“Conhece alguém as fronteiras da sua alma para que possa dizer – eu sou eu?” (Fernando Pessoa, 1888-1935).“Então e a alma?”- questão levantada por Brigitte, aluna de uma escola primária francesa, ao médico francês Jean Bernard.Esta angustiante pergunta, transcrita numa das páginas de um pequeno mas notável livro do presidente da Academia de Ciências de França, Jean Bernard ("Europa-América, 1988), quando explicava a Brigitte e às suas pequenas colegas o funcionamento do sistema nervoso, serviu de sugestivo título ao seu autor.Perpassa pelas suas 176 páginas, que releio como o mesmo prazer com que o fiz anos atrás, uma extraordinária simplicidade de escrita que só o pensamento linear e bem fundamentado dos cientistas com as ideias bem digeridas na matéria que dominam consegue transmitir.Da sua apaixonante leitura, colhi a informação de um luminar da hematologia mundial (director do Instituto de Investigação sobre as Leucemias e as Doenças do Sangue em que foram feitas as primeiras curas de leucemias agudas) sobre a necessidade de um respaldo abrangente e ecléctico da Filosofia e da própria Religião na abordagem de assuntos de natureza científica.Segundo, I.M. Bochenski (La Philosophie Contemporaine en Europe) “o pensamento do filósofo tem o efeito do dinamite (…) aquilo que os filósofos anunciam hoje será a crença de amanhã”. Visão diferente tem o nosso festejado filósofo Delfim dos Santos (1907-1966): “No pensamento de cada filósofo há algo de vivo e algo de morto e o morto é quase sempre o científico”. Por seu turno, o autor do livro, Jean Bernard, diz-nos que “os filósofos clássicos foram durante muito tempo os únicos a ocupar o terreno: brilhantes, firmes certos da verdade, recusando a crítica, aproximativos, utilizando as palavras essenciais com sentidos diferentes”. E logo acrescenta: “Os filósofos modernos, muito mais abertos, aceitam o diálogo”. Por vezes, em resposta à questão que elaboro sobre o que se entende por pensamento, deparo-me com o silêncio de uns tantos interlocutores ou a facúndia sem nexo de outros tantos. Contemplando e ampliando a tese cefalocentrista, que remonta a tempos de Platão e Hipócrates, segundo a qual “o pensamento tem a sua sede no cérebro do homem”, respondo ser o complexo funcionamento da máquina humana e não só do cérebro, pois, segundo Ernest Kretshemer, “o homem pensa com o corpo todo”.Opinião que deve merecer o descrédito de adeptos do vitalismo (como se o cérebro como qualquer outro órgão do corpo humano não fosse matéria corpórea) que se recusam a ver no homem um animal, a exemplo do literato François- René Chateaubriand (1768-1848), quando escreve com fervor religioso: “Se nos é permitido dizer, é, parece-nos, uma grande pena encontrar o Homem mamífero classificado, depois do sistema de Lineu, com os macacos, os morcegos e os pássaros”. E, logo, para evitar uma possível subordinação a um ateísmo, que não perfilho, digo que a expressão literária de pensamento (tida por Alexandre Herculano de inspiração divina: “Foi depois disto que este nome e esta imagem [de Leonor] me apareceram como um pensamento do céu”), assume, por vezes, o significado de alma, ao invés da significância de processo de raciocínio lógico, através de uma actividade psíquica consciente e organizada.Para consubstanciar o conceito de pensamento, acrescento que o perspectivo em termos de Ciência e não de Teologia, até porque “para aqueles que crêem nenhuma explicação é necessária; para aqueles que não crêem nenhuma explicação é possível”, como nos transmitiu Santo Inácio de Loiola. Já o padre João Resina, sócio efectivo da Academia de Ciências de Lisboa, na sua dupla formação científica (licenciado em Engenharia Química pelo IST em 1953, e professor jubilado de Física dessa mesma escola) e teológica (ordenado padre em 1959 e doutorado em Filosofia pela Universidade Católica de Lovaina), escreve: “A Religião não recebe nada da Ciência, esta é uma compreensão exigente e sóbria do mundo que nada tem a ver com valores que implicam opções ‘ na solidão da liberdade’; a Ciência revela-nos possibilidades insuspeitadas de nós próprios”. Consequentemente, em meu entender, ciência e religião não são susceptíveis de seguirem um caminho interdisciplinar: aquela vive de dogmas; esta de hipóteses.Aliás, no próprio domínio das ciências, em estranho paradoxo, cada vez se fala e defende mais a interdisciplinaridade, mas, na prática do dia-a-dia , ela é entendida como uma espécie de utopia. Para Edgar Morin, esse gigante do pensamento moderno, a interdisciplinaridade não tem o viço das árvores frondosas por ausência de raízes fortes. Escreve ele: “Sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e não comunicam umas com as outras. Os fenómenos são cada vez mais fragmentados e não se consegue conceber a sua unidade .É por isso que cada vez mais se diz façamos interdisciplinaridade, mas ela controla tanto as disciplinas como a ONU as nações. Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer a sua soberania territorial e, às custas de algumas magras trocas, as fronteiras confirmam-se em vez de se desmoronarem”.Contra a torre de marfim do conhecimento pronuncia-se, de igual modo, o filósofo Georges Gusdorf (1912-2000), antigo professor da Universidade de Estrasburgo, quando escreve: “A unidade do saber, nunca dada, propõe-se como uma tarefa a empreender. Como uma tarefa impossível, talvez, e desencorajante de qualquer modo. Mas esta tarefa define a mais alta exigência da cultura. Desde então, a atitude do especialista, quer seja matemático ou botânico, filólogo ou historiador, que se debruce ciumentamente sobre o estrito comportamento da sua própria competência, deve ser considerado como uma demissão. Qualquer dissociação do conhecimento é uma negação do conhecimento. O dever presente é trabalhar para reunificar, para dar corpo aquilo que um século de análise desmembrou. O pressuposto da especialização deve dar lugar ao pressuposto da convergência Ciências e Letras, Ciências da Natureza e Ciências do Homem, que pareciam votadas a caminhos distintos, devem tomar consciência, cada uma por seu lado, que são como paralelas que, sem se afastarem da sua própria direcção, se encontram no infinito”. Por consequência, Ciência, Filosofia e Religião não têm sido contempladas por um estudo interdisciplinar: aquelas vivem de incertezas, esta não admite dúvidas. Apesar de tudo, os cientistas ostentam, com toda a propriedade, o brasão prestigioso das grandes conquistas tecnológicas do nosso tempo. Pois não viaja o homem já hoje para fora do planeta Terra? É a altura de dar a palavra a Charles De Gaulle: “É bem possível que um dia se vá à Lua, mas isso não é ir muito longe; a maior distância a percorrer está dentro de nós!” Há muitos anos que o homem chegou à Lua. Próximo passo será pisar o solo marciano. E os caminhos a percorrer dentro dele próprio? Não estará ainda por cumprir a velha máxima socrática “nosce te ipsum” (conhece-te a ti mesmo)? Os dois e únicos transplantes de caras inteiras desfiguradas, um deles realizado na nossa vizinha Espanha, não nos dão, ainda, esperanças sobre a possibilidade de transplantes cerebrais que mudariam a personalidade das pessoas descrita no livro de Jean Bernard, através de uma história de amor. Escreve ele:“Pierre ama Jeanne. Jeanne, após um acidente, fica sem um braço. Um braço estranho é enxertado em substituição do braço amputado. Pierre continua enamorado de Jeanne. Mas Jeanne, um pouco mais tarde, padece de uma grave doença renal. Tenta-se um transplante renal e é bem sucedido. Pierre continua enamorado de Jeanne. Novo acidente. Queimaduras extensas. São necessários grandes enxertos de pele. Mais tarde, ainda, verificam-se sérias alterações no coração de Jeanne. Encara-se um transplante de coração. Pierre continuará enamorado de Jeanne? Esta pobre Jeanne com um braço estranho, uma pele estranha, um coração estranho, será ela ainda a Jeanne que ele amou? Quantos órgãos, quantos tecidos, Jeanne pode trocar continuando a ser amada? Quantos quilos, quantos metros quadrados, poderá ela substituir continuando, no entanto, a ser a mesma?”Para Jean Bernard “só a engenharia genética pode mudar a pessoa, pela transformação do património genético do indivíduo”. Ora, Jeanne não foi transplantada na sua massa encefálica que, a ser possível, lhe mudaria a personalidade e todo um passado de vivências mais ou menos ricas ou pobres, mais ou menos felizes ou traumatizantes.Julgo poder extrair-se daqui a seguinte lição. Na medida do possível, embeleze-se o rosto desfeado, esbelte-se o corpo disforme, recorra-se a todos os meios da moderna e milagrosa cirurgia de transplantes ou apenas reconstrutiva. Mas continue a amar-se a pessoa naquilo que ela é na actualidade, longe mesmo do que ela foi fisicamente no passado. Com ígnea paixão!Se Jeanne pudesse ter sido transplantada com um novo cérebro seria ela a mesma pessoa, continuando a ser amada apaixonadamente por Pierre?
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Então e a alma?
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May 7 2010, 3:27am | Comments »
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Os cientistas filósofos e os filósofos cientistas
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Informação recebida da Universidade de Évora:Évora's second international symposium on philosophy of scienceles savants philosophes / les philosophes savantsUNIVERSITY OF ÉVORA, 27 APRIL 2010, ROOM 124 – COLÉGIO DO ESPÍRITO SANTOScientific coordination: Hermínio Martins, João Príncipe, Mariana Valente.Program09h30m – Welcome sessionSession I – chairman: Augusto Fitas (Universidade de Évora/ CEHFCi)10h00m – Mariana Valente (Universidade de Évora/ CEHFCi): “Helmholtz et Mach – desinterprètes de science”10h25m – João Príncipe (Universidade de Évora/ CEHFCi): “Analogie chez Poincaré”10h50m – Ricardo Coelho (FCUL/ CEHFCi): “Hertz’s Mechanics as an Image”11h15m – coffee break11h30m – Ending morning Conference:Olivier Darrigol (CNRS): “Le problème de la sous-détermination des théories chez Henri Poincaré”12h15m – Discussion14h00m – Opening afternoon conferenceHerminio Martins (ST. Anthony College, University of Oxford): “Michael Polanyi and the philosophy of science”Session II – chairman: Fátima Nunes (Universidade de Évora/ CEHFCi)15h00m – Maria do Rosário Branco (PhD): “Para uma leitura kantiana das Regulae philosophandi de Newton”15h25m – Leonel Ribeiro dos Santos (Universidade de Lisboa CFUL): “PressupostosEpistémicos e Metafísico – Teológicos da Cosmologia do jovem Kant”16h00m – Luís Morais (PhD): “O objecto real como campo cognitivo em Whitehead”16h25m – coffee Break16h45m – Ending conference:Isabelle Stengers (Universidade Livre de Bruxelas): “Penser avec Whitehead”17h35m – Discussion and final comments by João Príncipe e Mariana Valente.
March 26 2010, 3:32am | Comments »
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Novos livros da Bizâncio
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Informação meditorial recebida da Bizâncio:Título: Enigmas da ExistênciaSubtítulo: Uma Visita Guiada à MetafísicaAutor: Earl Conee e Theodore SiderColecção: Filosoficamente, 6ISBN: 978-972-53-0450-1Preço: Euros 13,33/ 14,00Págs.: 272Filosofia«Uma introdução à metafísica acessível, competente e apaixonante, escrita por dois filósofos de primeira linha.»The TimesO que é o tempo? Serei realmente livre ao agir? O que faz de mim a mesma pessoa que era em criança? Porque há algo em vez de nada? Será que sou realmente livre, ou tudo está determinado desde antes do meu nascimento? Se alguma vez deu consigo a fazer algumas destas perguntas, este livro é para si. Tratando ainda da existência de Deus e da constituição última da realidade, eis um guia para quem gosta de raciocinar cuidadosamente sobre estes e outros temas — incluindo o problema de saber o que é afinal a própria metafísica. Enigmas da Existência torna a metafísica genuinamente acessível e até divertida. O seu estilo vívido e informal dá fulgor aos enigmas e mostra como pode ser estimulante pensar sobre eles. Não se exige qualquer formação filosófica prévia para desfrutar deste livro: qualquer pessoa que queira pensar sobre as questões mais profundas da vida considerará esta obra um livro provocador e aprazível.Reedição com tradução revista:Título: Mundos ParalelosSubtítulo: Uma Viagem pela Criação, Dimensões Superiores e Futuro do CosmosAutor: Michio KakuColecção: Máquina do MundoISBN: 978-972-53-0285-9Págs.: 432Preço: Euros 19,00Divulgação Científica«Em Mundos Paralelos, Michio Kaku revela o seu notável talento para explicar uma das mais estranhas e mais excitantes possibilidades que emergiram da Física moderna: que o nosso universo pode ser apenas um entre muitos, talvez infinitamente muitos, dispostos numa vasta rede cósmica. Recorrendo habilmente à analogia e ao humor, Kaku apresenta, com paciência, ao leitor, as variações sobre este tema de universos paralelos, desde a mecânica quântica, a cosmologia e, mais recentemente, a teoria M. A leitura deste livro proporciona ao leitor uma viagem maravilhosa, conduzida por um guia experiente, através de um cosmos cuja compreensão nos obriga a alargar os limites da imaginação.»Brian Greene, Professor de Física e de Matemática, Universidade de Columbia, Nova Iorque
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March 17 2010, 5:38pm | Comments »
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Heraclito
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A asssociação A Origem da Comédia realiza a terceira sessão do ciclo de Tertúlias Pré-Socráticas dedicada a Heraclito.Será no dia 17 de Março, quarta-feira, às 18:00, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e contará com a presença de Alexandre Sá, da Universidade de Coimbra, e com a leitura, pelo recém-surgido duo Voz Baixa, de um conto de Gonçalo M. Tavares, inspirado pela figura do filósofo de Éfeso.De Heraclito, dito O Obscuro, chegaram-nos pouco mais que uma centena de fragmentos, mas esses bastaram para que conquistasse a admiração de Hegel, Nietzsche ou Heidegger, entre tantos. Nele encontramos, a título de curiosidade, o primeiro registo da palavra filósofo. A sua doutrina do fluxo eterno — não é possível entrar duas vezes no mesmo rio: quem não ouviu já a frase?— e da unidade dos opostos, bem como o seu estilo muito próprio, quase oracular, a tempos, continuam a fascinar quem se confronta com o que dele nos chegou
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March 15 2010, 6:38am | Comments »
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A formação da linguagem artística e a filosofia
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Hoje, dia 10 de Março, às 16 horas, no Auditório 1 - Torre B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, José Gil, professor catedrático do Departamento de Filosofia desse Faculdade dará a sua última aula, intitulada Formação da Linguagem Artística e a Filosofia.Em entrevista, na rádio, ao princípio da manhã, disse que a docência lhe proporcionou múltiplas oportunidades de "pensar com...". São essas oportunidades, essência do ensino e da aprendizagem, que é preciso perguntar se estamos, de facto, a preservar. Sobre o assunto deixamos o extracto de um texto deste filósofo."Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer (...). Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina (...).Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social (...).Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania (...)."Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."O texto integral pode se lido aqui.
March 10 2010, 2:52am | Comments »
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Nova História da Filosofia Ocidental
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Informação recebida da Editora Gradiva.NOVA HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL de Sir Anthony KennyLançamentos em Abril, Junho, Setembro e Novembro (4 volumes) - Traduzida por especialistas da área sob a direcção do professor Aires Almeida.«A primeira razão pela qual esta impressionante obra é um acontecimento editorial é que os leitores têm agora acesso a uma história da filosofia que apresenta os problemas, teorias e argumentos da área com aquela intensidade própria de quem os conhece por dentro, ao invés de os olhar de longe como artificialismos académicos ou escolares, descritos muitas vezes em linguagem pomposa e vazia. A segunda razão é que o conhecimento que temos hoje da história da filosofia é muito mais rigoroso e vasto do que o que tínhamos há trinta ou quarenta anos, e Sir Anthony está a par desses desenvolvimentos – tendo até sido protagonista de alguns deles. Não se trata por isso de mais uma história da filosofia que repete os lugares-comuns infelizmente endémicos nas zonas mais fracas da cultura escolar e académica.Por estas razões, entre outras – incluindo a iconografia inovadora – esta brilhante história da filosofia é leitura obrigatória e entusiasmante para estudantes e professores de filosofia, assim como para qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais esta imensa tradição intelectual com dois mil e quinhentos anos de existência, e que novos desenvolvimentos continua a trazer-nos hoje. A Gradiva e a «Filosofia Aberta» continuam assim a prestar ao país um serviço cultural e educativo mais importante do que quaisquer míticas avaliações de professores.»Desidério Murcho, Universidade Federal de Ouro Preto «Esta é uma obra que pouquíssimos se atreveriam a escrever. Sir Anthony Kenny, um dos mais reputados filósofos actuais, dedicou alguns anos a ler directamente os grandes filósofos e a acompanhar os debates por eles suscitados, daí resultando uma história da filosofia verdadeiramente filosófica, informativa e refrescante, onde não se encontram os lugares-comuns e as ideias feitas do costume.Aliando o melhor rigor académico à clareza de exposição e à capacidade para envolver o leitor nas discussões filosóficas, esta obra revela-nos uma história de cerca de dois mil e quinhentos anos que, ao contrário do que tantas vezes parece, está longe de ser uma mera colecção de ideias de museu.O autor não se limita a apresentar e explicar as ideias e teorias dos filósofos, inserindo-as de forma esclarecedora no seu contexto histórico e cultural. Isto constitui uma das duas partes em que cada um dos quatro volumes está dividido. A segunda parte é dedicada à elucidação, discussão e avaliação dos argumentos que sustentam essas ideias e teorias, adoptando-se aí um tratamento temático e estritamente filosófico. Assim, esta história da filosofia consegue ser útil tanto para quem está interessado numa abordagem mais histórica das ideias filosóficas como para quem está interessado numa discussão filosófica mais aprofundada.Por isso se trata de uma obra única e imprescindível que, muito justamente, se está a tornar uma verdadeira referência na área.»Aires Almeida, Professor de Filosofia
March 8 2010, 1:02pm | Comments »
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PEIERLS E A REALIDADE
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No livro "O Átomo Assombrado. Uma discussão dos mistérios da teoria quântica" de Paul Davies e J. R. Brown, nº 45 da colecção Ciência Aberta (Gradiva, 1991), do qual fiz a revisão científica, é entrevistado, entre outros, o físico Rudolf Peierls, que de certo modo foi responsável pela escola de física teórica e computacional de Coimbra (falo sobre ele no meu livro "Nova Física Divertida"). À pergunta- "Pensa que a consciência dsempenha um papel crucial na natureza da realidade?"ele respondeu de uma maneira muito simples:- "Eu não sei o que é a realidade".
February 15 2010, 1:25pm | Comments »
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ORDEM E CAOS NA MATEMÁTICA
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Do meu livro Curiosidade Apaixonada uma recensao de um livro de Gregory Chaitin "Dieu a choisi celuy qui est... le plus simple en hypotheses et le plus riche en phenomenes" [Deus escolheu o mundo que é o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenómenos] Gottfried Leibniz, Discours de métaphysique, VI, 1686 (edição portuguesa: “Discursos de Metafísica”, Colibri, 1995).Esta asserção do filósofo alemão Leibniz, escrita originalmente em francês, aparece no frontispício da página Web do matemático norte-americano Gregory Chaitin, investigador no Thomas J. Watson Center da IBM, em Nova Iorque. Chaitin é o autor da obra “Conversas com um Matemático”, subintitulada “Matemática, Arte, Ciência e os Limites da Razão”, que saiu em português do prelo da Gradiva. A fim de efectuar o lançamento desse livro, Chaitin esteve uma semana entre nós, numa iniciativa da Gradiva apoiada pela IBM, proferindo um seminário não técnico no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra que sugestivamente se intitulou “É o Universo inteligível?”.Por que é que Chaitin gosta de citar Leibniz? Simplesmente porque considera Leibniz o percursor da “teoria algorítmica da complexidade” de que Chaitin é não só autor como também incansável arauto. Para Leibniz vivemos no melhor dos mundos possíveis (uma ideia satirizada pelo seu rival francês Voltaire, no romance “Candide”) e o “melhor” significa aqui a ligação entre o “mínimo de hipóteses” e a “máxima riqueza de fenómenos”. Para ele, na linha do racionalismo da Grécia Antiga, o mundo era inteligível: podia compreender-se com base num certo conjunto de leis simples – a palavra simples é aqui essencial porque leis demasiado complicadas conduzem, como é óbvio, à ininteligibilidade. Mas, por outro lado, o mundo era dificilmente inteligível, dada a imensa variedade de fenómenos que a Natureza nos oferece. As leis simples estão tão bem escondidas pela complexidade das manifestações naturais que é quase um milagre a descoberta humana das leis da Natureza. Foi Einstein quem comentou que o “mais ininteligível do Universo era o facto de ele ser inteligível”.Leibniz foi não só um filósofo extraordinário como um matemático (autor do cálculo diferencial e integral e da linguagem binária usada hoje pelos computadores), um físico (estudou mecânica e óptica) e um engenheiro (construiu uma das primeiras máquinas de calcular). Foi talvez por temer ser ensombrado pelo gênio de Leibniz que Newton e seus mais fieis amigos polemizaram longa e asperamente com ele. Hoje em dia, Chaitin encontra em Leibniz a premonição das suas ideias sobre complexidade. Segundo o matemático americano, a complexidade é medida pelo tamanho do programa computacional que a produz. Um programa curto pode originar resultados complexos. Mas um programa longo produzirá uma complexidade maior. Escreveu Leibniz, há mais de três séculos, no seu «Tratado de Metafísica» (transcreve-se o original francês não por presunçosa erudição, mas simplesmente porque tem outro “som”): "Mais quand une regle est fort composée, ce qui luy est conforme passe pour irrégulier". [Quando uma regra é muito complicada, o seu resultado parece caótico]. Os físicos do século XIX criaram um conceito novo para descrever o caos. É a entropia: um valor elevado de entropia deve ser associado aos sistemas onde reina o caos, a sistemas de elevada complexidade. E o norte-americano Claude Shannon, a trabalhar para a Bell Telephones nos anos quarenta do século XX, associou entropia com falta de informação.Agora, Chaitin vai mais longe ao dizer que a entropia se pode obter do tamanho de um programa. Se, com Shannon, a teoria da informação se liga à ciência termodinâmica, com Chaitin são as ciências da computação que se vêem ligadas à mesma ciência, abrindo uma fecunda visão interdisciplinar. Mais ainda: como as ciências da computação estão intimamente ligadas a problemas fundamentais de matemática (basta lembrar que os problemas do funcionamento de autómatos investigados pelo inglês Alan Turing têm relação directa com o teorema da incompletude do austríaco Kurt Goedel), Chaitin vai procurar iluminar as bases da matemática com noções termodinâmicas, como a de aleatoriedade, que pareciam completamente estranhas a essa disciplina.Os matemáticos estranharam, antes de entranhar. Numa das interessantes entrevistas incluídas no seu livro mais recente, Chaitin exprime assim a reacção dos seus colegas matemáticos perante as novas propostas:“...Os matemáticos acham que não pode haver qualquer aleatoriedade! Uma afirmação matemática ou é verdadeira ou é falsa, não pode ter 50% de probabilidade de ser verdadeira. Os matemáticos acham que têm de acreditar na verdade absoluta. Os físicos, por outro lado, acreditam na aleatoriedade. A aleatoriedade é um dos temas básicos da física do século XX [a mecânica quântica, rejeitada por Einstein quando disse que Deus não jogava aos dados com o Universo]. Por isso, os físicos deliciam-se com o meu trabalho. (...) Os físicos sentem-se muito mais à vontade com as minha ideias do que os matemáticos, porque peguei numa ideia da física, que é a aleatoriedade, e descobri-a na lógica matemática. Mas as pessoas que trabalham em lógica matemática não gostam disso, não compreendem a aleatoriedade”.Ora aqui está um bom exemplo do modo como a moderna ciência se faz nos intervalos interdisciplinares. Uma ideia do mundo da física foi inseminada com sucesso no mundo da matemática. Alguma matemática passou a ser feita à moda da física. Para ver que a filosofia não pode passar incólume, basta ler Leibniz: “Sans les mathématiques on ne pénètre point au fond de la philosophie. Sans la philosophie on ne pénètre point au fond des mathématiques. Sans les deux on ne pénètre au fond de rien” [“Sem a matemática não podemos penetrar no fundo da filosofia. Sem a filosofia não podemos penetrar no fundo da matemática. E sem as duas não penetramos no fundo de nada”]. Surgem, portanto e imediatamente, consequências filosóficas. De resto, novas ideias epistemológicas surgem sempre que duas ou mais disciplinas se aproximam e se intersectam.Amante do saber, o matemático Chaitin vai ao encontro da filosofia: ele é uma espécie de Leibniz dos tempos modernos!
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December 26 2009, 4:18am | Comments »
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Elogio Histórico da Razão
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Texto de Voltaire de 1775 (na imagem a gravura de Goya sobre a razão):Fez Erasmo, no século XVI, o elogio da Loucura. Vós me ordenais que vos faça o elogio da Razão. Essa Razão, com efeito, só costuma ser festejada duzentos ano após sua inimiga, e às vezes muito mais tarde; e existem nações onde ela ainda não foi vista.Era tão desconhecida entre nós, no tempo do. druida, que nem sequer tinha nome em nossa língua. César não a levou nem à Suíça, nem a Autan, nem a Paris, que não passava então de uma aldeola de pescadores; e ele próprio quase a não conhecia.Possuía tantas e tamanhas qualidades que a Razão não pode encontrar lugar em meio delas. Esse magnânimo insensato saiu de nosso país devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear com vinte e três punhaladas por vinte e três outros ilustres furiosos que estavam longe de emparelhar com ele.O sicambro Clodvich, ou Clóvis, cerca de quinhentos anos depois, veio exterminar parte da nossa nação e subjugar a outra. Não se ouviu falar em razão, nem no seu exército nem nas nossas infelizes aldeias, a não ser na razão do mais forte.Apodrecemos por muito tempo nessa horrível e aviltante barbárie, da qual as Cruzadas não nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais universal, a mais atroz, a mais ridícula e desgraçada das loucuras. A essas longínquas cruzadas, sucedeu a abominável loucura da guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da língua de oc e da língua de oil. A Razão não tinha como achar-se ali. Em Roma reinava então a Política, que tinha como ministras suas duas irmãs, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignorância, o Fanatismo, a Fúria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza lhes seguia o rastro; a Razão ocultava-se num poço, como a Verdade sua filha. Ninguém sabia onde ficava esse poço, e, se o farejassem, ali teriam descido para degolar mãe e filha.Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males da Europa, dois ou três gregos, ao fugir, tombaram nesse poço, ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.A Razão recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distinção de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam dela algumas instruções, em pequeno número: pois a Razão não é prolixa. Obrigou-os a jurar que não revelariam o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, à corte de Carlos V e Francisco I.Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes de mágica para distrair a ociosidade dos cortesãos e das damas, no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olhá-los nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos negócios. Chegaram até a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de França, que lhes lançaram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes. Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns burgueses que ainda tinham, não se sabia como, algum vislumbre de senso comum.Esses flébeis clarões se extinguiram em toda a Europa, entre as guerras civis que a assolaram. Duas ou três faíscas de razão não podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Razão e sua filha ocultaram-se mais do que nunca.Os discípulos de seus primeiros apóstolos suicidaram-se, com excepção de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar a Razão desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida, como a Sócrates; mas ninguém prestou atenção à coisa. Nada mais desagradável do que ser enforcado obscuramente. Por tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assassínios de reis, que não havia nem tempo, nem suficiente liberdade de espírito para pensar nos crimes miúdos e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de um extremo a outro.A Razão, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaixão, embora não passe por ser muito terna. Sua filha que é mais ousada do que ela, animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de curá-lo. Apareceram as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradizê-las, tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados consigo mesmos e com o momento actual e que não se importavam nem com elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para o seu asilo.Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e que haviam espalhado, germinaram na terra; e até sem apodrecer.Enfim, há algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrinação a Roma, disfarçadas e anónimas, por medo da Inquisição. Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli – Clemente XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se até dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profissão.Esse homem, depois de ter servido às duas peregrinas uma refeição quase tão frugal quanto a do papa, levou-as à presença de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aurélio. O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta. "— Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.”Após os cumprimentos, trataram de negócios. Logo no dia seguinte, Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia, tomou a resolução de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard, de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte; e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram então, em Roma, que não havia mais que uma nação e uma lei no mundo.As duas peregrinas, atônitas e satisfeitas, despediram-se do papa, que lhes fez presente, não de agnus e de relíquias, mas de uma boa carruagem para continuarem a viajar. A Razão e a Verdade não tinham até então o hábito de andar a gosto.Visitaram toda a Itália, e surpreenderam-se de encontrar, em vez do maquiavelismo, uma verdadeira emulação entre os príncipes e as repúblicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus súbditos mais honrados, mais ricos e mais felizes.Minha filha – dizia a Razão à Verdade, – creio que o vosso reinado bem poderia começar, após tão longa prisão. Alguns dos profetas que nos foram visitar no poço devem ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face da terra. Bem vês que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas da ignorância e da mentira antes de entrar em teu palácio de luz, de que foste escorraçada comigo durante tantos séculos. Acontecerá connosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta de um véu, e toda desfigurada, durante inumeráveis séculos. Afinal chegou um Galileu, um Copérnico, um Newton, que a mostraram quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.Ah! – exclamou a Razão, – Deus me perdoe, lustrissimo Signor, mas creio que essa é uma das tesouras que levava para o meu poço, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excelência, e que faz com ela?— Lustrissima Signora – respondeu o procurador, – bem pode ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excelência; mas foi um chamado Fra Paolo que no-la trouxe há muito, e dela nos servimos para cortar as garras da Inquisição, que vedes espalhadas sobre esta mesa.Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da república; nós lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta do bico. Se não fora essa precaução, teriam acabado por devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem para os cidadãos.Se passardes pela França, talvez encontreis em Paris vosso outro par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma forma que nós em seu país, e que será um dia abençoado pelo género humano.Depois de terem assistido à Ópera veneziana, partiram as duas viajantes para a Alemanha. Viram com satisfação esse país, que no tempo de Carlos Magno não passava de uma floresta imensa entrecortada de pântanos, coberto agora de cidades florescentes e tranquilas; esse país, povoado de soberanos outrora bárbaros e pobres, e agora todos polidos e magníficos; esse país, cujo sacerdócio, nos tempos antigos, só era constituído por feiticeiras, que então imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas; esse país que fora depois inundado por seu próprio sangue, para saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou não; esse país que enfim acolhia ao seio três religiões inimigas, espantadas de viver pacificamente juntas.“Louvado seja Deus! – disse a Razão. – Essa gente veio afinal a mim, à força de demência.”Conduziram-nas à presença de uma imperatriz muito mais que sensata, pois era generosa. Tão contentes ficaram com ela as peregrinas, que não levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se enamoraram do imperador seu filho.Redobrou-lhes o espanto ao chegarem à Suécia. “Como!” – diziam, – “uma revolução tão difícil e no entanto tão rápida! tão perigosa e no entanto tão pacifica! E, desde esse grande dia, nem um só dia perdido para a prática do bem, e tudo isso na idade que é tão raramente a da razão! Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento enchia de admiração a Europa inteira!”Dali, atravessaram às pressas a Polónia. “Ah! minha mãe, que contraste! – exclamou a Verdade. – Dá-me até vontade de voltar para o poço. Eis no que dá ter esmagado sempre a mais útil porção do gênero humano e tratado aos lavradores – pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse caos de anarquia só podia redundar em ruína: já o haviam predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, sábio e humano; e ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis começam a sê-lo, e as vossas luzes se comunicam gradualmente.“Vamos ver – continuou ela – uma transformação mais favorável e surpreendente. Vamos a essa imensa região hiperbórea, tão bárbara há oitenta anos e hoje tão esclarecida e invencível. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma nova criação...” Lá acorreram, e confessaram que não lhes haviam exagerado.Não cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Concluíram que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civilização e do bom gosto e que se teria de ir ao pólo antárctico para aprender a viver.Chegadas que foram à Inglaterra, disse a Verdade à sua mãe:— Parece-me que a felicidade desta nação não é constituída como a das outras; foi mais louca, mais fanática, mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conheço; e eis que instituiu um governo único, no qual conservou tudo o que a monarquia tem de útil e tudo o que uma república tem de necessário. É superior na guerra, nas leis, nas artes, no comércio. Apenas a vejo embaraçada com a América setentrional, que conquistou num extremo do universo, e com as mais belas províncias da Índia, subjugadas no outro extremo. Como carregará ela esses dois fardos da sua felicidade?— O peso é considerável – disse a Razão, – mas, desde que ela me escute um pouco, há de encontrar alavancas que o tornarão mais leve.Afinal a Razão e a Verdade passaram pela França, onde já haviam feito algumas aparições, tendo sido dali escorraçadas. “Não vos lembrais – dizia a Verdade à sua mãe – do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses nos belos dias de Luís XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesuítas e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. Não mais nos chegam agora os apelos contínuos do povo. Ouço as aclamações de vinte milhões de homens que abençoam os Céus. Este acontecimento, dizem uns, é tanto mais jubiloso porquanto não nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo não é mais que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas supérfluas, os lucros extraordinários, tudo isso vai ser cortado. E têm razão. Todo e qualquer novo imposto será abolido. E nisso não têm razão: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito da felicidade geral. “As leis vão ser uniformes. Nada mais desejável, mas nada tão difícil. Vão ser distribuídos, aos indigentes que trabalham, e sobretudo aos pobres operários, os bens imensos de certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de mão-morta não mais terá, por sua vez, escravos de mão-morta. Não mais se verão esbirros de monges escorraçar da casa paterna órfãos reduzidos à mendicidade, para enriquecerem com os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que são os direitos dos antigos conquistadores. Não mais se verão famílias inteiras pedindo inutilmente esmola à porta do convento que as despoja. Praza aos Céus. Nada é mais digno de um rei. O rei da Sardenha acabou com esse abominável abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado em França.“Não ouvis, minha mãe, todas essas vozes que dizem: Os casamentos de cem mil famílias úteis ao Estado não mais serão considerados concubinagens; e os filhos não mais serão declarados bastardos pela lei? A natureza, a justiça e vós, minha mãe, tudo reclama para esse assunto um sábio regulamento, que seja compatível com o repouso do Estado e com os direitos de todos os homens.“Tornar-se-á a profissão de soldado tão digna que ninguém mais será tentado a desertar. A coisa é possível mas delicada".“As pequenas faltas não serão punidas como grandes crimes, pois que em tudo é preciso proporção. Uma lei bárbara, obscuramente enunciada, mal interpretada não mais fará perecer nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como se tivessem assassinado os próprios pais."Deveria ser este o primeiro axioma da justiça penal.“Não mais serão confiscados os bens de um pai de família, pois os filhos não devem morrer de fome por causa das faltas dos pais, e o rei não tem nenhuma necessidade desse miserável confisco. Maravilhoso! Isso é digno da magnanimidade do soberano.“A tortura, inventada outrora pelos ladrões de estrada para forçar as vítimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em pequeno número de nações, para salvar o culpado robusto e perder o inocente fraco de corpo e de espírito, só será utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para conseguir a revelação dos cúmplices. Mas tais crimes jamais serão cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ouço por toda parte, e escreverei todas essas grandes mudanças nos meus anais, eu que sou a Verdade."“Ouço ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais, estas palavras notáveis: Não citaremos jamais os dois poderes, pois só pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o da nação, em uma república. O poder divino é de natureza tão diferente, tão superior, que não deve ficar comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito não se pode juntar ao finito. Gregório VII foi quem primeiro ousou chamar o infinito em seu auxílio, nas suas guerras, até então inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado. Por muito tempo essas guerras ensangüentaram a Europa; mas, afinal separaram essas entidades veneráveis, que nada têm em comum: e é o único meio de garantir a paz."“Essas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem assaz fortes. Sei que não se reconhecem dois poderes nem na China, nem na Índia, nem na Pérsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou, nem em Londres, etc... Mas fio-me em vós, minha mãe. Nada escreverei que não me seja ditado por vós.”Respondeu-lhe a Razão:— Bem vês, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas, e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflexão. Sempre fiquei muito contente quando, em meio às minhas dores, consegui parte do alívio que desejava.“Não te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra, estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela rainha de Sabá ia em pessoa propor logogrifos a Salomão?”— Sim, minha mãe; bom tempo aquele, mas não durou muito.Pois bem – tornou a mãe, – este é infinitamente melhor; só se pensava então em mostrar um pouco de espírito; e vejo que há dez ou doze anos os europeus se vêm empenhando nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares de séculos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias preferido ao presente para morar na França.— Tenho a reputação – respondeu a filha – de gostar de dizer coisas assaz duras às pessoas entre as quais me encontro; mas confesso que só tenho a louvar o tempo presente, a despeito de tantos autores que só louvam o passado.“Devo atestar à posteridade que foi nesta época que os homens aprenderam a garantir-se de uma doença terrível e mortal, tornando-a menos funesta na transmissão; a restituir à vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a prover ao ponto fixo que em vão se deseja do ocidente ao oriente. Muito mais se fez em moral. Ousou-se pedir justiça às leis contra leis que haviam, condenado a virtude ao suplício; e essa justiça foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da tolerância.”— Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui, se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso poço.
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November 28 2009, 1:35am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
FILOSOFIA E NAZISMO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/filosofia-e-nazismo.html
Um artigo recente na secção de livros do "New York Times", da autoria de Patricia Cohen, recenseia um livro que põe em causa a obra filosófica do alemão Martin Heidegger (na imagem), por ela estar intimamente ligada às suas convicções nazis. Ler aqui.
November 14 2009, 4:08am | Comments »







