Na sequência de texto anterior e centrando-me ainda em Bento de Jesus Caraça, devo acrescentar que a sua preocupação de usar uma linguagem acessível para chegar aos diversos "públicos" com quem contactava, não se restringia à escrita, incluia também a oralidade. Maria Alice Chicó (1998, 52-53) relembra-o, neste aspecto, da seguinte maneira:“O que era maravilhoso era que, quando falava connosco, Bento Caraça nunca tomava atitudes magistrais. Tem-se dito que ele falava com simplicidade à gente simples. O que se deve acentuar é que a sua simplicidade na exposição era o produto de uma reflexão profunda que estava subjacente a todos os assuntos de que nos falava, e que lhe permitia tirar deles a síntese que os tornava imediatamente claros e apreensíveis a toda a gente. Havia nele uma grande serenidade, um jeito de nos envolver no calor da sua presença e de encontrar a palavra amiga que animava, que fazia julgar a vida difícil, menos árdua de se viver com dignidade.”Trata-se de uma descrição que me parece assentar bem a um outro professor, mas de Português, e, além disso, poeta, que, em finais dos anos quarenta e princípios dos cinquenta se detinha igualmente na linguagem que sem trair o próprio educador, lhe permite chegar ao outro, lhe permite educá-lo. Refiro-me a Sebastião da Gama (1924-1952), que num extracto do seu Diário explicava:“Está provado que não nasci para falar a doutores. Um dos meus professores viu direito quando, no meu exame de admissão ao estágio, lamentou que a minha linguagem nem sempre fosse a mais conveniente (…). Isto é uma qualidade e um defeito: ao pé deles fico apagado, e escuso de ter razão, porque até a razão tem de andar bem vestida para entrar nas salas (…). Esta folha vem a propósito de eu neste dia, em vez de dar aula, ter ido conversar com o metodólogo e de ter sido este um dos pontos que tratámos. Perguntei-lhe se devia falar caro ou falar acessível; e ele achou, comigo, que devia falar acessível, porque «serei sempre diferente deles». Isto de ser «diferente deles» vem lembrar-me outro assunto sobre que falámos — se não neste, noutro dia. O do professor que sente a necessidade de se impor ao aluno pelo alardeamento de uma vastidão e complicação de conhecimentos com que o amachuca e que se irrita ou inventa, se necessário for, quando o aluno lhe pergunta qualquer coisa que ele não sabe. Por mim, nego-me a impor-me desta maneira medrosa e desonesta e será, como tem sido sempre, sem vergonha que direi que não sei.”Não se veja, porém, nesta duas referências a defesa da linguagem trivial, próxima daquela que se usa no quotidiano dos alunos, para os interessar e apenas isso.Referências bibliográficas:- Chicó, M. A. (1998). Entramos pela sua mão no mundo das ideias. História. Ano XX (nova série), n.º 9, 52-53.- Gama, S. (1993). Diário. Lisboa: Ática.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Sobre a clareza da linguagem: Caraça e Gama
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/sobre-clareza-da-linguagem-caraca-e.html
December 19 2010, 10:51am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A "portugalização" dos conteúdos
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/portugalizacao-dos-conteudos.html
Depois do Professor Marçal Grilo ter denunciado a estranha forma de falar e escrever que algumas pessoas ligadas à educação usavam quando se dirigiam ao comum dos mortais, muitos foram os que reforçaram essa denúncia, contribuindo, penso eu, para que, a pouco e pouco, o tal «eduquês» dê lugar a português corrente.Seria importante que noutras áreas se seguisse o exemplo, para ver se nos livrávamos das “trepadeiras de palavras sem sentido”, no dizer do ex-Minsitro da Educação. Nesse sentido, e parafraseando Nuno Crato, espero que se venham a editar livros com títulos como os seguintes: O politiguês em discurso directo, O sociologuês em discurso directo, O economês em discurso directo...Talvez isso nos permitisse perceber quando estamos perante um verdadeiro Doutor Fox e, assim, tivéssemos mais crítica perante discursos que começam assim:"Para alguém A PT, ao contrário dos seus concorrentes em Portugal, sempre apostou na portugalidade, sempre apostou na "portugalização" dos seus conteúdos. É um termo português errado, mas que eu uso, facilita-me explicar as coisas."E que continuam como o leitor pode ler aqui.
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April 3 2010, 9:49am | Comments »
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