluso-do.html
Informação recebida da Associação de Professores de Filosofia:A Associação de Professores Filosofia (APF) tem realizado nos últimos anos várias séries de Cafés com Filosofia que pretenderam, de modo informal e convivial, debater temas filosóficos sortidos e que, em cada momento e circunstância, considerámos pertinentes.Dando continuidade a esta iniciativa, e associando-nos modestamente às comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação da obra A Origem das Espécies, a APF irá promover na livraria Almedina Estádio Cidade de Coimbra, dia 12 de Fevereiro pelas 21.00, um Café com Filosofia intitulado Darwin e a Ilusão do Humano. Serão nossos convidados Ana Leonor Pereira, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Manuela Alvarez, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra e Pedro Ricardo Fonseca, bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia.Texto para motivar a discussão:"No seu livro A Ideia Perigosa de Darwin, o filósofo Daniel Dennett escreveu que «se tivesse de atribuir um prémio à melhor ideia de sempre, o vencedor seria Darwin, à frente de Newton, de Einstein e de todos os demais». Em boa verdade, alguns exaltam os seus valores epistémicos intrínsecos – eficácia preditiva, coerência e consistência, generatividade, poder unificador –, que consagraram o sucesso evolutivo da sua teoria na luta competitiva da «selecção natural das hipóteses» e das teorias (Popper). Outros, porém, fascinados narcisicamente pela singularidade do humano, demasiado humano, ressentiram-se da perda do protagonismo antropoteológico na história da vida contada pela Teoria da Evolução e clamam por justiça – humana, divina, epistemológica. A Ideia Perigosa de Darwin: o que vale? Que futuro?"
January 15 2009, 10:56am | Comments »
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O PROGRESSO SEGUNDO SPENCER
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Uma vez que há uma vida real para além da vida virtual é-me praticamente impossível comentar os comentários, embora alguns sejam bons e mereçam comentários. Perguntaram-me, a propósito de um post sobre uma frase do naturalista oitocentista português Francisco de Arruda Furtado, qual era o significado de progresso. Também não tive tempo de ir cotejar a fonte original com outros escritos do mesmo autor. Mas um autor extraordinariamente influente na época, o filósofo inglês Herbert Spencer (na imagem), tem um pequeno livro precisamente sobre esse tema ("O Progresso. Sua Lei e Sua Causa", Editorial Inquérito, Lisboa, 1939, tradução e prefácio de Eduardo Salgueiro) onde logo de início define progresso. Deste modo:"Está fora de qualquer discussão o facto de o progresso orgânico consistir na passagem do homogéneo para o heterogéneo.Assim, propomo-nos demonstrar, em primeiro lugar, que esta lei do progresso orgânico é a lei de todo o progresso; quer se trate das transformações da terra, do desenvolvimento da vida à sua superfície ou do desenvolvimento das instituições políticas, da indústria, do comércio, da língua, da literatura, da ciência, da arte, dá-se sempre a mesma evolução do simples para o complexo, mediante sucessivas diferenciações. Desde as mais remotas transformações cósmicas, de que ainda existem sinais, até aos mais recentes resultados da civilização, vê-se que o progresso consiste essencialmente na passagem do homogéneo para o heterogéneo."O sublinhado é meu. Dado o facto de o evolucionismo ter entrado na esfera cultural em Portugal graças a Haeckel e a Spencer, talvez fosse esta a ideia de progresso para Arruda Furtado (o ensaio de Spencer, que ainda se apanha barato numa feira do livro e que está "on-line" em texto integral na Net, incluindo a tradução portuguesa, data de 1857, portanto dois anos antes da "Origem das Espécies"). A generalização de Spencer do orgânico para o social é perigosa. Como é bem sabido, Spencer é o responsável por alguns desvios do darwinismo como o darwinismo social, com a ideia da "sobrevivência dos mais aptos".
January 14 2009, 3:32am | Comments »
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Teoria e observação na SEP
http://dererummundi.blogspot.com/2009/01/teoria-e-observao-na-sep.html
A Stanford Encyclopedia of Philosophy acaba de publicar um novo artigo sobre teoria e observação na ciência, de Jim Bogen. Poderá ser do interesse de alguns leitores deste blog, tanto cientistas quanto outros leitores interessados em ciência. O problema filosófico fundamental é saber qual é exactamente a relação entre a observação e a teoria, em ciências como a física ou a biologia. Ao contrário do que o verificacionismo ingénuo que muitas pessoas sustentam, não há uma relação directa, pois praticamente qualquer teoria pode ser sustentada face a quaisquer observações que aparentemente a refutam, mudando ligeiramente certos aspectos inessenciais da teoria. Esta banalidade lógica gera muita parvoíce, como a que constantemente nos infecta este blog: o nosso criacionista de serviço, que raia a loucura e cujos comentários tenho tido o gozo de apagar nos últimos dias, argumenta sistematicamente com base na ideia de que é possível compatibilizar o criacionismo judaico-medieval com as observações aparentemente recalcictrantes. E é. Só que isso não basta para ser racional sustentar uma dada teoria. Saber o que basta ou não é o tema do artigo.
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January 9 2009, 1:55pm | Comments »
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CONSENSO EM CIÊNCIA
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/consenso-em-cincia.html
Com a devida vénia, publicamos o texto de João Miranda que saiu no "Diário de Notícias" de sábado passado:O aquecimento global tornou-se numa questão política incontornável. Os ambientalistas alegam que existe um consenso científico sobre o assunto. No entanto, "consenso" não é um critério científico mas sim um critério político. O método científico não é um processo democrático em que a voz da maioria conta mais que a voz da minoria. O processo científico é um processo adversarial de descoberta da verdade em que o que conta é a qualidade dos argumentos e dos resultados experimentais.David Hume mostrou que não é possível provar teorias gerais sobre a realidade por métodos empíricos. Esta ideia de Hume limita aquilo que o método científico pode fazer. O método científico não permite confirmar as teorias que são verdadeiras. Permite apenas rejeitar as teorias que são falsas. Como Karl Popper explicou, o método científico é uma sucessão de conjecturas e refutações. A fiabilidade de uma teoria é tanto maior quanto maior for o esforço para a refutar.A fiabilidade do processo científico depende da integridade dos processos sociais que produzem ciência. Estes processos sociais são frequentemente deturpados pelas preferências políticas das agências de financiamento e dos próprios cientistas. Os ambientalistas tentam condicionar o processo científico através da alegação de que existe um consenso científico sobre aquecimento global. Na realidade, esta alegação pode ser um indício de que o processo científico está bloqueado. Quando existe consenso, ninguém está a participar no processo de refutação. O processo científico está morto.Nos últimos anos, os ambientalistas mais radicais têm centrado a sua atenção nos cientistas que contestam as ideias dominantes sobre o aquecimento global. Chamam-lhes "negacionistas", por analogia com os neonazis que negam o Holocausto. Trata-se de um termo ofensivo que visa denegrir o cepticismo. Os cépticos são os heróis do processo científico. Apesar dos custos pessoais e profissionais, asseguram o processo de refutação sem o qual não existe actividade científica.João Miranda
December 7 2008, 2:08pm | Comments »
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Orgasmo feminino, evolução e política
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/orgamo-feminino-evoluo-e-poltica.html
Stephen Crowley publicou na NDPR uma recensão do prometedor livro de Elisabeth A. Lloyd, uma das principais filósofas da ciência e da biologia, intitulado Science, Politics, and Evolution (Cambridge University Press, 2008, 301 pp.)
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October 28 2008, 6:39am | Comments »
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Filosofia das artes e das ciências
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/filosofia-das-artes-e-das-cincias.html
O Carlos chamou a atenção para um livro apetitoso de Maria Helena Santana, e citou passagens que me parecem muito interessantes, por duas razões.Primeiro, porque a autora parece identificar a ciência com a verificação. Efectivamente, muitas pessoas têm uma noção verificacionista da ciência; não sei se é o caso da Helena. Esta concepção de ciência, penso, está errada e quem o demonstrou foram precisamente os verificacionistas: os positivistas lógicos. Uma concepção diferente da natureza da ciência encontra-se no capítulo com o mesmo título do livro A Última Palavra, de Thomas Nagel. Concordo com o autor que o que conta na ciência e faz dela ciência não é a verificação, mas a justificação — e a justificação por via da verificação é apenas uma das modalidades da justificação.Segundo, a Helena parece defender que a literatura ou as artes são contribuições significativas para o nosso conhecimento das coisas. Discordo desta ideia; a literatura e as artes dão-nos apenas um conhecimento aprofundado de coisas como estruturas narrativas, cores, formas, estruturas sonoras, etc. Não encontro na arte quaisquer ideias sofisticadas sobre assuntos como o sentido da vida, a natureza da realidade ou do pensamento, a existência de Deus, etc. A ideia de que há insights fundamentais nas artes sobre estes temas parece-me insustentável.A posição da Helena parece exprimir uma concepção filosófica interessante da arte: a ideia de que o valor da arte tem de residir no seu contributo cognitivo geral. Isto parece-me insustentável. A arte pode ter valor por outras razões que não as estritamente cognitivas, e mesmo que tenha valor cognitivo, pode ser sobre aspectos muito delimitados da realidade, com os que referi. Ninguém verdadeiramente interessado num qualquer problema relativo à realidade ou ao nosso conhecimento dela fica a saber grande coisa lendo literatura, poesia ou vendo pinturas ou ouvindo música. E por que haveriam as artes de ter de dizer coisas interessantes sobre estes temas?Note-se que seria na verdade muitíssimo surpreendente que um romancista, um pintor ou um músico pudesse realmente ter qualquer coisa de sofisticado para dizer sobre estes temas, dado que não os estuda sistematicamente como um filósofo ou um cientista. Só a ideia romântica de que os artistas têm um acesso privilegiado à verdade porque foram tocados pelos deuses pode sustentar a ideia de que se encontra na poesia ou na pintura algo de sofisticado sobre a natureza da realidade ou do conhecimento ou qualquer outro tema cognitivamente alheio aos próprios materiais da arte (cores, formas, sons, ritmos, narrativas, etc.). Isto parece concordar aliás com a prática das pessoas, que aparentemente não vão ler romances, ouvir música ou ver pinturas para descobrir se há deuses, qual é a origem do universo ou qual é o caminho da felicidade, mas fundamentalmente para terem um certo tipo de fruição estética que parece ter valor em si, independentemente de as artes terem ou não qualquer papel cognitivo amplo. Penso que esta fruição estética envolve aspectos cognitivos relacionados com o conhecimento de formas, sons, narrativas, etc., mas apenas nesse aspecto há cognição na fruição da arte. Sobre este e outros temas da filosofia da arte, vale a pena ler este livro.
October 13 2008, 1:53pm | Comments »
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Filosofia da ciência
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/vale-pena-ler.html
The Routledge Companion to the Philosophy of Science, org. por Stathis Psillos e Martin Curd. Routledge, 2008, 656 pp.
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October 4 2008, 8:39am | Comments »
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