Não bastaram aos Gregos dez anos de combate junto às muralhas de Ílion para tomarem a cidade de Príamo. Não bastaram os esforços de grandes guerreiros como Diomedes, Ájax, Agamémnon, Menelau, Pátroclo ou Nestor, nem sequer as inigualáveis qualidades bélicas de Aquiles (que tiraria a vida a Heitor, o combatente mais emblemático do lado troiano), para fazer com que Páris expiasse o sacrilégio de haver raptado Helena, a bela esposa de Menelau, seu antigo anfitrião.O que a força bruta das armas não havia conseguido, irá ser alcançado pelo subtil recurso à imaginação: os Aqueus fingem desistir da campanha, que já inúmeras vidas tinha ceifado, queimam as tendas e zarpam nas suas côncavas naus. Na praia troiana deixam, como oferta aos deuses, em aparente sinal de capitulação, um cavalo de madeira. Iludidos pela expectativa de verem o fim a tamanhas tribulações, os Troianos dividem¬ se quanto ao destino a dar à insólita oferta: deveriam rachar¬ lhe a madeira com o bronze impiedoso dos machados, precipitᬠla num abismo, ou antes acolhê¬ la no interior da cidade?Mas a pressurosa esperança é irmã gémea da imprevidência. Prevaleceu o terceiro parecer e, juntamente com o cavalo, os súbditos de Príamo trouxeram até si a morte ruinosa. Levados por um incauto sentimento de vitória, não se aperceberam de que o interior oco da besta se encontrava recheado com a elite dos guerreiros gregos, que em breve iriam sair, a coberto da noite e da cega embriaguez do inimigo. Sepultados pelo vinho abundante dos festejos, foram muitos os Troianos que logo passaram do torpor do sono à frigidez eterna da morte. E com eles, perecia também Ílion.Este relato, que marca o fim de Tróia, não o ficamos a conhecer na Ilíada, mas somente na Odisseia (canto VIII, vv. 469-520), pela boca de Demódoco (o aedo da corte dos Feaces), a pedido de Ulisses. E são as lágrimas do herói, emocionado ao escutar o belo canto, que levam o rei (Alcínoo) a desconfiar da verdadeira identidade do esgotado hóspede que acolhera no palácio.O valor mais cultivado pelo herói homérico é a noção de excelência (arete, em grego), um conceito que se traduz, na prática, na forma como cada guerreiro se distingue no campo de batalha e no hábil uso que faz da palavra, quando se encontra reunido com os seus pares. A estas qualidades, que marcam todos os grandes guerreiros tanto do lado grego como troiano (o tratamento positivo de Heitor é o exemplo máximo da imparcialidade de Homero), Ulisses vem acrescentar a astúcia, visível tanto na destreza diplomática como na capacidade para deslindar situações difíceis. É isso que justifica o seu epíteto específico de ‘herói dos mil artifícios’ (polymetis ou polymechanos) ou, para dizer de outra forma, o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação. É isso, também, que torna a Odisseia na grande precursora de todo o tipo de literatura de viagens e de aventuras.No entanto, a epopeia homérica constitui, igualmente, um poema de saudade (de nostos), a expressão de um desejo imenso de regressar à segurança de Ítaca, ao ponto de partida. Assim, a mesma imaginação fulgurante que torna Ulisses na incarnação da curiosidade e do espírito agónico característico da mentalidade grega — e, por extensão, do ser humano em geral — comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. E de novo o paradigma homérico se revela esclarecedor: Ulisses, o inventor dos mil expedientes, é também o ‘herói que muito sofreu’ (polytlas), pois não hesitou em aceitar novos desafios, mesmo que deles viesse a resultar um prejuízo pessoal imediato, mas que o tempo saberia compensar.Alem de Penélope, Ulisses deixou em Ítaca também um filho, que o não conhece e por isso mesmo tem de partir, para saber de fonte segura, junto de outros heróis que tenham combatido na longínqua planície troiana, os notáveis feitos que o pai havia cometido. É que não bastava ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses. Também uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já a Odisseia nos faz compreender essa realidade, ao fazer Telémaco sair de Ítaca – em busca do pai, em busca do seu lugar na aventura do conhecimento.Delfim Leão
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Telémaco, filho de Ulisses
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February 17 2011, 4:51am | Comments »
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"Lembrem-se de nós."
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Heródoto põe as breves palavras que servem de título ao presente texto na boca de Leónidas para traduzir a última vontade deste rei de Esparta quando percebeu que o seu dever para com a Grécia, como soberano e soldado, o conduziria inevitavelmente à morte, o mesmo acontecendo com os trezentos guerreiros que comandava, na batalha em que enfrentava o poderoso exército de Xerxes, rei da Pérsia.Passados vinte e seis séculos, a última vontade de Leónidas permanece no pensamento de muitos como um lema de coragem, é certo; mas, mais subtilmente, também ecoa como um pedido simples, quase inocente…Um pedido que, por ser tão facilmente concretizável, não pode deixar de ser desproporcionado ao que Leónidas conseguiu no misterioso no desfiladeiro das Termópilas: a possibilidade de a cultura ocidental se manter e evoluir. Devemos estar bem conscientes de que se a sua decisão e técnica fossem outras, toda a ciência e arte que emerge do modo de pensar grego e, afinal, o determina seria diferente. “Lembrem-se de nós”, foi tudo o que o herói (nos) pediu.Isto a propósito da extrema necessidade e urgência de os sistemas educativos europeus, até por um imperativo ético, voltarem a integrar, valorizando, a História e a Literatura fundacionais.
November 2 2010, 1:06pm | Comments »
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HEGEL SOBRE O PAPEL DA ESCOLA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/hegel-sobre-o-papel-da-escola.html
Temos falado aqui repetidas vezes do papel da escola. Ao ler os "Discursos sobre Educação" do filósofo alemão G. W. F. Hegel (Edições Cotovia, 1994, tradução e introdução de Maria Ermelinda Trindade Fernandes) achei que valia a pena deixar aqui um passo do discurso de encerramento do ano lectivo do Gymnasium (Liceu) de Nuremberga que Hegel, na qualidade de Reitor, proferiu a 2 de Setembro de 1811 (a gravura mostra Hegel a dar uma lição):"A vida na família, isto é, aquela que antecede a vida na escola, é uma relação pessoal, uma relação do sentimento, do amor, da fé e da confiança naturais; não é o laço de uma coisa, mas o laço natural do sangue; a criança aqui vale porque é criança; experimenta, sem o merecer, o amor dos pais, assim como tem de suportar a sua cólera, sem ter qualquer direito contra esta. Em contrapartida, no mundo, o homem vale por aquilo que realiza; só tem valor na medida em que o merece. Pouco lhe advém do amor ou por causa do amor; aqui vale a coisa, não o sentimento e a pessoa particular. O mundo constitui um ser comum, independente do que é subjectivo; o homem vale aí segundo a sua habilidade e utilidade para uma das suas esferas, tanto mais quanto ela se desfez da particularidade e se formou no sentido de um ser e um agir universais.A escola é portanto a esfera mediadora que faz passar o homem do círculo familiar para o mundo, das relações naturais do sentimento e da inclinação para o elemento da coisa. Isto é, na escola começa a actividade da criança a receber, no essencial e de forma radical, um significado sério, na medida em que deixa de estar ao critério do arbítrio e do acaso, do prazer e da inclinação do momento; aprende a determinar o seu agirt segundo uma finalidade e segundo regras; cessa de valer pela sua pessoa imediata e começa a valer por aquilo que realiza, a conquistar para si um mérito. Na família, a criança tem de agir correctamente no sentido da obediência pessoal e do amor; na escola tem de se comportar segundo o sentido do dever e de uma lei, por causa de uma ordem meramente formal, fazer isto e abster-se daquilo que de outro modo poderia bem ser permitido ao singular. Ao ser ensinado em comunidade com muitos, aprende a atender aos outros, a ter confiança em outros homens que de início lhe são estranhos, a ganhar confiança em si mesmo ma sua relação com eles, e, deste modo, a iniciar-se na formação e na prática das virtudes sociais."
December 1 2009, 3:27pm | Comments »
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Educação, conhecimento e justiça
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/educacao-conhecimento-y-justica.html
Em Junho de 2008 realizou-se na Universidade Complutense de Madrid o VI Congresso Internacional de Filosofia da Educação, que se centrou na influência que a Declaração Universal de Direitos Humanos teve na educação mundial, desde que foi aprovada, em 10 de Dezembro de 1948, até ao presente.Devo dizer que assistir a este congresso constituiu uma das experiências mais gratificantes dos últimos tempos na minha vida profissional, pela qualidade da maior parte das comunicações a que assisti e pela frescura intelectual e profundidade das mesmas. Depressa percebi que o nível de reflexão a que os organizadores se tinham proposto era elevado. Confirmei-o, agora, quando recebi o livro - Educación, conocimiento y justicia - que reúne as principais intervenções.José Antonio Ibáñez-Martín, professor da referida universidade, faz a apresentação da obra que coordenou, num texto intitulado, justamente, Educación y derechos humanos. Desse belo texto, transcrevo as passagens que me parecem mais significativas, sob o ponto de vista pedagógico e que, independentemente do país em que nos situemos, nos ajuda a pensar nos caminhos que traçámos para a educação a partir da segunda metade do século XX e daqueles que pretendemos vir traçar no e para o futuro. Ajuda-nos, ainda, a perceber a diferença entre o pensamento que se tem por certo na pedagogia e aquilo que, nos discursos curriqueiros, se faz passar por certo.“Este conjunto de valores (…) só tem sentido na medida em que a pessoa recebeu uma educação, na medida em que, por conhecer as causas das coisas, como dizia Virgílio, pode levantar a sua voz em tribunal, exercer uma liberdade de pensamento com independência da mentalidade dominante, expressar opiniões dignas de serem ouvidas, ter voz activa e passiva nos assuntos públicos ou participar na vida cultural. Assim, a educação é a condição mais relevante para o exercício de numerosos direitos humanos.Naturalmente, falar sobre educação neste contexto obriga a duas reflexões diferentes, pois se é preciso lembrar que tipo de educação se deve ministrar para promover no ser humano as capacidades cujo desenvolvimento protegerão os direitos humanos, do mesmo modo é necessário perguntar como vamos dar a conhecer os direitos humanos e como vamos colaborar para conseguir o seu respeito e efectividade. Estas questões são próprias da filosofia da educação (…) dedicarei três observações à segunda.A primeira observação refere-se ao conhecimento (…) unido ao de justiça. Infelizmente, atravessamos uma maré em que se ataca a pedagogia como se ela fosse inimiga do conhecimento, uma maré parece mover-se entre o desprezo e a hostilidade por tudo o que significa transmissão de saberes. Há quem considere que nas Faculdades de Educação, onde se cultivará a ideia de que a escola é basicamente o lugar de encontro das novas gerações, é um ambiente dissoluto, avesso ao esforço, à avaliação da qualidade e do mérito, e o que é importante é cultivar a auto-estima dos estudantes (….). É certo que alguns colegas nossos, do amplo mundo da educação, não são alheios a esses erros que alguns denunciam com tanta virulência. Mas há que advertir que são poucos e que, verdadeiramente, a quem se deveria deitar esse olhar era aqueles psicólogos que organizaram planos de estudo ao serviço de políticas que viam como injusta e discriminatória qualquer diferenciação curricular ou estrutural que atendia às características, às capacidades e motivações dos estudantes, e alguns pensadores que, atraiçoando os princípios básicos da filosofia clássica, defenderam que não se devia tirar os estudantes da cultura do seu meio ambiente.A segunda observação refere-se ao modo de promover o respeito pelos direitos humanos. De facto, é óbvio que é preciso mostrar o avanço que a Declaração Universal de Direitos Humanos representou para a humanidade. Mas se queremos ajudar a respeitá-los, é preciso que os estudantes passem de um conhecimento rígido a um conhecimento vivo, de modo que o saber seja realmente um berço, como dizia Whitehead, e não um túmulo. Para ele não se trata de depreciar o conhecimento, mas sim de vê-lo como a base a partir da qual o professor procura desenvolver a competência dos estudantes, o que significa desenvolver a capacidade para aplicar esses conhecimentos (…) os problemas reais quando é preciso encontrar uma solução. É bom lembrar que o respeito tem uma componente cognitiva, mas tem igualmente outro activo: respeitar exige comporta-se com a dignidade que se reconhece. Assim, temos de dizer que promover o respeito pelos direitos humanos implica superar o que Havel – no discurso proferido por ocasião do 50 aniversário de Declaração dos Direitos Humanos – qualificava como “o maior problema do mundo multipolar de hoje em dia (…), que não recai o mal em si, mas na tolerância do mal” (…). A terceira observação refere-se ao como conseguir a efectividade destes direitos (…) esta é a questão decisiva sobre os direitos humanos (…) Com efeito, os direitos humanos, podem ser atacados, digamos fisicamente, quando quem tem poder o poder de uma pistola (…) ou pretende obrigar outros a realizar acções contrárias à sua consciência. Pouco pode fazer o educador contra os primeiros, mas pode ensinar os educandos que os países comprometeram-se a respeitá-los (…). Mas eu diria que o ataque pior aos direitos humanos é intelectual. É de quem propaga um relativismo cultural que deixa de considerar os direitos como universais, inalienáveis e inerentes à pessoa, para fazê-los depender da interpretação que deles proponha a cambiante mentalidade dominante ou os interesses mais ou o interesse mais trivial das nações poderosas. No momento, a Declaração Universal do Direitos Humanos passa a carecer de interesse: já não é um horizonte que nada possa trespassar, mas um texto morto, consequência de um consenso que pessoas já desaparecidas alcançaram há tanto tempo que realmente todos estamos autorizados a interpretá-lo dependendo das nossas perspectivas pessoais (…).É justo, hoje (…) aspirar a que os educadores sejam capazes (…) de analisar argumentativamente as bases mais sólidas dos direitos humanos, por quem tantos deram o seu sangue, e de os apresentar às jovens gerações dos modos mais persuasivos, para deles obter apoio e seguimento.”
April 8 2009, 5:10pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"O dever de educar"
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/o-dever-de-educar.html
A Livraria Minerva retoma no próximo dia 21, pelas 18h15, as Terças Feiras de Minerva com a primeira sessão do ciclo O dever de educar, que terá como convidado o Professor João Boavida, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.Neste ciclo lança-se um desafio aos convidados — professores, escritores, cientistas, filósofos, artistas, investigadores, jornalistas, estudantes: como tem sido entendido o dever de educar, e como é ou deve ser entendido no presente.Com eles se discutirá o significado da "aprendizagem activa", da "aprendizagem centrada no aluno", do "direito ao sucesso e da educação para a excelência", da "educação para a liberdade de escolha". Discutir-se-á também o "valor do conhecimento", na "responsabilidade de ensinar", na "importância de desenvolver capacidades como a memória, a compreensão e a criatividade", de "ser professor neste início de século", do "ensino que a escola proporciona" e de "escolas de excepção".As sessões, com uma regularidade quinzenal, destinam-se a todos os que possam ter interesse pela educação, são abertas ao público e decorrem na Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra."O dever de educar" continua com sessões a 4 e 18 de Novembro e a 2 e 16 de Dezembro.
October 20 2008, 1:27pm | Comments »
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