O filósofo espanhol Fernando Savater é o autor do recente livro "A Arte do Ensaio, Ensaios sobre a Cultura Universal" (Temas e Debates/ Círculo de Leitores). Para abrir o apetite para o resto do livro deixamos aqui o seu breve ensaio sobre o ensaio de Jacques Monod de 1970 "O Acaso e a Necessidade":"Entre todos os conceitos filosóficos, talvez não exista um par de opostos tão existencialmente relevante como o que dá título este livro. São duas perspectivas contrárias de interpretar a realidade, mas que coincidem em aspectos importantes: ambas se mostram globalmente irrefutáveis (sem deixarem de ser incompatíveis!) e ambas são profundamente desmobilizadoras no tocante à gestão do nosso destino individual (em qualquer dos casos não há nada a fazer, quando se trata de estabelecer um certo controlo autónomo sobre as nossas vidas, ainda que por uma curiosa miopia os partidários do acaso acreditem que este garante melhor a liberdade pessoal do que o seu rival). Quer tudo aconteça de forma gratuita e imprevisível quer, pelo contrário, nada aconteça sem uma causa inamovível e suficiente (e ambas as posições radicais admitem ser defendidas com coerência suspeitosamente absoluta), o papel que a nossa vontade pretensamente livre tem nos acontecimentos fica reduzido quase a zero: o fio de erva arrastado pelos caprichos imprevisíveis do furacão ou pela roda da engrenagem universal que chama vaidosamente "optativo" ao irremediável.Dentro da campânula de vidro da filosofia pura, acaso e necessidade opõem-se desta forma irredutível. Porém, no âmbito - mais pragmático e transaccional - da ciência contemporânea, as coisas podem funcionar de um modo menos categórico. Constitui um dos méritos do grande biólogo Jacques Monod o facto de ter conseguido delinear um panorama racionalmente aceitável, no qual ambas as perspectivas têm os seus pontos de cumplicidade teórica, sem que tal conciliação desminta nem castre a conversa epistemológica em que se inscrevem. O ensaio de tipo científico acaba por ser o mais comprometido de todos, porque se nega a prescindir da argumentação experimental e formalizável que parece menos compatível com a dimensão pessoal que caracteriza o género na sua totalidade, tal como já referimos. Contudo, esta obra de Monod demonstra que este tour de force pode ser brilhantemente conseguido e que, quando sobrevém essa sorte, o que acontece é que os cientistas se tornam ensaístas filosoficamente muito mais sugestivos do que os pensadores apenas "literários".Permitam-me uma nota geracional, que assumo convicto e confesso. A minha simpatia por Jacques Monod provém também da fotografia que o mostra nas barricadas do Quartier Latin, no Maio de 1968 em França, amparando paternalmente uma jovem atingida por gases lacrimogéneos da polícia. Nem eu nem, provavelmente, ele próprio poderemos dizer se agia pelo acaso ou pela necessidade, mas procedeu como uma companheiro bastante digno".
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O ACASO E A NECESSIDADE SEGUNDO SAVATER
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/o-acaso-e-necessidade.html
October 19 2009, 4:17pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O SENTIDO DA VIDA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/o-sentido-da-vida.html
Vale a pena ler o livro "Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da Vida" acabado de sair na DinaLivro, com organização do Desidério Murcho. Transcrevo uma sinopse feita pelo organizador:"Quem não conhece a Filosofia poderá pensar que procurar o sentido da vida é a tarefa central dos filósofos. Isto é historicamente falso; na sua maior parte, os filósofos não abordaram o problema do sentido da vida, e os que o abordaram não fizeram geralmente disso o tema principal das suas investigações. O leitor comum poderá igualmente esperar que os filósofos se pronunciem um pouco como gurus, declarando do alto da sua inacessível montanha qual é o sentido da vida. E a nós, meros mortais, restar-nos-ia então seguir tais oráculos, ainda que nem os compreendamos muito bem. Esta concepção resulta talvez da dificuldade em compreender a natureza da Filosofia. A Filosofia não é religião, nem uma prática iniciática de vida; ao invés, é o lugar crítico da razão, como por vezes se diz. Estudar Filosofia é aprender a ser crítico, que é precisamente o que os gurus não se podem dar ao luxo de permitir aos seus acéfalos discípulos. (…) A Filosofia não é um corpo de conhecimentos que nos baste assimilar acriticamente, mas antes a actividade crítica de estudar ideias e argumentos minuciosamente, para ver se serão plausíveis ou não. Por isso, não se encontra nos melhores filósofos um conjunto de instruções esotéricas para dar sentido às nossas vidas. O que se encontra são estudos cuidadosos de diferentes ideias e argumentos sobre o problema. Isto não significa que não existam conclusões consensuais, entre os filósofos actuais, sobre o sentido da vida. Significa apenas que o trabalho filosófico é fundamentalmente a discussão minuciosa e paciente dessas conclusões e dos argumentos que as sustentam."
October 18 2009, 5:29am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Está tudo ligado
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/esta-tudo-ligado.html
No seguinte extracto do livro Está tudo ligado: o poder da música, o seu autor, Daniel Barenboim, faz jus ao título quando liga a política e a música. E qual é o elemento que nestas actividades permite estabelecer a ligação? O pensamento livre no sentido que Espinosa lhe deu e que só a educação permite concretizar."A democracia é uma ideia que nasceu na Grécia há milhares de anos. Ao longo dos séculos e milénios, a ideia original perdeu-se, como provam as manifestações contemporâneas do processo democrático. Na Grécia antiga, só os Sábios da sociedade podiam votar e determinar o curso da acção do governo em prol do bem público. Hoje em dia temos o direito de voto universal, e muito bem, mas negamos aos votantes a oportunidade de uma educação completa. O mundo político dos nossos dias só é moderno nas suas manifestações exteriores; a tecnologia veio tornar a comunicação muito mais eficiente, o que, infelizmente, resultou numa exploração e manipulação da população que não teve educação. Na nossa sociedade, o eleitor médio não é versado em nenhuma das artes ou ciências – que eram, no pensamento grego, absolutamente essenciais para qualquer compreensão do que é governar – e não é capaz de pensar para além do presente e do futuro imediato para compreender cabalmente as consequências da acção política. O resultado é uma sociedade duplamente pobre, em que os políticos são obrigados a agir tacitamente em vez de estrategicamente para continuar no poder o tempo suficiente para fazer algumas mudanças, e a opinião pública é ignorante no que toca às questões mais essenciais.Um dos aspectos mais importantes do pensamento político é a faculdade de usar a estratégia para alterar o estado de coisas, um pouco à semelhança de um compositor que estrategicamente constrói a sua composição, começando por apresentar o material e só depois o transformando. Também um executante tem de ser capaz de ouvir a última nota de uma peça no seu ouvido interno antes tocar a primeira; para isso tem de criar a sua própria realização física da partitura – termo que prefiro a interpretação, palavra de que se usa e abusa – em moldes estratégicos e não tácitos, agindo em vez de reagir. A abordagem tácita está sempre sujeita à reacção do executante aos elementos harmónicos, rítmicos e melódicos à medida que eles vão surgindo, e não pode resultar na construção de um todo orgânico feito de todos estes elementos. Só um executante que pensa estrategicamente é capaz de comunicar a estrutura de uma peça musical a quem o escuta, e não apenas os diferentes humores que ela contém.Atingir a verdadeira liberdade e espontaneidade como executante é como alcançar o domínio dos nossos pensamentos, segundo os princípios de Espinosa. Tal como é fácil confundir o direito a pensar livremente com liberdade de pensamento, também é possível um executante sentir espontaneidade na sua execução quando a verdade é que está limitado pela tendência para reagir às incidências musicais à medida que elas ocorrem."Referência bibliográfica:- Barenboim, D. (2009). Está tudo ligado: o poder da música. Lisboa: Bizâncio, páginas 61-62.
October 2 2009, 5:15pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Em Busca da Identidade – o Desnorte
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/em-busca-da-identidade-o-desnorte.html
Informação recebida da editora Relógio d'Água:Apresentação do livro Em Busca da Identidade – o desnorte de José GilO ensaio Em Busca da Identidade – o desnorte de José Gil vai ser apresentado no próximo dia 8 de Outubro, quinta-feira, às 18h., no auditório da Biblioteca Nacional em Lisboa.A iniciativa é da Livraria Universitária e surge a propósito da segunda edição do livro.Informação editorial:José Gil prossegue neste livro a sua investigação sobre os processos individuais e colectivos de subjectivação em Portugal. Quais são esses processos neste período marcado pela globalização, a crise económica e a hegemonia política do PS? Que formas assume essa subjectivação quando «a falha de sentido que as promessas por cumprir do 25 de Abril não conseguiram colmatar» foi suprida por antigos hábitos e «mentalidades»?Reinventando conceitos de Ferenczi e Foucault no sentido de uma abordagem original, José Gil mostra como os portugueses tentaram conquistar «formas de subjectivação individuais em desfasamento ou inadequação aos quadros de vida colectiva que se iam edificando progressivamente». O autor de Portugal Hoje: O Medo de Existir considera que «fizemos da identidade o território da sujectividade» e «esforçamo-nos por resistir ao "fora" que aí vem, do exterior ou do interior, que ameaça destruir as nossas velhas subjectividades». Em sua opinião, a única maneira de remover o obstáculo da «identidade» é «deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens».É à luz dessa preocupação que se analisa o discurso dos actuais governantes que consideram que Portugal entrou «num processo irreversível de modernização», um discurso «anti-ideológico e de via única» em que a avaliação «surge como método universal de formação de identidades». José Gil aborda em particular o «chico-espertismo» enquanto fenómeno que atravessa todo o «tipo de subjectividade da nossa sociedade, sendo transversal a todas as classes, grupos, géneros e gerações».Relógio D'Água Editores, Rua Sylvio Rebelo, nº 15, 1000 - 282 LisboaTel. (351) 21 8474450, Fax. (351) 21 8470775 e-mail: relogiodagua@relogiodagua.pt Internet: http://www.relogiodagua.ptBlog: http://www.relogiodaguaeditores.blogspot.com
October 2 2009, 7:53am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
«O homem pensa»
http://dererummundi.blogspot.com/2009/10/o-homem-pensa.html
Do livro de Daniel Barenbiom - Está tudo ligado: o poder da música -, recentemente editado em Portugal, reproduzo um excerto onde, com base em Espinosa, filósofo a que o De Rerum Natura tem dado atenção (ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui), se explica, de modo muito claro, o significado da "liberdade de pensamento", bem como a sua importância no tempo presente, nas mais variadas circunstâncias da nossa vida."Li Espinosa pela primeira vez quando tinha treze anos. É claro que, na escola, estudávamos a Bíblia – que para mim é a obra filosófica suprema. Todavia, a leitura de Espinosa abriu-me uma nova dimensão, e é essa a razão da minha continuada dedicação às suas obras. Um simples princípio de Espinosa, «O homem pensa», tornou-se para mim um quadro de referência existencial; o meu exemplar da sua Ética já está coçado e com os cantos dobrados. Durante anos levei-o comigo nas minhas viagens, e nos quartos de hotel ou nos intervalos dos concertos deixava-me absorver por muitos dos seus princípios. Ler a Ética de Espinosa é o melhor exercício intelectual que se pode fazer, acima de tudo porque Espinosa ensina, de forma mais completa que qualquer outro filósofo, a liberdade radical de pensamento.Esta acepção de liberdade de Espinosa não é uma rejeição da disciplina em favor da arbitrariedade de pensamento, mas sim um processo activo. Quanto mais capazes de determinar os nossos próprios pensamentos – aliás, de causar os nossos próprios pensamentos, criando assim a nossa própria experiência da realidade – mais possível é atingir a autodeterminação, a verdadeira liberdade.Na moderna civilização ocidental é muito fácil a uma pessoa julgar-se livre, com tantas opções de escolha que tem – a escolha de onde viver, o que ler, o que quer ver na televisão ou na Internet – quando na verdade este tipo de realidade pressupõe uma consciência aguda dos nossos apetites. Sem ela somos meros escravos desses apetites e não temos o poder de moldar as nossas próprias ideias e acções.Esta consciência tornou-se para mim uma espécie de auto-análise pré-freudiana; Espinosa ajuda-me a ver-me, e àquilo que me rodeia, com objectividade. É isto que pode tornar a vida suportável, mesmo em situações de sofrimento; os ensinamentos que encontramos na Ética ajudam-nos a ver o mundo como um lugar governávelO próprio Freud escreveu um dia numa carta a Bickel: «Reconheço que devo muito aos ensinamentos de Espinosa.» Em contrapartida, Espinosa admite, prefigurando a análise freudiana, que não podemos controlar completamente as nossas emoções (proposição 7.ª da 4.ª parte), escreve: «Uma emoção não pode ser reprimida nem removida senão por uma outra emoção contrária àquela que se quer reprimir, e mis forte do que ela.» Portanto, não basta compreender intelectualmente que o ciúme, por exemplo tem um efeito negativo sobre o organismo; tem de ser contrariado por uma emoção igualmente forte – talvez a generosidade ou o amor. Todavia, a faculdade de criar um equilíbrio emocional está dependente da consciência intelectual do problema. Desta forma Espinosa exige a integração de todos os aspectos humanos para se chegar à verdadeira felicidade.Também na música o intelecto e a emoção caminham de mãos dadas, tanto para o compositor como para o executante. As percepções racional e emocional não só não estão em conflito uma com a outra como, pelo contrário, cada uma guia a outra com vista a alcançar um equilíbrio e compreensão em que o intelecto determina a validade da reacção intuitiva e o elemento emocional fornece ao racional a dimensão de sentimento que confere humanidade ao todo. Há músicos que se deixam cair na convicção supersticiosa de que uma análise demasiado profunda da peça musical destruirá neles a qualidade intuitiva e a liberdade de execução, confundindo conhecimento com rigidez e esquecendo que a compreensão racional não só é possível mas absolutamente necessária para que a imaginação tenha pulso livre.O grande Votaire acusou um dia Espinosa de «abusar da metafísica». Hoje em dia, porém, o carácter irredutível da metafísica é mais importante do que nunca. Pensar de forma metafísica significa, epistemologicamente, ir para além do físico, do tangível e do literal para compreender a essência de uma coisa e a sua relação com todas as outras coisas, quer se trate de uma pessoa, de um governo, de uma voz numa fuga de Bach ou de um facto da história. De facto, o pensamento libertado tornou-se uma das nossas liberdades mais preciosas, numa época em que os sistemas políticos, os condicionamentos sociais, os códigos morais e o politicamente correcto controlam frequentemente o nosso pensamento.”Rerência bibliográfica completa: - Barenboim, D. (2009). Está tudo ligado: o poder da música. Lisboa: Bizâncio, páginas 51-53.
October 1 2009, 3:16am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O Positivismo e a 1ª República
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/o-positivismo-e-1-republica.html
Texto de António Mota de Aguiar:Foi na década de 40 do século XIX que Auguste Comte concebeu o positivismo, doutrina filosófica caracterizada pela ideia de que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria desembocar numa sociedade de bem-estar geral. Essa doutrina positivista combateu as ideias idealistas e espiritualistas da Natureza, afirmando-se anti-teológica e anti-metafísica.Nada por isso melhor, na década de 60 desse século, que o positivismo comteano para conferir uma dimensão de necessidade e objectividade às reivindicações republicanas. Não existindo uma sociedade científico-industrial em Portugal, o positivismo português foi essencialmente um movimento sociológico, desligado das ciências da Natureza [1].Foi o positivista Teófilo de Braga (1843-1924) (na figura, em 1864, com apenas 21 anos) quem escreveu o primeiro Manifesto do Partido Republicano Português, em 1891, pouco antes da revolta do Porto de 31 de Janeiro [2]. O positivismo republicano apontou para os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, e, adaptado à sociedade portuguesa, situou-se entre o pensamento reaccionário e as correntes revolucionaristas e anarquistas. Ao contrário do projecto comteano, o positivismo foi, entre nós, um projecto da pequena e média burguesia.Identificado que foi o positivismo com o ideário republicano, o primeiro ideólogo do republicanismo tinha sido Henriques Nogueira (1825-1858), activista da década de 40, que escreveu uma “espécie de evangelho republicano português” [3]. Já nas décadas de 60 e seguintes, defensores do positivismo como Manuel Emídio Garcia (1838-1904), Elias Garcia (1830-1891), Basílio Teles (1856-1923), e Sampaio Bruno (1857-1915), além do já referido Teófilo de Braga, alimentaram as primeiras polémicas em defesa da sociologia de Comte. Nessa época assistiu-se em Portugal à implantação progressiva da corrente republicana que se viria a tornar bastante influente na intelectualidade portuguesa.Enquanto em Portugal nos debatíamos com os acontecimentos históricos dos últimos anos da monarquia, sem meios para investir na ciência e importando a tecnologia, lá fora, no virar do século XIX para o XX, a Física debatia-se com dilemas como os que estiveram nas base nas duas principais teorias físicas do século XX: a teoria da relatividade e a teoria quântica. Era o começo da física moderna.Não foi muito feliz entre nós o movimento positivista até ao final da segunda década do século XX. Contudo, a partir de 1920 a comunidade científica portuguesa foi acumulando alguns trunfos, em consequência da reforma no ensino efectuada pelo Governo Provisório da 1ª República. Os primeiros estudos entre nós da Relatividade foram efectuados em 1912 pelo republicano Leonardo Coimbra (1883-1936), que foi ministro de Instrução Pública da República em 1919 e 1923. Este filósofo tem uma postura claramente idealista: a realidade é determinada pelo pensamento (“As teorias físicas são produto da mais profunda elaboração mental”), pelo que para ele a inteligibilidade não seria determinada pela experiência, tal como afirmavam os positivistas.É assim que, no início da década de 20, o trabalho desenvolvido durante a 1ª República começa a dar alguns frutos, apesar de “a produção científica em Portugal no século XX não ter atingido o brilho observado noutros países europeus” [4] , e de “até à década de 30 a relatividade parecer não ter interessado cientificamente os físicos portugueses e, além do desinteresse, manterem sobre ela um profundo cepticismo” [5] .A sociedade científica portuguesa desta época continua, de facto, pouco desenvolvida, mas há indícios na década de 20 de um desabrochar científico e cultural em Portugal, designadamente, por meio da acção das Universidades Livres, fundadas em 1912, e das Universidades Populares, fundadas em 1913, em Lisboa e no Porto [6], onde talentosos e dedicados professores leccionaram Astronomia, Relatividade e outras matérias.Em 1923, o Ministro de Instrução António Sérgio criou a “Junta de Orientação de Estudos” que servirá como precursora da Junta de Educação Nacional (JEN), surgida em 1929. De 1929/30 a 1950 foram concedidas pela JEN 812 bolsas, que beneficiaram 434 bolseiros [7], cuja maioria regressou a Portugal enriquecendo com os seus conhecimentos a ciência e a cultura portuguesa.Dezenas de homens da ciência atravessaram estas décadas de 20, 30 e 40, incrementando com o seu saber a cultura em Portugal [8]. Destacamos alguns: António da Silveira, Pedro José da Cunha, António dos Santos Viegas, Francisco de Castro Freire, Aarão Lacerda, Henrique Teixeira Bastos, Álvaro Basto, Egas Pinto Basto, Souza Nazaré, Pinto Basto, Augusto Ramos da Costa, Victor Hugo Lemos, Mário Mora, António Santos Lucas, José de Almeida Lima, Gago Coutinho, Egas Moniz, António Sérgio, Cyrilo Soares, Manuel Peres, Francisco Gomes Teixeira, Manuel Valadares, Branca Marques, Aurélio Marques da Silva, António Aniceto Monteiro, etc.Foi nesta década que visitaram Portugal dois nomes importantes da Física Teórica: o espanhol José Maria Plans y Freire e o francês Paul Langevin. Na sequência desta última visita foi inaugurada em Abril de 1930 na Biblioteca Nacional uma notável exposição sobre a Relatividade, que contou com a colaboração de sábios estrangeiros.Não procurámos indagar se todos os homens de ciência deste período histórico foram positivistas. A problemática foi abordada e de certo modo resolvida por Correia Barata no jornal "O Século”, quando, em 1876, na luta contra o pensamento reaccionário e em defesa das concepções darwinistas e positivistas, escrevia que a doutrina de Darwin, “que não era ateu”, podia ”…ser aceite, sem o mínimo de escrúpulo de consciência, pelo melhor católico, porque há um abismo profundo entre a discussão da origem última ou causa prima de todas as coisas existentes e qualquer sistema que tenha por fim explicar os fenómenos biológicos, inorgânicos ou físicos” [9].Mas, como tudo na vida evolui, também o positivismo evoluiu para o neo-positivismo fundado pelo Círculo de Viena:“A filosofia das ciências é, no final do século XIX e princípios do século XX, a herdeira histórica do positivismo oitocentista, distinguindo-se desta corrente filosófica pela sua visão crítica da própria ciência e pelo esforço em determinar os limites exactos da validade desta. A filosofia da ciência demarcar-se-á do positivismo metafísico, começando por exercer uma crítica baseada na própria evolução histórica da ciência; dos seus próprios problemas, a ciência passou a interrogar-se sobre o seu método, a natureza deste e os próprios limites do conhecimento científico” [10].Foi nessas décadas do século XX que viveram os principais investigadores científicos neo-positivistas portugueses: o matemático Mira Fernandes escreveu sobre Relatividade em vários artigos em revistas italianas; o matemático Rui Luís Gomes, que escreveu um manual científico sobre Relatividade e criou um seminário em Física Teórica na Universidade do Porto; o astrónomo Manuel dos Reis. que escreveu O Problema da Gravitação Universal, considerado um livro de referência na área; o físico nuclear Mário Silva, autor de vários livros de ciência e do projecto do Instituto do Rádio em Coimbra; o astrónomo Melo e Simas, que efectuou medidas da luz rasando o bordo de Júpiter para verificar se a luz era deflectida pela gravidade do planeta; o médico Abel Salazar, que empreendeu vários trabalhos de investigação científica, sendo considerado o principal divulgador em Portugal do neo-positivismo (deixou escrito em O Diabo, entre 1936 e 1940, 50 artigos sobre o empirismo lógico); e o matemático e pedagogo de renome Bento de Jesus Caraça. Nestes tempos, participaram na divulgação da ciência revistas como o Jornal de Sciencias e Mathematicas e Astronómicas (publicado até 1905), O Diabo, que já referimos, Águia, Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, O Instituto, e outras, com vidas mais ou menos efémeras.Porém, os inimigos da ciência, muito receosos das novas ideias, cedo se incompatibilizaram com a comunidade científica. Fortalecido o Estado Novo com a Constituição de 1933, caiu de imediato sobre o movimento científico português a versão portuguesa do fascismo internacional. Com a repressão de 1930 a 1950 sobre os homens da ciência, os mais notáveis protagonistas da ciência portuguesa foram desaparecendo da cena nacional, tendo muitos deles sido presos. No ano de 1947 deu-se o "golpe de misericórdia". As veleidades de desenvolvimento científico terminaram então. Mais cientistas foram parar à prisão, outros exilaram-se para não serem presos e para fugirem à asfixia e mediocridade do Estado Novo. Em consequência, no princípio da década de 50 o atraso cultural e científico do país era enorme. A censura, a polícia política e os tribunais de excepção, exerciam estrito um controlo da sociedade.Apesar do seu desfecho trágico, a 1ª República deixou bem marcado na mente dos portugueses o espírito de liberdade e progresso que a norteou. Hoje, a quase cem anos de distância, não podemos esquecer que o ar de liberdade que respiramos teve de certo modo a sua origem no dia 5 de Outubro de 1910.REFERÊNCIAS:[1] Fernando Catroga, Os inícios do Positivismo em Portugal, O seu significado político-social, Universidade de Coimbra, 1977, e A importância do positivismo na consolidação da ideologia republicana em Portugal, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1977[2] A.H. de Oliveira Marques, A 1ª República Portuguesa: Alguns aspectos estruturais, Livros Horizonte, pp. 540 e seguintes, 1980[3] A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. II, p. 240 e seguintes. Palas Editores, 1973.[4] Décio Ruivo Martins, Dissertações einsteinianas em Portugal (1911-1930), “Einstein Entre Nós”, Coord. de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p. 60[5] Augusto Fitas, A Teoria da Relatividade em Portugal (1910-1940), “Einstein Entre Nós”, Coord. Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra 2005, p. 15[6] Veja-se Oliveira Marques, História de Portugal, Edições Agora, vol. II, pp. 232-234.[7] Amândio Tavares, O Instituto para a Alta Cultura e a investigação científica em Portugal, Lisboa, 1951 e A. Celestino da Costa, A JEN, Publicações da Sociedade de Estudos Pedagógicos, Série A-2, 1934[8] Einstein entre nós, Coord. de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005[9] Fernando Catroga, Os inícios do Positivismo em Portugal, O seu significado político-social, p. 40, Universidade de Coimbra, 1977[10] Augusto Fitas, José M. Rodrigues, e M. Fátima Nunes, “A filosofia da ciência no Portugal do século XX”, in Pedro Calafate, org., História do Pensamento Filosófico Português Lógica, Conhecimento, Filosofia da Ciência, vol. 5, pp. 429-430, Editorial Caminho, 2000.António Mota de Aguiar
- Tags:
- história da ciência
- Filosofia
September 17 2009, 2:01am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
GIÃO SOBRE CIÊNCIA, FILOSOFIA E RELIGIÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/giao-sobre-ciencia-filosofia-e-religiao.html
António Gião (na foto), o físico de Reguengos de Monsaraz que se correspondeu com Einstein, a 25 de Fevereiro de 1959 proferiu uma conferência na sua terra natal sobre ciência, filosofia e religião, que terminou assim:"Só há, parece-me, dois grandes caminhos susceptíveis de conduzir à verdadeira felicidade. Nesta conferência tentei descrever rapidamente as principais paisagens intelectuais, os principais marcos milenários, que os homens têm encontrado ao longo de um destes caminhos, desde a aurora da Astronomia e da Ciência até às generalizações cosmológicas da Relatividade. Depois de terem encontrado neste caminho o templo de Pitágoras e de para todo o sempre terem ficado deslumbrados pelo ideal que ele simboliza, fizeram-se peregrinos desde ideal que se confunde com a essência do saber, e continuam caminhando porque consideram que ainda não chegaram ao fim da jornada e não sabem mesmo se a viagem terá um fim. Contudo, depois de várias aproximações ou ascensões sucessivas, atingiram uma altitude donde podem contemplar o vasto horizonte dos Cosmos e vislumbrar lá ao longe, por meio dos telescópios da lógica, as propriedades e as operações da Causa do Universo, a sua razão de ser, a sua significação e o seu destino. Caminhando sempre para miradouros ainda mais elevados, talvez um dia eles venham a encontrar-se com aqueles outros peregrinos que desde o início têm percorrido o outro caminho, porventura ainda mais difícil. estes fazem a viagem com os olhos fechados e principalmente durante a "noite obscura" de que fala S. João da Cruz, porque o que eles procuram só pode ser encontrado na "treva mais do que luminosa do Silêncio".Qualquer que seja porém o caminho que seguir, o Homem só encontrará a verdadeira felicidade como um limite, talvez inacessível, de Conhecimento e de Amor".Transcrito de um livrinho da Sociedade Portuguesa de Autores de 1981: "Professor António Gião. Evocação da sua vida e obra seguida de uma antologia".
September 16 2009, 3:07pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Filosofia em Portugal: um breve panorama
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/filosofia-em-portugal-um-breve-panorama.html
Amanhã e por ocasião do Seminário do Instituto Internacional de Filosofia, com sede em Paris (em cima, cartaz da reunião), estará patente na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra uma exposição bibliográfica com o título de cima, que inclui as seguintes obras (aqui por ordem cronológica de nascimento do autor):ARISTÓTELES, 384-322 a.C.Libri de celo et mundo Aristotelis cum expositione Sancti Thome de Aquino et cum additione Petri de Alvernia. Venetiis : ma[n]dato y sumptibus Octaviani Scoti per Bonetum Locatellum Bergomensez, 1495, R-47-2[Opera : metaphysica : organon : ethica ad Nichomachum : politica : oeconomica : physiognomia]. Venetijs : per Bernardinum de Tridino de Monteferato, 1489, R-56-7AGOSTINHO, Santo, 354-430.[De civitate Dei]. Mainz : Peter Schoeffer, 1473, R-56-8ORÓSIO, Paulo, ca. 385-424?Pauli Orosii viri doctissimi historiarum initium ad Aurelium Augustinum ... Venetiis : opera et expensis Bernardini Veneti de Vitalibus, 12 mensis Octobris, 1500. V.T.-20-9-7ANTÓNIO, Santo, 1195-1231.Quadragesimales sermones ... cum duplici tabella : opa Iod. Badij repositi. Parisijs : apud Badium, 1521, R-34-15PEDRO HISPANO, c. 1205-1277Versoris expositio in summulas logice ... libellus parvorum logicalium ... Venetiis : Simon Bivilaqua, 1503, R-52-5PAIS, Álvaro, 1275-1349Alvari Pelagii De pla[n]ctu ecclie desideratissimi libri duo ... Lugduni : Johannes Clein, 1517, S.P.-K-13-10LEÃO HEBREU, 1490-1535Leonis Hebraei De amore dialogi três ... Venetiis : apud Franciscum Senensem, 1564, R-1-31BARROS, João de, 1496-1570Ropicapnefma. Lixbo[n]a : per Germa[n] Galharde imprenssor, 1532, V.T.-18-7-33GOUVEIA, António de, 1505-1566Antonii Goveanii … Opera, quae ciuilis disciplinae claustra continent & referant ... Omnia hac postrema editione... Lvgdvni : sumptibus Irenaei Barlet, 1622, R-16-3OSÓRIO, Jerónimo, 1506-1580Hieronymi Osorii Lusitani De nobilitate civili libri II. Eiusdem De nobilitate christiana libri III ... Florentiae : apud Laurentium Torrentinum, 1562, 1-2-2-124(1)Hieronymi Osorii Lusitani ... De iustitia caelesti libri decem. Coloniae Agrippinae : Apud haeredes Arnoldi Birckmanni, 1574, R-39-21PINTO, Heitor, 1528?-1584?Imagem da vida christam ordenada per dialogos como membros de sua composiçam ... Em Coimbra : per Ioão de Barreira, 1563, R-20-30HOMEM, Pedro Barbosa, fl. 1626Discursos de la ivridica y verdadera razon de estado, formados sobre la vida, y accionés del Rey don Iuan el II, de buena memoria, Rey de Portugal, llamado vulgarmente el Principe Perfecto, contra Machavelo, y Bodino, y los demas politicos de nuestros tiempos, sus sequazes ... En Coimbra : En la imprenta Nicolao Carvallo, [1626], R-34-14FONSECA, Pedro da, 1528-1599Institutionum dialecticarum : Libri octo. Olyssippone : apud Ioannis Blauii, 1564, RB-34-8Isagoge philosophica. Olyssipone : apud Antoniu[m] Aluarez, 1591, R-9-27CONIMBRICENSESCommentarij Collegij Conimbricensis Societatis Iesu in duos libros De Generatione & corruptione Aristotelis Stagiritae. Conimbricae : ex officina Antonij à Mariz, 1597, R-12-4Commentarii Collegii Conimbricensis Societatis Iesu in tres libros de Anima, Aristotelis Stagiritae. Conimbricae : typis et expensis Antonij à Mariz, 1598, R-12-5Commentarij Collegij Conimbricensis Societatis Iesu in octo libros Physicorum Aristotelis Stagiritae. Conimbricae : Typis et expensis Antonij à Mariz, 1592, R-12-6CARNEIRO, AndréTractat[us] [vnic]us De addictamentis ad Log[ic]am Conimbric[ensis] [Manuscrito]. Anno D[omi]ni 1684, Ms. 2232SÃO JOSÉ, Pedro dePhilosophica veritas per praecipuas Philosophiae partes, r[aci]o[n]alem scil[ice]t, na[tura]lem atque morale[m] conquisita, et Scotica luce adinventa [Manuscrito]. Anno Domini 1734 in Conimbrice[n]si Coll[egi]o D. P[et]ri.Ms. 2250LOPES, DomingosDisputationes in Log[ic]a Conimb[ricensis] [Manuscrito]. Anno D[omi]ni 1626, Ms. 2377SANCHES, Francisco, ca. 1551-1623Opera Philosophica. Nova ed., precedida de introd. Coimbra : Rev. da Universidade de Coimbra, 1955, 9-(4)-2-4-50SÃO TOMÁS, João de, 1589-1644Artis logicae, prima pars de dialecticis institutionibus, quas summulas vocant. Compluti : apud Viduam Ioannis de Villodas, 1631, R-28-25SOARES, Francisco, 1605-1659R. P. D. Francisci Soares ... Cursus philosophicus : in quatuor tomos distributus ... Editio altera. Eborae : Ex typographia Academiae, 1668, J.F.-37-3 A-10MASCARENHAS, Inácio de, 1607-1669, S.J.Compendium Logicae C[onimbri]c[ensis] [Manuscrito]. Anno 1636, Ms. 1143CARDOSO, André, 1630-1696Anteloq[ui]vm ad Ph[ilosoph]os Bracharenses [seguido de ] [Com]pendivm Log[ic]ae C[onimbri]c[ensis] [Manuscrito]. Anno D[omi]ni 1563 [i.e 1663], Ms. 2226LOCKE, John, 1632-1704Ensaio sobre o entendimento humano [Manuscrito]. 1790. Tradução abreviada. Imprimatur recusado pela Real Mesa Censória a 22 de Outubro de 1790, Ms. 2796CORDEIRO, António, 1641-1722Cursus philosophicus conimbricensis... in tres partes distributus ... Ulyssipone : ex officina Regia Deslandesiana, 1714, S.P.-H-6-7Cursus Conimbricensis [Manuscrito]. [17--?] Ms. 2372BARRETO, Gregório.Nova lógica Conimbricensis ... Ulyssipone : Ex Typographia Antonii Pedrozo Galram, 1711, O.S. 35ALEXANDRINO, Clemente, fl. 1745, O.C.Incre[at]ae s[im]ul et Incarnatae sapi[enti]ae cre[at]o pri[n]c[ip]io Virgini, sc[ilicet], Dei parenti Mariae ad caelos assumptae V[ni]v[e]rsam Philosophiam tripar[ti]tam [Manuscrito]. Anno Domini 1745, 1745-1746. 2 vol., Ms. 1555/ Ms. 1556FORTES, Manuel de Azevedo, 1660-1749Logica racional, geometrica, e analitica ... Lisboa : Na offic. de Jozé Antonio Plates, 1744, J.F.-42-6-11ARANHA, Silvestre, 1689-1768P. M. Silvestri Aranha … Disputationes logicae : In tres partes distributae, ... Conimbricae : Ex Typ. in Regali Artium Collegio Societatis Jesu, 1736, J.F.-38-4-5ALMEIDA, Teodoro de, 1722-1804Harmonia da razaõ, e da religiaõ, ou Repostas [sic] filosoficas aos argumentos dos incredulos que reputaõ a religiaõ contraria á boa razaõ. Lisboa : Na Officina Patriarcal, 1793, V.T.-11-8-29Recreaçaõ filosofica ou Dialogo sobre a Filosofia Natural para instrucção de pessoas curiosas, que não frequentaraõ as aulas. Segunda impressaõ... Lisboa : na officina de Miguel Rodrigues, 1753, S.P.-G-1-25VERNEY, Luís António, 1713-1792Aloysii Antonii Verneii ... De Re Logica ad usum lusitanorum adolescentium libri sex. Editio tertia. Olisipone : ex typographia Michaelis Rodericii, 1762, S.P.-H-3-7Aloysii Antonii Verneii ... De re metaphysica ad usum lusitanorum adolescentium libri quatuor. Romae : ex typographia Generosi Salomoni, 1753, 2-18-15-12Verdadeiro metodo de estudar, para ser util à República, e à Igreja : proporcionado ao estilo, e necesidade de Portugal... Valensa : na oficina de Antonio Balle, 1746, R-73-29ÁLVARES, Manuel, 1739-1777Instrucçaõ sobre a logica ou Dialogos sobre a filosofia racional. Porto : Na officina de Francisco Mendes Lima, 1760, 1-(b)-2-6FARINHA, Bento José de Sousa, 1740-1820Filozofia de principes apanhada das obras de nossos portuguezes. Lisboa : na officina de Antonio Gomes, 1786, 1-(c)-4-27FERREIRA, Silvestre Pinheiro, 1769-1846Prelecções philosophicas sobre a theórica do discurso e da linguagem, a esthética, a diceósyna, e a cosmologia : categorias de Aristoteles traduzidas do grego e ordenadas conforme a hum novo plano... Rio de Janeiro : Impressão Regia, 1813-1814, RB-37-27SEIXAS, J. M. da Cunha, 1836-1895Principios geraes de philosophia. [2ª ed.]. Lisboa : Impr. Lucas, 1898, 5-6-31-38DEUSDADO, Manuel António Ferreira, 1858-1918A filosofia tomista em Portugal. Porto : Lello & Irmão, 1978, 6-40-18-20HISTÓRIA do pensamento filosófico português / dir. Pedro Calafate. [Lisboa] : Círculo de Leitores, D.L. 2002-2004, 8-(2)-22-32-3
September 10 2009, 1:03pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Ideias e tribalismos
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/ideias-e-tribalismos.html
Do texto de Fernando Savater, de que aqui transcrevi uma parte deixo outra que a complementa, e na qual o filósofo distingue ideias de tribalismos."Ter algo assim assemelhado a um orgulho comum de partilhar uma imagem de civilização política baseada na lei, baseada nos direitos, baseada na protecção das minorias, no pluralismo, na institucionalização da tolerância, etc. Quer dizer, criar essa imagem de cidadão, de um cidadão que não prolongue meramente a tribo na cidadania, mas que acredita que a cidadania é a sua verdadeira identidade, que se identifique com a cidadania e não com as suas características tribais. Essa parece-me que seria a grande contribuição europeia.(…)Que futuro terá um país que se organize de acordo com critérios que não sejam critérios políticos? (…) Que não tenha a ver com ideias, que só tenha a ver com rótulo étnicos. O século XX esteve dominado pelo peso, por vezes sufocante, das ideias políticas. A história da Europa, a trágica história da Europa do século XX, é a tragédia do enfrentamento das ideias políticas destrutivas, devoradoras, totalitárias, que se confrontaram entre si, criando desastres sociais, campos de concentração, matanças massivas, e tudo o que vocês sabem. Mas, de alguma forma, lançaram-se no debate ideias sobre a forma de conviver no futuro. As ideias políticas, por muito atrozes que tivessem sido, são ideias que (…) têm argumentos a seu favor, ainda que nos possam parecer pouco convincente ou, mesmo, negativos. Mas, em contrapartida, face aos rótulos e às etnias não há argumentação possível. Ou se pertence ao grupo ou se está definitivamente excluído.As ideias podem ser efectivamente destrutivas, podem ser terríveis, podem levar ao fanatismo, mas, em contrapartida, as etnias são forçosamente fanáticas porque não permitem a adesão de outras pessoas ao grupo (…) As ideias, más ou boas,não têm estrangeiros, têm partidários ou adversários. Mas, em princípio, ninguém é estrangeiro de uma ideia.(…)Aqui é bom que falemos de Voltaire. Voltaire quando defendeu a tolerância, criticou essa posição do fanático que diz: «pensa como eu, ou morres». Claro que isso é um fanatismo intolerável e que obriga uma pessoa a decidir entre dizer o que pensa, ou fingir que pensa, ou ser perseguido e morrer. Isso é terrível, mas mais terrível é quando alguém diz «se não fores como eu, morres» ou «se não fores como eu, deves ir-te embora, deves sair daqui», porque isso não deixa possibilidade de conversação, nem de pacto, nem de partilha de nenhum tipo. Essa invenção do estrangeiro converteu a Europa num dos… para mim, é um dos grandes problemas da convivência.Impressionou-me, particularmente, a visita de dois jornalistas, um homem e uma mulher de Sarajevo. Quando começou o conflito em Sarajevo, visitaram o jornal El País, onde eu habitualmente colaboro, e falaram comigo. Então, um deles disse: «juro-te que até há seis meses na sabia se o meu vizinho que vivia na casa acima era croata, sérvio, muçulmano, eu não o conhecia». O mesmo acontece na minha casa de Madrid! Eu não sei se o vizinho que vive abaixo nasceu em Valência ou veio do Perú (…). Não o conheço e nem, sequer, me interessa, salvo se estabelecer algum tipo de amizade ou de relação pessoal com ele.Então, dizia-me esse jornalista: «(...) Mas, de repente, tive de tomar consciência do seu lugar de pertença porque a minha vida dependia disso. Havia-se criado uma situação em que a minha segurança dependia de não me enganar a respeito de quem se cruzava comigo na escada, se era amigo ou inimigo, não por qualquer razão especial mas pelo rótulo étnico» (…)Pessoas que nasceram no mesmo lugar, que conviveram e que, de alguma forma, partilharam os mesmos odores, os mesmos sabores, a mesma paisagem na infância, que nasceram e cresceram juntos e, de repente, cria-se a obrigação duma separação entre eles (…)Durante muitos anos, nós, em Espanha, tivemos de suportar a descrição do que era um verdadeiro espanhol. O verdadeiro espanhol não era qualquer pessoa que fosse espanhola, teria de reunir umas quantas condições estabelecidas por quem podia emitir certificados de «espanholidade» correcta. Então, o verdadeiro espanhol era católico, o verdadeiro espanhol era antocomunista, o verdadeiro espanhol falava castelhano e nenhuma outra língua inferior, o verdadeiro espanhol, pois, era do Real Madrid, enfim… Teria uma série de condições que não posso pormenorizar, mas todos sabíamos que havia uma descrição do que era o verdadeiro espanhol, e isso não era qualquer um.E, quando nos libertámos disso, quando vimos que se podia ser espanhol de formas muitas diferentes, que se podia ser espanhol falando outra língua que não apenas o castelhano, que se podia ter uma ideologia que não apenas a do governo, que não era obrigatório ser crente do catolicismo para se ser considerado espanhol, e tudo isso, quando parecia que já tínhamos sacudido essa obrigação de um espanhol étnico e o havíamos substituído por um espanhol cidadão, quer dizer, um espanhol sobretudo virado para o futuro (…), de repente, numa parte de Espanha, no caso o País Basco, ressurgiu o «verdadeiro Basco e o falso Basco». De tal modo que Júlio Caro Baroja, o antropólogo sobrinho-neto de Don Pio Baralo, o romancista que foi meu colega durante um tempo na universidade no País Basco, dizia-me: «Veja lá Savater, que desgraça a minha… passei quarenta anos sendo um mau espanhol e agora converti-me num mau basco».Bom, essa é uma das maldições que nos pode atingir. É uma maldição trágica. Não é somente algo retórico, mas algo que pode ter e está, efectivamente, tendo (…) um peso de morte. Há um livro muito interessante, bem, um ensaio do sociólogo alemão (…) Ulrich Beck (…), que se chama De vizinhos a judeus, que narra como um vizinho, quer dizer, a pessoa com a qual convivemos (…) de um momento para o outro, por uma questão ideológica, de etnia, de categorização étnica, se converte num judeu. Melhor, converte-se no inimigo, na pessoa a excluir (…). E isto é tanto mais terrível, se pensarmos que não se trata de um estrangeiro o qual se quer afastado, manter fora. Trata-se de uma pessoa que estava junto de nós e que transformamos num estrangeiro.Assim, o terrível da guerra étnica não é simplesmente que se apliquem critérios de exclusão face ao estrangeiro que está fora, o que já é suficiente mau numa Europa que quer unir-se, o terrível é criarem-se novos mecanismos de exclusão e de estrangeiramento no seio da própria convivência."Referência bibliográfica:- Savater, F. (2005). Identidade e Cidadania. Iberografias. Ano 1, n.º 1, páginas 27-31.Imagem:- Fotografia de V. Fraga (1912-2006).
- Tags:
- Filosofia
- Cultura
- Epistemologia
September 6 2009, 9:57am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Cosmogonias: Mito, Filosofia, Ciência
http://dererummundi.blogspot.com/2009/09/cosmogonias-mito-filosofia-ciencia.html
Informação recebida da Associação de Professores de Filosofia (clicar para ver melhor cartaz e programa):A Associação de Professores de Filosofia vai promover no próximo dia 3 Outubro os Segundos Encontros de Filosofia Antiga, que serão, de novo, amistosamente acolhidos pela Liga dos amigos de Conimbriga e decorrerão no Auditório do Museu Monográfico. Estes encontros estão inseridos no âmbito da celebração de 2009 como Ano Internacional da Astronomia, à qual a Associação de Professores de Filosofia aceitou associar-se. Neste sentido, propusemos à reflexão dos nossos convidados o tema “Cosmogonias: Mito, Filosofia, Ciência”, que pretende fazer uma abordagem diacrónica e crítica das primeiras cosmologias e reflectir sobre a persistência/ausência das suas representações na cosmologia contemporânea.
September 4 2009, 7:58pm | Comments »









